21 de janeiro de 2012

MISTÉRIO QUARTO FECHADO

REALIDADE VIVIDA

19 de Novembro de 1799, numa manhã como as outras, Emma Chavesse — na intimidade Mannette — desceu para a cozinha, preparou o pequeno almoço e dirigiu-se para o quarto da patroa, Louise Dauvinier. Bateu à porta do quarto e sem esperar resposta como de costume prepara-se para entrar. A porta não se abriu. Insistiu virando a maçaneta e encontrou a mesma resistência. Estaria trancada? Sentiu a maçaneta húmida e pegajosa. Maquinalmente limpou a mão são avental e aproximou o candeeiro de luz pálida. Viu que estava suja de sangue, também no avental, onde se limpara se notavam vestígios de sangue. Apavorada, deixou a bandeja e correu para a entrada gritando que haviam assassinado a patroa.
Um homem sexagenário, antigo polícia, agora jardineiro, pegou num pequeno machado e seguiu a criada tentando abrir a porta sem sucesso. Viu as manchas de sangue, acenou com a cabeça com entendimento e passou diante uma chorosa Mannette, dirigiu-se para o jardim tentando abrir as janelas hermeticamente fechadas. Voltou para dentro e tentou entrar pela porta do toucador ligado ao quarto, mas foi avisado pela criada que a patroa tinha a porta sempre bloqueada pela mesa de um pesado penteador. Estranho, pensou o homem, um crime em quarto fechado.
Era necessário forçar a porta. Dois vizinhos que entretanto acudiram, com a ajuda de uma viga que foram buscar fora, arrombaram a porta, não sem dano. No escuro tactearam até abrir a janela. Deparou-se-lhes um quadro horrendo: a Senhora Dauvinier estava pendurada com um lenço em volta do pescoço, estrangulada. Cortado o laço e deitada sobre a cama, viam-se longos fios de sangue por toda a parte e duas feridas terríveis de faca ou punhal. Marcas de sangue bordejavam o leito, como se Dauvinier tivesse ficado sentada. Os golpes de punhal tinham sido dados com violência, excluído a possibilidade de a própria se apunhalar, dada a localização. Demais não se encontrou a arma. A vítima tinha saúde robusta, mostrava-se alegre e nada propícia ao suicídio. Crime! Porém como poderia ter fugido o criminoso de um quarto completamente fechado?
As averiguações levadas a cabo descobriram que a vítima era uma antiga prostitua de luxo, pela qual uma condessa se apaixonara. Todavia, a prostituta abandonara bruscamente, retirando-se para alguns quilómetros de Paris, fazendo uma vida recatada. Vivia com Mannette, há muito tempo aposentada, que lhe servia de empregada e parecia ser-lhe devotada. Esta dormia no primeiro andar de um quarto que dava para os campos, não se apercebera da ocorrência, para mais era um pouco surda. Os vizinhos também nada viram nem ouviram.
Os investigadores não encontraram motivos para o crime. Havia dinheiro sobre o toucador, algumas jóias e, estranhamente, um punhal de cabo artisticamente trabalhado, com um motivo audacioso que a criada afirmou nunca ter visto. Aliás verificou-se que era a arma do crime e através dela chegou-se ao criminoso. De dado em dado levou a um jovem soldado da 17ª Brigada do Exército do Reno, Felicien Jeannet, por quem a vítima se apaixonara e era a razão do seu afastamento, não só da condessa como da vida de prostituta. Jeannet acabou por confessar: por ciúme apunhalara a amante e fugira. Restava saber como tinham sido trancadas as portas e janelas… A pobre mulher tinha pelo amante mais amor do que supunha. Apunhalada, sentindo a morte aproximar-se, não quisera mais do que salvar aquele que a havia matado. Com auxílio de Mannette consegui ir até à porta do quarto, despedir-se da criada e trancar a porta. Limpou a arma e enforcou-se como lenço.
Esperava que diante da impossibilidade do crime, se concluísse tratar-se de um suicídio. Em vão, não há crimes impossíveis!

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