29 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 303

Efemérides 29 de Outubro
Fredric Brown (1906 - 1972)
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Fredric William Brown nasce em Cincinnati, Ohio, EUA. Autor de ficção científica e policiário, pouco popular em vida, torna-se um escritor de culto quase meio século depois, com redições da sua obra em todo o mundo; é um autor muito popular em França e no Japão. Fredric Brown recebe o Edgar Award para Best First Novel em 1948 com The Fabulous Clipjoint. Em Portugal, o autor está incluído em várias antologias e é possível encontrar o registo da edição dos seguintes livros policiárias:
1 – O Tio Prodigioso (1952) Nº56 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Fabulous Clipjoint (1947). Reeditado em 2005, Nº17 Colecção 9mm, Publico. É o 1º livro da série Ed & Am Hunter.
2 – Um Grito Ao Longe (1958) Nº105 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Far Cry (1951)
3 – Luar Sangrento (1958) Nº129 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Bloody Moonlight (1949). É o 3º livro da série Ed & Am Hunter.
4 – O Prazer De Matar (1958) Nº129 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Deep End (1952).
5 – Dobre A Finados (1959) Nº144 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Dead Ringer (1948). É o 2º livro da série Ed & Am Hunter.
6 – Os Assassinos (1962), Nº120 Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: The Murderers (1961).
7 – Feira - Crime (1963), Nº9 Colecção Ângulo Negro, Editorial Íbis. Título Original: Mad Ball
8 – Psico (1963), Nº13 Colecção Ângulo Negro, Editorial Íbis. Título Original: Psycho (1959)
9 – O Nome Dele Era Morte (1964), Nº11 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: His Name Was Death (1954)
10 – Ripper (1964), Nº5 Colecção Policial Best-Sellers, Galeria Panorama. Título Original: The Screaming Mimi (1949).
11 – Quem Matou a Avozinha? (1976) Nº353 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: We All Kill Grandma (1952).
12 – A Morte Tem Muitas Portas (1978) Nº370 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: Death Has Many Doors (1951). É o 5º livro da série Ed & Am Hunter.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATUTRA — PERFIL DE UM ESCRITOR: FEDERIC BROWN
Por M. Constantino
De corrector de provas em periódicos até aos pulps, jornalista, romancista e contista engenhoso e inteligente. No policiário — criador de Am e Ed Hunter — oscilou entre a ficção e o realismo, utilizando a novela negra, o crime psicológico e o terror, considerado o poeta da prosa, deixou uma infinidade de contos breves, além de romances. Escreveu igualmente ficção científica, da qual foi um dos mais admirados e admiráveis cultores.
Este homem pequeno, de rosto franzino e eterno bigodinho, que acabou minado pelo álcool, foi inteiramente definido como tendo “o génio de O. Henry, a graça de Mark Twain e… o talento especial de Fredric Brown…”



TEMA — CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA— A SENTINELA
De Fredric Brown
Sentia-se pegajoso e sujo, com o suor acumulado dentro do escafandro do espaço. E esfomeado, e cheio de frio…
Há quanto tempo ali estava? E quanto mais teria de estar para cumprir as ordens, para defender os seus camaradas que descansavam, e para evitar a aproximação do perigoso e repelente inimigo, de estranha raça?
E quando acabaria aquela guerra sem esperança? Quando acabaria a luta entre as duas raças tão diferentes? Quando poderia enfim voltar para o seu planeta natal, esse radioso e verde globo que se encontrava agora a mais de 50 mil anos-de-luz de distância?
Sobre ele, um estranho sol amarelo iluminava palidamente as arestas cortantes e ásperas saliências dos montes mais próximos, reflectindo uma claridade irreal na superfície do navio espacial e, mais além, na própria antena de comunicação.
E a gravidade… Essa, duas vezes mais forte do que aquela a que ele estava habituado, tornava-lhe difícil cada movimento, por mais pequeno que fosse, transformando o menor gesto num pesadelo.
O seu mundo, as coisas que se habituara a conhecer desde a infância, parecia-lhe cada vez mais longe, afastando-se para nunca mais voltar.
Ainda se a guerra com esta raça imunda estivesse para acabar… Se o extermínio desses seres repelentes estivessem por pouco…
Mas não! Há dezenas e dezenas de anos que esta guerra se arrastava, sem a mais vaga probabilidade de findar.
E, se ainda da sua acção tirasse algum proveito. Se fosse conhecido o seu sacrifício, se o distinguissem, o promovessem e por fim o enviassem de regresso ao seu planeta de origem… (Ah! Voltar, voltar! Só pensava nisto a todo o instante!).
Mas esta malfadada guerra só servia para enobrecer os outros, os que manejavam as armas mais importantes, os que realizavam as proezas mais vistosas…
Os que voavam no espaço eram sem dúvida competentes e dignos de elogios. Eram eles na verdade que garantiam que a raça não seria derrotada pelo abjecto inimigo. Eram eles que asseguravam os transportes. Eram eles que desferiam os golpes mais hábeis e mais certeiros.
E os seus esguios e elegantes navios do espaço, as suas armas esquisitas mas eficientes, deslumbravam, é certo. Mas, quando se poisavam os pés no solo, quando se tratava de eliminar, uma por uma, as repugnantes criaturas que ameaçavam os seus camaradas, quando se pretendia conquistar terreno à raça inimiga, era ainda o soldado a pé, a infantaria, o combate directo, que tinha de suportar a luta, que tomava as posições e as mantinha, passo a passo, à custa de muito esforço e muito sangue.
Assim acontecia neste maldito planeta de uma estrela cujo nome ele nunca ouvira até que pousara aqui. Era ele, e os seus camaradas que descansavam perto, que tinham de garantir a presença da sua raça ali contra tudo e contra todos.
O sol, de cor amarela cada vez mais esvaída, descia no horizonte. E as sobras adensavam-se. Os contornos tornavam-se mais imprecisos. E o perigo aumentava.
Mas aquele solo, agora, era sagrado. Tinha sido tomado pelos seus, e havia que defendê-lo contra o inimigo, os estranhos que também aqui se encontravam. Para isso ele ali estava de sentinela.
O inimigo… essa estranha raça, a outra única raça inteligente de toda a Galáxia… feita de cruéis, horrorosos e repugnantes monstros!
O primeiro contacto com eles tinha sido estabelecido perto do centro da Galáxia, depois de lenta e difícil colonização de uns doze mil planetas. E a guerra tinha rebentado imediatamente. Eles disparavam sem sequer tentar quaisquer negociações, ou estabelecer a paz.
Agora de planeta em planeta, de amarga luta em duro combate, a guerra travava-se sem tréguas.
Sentia-se pegajoso e sujo, no seu escafandro do espaço. E esfomeado e cheio de frio… e a noite estava negra e áspera, com um vento cortante que lhe fustigava a viseira…
Mas a hora tornava-se cada vez mais perigosa, e eles tentavam infiltrar-se.
Ele apurou os sentidos, mantendo-se alerta, de arma aperrada e pronta.
A mais de cinquenta mil: anos-luz de casa, combatendo num meio hostil e estranho, e pensando se chegaria algum dia a voltar para o seu mundo.
De súbito… viu um deles arrastando-se na sua direcção. Rapidamente, ergueu a arma e disparou. O inimigo fez aquele estranho e horrível som que todos costumavam fazer, e ficou quieto no solo.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo ao ouvir e ver o inimigo ali estirado. Devia já estar habituado a eles ao fim de tanto tempo, mas nunca conseguira vencer a aversão. É que eles eram umas criaturas tão repulsivas só com dois braços e duas pernas, com uma horrível pele branca e… sem escamas!

Capa de Cândido Costa Pinto 

  
TEMA — CONTO POLICIÁRIO — CRIME PLANEADO
De Fredric Brown
Walter Baxter sempre foi um ávido leitor de histórias de crime e novelas policiais. Por isso quando decidiu assassinar o tio sabia que não deveria cometer erro nenhum, e que, para evitar tal possibilidade, a “simplicidade” devia ser- o princípio fundamental do plano. Simplicidade absoluta. Nada de álibis que pudessem ser desfeitos. Nada de modus operandi complicados: nada de despistes.
Isto é, apenas um, e dos mais simples. Teria de roubar a casa do tio, levando todo o dinheiro que encontrasse, a fim de que o assassinato aparecesse como resultado de um roubo. De outra forma, como o único herdeiro de seu tio, seria o primeiro suspeito.
Escolheu com cuidado um bom pé-de-cabra, mas de maneira: que não ligassem o instrumento à sua pessoa. Serviria tanto de instrumento como de arma. Planeou todos os detalhes e escolheu a noite e a hora, depois de inúmeras deliberações cautelosas.
O bom pé-de-cabra abriu a janela do rés-do -chão com facilidade e sem ruído. E entrou na sala sem o menor contratempo. A porta que dava para quarto de dormir estava aberta mas nenhum som partia dali, de modo que resolveu liquidar primeiro a parte do roubo. Sabia onde o tio guardava o dinheiro, mas era preciso dar a impressão de que haviam dado uma busca pela sala. Havia luar suficiente para lhe iluminar o caminho, mas ele movia-se silenciosamente
Em casa, duas horas mais tarde, despiu-se com rapidez e meteu-se na cama. Não havia- possibilidade da polícia descobrir o crime antes da manhã seguinte, mas queria estar preparado, caso aparecesse antes disso O dinheiro e o pé-de-cabra tinham desaparecido. Doera-lhe destruir algumas centenas de dólares, mas assim era mais seguro e tal quantia nada representava diante dos quarenta ou cinquenta mil que iria herdar.
Ouviu-se bater à porta. Já… Procurou acalmar-se Foi até à porta e abriu-a. O xerife e um polícia entraram no quarto.
— Walter Baxter? Temos uma ordem de prisão contra o senhor. Vista-se e acompanhe-nos.
— Uma ordem de prisão contra mim? Porquê?
— Por crime de roubo. O seu tio viu-o e reconheceu-o através da frincha da porta do quarto de dormir. Ficou em silêncio até o senhor sair e depois nos comunicou o facto. Walter Baxter ficou de queixo caído. Sempre cometera um erro no fim de contas. Planeara o crime perfeito, mas deixara-se absorver de tal forma pelo mecanismo do roubo que se esquecera por completo de cometer o crime.

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