3 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 124

EFEMÉRIDES – Dia 3 de Maio
John Collier (1901 - 1980)
John Henry Noyes Collier nasce em Londres. Poeta, dramaturgo e escritor é descrito como um mestre de short stories, a maioria publicada entre os anos 30 e anos 50 no The New Yorker e que estão reunidas no livro Fancies And Goodnights (1951). No campo do policiário, o autor escreve 60 short stories, 11 romances de mistério / detective. John Collier recebe em 1951 o Edgar Award, na categoria Best Short Story e em 1952 o International Fantasy Award, ambos para Fancies And Goodnights.

Edgar Lustgarten (1907 – 1978)
Edgar Marcus Lustgarten nasce em Manchester, Inglaterra. Advogado, criminologista e novelista é responsável por programas de rádio e séries de televisão com conteúdos relacionados com o sistema judicial ou crimes reais. Escreve 5 romances policiários
A Case to Answer (1947), Blonde Iscariot (1949), Game For Three Losers (1952), I'll Never Leave You (1971) e Turn The Light Out As You Go (1978). Escreve ainda um argumento para cinema The Man Who Wouldn't Talk (1958), 5 peças para rádio e vários livros sobre crime real


TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 10
(continuação de CALEIDOSCÓPIO 109)
A invenção da imprensa Gutenberg — Istambul, 1438 — e aproveitamento até à mecanização em 1795, por Lord Stanhope, aproxima o povo da literatura.
Singularmente as narrativas sobre criminosos antecedem as do polícia. Das “Imagens de Epinal”, espécie de folhas soltas com estampas, às “CompIaintes”, canções populares cantadas, lidas e vendidas nas feiras, preenchem a imaginação popular.
É verdade que não existia uma polícia, no sentido de organização e eficiência.
Resultado deste factor, da própria estrutura dos estados, a criminalidade é fruto da ignorância, fome e miséria. Rouba-se e assassina-se de dia como de noite. Era um salve-se quem puder e o aplauso a quem se salvava — verdadeiramente o herói.
Para Ernest Mandel — “Delightful Murder”—é “a tradição do protesto social e de rebelião” o que se expressa nas histórias dos “bons bandidos”, de Robin dos Bosques a Fra Diavolo.
Robin Hood ou Robin dos Bosques (Robert Fitzooth) é um bandido saxão que terá por base uma lenda do séc. XII ou XIII e inspirou Walter Scott para escrever “Ivanhoe”; muito mais recente, revelado pelo italiano Michele Pezza, Fra Diavolo, alcunha de Frei Diabo, dirigia um bando de camponeses contra a opressão francesa, no reino de Nápoles.
O símbolo de Robin dos Bosques é, aliás, fértil em todas as épocas e localizações: Till Eulenspiegel, camponês alemão é consagrado pela lenda no século XIV Louis Dominique Bourguignon — o cantado “Cartouche” (1693-1721), que se dedicava a roubar todas as celebridades do reino, perante o prazer e admiração do povo, encantado com tais proezas, sentido de humor, generosidade e valentia. Cartouche, entretanto, longe de ser “um ladrão generoso” a verdadeira história afirma-o como um valdevinos, várias vezes criminoso ou assassino, ladrão também, frequentador de tugúrios das tabernas ou de prostitutas reles. Aos vinte e oito anos é condenado a ser dilacerado vivo e acaba a sua triste existência na “roda”. A denúncia dos seus cúmplices valeu-lhe ser retirado da Cruz de Santo André e por mercê dos juízes, abreviaram o seu sofrimento pela morte. A lenda favorável a Cartouche resulta de uma comédia burlesca de Marc-Antoine Legrand, “Cartouche ou os Ladrões”, mas sempre proibida de representar enquanto viveu e, uma outra que chegou a ser representada no teatro Palais Royal, por comediantes italianos, denominada “Arlequin Cartouche', porém, a verdadeira notoriedade resulta, com maior certeza, dos folhetos vendidos e cantados nas ruas -o mundo desses perdedores crónicos e famintos, admite como um acto de coragem atacar um transeunte retardado e solitário, dez contra um, despojarem-no de algumas poucas moedas e exibirem como troféu uma cabeça recém cortada, atirada como desafio para a roda da Praça.
Louis Mandrin (1725-1755) natural de Sabóia (França), converteu-se em bandoleiro aos 28 anos, demonstrando possuir qualidades natas de um grande capitão a frente dos seus sequazes, em toda a Sabóia; Rinaldo Rinaldini (1797) herói-vilão conhecido pelos escritos de Christian August Vulpius; Dick Turpin, jovem carniceiro da cidade inglesa de Hampstead, salteador de diligências, generoso e justiceiro; Robert Campbell MacGregor o conhecido Rob Boy escocês, bandido generoso extraído da tradição por Walter Scott; o monge Hilarian (Vouzy Djoikely (1784-1842) da Albânia e tantos outros, mesmo o portuguesíssimo José do Telhado (1818-1875), recordado  por Camilo como “J.T , o generoso cavalheiro”.
As crónicas com maior empenho, exploram a criminalidade num verdadeiro catálogo de crimes, e criminosos. “Liber Vagatorum”, imprimido em Basileia entre 1509 e 1510, é um ficheiro de modus operandi da história criminal. “The Belman of London” (1608), de Thomas Dekker, Der Große Schauplatz Jämmerlicher (1679), de Georg Philipp Harsdörffer, de Nuremberga, são outros tantos reportórios do crime. Em 1669, Hans von Grimmelshausen retrata em “Simplicius Simplicium” o movimento dos pequenos delitos e uma reflexão geral sobre a sociedade de então.
A grande moda que consiste em publicar biografias mais ou menos fantasiosas., de criminosos, exemplifica-se em “Geschicht und Histori von Land-Graff Ludwig dem Springer, Weißenfels (1698) de Johann Beer.
Neste mesmo ano inicia-se a publicação, sob anonimato e com algum sucesso, de confissões dos condenados à morte, na prisão de Newgate — sem dúvida a mais tenebrosamente famosa da história da criminologia.
Daniel Defoe (1660-1731), conhecido autor de Robinson Crusoe, não resiste à moda e publica em 1724 as memórias de John Sheppard, ladrão de caminhos, na senda de “Cartouche”.
Em 1734 é a vez de François Gayot de Pitaval (1673-1743) publicar Causas Célebres et Interessantes, Avec les Jugemens qui les Ont Décidées (18 volumes) onde a maioria dos escritos começam por explanar os procedimentos para a descoberta dos crimes e terminam com comentários vários sobre a conduta dos juízes. São esboços de narrativas que Friedrich von Schiller (1759 - 1805) continuará esboço mesmo, de um deles, um autêntico conto policial que seria publicado em 1789, no “Der Geisterseher”.

Henry Fielding, um inglês (1707-1754) procedente, da nobreza, educado em Eton e, que estudou direito em Leyden, por falta de assistência económica familiar, viu-se obrigado a voltar a Londres onde começou a escrever, deixando um nome assinalável como novelista e comediógrafo. Após obter um casamento vantajoso, voltou a estudar com altas classificações. Nomeado juiz, funda em 1750 os Bow Street Runners, homens treinados, hábeis e corajosos, vestidos como qualquer vulgar cidadão consoante as condições, misturavam-se com as multidões e observavam os malfeitores nos lugares que habitualmente frequentavam. O segredo dos Bow Street Runners só foi descoberto em 1758.
O interesse de Henry Fielding pelos assuntos criminais era anterior ao próprio exercício da magistratura, o que o leva a escrever “The Life of Jonhatan Wiid, the Great”, glorificação de um famoso bandoleiro, obra que deixa antever uma ironia sádica e comparativa da grandeza do criminoso com a de certos personagens históricos.
Caso curioso, quando Fielding se retirou foi substituído pelo seu meio-irmão John Fielding juiz principal da Polícia Metropolitana, cuja, cegueira não o impedia de exercer com resultados o exercício da actividade, já que a falta de visão era compensada por uma extraordinária acuidade auditiva e prodigiosa memória.
Morreu em 1779. Antes instalou a Metropolitan Justice, por esquadras nos vários bairros da cidade, trabalhando os juízes destas em ligação com a central de Bow Street.
Os “runners” só foram substituídos em 1343, com a criação da Scotland Yard.

Mas, voltando a Henry Fielding e ao seu personagem: quem era, efectivamente, Jonathan Wild? Um personagem de ficção ou real?
Real. Nascido em 1682 em Wolverhampton, fez-se um pequeno ratoneiro desde tenra idade. Esteve encarcerado por quatro anos, durante os quais aprendeu com os reclusos toda a espécie de artimanhas e arranjou amizades sumamente úteis. Ao ser libertado, não tardou a ganhar nome entre os parceiros de crime graças às suas evidentes qualidades de inteligência e organização, que o converteram numa espécie de Imperador do Crime.
Em 1710 já havia montado uma verdadeira rede de distribuição e venda de mercadorias roubadas, inclusive uma sucursal no estrangeiro ao mesmo tempo que conseguira a nomeação de “Constable” — uma espécie de polícia, paga em função das prisões efectuadas — sendo especialmente diligente para com os que não pertenciam ao seu bando e não era recomendado pelas suas proezas.
Em 1725 este jogo duplo atira-o, para a grande, tenebrosa e segura prisão de Newgate, onde de pronto fomenta um motim, não para se evadir mas para dar fuga a um cúmplice que, no acto do julgamento poderia converter-se em testemunha perigosa. Tudo em vão. Foi condenado e enforcado em Maio de, 1725. O curioso é que não só foi cantado entusiasticamente na época — por exemplo em The Beggar’s Opera (1728) de John Gay — como dois séculos mais tarde, em 1928, deu origem a um a peça de teatro “Die Dreigroschenoper” da autoria de Bertolt Brecht e do compositor Kurt Weil e ainda a um filme musical alemão “Die 3-Groschen-Oper” (1931), que foi alvo de um processo judicial por utilização indevida de uma canção de John Gay.

NEWGATE PRISON

Sem comentários:

Publicar um comentário