7 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 281

Efemérides 7 de Outubro
Helen MacInnes (1907 - 1985)
Helen Clark MacInnes nasce em Glasgow, Escócia: em 1937 muda-se para os Estados Unidos e em 1951 adquire também a nacionalidade americana. É autora de 21 romances de suspense / espionagem, 3 dos quais protagonizados por Robert Renwick. Helen MacInnes tem várias obras adaptadas ao cinema, com destaque para: Above Suspicion (1941), Assignment In Brittany (1942), The Venetian Affair (1963), The Salzburg Connection (1968).


TEMA — DEPOIMENTO DE SIR SIDNEY SMITH — MORTE NO CEILÃO
Professor de Medicina Legal da Universidade de Edimburgo.
Nessa altura, encontrava-me eu em Ceilão, contratado pela Organização Mundial de Saúde para fazer um inquérito aos serviços médico-legais dali e recomendar os melhoramentos que achasse necessários. Pediram-me que examinasse o testemunho médico e que desse a minha opinião sobre a causa da morte e, em particular, sobre a possibilidade de ter sido assassinado pelo primeiro tiro ou pelo segundo. Isto não fazia parte do meu contrato com a Organização Mundial de Saúde, mas acedi. O Professor de Medicina Legal na Universidade de Colombo, o Dr. De Saram — um antigo aluno meu — foi convidado a conferenciar comigo.
Tínhamos ao nosso dispor relatórios do testemunho médico, do testemunho de várias testemunhas oculares e da polícia que realizara o inquérito, um esboço do local do crime e a acusação pública. Não recebemos qualquer descrição das manchas de sangue na roupa da vítima, que podia ter dado alguma indicação dos seus movimentos depois de ter sido ferida; tão-pouco havia qualquer prova do sítio onde o cartucho detonado fora encontrado, o que podia ter-nos ajudado a determinar os movimentos do acusado.
O testemunho médico era demasiado arbitrário para que pudéssemos aceitá-lo. Concordámos que os ferimentos do tamanho descrito podiam ter incapacitado a vítima imediatamente mas discordámos em absoluto que tal se tivesse verificado necessariamente. Ambos tínhamos tido experiência de muitos casos em que houvera afecções muito mais graves no cérebro sem causarem imediata incapacidade. Embora o ferimento do crânio fosse associado com outros ferimentos, cuja combinação mais sugeria a produção do choque do que o ferimento no cérebro só por si, estávamos convencidos de que não constituíam prova suficiente de que a vítima tivesse sofrido um colapso imediato. Era possível que assim tivesse sido, mas teria sido altamente arriscado afirmá-lo.
Felizmente havia um certo testemunho objectivo a favor da nossa opinião, constituído por manchas de sangue, encontradas no local do crime. O inspector da polícia descrevera-as como “manchas vermelhas semelhantes a sangue que iam desde a colina onde a vítima se encontrava de pé, quando o primeiro tiro fora disparado, até ao sítio onde o corpo fora encontrado”. Achávamos muito estranho que esse rasto de sangue que era, obviamente, um factor vital do caso, não tivesse sido debatido, quer pela Coroa, quer pela defesa; porque, se a observação do inspector fosse correcta provava-se que a vítima ficara seriamente ferida em consequência do primeiro tiro e que percorrera uma distância considerável depois de atingida.
Um testemunho subsidiário foi a presença de sangue no estômago, que sugeriu que a vítima vivera algum tempo depois do ferimento. Além disso, a distribuição e posição dos vários ferimentos na cabeça e no ombro eram compatíveis com os efeitos de um simples tiro disparado de frente e da esquerda mas se o homem fora atingido enquanto corria, tal distribuição só podia ser possível se ele tivesse virado a cabeça e o tronco para encarar o agressor e não o podia ter feito, enquanto corria sem se ter desequilibrado.
Tínhamos de considerar a possibilidade das duas descargas terem atingido a vítima. Seria possível que os ferimentos na cara e no ombro tivessem sido produzidos pelo primeiro tiro e o ferimento no cérebro pelo segundo? Tal possibilidade não podia ser excluída, mas teria sido uma coincidência singular que duas descargas separadas tivessem formado o único tipo de lesão encontrado.
Por conseguinte, chegámos à conclusão de que todos os ferimentos podiam ter sido causados pelo primeiro tiro e que não era necessário supor que o segundo tiro tivesse atingido o homem. Juntámos ao nosso relatório o artigo publicado no Police Journal.
  
TEMA — CONTO POLICIÁRIO — ACIDENTE
A noite entrou rapidamente naquele quarto debruçado sobre o Tejo. Uma luz pálida, amarelada, surgiu na janela, avistando-se uma silhueta que devia procurar alguma coisa, pois movia-se constantemente dum lado para o outro. Via-se agora perfeitamente — era um homem, e estava só.
As águas do rio reflectiam o luar, agitando-se brandamente quando um ou outro barco passava, apressado, levando um pescador meio adormecido. Na ponte, um pouco mais abaixo, brilhavam as luzes dos carros e o aço vermelho parecia um gigante adormecido na noite: Do outro lado a grande cidade, sensual e quente, o ruído surdo dos últimos habitantes da noite.
O homem aproximou-se da janela. Olhou o rio calmo, lento, um longo e infindável caminho. Tentou contar as estrelas, breve renunciando. Os seus pensamentos desviaram-se da noite. Quis abrir a janela, logo desistindo. Encostou a cara à vidraça e fechou os olhos.
O regresso ao quarto de solteiro, a solidão. Atrás de si uma velha cama, uma pequena estante de leituras frustradas e uma secretária, fiel depositária de sensações, esperanças, ideias. Sentiu o vidro frio no rosto e abriu os olhos procurando alguma coisa no rio que lhe mostrasse o caminho a seguir, que lhe apontasse um rumo, uma ideia, raio de luz que lhe despertasse a vontade de viver.
Fechou os olhos de novo, nada encontrando a não ser solidão e noite. Procurou adormecer, tentou sonhar, mas os pensamentos entrecruzavam-se em turbilhão, não o deixando acalmar.
Mais uma vez tentou abrir a janela e olhar mais de perto o rio desistindo novamente. Começou a ter medo de abrir a janela não sabendo porquê…
O vendaval de pensamentos continuava. A infância, a juventude, o casamento frustrado e a mulher que abandonara, um dia, quando a sua casa ardeu. Ela estava a dormir quando deixou a cama e fugiu sem a acordar. Para quê'? Porquê? Não gostava dela. Os anos de casamento tinham sido um sacrifício inútil. Não sabia porque casara. Não a amava, ela não o amava. Coisas de família. A oportunidade surgira, acidental… Fora um acidente a morte dela. Carbonizada durante o sono enquanto ele fugia. Fora um acidente. Não a acordara ao ver as chamas, de nada se lembrando senão de fugir. Não tinha culpa de que ela não tivesse acordado. Ele acordara, fugindo a tempo. Sim, ele não tivera culpa, fora um acidente…
Tentou abrir os olhos, mas sentiu-os colados ao frio da vidraça, e deixou-se ficar. A noite avançava, lenta pontilhada de estrelas. No rio, as águas dormitavam, enquanto os cacilheiros, cada vez mais raros, apitavam uma ou outra vez. A primeira vez que viajara nos cacilheiros e instintivamente agarrara a mão da mulher, ela rira-se do seu medo…
Estava morta, agora, num acidente estúpido, as chamas lambendo-a numa carícia de' morte. Chamas amarelas, vermelhas, estrangulavam a casa num abraço fatal. Gritos, a mulher, um acidente. Sim, fora mesmo acidente. A culpa não era dele. Não, gostava dela e ela morrera. Num acidente…
Abriu os olhos mergulhando uma vez mais na noite serena e longa, e no fim do horizonte via a mulher, os seus esguios olhos azuis emersos num rosto redondo e sardento os cabelos claros e a boca pequenina de lábios pálidos…
Sorriu, amorfo. Lembrava-se da primeira vez que os beijara… O acidente, as labaredas implacáveis, a mulher, gritos, um nome… o seu nome. Sim, ela chamara, por ele ante a aproximação da morte. Morrera num acidente. Calor, labaredas vermelhas, amarelas, imenso cheiro a fumo, uma sensação de agonia, tristeza, cor, acidente, acidente… acidente…
E, violentamente, abriu a janela e atirou-se ao rio.

Fonte: Urban Sketchers

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