14 de fevereiro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 45

EFEMÉRIDES – Dia 14 de Fevereiro

1929 - Massacre do Dia de São Valentim

A Lei Seca nos EUA proíbe o fabrico, a venda e o transporte de bebidas alcoólicas. A cidade de Chicago está repartida entre Al Capone e Bugs Moran, o primeiro chefia a Zona Sul – italiana e o segundo lidera a Zona Norte – irlandesa. A cidade parece demasiado pequena para dois gangs. Numa tarde do dia de São Valentim no interior garagem de Chicago são encontrados sete corpos de homens, bem vestidos, com sinais de terem sido alinhados contra a parede e sumariamente executados. Algumas das vítimas são homens de Moran, as testemunhas identificam veículos (falsos) da policia no local, Al Capone está oportunamente de férias, longe de Chicago e Bugs Moran escapa à cilada por causa de um providencial atraso. É o início de um intricado processo de investigação, que ficou conhecido como o Massacre de São Valentim, por ter acontecido no dia 14 de Fevereiro, e também o princípio da decadência de Moran e da perseguição do governo a Al Capone.



LITERATURA POLICIÁRIA E DIA DOS NAMORADOSA Judgement in Stone (1977) de Ruth Rendell
No Dia dos Namorados a governanta Eunice Parchman mata os quatro membros da família que a emprega. O detective superintendente-chefe William Vetch investiga para descobrir evidências da tragédia pessoal que precipitou o crime. Este livro esta editado em Portugal com o título Sentença em Pedra.
The Saint Valentine's Day Murders (1984) de Ruth Dudley Edwards
Robert Amiss funcionário fica envolvido numa teia complexa de mistério e assassínio quando tenta encontrar o responsável pelo envio de chocolates envenenados no Dia dos Namorados
Saint Valentine's Night (1989) de Andrew M. Greeley
O repórter Neal Connor mistura romance e perigo quando regressa a Chicago, a sua cidade natal, e reencontra uma antiga namorada, agora viúva do seu melhor amigo.
Deadly Valentine by Carolyn G. Hart (1991)
Um baile inocente no Dia dos Namorados em Broward's Rock torna-se fatal. Annie Laurance investiga o crime em que a sua própria sogra é a principal suspeita.
Bleeding Hearts (1994) de Jane Haddam
Ex-agente do FBI Gregor Demarkian corre contra o tempo para prevenir um assassinato no Dia dos Namorados.
Crimes of the Heart (1995)
Uma colectânea de 14 contos tendo como tema a atracão fatal. Inclui Matchmaker de Sharyn McCrumb, Hard Feelings de Barbara D'Amato e The Rosewood Coffin, ou the Divine Sarah de P. M. Carlson.
Valentine (1996) de Tom Savage
Jillian Talbot, um escritor de suspense, vê o seu quotidiano idílico em Greenwich Village interrompido pela presença de um indivíduo obcecado que se torna mias agressivo com o Dia dos Namorados.
Love Lies Bleeding (1997) de Susan Wittig Albert
China Bayles espera um pedido de casamento no Dia dos Namorados, em vez disso o seu noivo, Mike McQuaid, é baleado.
Claws and Effect (2001) de Rita Mae Brown
Harry Haristeen e seu gato detective, Mrs. Murphy, tem um desafio de Dia dos Namorados relacionado com cartas ameaçadoras e o assassinato de um director hospitalar.
Love and Death (2001)
Uma antologia de 14 mistérios do Dia dos Namorados.Contos originais do tipo A whodunit ou whodunnit de Dorothy Cannell, Caroyn Hart, Nancy Pickard, Gar Anthony Haywood, Peter Robinson, Eve Sandstrom, Ed Gorman, Margaret Maron, Jean Hager, Robert J. Randisi, M. D. Lake, Susan Dunlap, Marilyn Wallace e Kathy Hogan Trocheck.
Crimes of Passion (2002) de Nancy Means Wright e outros
Quatro histórias emocionantes de obsessão e desejo dos mestres do mistério. Inclui The Lovebirds de B. J. Daniel onde o detective Tempest Bailey tem de resolver o mistério que envolve o assassinato de Peggy Kane, uma amante que recebeu um presente do dia fatal dos namorados. Outros contos de Maggie Price, Jonathan Harrington e Nancy Means Wright.
A Catered Valentine's Day (2007) de Isis Crawford
No funeral da mãe de um cliente, as irmãs Bernie e Libby, vêem-se perante um estranho mistério quando o cadáver de Ted Gorman, o proprietário da Just Chocolate, que supostamente morreu há algumas semanas num violento acidente de carro, é encontrado na sepultura de outra pessoa.
Cat Playing Cupid (2009) de Shirley Rousseau Murphy
Quando um casamento no Dia dos Namorados, é interrompido pela descoberta de um cadáver, Joe Grey e seus companheiros relacionam o assassinato com um caso antigo que envolvendo passado romântico pai da noiva.

TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA (2)
IDADE MÉDIA, RENASCENÇA E DEPOIS…

(Continuação CALEIDOSCÓPIO 35)
O raciocínio ORAL e narrativo perde motivação com a Idade Média, não é sem razão que também se apelida esta época de Idade das Trevas
Na realidade os crimes e delitos não eram considerados como tal, o assassínio inclusive, resolvia-se no seio das famílias que gozavam de liberdade absoluta de agir ou não e, em caso afirmativo, quase sempre, não pelo crime, mas pela vingança daquele. A verdadeira repressão de crime apenas era usada quando relacionada com o culto religioso. O Juiz supremo era o padre, sem apelo quanto ao veredicto deste. As investigações eram substituídas pelo designado Juízo de Deus. Uma prova a que os suspeitos se submetiam que, pela sua índole, só poderia ser positiva.
A terra, a água e o fogo, no pensamento do homem da Idade Média, são os elementos de que Deus se serve para apontar o culpado ou salvar o inocente.
De mãos nuas o acusado devia levar um ferro em brasa da pedra baptismal ao altar-mor; caminhar descalço sobre ferros previamente aquecidos ao rubro - era a prova de fogo.
Mergulhar o braço em água a ferver para extrair uma pedra colocada no fundo, era a prova do caldeirão ou prova de água que, poderia igualmente consistir em atirar com o suspeito para dentro da água amarrado de pés e mãos. Se voltasse à tona era inocente, se mergulhasse era culpado… necessariamente existiam bem poucos inocentes!
O julgamento pela cruz e pelo caixão eram novas formas de prova. No primeiro caso, os queixosos deviam ficar de braços erguidos diante do crucifixo sem demarcação de tempo, o primeiro que baixasse os braços era o culpado; no segundo, o suspeito era levado perante o corpo da vítima e tocar-lhe, se esta começasse a sangrar, era considerado culpado.
O Juízo de Deus pelo duelo aparece mais tarde, mas ainda no período da Idade Média e havia de estender-se até ao Século XVIII.
A propósito do tema, ainda que tenha sido escrito para além da Idade designada, cabe registar a narrativa de Heinrich Von Kleist, poeta, dramaturgo e novelista alemão (1777-1811).

No dia designado pelo tribunal para a execução, no qual Friedrich e Littegard deviam morrer queimados na fogueira, o moribundo conde conseguiu ser levado junto do Imperador e, reunindo as últimas forças, gritou:
— Alto! Antes de lançarem fogo deixem-me falar! Quero declarar a inocência dos que vão ser queimados, são palavras de um pecador arrependido que vai morrer.
O Imperador levantou-se.
— Que dizes? Então não ficou tudo esclarecido com o Juízo de Deus?
— Littegard é inocente! — exclamou o enfermo. É claro que o Juízo de Deus é infalível. Von Trotta atingido três vezes com feridas mortais, cada uma por si só, recuperou… este pecador que apenas foi atingido na pele, morre sem remédio. Quereis mais claro onde está a mão de Deus? Littegard é inocente, foi com a sua criada que me encontrei na noite escura, vestida com os trajes da bela viúva.
O Imperador ordenou que soltassem os prisioneiros, mandou dar-lhes roupas novas e abraçou-os. Vota Trotta aproximou-se do moribundo e, sem rancor, abraçou-o, enquanto Jacob Barbaroxa pronunciava as suas últimas palavras:
— Jamais poderei obter o perdão de Deus, nem dos homens, pois sabei que sou o assassino de meu irmão o nobre Duque de Wilhelm Von Breysach… a quem mandei matar… na noite… na noite…
O cadáver tomou o lugar dos ex-condenados e, em breve, o fogo purificava o corpo imundo.



Como se viu, na ligeira amostra, o Juízo de Deus, em qualquer das suas formas, apresentava riscos consideráveis, sobretudo numa época em que a ameaça das infecções era constante. Para a Igreja, só o espírito impuro, ou seja o culpado, podia ter sangue impuro, enquanto a pureza de sangue provava a pureza da consciência.
Mais modernamente, mas não menos feroz era o julgamento do pão, o acusado tinha de engolir um pedaço de pão sobre o qual se havia lançado previamente uma maldição; se o engolia sem dificuldade, estava salvo, se o pão não lhe passava da garganta, era culpado.
A este respeito num dos capítulos de Decameron (1344 - 1366), de Giovanni Boccaccio, escritor italiano (1313 - 1375), quando conta:



… No Roubo do porco de Calandrino por Bruno e Buffalmacco, o julgamento pelo pão é-nos apresentado sob a forma de bolinhas de gengibre, das quais duas haviam sido confeccionadas com aloés hefático fresco e coberto de açúcar como as outras. A operação era chamada "tiromanteia" e preparava-se segundo determinados pedacinhos de pão e queijo, os quais eram benzidos com especiais fórmulas pela Igreja e distribuída aos presumíveis ladrões para os identificar, baseando-se a questão na convicção de que o culpado não era capaz de engolir comida benta.
Na História de Boccaccio dá-se uma inversão às regras. É o dono do porco roubado, Calandrino, que é submetido ao juízo pelos dois ladrões, Bruno e Buffalmacco, sendo-lhe distribuídas as bolinhas confeccionadas com aloés, que não consegue tragar, acabando por se convencer que roubou o porco a si próprio…
(Continua)
M. Constantino

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