9 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 130

EFEMÉRIDES – Dia 9 de Maio
Gavin Lyall (1932 – 2003)
Gavin Tudor Lyall nasce em Birmingham, Warwickshire, Inglaterra. Jornalista e director de programas da BBC, publica o primeiro romance em 1961 — The Wrong Side of The Sky o sucesso alcançado pelo livro faz com que o autor se dedique exclusivamente à escrita. Gavin Lyall escreve 7 romances entre 1961 e 1975; cria a série Harry Maxim com 4 títulos publicados entre 1980 e 1988; a série Honour entre 1993 e 4 títulos. As obras do autor são consideradas narrativas de thriller/suspense, alternado entre o thriller de acção ou de aviação e o crime internacional. O autor é eleito presidente da Crime Writers’ Association que distinguiu os livros The Most Dangerous Game (1963) e Midnight Plus One (1965), editado em 1966 pela Dom Quixote com o título Meia Noite e Um, com tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

Guy Teisseire (1934)
Nasce em Alger, Argélia. No início da sua carreira de jornalista faz crítica de cinema. Trabalha como repórter militar durante a guerra da Argélia em 1957 e 1958 contactando com agentes secretos. Retoma a carreira jornalística e escreve o primeiro romance L’Histoire de Birgitt Haas em 1978 seguido de Un Peu Plus Loin Que L’Occident (1979) e La Main D’Abraham (1981). Segundo os críticos, Teisseire nas suas obras apresenta um ponto de vista original, ao mesmo tempo pessimista e desiludido sobre a relatividade da moral no meio político.  

Andreu Martín (1949)
Andreu ou Andrés Martín Farrero nasce em Barcelona. Romancista e argumentista tem uma extensa obra literária com contos infantis, 44 livros para jovens — com destaque para o personagem Flanagan vários trabalhos para teatro cinema e televisão e 53 livros policiários para adultos. Andreu Martín que escreve frequentemente como co-autor é considerado como um mestre do policial negro a sua obra literária tem sido distinguida com vários prémios e os seus livros estão traduzidos em vários países. E Portugal estão editados:
1 - Por Amor Á Arte (1991) Colecção Casos Difusão Cultural. Título Original: Por Amor Al Arte (1982) / Romance Negro
2 – Não Peças Sardinhas Fora de Época (1996), Nº1 Colecção Flanagan, Editora Contemporânea. Título Original: No Pidas Sardina Fuera De Temporada (1987) / Juvenil
3 – Todos Os Detectives Se Chamam Flanagan (1997), Nº2 Colecção Flanagan, Editora Contemporânea. Título Original: Todos Los Detectives Se Llaman Flanagan (1991) / Juvenil
4 – Não Laves as Mão Flanagan (1997), Nº3 Colecção Flanagan, Editora Contemporânea. Título Original: No No Te Laves Las Manos, Flanagan (1993) / Juvenil
5 – Flanagan de Luxo (1997), Nº4 Colecção Flanagan, Editora Contemporânea. Título Original: Flanagan De Luxen (1995) / Juvenil
6 –Alfagann é Flanagan (1997), Nº5 Colecção Flanagan, Editora Contemporânea. Título Original: Alfagann Es Flanagan (1996)

7 – Zero À Esquerda (1997), Nº1 Colecção Nirvana, Editora Contemporânea. Título Original: Cero A La Izquierda (1993) / Juvenil
8 – Polvos Numa Garagem (1997), Nº2 Colecção Nirvana, Editora Contemporânea. Título Original: Pulpos En Un Garage (1995) / Juvenil
9 – O Carteiro Toca Sempre Mil Vezes (2000), Nº3 Colecção Nirvana Editora Contemporânea. Título Original: El Cartero Siempre Llama Mil Veces (1991) / Juvenil
10 – Flanagan 007 (1996), Nº7 Colecção Flanagan, Editora Contemporânea. Título Original: Flanagan 007 (1996) / Juvenil
11 – A Espera Põe-te Assim (2003), Colecção Canto Novo, Editorial Teorema. Título Original: Espera, Ponte Así. Romance Negro, XXIII Prémio de la Sonrisa Vertical
12 – Os Blues do Detective Imortal: Assassínios Em Clave de Jazz (2007), Colecção Ficção, Editora Palavra. Título Original: El Blues del Detective Inmortal (2006) Romance Negro
13 - O Diário Vermelho de Carlota / O Diário Vermelho de Flanagan (Pack) (2007), Editor Duarte Reis. Título Original: El Diario Rojo De Flanagan (2004) / Juvenil


TEMA — DIÁRIO DE UM ADVOGADO — HUMANIZAR A JUSTIÇA
De Araújo
Estou a elaborar um habeas corpus e vejo pela janela do escritório que o sol, lá fora, está a fazer a vida mais bela.
A esta hora o Baile da Balança já começou, penso e salivo mentalmente. Imagino… como seria providencial para a Justiça, oportuna terapêutica para a aplicação regular do Direito, que certos meritíssimos e conspícuos órgãos do Ministério Público fossem mesmo disfarçados, ao Baile da Balança. Ver a vida. Senti-la directamente, nos ouvidos, com o ritmo da valse e do samba que é uma pincelada em tecnicolor nos consideranda, nos olhos, com o reboleio de certas ancas que reajustam a mais judicial cirrose… Como isso faria bem às decisões! Que viriam com conclusões naturais, de um fígado bom, de homens que sentiram o gosto da vida e, por isso, compreendem melhor.
Há meritíssimos que sofrem demais, porque são honestos demais, formalistas demais…
Virtude é sacrifício. Se é. Soltariam os impulsos, uma vez por ano. O Baile da Balança reajustaria socialmente o homem dentro do juiz.

TEMA — PEQUENOS GRANDES CONTOS DA LITERATURA UNIVERSAL — PARA ENTRAR NA LEI
De Franz Kafka
Diante da Lei vê-se um guardião. Chega um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guardião diz-lhe que, por enquanto, não tem como autorizá-lo a entrar. O homem pensa um pouco e pergunta depois se poderá entrar mais tarde.
— É possível — responde o guardião. — Mas não agora.
O guardião afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para dar uma olhada lá para dentro. Ao vê-lo assim, o guardião ri e diz:
— Se isso tanto lhe atrai, experimente entrar, apesar da minha proibição Mas repare sou forte. E mesmo que seja o último dos guardiões. De sala para sala, guardas cada vez mais fortes estão de prontidão, de tal maneira que não consigo sequer aguentar o olhar do terceiro depois de mim.
O homem do campo não esperava tanta dificuldade ser acessível a todos sempre, pensou, mas ao olhar o guardião enrolado no seu casaco forrado de pele, o nariz agudo, a barba à maneira tártara, longa, fina e negra, preferiu aguardar até que lhe fosse concedida licença para entrar. O guardião deu-lhe um banquinho e mandou que se sentasse ao pé da porta, um pouco de lado. Ali ficou dias e anos. Fez diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acabou por cansar o guardião que lhe fazia de vez em quando pequenos interrogatórios. Perguntava-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas eram perguntas lançadas com um tom de indiferença, como fazem os grandes senhores; no fim acabava sempre por dizer que ainda não o podia deixar entrar. O homem, que bem se provera para a viagem, empregava todos os meios custosos para subornar o guardião. Ele tudo aceitava, mas dizia sempre:
— Só aceito para que se convença de que não deixou de fazer alguma coisa.
Durante anos seguidos, quase que sem interrupção, o homem observa o guardião. Esquece os demais e aquele só se lhe parece o único obstáculo à sua entrada na Lei. Nos primeiros anos maldiz a sua sorte em alto e bom som; depois, à medida que ia envelhecendo, limitava-se a resmungar com os seus botões. Torna-se infantil, e como, depois de tanto examinar o guardião durante aqueles anos todos lhe conhece até as pulgas do casaco de pele que veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guardião. Finalmente, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro à sua volta ou se são os olhos que o enganam. Mas ainda percebe no meio da escuridão um clarão que ternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora é a morte que se aproxima. Antes morrer — e acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos que vão culminar numa pergunta que ainda não fizera ao guardião. Acena-lhe num gesto de mão, pois não conseguia mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta precisa de se inclinar para baixo porque a diferença de alturas se acentuara ainda mais em detrimento do homenzinho do campo.
— Que deseja saber ainda? — pergunta o guardião. — é mesmo insaciável.
— Se todos aspiram à Lei — disse o homem —, como é que, durante todos estes anos, ninguém mais, a não ser eu, pediu para entrar?
O guardião, notando que o homem está no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte:
— Aqui ninguém mais, senão você, podia entrar, porque só para você era feita esta porta. Agora vou-me embora e posso fechá-la.

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