14 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 135

EFEMÉRIDES – Dia 14 de Maio
Eoin Colfer (1965)
Nasce em Wexford, Irlanda. É um escritor premiado e famoso pelos seus livros para crianças e jovens. A série Artemis Fowl, iniciada em 2001 conta já com 7 livros — o 8º agendado para Julho deste ano — e enquadra-se num género literário habitualmente designado por fantasia científica. O autor publica também vários livros aventuras: históricas e ficção científica. No género policiário escreve Half Moon Investigations (2006), um romance de mistério protagonizado por Alfred Moon, o melhor investigador da pequena cidade irlandesa se Lock e ainda Plugged (2011), um livro para adultos recheado de humor perverso e uma intrigante sucessão de crimes das pessoas que rodeiam Daniel McEvoy. Em Portugal estão publicados os seguintes livros:
1 – Artemis Fowl: Ouro das Fadas (2002), Nº 25 Colecção Minoria Absoluta, Editora Dom Quixote. Título Original: Artemis Fowl (2001)
2 – Artemis Fowl: Incidente no Ártico (2003), Nº 29 Colecção Minoria Absoluta, Editora Dom Quixote. Título Original: Artemis Fowl: The Arctic Incident (2002)
3 – A Lista dos Desejos (2004), Nº 67 Colecção Estrela do Mar, Editorial Presença. Título Original: Artemis Fowl: The Wish List (2003)


TEMA — HUMOR NEGRO — RUA TRANQUILA
De Victor Dimas
De manhã, apareceu o carro estacionado. Era um enorme e soturno Mercedes, com as cortinas cinzentas bem descidas a ocultar o quer que fosse.
A princípio, todos repararam mas ninguém se importou com o insólito estacionamento. Depois houve qualquer coisa que excitou o faro do Tom, o belo pastor alemão do farmacêutico.
E vá de começar latindo, às voltas, cheirando para o interior do automóvel.
O dono chamou-o energicamente sem conseguir mais do que um abanar de cauda. E mais latidos.
— Que será? O bicho “vê” qualquer coisa lá dentro, mas não são contas do nosso rosário. Vem cá, Tom!
E o boticário retrocedeu com a coleira do cão bem agarrada, a imergir o nariz no meio dos frascos.
Mas, nós sabemos o que são os dias nas ruas tão calmas das vilas da Beira. Quando aparece algo de invulgar, nem que seja um turista de óculos escuros e Kodak ao peito, é um cochichar de interrogações, um afastar de cortinas nas janelas fechadas, um formigueiro tonificante a quebrar o marasmo habitual.
E um carro daqueles…
Bem, o Pedroso do Armazém veio até à esquina. O cão já estava de novo a ladrar desalmadamente sem que o Lopes Farmacêutico lograsse acalmá-lo.
E veio o Antunes da garagem mais a senhora Henriqueta dos bolos. E ninguém descortinava o dono do carro nem o que diabo seria que excitava á raiva do Tom.
— É comida que está lá dentro — aventurava a mulherzinha.
— Qual! Vossemecê acha que o meu cão passa fome? Ora essa!
— Hum, talvez o carro lhe tenha batido quando passou, e agora o bicho quer vingar-se.
— Ná, não deve ser nada disso…
O Teófilo dos jornais vinha passando. Emitiu, também, a sua “abalizada” opinião:
— Deve ser algum cadáver que está fechado no carro. Ainda ontem o jornal dizia…
— Credo, homem! Uma coisa dessas é lá possível!
— Ora, ora, ti' Henriqueta, eu tenho lido cada uma de crimes aqui nos “aperiódicos”…
— e batia uma palmada convicta na fonte de puríssima intelectualidade que trazia a tiracolo — às vezes até parece que só há assassinos lá no estrangeiro. Há dias, uma notícia…
— Está bem, está bem. Isso é lá fora… deixa-te de romances, ó Teófilo — cortava o Antunes, viajado e pouco atreito a histórias.
— Se o carro está aqui, desde manhã cedo, onde estará metido o dono?
— E se ele vem de repente, já pensaram que se rirá destes paspalhões, embasbacados à roda do carro?… até parece mal! — disse o Pedroso, com ar de afectada conveniência.
— Bem, mas o cão…
E decorreu meia hora, que mais espevitou a agressividade do animal e a curiosidade das pessoas.
— É capaz… é capaz de ser isso… o que o Teófilo disse. A mim não me cheira a mortos, mas os cães têm um nariz tão apurado…
O alvitre ficou suspenso, e o que a princípio pareceu um disparate rotundo, começava agora a insinuar-se na imaginação das gentes.
E o caso estava a pedir “guarda”, lá isso estava. Onde já se viu deixar um carro daqueles, numa rua tão sossegada, e para mais com um morto lá dentro?
Era insultante, pois claro. Escandaloso.
E talvez que o carro fosse roubado e posto ali para acusar algum dos pacíficos moradores, não só de roubo como de assassínio, que agora não restavam dúvidas quanto ao macabro conteúdo tapado pelas cortinas.
O Teófilo resolveu:
— Está visto. Vou chamar a Guarda.
— Não é preciso, meu amigo. Eu vou já desvendar o segredo… com licença, sim?
O pasmo, agora sobre a curiosidade, comprimiu os belicosos como imaginativos assistentes. Era ele, o futuro genro do Doutor Cardoso, que estava de férias no Algarve com a família.
Ia explicando, enquanto abria a porta, com um gesto para o prédio grande ao fundo da rua:
— Supunha que tinham voltado ontem… bem, o sol morde um bocado e os estofos vão perdendo a cor se não cuidarmos. As cortinas sempre ajudam.
Todos se empurraram para ver o “cadáver”. Então, com um sorriso divertido, o jovem dono do Mercedes exibiu, pelo cachaço, um magnífico e assustado gato siamês, bem alto, para que todos vissem o belo presente que ia dar à noiva… e para livrá-lo da ancestral animosidade do Tom.


TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 12
(continuação de CALEIDOSCÓPIO 127)
Salvo no que respeita ao Egipto dos Faraós, à China, aos Incas, que teriam estruturas policiais organizadas e eficazes, conforme se faz notar anteriormente, convém dar relevo a uma outra hipótese, provável, de outras organizações policiais.
Das brumas do passado, surge o registo do mais velho homicídio: arqueólogos descobriram na antiga cidade de Nippur (actual Iraque), história, registada em placas de barro datadas de 1850 a.C. e escrita em língua suméria, de três homens e uma mulher julgados pelo assassínio do esposo desta. O rei, Ur-Ninurta, entrega o caso ao julgamento da Assembleia dos Cidadãos, os quais condenaram e executaram defronte da cadeira da vítima — ao tempo era essa a lei oficialmente existente — os três homens; a mulher Nin-Dada foi absolvida.

Conhecem-se os curatores de Roma, e pouco mais. A polícia, até muito tarde no tempo, teria apenas a missão de vigilância sobre todas as esferas da vida pública, entretanto, sem especialização quanto a investigação e castigo do crime. Naturalmente que teriam existido excepções pontuais. Fielding, já citado, o Tenente Degrais (1676), na Marechaussee, a polícia de segurança pública a cavalo e apontado como o primeiro detective da história não fictícia e imortalizado pelo escritor E.T. Hoffmann, através da famosa novela “Das Fräulein von Scuderi” (1819).

…Ter-se-ia feito passar por abade da corte e teria atraído a marquesa a um encontro galante, fora do convento onde a esperavam com o abade Duval, os arqueiros do Rei
Esta marquesa, não é mais do que a velha conhecida Marie-Madeleine d'Aubray, marquesa de Brinvilliers, sob que recaem o cometimento de dezenas de envenamentos.
O Tenente La Reynie, colaborou com efectividade na descoberta de todo o trama Brinvilliers e, após o castigo deste, coube-lhe a reorganização da polícia parisiense.
O padre Pirot que assistiu a envenenadores faz dela um retrato muito lisonjeiro. “Muito pequena e miúda, tinha uns belos olhos azuis, adoráveis cabelos castanhos, um contorno de rosto redondo e belo, a pele extraordinariamente branca, o nariz bastante bem feito, e sem quaisquer traços desagradáveis”.
É o mesmo padre que descreve os últimos momentos:
“Um golpe surdo, cujo som me chegou aos ouvidos. Era o golpe que o carrasco lhe dera para lhe cortar a cabeça. Fê-lo tão habilmente que não vi o golpe passar… o ruído pareceu-me como o de um grande golpe de cutelo que fosse dado para cortar sobre o cepo. Não vi que o carrasco apalpasse o pescoço para tirar medidas e encontrar o lugar preciso em que devia bater. Nada disso. A Senhora de Brinvilliers ainda mantinha a cabeça bem firme… com um só golpe ele cortou-lha, um golpe tão certeiro que ela ficou um momento sobre os ombros sem cair!”

Mas as proezas de Nicolas de la Reynie não ficam por aqui. Em 1679 a quantidade de pessoas presas por envenenamento aumentava todos os dias. Muitos dos que rodeavam o rei são presos. Catherine Voisin, uma mulher extremamente hábil é condenada e queimada viva em 1680. Deixa uma acusação terrível sobre o uso do “pó de feitiço” contra Madame de Montespan amante do rei e mãe de dois filhos de Luis XIV. Tal, valeu-lhe o exílio, mas La Reynie que nessa altura tinha 72 anos (1697), vendeu o seu cargo por 50000 escudos, aproveitando o rei para mandar queimar todos os processos dos venenos. Ignorava, porquê, Le Reynie, deixou notas que sobreviveram ao tempo.

Todos estes factos ajudam a compreender o que terá influenciado a literatura da época. Já que, como escreveu Sciascia, “os delinquentes e a polícia são os dois extremos do mesmo jogo”.

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