4 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 278

Efemérides 4 de Outubro
Talmadge Powell (1920 - 2000)
Nasce em Henderson, Carolina do Norte, EUA. Inicia-se na escrita em 1942 e cria mais de 200 contos de vários géneros, que são publicados nas revistas mais prestigiadas da época. Escreve 9 romances protagonizados pelo detective Ed Rivers, um detective privado em Tampa, Florida e também 4 livros da série Tim Corrigan sob o pseudónimo Eleery Queen O autor usa os pseudónimos: Anne Talmage, Dave Leigh, Dave Sands, Jack McCready, Milton T. Land, Robert Hart Davis e Robert Henry.


TEMA — CONTO POLICIÁRIO DE TALMADGE POWELL — A ARTE DE VENDER
O dia de Howard Alden começou mal. Já na mesa do café viu-se obrigado a dizer a Clara, sua mulher, que não poderiam comprar o casaco que ela desejava, embora admitisse que muita falta lhe fazia.
A coisa não teria sido tão má se ela explodisse com uma palavra de revolta e ressentimento, mas continuou sentada a encará-lo como se o marido fosse um zero à esquerda.
Clara era trigueira, delgada e elegante. Howard amava-a profundamente E doía-lhe ser olhado por ela daquela maneira. Torcia-se por dentro quando os moradores da cidade o encaravam com ar.
Nem sempre ela o olhara daquele jeito.
Na verdade a admiração que votava pelo marido era uma das coisas que este guardava como a melhor recordação da sua vida.
Howard era um homem de trinta e poucos anos, estatura mediana, cabelos louros e bem apessoado. Conhecera Clara dez meses atrás, por ocasião de uma viagem a Atlanta e haviam casado após pequeno espaço de namoro.
Trouxera para Pine Needle, uma cidadezinha aninhada entre as montanhas da Geórgia, sem coragem de lhe contar a verdade sobre si mesmo. Clara sabendo apenas que o marido era o único armador fúnebre do condado, Para ela, a profissão colocava-o no mesmo plano do presidente da câmara, do negociante líder e do chefe de polícia.
Porém teve de aprender à própria custa que o marido era o homem mais pobre da cidade. Os sujos agricultores tinham as suas galinhas e os cães de caça, mas Howard Alden contava apenas com uma sala fúnebre e uma casa decrépita, ambas sobrecarregadas com hipotecas, que jamais conseguira pagar.
Clara imaginara um lar no estilo das antigas plantações, com criados, mas viu-se a cozinhar num velho fogão à gás e a polir uma prataria gasta até a base de metal.
A princípio desejara redecorar a casa sombria. Howard arranjara emprestado todo o dinheiro possível, porém ela conseguira apenas colocar algumas cortinas, e um apare-lho de televisão.
— Clara — disse ele já sem apetite pelo breakfast — se tiveres um pouco de paciência, eu sei que poderei receber certas contas atrasdas.
— Receber de quem? Dos pobres plantadores perdidos neste condado esquecido de Deus? A maioria dos nossos vizinhos é pobre demais para morrer.
Ele não respondeu não havia o que responder. P o r vezes sentia que pouco sabia da vida… e das mulheres. Conhecia apenas o morto.
Clara evitou o beijo de despedida que sempre lhe dava ao sair para o trabalho. Howard saiu com algo apertado no íntimo. Ela não tocara no assunto, mas seria capaz de jurar como a esposa pensava em voltar para Atlanta. E com a vida que levava ali naquele desolado condado sulino, não se podia culpá-la por isso.
— Havia pouca actividade na cidade — uns caminhões empoeirados estacionados ao longo da rua, dois ou três homens a conversar na porta do armazém, um grupo de aposentados aproveitando a sombra da loja de louças. Desbastavam um pedaço de pau com ar irresoluto, discutiam cachorros e mulheres e sujavam as pedras da rua.
Howard suspirou e entrou na sua casa de negócio, Outrora a sala da frente não tinha aquele aspecto surrado e sujo.
Hoje em dia a casa guardava apenas o velho e adocicado cheiro de flores murchas e de morte.
Howard abriu as janelas para deixar entrar ar no escritório, e saiu para o bar da esquina.
Reunidos, Bayliss, o dono do armazém de secos e molhados, o Xerife, Loudermilk, e Bill Suggs, que treinava, cavalos e cães de caça para a família vanDeventer.
Suggs era um homem despótico e arrogante, mas diziam que o velho vanDeventer gostava dele. Isso era o bastante para assegurar a Suggs grande prestígio em Pine Needle. Os vanDeventer eram donos de quase todo o condado — incluindo a maioria das fazendas, as fábricas de enlatados, e até a companhia telefónica.
Maddy vanDeventer, bela, jovem, e loura, fora educada numa escola especial para jovens, na Carolina do Norte, e viajara pela Europa. Se Pine Needle tinha uma princesa, era Maddy. O velho dava maior valor ao menor dos seus caprichos do que ao bem estar — de toda a raça humana.
Howard pediu uma chávena de café à moça suada que atendia atrás do balcão. Sentou-se a ouvir os planos de u m a pescaria entre Suggs, Loudermilk e Bayliss. Os três haviam cumprimentado Howard com um breve aceno de cabeça, não suficientemente cordial para permitir a Howard imiscuir-se na conversa. Todo mundo sabia que era pobre demais e insignificante demais para ser incluído numa pescaria.
Howard sentou-se na mesa ao lado e tentou fingir que não ligava à conversa. Iam todos até Santee, na Carolina do Sul. Lá havia percas do tamanho da perna de um homem.
O telefone público pendurado na parede no fundo do balcão tocou furiosamente. A empregada arrastou os pés até lá e atendeu.
— Estou?
Depois voltou a cabeça sempre segurando o telefone:
— Para o senhor, Xerife.
Loudermilk ergueu os seus seis pés de altura e rumou para o telefone. Bayliss e Suggs continuaram a conversar. Mas pararam quando ouviram Loudermilk retorquir espantado:
— Maddy vanDeventer? Onde?
O Xerife ficou à escuta alguns instantes. Depois respondeu:
— Vou já para ai!
Voltou do telefone de rosto pálido.
— Maddy vanDeventer morreu!
Durante longo tempo ninguém falou ali dentro. Depois Suggs coaxou.
— Onde? Como? Diabo, nunca houve moça mais bondosa, mais considerada, mais bem-educada do que Maddy vanDeventer, embora fosse rica. Não pode estar…
— Foi encontrada faz alguns minutos continuou o Xerife Loudermilk. — Ela escorregou e caiu no precipício.
Howard sabia que esta simples explicação bastava para tornar clara a ocorrência a todos os habitantes de Pine Needle. Perto da casa de Maddy — a mansão dos vanDeventer — havia uma enorme escarpa com pedras soltas na base. Maddy gostava de dar longos passeios lá no alto em pleno frio da noite. Aparentemente saíra-se mal daquela vez.
Loudermilk, Suggs e Bayliss puseram-se a correr. Howard continuou a olhar para o sol brilhante lá fora.
A empregada do bar disse:
— Eu disse que vou fechar. Também quero ir até lá.
— Ah sim — respondeu Howard. — Também acho bom voltar para o trabalho.
Limpou, varreu e arejou a sala quando lá pelas tantas Xerife Loudermilk lhe trouxe o corpo da jovem.
Era tão nova e tão linda. Mas quando Howard a estendeu em cima da pedra e lhe tocou na nuca onde o sangue estava coagulado e o osso rebentado, nada tinha de bonita.
Parecia simplesmente patética.
De rosto contraído, o Xerife Loudermilk enxugou a testa com o lenço azul.
— Só deram pela falta dela esta manhã — disse — O pai sabia que estava fora de casa e teve a impressão de ouvi-la entrar a noite passada, de modo que o pobre homem a julgava a salvo dentro de casa até que uns rapazes lhe foram contar o que tinham encontrado no fundo do despenhadeiro.
— Onde está agora Mr. vanDeventer? — perguntou Howard.
— Prepara-se para vir até cá — respondeu Loudermilk. Lançou um breve olhar ao corpo. — Creio que se trata de um caso claro de morte acidental. Ela não tinha um inimigo neste mundo.
A sineta da porta da frente tocou.
— Garanto que deve ser c pai dela — concluiu o Xerife, saindo atrás de Howard até a frente do estabelecimento. Era mesmo vanDeventer.
O velho em geral tinha um aspecto muito cuidado e elegante, a despeito dos anos. Era magro e gozava de boa saúde. Agora Howard ficou assombrado com a aparência de vanDeventer. Parecia um saco de varas secas. O rosto estava todo coberto de manchas azuladas e escuras.
— Sente-se, por favor, Mr. vanDeventer — disse Howard, afastando uma cadeira da parede.
O velho deixou-se cair na cadeira e apoiou a cabeça
— Por favor — controlou-se. Vim aqui tratar…
— Compreendo — respondeu Howard.
O velho olhou em volta, depois falou afinal.
— Talvez devesse procurar um estabelecimento melhor. Uma casa mortuária de Atlanta…
Howard olhou directamente para vanDeventer e de repente um brilho de aço apareceu-lhe no fundo dos olhos. Falou tranquila mas firmemente.
— Mr. vanDeventer, sou o único homem vivo a quem o senhor pode confiar este precioso dever. Admito que em Atlanta encontrará estabelecimentos maiores, mas eu ofereço ao senhor, e a Maddy, muito mais do que isso. Eles preparariam o corpo com a precisão de uma máquina. Eu o farei com a habilidade de um artista.
Levantou-se e parou junto do velho, o rosto cheio de bondade e determinação.
— Duas gerações de Alden têm enterrado todos os mortos deste condado, Mr. vanDeventer. Os Alden, como os vanDeventer, são desta terra, deste solo.
— Você quase me convenceu, meu rapaz.
— Quero apenas apontar os factos, sir. Considere-me primeiro como um artesão. Cresci neste negócio, sir. Segundo, peço que me considere como homem. Conheci Maddy, a sua generosidade, sua beleza, sua graça. Quando muitos anos tiverem decorrido, a lembrança dela permanecerá como um marco. Não é este o seu mais íntimo desejo, Mr. vanDeventer?
— Você leu no meu coração, meu rapaz.
— Gostaria de sugerir, sir, um túmulo do mais puro mármore aqui da nossa terra. Com a sua permissão, desejaria ir pessoalmente às jazidas e escolher pessoalmente pedra por pedra e supervisionar cada polegada do corte.
— Você faria isso, meu rapaz?
— Com toda humildade — respondeu Howard.
— Então não olhe para as despesas — retrucou o velho levantando-se.
— Posso ir até uns vinte mil dólares, sir ?
— Pode ir até cinquenta mil. Os anos que me restam são poucos e de que me serve o dinheiro agora?
Howard ficou parado junto à montra vitrina, vendo-os partir. Às suas costas falou o Xerife.
— Vamos apurar o inquérito a fim de você poder trabalhar à vontade, Howard. Uma simples formalidade, nada mais. Não há dúvida de que a morte foi acidental.
Loudermilk saiu. Howard passou o resto do dia cuidando das preliminares, tais como o preço de caixões em Atlanta e comparando-o com o preço recebido pelo telefone de Montgomery.
Ao voltar a descer a Main Street, ao anoitecer, sentiu uma certa mudança em Pine Needle. As pessoas nas calçadas olhavam para ele, e sabia que conversavam a seu respeito
Ao chegar em casa, Clara foi recebê-lo com um beijo. Tinha o sorriso quente e radiante.
Preparara o seu jantar favorito: bife de lombinho com cogumelos. Há muito que não comia coisa semelhante. A refeição mais do que lhe aqueceu o estômago. Fez-lhe compreender que o seu crédito no talho e no armazém estava novamente de pé.
— Howard — murmurou ela — achas que poderemos passar um fim-de-semana em Atlanta, um dia destes? Depois do enterro da vanDeventer, é claro?
— Não vejo impedimento algum — replicou ele expansivamente.
Pouco depois do jantar o telefone tocou. Quem chamava era Bayliss, o dono do armazém de secos e molhados e o negociante líder de Pine Needle.
— Olá, Howard, meu velho, eu e os rapazes vamos fazer uma pescaria. E a viagem não seria completa sem você, menino.
— Gostaria muito de ir — respondeu Howard com simplicidade. Não iria dar-se ao luxo de guardar ressentimentos. Ontem não representava nada na comunidade; agora era um cidadão importante. O lucro num negócio de cinquenta mil dólares em Pine Needle fazia uma diferença enorme. Mas era bom que assim fosse. Howard sentia-se muito satisfeito.
A arte de vender pensou Howard ao desligar. Continuou ao lado do telefone e um leve estremecimento sacudiu-o. Mas controlou-se imediatamente.
Vender a ideia ao velho não fora tão difícil. Nem por um momento lhe passara pela cabeça que fosse. O mais difícil suportara na véspera, no instante em que Maddy percebera ser ele quem a estava a empurrar pelo penhasco abaixo.

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