28 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 149

EFEMÉRIDES – Dia 28 de Maio
Dick Donovan (1842 – 1934)
Joyce Emmerson Preston Muddocknasce em Southampton, Inglaterra. Jornalista, utiliza o pseudónimo Dick Donovan — que é também o nome de um personagem — para escrever quase 300 contos policiários e 28 romances publicados entre 1889 e 1922. Cria vários personagens, além de Dick Donovan, um detective de Glasgow, antecessor de Sherlock Holmes; Michael Danevitch, um agente secreto russo; Vicente Trill, investigador da Detective Service; Tyler Talock, um detective privado; e o criminologista forense Fabian Field.

Ian Fleming 1928
Ian Lancaster Fleming nasce em Green Street em Londres. Estuda no famoso Eton Colege e também na Alemanha e na Áustria. Trabalha como jornalista e na bolsa; durante a 2ª guerra mundial, é assistente do director da Naval Intelligence, esta experiência e o contacto com agentes secretos fornecem os personagens e os incidentes que mais tarde o autor inclui nos livros do famoso James Bond. Ian Fleming em 1952 muda-se para a Jamaica e escreve em dois meses a primeira aventura de James Bond, Casino Royale (1953), que vende no primeiro mês quase 5000 cópias. O escritor publica mais 13 títulos da série James Bond até 1996, muitos deles grandes êxitos na adaptação cinematográfica. Em Portugal estão editados:
1 – Casino Royale (1965), Nº1 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Casino Royale (1953). Editado também pela Editora O Quinto Selo na Colecção Os Falcões em 2006, e pela Contraponto em 2010
2 – Vive e Deixa Morrer (1965), Nº2 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora
Título Original: Live And Let Die (1954). Editado também em 2007 Colecção Os Falcões, Editora O Quinto Selo; e em 2010, Colecção James Bond 007, Editora Contraponto.
3 – Moonraker, Míssil De Ódio (1965), Nº3 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Moonraker (1955)  
4 – Os Diamantes São Eternos (1965), Nº4 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Diamonds Are Forever (1956)  
5 – Operação Relâmpago (1965), Nº5 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Thunderball
6 – Só Se Vive Duas Vezes (1966), Nº6 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: You Only Leave Twice (1964)
7 – O Homem Da Pistola De Ouro (1966), Nº7 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: The Man With The Golden Gun (1965). Em 1976, editado pelo Círculo de Leitores
8 – Missão Na Jamaica; Propriedade De Uma Dama; A Encruzilhada De Berlim
 (1966), Nº8 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Octopussy And The Living Daylights - short stories (
9 – Gooldfinger (1968), Nº9 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Gooldfinger (1966)
10 – O Agente Secreto (2008), Colecção Os Falcões, Editora O Quinto Selo. Título Original: ??
11 – Quantum Of Solace (2010), Colecção James Bond 007, Editora Contraponto. Título Original: For Your Eyes Only (1959)
12 – Dr No (2010), Colecção James Bond 007, Editora Contraponto. Título Original: Dr No (1958)


Frank Schätzing (1957)
Nasce em Colonia, Alemanha. Estuda Ciências de Comunicação e trabalha como director criativo em publicidade. Começa a escrever na década de 90. È um escritor premiado pelos seus livros de ficção científica e thriller. Em Portugal estão editados O Quinto Dia (2007) e Limite (2012), este último referenciado na secção LIVROS (clicar) do Policiário de Bolso.



TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 14
(continuação de CALEIDOSCÓPIO 142)
Correndo o risco de ultrapassar a cronologia que se tem tentado manter no itinerário possível, em busca de raízes dispersas da narrativa policiária, não resistimos a apresentação de um texto de Beaumarchais — Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais — dramaturgo francês (1732-1799) no qual, em carta de 6 de Maio de 1776 ao director do Morning Chronicle (Obras completas, com o título de Gaité faite à Londres), reivindica para si o segundo lugar, após Zadig, o pioneiro, do segundo detective do mundo. E, no estilo de Voltaire/Zadig, começa por afirmar que:

… Dois dias antes, num salão de baile, encontrou uma capa de senhora, de tafetá preto e deseja entregá-lo à sua dona.

Depois prossegue:

A fim de evitar qualquer engano a respeito, informo que a pessoa que a usava naquele dia trazia também na cabeça plumas cor-de-rosa e, creio eu, brincos pendentes de brilhantes. Mas neste particular não estou tão seguro quanto ao resto — isto é, que ela é alta e tem uma bela figura. Seu cabelo é de um louro prateado, e a pele de uma alvura deslumbrante; o pescoço é fino e bem torneado e o mesmo lhe acontece com a cintura. Quanto ao pé, é o mais lindo do mundo. Observo também que é muito jovem, cheia de vida e um tanto distraída, tem o passo leve e gosta imenso de dançar.

Beaumarchais repete que não a conhece, porém:

… sem me vangloriar de um talento especial, que deixou de o ser desde que o falecido Zadig, de gloriosa memória, expôs o seu método, queria informá-lo, Sir, que enquanto examinava a capa encontrei no fundo do capuz alguns fios de cabelo de um louro admirável, assim como uns fragmentos de penas cor-de-rosa, evidentemente saídos de um toucado. Desta forma, como vê, não foi preciso uma inteligência genial para concluir que o cabelo e o penteado desta loura se devem assemelhar aos exemplares que dele miram.
E uma vez que tal cabelo jamais nasceu acompanhando uma pele morena, a analogia iria sugerir ao senhor, como o fez a mim, que tal beleza dotada de uma cabeleira, louro-prateada deve ter uma pele de alvura deslumbrante. Igualmente uma leve irritação nos fios do tafetá de cada lado do interior do capuz (coisa que só poderia ter sido provocada pela constante fricção de dois pequenos corpos duros em movimento) me disse, não que ela usava brincos pendentes naquele dia, mas que costuma usá-los com frequência. Se o meu raciocínio for falso, peço-lhe, senhor que não me poupe. Severidade não é injustiça.
Quanto ao mais, não é preciso explicar. Qualquer pessoa percebe que bastaria examinar a fita que fecha a capa à altura do pescoço e dar-lhe o laço no lugar marcado pelas dobras para observar o espaço ali contido é muito pequeno. Portanto o pescoço em torno do qual ela se fecha deve ser fino e belo — até aí não houve dificuldade alguma.
Medindo então a distância entre o alto da capa e a dobra ou ruga horizontal produzida mais em baixo na altura em que é amarrada, segundo à moda francesa, a fim de delinear a cintura reunindo a parte sobre as ancas deixando cair as pontas macias de renda sobre um posterior arredondado e bem definido, concluí, como o faria qualquer conhecedor, que com tal cintura e rico busto a dona deve ser alta e bem-feita. A coisa fala por si mesmo: o artista percebe o nu que se esconde sobre a roupa.
Suponhamos ainda, Sir, que ao examinar o centro da capa o senhor tenha encontrado no tafetá preto a marca de um belo pezinho delineado na poeira. Não teria então raciocinado que, se alguma outra mulher tivesse pisado em cima da capa depois de ela ter escorregado no chão, ter-me-ia privado do prazer de apanhá-la? Depois disso já não é possível duvidar que a marca foi ali deixada pela própria dona. De onde é possível concluir que, se o seu sapato é tão pequeno, o seu belo pezinho deve ser ainda menor…
Porém, esta marca, que foi feita por acaso e sem ter mesmo sido notada, denota (além de uma grande vivacidade no andar) uma forte preocupação de espírito, às quais as pessoas graves, velhas ou fleumáticas se entregariam. Daí deduzi que a minha encantadora lourinha está na flor da idade, sendo vivaz e naturalmente distraída… Finalmente, lembrando-me que o local em que encontrei a capa levava ao ponto em que as danças se faziam com maior entusiasmo, concluí que a dama em questão devia apreciar e muito tal passatempo, pois só a atracção exercida pela dança a poderia ter feito esquecer e pisar a pobre capa…
E quando, no dia seguinte, recordei que num lugar onde tanta gente entrava e saía tocara a mim encontrar a capa (o que provava que fora recém deixada ali) sem no entanto poder descobrir a sua dona (o que provava que já se tinha afastado a uma boa distância) disse comigo mesmo: Sem dúvida nenhuma, esta jovem é uma beldade vivaz da Inglaterra, Escócia e Irlanda. E não acrescentei a América porque ultimamente as pessoas têm se tornado diabolicamente agitadas por lá…

Como se vê Beaumarchais merece figurar ao lado de Zadig. Demonstra inteligência e arte de dedução, num problema bem mais difícil de resolver num local e ambientes de vastas hipóteses, já que se trata de identificar uma pessoa, uma so, numa grande cidade, tendo apenas por pista, um objecto por ela perdido.
Cita-se aliás que já no ano anterior Beaumarchais tinha revelado um apurado dote de dedução/indução na comédia “Barbeiro de Sevilha”, de que é autor, representada em 23 de Fevereiro de 1775 no teatro Comédie Française nas Tulherias, e logo retirada, ao colocar nas palavras de Bartolo, o personagem que interpreta o médico tutor de Rosina, como descobrira que esta comunicara com o seu amado.

'Os seus dedos estão sujos de tinta… vejamos uma segunda testemunha que confirma a primeira. Este caderno de papel tinha seis folhas, conto-as todas as manhãs, falta a sexta… a pena é que era nova, como é que ficou preta? Quantas mentiras acumuladas para esconder um único facto: mas a ponta do dedo continua preta, a caneta está manchada, falta a folha de papel; não se pode pensar em tudo…

Capítulo em que se mostram narrativas muito próximas do objectivo policial. Quer em Zadig de Voltaire, quer nos dois textos de Beaumarchais, que reivindica para si o segundo detective do mundo, considerando Zadig primeiro a ideia da dedução está plenamente demonstrada, relevando o espírito analítico em forte escala.


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