1 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 275

Efemérides 1 de Outubro
Sarah Gainham (1915 - 1999)
Sarah Rachel Stainer nasce em Islington, North London, Inglaterra em 1915, e não em 1922 como afirmava. Mais tarde recebe o apelido Ames do marido, mas usa o pseudónimo literário Sarah Gainham. É jornalista e escritora com 13 livros publicados entre 1956 e 1983. Apesar de ser mais conhecida pela trilogia Night Falls On The City (1967) sobre o quotidiano em Viena sob o jugo nazi, Sarah Gainham, no início da sua carreira literária, é autora de 5 romances de suspense e espionagem: Time Right Deadly (1956), The Cold Dark Night (1957), The Mythmaker (1957), The Stone Roses (1959) e The Silent Hostage (1960).



TEMA — CONTO POLICIÁRIO — OS FANTASMAS DE ELIZABETH G.
De Natércia Leite
Toda a gente gostava de Charlie. Elizabeth gostava de Charlie. Generoso, correcto, com uma cultura geral muito acima da média — pois quase não havia assunto em que Charlie não falasse, desse a sua opinião, discorresse. Olhos e cabelos de mel. A boca severa mas quando se abria para rir ou falar, deixava ver os dentes pequenos e muito brancos.
Charlie namorava a irmã estava fim, estava no fim de Medicina e todo o Verão lhes fizera companhia, pois as casas de ambas famílias eram vizinhas.
Tinha sido um Verão maravilhoso. Merendas no pinhal, passeios de bicicleta ou a pé pelas, serras passeios de barco pelo lago sombrio, longas conversas e pelas tardes adiante — ala, a irmã, o irmão e Charlie pelo menos.
Chegara o Outono e tudo mudava de cor. Já um frio fininho arrepiava a certas horas a pele. As grandes árvores vestiam-se de tons amarelos e castanhos.
Naquele dia Elizabeth foi passear de barco com Charlie: remavam silenciosos. Ouviam-se os galhos a estalar, a folha ciciando, um coaxar de rã perdido de vez em quando.
O coração de Elizabeth batia de mansinho dentro do peito.
Charlie estava na sua frente, remando silencioso — olhos e cabelos de mel, distante, pensando provavelmente na irmã com quem já aprazara casamento.
E depois fora tudo de repente, sem explicação. O barco desequilibrara-se, voltara-se e aí estavam os dois dentro de água já muito fria nessa época. Elizabeth esbracejou, nadou, gritou. Deixou de ver Charlie perto de si. Nadou e gritou. Gritou e nadou. Conseguiu por milagre chegar à margem onde perdeu os sentidos.
Esteve em estado de choque. Sobreveio uma pneumonia. Ficou triste de morrer e nunca mais voltou a ser a mesma Elizabeth. O corpo de Charlie fora apanhado mais tarde nas buscas do lago.

O pai Marcus acabou anos mais tarde por voltar a casar. Gastara quase até à última a herança familiar e via-se agora com os três filhos e letras e urgentes a vencer. Daí a casar outra vez — coisa de que os filhos não gostaram mas que tiveram de aceitar. Era salvação financeira, a recuperação da dignidade económica. A mulher sofria do coração, era frágil e caprichosa e sempre à volta com as suas pílulas e comprimidos. A sua preferida era Elisabeth que desde o drama do lago a tornara numa rapariga silenciosa e um tanto apática. A irmã, passados tempos de grande depressão acabara por ser cortejada por um jovem bem parecido e casara deixando a casa paterna.
O irmão entrava e saía, estava pouco em casa, os estudos não avançavam, a boémia engolia-o.
Na casa da cidade Elizabeth com a madrasta. Quando a dor chegava como uma garra, Elizabeth corria a buscar os comprimidos que a madrasta mastigava — um, dois, quantos fossem precisos até passar a dor.
Um dia Elizabeth não estava presente. Os comprimidos não estavam à mão — a dor chegara como um espasmo doloroso. A madrasta chamara, tentara subir ao quarto, sufocada, a buscar os remédios, ficara-se a meio da escada, fulminada por uma crise.
Lamentou-se o facto mas ninguém sentiu grandemente a perda e as finanças ficaram equilibradas.

Depois fora a vez de Elizabeth. Mas Elizabeth, ela bem o sabia, era uma jovem sem sorte, condenada ao desespero e ao silêncio!
Os olhos e os cabelos de mel de Charlie andavam dentro da sua cabeça revoluteando e nunca mais nada seria o mesmo.
Elizabeth era uma rapariga adorável mas com um feitio estranho e incompreensível.
Pois chegara a sua vez. Conhecido o rapaz pensou que talvez tudo desse certo. Os olhos dele eram grandes e envolventes, sabia ser agradável divertido e vivia bem. Tinha algum dinheiro de seu — não passariam mal.
Elizabeth disse adeus à casa paterna com uma certa tristeza e foi para a sua própria casa.
Mas nada era como teria sonhado ou desejado.
Ou talvez porque Charlie não deixasse. Charlie que nunca a tinha requestado ou desejado ou balbuciado para ela uma palavra de amor. Só na sua imaginação Charlie a abraçava com ternura e a sua boca bonita encostava-se na dela, sôfrega e terna. Mas depois toda a água do lago os rodeava e inundava e Charlie era só um corpo desarticulado boiando ao sabor das águas.
Nada era como seria bom. Elizabeth entristecia. O marido bebia. Cada vez bebia mais. Deixara de ser agradável e divertido. E os olhos enormes olhavam-na, acusando-a.
Com Elizabeth tudo acabava em infelicidade e tristeza.
E um dia, a janela aberta de par em par e o marido completamente embriagado caindo do terceiro andar à rua, colando-se ao asfalto; de corpo desarticulado e mole como fora um dia o de Charlie.
Estes eram os fantasmas de Elizabeth G. que a roíam, sugavam, mortificavam.
Charlie nunca lhe falara de amor. Só tinha olhos para a irmã… Os olhos e cabelos de mel não seriam para ela.
Por Isso Elizabeth neurótica e tortuosa, durante o passeio no lago levantara-se de repente, fizera desequilibrar o barco e dera com o remo com quanta força tinha em Charlie. Depois foram as águas e envolvê-los. Ainda vira Charlie mergulhar, ser levado pelas águas atordoado incapaz de reagir. Ela lutara, esbracejara, gritara, num instinto de sobrevivência, embora ao fim e ao cabo no seu íntimo desejasse estar, ir-se com Charlie.
Ninguém desconfiara.
Depois fora a madrasta que os comprara para lhes evitar a ruína. Odiada surdamente, Elizabeth controlava os remédios, os ataques,
Naquele dia vira a aflição, o espasmo, não acudira, mantivera-se ausente. Os comprimidos estavam todos fora de alcance. Quando a madrasta tentava subir a escada, as forças tinham-se esgotado, sumido e ali mesmo ficara.
E ainda o marido detestado, insuportado, alcoólico.
Charlie, Charlie, Charlie… tão longe no tempo, apodrecendo debaixo da terra em vez de estar com ela.
A janela aberta do par, em par. Sol. O marido bêbado, amargurado e desiludido.
O empurrão. O fim.
Eram estes os fantasmas de Elizabeth G.
Que a perseguiam noite e dia até aos limites do tolerável, lhe roubavam a cor ao rosto, o sono às longas noites insones.
Os olhos e os cabelos mel revoluteavam na cabeça de Elizabeth G., Charlie, Charlie…
E Charlie como os outros era apenas um fantasma distorcido e macabro, boiando nas águas de um lago, boiando nos seus tristes, pensamentos, de olhos a cabelos de mel…


DICIONÁRIO DE AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA NARRATIVA DE ESPIONAGEM (11)

16 – BLOCK (LAWRENCE)
1938

Escritor já referido no CALEIDOSCÓPIO 176 (Clicar).
A inclusão do autor no Dicionário de Autores deve-se em especial à serie Tanner, uma das mais fascinantes no universo dos romances de espionagem.
O protagonista Evan Tanner tem um perfil bem diferente dos populares espiões americanos. Vive aventuras surpreendentes e é um agente de tal forma especial que é vigiado de perto quer pela CIA, quer pelo FBI, que temem o espírito demasiado independente do espião. Tanner tem ainda uma particularidade: sofre de insónia total, consequência de uma ferida de guerra (Coreia) que lhe causou uma lesão no lobo temporal, comprometendo o sono. Tem, por isso, mais tempo disponível do que o comum dos mortais aproveitando para estudar línguas estrangeiras, o que lhe permite efectuar missões em todo o mundo.
Livros da série Evan Tanner:

The Thief Who Couldn't Sleep (1966)
The Cancelled Czech (1966)
Tanner's Twelve Swingers (1967)
Two for Tanner (1967), também editado com o título The Scoreless Thai
Tanner's Tiger (1968)
Here Comes A Hero (1968), também editado com o título Tanner's Virgin
Me Tanner, You Jane (1970)
Tanner On Ice (1998)

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