21 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 142


EFEMÉRIDES – Dia 21 de Maio
James Phelan (1979)
James Clancy Phelan nasce em Melburne, Austrália. Estuda literatura e arquitectura começa a escrever o seu primeiro romance aos 15 anos. Em 2006 é publicado Fox Hunt que inicia a série de suspense/thriller Lachlan Fox, seguido de Patriot Act (2007), Blood Oil (2008), Liquid Gold (2009) e Red Ice (2010); como parte da pesquisa para esta série o autor consulta elementos no activo ou reformados da Australian Defense Force, jornalistas e membros de organizações que vivido de alguma forma as situações narradas nos seus livros. Escreve ainda para jovens a trilogia AloneChase, Survivor e Quarantine  — onde Jesse Dave, Mini e Anna são adolescentes de 16 anos num cenário pós apocalíptico.



TEMA — UMA MULHER DETECTIVE — COLETTE LAMBERT
Colette Lambert, criada em 1956 por Raymond Las Vergnas, é uma jovem viúva de 29 anos. Vive em Paris, na Rue de Rennes, com o irmão André Lamy, professor na Sorbonne.
Embora se mantenha fiel à memória do marido, Colette é suficientemente bonita para despertar o interesse do sexo oposto, mas ela nunca — ou quase nunca— responde aos seus avanços.
Colette Lambert, e é esta a sua singularidade, é a primeira detective fofinha da literatura criminal. Bondosa e simpática, Colette pensa que tudo é belo e todos são amáveis, o que lhe traz um uma série de desgostos e de desilusões, sem contudo nunca lhe levar o constante índole alegre de cão São Bernardo.
Dotada de um amor quase telúrico pela natureza, Colette adora viajar e a tem essa oportunidade devido à profissão do irmão, encarregue de conferências um pouco por todo o lado: Estados Unidos, Sicília, Portugal, Londres… e até Bretanha, viva o exotismo!
Há sempre um imprevisto manhoso que põe um drama no caminho de Colette, uma mulher perfeita para as noitadas em casinhas de campo: não bebe, não fuma e nada de sexo. Mas … é a primeira mulher detective a manter um diário, como Marie Bashkirtseff. E esse facto tão simples de anotar escrupulosamente os acontecimentos do dia a dia, faz com que tenha uma ajuda para encontrar a pista que lhe escapou no calor do momento. Basta reler as páginas anteriores do diário — Meu Deus, mas está claro!
Saudamos respeitosamente esta heroína, que não é como as outras…
A série As Investigações de Colette Lambert, de Raymond Las Vergnas, tem cinco títulos, publicados entre 1956 e 1967:
Le Mystère Niagara (1956)
Les Yeux de la Sicile (1959)
Rendez-vous à Piccadilly (1961)
Le Corbillard Portugais (1963)
Meurtes à Quiberon (1967)

Extracto de Les Yeux de la Sicile
Quando perguntei a mim própria, porque é que eu, Colette Lambert, uma pessoa lógica, fria, e orientada para as subtilezas da dedução científica — pelo menos assim reza a história — desde o início desta aventura me tenho mostrado sentimental romântica e impulsiva, e sim… feminina! Acho que a culpa é mesmo do país, e da aura deslumbrante desta terra…


TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 13
(continuação de CALEIDOSCÓPIO 135)
Percorridos que foram no capítulo anterior, breves desvios, nem por isso menos prestáveis ao objectivo em curso, regressamos ao caminho da busca e, ao que se afigura, da melhor maneira.
Em 1747 é impressa na Holanda a primeira versão de “Zadig” de François Marie Arouet (1694-1778), poeta, dramaturgo, contista e filósofo francês, imortalizado pelo pseudónimo de Voltaire.
“Zadig”, especificamente o seu terceiro capítulo, denominado “O cão e o Cavalo”, é um texto polémico. Não falta quem proponha entusiasticamente como o exemplo e denominador, comum do género que será o policial, ou acuse o autor de se haver inspirado em Mailly autor anónimo de “Le Voyage et les aventures des trois princes de Sarendip, traduit des perses”, cujo argumento se lhe assemelha.
Qualquer afirmativa é um risco, uma vez que são igualmente reivindicadas origens italianas árabes, judias ou mesmo do texto das “mil e uma noites”, reproduzidas de épocas diferentes da transmissão oral sem rosto identificador.
Em estilo, lembra a já reproduzida história do escravo zarolho, do árabe Al Tabari (858-923 a.C.). Seja porém, como for, é um texto importante, exemplo de interpretação dos vestígios tão necessários às investigações policiais.

…Zadig passeava perto de um bosque observando as particularidades do chão arenoso. Entretinha-se a estudar as plantas e os animais e bem depressa tinha adquirido uma perspicácia que o levava a descobrir mil diferenças onde os outros viam uniformidade.
Um eunuco perguntou-lhe se tinha visto passar um cão da rainha.
— É uma cadela e não um cão, teve filhos há pouco tempo, coxeia da pata esquerda da frente e tem as orelhas muito compridas?
— Então viste-a — replicaram-lhe.
— Não, nunca a vi e nem sequer sabia que a rainha tinha uma cadela.
De seguida, o monteiro-mor do rei que procurava um cavalo que havia fugido, encontrou Zadig e perguntou-lhe se o havia visto.
— Um cavalo que galopa admiravelmente, que tem cinco pés de altura. A sua cauda mede três pés, e os bocetes são de oiro de vinte e três quilates e usa ferraduras de prata de onze denários? — disse Zadig.
O eunuco e monteiro-mor, não tiveram dúvidas de que havia roubado o cão e o cavalo, pelo que foi preso e condenado, mas logo a seguir os animais foram encontrados.
Posto em liberdade, Zadig explicou:
— Andava a passear pelo bosque e percebi na areia pegadas de um animal que facilmente concluí serem de um cão; leves e longos sulcos revelaram-me tratar-se de uma cadela de tetas pendentes e que, portanto devia ter dado cria pouco antes; outros traços marcando a areia ao lado das patas, acusava as orelhas muito grandes e porque as impressões de uma pata eram menos profundas, deduzi que a cadela manquejava. Quanto ao cavalo, avistei as marcas das ferraduras a igual distância -um galope perfeito; a poeira das árvores num caminho de não mais de sete pés de largura, mostrava-se um pouco revolvida à direita e à esquerda a três pés do centro da rota — o tamanho da cauda do cavalo; sob as árvores que formavam um dossel de cinco pés de altura, com folhas caídas onde o animal roçava a cabeça, deu-me a altura; o freio seria de ouro de vinte e três quilates, pois tendo batido numa pedra de toque pude identificá-lo; pelas marcas das ferraduras deixadas noutras pedras, verifiquei serem de prata.

Quem é Zadig, o cérebro privilegiado a quem Régis Messac o erudito autor de “Le Detective Novel et l'influence de la pensée scientifique (1929) — uma tese reeditada em 1975 e 2011 e uma obra capital para história da novela policiária — define como o tipo de investigador policial no melhor do seu termo e, Locard, doutor em medicina, director do Laboratório da Polícia Científica de Lyon, na sua obra “Policiers de romain et de laboratoire” (1924), indica-o como o primeiro exemplo de “detective”.

Voltaire descreve um jovem que veio ao mundo com uma bondade natural, fortalecido pela educação. Rico, sem pretensões, generoso, justo e nobre, sabia respeitar a fraqueza dos homens, não receando prestar serviço aos ingratos; sábio quanto se pode ser, instruído, saudável de corpo e espírito.


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