2 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 276

Efemérides 2 de Outubro
Graham Greene (1904 - 1999)
Henry Graham Greene nasce em Berkhamsted, Herifordshire, Inglaterra. Jornalista, dramaturgo, escritor é o autor de cerca de 60 livros. Desde o início da sua carreira literária Graham Greene sempre mostrou interesse pela escrita de policiários, apesar de marcar bem a distinção entre os seus romances sérios e os outros que classificava como entretenimento. Publica 25 livros de crime / mistério / espionagem e 3 livros de contos do mesmo género. (VER TEMA). O autor tem vários romances adaptados ao cinema.

Jack Finney (1911 – 1995)
Walter Braden Finney nasce em Milwaukee, Wisconsin, EUA. Autor de policiário e ficção científica tem diferentes obras adaptadas ao cinema. No campo da narrativa policiária destaca-se os romances: Five Against The House (1954), The House Of Numbers (1957), Assault On A Queen (1959) e The Night People (1977) e ainda Forgotten News: The Crime Of The Century And Other Lost Stories, uma colectânea de contos publicada em 1983.


Edmund Crispin (1921 - 1978)
Robert Bruce Montgomery nasce Chesham Bois, Buckinghamshire, Inglaterra. Compositor, professor universitário e escritor, é o autor de 9 romances policiários e 2 livros de contos protagonizados por Gervase Fen (ver TEMA): The Case Of The Gilded Fly (1944), Holy Disorders (1945), The Moving Toyshop (1946), Swan Song (1947), Love Lies Bleeding (1948), Buried For Pleasure (1948), Frequent Hearses (1950), The Long Divorce (1952), Beware Of The Trains (1953) - Contos), The Glimpses Of The Moon (1977) e Fen Country (1979) Contos. O autor assina os seus livros policiários com o pseudónimo Edmund Crispin, nome do protagonista de Hamlet Revenge de Michael Innes referido há dois dias nas efemérides. Em Portugal está publicado:
1 – Crime No Colégio (1991), Nº18 Colecção Crime S.A, Editora ulisseia. Título Original: Love Lies Bleeding (1848). Reeditado em 2005 pelo Publico com o Nº14 da Colecção 9 mm. É o 5º livro da série Gervase Fen.



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — DOIS AUTORES
Por M. Constantino
Em 1950 Graham Greene publicou The Third Man, editado entre nós com o título O Terceiro Homem que serviria de base argumental a um guião cinematográfico para um filme de Carol Reed, com o mesmo título. É uma obra que está na fronteira do género policiário e o comum, mas é excelente. Narra o caso de um acidente e as testemunhas que o presenciaram, o protagonista Holly Martins suspeita que há algo de estranho no acidente que custa a vida a um amigo e investiga para descobrir a verdade.
Outras novelas de mistério do autor A Gun For Sale (1936) e Brighton Rock (1938).

Graham Greene


Na ordem da tradição clássica da narrativa policiária, há que incluir com satisfação a obra de Edmund Crispin que publica o seu primeiro livro The Case Of Gilded Fly em 1944. O autor é o criador de um dos personagens favoritos da literatura detectivesca na pessoa de Gervase Fen, professor de literatura inglesa na universidade de St Christopher's College, (ficcionada) em Oxford e igualmente detective amador, observador e dedutivo que auxilia com frequência o Inspector Humbleby, Detective da Scotland Yard.


Edmund Crispin



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — ESCREVER UM ROMANCE POLICIÁRIO
O presente artigo, da autoria do consagrado Nicholas Blake foi publicadonos numa revista francesa há mais de uma dúzia de anos. Dado o seu âmbito importa recordá-lo para extrair o que de bom tenha para proveito dos futuros escritores.
M. Constantino

As qualificações mais positivas e necessárias para escrever este género de romance, são: — um espírito engenhoso, o gosto pelo fantástico, alguns conhecimentos de Medicina Legal e da maneira de agir da polícia de investigação e dos direitos humanos, e, também, uma certa curiosidade sobre os assuntos relacionados com o comportamento dos seres humanos sob os efeitos de uma violenta emoção.
É essencial, antes de começar a escrever um romance policiário, executar um plano minucioso e, claro, saber ter esse plano… O método do assassínio, o horário, o possível móbil, os movimentos da vítima e dos suspeitos durante as horas fatais… Tudo isto terá que ser previamente estabelecido. É somente depois deste trabalho que se deve começar a traçar, a arquitectar, o falso quadro… aquele que é destinado a enganar o leitor. As “ideias luminosas” que vos apareçam enquanto escreverem o livro, devem ser examinadas com a maior meticulosidade e, por fim, registadas. Claro que há, naturalmente, excepções a esta regra.

 Nicholas Blake justifica em seguida a necessidade das “pistas falsas” destinadas a “levar” o leitor, pois ele compara a realidade com a ficção:
Na realidade a investigação policiária é uma longa recolha de elementos e acumulação de perguntas, não dramáticas, onde o texto será sempre bastante minucioso para todos os leitores, mesmo que não sejam criminologistas. Nos romances, é preciso que a investigação seja sofisticada e dramatizada. Para esse feito, são estabelecidas certas convenções, especialmente a dos chamados “crimes duplos”…
“É um elemento que oferece a vantagem de excitar o interesse. O leitor pergunta-se continuamente qual das personagens será a próxima vítima. Este procedimento contribui, também, para o chamado “fantástico essencial”. Por outro lado os “crimes múltiplos” podem, exageradamente, complicar a intriga; não são, por vezes, se não um fácil procedimento para eliminar alguns desses aspectos… e isto parece bastante perto de um outro facto: — a incapacidade de manter o leitor desperto, sem nova efusão de sangue, por assim dizer…

É possível, no entanto, encontrar a surpresa mais longe, sob a pena de um bom autor de romances policiários, segundo a seguinte apreciação:
O romance policiário aparece-nos assim mais perto dos textos dos crimes clássicos, o que pode acarretar o desaparecimento do género. Será isto uma grande perda? Eu julgo pretensioso considerar o romance policiário como uma forma de arte; no entanto ele traz consigo duas funções principais: — distrai e responde a uma necessidade psicológica.

Esta enumeração das duas funções principais de “arte”: — distrair e responder a uma necessidade psicológica, parece-nos, por nosso lado, bastante discutível. Eis a conclusão a que chega Nicholas Blake:
Tal como, o conto de fadas, o romance policiário pode ter um significado mais pro-fundo do que parece. Eu creio que, fundamentalmente, o seu atractivo deriva de um conflito entre o ideal humanitário do carácter sagrado da vida humana individual, por um lado, e por outro, o instinto da luta à morte — a moral atávica de “olho por olho, dente por dente”. O romance policiário poderá pois sobreviver por muito tempo, tanto como os valores morais e humanistas continuarem a opor-se ao nosso espírito de vingança instintivo, o que quer dizer, até que se constitua ou seja formada uma nova moral que o faça “desaparecer”.

Nós não queremos parecer tão pessimistas no que se refere à possibilidade de ver formar-se a “moral nova” de que nos fala Nicholas Blake, mas cremos fortemente (é uma maneira de falar…) que, nestas condições, o romance policiário não seja… eterno!

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