18 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 78

EFEMÉRIDES – Dia 18 de MarçoRichard Condon (1915 – 1996)
Richard Thomas Condon nasce na cidade de Nova Iorque. Publicitário e produtor teatral é assessor de impressa dos maiores estúdios da época — Walt Disney, Hal Horne, 20th Century Fox. Num total de 27 obras, escreve 12 romances policiários protagonizados pelo Captain Colin Huntington, com enredos intricados onde a sátira tem uma forte marca. As obras mais conhecidas são: The Manchurian Candidate (1959), prenúncio dos assassinatos do Presidente John F. Kennedy e do irmão Robert; An Infinity of Mirrors (1964) tem como pano de fundo o terror nazi; a série bestseller Prizzi, 4 romances, entre 1982 e 1994. Richard Condon tem várias obras adaptadas ao cinema.



TEMA — ACTUALIDADE — PLANETA EM PERIGOA terra tem 4,5 mil milhões de anos de existência. Neste período sofreu transformações estruturais, físicas, químicas e surgiu vida. Todas estas mudanças ocorreram lentamente, prolongando-se por centenas de milhões de anos. Não faltam vestígios de catástrofes mais ou menos profundas: a separação dos continentes, erupções vulcânicas, glaciações, dilúvios, desaparecimento dos dinossáurios etc.
Michael J. Drake, recém falecido em Outubro de 2011, director
Lunar and Planetary Laboratory da University of Arizona, não escondia a hipótese da extinção terrestre. A comunicação social e revistas científicas não esquecem a existência de um asteróide 1999 RQ36 de 560 metros e diâmetro, que se aproximará perigosamente da terra entre 2169 e 2199, não sendo o único, já que no início do presente ano se conhecia um outro asteróide de 840 metros de diâmetro e com mais de 1 quilometro de extensão que periodicamente se aproxima da terra. Para Drake era essencial o projecto da NASA, que já gastara 800 milhões de dólares na sonda OSIRIS-Rex que irá estudar a estrutura dos asteróides de modo a serem bombardeados e desviar a sua trajectória. Resta saber se resultará, já que o mais próximo asteróide poderá roçar o planeta em 2029,faltam poucos anos, um espaço muito curto para obter uma solução salvadora.
M. Constantino

TEMA — CONTO POLICIÁRIO — O AVISO
De Victor Dimas
Quando acordou, já sabia o que tinha de passar-se na noite seguinte E desta vez deixaria a bestialidade à solta, não lhe travaria o ímpeto à custa de um esforço titânico de auto-domínio.
Só porque não podia mais. Nem queria repetir a mais um neurologista, depois a outro e outro, a mesma história.
Não, porque era absolutamente inútil.
O remédio era só um, inevitável: matar.
Nunca o tinha tomado mas sabia — no certo e necessário como o ar que respirava. E já o conhecia há muito, estava recomposto do choque que aquela revelação lhe provocara. Enquanto não destruísse uma vida de mulher, enquanto não sentisse fluir-lhe entre os dedos enclavinhados um sopro essencial, a sua angústia cresceria todos os dias, olhando os homens como inimigos até deixá-lo prostrado de ânsia, doente de esmagadora impotência. Porque a lei…
Ah! Mas agora estava resolvido e não poderia viver sem satisfazer esta necessidade imperiosa. Vital, Inalienável.
O projecto era bom. Tinha a oportunidade e o local. Mas não a vítima.
O rapaz era alto e de boa presença. Tinha mesmo um ar de distinção. E uma ruga de preocupação na testa elevada.
Mesmo assim, não devia ser grande problema. Os jovens não têm grandes problemas. E ela sorriu-lhe, aproximou-se coleando entre as mesas.
Ele tinha pedido uma bebida que lhe acalmasse a inquietação. E olhava-a, hesitando ainda. Sabia que, se saíssem juntos, ela não voltaria. Ela estava já sentada, sorrindo sempre, insinuando.
E talvez nem fosse crime libertar a sociedade de uma mulher. Uma mais, que diferença faz?
A mulher que sorria representava a solução. Ou a demência.
O local, o motivo, tinha-os. A vítima inconsciente sorria outra vez, cada vez mais perto os lábios sanguíneos.
Levantou-se.
O hotel numa rua tranquila era muito acanhado. Escuro e pouco frequentado. Mas tinha uma saída lateral para outra pequena rua. E o recepcionista, do seu nicho ao fundo do corredor, não podia vigiá-la sem torcer o pescoço. Nem estaria interessado. “Senhor e senhora qualquer coisa” — escreveu em letra de imprensa.
— Bagagem?
— Não. É só por esta noite. Pagou.
O homem estava habituado. Mirou-os. ~
— Bem. Não queremos fitas, hein? — Tirou a chave. “22”, dizia a pequena etiqueta adjunta.
Subiram calmamente.

Já não era possível retroceder. Ela iria prodigalizar-lhe carinhos, estandardizados mas que o são. E umas mãos, um corpo vibrante de mulher completa, excitante, dão sempre resultado.
Quase sempre, aliás. Porque com ele... bem, ela rir-se-ia quando descobrisse. Talvez lhe voltasse as costas, simplesmente. Ou lhe exigisse compensação. “Pelo tempo que perdemos”….
O costume.
Era a situação, a humilhação que faria dele o assassino
Inexorável, avizinhava-se o momento. Depois seria livre, humano e igual a todos os outros.
Um homem, enfim. Sem complexos.
Ela pareceu surpreendida com a sua lentidão. Tirou o fato, calmo, meticuloso. Depois, puxou a carteira do bolso interior e abriu-a.
Ela compreendeu e estendeu a mão aberta, com os dedos a falarem. Sem uma palavra, ele tirou duas notas e, suavemente, deixou-as cair sobre a cama.
Ela, com uma perna em ângulo agudo, apanhou-as maquinalmente e estendeu-se para a malinha. Sobre a mesinha oval, no centro do quarto, a carteira dele com o monograma, com os documentos, ficou à espera.
Ela abre muito os olhos. Ri histericamente. Esforça-se em vão.
No peito, ele sente uma torrente de fogo a desfazer-lhe os últimos resquícios de prudência. É a sua oportunidade de destruir o demónio que o inibe. Frustração psicopática, ou lá o que é. A morte como recurso, na guerra de que não tem culpa. A lei do mais forte.
Pronto.
A mulher parece dormir, de cara para baixo. Ele voltou-a. Sente-se despersonalizado. É um assassino agora, mas um homem, acima de tudo. E vai prová-lo, embora ela não possa sentir. Mas é a ele que interessa saber se não foi inútil.
É um animal, pois. Mas os homens são animais. Monstros, até.
E vencem.
Agora, é preciso ponderação. Não dar largas à euforia, à sensação de vitória que o percorre.
Tapa a mulher, mete no bolso os papéis que encontra na malinha. Deixa o dinheiro. Passeia a vista pelo círculo do quarto. A mesinha, ao centro é apenas uma oval perfeita com uma jarra de flores artificiais que fazem sombra no centro.
Encaminha-se para a porta, tranquilizado. Antes de apagar a luz, os olhos afloram um aviso rectangular. Mas não lêem, não percebem que as letras formam palavras.
Nem lhe interessa o que possa dizer um letreiro de hotel. Desce a escada com cuidado. Rápido, vê-se na rua. Em casa.
E dorme, tranquilo pela primeira vez em muitos anos. Até ao meio do dia seguinte. Quando abre os olhos, estúpida, inexplicavelmente, o aviso no quarto do hotel, na face interior da porta, salta-lhe na memória:
“Por Favor, Verifique Se Não Esqueceu Nada. Obrigado”.
E soube então que na mesinha oval tinha esquecida a sua sentença de morte.

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