19 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 140

EFEMÉRIDES – Dia 19 de Maio
Paul E. Erdman (1932 – 2007))
Paul Emil Erdman Nasce em Stratford Ontário Canadá. Filho de pais americanos, completa a formação académica na Suíça e trabalha como analista financeiro e como economista em instituições de relevo. Em 1965 funda e preside um banco na Suíça, na sequência do colapso do banco Erdman é acusado de fraude e preso. Enquanto aguarda julgamento começa a escrever sobre finanças e ficção, em especial romances com tramas do mundo da alta finança. O seu primeiro livro, The Billion Dollar Sure Thing (1973), editado também com o título Billion Dollar Killing, é um bestseller e recebe o Edgar Award para First Novel, o livro seguinte The Silver Bear (1974) é adaptado ao cinema; no total Paul E. Erdman publica 9 bestsellers entre 1973 e 1993. Em Portugal, The Panic Of'89 (1986) é editado pelo Círculo Leitores, em 1987, com o título 1989 Pânico Na Bolsa e também em 1989 pela Livros do Brasil, na Colecção Vida e Cultura, com o título O Pânico de 1989.


TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — ENIGMAS ESPÉCIE-TIPO DE IDENTIFICAÇÃO
A classe que nos propomos referenciar, é praticamente uma espécie em extinção: de há muitos anos a esta parte que não descortinamos, em publicação, um problema deste género, por exemplo. E, no entanto, este tem uma temática vasta e variada de exploração.
Do retrato falado às impressões digitais, destas à fotografia, são métodos usados pela polícia em todo o mundo. Igualmente com um pouco de imaginação e habilidade, aplicáveis à problemística.
A. Varatojo, embora com o título de testes, oferece no ABC Policial alguns exemplos.
O uso de disfarce tenta não só os delinquentes como a própria polícia: aqueles para não serem reconhecidos por estes e estes por aqueles.
Na literatura policiaria exemplificam-se os mestres do disfarce nas personagens de Nick Carter, Sherlock Holmes, Arséne Lupin, etc.
Na literatura como na vida real as alterações identificativas limitam-se, na quase generalidade, em deixar crescer o cabelo, a barba ou o bigode ou, pelo contrário, em cortá-los, usar óculos, mudar as roupas habituais, etc. Há, porém no indivíduo, aspectos externos que não se podem mudar sem dificuldade.
Ernest Bramah, em O Inexpugnável, através do diálogo de Max Carrados, o detective cego, propõe uma verdadeira lição sobre o tema. Diz:
O gerente encolheu os ombros inexpressivamente e observou:
— O senhor esquece que os nossos funcionários o viram? Ou não podemos confiar nos nossos próprios olhos?
— Uma presunção sensata, mas nem sempre estritamente digna de confiança -insinuou Carrados mansamente.
— Eu não posso estar enganado! — reafirmou o gerente.
— Então será capaz de me dizer, sem olhar agora, qual a cor dos dois olhos do Prof. Bulge? ~
Pairou no ar um momento de curiosa expectativa.
— Confesso que não sei, Sr. Carrados — declarou por fim. — Não me refiro a pormenores como esse.
— Então o senhor pode estar enganado — declarou Carradas delicadamente mas incisivo, — Não basta a cabeleira, o venerando cavanhaque, o nariz proeminente e as sobrancelhas grossas… Não, não basta. São detalhes que mais facilmente se podem disfarçar. Eles chamam a atenção. Se o senhor desejar precaver-se contra decepções, observe antes os olhos e principalmente as pintas que possam haver neles, a forma das unhas, o aprumo das orelhas e a sua forma. Estas são coisas que não podem ser disfarçadas…
Também Walt Anderson, em O Fugitivo, nos dá a imagem de um homem que na angústia da fuga, esquece o pormenor indisfarçável:
— Agora… diga-me uma coisa! Como foi que conseguiu manter-se sempre no meu encalço? Mudei de nome, de corte de cabelo, até mesmo as minhas feições…
Obtém a resposta:
Mas o senhor esqueceu as orelhas. As orelhas são um meio extraordinário de identificação. O padrão básico de uma orelha nunca mudou, nem qualquer das suas partes componentes: O lóbulo, o tragus, o antihélice, o antitragus, a concha. As suas formas natas são muito fáceis de reconhecer.

São de facto, as orelhas, a parte mais característica do corpo, depois das impressões digitais. Quando as pessoas têm de ser identificadas por uma fotografia, oferecem um papel decisivo, Além de terem oito partes principais e distintamente identificativas, mostram peculiaridades inconfundíveis de indivíduo para indivíduo. Exemplos:

1 - Hélice redonda; 2 - extensão darwiniana; 2 - tubérculo darviniano: 4 a 8 - diferentes formas de hélice
As cicatrizes, verrugas, marcas de tatuagem, que constituem as melhores características do retrato falado de Bertillon, têm hoje pouca importância por poderem ser eliminadas pelo uso de cosméticos adequados ou operações plásticas.
Não há dúvida de que um bom cirurgião plástico pode operar maravilhas quanto a alterar a aparência facial; porém, pouco resultado terá se o delinquente não mudar os seus hábitos, cortando toda a conexão com o antigo ambiente e começando vida nova noutro lugar.
Nem sempre o recurso à cirurgia plástica é eficaz. Numa cara normal é difícil efectuar trocas que realmente enganem, como é difícil ocultar as provas da operação no tempo limitado, de que um perseguido dispõe em regra. As dificuldades acumulam-se pois que não bastam mudar ou ocultar o rosto, mas ainda o seu porte, maneiras de andar, hábitos, etc…
A situação será diferente quando a pessoa procurada possuir uma deformação peculiar e a consegue ocultar pela cirurgia: uma cicatriz, nariz quebrado, um sinal de nascimento ou qualquer outra das mutilações possíveis, que atraiam a atenção e cuja ausência desviará essa mesma atenção. Neste caso só por inspecção directa e cuidadosa poderão ser notados os sinais da operação, o que nem sempre é possível.
O facto real é que, para além da possibilidade de se mudar de aparência ou porte, há algo que a cirurgia não pode ocultar — a personalidade, a individualidade, o historial.
São exactamente estas características, imutáveis ou extremamente difíceis de ocultar no ser humano, insertas no texto dos problemas do género, que constituem as tramas e são pistas para identificação do personagem que estiver em causa.
Aqui .ficamos com uni exemplo do que acabámos de falar sobre o problema da identificação.


PRENDAM ESSE CEGO!
De M. Constantino

O cego era um homem de meia-idade. Pobremente vestido, é certo, porém de aspecto limpo.
Tomara poiso habitual perto do Banco dois meses antes. Ele e o impassível cãozinho que o guiava.
A sua humildade e simpatia conquistaram de imediato os funcionários daquele. Acostumara-se a bater de mansinho na porta semi-encerrada, antes da abertura ao público. Era convidado a entrar, e recebia com humildade, sorriso nos lábios, uma pequena moeda de cada um, uma maior da parte do gerente.
Naquele dia, o cego entrou, como de costume. Mas não havia cão a guiá-lo: uma máscara tapava-lhe o rosto e, na mão firme, mostrava uma automática reluzente.
Atónitos, ninguém fez um gesto. Cerca de 3.000 contos, que haviam sido tirados do cofre-forte para os pagamentos previstos no dia, foram atulhar-lhe os largos bolsos.
Recuando, o homem atirou para o meio da sala deserta um saco enrolado e avisou que continha uma bomba que rebentaria dentro de segundos.
Todos se lançaram para o chão, na ânsia de escaparem à deflagração em perspectiva.
Quando, por fim, o alarme foi accionado, um carro, cá fora, acabava de arrancar em velocidade.
Escassos minutos depois, a polícia chegou. Não havia bomba.
O cego acabava de chegar ao poiso habitual, com o fiei cãozinho. Sem dinheiro e sem pistola.
Calmamente, preparava-se para o peditório diário.
Arrastado ao Banco, posto em confronto com os funcionários do mesmo, nada de concreto se concluiu. O homem seria mesmo cego. Naquele dia não entrara no estabelecimento bancário. O seu guia adoecera, demorara-se! Não quisera incomodar.
O cão, tristemente, encolhia o rabo entre as pernas… confirmativo.
Nenhum transeunte, num dia infelizmente escasso de passantes, dera pelo roubo.
Nenhum indício.
Começara a duvidar-se se alguém não se fizera passar pelo cego.
Mas o inspector era um homem paciente. Conhecia toda a espécie de truques da sua profissão e das alheias.
Desconfiado se não estaria face a um falso cego, espreitou o homem de longe, estudando os seus movimentos, as suas atitudes. Passeou-se diante, silenciosamente, parou na sua frente e, de imprevisto, levantou a mão rapidamente, chegando-lhe dois dedos espetados aos olhos. O olhar deste nem tremeu.
Afastou-se e voltou a passar-lhe perto, atirando para os seus pés uma moeda de elevado valor. Foi espreitar de longe. O cego, entretanto, nem se mexera: aguardou que um transeunte passasse perto e pediu-lhe para apanhar o dinheiro.
Persistiu. Mandou notificar o cego para comparecer no dia seguinte na esquadra, a fim de assinar um depoimento.
Acompanhou-o, de longe, no percurso.
Era como que o cerco de um caçador a um animal condenado.
Viu o homem aproxima-se lentamente. Parar um instante no cruzamento, acender o cigarro aguardando o sinal verde do semáforo, incitar com um ligeiro toque na rédea o cão-guia e atravessar.
Ouviu a seca resposta do polícia de guarda à porta:
- Suba. Segundo andar, terceira porta à direita!
Antecipando-se, subiu a íngreme escada cujo corrimão ostentava flagrante cartaz: “Atenção - Pintado de fresco”.
Quando o notificado entrou, o inspector ficou a observar o homem a ajeitar-se com à vontade na poltrona, cruzando, em expectativa, as mãos brancas e limpas, e esperar.
O cão deitou-se a seus pés.
Prolongou com propósito o silêncio…
De repente indagou: - Sabe ler?
 - Braille sim, mas apenas um pouco - respondeu o visado com timidez.
Pegou num cartão perfurado e apresentou-lho.
O cego passou os dedos pelo pontuado, lendo, e, vacilante, leu meia dúzia de palavras.
Então, recolhendo, abruptamente, o cartão, leu uma folha de papel, com cujo conteúdo o seu ouvinte concordou. Guiou a mão do cego até ao local onde devia assinar…
Trocaram meia dúzia de banalidades.
Pouco depois, o cego saiu. O desconfiado inspector deu um salto na cadeira.
Ligou para o guarda da portaria.
- Prendam-me esse cego que acaba de sair!
Que factos levaram o inspector a tomar tal atitude?

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