12 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 133

EFEMÉRIDES – Dia 12 de Maio
Leslie Charteris (1907 – 1993)
Leslie Charteris Bowyer Yin nasce em Singapura filho de pai chinês e mãe inglesa. Estuda em Inglaterra e trabalha em França, Malaia e EUA como jornalista, escritor e editor. Em 1926 adopta legalmente o nome de Leslie Charteris. É um autor muito popular principalmente por ter criado Simon Templar, o Santo, conhecido como o Robin Hood do crime moderno. O Santo é o herói de 90 aventuras publicadas em contos e livros; aparece pela primeira vez em 1928 no romance The Saint Meets The Tiger que também foi editado com os títulos Scoundrels Ltd., Crooked Gold, Meet—The Tiger! e The Saint Is In Danger. Leslie Charteris escreve argumentos para pelas de rádio e é editor da revista Suspense e da The Saint Detective Magazine, mais tarde chamada The Saint Mystery Magazine. Em Portugal estão editados vários livros do autor: CLICAR AQUI


TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — ENIGMAS ESPÉCIE-TIPO SEJA O JUIZ
Em Portugal, salvo raras excepções, não é corrente a apresentação de problemas deste tipo, nem tem demonstrado aceitação, ao inverso de outros países.
Tal tipo de problemas fundamenta-se, em regra, em questões de direito, muito pouco acessível ao nível cultural da grande maioria dos habituais concorrentes — produtores ou decifradores — daí a escassez da publicidade. E, não obstante, uma espécie com muito interesse, já que neles estão em causa aspectos da realidade quotidiana do direito de cada um. É importante o conhecimento da Lei e, não sendo a ignorância da Lei pretexto ou isenção para o seu incumprimento, muitos contribuem os problemas deste tipo como vínculo ameno e útil para a sua propagação.
Nos EUA, mesmo no Brasil, com apoio em decisões dos competentes Tribunais, os problemas deste tipo têm invulgar aceitação.
Seja o Juiz permite o uso das faculdades da inteligência. Facto essencial na sistematização, na coordenação lógica de ideias, das imagens, das percepções dos seus elementos.
Um dos maiores perigos que ao Juiz se pode deparar será, porventura, a indecisão, a preocupação de não se mostrar suficientemente sereno e reagir em prejuízo da Justiça. Esta está acima do coração. O objectivo deve determinar-se na Lei pela Lei, na Justiça pela Justiça.
Julgar, dizia Platão, é recordar-se de um mundo inteligível em que todas as ideias que entram no julgamento são desenvolvidas numa imutável e indecomponível unidade. Todas as impressões que chegam à consciência através dos sentidos, todas as ideias que acordam em nós, sugeridas peia conversa ou pela leitura, todos os sentimentos, todas as impressões que podem fazer nascer ou guiar até ao nosso conhecimento as nossas relações com o mundo exterior e os nossos contactos com os homens, todos os fenómenos psíquicos, passam por um processo de estudo e análise.
Em termos práticos a convicção e acerto da decisão passa por:
— Verificação directa de um fenómeno, uma situação, um facto material;
— Uso de meios de raciocínio deduzindo, de factos conhecidos (indícios), factos ignorados ou contrastantes;
— Provas directas, indirectas ou presunções legais;
— Atestações alheias, face às testemunhas, peritos e declarações das partes;
— Experiência (a administração da justiça exige uma multiforme experiência da vida, porque aos Tribunais chegam anomalias e deformações que são ignoradas pela normalidade);
— Coordenação dos factos expostos, puníveis e não puníveis, no contexto da Lei.


TEMA — ENIGMA PRÁTICO SEJA O JUIZ O HOMEM QUE APRECIAVA ALICES
De M. Constantino
Rodolfo era um homem muito amoroso, Pouco sagaz, talvez, mas cupidinoso em extremo. Amava as Alices e, todos os seus prazeres e desgostos provinham do doce nome que lhe dominava a mente: Alice.
Ficou realmente surpreendido ao ser preso sob a acusação de bigamia, consoante a queixa da sua terceira esposa… uma Alice.
A sua história matrimonial, segundo relato próprio perante a Justiça e com confirmação oficial, resume-se assim:
Em 1969 casou civilmente e pela primeira vez, com a bela e jovem Alice Barroso, porém, pouco depois, concluindo ter cometido um erro, deixou-a e partiu para Moçambique. Ali, um ano depois, descobriu Alice Lemos, apaixonou-se e casou segunda vez, sem se divorciar da primeira Alice que, em 1970, quando ela própria contraiu casamento, lhe concedeu o divórcio.
Voltou a Portugal em 1972 e, encontrando aquela que seria a terceira Alice (sabe-se lá quantas Alices passaram, entretanto, na sua vida de amorudo!) desta vez, Alice Gomes, defrontou no mesmo ano e mais uma vez o oficial do registo civil.
O sarilho deu-se cerca de dez meses depois. A Alice III descobriu que ele nunca se divorciara da Alice II (era, portanto, um bígamo) e não se escondia de procurar outras mulheres… Alices, por seu mal!
Mas explicava Rodolfo, não sou um bígamo! Uma vez que casei com a Alice de Moçambique na pendência de casamento com Alice I, o casamento é nulo, e porque esta se divorciou, quando casei com Alice III, era um homem disponível.
Que diria, entretanto, o Tribunal?
Seja o Juiz. Com toga ou sem toga, o seu julgamento é a sua a solução
A nossa será apresentada num dos próximos dias


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — DESTRUIÇÃO
De Hélia
Engoli em seco. Devia ter enlouquecido. Era tudo demasiado absurdo. Cheguei junto da janela. Os prédios brilhavam com o seu cinzento aço.
De repente lembrei-me de que no andar de baixo morava um médico e acto contínuo pensei em ir consulta-lo. Ao passar junto do espelho olhei instintivamente: o que vi quase me fez desmaiar.
Comecei a gritar. Queria parar mas não podia. Gritei até ficar rouca. Mas ninguém apareceu. A imagem que o espelho me oferecia era um pesadelo. O meu rosto era o mesmo, mas a pele era azul, dum tom forte e profundo. A boca era vermelho-escura, os olhos dourados. Os cabelos verde-escuros completavam o horror.
Deitei-me sobre a cama e solucei, desesperada. Não sabia o que fazer.
Passou muito tempo. Comecei a sentir fome. Levantei-me cambaleando, e dirigi-me para a cozinha. Lá, também tudo se transformara. Evitei pensar. A cabeça estalava de febre. Abri o frigorífico e tirei um bife e batatas já fritas. O bife estava negro e as batatas lilases. Dominando a repugnância, comi vagarosamente. Os alimentos tinham um sabor diferente, não deixando apesar disso de serem saborosos. Tive sede e fui buscar que agora era de um azul límpido. Era também um pouco adocicada.
Enquanto comia, tentava raciocinar sobre o que iria fazer. Lembrei-me de ligar a telefonia. Os locutores pareciam malucos e estação emissora um manicómio. Difundiam as notícias mais estranhas e pediam calma à população, numa -voz pouco menos que guincho.
Bonito! Pelos vistos o mal atacara toda a população. Por um lado senti-me melhor. A hipótese da minha loucura estava posta de parte.
Uma estranha epidemia espalhara-se pela cidade e o pânico era completo. De repente tive vontade de cantar. Procurei reprimir-me mas não consegui. Os meus lábios começaram á formar palavras numa língua desconhecida. As cordas vocais modulavam uma lenga-lenga irritante e sem fim.
O meu cérebro era um caos. Inesperadamente senti-me levantar da cadeira. Quis parar e não pude. Continuei a caminhar até à janela. A minha mente trabalhava furiosamente contra aquela vontade psíquica que não era a minha.
As mãos abriram a janela. O meu corpo passou as pernas para fora do parapeito. O cérebro estava paralisado de terror. Olhei os dezassete andares que me separavam do solo.
A rua já não estava deserta. Dezenas de corpos azuis e imóveis cobriam o, asfalto vermelho.
PORQUÊ?
Não tive resposta.
Depois… saltei no espaço.


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