HOJE NO JORNAL PÚBLICO
5 de junho de 2016
4 de junho de 2016
4º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO
Amores de Milú
Ainda não vos falei do passado da menina Milú. Sei do vosso
interesse e por isso deixei os intérpretes a enxugarem-se no Lago do Campo
Grande para vos pôr ao corrente da curta mas já exuberante vida da menina Milú.
Maria de Lurdes fez a escola no Maria Amália em Lisboa e aos
16 anos teve o primeiro desgosto de amor, dos muitos que vieram depois.
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| Liceu Maria Amália Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/ |
O seu namorado − veio
a saber mais à frente − utilizara-a como cortina de fumo pois fora apanhado no
Parque Mayer com um colega aos beijos. Uma amiga viera piedosamente avisá-la.
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| Teatro Maria Vitória - Parque Mayer Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/ |
Depois foi um pegador de touros. Era um rabejador. Não dava a cara ao touro, pegava-o pelo rabo, o que evitava levar uma cornada. Salvador era um lindo moço. De cabelo louro escorrido e de risco ao meio. Ao longe na praça de touros parecia um pajem. Porém, o namoro durou pouco.
Salvador tornara-se aborrecido. Só gostava de a ter ao colo
e quando ela acedia começava a imitar a corneta do inteligente como se fosse a
hora da pega.
A primeira vez tivera piada, depois era uma maçada. Mandou-o
rabejar para outro lado.
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| Cartaz de Tourada Fonte: Correio do Ribatejo |
Milú tinha um dia prometido a Santa Engrácia de quem era devota, que levaria a virgindade até à noite do casamento. Como mandavam as regras da Santa Madre Igreja. Queria seguir a vida de Santa Engrácia a virgem mártir se fosse necessário. Milú ia à missa todos os domingos e até tinha feito a comunhão. Porém os anos foram passando e Milú já com 27 anos começava a ver que não lhe aparecia namorado de jeito.
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| Igreja de Santa Engrácia Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/ |
Um dia em que estava no Café Londres a tomar uma bica
foi-lhe apresentado o Sr. Costa, um abastado construtor civil, homem já entrado
na idade e que, soube depois, tivera já em adulto papeira que influenciou o
normal funcionamento dos órgãos reprodutores.
Esta última parte da infertilidade estaria para provar e a
sua amiga Manuela que o apresentou acabou dizendo não ter lá muita certeza se a
doença provocara mesmo algum distúrbio ao Sr. Costa.
Veio a saber depois que ele tinha mulher e filhos em Tomar
coisa que o próprio não desmentiu quando foram ao cinema Império ver um filme
de amor.
Costa abriu o jogo. Queria ter em Lisboa um aconchego. Um
ombro amigo, uma amiga que lhe tratasse bem e que soubesse dirigir um
apartamento mobilado à maneira. Em troca nada pedia senão a sua boa disposição
e alegria de viver. Nada mais.
Milú topou o jogo e embarcou no negócio. Com uma condição.
Ela queria continuar virgem até à consumação do casamento. Costa fechou o
negócio.
Ele tinha um apartamento na Avenida de Roma mas raramente estava em Lisboa. Tinha
muitos negócios em Cabo Verde e estava a construir um hotel na cidade da Praia.
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| Avenida de Roma |
(fim do 4º episódio)
1 de junho de 2016
LIVROS - NOVIDADES
LANÇAMENTO PREVISTO PARA 21 DE JUNHO
O Domador de Leões
Camilla Läckberg — Editora Dom Quixote
Junho 2016
Título Original — Lejontämjaren (2014)
Sinopse
É Janeiro e um manto de neve cobre Fjällbacka. Uma adolescente seminua sai do gélido bosque a cambalear, e atravessa a estrada. O carro aparece do nada e o condutor não consegue travar a tempo de evitar a tragédia.
Quando Patrik Hedström e a sua equipa são alertados para o acidente, já o corpo da rapariga tinha sido identificado. Era Victoria Hallberg, que desaparecera quatro meses antes, quando regressava a casa depois de uma aula na escola de equitação. A Polícia apercebe-se de que aquele terrível acidente foi o melhor que podia ter acontecido a Victoria. O seu corpo evidencia sinais de ter sofrido atrocidades inimagináveis e tudo leva a crer que não será a única vítima. Enquanto isso, Erica Falk investiga o trágico passado de uma família ligada ao circo, o que a leva por diversas vezes a um estabelecimento prisional para visitar Laila, uma mulher acusada de ter matado o marido. Mas não consegue desvendar o que realmente se passou naquele longínquo dia fatídico. O que estará Laila a esconder? Para onde foram os dois filhos depois da tragédia? Erica desconfia de que há em toda aquela história algo que não se encaixa. E que o passado estende os seus longos braços para vir ensombrar o presente.
Outros livros da autora:
1 – A Princesa de Gelo (2010)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Isprinsessan (2002).
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Isprinsessan (2002).
2 – Gritos do Passado (2010)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Predikanten (2004).
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Predikanten (2004).
3 – Teia de Cinzas (2011)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Stenhuggarenn (2005).
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Stenhuggarenn (2005).
4 – Ave de Mau Agoiro (2011)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Olycksfageln (2006).
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Olycksfageln (2006).
5 – Diários Secretos (2012)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Tyskungen (2007).
7 - A Ilha dos Espíritos (2014)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Tyskungen (2007).
6 - A Sombra da Sereia (2013)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Sjöjungfrun (2008).7 - A Ilha dos Espíritos (2014)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Fyrvaktaren (2009).
8 - O Olhar dos Inocentes (2015)
Colecção Literatura Policial, Editora Dom Quixote. Título Original: Änglamakerskan (2011).
Etiquetas:
Camilla Läckberg,
Livros - Novidades
28 de maio de 2016
3º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO
Fado do Cacilheiro
Um banco de jardim pode ser o começo de uma bela relação. O Alferes Sesinando esparramado no banco de tiras de madeira olhava embevecido Milú e seu canito Lanudo.
Pelo canto do olho fazia-lhes o retrato. Media a cena e com
voz melosa para boi dormir tentou uma aproximação já mais que vista, mas de
resultados certos e garantidos.
− Desculpe o
meu atrevimento mas a menina Milú por acaso não mora no Bairro de Alvalade? É que
a sua cara não me é estranha…
− Não, enganou-se.
Moro na Avenida de Roma, ali ao pé do Hospital dos Malucos, o Júlio de Matos.
Conhece?
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| Hospital Júlio de Matos Fonte: Blogue Restos de Colecção |
− Mesmo
agora passei por lá, vim a pé desde o Martim Moniz, para ver como Lisboa já
mudou neste 3 anos que estive fora na guerra em Angola. É uma zona muito chique!
− Lá isso é
verdade! Só mora ali gente boa e simpática. Eu vivo com um construtor civil, um
homem já de uma certa idade e que anda sempre por fora. Agora está em Cabo
Verde a construir um “resort” de luxo. Só cá vem de dois em dois meses. Eu
tenho a companhia do Lanudo. Vivo muito só!
− Está como
eu. Não se queixe. A vida é assim. Mas agora me lembrei…eu ainda não me
apresentei. Sou o Alferes Sesinando. Cheguei ontem no navio Niassa. Ando a ver
se localizo o Retiro do Quebra Bilhas. Disseram-me que fazem lá umas iscas como
não há outro restaurante em Lisboa. A menina conhece?
− Se conheço
o Quebra Bilhas? Conheço lá eu outra coisa! Até já lá cantei!...
| Quebra Bilhas em 2016. Foto de Onaírda |
− Não me
diga. Então está já convidada para lá irmos almoçar. Mas ainda é tão cedo, a
menina já andou aqui no lago nos barquinhos? É aqui tão perto. Mesmo ao lado.
Podíamos dar ali um passeio. Eu remava e a menina pegava no Lanudo
− Nem
pensar. Tenho um medo do mar e depois nem sei nadar…
− Lá por
isso não seja obstáculo. Acontece que o lago tem água mas dá-lhe pelos joelhos,
ninguém lá morreu afogada.
−Ah. Julgava
que fosse mais fundo. Nunca lá fui. Barco para mim só o cacilheiro.
Lisboa – Cova do Vapor. Praia. Sol. Calor. Verão.
− Bem então
vamos dar uma voltinha e eu canto-lhe o Fado do Cacilheiro enquanto remo. Era
romântico não acha?
Milú pensou um pouco e depois cedeu. Estava danadinha para
dar uma voltinha acompanhada do simpático Alferes. Depois, ele cheirava tão
bem. Ou seriam as flores do jardim? Ali ao lado havia um roseiral.
O encarregado dos botes indicou um azul celeste e lá entrou
o alferes que deu a mão à Milú que apertava assustada o Lanzudo contra o peito.
Com duas remadas fortes do alferes o bote seguiu o seu
caminho e Milú sorriu encantada. Nunca fora no bote. Era a primeira vez! E
estava a gostar.
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| Fonte: Portugal em Postais Antigos |
Sesinando começou a trautear o velho fado do Cacilheiro. Um
êxito revisteiro.
Video: Zé Cacilheiro (José Viana)
O céu estava azul e fazia calor. A primavera já ia longe e o mês de Junho começava a aquecer o ambiente.
Milú encantada deu folga à trela e o Lanzudo vendo o espelho
de água enervou-se. Começou a rabiar e saltou para a água. Milú tentou
apanhá-lo e desequilibrou o barco que perigosamente balançou. O Alferes
Sesinando tentou agarrar a Milú e o barco balançou ainda mais bruscamente. Em
dois segundos todos estavam a boiar no lago.
Era o fim da picada!
25 de maio de 2016
DIVULGAÇÃO
21 de maio de 2016
2º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO
Do Martim Moniz ao Campo Grande
Sesinando acordou com a boca a saber a papéis de música. Dormiu mal até às 3 da manhã.
Os quartos da pensão “Bons Sonhos” eram baratos – 15 escudos
uma dormida, mas o quarto era minúsculo onde mal cabia o divã de molas e as
paredes eram de tabique de madeira o que dava para se ouvir tudo o que se
passava aos lados.
Estava convencido que a pensão mal dava tempo para sonhar
pois as cabo-verdianas que faziam o Largo Martim Moniz entravam e saiam várias
vezes e cabo-verdiano é assim, é expansivo na cama…
Sesinando não exigia mais pelos 15 paus.
Lá pela madrugada adormeceu profundamente e agora já estava
pronto para sair. Banho nem vê-lo. A pensão não tinha! Nem tampouco águas
correntes − nem quentes nem frias. Era pegar ou largar. Pelo preço não se podia
pedir mais.
Divertiu-se fumar e a beber Sagres até às duas da manhã e a
ouvir mornas e boleros tocados pelo ceguinhos-músicos do Bar “Bolero”. Não foi
em engates.
Ainda era cedo. Havia muito tempo para a esbórnia.
Vestiu-se e petiscou um copinho de leite na leitaria da
esquina e seguiu o seu objetivo ir ver o lago dos barcos do Campo Grande e
espreitar − e eventualmente almoçar no retiro do “Quebra Bilhas”.
Alguém lhe falara da casa. Com mesas de correr e um
caramanchão a sombrear e refrescar o ambiente. Comida caseira e bom vinho da
pipa.
Estava danadinho para comer umas iscas com elas, um prato do
seu agrado e que não o via há mais de dois anos!
E lá foi o nosso alferes Sesinando a pé − agora já à civil,
pela Almirante Reis acima até ao Areeiro e depois Avenida de Roma até ao Campo
Grande.
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| Almirante Reis Fonte: Urban Sketchers |
Chegou ao Jardim do Campo Grande e foi ver o lago onde os
pequenos botes a remos eram o prazer máximo dos namorados.
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| Campo Grande Fonte: Urban Sketchers |
Ali ficou sentado num banco de jardim a fumar e a gozar da
boa vida quando de repente e sem dar por isso um cãozinho veio ladrar às suas
botas. Era uma amostra de cão. Mal se via o focinho cheio de pelos bem como o
corpo. Parecia um novelo de lá a ladrar-lhe aos pés.
Afogueada atrás do canito vinha a dona. Chamando-o pelo nome
e ele sem obedecer, pois embirrara com as botas do nosso alferes.
Sesinando, num golpe de rins, agarrou na trela solta e
puxou-o. De seguida a dona a deitar os bofes fora chegou ao alferes e
agradeceu.
− Ai, muito
obrigado. Este malandro de repente foge-me e atravessa a rua. É um perigo. Não
sei como lhe hei de lhe agradecer.
− Ora − disse Sesinando − não me custou nada apanhar o
bichinho. Pode-me agradecer dizendo-me o seu nome?
− Milú. E o
cãozinho chama-se Lanudo.
Sesinando pediu-lhe para ela descansar um bocadinho, ali no
banco do jardim havia lugar para todos e sobrava espaço.
Estava-se a preparar um começo de uma bela amizade. Quase ia
apostar.
(fim do 2º episódio)
14 de maio de 2016
1º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA-BILHAS de A. RAPOSO
(Histórias de Lisboa do antes de 25 de Abril)
O saco da roupa à civil e algumas recordações de África mais
propriamente de Angola, era toda a sua riqueza.
![]() |
| Fonte: http://www.museudopapel.org/ |
Ali estava ele, com um futuro obscuro à sua frente mas são
como um pero e sem marcas da guerra. Vinte e um anos, já a fazer vinte e dois
em Agosto que já vinha perto.
Notava-se pelo calor.
Notava-se pelo calor.
Aliás, a guerra era para esquecer. Nada mudara em Angola e
pelos vistos nada mudara em lado nenhum.
Pensara em ir para França. Diziam que se encontrava
facilmente trabalho e bem pago. Em francos. O pior era a língua. Não dominava.
Tinha ainda uns escudos no bolso fruto das trocas de coisas
com os pretos. O saco vinha carregado de pau de cabinda, madeira que se vendia
bem em Lisboa. Era o seu pé de meia.
Meteu-se num elétrico e veio até ao Martim Moniz local que
ele sabia haver pensões baratas para pernoitar e onde se dizia que a noite era
divertida.
Ali à esquina ficava a conhecida “Base Aérea nº 1” nome de guerra do Bolero, um bar de terceira
com música ao vivo.
Uma orquestra de três ceguinhos da Associação Luiz Braile que iam ali tocar na noite (para eles era sempre dia!) para fazer uns tostões extra. Entre as gargalhadas do mulherio já tocado e os acordes desafinados das concertinas uma nuvem de fumarada tapava das vistas muitas desgraças.
Uma orquestra de três ceguinhos da Associação Luiz Braile que iam ali tocar na noite (para eles era sempre dia!) para fazer uns tostões extra. Entre as gargalhadas do mulherio já tocado e os acordes desafinados das concertinas uma nuvem de fumarada tapava das vistas muitas desgraças.
O bar era frequentado por senhoras que já tinham feito duas
guerras mas que continuavam firmes e prontas a enfrentar qualquer batalhão, por
mais armado que fosse desde que lhes oferecesse vinte paus e uma cerveja.
Sesinando estava precisado. Tinha que mudar o registo e
retirar o mato da sua cabeça.
Agora a guerra dele era outra. Havia música, cerveja e
putedo. E viva a “peluda”!
![]() |
| Fonte: http://madeinportugal560.blogspot.pt/ |
3 de abril de 2016
12º E ÚLTIMO EPISÓDIO - CARTA DO FINADO CABO JEREMIAS
Nota:
Este episódio final está relacionado com o 8º Episódio (Clicar) e com 9º Episódio (Clicar)
Da direção do Lar do Sagrado
Coração de Jesus da Nazaré recebemos uma carta de um seu utente acabado de
falecer, com a indicação de ser dirigida, após a sua morte, ao blogue
Policiário de Bolso.
Eis o texto:
Encontro-me só no mundo e sem
ninguém. A minha saúde está por um fio pois a idade não perdoa e já vou perto
da centena de anos. Tenho vindo a seguir com interesse e recordando com saudade
os diferentes episódios contados pelo historiador A. Raposo de forma escorreita e
verdadeira. Para ele os meus respeitos.
O homem sabe do que fala e sei
que recolheu informações de forma a contar as histórias tal qual elas se
passaram.
Acontece que guardei
religiosamente segredo de um facto que aconteceu por alturas em que fui mais a viúva
Teresinha apanhado em flagrante pelo Raul das Solas e Cabedais.
Nessa altura e uma vez que fui
ameaçado pela sovela do Raúl, saí de rabinho entre as pernas e salvei as minhas
vergonhas da degola e a viúva do falatório.
O caso acabou em bem e o Raul ficou
satisfeito e acabou no mês seguinte por casar com a Teresinha. Eu na altura
vivia com a minha mulher e não podia fazer ondas…
Porém, eu sabia que ela já estava
a faltar-lhe as regras há 1 mês e o casamento veio a tempo de salvar o
escândalo.
Acontece que a filha da Teresinha
(que emigrou depois para a Austrália e de quem nunca mais soube nada) era
afinal minha filha e tu Ana Teresa és minha neta.
Que Deus te proteja. Afinal a
geração do cabo Jeremias não acabou – não tivemos filhos com a minha já falecida
esposa e como prova do meu amor deixo-te em testamento o prédio onde estou a
gozar os últimos dias da minha existência.
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Cabo Jeremias
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A. Raposo,
Cabo de Esquadra Jeremias
27 de março de 2016
11º EPISÓDIO - O CARNAVAL DO CABO JEREMIAS
Nos velhos anos de 1955 o Carnaval ainda não era um negócio
e cada um mascarava-se como entendia.
Os números mais tradicionais:
O XEXÉ – indivíduo de fato séc. XVII, chapéu de dois bicos,
meia alta, jaqueta vermelha. Na mão um chifre e na outra um facalhão de madeira
pintada. Uma barriga enorme para atacar os transeuntes à barrigada. Este
personagem desapareceu de cena nos anos seguintes. Era um personagem castiço.
Mas números populares mesmo, era a troca de trajes. Os homens
mascaravam-se de matrafonas e as mulheres de homem.
De acordo com a lei e a ordem em vigor, era proibido tapar
as caras com máscaras e os homens teriam que fardar de calças e as mulheres de
saias.
Como no Carnaval − dizia-se, ninguém levava a mal, excepto o
cabo Jeremias e seus iguais que tinham trabalho redobrado correndo à
chanfalhada e mesmo prendendo os prevaricadores.
O cabo Jeremias não tinha descanso.
Pela Rua Barão de Sabrosa abaixo vinham os patuscos
personagens: um homem mascarado de mulher, pintado com mau gosto e exagero nas
tintas, saltos altos de difícil equilíbrio uma barriga enorme a fingir de
grávida, empurrando um carrinho de bebé.
Dentro dele com uma touca e chucha ao pescoço, um enorme
biberão na boca com vinho tinto que alimentava o matulão que encolhido seguia
encaracolado dentro do carrinho. De vez em quando fazia birra e a “mamã”
chegava-lhe à boca o biberão que ele bebia sôfrego, ficando rapidamente
etilizado e incapaz de sair do berço de seu próprio pé.
Atrás deles seguia de chanfalho na mão o cabo Jeremias e
depois de breve corrida em que a “mamã” perdia os sapatos de senhora pelo
caminho, lá os levava até à esquadra para despachar o auto e deixá-los uma
noite no calabouço para evaporarem os vapores do álcool.
Na terça-feira de Carnaval não havia mãos a medir.
Era o tempo das serpentinas nas janelas e das batalhas entre
rapazes na rua e raparigas nas janelas atirando saquinhos contendo feijões e
outras leguminosas.
Atirava-se ovos e farinha que deixavam às vezes as moças em
desespero e muitas vezes as brincadeiras eram peadas e inconvenientes pelo que
pouco a pouco foram-se proibindo até hoje.
O Carnaval selvagem, popular e genuíno, por vezes
abrutalhado mas que imanava do povo. Anos depois alguém se lembrou de
transformar em negócio e tudo mudou.
O Carnaval ainda passou para os cinemas e hoje tem
localidades que exploram a folia metendo em desfile mais nuas que vestidas as brasileiras da
indústria hoteleira que vão para ali fazer umas horas extra e pôr o material à
venda, quem sabe apareça algum construtor civil que entre no negócio…
Mudam-se os tempos mudam-se as vontades.
A. Raposo
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A. Raposo,
Cabo de Esquadra Jeremias
20 de março de 2016
10º EPISÓDIO - UM CASO BICUDO DO CABO JEREMIAS
Talvez se possa dizer com mais propriedade que este era um caso de dois
bicos.
Segundo se apercebia logo à primeira vista o cabo Jeremias estava a
dirimir assunto de marido enganado.
Na Picheleira era o que mais havia era casos desses. Duravam até ao dia
em que o marido, desconfiado ou mesmo avisado por algum amigo mais chegado,
armava uma espera.
O resultado era uma cena de facada ou de pancadaria, na falta de
talheres. No pátio, a algazarra subia de tom e o mulherio vinha todo às portas
dar opiniões.
Aquela cena não tinha nada de especial. O marido chegara a casa umas
horas antes do devido e apanhara na cama a patroa com o carteiro, e a pasta da
correspondência.
A desculpa do carteiro é que Mariana estaria a assinar de cruz um aviso
de recepção.
Como argumento esfarrapado não poderiam arranjar melhor.
O Fanan – o marido enganado saltara para o colchão e à força de punho
distribuía soco ora para a patroa ora para o Firmino (o carteiro).
O carteiro mais conhecido no bairro pelo “brilhantinas” era um belo
rapaz de bigodinho à Clark Gable – o grande boneco do filme “E tudo o vento
levou”.
O brilhantinas tinha muita saída nas mulheres mas não aguentava duas
galhetas no focinho. Sangrava pelo nariz que mais parecia Cristo crucificado.
Mariana não era uma moça muito jeitosa pois tinha um pouco de escoliose
que junto ao facto de ter um nariz muito afilado lhe dava um ar de abelharuco.
O que valia era o resto do corpo que me escuso de descrever não vá algum jovem
imberbe ler estas linhas e entusiasmar-se nas artes de onanismo.
Certo é que a pancadaria não parava. Ora dava o Fanan ora levava o
Fanan. Mariana gritava como vitela desmamada e depois entrou a vizinhança e o
padeiro acabou também a dar a sua bordoada no Firmino que levava de todos e não
tinha físico para responder.
A sacola da correspondência ocupava metade do quarto entre telegramas,
cartas registadas e vales de correio.
Mariana com as vergonhas à mostra encolhia-se a um canto da casa, à
cabeceira da cama. O quadro da última ceia que estava pendurado aos pés da cama
já tinha tombado e o próprio bidé que aguardava as partes interessadas com água
morninha, já levara um pontapé do “Marreco” que era o avançado centro do Penha
de França que estava em casa de baixa com uma entorse.
Alguém veio cá abaixo chamar a polícia.
Jeremias subiu à cena e com o seu vozeirão anunciou:
–Vai tudo para a esquadra! Tudo à minha frente e a toque de caixa! A
Menina Mariana vista qualquer coisa. Se leva tudo à mostra ainda vamos ter mais
sarrabulho a descer a rua Barão de Sabrosa. Andor!
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A. Raposo,
Cabo de Esquadra Jeremias
13 de março de 2016
9º EPISÓDIO - AINDA O CASO DA VIÚVA TERESINHA
Nota Explicativa do Policiário de Bolso:
Na sequência da publicação de “O Caso da Viúva Teresinha” (CICLAR), o Policiário de Bolso recebeu um testemunho que
permite clarificar os acontecimentos relatados. A proveniência das informações
foi devidamente comprovada através de contacto pessoal directo com a autora que
autorizou também a divulgação do conteúdo do e-mail anteriormente enviado.
Ao leitor deixa-se, como sempre,
a liberdade de muito bem acreditar no que quiser…
Exmos Senhores,
Sou seguidora do vosso blogue desde a primeira hora. Devo confessar que
sou uma leitora compulsiva de livros policiais, vício transmitido pelo meu avô
paterno, grande coleccionador dos livros da Vampiro. As histórias do cabo
Jeremias prenderam-me de imediato, por motivos óbvios, que facilmente serão por
vós entendidos.
Nunca pensei intervir porque sou uma pessoa bastante introvertida e não
gosto de levantar ondas. No entanto, não consegui resistir ao apelo final de A.
Raposo aos “indefetíveis leitores” do “Caso da Viúva Teresinha”. Apesar de
ainda não ter nascido na altura acontecimentos, tive conhecimento dos mesmos
porque me foram relatados por quem os viveu. Consta que o cabo Jeremias era um
homem tão bem parecido e charmoso que era de conquista fácil. A viúva Teresinha
viu-se ainda nova sem marido e o seu coração balançava entre o Raúl dos
cabedais e o Jeremias da esquadra. Um, era solteiro e bom rapaz, mas o outro
tinha a emoção do “bad boy”, do risco e da transgressão. E Teresinha andava ora
com um, ora com outro, sem capacidade ou vontade para se decidir. Devia ser o
eterno conflito entre a razão e o coração.
Ora acontece que na narrativa de A. Raposo é tudo verdade, mas a parte final
dos torresmos é uma pura invenção posta a circular na altura para protecção dos
intervenientes deste trio. Teresinha precisava de uma desculpa para meter o
cabo Jeremias dentro de casa. O cabo precisava de uma desculpa para passar mais
uma noite fora de casa e escapar às desconfianças da mulher. E o Raúl precisava
de defender a sua própria honra. Acontece que o bem intencionado Raúl estava verdadeiramente
apaixonado pela Teresinha e, como andava desconfiado, arranjou maneira de numa
quarta-feira afastar de forma definitiva, o cabo de esquadra do seu objecto
amoroso. Surpreendeu-os, aos dois. Teresinha estava nuinha em pêlo, Jeremias também,
apenas com as ceroulas de atilhos penduradas no braço. Raúl não esteve com
meias medidas, encostou a afiadíssima sovela de cortar cabedal à parte
anatómica mais estimada por Jeremias e ameaçou: “Larga-a de uma vez por todas e
inventa já uma história para sairmos limpos disto”. Compreende-se, uma coisa é
casar com uma viúva estimada por todos, outra é casar com uma mulher demasiado
estimada por vários.
Assim nasceu o mito dos torresmos mastigados por Teresinha de vela na
mão. Deu-se continuidade à mentira inicial do barulho mastigatório do defunto
marido e Raúl pode levar Teresinha ao altar ser dar azo a grandes falatórios.
Para ele o raminho da laranjeira foi botoeira e para ela no chapeuzinho creme,
porque parecia mal ir de branco, como atesta uma fotografia que tenho em meu
poder.
Desculpem, é verdade, depois de tanto escrever ainda não me apresentei.
O meu nome é Ana Teresa, filha de Maria Teresa e neta da genuína viúva
Teresinha, que casou em segundas núpcias com o Raúl dos cabedais, uma união
apadrinhada pelo (estranhamente atemorizado) cabo Jeremias.
Se A. Raposo precisar de um final feliz para esta história, eu posso apenas
dar-lhe este. Terezinha e Raúl, meus avós maternos viveram felizes para sempre,
nem a morte os separou porque partiram exactamente no mesmo dia.
Com os melhores cumprimentos,
Ana Teresa
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