19 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 293

Efemérides 19 de Outubro
John le Carré (1931)
David John Moore Cornwell nasce em Poole, Dorset, Inglaterra. Faz parte do British Intelligence — MI5 e MI6, o que certamente lhe fornece a inspiração para a carreira literária de sucesso que inicia em 1961 sob o pseudónimo John le Carré. Publica, desde então, um total de 22 romances de espionagem, 8 dos quais na série George Smiley, um espião que é uma antítese de James Bond. John le Carré é autor de vários bestsellers, tem sido distinguido com prémios e tem diversas obras adaptadas à rádio, televisão, cinema e banda desenhada. Em Portugal é possível encontrar registo da publicação dos seguintes títulos.
1 – O Espião Que Saiu do Frio (1965), Colecção Capa Amarela, Editorial Minerva. Título Original: The Spy Who Came From The Cold (1963). Editado também em 1985 com Nº239 da Colecção Século XX, Publicações Europa América; e em 2009 na Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Premiado com o Edgar Award Best Novel de 1966.
2 – A Grande Missão (1966), Colecção Espionagem, Editorial Minerva. Título Original: The Looking-Glass War (1965). Editado também em 1986 com o Nº265 da Colecção Século XX, Publicações Europa América com o título Guerra De Espelhos. É o 4º livro da série Smiley.
3 – Chamada Para o Morto (1967), Editorial Minerva. Título Original: Call For The Dead (1971). Editado também em 1984 com o Nº10 Colecção Álibi, Edições 70 e em 1993 pelo Círculo de Leitores com o título Chamada Para A Morte.
4 – Mistério Em Bona (1969), Colecção Espionagem, Editorial Minerva. Título Original: A Small Town In Germany (1968). Editado também em 1986 com Nº266 Colecção Século XX, Publicações Europa América com o título Algures Na Alemanha.
5 – A Toupeira (1975), Colecção Autores Universais, Bertrand Editores. Título Original: Tinker, Tailor, Soldier Spy (1974). Editado pela Dom Quixote em 2011. É o 5º livro da série Smiley.
6 – O Venerável Espião I (1982), Nº169 Colecção Século XX, Publicações Europa América. Título Original: The Honourable Schoolboy (1977). É o 6º livro da série Smiley.A 1ª parte inclui A Corda Do Relógio - Winding The Clock.
7 – O Venerável Espião II (1982), Nº174 Colecção Século XX, Publicações Europa América. Título Original: The Honourable Schoolboy (1977). É o 6º livro da série Smiley. A 2ª parte inclui O Abanar Da Árvore - Shaking the Treek
8 – O Amante Ingénuo E Sentimental (1983), Nº204 Colecção Século XX, Publicações Europa América. Título Original: The Naive And Sentimental Lover (1971).
9 – A Gente De Smiley (1983), Nº209 Colecção Século XX, Publicações Europa América. Título Original: Smiley’s People (1971). Editado também em 2009 pela Dom Quixote na Colecção Ficção Universal. É o 7º livro da série Smiley.
10 – Um Assassínio De Categoria (1984), Nº11 Colecção Álibi, Edições 70. Título Original: A Murder Of Quality (1962). Editado também pela mesma editora com o Nº14 Colecção Álibi, Série Especial – Os Clássicos do Romance Policial com o título Um Crime Quase Perfeito. É o 2º livro da série Smiley.
11 – A Rapariga do Tambor (1984), Nº5 Colecção Novos Continentes, Editorial Presença. Título Original: The Little Drummer Girl (1983).
12 – Um Espião Perfeito (1987), Nº17 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: A Perfect Spy (1986). Em 2003, é editado pelo público com o Nº85 da Colecção Mil Folhas.
13 – A Casa Da Rússia (1989), Editora Dom Quixote. Título Original: The Russian House (1989).
14 – O Peregrino Secreto (1991), Nº89 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: The Secret Pilgrim (1991). É o 8º livro da série Smiley.
15 – A Paz Insuportável (1992), Nº95 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: The Unbearable Peace ().
16 – O Gerente da Noite (1993), Nº138 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: The Night Manager (1993).
17 – O Nosso Jogo (1995), Nº163 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: Our Game (1995).
18 – O Alfaiate Do Panamá (1997), Nº181 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: The Tailor Of Panama (1996).
19 – O Fiel Jardineiro (2001), Nº282 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: The Constant Gardener (2000).
20 – Amigos Até Ao Fim (2004), Nº349 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: Absolute Friends (2003).
21 – O Canto Da Missão (2007), Nº349 Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: The Mission Song (2006).
22 – Um Homem Muito Procurado (2008), Editora Dom Quixote. Título Original: A Most Wanted Man (2008).
23 – Um Traidor Dos Nossos (2010), Colecção Literatura Traduzida, Editora Dom Quixote. Título Original: Our Kind Of Traitor (2010).



TEMA — CONTO DO VIGÁRIO — LIBER VAGATORUM
Porque merece ampla divulgação, com a devida vénia transcrevemos o o artigo da autoria de José Aurélio publicado há uma dezena de anos na revista da Polícia Judiciária.
M. Constantino

A mancha já extensa da criminalidade na época das primeiras cruzadas obrigou as autoridades do tempo a tomarem certas medidas, mais humanas e racionais, no combate ao crime, já que até então a Tortura era uma prática corrente.
A invenção da Imprensa está na origem destas inovações em matéria criminal, e permitia, com efeito, difundir um grande número de exemplares de brochuras e memoriais por toda a Europa, bem como obras literárias que estudavam as várias categorias de crimes e de criminosos.
A mais célebre dessas brochuras é, sem dúvida, o Liber Vagatorum ou Livro dos Vagabundos, imprimido e publicado na cidade de Basileia entre 1509 e 1511. Sem forçar demasiado a interpretação, podemos dizer que esta obra é o primeiro “ficheiro de modus operandi” da história criminal.
Nos nossos dias, todas as centrais de Polícia, possuem ficheiros, nos quais estão descritos os métodos de “trabalho” e os hábitos dos criminosos; o estudo desses métodos, para um dado crime, pode permitir a identificação do culpado.
Evidentemente muito menos preciso do que os ficheiros modernos, o Liber Vagatorum, todavia, catalogava grande número de exemplos precisos e pormenorizados, cobrindo a pouco e pouco todos os géneros de desonestidades mais frequentes na época.
A burla era o delito mais corrente no tempo da Reforma.
Indivíduos vindos de todos os países europeus, concentravam-se nas cidades, nas cidades-mercados e mesmo nas aldeias. Toda essa gente, sobretudo mendigos, cada qual mais finório do que o outro, esforçava-se por enganar o próximo; a sua imaginação provocaria inveja nos burlões contemporâneos.
Se o povo fosse instruído sobre os métodos correntemente utilizados pelos vigaristas, tornava-se possível denunciá-los à Polícia e levá-los perante o Juiz antes que fizessem novas vítimas.
O próprio Lutero, escreveu um breve prefácio, para uma das numerosas reedições do Liber Vagatorum: “Quanto a este livro que conta as desonestidades dos mendigos, o que o fez aparecer a primeira vez é conhecido por expertus in truffis = homem muito experimentado em vigarices. As quais demonstra este pequeno livro, mesmo que o autor não o tenha dito. Ora pareceu-me aconselhável que tal livro não ficasse na obscuridade mas fosse posto à disposição de todos, a fim de que cada qual veja e compreenda até que ponto Satanás rege o Mundo, para ver se seria possível que cada qual se tornasse mais avisado e desconfiado dele. Durante o ano, eu próprio fui abordado e tentado por não sei quantos desses bandidos e aldrabões. Que portanto se ponha em guarda aquele que o quiser e faça bem ao seu próximo, segundo os mandamentos cristãos, com a ajuda de Deus. Amen”.

Como exemplo, eis um parágrafo de Liber Vegatorum:

“Vigaristas:
O Capítulo… trata dos vigaristas, que são mendigos que se cobrem de unguento, depois se estendem à porta das igrejas mostrando-se como se sofressem de longa e penosa doença, como se o rosto e a boca lhes tivessem sido arrancados e quando vão ao banho três dias depois, já nada disso aparece”

Desde o aparecimento do Liber Vagatorum até ao início do séc. XIX, deparou-se com uma série ininterrupta de obras impressas que tratam do crime e dos criminosos. Forma primitiva do romance policial actual, destinado a divertir o leitor, este tipo de obras pode ser igualmente considerado uma forma de Mandado de Captura. Difundido informações renovadas sobre os criminosos e seus métodos de “trabalho”, elas permitiram em mais de um caso, a identificação e mesmo a prisão de culpados. Pelo menos, tinham a função de informar e avisar a população, o que representava já um grande progresso para a época.


TEMA — UMA ESTÓRIA DE CONTO DO VIGÁRIO — O JOGADOR VICIADO
De Charles G. Noreis
O Whitney's é um restaurante e uma casa de jogo e mais cedo ou mais tarde todos os forasteiros em Palm Beach acabam por dar com os costados por lá.
Não há hotel ou restaurante na França, na Itália, Alemanha ou Espanha que se possa comparar com o Whitney's em matéria de comida. Ali não existem menus; pede-se o que quiser, desde a sopa de pato até língua de passarinho en brochette — e o espantoso é que se recebe o que se pediu. Mas na primeira visita ao Whitney's não se faz justiça ao que nos é servido, pois à medida que a sala se vai enchendo, os nossos olhos começam a arregalar-se. Em cada mesa pode identificar-se um personagem famoso ou célebre.
Depois do almoço todo este público brilhantemente vestido passa para a sala de jogo. Pelas duas horas o aposento fica mais ou menos cheio, às três está apinhado e assim permanece até as primeiras horas da manhã. É muitíssimo mais interessante e é-se muito melhor atendido do que no Monte Carlo. Quando lá estive só procurava uma oportunidade para conhecer Mr. Whitney em pessoa.
Defrontei-me com um homem de rosto singularmente inexpressivo, queixo quadrado, olhos frios — tal como esperava. Tem o jogo como negócio e orgulha-se da direcção eficiente e perfeita que lhe presta. Dizem que ganha três milhões de dólares por estação, e duvido disso como duvido dos salários fabulosos que supostamente recebem as estrelas de cinema.
O homem, entretanto, tinha uma personalidade marcante. Interessava-me; simpatizara com ele. Gostaria de conversar, mas achei isso difícil. Não se mostrava muito comunicativo. Lá pelas tantas perguntei quanto perdia em cada estação com os cheques sem cobertura e as dívidas não saldadas. Enunciou uns 200 000 dólares, o que não pareceu achar quantia muito pesada. Ao falar nisso uma luz lhe brilhou nos olhos e seus lábios entreabriram-se num leve sorriso.
— Um dia destes tive uma experiência muito divertida — confessou ele. — Estava no meu escritório certa manhã quando me avisaram de que uma senhora desejava falar comigo… Mrs. John Rossiter. Conhecia John Rossiter, por isso mandei-a entrar.
Antes de pronunciar sequer uma palavra começou a chorar. Nada de soluços espalhafatosos; as lágrimas encheram-lhe os olhos e começaram a descer pelas faces, enquanto ela as secava constantemente com o lenço, lutando para se controlar. Não gosto destas coisas e fujo sempre que possível, mas desta vez fora apanhado desprevenido. Tive pena dela antes mesmo de vê-la abrir a boca.
O marido andava a jogar na minha casa — contou-me — e na quarta-feira, dia anterior, deixara cinquenta mil dólares no pano verde. Eu conhecia John Rossiter há uns cinco ou seis anos. Aparecia por aqui e trocávamos sempre um cumprimento amigável, mas não passávamos disso. Sempre simpatizara com ele. Era um homem recto, bom desportista, e muito estimado, frequentava as altas rodas onde sempre gozou de estima geral. Apesar de o ver aqui todos os anos, não fazia ideia de quanto jogava, nem do que ganhava ou perdia. Mantinha uma conta comigo e no fim do mês saldava-a prontamente, quando havia o que saldar.
Mrs. Rossiter explicou que o grande desgosto da sua vida fora sempre o jogo praticado pelo marido. Suplicara-lhe inúmeras vezes que se afastasse dos mercados de títulos e das cartas e ele prometera-lhe atender à sua vontade, mas acabava sempre afrouxando, caindo no vício outra vez. Os cinquenta mil dólares, que perdera na véspera, tinham-nos deixado completamente depenados. Agora — oh, eu esqueci exactamente o que ela me disse — iam ter de vender a casa que já estava hipotecada, arranjar dinheiro com as apólices de vida, tirar as duas meninas da escola, sendo até ela própria obrigada a procurar emprego. Era uma longa história; não me recordo dos detalhes — mas confesso que fiquei terrivelmente penalizado. Tirar as meninas da escola creio que foi o que me quebrou de verdade — não sei dizer com exactidão. Bem, de qualquer forma lhe assegurei que não gostava de ver os meus clientes serem tão profundamente prejudicados. Pode chamar de sentimentalismo, mas no fundo também uma maneira de fazer negócio. Não é boa publicidade espalhar por aí que as pessoas perdem até o que não têm na minha casa. Em resumo concordei em devolver-lhe o dinheiro que o marido perdera, mas com uma condição — e tornei este ponto muito claro: John Rossiter jamais deveria tornar a pisar no salão de jogo. Não gosto de lidar com este tipo de gente. Se não tinha dinheiro não devia jogar. Ela prometeu-me solenemente, com as lágrimas a escorrer rosto abaixo, e eu dei-lhe o dinheiro, ficando com cara de idiota enquanto ela me beijava as mãos pedindo a Deus todas as bênçãos para a minha cabeça — coisas que uma mulher precisa dizer para desabafar ao receber um favor que reputa importante.
Não pensei mais no caso até à tarde seguinte, quando repentinamente me foi trazido à mente. O gerente do salão veio avisar-me que John Rossiter acabara de entrar na sala da roleta e jogava numa das mesas. Via de regra nunca me meto com o que se passa lá fora, mas aquilo deixou-me furioso e por isso fui verificar pessoalmente.
Dirigi-me logo a ele e perguntei: — Posso falar-lhe por um instante? E quando nos encontrávamos a certa distância dos presentes, perguntei-lhe que diabo viera fazer em minha casa outra vez.
— Desejo saber o que significa isso — exclamei. — A sua mulher veio procurar-me, ontem de manhã contando-me as suas dificuldades devidas aos cinquenta mil dólares que o senhor perdeu aqui e eu devolvi-lhe o dinheiro perdido com a condição de jamais vê-lo entrar aqui outra vez. Ora, como ousou voltar, depois do que houve?
Rossiter encarou-me espantado:
— Mr. Whitney, deve haver algum engano. Eu não sou casado!

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