Mostrar mensagens com a etiqueta Ensaio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ensaio. Mostrar todas as mensagens

4 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 339

Efemérides 4 de Dezembro
Cornell Woolrich (1903 - 1968)
Cornell George Hopley-Woolrich nasce em Nova Iorque, EUA. Contista e romancista, inicia a sua carreira nos pulp magazine Black Mark, Detective Fiction e Dime Detective. Hoje é considerado um dos melhores autores americanos do policial negro, a par de Chandler e de James M. Cain. Escreve também sob os pseudónimos William Irish e George Hopley. Autor de uma obra incomparável, os seus livros mais populares são The Bride Wore Black (1940), Night Has A Thousand Eyes (1945) e I Married a Dead Man (1948) publicados respectivamente como Cornell Woolrich, George Hopley e William Irish. É ainda conhecido pela autoria do conto It Had to Be Murder (1942), base do filme Janela Indiscreta de Hitchcock. Em Portugal os contos do escritor estão dispersos, publicados em vários magazines e colectâneas. É possível encontrar o registo da edição de vários livros do autor. As editoras nem sempre respeitaram o pseudónimo utilizado pelo escritor, assim optamos listar de acordo com o nome de capa da edição portuguesa, com indicação do pseudónimo original caso não coincidam.


Cornell Woolrich
1 – A Noiva Vestia De Negro (1940), Colecção As Maiores Obras de Mistério e Acção, Editorial Século. Título Original: The Bride Wore Black (1940). Reeditado em 1988 pela Editorial Caminho, com o Nº66 da Colecção Caminho de Bolso Policial com o título A Noiva Vestia De Preto.
2 – Vingança Diabólica (1952), Nº15 Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: Rendez Vous In Black (1940).
3 – A Cortina Negra (1969), Nº125 Colecção Rififi, Editora Íbis. Título Original: The Black Curtain (1941).

William Irish
1 – A Mulher Fantasma (1950), Nº38 Colecção Vampiro, Editora Livros do Brasil. Título Original: The Phantom Lady (1942).
2 – A Serenata Do Estrangulador (1954), Editora Minerva. Título Original: Strangler's Serenade (1951).
3 – O Anjo Negro (1955), Nº117 Colecção Os Melhores Romances Policiais, Clássica Editora A.M. Teixeira. Título Original: The Black Angel (1943). Publicado pelo autor sob o nome Cornell Woolrich.
4 – Valsa Sombria (1957), Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: Waltz Into Darkness (1947).
5 – Ronda Nas Trevas (1957), Nº67 Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: The Black Path Of Fear (1947). Publicado pelo autor sob o nome Cornell Woolrich.
6 – A Intrusa (1958), Nº84 Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: I Married A Dead Man (1948).
7 – Noite De Angústia (1960), Nº96 Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: The Room With Something Wrong (1938).
8 – O Autocarro Sai Às Seis (1961), Nº105 Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: Deadline At Dawn (1944). Reeditado em 1974 pela Editora Acrópole, Nº43 Colecção Série Confidencial com o título O Fim Do Prazo.
9 – A Cortina Negra (1961), Nº122 Colecção Xis, Editora Minerva. Título Original: Black Curtain (1941). Publicado pelo autor sob o nome Cornell Woolrich.




TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — WOOLRICH / IRISH E O SUSPENSE
Não sendo o suspense um género — ainda que alguns assim o entendam como tal — mas tão só, uma atmosfera aplicada à narrativa de qualquer género, é sem sombra de dúvida, um motivo de interesse apreciável da valorização da mesma narrativa. O termo não é invulgar ver-se nas capas dos livros como chamariz, incluindo aqueles que se vêem alcunhados de bestsellers.
O verbete do dicionário atesta que o correspondente de suspense é “incerteza, ansiedade, dúvida, indecisão. Mas as enciclopédias vão mais longe:
“Estado mental de incerteza com expectativa ou desejo de decisão, e alguma apreensão ou ansiedade, condição de esperar ou ser mantido em espera por uma decisão, certeza ou acontecimento; menos comumente, estado de incerteza quanto ao que fazer, indecisão; dúvida, incerteza, hesitação”.
Evidentemente que há várias modalidades de supense, sem se falar no seu maior ou menor grau de intensidade e de vibração: o suspense dramático, o trágico, o terrorífico, o fantástico, o policial, convindo lembrar o simples enigma (como descoberta de um assassino, por exemplo), pode por vezes despertar a curiosidade pelo desfecho, sem suspense nenhum, ou seja, sem esse clima tenso de ansiedade e apreensão, que parece ser a sua característica definidora por excelência.
Pormenor de grande importância na literatura de suspense é o desfecho, que tanto mais eficaz será, quanto maior força concentrar no seu impacto emocional, impressionante e demolidor. Mas há também o que poderíamos chamar o suspense equívoco, quando o desfecho apresenta uma solução intencionalmente irónica, ou de certa forma desconcertante, fazendo baixar subitamente a atmosfera de alta tensão em que se conduzia a narrativa.
Não só o Cornell Woolrich, que também usou além do nome próprio os pseudónimos de William Irish e George Hopley, dominou o estilo e a técnica referenciada, outros o fizeram e fazem, mas o autor superou-se, do que é sobejo testemunho The Bride Ware Black (1940), que lhe abriu o caminho do êxito, mas quase a totalidade da sua obra, incluindo os contos, o confirmam.
Há estudiosos da matéria — e não sem certa base — que sintonizou a sua escrita com os próprios “estados de espírito” do autor. Filho de pais separados, diabético, alcoólico inveterado, profundamente afectado pela morte da mãe, que amava compaixão, reflectia na sua obra o drama o drama de uma existência permanentemente amargurada.
Seja como for, a verdade é que foi um novelista e contista brilhante, imaginativo ao extremo, frequentemente genial. A sua obra delineada com sucessivos planos de angústia e tensão, culmina no registo de atmosferas quase irrespiráveis, tragicamente vividas.
As vítimas, seres deprimidos e solitários, ameaçados por criminosos cruéis e empedernidos, sentem o horror da morte. O drama adensa-se enquanto o tempo se escoa velozmente nas folhas dos calendários, nos ponteiros do relógio… por vezes, drasticamente aniquilados, miraculosamente salvos nos últimos segundos: pobres criaturas que jamais se libertarão das garras implacáveis do Destino.
WOOLRICH / IRISH desenho de Joe Zabel

TEMA — CONTO DE SUSPENSE (não obrigatoriamente de Woolrich) — A MELHOR PIADA
De Lix Agrable
É a maior de todas as piadas. Vou morrer dando gargalhadas…
Ela é pequenina, macia e os seus lábios pareciam de veludo sob os meus. Eu era louco por ela e não podia acreditar na minha sorte, quando consentiu em vir morar comigo. Coisa estranha… mesmo neste instante em que a vejo, recostada à mesa, soprando o fumo de um cigarro perfumado no meu rosto coberto de suor, não posso dizer que estou arrependido. Valeu a pena, enquanto durou. Depois de uma vida inteira com Emily, ela valeu o sacrifício. É o mesmo que tentar viver com asma, e possuir depois uma gatinha da Pérsia, de pelo sedoso, para acariciar.
Não se encontram muitas vezes mulheres assim, em cidadezinhas como esta. Habitualmente casam-se muito jovens, encantadas por uma noite de luar e por algum caseiro jovem. Ou então vão para uma grande cidade, ou fogem com um caixeiro-viajante que mais tarde as abandona.
Eu mal conseguia dormir à noite pensando nela, depois de ela ter vindo passar as férias na pensão da velha Harkinson, embora não conseguisse descobrir o motivo por que escolhera Orrinville. Esta não é uma dessas aldeias pitorescas, de cartão postal, que se costuma ver nos livros de viagens.
Agora sei porque veio para cá. Mas naquela ocasião não sabia.

Acho que ninguém na cidade se surpreendeu, quando ouviu dizer que Emily me abandonara, como sempre ameaçara fazer. Acho também que todos estavam satisfeitos por saberem que partira. Procurem compreender: todos gostavam de mim; mas não havia uma só alma que pudesse negar o ódio que tinha por Emily. Causava mais aborrecimentos com a sua língua do que possam imaginar; criava eternos atritos com a sua maledicência, e que eu saiba, destruiu pelo menos dois lares. Por isso, creio que houve um suspiro geral de alívio, e talvez uma prece em ação de graças por minha causa.
— Não sei como pudeste suportá-la tanto tempo — disse-me Tom Mc Crackell, ao encontrar-me na rua. — Se me permites, a tua mulher era uma criatura, mesquinha e insuportável, não era?
— Bem… sabes. Há de tudo neste mundo, Tom — respondi fracamente. — Não me parecia correto censurar-lhe o procedimento.
— Ouvi dizer que a pequena Stone, da pensão, está de olho em ti.
Sorriu, com ar de quem compreendia estas coisas.
— Acho que não posso pensar em casar-me outra vez. Não sou livre.
— Mas quem falou em casamento? Talvez, ela queira tomar conta da tua casa.
E o bom Mc Cracken piscou os olhos divertido.
— Afinal de contas, nada podem provar, ou podem? Qualquer cidadão tem direito de ter uma governanta, não é assim?
Foi assim que, após algum tempo, Ella Stone veio tomar conta da casa. Todos os habitantes da cidade pareceram divertir-se com aquilo, lembrando-se da metediça Emily, da sua língua afiada e dos anos de vida miserável que me fizera passar.
Não lamento o rumo que o caso tornou. Como já disse, valeu enquanto durou.
Mesmo no princípio, eu não conseguia compreender o que Ella, com seus cabelos brilhantes — embora depois de algum tempo começasse a notar que eram escuros na raiz — e suas mãos acetinadas, tinha visto em mim, o taciturno e amargurado Lute Brown. Não era uma jovem extravagante. Mesmo depois de descobrir a caixa, onde eu guardava as economias de vários anos, não me pediu coisas bonitas, nem outras frivolidades.
Naturalmente, a sua loucura era metódica. Mas eu nunca desconfiei; nunca sonhei.
Comecei a achar que o meu café tinha um gosto amargo; mas logo Ella se aninhava nos meus joelhos, e acariciava-me o pescoço como uma gatinha brincando, corria as mãos entre os meus escassos cabelos grisalhos e… bem, teria engolido até cicuta sem me queixar.
Depois as dores começaram. Não liguei importância a princípio, mas quando pioraram tanto que não conseguia abandonar o divã da sala de estar, disse-lhe que era melhor chamar o velho doutor Bradley. Os seus olhos abriram-se muito.
— Queridinho… dói-te assim tanto? Olha, meu amor, talvez uma massagem faça passar as dores.
Mas eu estava em agonia. Pouco depois afastei a mãozinha macia que me acariciava tão delicadamente o corpo.
— Acho que temos de chamar o médico, Ella. Vai procurá-lo.
Saiu e os minutos passaram. Fui cambaleando até à janela, para ver se chegavam, e caí no chão, depois consegui pôr-me de pé outra vez. Por um segundo, fiquei sem saber o que pensar. Lá estava ela, sentada num velho banco entre dois carvalhos, levando, de quando em quando, um cigarro à boca vermelha e apetitosa, soprando o cigarro entre os dedos de pontas escarlates, balouçando uma perna bem feita e o pé calçado.
Fiquei sem saber o que fazer. Era impossível sair e ir buscar socorro. Era tarde demais para isso. Era tarde demais para muitas coisas. Agora via claro e compreendia tudo. Compreendi o motivo por que uma mulher daquelas escolhera uma cidadezinha onde é relativamente fácil fazer amigos e pescar um bom peixe. Ficaria muito bem, quando eu desaparecesse. Mas… como esperava livrar-se do meu cadáver?
Creio que me viu, porque se pôs em pé com um sorriso satisfeito, atirou fora o cigarro e entrou. Estava segura. Era tarde demais para que eu fizesse alguma coisa por mim, ou contra ela. Sabia disto e linha a certeza de que eu também sabia.
— Como te sentes agora, Lute?
Perfeitamente à vontade, pensei, admirado. Parecia estar acostumada àquilo: acostumada a tratar com velhotes, depois a livrar-se deles, levando o que pudesse obter.
E foi assim que vim a saber. Sentada na beira da mesa, ela falou-me a seu respeito, fumando e olhando-me calmamente como se estivéssemos apenas a passar o tempo. Vivera numa fazenda isolada a cerca de cento e cinquenta milhas de Orrinville…
— Fui-me aborrecendo por não possuir nada: nem roupas bonitas, nem divertimentos, nada… Por isso, concebera a ideia que pusera em prática com tanto sucesso.
— Tu és o terceiro trouxa que liquido. Aliás, estas são pequenas viagens de negócios e nada mais — disse, rindo com ar indulgente, para consigo mesma. — Esta é a última. Já tenho o suficiente para viver no luxo o resto da vida. Obrigada, Lute, por me teres auxiliado.
— Como te livras das tuas vítimas?
— Muito simples. Levo-as comigo, como te levarei, quando voltar para casa. Tu desaparecerás muito simplesmente, como eu, no que respeita a Orrinville.
— Como me levarás contigo? — Não sou tão tola que não tenha planeado tudo — riu muito satisfeita com a sua esperteza. Farei o que já fiz antes; é claro que não posso deixar-te aqui. Se não houver um cadáver, não haverá provas de crime e, o que é mais importante, nenhuma suspeita. Toda a gente acreditará de bom grado que deixámos a cidade e ninguém pensará muito nisto.
— Mas… mas como? — balbuciei.
Eu estava numa agonia torturante, mas a minha vontade de ferro dava-me forças para esperar até o fim a elucidação daquele mistério. Ella! A linda, macia, deliciosa. Ella… uma assassina profissional.
— Vais enterrar-me?
Mostrou-se irritada com a minha estupidez.
— Não sejas tolo, como poderia fazer isso? Não se passa um minuto sem que um bisbilhoteiro venha meter o nariz, nesta casa para saber se é verdade o que todos pensam, mas não podem provar! Enterrar-te? Como poderia fazer isso aqui? Lá em casa há inúmeros lugares apropriados, onde tu nunca serias descoberto. Mas aqui? Fica certo de que não há, nesta casa, nem um cantinho onde eu possa livrar-me de ti.
O seu sorriso satisfeito cresceu, até se transformar em legítima gargalhada. Estava desvanecida com o seu próprio eu. Serão assim todos os assassinos? Acharão todos que podem levar a coisa até ao fim?
— Vou colocar-te naquela mala enorme, existente naquele sótão, que cheira tão mal. Descobri-a um dia, quando passei uma revista para ver se podia deixar de comprar a mala, o que é sempre perigoso. Não levarei outra bagagem, portanto não levantarei suspeitas. Numa hora, Tom levar-me-á à estação; ele já prometeu. Esta noite tu dormirás num leito permanente… muito longe de Orrinville. Nada haverá para revelar…
Começou a explicar os detalhes, mas eu não a ouvia. Os seus olhos arregalaram-se, quando comecei a rir. Mesmo com aquelas dores cruciantes, o meu riso ainda soava como uma gargalhada.
Não o pude evitar. É a melhor piada que já ouvi. E, eu vou mesmo morrer dando gargalhadas. Ela não pode levar-me na mala. Sabem porquê? Porque Emily está lá dentro! Ah! Ah! Ah!

5 de novembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 310

Efemérides 5 de Novembro
Dorothy Gardiner (1894 – 1979)
Nasce em Nápoles, Itália, mas cresce em Boulder, Colorado, EUA. Escritora e secretária executiva dos Mystery Writers of America onde desempenha um papel chave no desenvolvimento desta importante organização. Escreve 6 livros policiários, a maioria passados no Colorado: os personagens principais são: Sheriff Moss Magill e Mr. Watson. Dorothy Gardiner é uma das autoras de Raymond Chandler Speaking (1962) uma colectânea póstuma de cartas, excertos de textos, ensaios e uma novela inacabada do escritor.


TEMA — ESTUDOS DE PSICOLOGIA CRIMINAL — OBSESSÃO DE SANGUE
Pensassem todos como o personagem de Machado de Assis nas “Memórias Póstumas de Braz Cubas”, e certamente o homicídio, ao menos por motivo de honra, não preocuparia juristas e carcereiros: — “esta injúria merecia ser lavada em sangue, se o sangue lavasse alguma coisa neste mundo.” O homem, herdeiro dos instintos de seus ancestrais, que se confundiam com as feras na ferocidade, pensa geralmente de modo diverso, e por isso é para o sangue que ele apela a cada passo, matando ou tentando matar por motivos que muitas vezes chocam pela futilidade. Mata-se por ódio frio e calculado. Mata-se por vingança. Mata-se por egoísmo. Mata-se por ambição. Mata-se por impulso cego e desordenado. Mata-se até por medo e por amor. Mata-se sem motivo algum…
E por isso, o capítulo do homicídio é o mais vasto e o que mais se renova no Direito Penal e na literatura.
O poeta paraíbano, Augusto dos Anjos escreve estes versos, que parecem um desafio à filosofia acomodatícia de Braz Cubas:

É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo
De subir na ordem cósmica, descendo
À irracionalidade primitiva…

O psiquiatra Legrain, prefaciando a obra de Vladoff — L'homicide en Pathologie Mentale, abre o seu trabalho com esta afirmativa: “Um estudo sintético do homicídio chega a seu tempo. Cada fase da vida social tem suas síndromes determinantes que lhe ficam como uma luva. Penso que se poderá dizer sem risco de desmentido que a época que estamos vivendo é uma época em que se mata.”
Perguntamos: — somente a nossa época?
Positivamente, não.
Mas, não resta dúvida de que, em desacordo com a Cultura generalizada em todo o mundo, o lobo humano não se mostra mais dócil aos sentimentos de cordura e de respeito pela vida de seus semelhantes. “Alguma coisa de agudo vem servir de excitante nas camadas inferiores de nossa vida psíquica, e as paixões cegas, testemunhas retardadas das necessidades materiais do ser, se desencadeiam, enquanto por toda a parte o esforço social tende a aplainar o caminho”. Entre essas “paixões cegas” e os interesses sociais representados pela vida humana colocam-se as leis e a justiça.
Afinal, o que é o homicídio?
Pondo de parte as definições jurídicas, diremos que é o sacrifício de uma vida humana pela mão do próprio homem, fora daqueles casos que a mesma lei justifica, excepcionalmente, quer quando o próprio Estado aplica a pena capital, quer quando no dilema de perderem-se duas vidas pode o médico sacrificar uma em proveito da outra. Um impulso, um gesto, uma vontade, uma acção, uma omissão, basta para que se acrescente mais um ao rol das vítimas ou dos assassinos. Para os psiquiatras o homicídio resulta de uma reacção anormal. Assim, para Vladoff, o homicídio, ou a tentativa de homicídio, “é uma das variedades de reacções mórbidas, voluntárias ou automáticas, dos indivíduos atingidos por afecções mentais.”
As leis, até agora, têm considerado o crime como um fenómeno jurídico. Entretanto, juristas e psicólogos dão-se as mãos, forcando o advento de leis novas, em que predomina, ao lado da defesa social, o conceito da perigosidade como base dos sistemas repressivos.
A literatura, chapa fotográfica viva do homem em função do meio social, fixa o delito tal qual ele é, e por isso o seu estudo resulta de grande interesse para o próprio Direito Criminal.
Segundo Christovam de Camargo, nas suas “Notas de Ontem e de Hoje”, estamos:
“no reinado dos nervos, da pressa, do atarantamento, das resoluções súbitas, dos gestos bruscos, da obediência cega ao subconsciente.”
E o crime tem nesse ambiente de força, descrúpulo e descontrole do sentimento e do carácter, o melhor caldo de cultura para sua proliferação.

Por isso a literatura brasileira representa um campo excelente e pouco trilhado para estudo das características do crime no país, em especial, as do homicídio.
Em “Morro do Moinho”, de Martins Alves, temos simultaneamente dois crimes de sangue, cada um deles estereotipado de forma diferente: no primeiro caso, um disparo ocasional, determinado por circunstâncias para as quais não concorreu a autora; no outro, um homicídio que decorre de uma obsessão alcoólica, e a que se segue o desfecho brutal de um suicídio.
Chicute, a figura central do romance, é um tipo acabado de degenerado. As suas atitudes de ódio e de provocação para com o jovem de quem tem um ciúme feroz em relação a uma professora da localidade, correspondem nele, a uma ideia fixa que sucede ou é contemporânea de seus delírios alcoólicos. E o autor põe-nos em contacto com os protagonistas e os cenários da tragédia cearense nas páginas que se seguem:

Uma voz pastosa e fria vibrou na porta da rua:
— Bom dia!
Janú levou um susto. Liquinha quase caiu da cadeira. Recostado ao portal, todo debochado, um riso irónico esquecido no canto da boca, Chicute fitava-os de revés. — Cadê o Mestre? E antes de receber a resposta — Diga a ele que vim ver a encomenda.
Liquinha, profundamente agitada, sem dar palavras, ergueu-se e entrou.
Acanalhando o sorriso, agitando a cabeça num gesto zombeteiro, Chicute falou:
— Quando é que casa com a professora?
Janú corou, ajeitou-se e cresceu na cadeira.
— Chicute, deixemos de liberdade, cuide da sua vida que faz melhor negócio.
— Quá — quá — quá — quá. O' brabeza da peste! Tarará pensando que eu rezei pr'a a Mestra lhe enguiar?
— Moço, faça o obséquio de não falar mais comigo.
— E eu faço conta disso, -porqueira! Tu pr'a mim não vale o que o gato enterra.
E entre uma série rasteira de insultos, Chicute soltou uma palavra que fez Janu levantar-se.
Diante daquela reação impetuosa, Chicute repeliu-o a riso:
— Que é que você tá pensando do mundo que não diz?
Caracteriza-se, aí, a provocação. Chicute saca da manga do casaco um beiço de pneumático, quer dizer — um chicote, transpõe a soleira da casa para vergastar o desafeto. Mestre José, porém, surge do corredor exclamando:
— Cabra ordinário, você não é besta, não! Então você tem o topete de querer desrespeitar a minha casa? Por ali! Suma-se.
Liquinha, que tinha vindo com o pai, entrou, novamente, de carreira. Janú não tirava os olhos de cima de Chicute, que, tresandando a cachaça, apertava o pneu na mão direita e assestava em mestre José a fisionomia bestial, onde os olhos se moviam estrangulados nas órbitas e os lábios mostravam, nas comissuras, as manchas amareladas dos caninos salientes.
— P'ra fora! — rugiu Mestre José, dando um passo em frente.
Chicute, arrastando a perna para trás, ajeitou o pneu. Houve um minuto de indecisão. Depois, um estampido violento sacudiu o ar ambiente.
Chicute contraiu-se todo, soltou o pneu, jogou as mãos sobre o ventre, quis andar, mas as pernas vergaram, tremeram e abateu-se pesadamente, abafando um gemido.
Mestre José e Janú voltaram-se. De pé, na porta de dentro, desfigurada, rígida, Liquinha apontava uma arma.

É a reação inesperada. Legítima defesa. Medo. Brio ofendido. Tudo, porém, obra de um impulso subitâneo. Liquinha, moça amável e terna, incapaz de um desforço violento, faz-se de repente homicida dentro de seu lar, onde minutos antes vivia descuidada e feliz.

14 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 288

Efemérides 14 de Outubro
Gaston Boca (1903 – 2000)
Gaston Bocahut nasce em Sebtis, Oise, França. Engenheiro de formação e profissão, começa a escrever nos tempos livres, e o primeiro romance que escreve L’Ombre Sur Le Jardin é publicado em 1933 numa das melhores colecções de romances policiários franceses: Détective, lançada pela Gallimard. Gaston Boca escreve apenas 4 romances e algumas novelas publicadas sob a forma de folhetim em revistas, mas é considerado um nome de referência na história do romance policiário francês, os seus livros são classificados como “notáveis” e o autor aparece muitas vezes referido a par de mestres nos mistérios de quarto fechado. Além do livro referido, os outros romances de Boca são: Les Usines De L’Effroi (1934), Les Invités De Minuit (1935) e Le Dîner De Mantes (1935), todos protagonizados por Stéphane Triel, um talentoso detective amador. Apesar de traduzido em outras línguas, não se encontra qualquer registo do autor em português e curiosamente em Itália o autor é publicado com Gastone Bocca.

TEMA — AMORES CONTRARIADOS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL — O PRÍNCIPE PERFEITO E ANA DE MENDONÇA
Por M. Constantino
Se, por este ou aquele motivo, muitos dos Reis de Portugal tocam de perto a sensibilidade almeirinense, D. João II está na linha da frente. Segundo rezam as crónicas foi gerado no Paço de Almeirim em 1 de Agosto de 1454, após um encontro, há muito retardado, da Rainha D. Isabel com o Rei seu marido, D. Afonso V, que regressara da caça por onde andara muitos dias. Não é, assim, difícil de assinalar tanta certeza relativamente àquela data célebre.
Aquele que viria a ser conhecido por Príncipe Perfeito e tornar-se-ia no terceiro Rei da Dinastia de Aviz, nasceu no Paço de Alcáçovas de Lisboa a 3 de Maio de 1455.
É difícil explicar como se fez no homem que foi. Órfão de mãe aos 7 anos, com uma infância apoquentada por enfermidades, esteve a cargo de aias carinhosas, sim mas sem mestre ou encarregado da sua educação, só a iniciativa própria e a biblioteca bem provida do Paço, frequentada por homens oriundos de vários pontos da Europa, terão feito de D. João um homem tão precoce no raciocínio e na firmeza de carácter revelando cedo profundo conhecimento das pessoas, da política e das ciências do seu tempo. De feitio reservado e observador, o pequeno Príncipe afirmava-se dia a dia uma mentalidade volvida para os problemas bem reais da existência. Os desportos da época fizeram da criança enfermiça um rapazão sadio, bom caçador, óptimo esgrimista, excelente corredor e dançarino, não desdenhando acompanhar alguns fidalgos em aventuras nocturnas.
Aos quinze anos (1471) casaram-no com D. Leonor, filha do Infante D. Fernando (este nascido em Almeirim em 17 de Novembro de 1433, curiosa coincidência!), futuro duque de Beja e herdeiro de seu Tio-Avô D. Henrique, o Navegador, e uma das maiores, senão a maior, fortuna do Reino. D. Leonor, a noiva, tinha então 12 anos. Há entre eles amizade sincera, conheciam-se e brincaram juntos desde sempre, são parentes, mas não há amor.
Meses depois do casamento acompanhou o pai a África, a primeira grande aventura guerreira, quiçá, o primeiro passo na vida política activa, que iria fazer dele um dos mais completos monarcas europeus
Afonso IV confiava mais no Príncipe D. João que nele próprio. Admirava o seu tacto, a sua prudência, a clara visão dos problemas e rapidez de execução. Tanto assim que, em Évora e a 8 de Abril de 1475, tinha D. João vinte anos, Afonso V divide com ele poderes governamentais, estabelecendo em conselho o regimento que deveria seguir na administração da Justiça, da Fazenda, e na Concessão de mercês, No capítulo destas, Afonso receoso da sua própria liberdade, concede ao Príncipe seu filho o direito de aprovação das que fizesse — era, de facto, um Rei ainda sem coroa.
Aos vinte e um anos, combatera na Batalha do Toro, era um homem de estatura mediana, bem feito, muito branco, cabelos castanhos e barba quase preta, rosto rosado, lábios finos e dentes alvíssimos, dois olhos negros, fundos, luminosos, em que se adivinhava a inquietação enigmática de um pensamento e de uma força de vontade inamovível… É após Toro que conhece Ana de Mendonça, terno perfil, luminoso sorriso de estrela da manhã… que lhe encherá a vida de mel e fel de mel, por obra do amor; de fel por não a poder ter quando quer.
É em Cernache do Bonjardim, um jardim natural a montante das águas do Zêzere que Ana se fixa, no Solar dos seus, já que é filha de Nuno de Mendonça, aposentador-mor de El-Rei D. Afonso. O Príncipe, cada vez mais vinculado às selectas perfeições da mui nobre e viçosa donzela, segue-a e é ali, sob as ramagens confidentes que os namorados compõem em versos de beijos o livro do seu romanesco idílio.
Em 12 de Agosto de 1481 nasce o filho daquela ligação: Jorge, Mestre de Aviz e Santiago. No mesmo Mês e ano, mas a 28, morre D. Afonso V e. D. João sobe ao trono de Portugal, do qual é o segundo de nome: D. João II. D. Leonor está no conhecimento das relações amorosas do seu real esposo com a formosa e grácil Ana de Mendonça. Tenta intervir. Inútil. O amor tem qualidade de fogo: quanto mais oprimido é, tanto é mais violento; as labaredas do seu brasido não queimam menos do que as da fogueira — o fumo da combustão a turvar os raciocínios lógicos e, se o fustigam ventos contrários, quanto mais forte a rajada, mais alto sobe em suas labaredas crepitantes.
A intriga ferve. Ana mantém-se fiel ao seu amor e senhor, afasta-se das intrigas e intrigantes. Não tenta exercer influência no ânimo d’el-Rei, bastava-lhe o encantamento amoroso.
Com consentimento difícil da mãe, D. João entrega à Infanta D. Joana, sua irmã mais velha, internada por vocação num mosteiro de Aveiro a educação de seu filho Jorge, ao qual mais tarde, por morte de seu filho legítimo, D. Afonso, nas margens do Tejo, em Alfange, prepara inutilmente para lhe suceder no trono. A própria Rainha se prontificara receber em sua casal D. Jorge, o filho da favorita, após a morte prematura de D. Joana, até tornar conhecimento da intenção do marido.
Não cabe nesta resenha falar da política de El-Rei D, João II, uma coruja no pensamento, o Rei Falcão; na acção, tão só referimos os seus amores. E, neste aspecto, pode o Rei considerar-se casto: nenhuma outra mulher teve o privilégio de ocupar os seus pensamentos, o amor e favores de D. João. De resto, linda como era, saudável, Ana de Mendonça, jamais olhou para outro homem.
Em escapadas até aos Paços de Santarém ou Almeirim, D. João não deixa de prolongar as visitas até Cernache. O Rei deixa de o ser para aparecer o homem, o homem que, como o raramente acontece, encontrou o ser que o amou e que ama Cernache do Bonjardim: ela fê-lo feliz, puro, perfeito, livre até nas responsabilidades que tinha sobre os ombros, ela conseguiu preencher pelo espaço de uma curta vida aquela parte dele que sempre sentira pertencer a alguém, com quem sonhara e encontrara… impossível afastá-la da memória, como impossível afastar-se do prazer, da sensualidade, do sentimento precioso e premente da posse e da energia, da verdade última que se evola do contacto com a pele, com os lábios exigentes, vorazes, entre cortado no ritmo gradual das carícias. Ambos compreendem a indispensabilidade do amor e, se fortalecido pelo espírito, pela troca de dois universos que, por muito diferentes que sejam acabam por se unir a interpenetrar-se nos mais íntimos pensamentos, então o amor não é apenas criação dos nossos desejos, mas uma realidade mágica tornada palpável, viva, e que nos transforma em seres imensamente perfeitos e felizes.
Em fins do verão de 1494 D. João sente os primeiros sintomas da doença. Em 29 de Setembro de 1495 sente-se mal, muito mal.
Apronta o seu testamento legando o Trono a D. Manuel, seu primo e cunhado. Recomenda-se o “muito amado filho”, D. Jorge a quem lega cidades, vilas e rendas. Não esquece Ana: lega-lhe uma grossa mesada “para suportar a sua honra ou para seu casamento”, facilitando-lhe a união com outro homem. Mas D. Ana de Mendonça, morto o seu senhor em 25 de Novembro de 1495 — tinha apenas 40 anos de idade, menos de dúzia e meia de anos de felicidade no colo vibrante deAnia e catorze anos de reinado efectivo — ama-o ainda e como sempre: foge do Mundo enclausurando-se voluntariamente no mosteiro das Donas de Santos
Para os entendidos em coisas de sentimentos, Ana e João, foram seres integrais.


TEMA — CONTO POLICIÁRIO — A PRÁTICA DE UM CRIME PERFEITO
De Mary Barrett
Metodicamente, com um sentimento de prazer antecipado enfiou a chave na fechadura da porta de entrada.
— É tão bom — pensou saber que agora cada coisa irá ficar exactamente no lugar em que deve. A ordem era uma coisa muito importante para ela. Fazia a vida ficar tão fácil, tão confortável e tão previsível, conforme tentara explicar à mãe durante anos. Mas todas as suas súplicas eram em vão. A desorganizada mãe passava os dias alegremente a deixar coisas espalhadas por onde quer que caíssem. Bem, agora que a mãe morrera, tudo iria ser diferente.
Abriu a porta e contemplou com olhar aprovador a sala de estar, limpa e irrepreensível. Cada peça de mobiliário estava no seu lugar, cada superfície estava polida e as cortinas, puxadas até o lugar exacto para que o sol não desbotasse o estofos. Sim, tudo estava imaculado. Tudo estava impecável.
Os funerais, naquela tarde, haviam sido um sucesso, pensou. Aquele agente funerário tão gentil havia organizado a cerimónia de maneira muito elegante.
Passou pela sala de jantar, entrando na cozinha, percorrendo o caminho que agora poderia estabelecer como permanente. Poderia agora organizar seus horários. Com. A sua mãe excluída da casa, seria muito mais fácil manter tudo em ordem.
Fora muito difícil, principalmente perto do fim. A velha tornara-se muito esquecida, e as coisas eram encontradas, muitas vezes, nos lugares mais impróprios. Ela, uma até encontrara o saleiro de prata de lei dentro do frigorífico! Confrontou a mãe com o facto, mas as únicas respostas que obteve, foram um risinho abafado e a observação:
— É, esta velha cabeça às vezes faz das suas, não é?
Sorriu ao pensar no saleiro de prata. Certamente, arranjara um jeito de ajustar contas com a mãe por aquele descuido! Pensando na perfeição do plano que executara com tanto sucesso, ela cantarolava baixinho, enquanto andava pela cozinha.
Tirou do gancho próprio um avental, atou-o à cintura, e pôs no fogão uma panela de água para ferver… para o ovo que comeria na ceia.
Esse era um outro problema. Sacudiu a cabeça ao ao lembrar. Nunca conseguira fazer a mãe compreender quão necessário era comer as mesmas coisas todos os dias, para garantir uma dieta bem equilibrada.
— Mas, querida — a mãe protestava em resposta às críticas constantes — eu gosto de um pouco de variedade na vida.
A mãe jamais entenderia que variedade era exactamente o que o mundo tinha demais.
Tirou uma faca do estojo e cortou um tomate em rodelas. Sorriu ao lembrar-se da surpresa da mãe quando se mostrara tão cordata a respeito do curry que ambas comeram na sua última refeição juntas.
— Que bom, querida, Há tanto tempo que não és uma companhia assim agradável — observara a mãe.
Naquela noite, demonstrara muita consideração para com a mãe, esforçando-se por fazer pequenas coisas que sabia que lhe agradariam. Não queria que a mãe notasse a única coisa fora do comum que teria de fazer para o plano dar certo. Colocou cuidadosamente o saleiro de prata ao lado do prato da mãe, um gesto excepcional. Sabia muito bem que a mãe acrescentaria tempero, como aliás fazia com qualquer prato, mesmo se o curry já estivesse exagerado demais para permitir uma boa digestão.
E assim, à noite, a mãe morreu. Era velha. Já estava enfraquecida há algum tempo. Não havia necessidade aparente de autópsia. Decerto ninguém afagara a mais leve ideia de examinar o conteúdo do saleiro de prata. Sim, tudo fora às mil maravilhas, exactamente como planeara.
O ovo agora já estava cozido. Com cuidado, ela colocou-o no meio do prato. Arrumou as rodelas de tomate caprichosamente ao redor do ovo e pôs o prato cuidadosamente sobre a toalha individual, na mesa da cozinha. Sentou-se, contente e feliz, para comer sua refeição da noite.
Era assim que seria sempre de agora em diante. Comeu a última garfada, levou o prato à pia e lavou-o esmeradamente sob a torneira de água fria. Abaixou-se para pegar a panela sob a pia… e sentiu no estômago uma dor repentina e estonteante. Abalada e perplexa, deixou-se cair de novo na cadeira ao lado da mesa.
A estupefacção à vista do saleiro de prata era quase tão acabrunhante quanto a dor que sentiu. Lá estava ele, exactamente onde devia estar, bem no centro da mesa. Ela tinha-o usado para salgar o ovo.
Mesmo no meio da dor, percebia estar levemente irritada. Tinha pensado, naturalmente, em esvaziar o saleiro; mas estes últimos dias haviam sido tão desorganizados. Na verdade, tivera intenção de nunca mais utilizar o saleiro de prata, caso não estivesse mais em boas condições sanitárias. Em seu lugar, estivera a usar um frasco de vidro lapidado; mas, de manhã, antes de sair de casa, repusera o frasco cuidadosamente no armário das porcelanas, onde era eu lugar.
Pensou vagamente que esse último aborrecimento devia de algum modo ser culpa de sua mãe. Evidentemente, como, aliás, haviam sido todas as irritações passadas de sua vida. Ela não conseguia formular a ideia exactamente, entretanto… a dor fazia os seus pensamentos correrem juntos, ficarem embaralhados, confusos.
E então, pouco antes de lhe sobrevir a inconsciência e de cair em desalinho no chão, ela se pôs a imaginar o que haveria de pensar aquele simpático agente funerário? Era, evidentemente, incorrecto e muito deselegante duas mortes na mesma casa, em tão pouco tempo.


10 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 284

Efemérides 10 de Outubro
Derek Lambert (1929 - 2001)
Derek William Lambert nasce em Londres. Jornalista em vários locais — Inglaterra, Russia, África…— que por vezes utiliza para cenários dos seus livros. Publica o primeiro romance, Angels In The Snow em 1969 e seguem-se mais livros de mistério / detective até 1997. Sob o pseudónimo Richard Falkirk cria a série Edmund Blackstone Mystery (com 6 títulos), passada em ambiente londrino, no inicio do sec IXX e ainda mais dois romances.


TEMA — OS GRANDES TEMAS DA FICÇAO CIENTÍFICA — A “CATÁSTROFE FINAL”
A verdade é que não existe nenhum futuro possível, previsível ou imaginário, que em algum momento não haja sido abordado por um autor de ficção científica, mesmo o futuro último. Aliás, este futuro último, constituído pela visão de catástrofes mundiais de toda a ordem, é um dos temas mais utilizados no referenciado género de ficção.
Tema aliciante, sem dúvida, que remonta aos primeiros passos de revolução industrial, quando o homem começou a compreender que, no planeta em que nascera mais não era do que mero e ínfimo insecto deambulando pela sua superfície repleta de perigos, e sujeito a ser facilmente esmagado a cada momento.
Para J.G. Ballard, o escritor que no género mais cataclismos idealizou da “catástrofe final”, os estudos psiquiátricos levados a efeito pelos especialistas dão por concluído que de entre os fantasmas do mundo humano, O FIM DO MUNDO está latente no inconsciente, o a ficção serve desses medos, explorando-os, como desfruta especulativamente as hipóteses e inquietações que dominam a existência.

Passando pelas “causas cósmicas”, “causas naturais”, “causas humanas” ou “causas extraterrestres”, os quatro grandes grupos da origem do novo apocalipse, não passaria de pura presunção tentar relacionar todas as narrativas entre as várias modalidades da ficção, explorativos do tema, apontando-se, contudo, que todas as formas referenciadas no texto que antecede estão fortemente representadas na ficção científica.
O degelo dos pólos, artífice de um novo dilúvio, é abordado no ano de 1802 por Restif de la Bretonne em “Les Posthumes”, logrando novo e posterior tratamento em “The Second Delugo (1911) de Garrett P. Seviss, “Deluge” (1928) de Sydney Fowler Wright, bestseller no ano da publicação e origem de uma produção cinematográfica da R.K.O. (Radio-Keith-Orpheum) no ano seguinte. Erle Stanley Gardner, um escritor consagrado da narrativa policiária ataca o assunto porém num estilo medíocre que intitulou “Other Words”'. Mais interessantes são a versão apresentada por Nathaniel Salisbury em “The Moon Doom”, Douglas Orgill “The Sixth Winter” (1979), o conto “The Forgotten Enemy” de Arthur C. Clarke, no qual o último homem sobre a Terra desperta uma manhã para descobrir que os glaciares lhe batem à porta e, muito mais convincente é “The Word in Winter”, no qual um duro, prolongado e anormal inverno altera o equilíbrio climatérico, as neves e os gelos incrementam o crescimento dos glaciares, destes resulta um mundo inundado pela água.
Em “The Drowned World” (1963) Ballard cria uma Terra que se tornou tropical e a maior parte da civilização está debaixo de água…

… sucessivas convulsões geofísicas que haviam assim transformado o clima da terra tinham tido o seu início sessenta ou setenta anos atrás. Uma série de violentas e demoradas tempestades, com a duração de vários anos, causadas por uma súbita instabilidade no sol, haviam tornado mais extensos os círculos Van Allen e diminuído a força gravitacional da Terra sobre as camadas exteriores da ionosfera. À medida que estes se diluíam no espaço, destruindo assim as defesas da Terra contra o choque da radiação solar, a temperatura começou a subir ininterruptamente e a atmosfera aquecida passou a expandir-se na ionosfera onde se completava o ciclo.
O surto destes estranhos fenómenos foi abafado pela segunda convulsão geofísica. O contínuo aquecimento da atmosfera principiara a enfraquecer a crosta polar. Os mares interiores do planalto antárctico quebraram os gelos que começaram a derreter-se; inúmeros glaciares do redor do Circulo Antárctico, desde a Groenlândia até ao Norte da Europa, à Rússia e à América do Norte, vieram desaguar no mar.
Desta vez ainda a subida total do nível das águas não excederia alguns escassos metros, se não fosse a enorme quantidade de húmus descarregada pelos canais. Na foz de cada um deles formou-se imediatamente um gigantesco delta, prolongando assim as costas dos continentes e assoreando os oceanos. A área destes, de três quartas partes da superfície da Terra, passou a ocupar pouco mais de metade.
Arrastando consigo o lodo do fundo, estes novos mares transformaram-se por completo o aspecto e o contorno dos continentes. O Mediterrâneo contraiu-se formando um sistema de lagos internos; as ilhas Britânicas ficaram novamente ligadas ao Norte da França. O médio Oeste dos Estados Unidos, alagado, pelo Mississípi que descia das Montanhas Rochosas, tornara se num enorme golfo que dava para a Baía de Hudson, ao passo que o mar das Caraíbas ficava transformado num deserto de charcos lodosos e salgados. A Europa reduziu-se a uma sucessão de lagoas gigantescas, com o centro nas principais cidades situadas a pequenas altitudes, inundada pelo lodo trazido para o Sul pelos rios recentemente formados.

A imaginação destrutiva dos escritores de ficção científica é fecunda. Em “The Great Wash” (1953) de Gerald Kersh, gigantescas armas nucleares são disparadas no fundo do oceano para desviar as correntes do Golfo, aparentemente por pura malvadez, o que origina o degelo e a ruína para o mundo; em “Válka s mloky” (1936) o clássico “Guerra das Salamandras” de Karel Capet (Clicar) verifica-se o contrário, os explosivos de alta potência destinam-se a nivelar a terra firme; John Wyndham serve-se em “The Kraken Wakes” (1955) de uns implacáveis alienígenas submarinos que aquecem atomicamente os mares gelados provocando a derrocada da Terra…

“… um ruído vindo da parte superior do curso do rio: um ruído composto das vozes da multidão. O povo à nossa volta debruçou-se e murmurou. Um momento depois vimos a água a chegar. Saltou sobre as muralhas numa inundação larga e lamacenta, arrastando o lixo os arbustos, e passou para além de nós. A multidão como que gemeu. De repente ouviu-se o estrondo de qualquer coisa que estoirava e logo em seguida o ruído de paredes que se desmoronavam…”



Terrificante, simplesmente terrificante, é “La Peur Géante” (1957) do escritor francês Stefan Wul…

“ A vaga tinha-se formado de chofre, concentricamente ao pólo, sob o efeito da fusão brutal dos gelos árcticos. Depois, circular alargara a circunferência e deslizara em direcção ao Equador. A mil quilómetros por hora!
No mundo inteiro, as pessoas tinham ouvido um rumor de fim mundo e presenciado o céu a obscurecer-se. Haviam-se entreolhado numa interrogação, encolhido os ombros, posto o nariz no ar e tinham sido riscados, num ápice, da existência, sem tempo de compreender por que razão.”
(Continua)



TEMA — CONTO POLICIÁRIO NACIONAL — O ÚLTIMO VOO DO HOMEM PÁSSARO
De Fernando Chambel
— Sejam, bem-vindos ao maior espectáculo do Mundo!
Imaginem! … A pista emergia, vagarosamente, numa escuridão que fazia lembrar uma noite amaldiçoada pelos deuses das trevas, sem uma réstia de luar. Rufavam os tambores… fecundavam-se ecos estridentes! As mentes do público, dilaceradas pelo “suspense” e ávidas de emoções fortes, apelavam: Violem a escuridão! Violem a escuridão!
Silêncio! Eis chegada a minha hora. Mil luzes se acendiam e outras tantas se projectavam para o ar. Agora, o espectáculo era eu! Navegava, caprichosamente, pelos ares daquele majestoso recinto. Era senhor, incontestado, de mil e um trapézios, sabedor das mais grandiosas técnicas de saltos mortais e outras habilidades.
A assistência deixava esvoaçar da sua boca, entreaberta, interjeições de admiração e de espanto.
O meu nome dava energia a um vasto número de néons:
“O maior trapezista do mundo! Ícaro, o homem-pássaro!”
Era assim o meu sonho! …
Um sonho de papel! Rasgava-o, sem consideração pelos mortais nascidos do ventre de um deus menor, a masoquista realidade, que constantemente nos rodeia.
A sociedade pressiona-nos; a nós, que somos meros vagabundos do limbo, proíbe-nos o pão!
Vivemos do sangue das nossas vítimas?!
Fui mercenário, e minha educação teve lugar no seio dos horrores da guerra. Aprendíamos a sobreviver e a executar a única ordem que nos era dada: — Morte ao inimigo!
Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? Nestes caminhos que percorro já só encontro a morte. Nesta faca, que possuo, já não há lugar para mais sangue. Estou farto de matar… sem saber porquê! Mesmo no final do meu sonho, encontro o inferno à minha espera.
Ousei desafiar o destino! …
Resolvi suicidar-me! Encontrei-me perante um abismo, pronto a voar sobre ele e a realizar, por fim, a minha fantasia, mas agora sem trapézio.
Levantou-se uma brisa meiga e serena, cheia de doces prazeres. Oh, deuses; Mesmo ante a minha morte tentais dissuadir-me de tal acção, envolvendo-me em deleitosas sensações terrestres? Pelo menos, uma vez na vida, eu seria útil à sociedade… matar-me-ia.
Absorto em tais reflexões, não reparei na presença de um rapaz de tenra idade — com os seus dez anos — mesmo junto a mim. Assim que o vi, tive vontade, de… de… não sei do que tive vontade. Ali, havia algo de diferente? A sua imagem impunha-se de forma imponente. Tinha um sentido espiritual; o olhar era mágico, cativante.
Falou-me do lado bom da vida; tentava salvar-me. Empregou uma filosofia pura, sem rodeios. Falei-lhe das minhas culpas e mesmo assim absolveu-me.
— Obrigado, rapaz! — disse-lhe.
Obrigado? Mostrei, pela primeira vez, um grande afecto por um meu semelhante. Agradecera-lhe por me ter salvo a vida! Quis dar-lhe um forte abraço, mas não pude. Raios! Jamais poderia tirar as mãos dos bolsos. Deles corria um aterrador fio de sangue. Era a maldição!
Fiquei confuso, fora de mim. Fugi daquele sítio, pertencente aos domínios do Demónio, e alberguei-me num bar dos arredores. Iria afogar o meu desespero na bebida, namorar-me-ia da embriaguez. Eu, o vinho e mais ninguém!
Mergulhei, durante longas horas, o meu espírito no álcool fantasma que já dava mostras de me assombrar.'Foi então que vislumbrei, de entre a atmosfera viciada, um vulto familiar. Eis chegado um amigo… um mercenário, como eu. Aquele maldito momento — na altura, bendito — levara--me a pedir mais vinho para o devido festejo. O meu amigo recusou-se a beber tudo o que fosse alcoólico. Muito bem, beberia e minha parte e a dele também.
Apesar do meu estado, de incoerência mental, senti necessidade de falar-lhe das minhas dificuldades. Ouviu-me e aconselhou-me, dando como exemplo a vida que levara até ao momento: casara, tinha uma mulher, um lar e um puto. Era um homem feliz!
Senti, então, um ódio, crescente, avassalador, sinónimo de inveja pelo meu companheiro de guerra. Ele nada compreendera e disse-me:
— Anda, sentir-te-ás melhor lá fora.
— Desaparece! — retorqui-lhe. Este bar será a minha sepultura.
Não fez caso do que eu lhe dissera e arrastou-me para fora do estabelecimento. Irado, perdi o controlo dos meus sentidos, puxei da faca e matei-o. Sim, matei-o! Perdeu-se-me a razão, guiou-me instinto. As testemunhas do sucedido não ousavam reter-me. Estavam horrorizadas com a visão cruel provinda das minhas mãos, o sangue.
Pensei: “Ao meu amigo de nada servem já os seus pertences de maior valor — está morto — ficarei com eles.” Pus em prática tal pensamento e encontrei, num dos bolsos, a fotografia do filho.
— Meu Deus! Era o retrato do rapaz que me salvara das garras daquele abismo.
Eis-me de novo perante precipício. Morrerei aqui, e maldição que carrego irá comigo. Eis o segredo: das minhas mãos escorre, continuamente, o sangue das minhas vítimas, incluindo o deste meu amigo. Tal fenómeno não tem explicação…
E mergulhou, silenciosa mente, no infinito. Concretizara o seu sonho, mas sem trapézio.
O vento sussurrou por entre as vertentes e trouxe consigo os aplausos e ovações da sociedade…
Naquele abismo ficara a poesia da morte: “Aqui curar-te-ás a ti próprio!”