21 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 295

Efemérides 21 de Outubro
 (em actualização)

TEMA — GRANDES TEMAS DE FICÇÃO CIENTÍFICA — FUTURO ÚLTIMO
Por M. Constantino
Em consonância com os medos reais de todos os tempos, abundantemente patenteados, as “causas cósmicas” a quem se imputam grandes e esperadas catástrofes, não raro o prognosticado final para o mundo terreno, são representadas pela intervenção de corpos celestes que percorrem o espaço, particularmente os cometas.
“Hector Servadac” (1877), de Júlio Verne, é uma narrativa que se poderá classificar de histórica no que respeita á utilização de um cometa como elemento fulcral, se bem que não tenha, em pleno, enquadramento na temática; falta-lhe o efeito calamitoso. Na verdade, o que se apresenta em princípio como uma alteração ao eixo da Terra, invertendo os dois pontos cardiais, leste-oeste, a hipótese foi substituída por um fragmento de um esferóide terrestre que gravitava por conta o risco através do espaço, para se descobrir afinal que se tratava de um cometa desconhecido que havendo roçado ao de leve pelo globo terrestre, lhe raptara uma particulazinha da crusta e com ela trinta e seis habitantes. Vale, porém, o capítulo III — Variações sobre o eterno tema dos cometas Verne, ainda que para muitos não passe de um escritor de viagens maravilhosas e fantásticas destinadas à juventude, mostra-se conhecedor da matéria que ensaia.
Antecedido em dois anos por “La Fin du Monde” (1830), de Rey -Dussueil, um texto de referência mas sem colorido, um dos precursores da F.C. moderna Edgar Allan Poe, num dramático “The The Conversation of Eiros and Charmion” (1832), coloca na voz de dois seres imateriais, ex-humanos, a visão da tragédia resultante da passagem de um cometa pelo nosso mundo, e que altera toda a atmosfera terrestre destruindo a vida.
Refira-se que a alteração da atmosfera e mortal para os homens, resultante ou não da influência da actividade planetária, teve popularidade na época com “Une Fantasie du Docteur Ox (1872) de Verne, “Le Dernier Homme” (1866), de Félicien Champsaur e “La Fin du Monde” de Camille Flammarion.
“The Star” (1897) e “In the Days of the Comet” (1906) são duas narrativas de H.G. Wells. Na primeira é invocado o grande medo do ano 1000. O bom senso inicial das populações ceda á dúvida e, por fim, ao pânico… a luz branca, cegante, quente, deu lugar ao degelo, este às cheias devastadoras… no torvelinho, árvores, cadáveres de animais e homens… as águas subiam rapidamente, continuamente, sobre a luz fantasmagórica das estrelas galgavam as margens, corriam atrás das populações dos vales, que fugiam… ao longo de muitas milhas e milhas, afogavam-se cidades inteiras… o calor e os sismos começaram… abriam-se fissuras, serras aluíam…
Maior e mais brilhante que o sol a pino, a estrela iluminou com impiedoso fulgor milhões de homens em fuga, milhões de pessoas indemnes, aterrorizadas e impotentes perante a morte.
A segunda, “In the Days of the Comet”, é uma versão de um cataclismo originado
por um corpo celeste composto por um gás que afecta a atmosfera terrestre e de uma maneira irresistível os seres humanos; ideia esta desfrutada mais tarde (1913) por Rosny Ainé.


Em “The Poison Belt (1913), Conan Doyle repete a fórmula do envenenamento do ar…







A juventude, a beleza, a cavalaria, o amor… tudo isso acabou? A Terra, à luz das estrelas, parece-se com um país imaginário de paz e de ternura. Quem suporta que ela não passa de um terrível Gólgota juncado da corpos?
Uma estranha letargia tinha-se abatido sobre nós: reacção consecutiva às fortes emoções das últimas vinte e quatro horas, ela era ao mesmo tempo física e mental. Vivíamos sob a Impressão de que mais nada tinha Importância, de que tudo era fadiga ou um exercido inútil.

Em “After London, or Wild England” (1885) de Richard Jefferies, a humanidade volta barbárie, não só resultante de guerras mundiais contínuas, como à destruição por um cometa. Londres, por exemplo, ficou transformada num imenso lago. Em “Olga Romanof” (1894), de George Griffith, apresenta-se uma versão futurista: os governos mundiais são advertidos pelos marcianos que um fragmento do seu planeta, resultante de uma colisão austral, transformado num autêntico meteoro, deve atingir a Terra… em 2037!

A partir de determinado período, coincidente com a divulgação e compreensão dos conhecimentos científicos do fenómeno celeste, o tema perdeu o impacto de então ou manifestou-se em conexão com outros factos.
Registam-se:
O embate de um cometa com o oceano, o qual faz ferver instantaneamente grande quantidade de água, ao que se seguem chuvas torrenciais e uma nova glaciação, em “Lucifer's Hammer” (1977), de Larry Niven e Jerry Pournelle.
Em parte novela de destruição, uma outra parte Space Opera, “The Wanderer” (1964), obra mestra de Fritz Leiber, é quase uma enciclopédia de referências mitológicas, de religião e artes, facto que não invalida de, em momento próprio, explorar todo o efeito explosivo do desastre objecto do tema.

Também um português, ao tempo dos raros pioneiros que se atreviam a escrever F.C., Luís de Mesquita, especula em “A Ameaça Cósmica” sobre a possibilidade de um cometa atingir a Terra e dos resultados previstos.
A delineação de catástrofes cósmicas ultrapassam os limites da Terra e do nosso sistema solar, como em “Beyond Infinity (1937) de Nat Schachner (1895 – 1955), em que se narra a destruição total do universo atraído por uma antimatéria. Mas o que esta em causa é a Terra…
Em “The Death of The Moon” (1929), de Alexander M. Phillips, (1907 – 1991), é a lua que se desintegra sobre a Terra… Terra que Jacques Spitz (1896 – 1963) no apavorante “L'Agonie du Globe” (1935), parte em duas.
Em "The Roentgen Refugees, de Ian Watson (1943), é Sirius, a anos-luz de distância, que se transforma numa supernova cuja radiação mata todos os seres, deixando a Terra estéril; “The Twilight of Briareus”, de Richard Cowper (1926 - 2002), uma outra supernova a quinze-anos-luz destabiliza o sistema climatérico do planeta, do qual resulta uma nova Era Glacial responsável pelo holocausto
Aterrador o delinear da destruição do globo por terramotos e actividade vulcânica proposto em “Wrinkle In the Sink” (1965) por John Christopher (1922 – 2012).
Um choque de planetas que envolve a Terra em “Big Eye” (1949), de Max Ehrlich (1909 – 1983), igualmente em “When the Worlds Collide” (1933), de Edwin Balmer (1883 – 1959) e Philip Wilie (1902 – 1971), obra esta objecto de um filme sobejamente conhecido, realizado em 1951 por Rudolph Maté para a Paramount.
O esfriamento do Sol foi em “The Voice of the Void” J.W.Campbell (1910 – 1971).
Em “All Fools’ Day (1966), de Edmund Cooper (1926 – 1982), esse mesmo Sol é responsável por vagas intermináveis de suicídios…

Alguns factos curiosos começaram a surgir, relativamente ao Verão. Tinha havido durante o período um tempo de sol mais ou menos triplo do habitual. E também tinha havido mais ou menos o quíntuplo da média habitual de suicídios. Isso foi suficientemente espectacular para encher as primeiras páginas da maior parte dos jornais. Foi também dada proeminência à descoberta de novas manchas solares, que emitiam um tipo novo de radiação. Os factos de a radiação possuir propriedades até então desconhecidas da Ciência e que os suicídios suplementares apresentavam sintomas até então desconhecidos dos psiquiatras, suscitaram considerável especulação.
… trinta e quatro mil pessoas no Reino Unido tinham-se suicidado — muito embora o número previsto pelas estatísticas fosse a apenas de seis mil e quinhentos.

É responsável pelo Fim do Mundo, um mundo mais vasto que abrange o Império Solar.

No dia 30 de Dezembro de ano de 3053, as explosões de cólera da nossa estrela tutelar excederam tudo quanto a história antiga registava. Jactos de matéria equivalente a milhões de milhões de bombas de hidrogénio lamberam Mercúrio, primeiro, e Vénus, depois. Duas unidades planetárias, e possivelmente asteróides intra-mercurianos, absolutamente invisíveis, transformaram-se em nuvenzinhas de gás — aquele gás primitivo de que procediam. No dia seguinte, jactos de matéria ainda mais, poderosos, galgaram cento e cinquenta milhões de quilómetros no espaço interplanetário e lamberam a Terra.
O dia 31 de Dezembro de 3053 foi o último dia de vida do glorioso planeta chamado Terra e da sua brilhante humanidade.
No mesmo dia, o Sol estendeu os seus monstruosos tentáculos de fogo ainda mais longe e, em poucos segundos, lançou no vácuo mais umas tantas nuvenzinhas de gás cósmico: Marte e os seus satélites, além de todos ou quase todos os asteróides que circulavam entre Marte e Júpiter. O ex-asteróide Hermes — que durante curto período da sua existência se vira reduzido à subalterna situação de satélite da Terra — bem como a Lua inspiradora de dinastias de poetas e testemunha tácita dos devaneios amorosos de sucessivas gerações de Romeus e Julietas, eram já nuvenzinhas de gás com tendência a incorporarem-se na nebulosa primaz que havia sido o planeta dominador da Federação solar.


A morte do Sol está representada por “Crepuscule” (1934) desenvolvido em “A Wolfbane” (1959), de Frederik Pohl e C.M. Kornbluth.

No planeta desconhecido que era então o gémeo da Terra, girando em torno do sol miniatura, que então se encontrava no centro de gravidade comum. Mas os homens sabiam pouco sobre esse planeta, além de que surgira do espaço e estava ali.
Tempos houvera em que os homens tinham tentado dar-lhe um nome. Mais de duzentos anos antes, quando aparecera pela primeira vez. “Planeta. Fugitivo”, “O Invasor”, “O Juízo Final”. Os nomes poderiam ser simples arrotos; não tinham sentido; eram os x de uma equação, significando apenas que havia ali qualquer coisa que era desconhecida.
“O Planeta Fugitivo” deixou de fugir quando se aproximou da Terra.
“O Invasor” não invadiu o que quer que fosse: limitou-se a enviar para o Everest aquele tetraedro azul metálico.
E “O Juízo Final” roubou a Terra ao seu Sol — com a velha Lua, que ele transformara num sol miniatural.
Nesse tempo os homens eram muitos e fortes — ou pensavam que eram; tinham muitas grandes cidades e incontáveis máquinas poderosas. Pouco importara. O novo planeta gémeo não mostrara interesse algum nas cidades ou nas máquinas. Surgira uma praga de coisas como os Olhos — torvelinhos de poeiras sem poeira, ar imóvel que de repente se tornava tenso e tremulava em formas tentaculares…
(Continua)

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