9 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 283

Efemérides 9 de Outubro
James Maclure (1939 - 2006)
James Howe Maclure nasce em Joanesburgo, África do Sul. Fotógrafo e repórter de crime, muda-se para Inglaterra em 1965, onde trabalha como editor em diferentes jornais. O seu primeiro livro The Steam Pig ganha o Gold Dagger em 1971; é com este livro que o autor inicia a série Kramer & Zondi — passada em clima de apartheid na África do Sul. A partir de 1974 dedica-se à escrita em exclusivo e publica um total de 11 livros policiários — 9 da série Kramer & Zondi, e 2 romances: Four And Twenty Virgins (1973) e Rouge Eagle (1976), um romance de espionagem vencedor da Silver Dagger em 1976, altura em que regressa aos jornais.



TEMA — CASOS REGISTADOS PELO DR. LOCARD — CHANTAGEM COM A PRINCESA RUSSA
Era um desses postos de ambulâncias conhecidos como “linha de frente”, embora não funcionasse nas trincheiras. Todavia, a ambulância da Sermeuse estava suficientemente perto do front para que ali se respirasse um ar heróico. Frequentemente ouvia-se o ruído surdo da artilharia, mesmo nos momentos em que “nada havia de novo no front”.
Durante um período perigoso, tinham julgado oportuno cercar as barracas com parapeitos de defesa, onde circulavam canhões da marinha. O ribombar dessas peças de artilharia fazia, com intervalos irregulares, saltar os feridos nos seus leitos. Como sempre, a bateria foi localizada pelo inimigo, e logo bombardeada. Resultou daí uma desordem horrível, na qual os canhões nada sofreram, porque foram logo removidos, mas as barracas do serviço de saúde foram atingidas.
A equipa da ambulância não se conformava em gozar apenas a fama da sua posição, perto do front, e honrava-se também do pessoal escolhido que a compunha: um cirurgião, que em tempos de paz fora professor de Clínica Geral, e praticava intervenções notáveis; as enfermeiras de renome, todas recrutadas na aristocracia, tanto na nobreza de sangue, como na das finanças, das artes e do teatro.
Entre as mais importantes estavam a princesa Gaoline e sua filha. Sacha Gaoline, israelita da Bukovinia, estava adida ao exército francês, na qualidade de princesa russa. Seria realmente muito duro deixar uma princesa num campo de concentração, sob o pretexto de que o destino a fizera nascer em uma província austríaca. Primeiramente a Bukovinia era encostada à fronteira russa e ela era polaca e romena de coração. E depois, como os franceses geralmente ignoram a geografia, como iriam saber onde ficava a Bukovinia? Enfim, a princesa estava mesmo ligada ao exército francês… através de muitos dos seus mais brilhantes oficiais.

Sacha Gaoline tinha “dado atenção” a vários militares de diferentes postos e idades, e, em primeiro lugar, entre os seus heróis, destacava-se um oficial general, o próprio director do serviço de saúde; sob cujas ordens estava a ambulância da Sermeuse. O médico inspector Miron aparecia sob os mais variados pretextos para visitar este posto médico privilegiado, ali eram levadas por ele as missões estrangeiras, que os serviços inter-aliados ou o escritório de propaganda enviavam para visitar o front, e nunca deixava de ali passar com os parlamentares que vinham visitar as trincheiras.
Quando não encontrava outra boa razão, vinha operar, porque manejava o bisturi com talento e não desgostava de dar provas da sua perícia, diante do cirurgião civil e diante de Sacha. Quando operava, a princesa ficava encarregada da anestesia. Um dia, como um ferido sofresse um acidente respiratório, Sacha, levada pela iminência do perigo, gritou ao médico inspector:
— Atenção, Querido Veja como o sangue está a ficar preto.
É claro que ninguém deu mostras de ter percebido a intimidade da expressão, mas desde esse dia, todos, sem excepção, até mesmo o generalíssimo e o ministro da Guerra, passaram a chamá-lo apenas de “Querido”…
É preciso que se note que Sacha não se especializava apenas em oficiais graduados. Ela concedia parte de seu tempo também aos simples soldados. Havia, entretanto, uma única pessoa que não estava a par de nenhuma das condescendências de Sacha: a sua filha. Sacha tinha casado muito jovem, e a sua filha de vinte anos, que se tinha alistado no exército ao mesmo tempo que ela, era a “benjamim” da ambulância. Olga tinha a mesma exuberância da mãe, e, como ela, muito “charme”.
Uma manhã de primavera, à hora H do dia J, um número imprevisto de pobres diabos foi ferido num ataque no front. A ambulância da Sermeuse foi socorrê-los. O pessoal, dividido em duas equipas, fazia o serviço, revezando-se cada oito horas. As ambulâncias em desfile esvaziavam, diante da tenda de operações, as macas.

Depois de três dias e três noites o movimento cessou. O ataque tinha terminado, e já começavam a evacuar para a retaguarda o grosso dos feridos. Tudo voltava à ordem. O trabalho das operações terminado, e entre dois curativos difíceis Sacha percorria as salas, dando às vezes um auxílio, e, na maior parte das vezes, conselhos autoritários, aliás excelentes, porque ela conhecia admiravelmente o seu trabalho de enfermeira e tinha senso de organização. Mas sentia-se que ela estava inquieta, e que depois de tantos dias difíceis precisava de um derivativo.
A busca não foi longa. Havia numa das salas um ferido tão evidentemente encantador, que as enfermeiras, mesmo as mais virtuosas, enrubesciam quando se aproximavam dele. Não que fosse de uma beleza clássica, mas tinha, como certos personagens de opereta, “uma pele de pêssego, e olhos de um azul especial”, pestanas curvas e longas, que lhe davam um olhar tímido e ao mesmo tempo de irresistível pudor. A boca em forma de coração, muito vermelha, com uma imperceptível sombra de bigode claro, os cabelos, naturalmente ondulados, eram louros, o nariz perfeitamente recto e a orelha deliciosa. A voz era a de um querubim.
Foi amor à primeira vista. Sacha era muito sensual, e sua idade e experiência predispunham-na para uma espécie de amor onde entra em grande parte o sentido maternal. Entretanto ela não podia usar a táctica de um ataque brusco. Georges Duval não estava mal, estava apenas doente. Fora apanhado na explosão de um obus, que o atirou tão alto, que ele não teve noção de onde caíra e muito menos de que altura. Ferido somente por estilhaços pequenos, ficou, porém, seriamente abalado.
Não houve a princípio senão uma troca de olhares. O de Sacha era de fogo, o de Georges, de uma doçura admirável. Quando voltou a calma ao front, as salas começaram a esvaziar-se, e Sacha pediu para a filha e para ela uma licença para descanso, à qual tinham direito. Certificara-se de que Georges não tinha parentes que o pudessem receber, e oferecera-lhe hospitalidade para o período da convalescença. O amável rapaz consentiu, piscando os cílios curvos e com um sorriso na boca em coração. No mesmo dia a princesa, sua filha e o belo convalescente chegaram ao castelo de Cissey.

E o que tinha de acontecer, aconteceu. O príncipe Gaoline acolheu comovedoramente o jovem ferido. Serge Gaoline era um senhor idoso, que vivia rodeado de charlatães e de curandeiros. Para se imaginar exactamente como ele era, basta dizer que havia no castelo um empregado cujo único serviço consistia em preparar chás e tisanas para o castelão.
Se Gaoline perdia as forças, Georges recuperava as suas. Sacha pode declarar-se satisfeita, e, a licença terminada, encetaram os dois uma -correspondência apaixonada.

A guerra acabou. Sacha teve com Georges mais alguns encontros amorosos, e depois esqueceu-o. Outras aventuras galantes se encadearam na corrente das suas conquistas. E o querubim ficou completamente esquecido, até ao dia em que voltou ao castelo de Cissey. O príncipe, entre dois chás medicinais, deu Georges uma acolhida calorosa. Sacha foi mais fria. Concedeu ao seu antigo amor uma recepção distraída e sem atenção. Georges, porém, não tinha vindo para pouca coisa, e explicou, com os olhos baixos, que a vida tinha sido rude para com os pobres… Uma ocasião favorável se oferecia para acabar com os conflitos de uma existência atormentada… Aparecera a possibilidade da compra de uma garagem, e ele achava que a princesa poderia adiantar a soma de 20.000 francos. Todavia, se isso fosse difícil, para Sacha, ele pediria ao príncipe. Sacha não teve senão um franzir de sobrancelhas. Vinte mil francos em papel não eram nada. Entregou ao antigo amante, a soma exigida como se lhe tivesse dado 20 francos, e, bem entendido, sem receber recibo de espécie alguma.
Parece que, apesar dos seus olhos de um azul todo especial, Georges não seduzia a clientela. A garagem, não prosperava. Seguiram-se diversos empréstimos, relativamente onerosos. Mas o príncipe Gaoline era rico e Sacha gastava sem jamais prestar contas. Apesar disso, depois do quinto ou sexto pedido ela teve uma vaga impressão de que estava a ser chantageada, e declarou claramente ao jovem de pele de pêssego que o assunto estava encerrado. Georges enrubesceu, baixou os longos cílios e deixou perceber que o príncipe pagaria seguramente um bom preço por certas assinaturas algo comprometedoras em algumas cartas antigas.
A princesa teve uma crise de nervos, arranhou o rosto de pele de pêssego, mas acabou vencida pelos argumentos irresistíveis do anjo de olhos azuis e contribuiu com um cheque ainda mais vultoso do que os anteriores. Esta cena repetiu-se diversas vezes. Mas a cada encontro as cenas eram mais fortes entre a princesa que envelhecia e o belo rapaz milagrosamente jovem. Um dia Sacha ficou mais do que farta e resolveu contar sua desgraça a um polícia, procurando-me para um conselho.
Em tais circunstâncias eu não podia dar senão um conselho: confessar. Se ela própria pusesse o príncipe a par do que se passava, poderia atenuar as coisas é sobretudo escapar das ameaças de Georges, deixando o chantagista a falar sozinho! Sacha, que era para o marido apenas uma companhia indiferente, não queria pôr em perigo nem o título nem a fortuna, pois o príncipe seria muito capaz de expulsá-la para ficar sozinho dono da fortuna. A ideia da confissão desagradava-lhe assim muitíssimo. Quanto a queixar-se à polícia, seria lógico que o escândalo inevitável traria o mesmo resultado da confissão. No fundo, Sacha teria gostado que a polícia fizesse desaparecer Georges, onde, ela não sabia, mas de maneira a que nunca mais se ouvisse falar nele. Todavia, achava a polícia francesa muito cheia de escrúpulos e deficiente.
Uma noite Sacha teve a surpresa de encontrar a sua própria filha na minha sala de espera. Houve entre as duas uma explicação atroz, começada por vociferações em francês e acabada por forte troca de palavras em romeno. Não há como as línguas eslavas para exprimir com imagens correctas os termos de blasfémia entre duas mulheres, parentes em primeiro grau e ambas vítimas do mesmo sedutor, que nada mais era do que um “canalha”. Mudo e surpreso, eu assistia à cena cheia de frases russas que eu adivinhava, sem compreender com toda a precisão desejada, enquanto balançava nos meus dedos uma ficha, cujo objecto de debate estava representado de frente e de perfil em cinco ângulos, conforme a técnica usada nas fichas dos criminosos. Isso porque o belo Georges não somente tinha relações com as princesas, mas também, já havia algum tempo, era bastante conhecido pela polícia.

Tudo tem um fim, mesmo as complicações bukovinianas. As duas mulheres retiraram-se com dignidade, sem me revelarem as conclusões a que chegaram. Entretanto, a calma de Sacha pareceu-me mais ameaçadora do que uma tempestade. Poucos dias depois, Georges, que tinha um encontro marcado com Olga, deparou com Sacha, em uma alameda de Cissey. Ele teve o bom senso de não demonstrar nem surpresa nem desapontamento, e mais uma vez imperou o encanto eslavo. O belo rapaz de olhos azuis cometeu o grande erro de contar demasiadamente com a sua juventude. A conversa desenrolava-se sob as sombras simbólicas dos salgueiros, perto de um velho poço. Não se ouviam senão suspiros…
Muito mais tarde, a vida colocou de novo em contacto a princesa e eu, o seu conselheiro no caso. Pedi discretamente notícias do homem de pele cor de pêssego… Sacha olhou para o tecto e, com uma voz onde arrulhavam todas as doçuras romenas, disse:
— Eu não sei. Esqueci-o. Não me incomoda mais. Georges tinha, com efeito, desaparecido e ninguém se inquietou com o seu desaparecimento…


TEMA — A POESIA DO CRIME — EMPENHAMENTO
De Natércia Leite

Inverno. A tarde chega ao fim. É escuro
a loja de penhores é uma tentação
ali, naquela rua estreita, envergonhada

vou pelas traseiras e lesto salto o muro
e embora apressado me bata o coração
penso que me vou sair bem desta jogada

haverá dinheiro. E ouro com certeza
de quantos venderam as suas aflições
restos dum certo desafogo d’outros tempos

trago comigo “material de limpeza”
com a arma apontada imporei condições
só quero encher o saco e no ter contratempos

quem tenho à minha frente é uma jovem frágil
dessa loja de penhores tomando conta
pálida e trémula como uma haste ao vento

mas com um passe de mágica, na mão ágil
uma pequena pistola a mim me aponta
acertando-me com três tiros num momento

porém enquanto olhava a jovem por instantes
ocorreram-me então fantasmas do passado
e os sonhos de hoje dum homem marginal

lembrei-me do menino meigo que fui dantes
da vida calma, do futuro desejado
um lar qualquer algures, uma vida normal

tendo ao meu lado essa mulher dos meus amores
jamais encontrada. Porquê? não sei dizer…
só que o destino é fértil nas suas ironias

eu conhecera ali na loja de penhores
frágil, delgada e linda a sonhada mulher
que ao defender-se a tiros, dera fim aos meus dias

pois quando a encontrei foi logo p’ra perder
ali naquela loja duma rua escondida.
Viera eu roubar a loja de penhores

deixara lá empenhada a minha vida.




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