22 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 82

EFEMÉRIDES – Dia 22 de Março
Dutra Faria (1919 – 1978)
Francisco de Paula Dutra Faria nasce em Angra do Heroísmo, Açores. Figura fortemente ligada ao Estado Novo. Com o pseudónimo Patrick Al-Cane publica em folhetins no Diário da Manhã O Mistério da Serra Interdita, que é posteriormente editado pela Tipografia Olegário Fernandes em 1945, é Nº 1 da Colecção Biblioteca da Aventura e do Mistério.



Ella Griffiths (1926 – 1990)
Nasce em Oslo, Noruega. Usa diferentes pseudónimos: Ella Griffiths Ormhaug, Ella Griffiths Hytten, Ella Ormhaug e Ella Hytten. Escreve livros para crianças, jovens, contos, ficção científica e romances desde 1957. Inicia-se na narrativa policiária com Hun Møtte en Fremmed, (Ela conheceu um estranho, em tradução literal) e até 1988 publica um total de 16 livros nesta temática. Está traduzida em várias línguas. O seu livro Hilsen Lucifer (1970) recebeu vários prémios. As suas obras mais conhecidas são as que têm como personagens principais os detectives e irmãos Rudolf e Karten Nielsen: Murder On Page Three (1984), The Water Widow (1986) e ainda Dead Men Don't Steal, um livro de short stories, algumas incluídas na conhecida série britânica Contos do Imprevisto.

James Patterson (1947)
Nasce em Newburgh, New York, EUA. É um dos escritores mais conhecidos e com mais vendas de sempre, o autor de alguns dos bestsellers da última década. Estima-se que se tenham vendido 220 milhões de cópias dos seus livros em todo o mundo. O autor tem uma vastíssima obra literária, com livros para crianças e jovens, ensaios e ficção, mas o destaque vai para o thiller. O primeiro livro escrito por Patterson é The Thomas Berryman Number (1976), vencedor do Edgar Award para Best Fist Novel em 1977. Cria a série Alex Cross, o detective/psicólogo que surge pela primeira vez em Along Came a Spider (1992) e tem hoje um total de 20 livros; a série Women's Murder Club, com 11 títulos; e a série do detective Michael Bennett, escrita em parceria com Michael Ledwidge, com 5 livros. O autor tem adaptado diversos trabalhos ao cinema e televisão, o mais conhecido é A Conspiração da Aranha com Morgan Freeman no papel de Alex Cross. Em Portugal estão editados vários livros do escritor pela Editorial Presença e Quinta Essência, esta última com a série O Clube das Investigadoras.




TEMA — NARRATIVA POLICIÁRIA — TRAIÇÃO DA AMNÉSIA
De Susana Raposo
O orvalho da manhã deslizava suavemente pelas folhas das escassas plantas rasteiras que revestiam aquele bom pedaço de terra batida.
A espessa bruma matinal quase que ocultava o simpático aglomerado de pinheiros, e alguns eucaliptos.
O indivíduo, estendido como que ao abandono, espreguiçava-se mergulhado numa atitude despreocupada, totalmente absorto do mundo que se estendia à sua volta. O seu olhar perdia-se, talvez deslumbrado, por todo aquele espaço desconhecido; sentia-se perfeitamente tonto, como se tivesse despertado de um sonho esquecido e incontável, do qual a sua existência emergisse e renascesse simultaneamente, não se recordando assim de qualquer passado que tivesse deixado repousado num tempo antecedente.
Estes seus pensamentos confusos e inseguros, foram estridentemente interrompidos por uma sirene barulhenta.
Instintivamente ergueu-se. Era irremediavelmente dominado por algo que tomava conta do seu ser… sim, era a sua própria amnésia que lhe coordenava os movimentos. Cortava a bruma, desviando-se frequentemente dos obstáculos que eram os ingénuos pinheiros. Dirigia-se a uma mancha de pessoas que se avistava ao longe.
Do local brotavam murmúrios e lamentações.
Uma mulher de meia-idade inundava-se em lágrimas, debruçada sobre um corpo moribundo e ensanguentado.
— Foi ele! Ainda tem o ódio escrito na face! — exclamou a mulher, de um modo agressivo mas triunfante, assim que reparou no primo do seu marido, que acabara de chegar ao local do massacre.
O homem não ofereceu qualquer resistência. O seu estado tornara-se ainda mais obscuro.
Dois dias depois, já atrás das grades, a sua memória voltou a assumir a sua posição. Vinham-lhe as imagens da forma como tinha espancado o seu primo… mas em sua auto-defesa.
O primo não lhe perdoara o facto de ter regressado ao seu país natal, pois uma saborosa herança estava em jogo. Apesar de seu pai ter deixado a fortuna em testamento ao parente mais próximo, o primo que já não vivia, ele podia reivindicá-la caso aparecesse com tal intento.
A amnésia traiu-o. Fora ela que o conduzira ao local onde tinha deixado o defunto. Sim, de facto ele tinha morto um homem… um parente, mas naquela noite o primo tinha-o procurado para matá-lo a ele, só que a situação invertera-se.
E o seu carro? O que seria feito dele depois de se ter esmagado, contra o poste à beira da estrada?
A sua própria amnésia tinha sido a sua condenação.
Talvez um dia pudesse voltar ao estrangeiro e esquecer tudo aquilo, como outrora esquecera também o passado.


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — PARA ALÉM DO TEMPO
De J. F. T. Gonçalves
A nave passou zumbindo a rasar as copas das árvores verdejantes que rodeavam o vale, onde, algures no tempo, ficava a base-mãe.
Tangor, oficial da Esquadrilha Temporal do planeta Beta 5 do sistema de Centauro, dominou finalmente a angústia que o atormentava, depois da quinta evolução em torno do planeta. Estava no seu planeta natal, mas totalmente deserto dos milhões de seres, que algumas horas atrás o habitavam.
Tangor regressara de uma missão de rotina, e encontrara o planeta sem quaisquer vestígios de civilização. Apenas um templo, que observava pelo visor e ia agora inspeccionar.
A sua grande preocupação era o inexplicável não funcionamento do medidor de efectividade espaço-temporal, impedindo-o de viajar no espaço-tempo. Também o medidor de efectividade de tempo normal estava parado. Piorando a situação, o robot-mecânico tinha “enlouquecido” e agitando os braços metálicos dizia coisas sem nexo e sem qualquer utilidade prática.
A nave volteou e aproximou-se do vale. Numa colina que dominava toda a depressão, erguia-se o estranho Templo.
O detector iónico seguiu a nave, e o computador biológico — Guardião do Templo — melancolicamente constatou que há mais de 20 números Aleth nenhum sábio ou monge visitara o templo sem ser em estado de profunda meditação, em viagem pelo irreal e pelo fantástico.
Tangor preparou a manobra de aterragem. Verificou a aparelhagem e ficou pensativo a olhar o medidor que continuava sem funcionar. A nave poisou com um suave e quase hipnótico balanço. Saiu, depois de carregar a arma de fusão e deixar os robots-guardas em estado de alerta. Aproximou-se da escadaria do templo verificando que era imponente, de um estilo muito antigo. Mas em tal estado de conservação que parecia que o tempo não tinha feito sentir a sua acção. A meio da escadaria, uma sensação de medo fê-lo voltar-se. A algumas dezenas de metros a sua nave cintilava e o robot-guarda assobiou em sinal de que estava atento. Quase lhe deu a impressão que o robot tinha piscado o olho! Mas não, tal não era possível. Nunca tinha visto uma “coisa” daquelas piscar o olho a um ser humano. Ainda pensando nisto deu-se consigo no patamar superior. Ao pisá-lo o portão abriu-se, ao mesmo tempo que uma voz fria e sem emoção, dizia: “Sê bem vindo, humano, ao Templo onde é guardado o segredo do Tempo Efectivo de Normalidade Geral, regulado na mesma intensidade universal.
“Saberás que qualquer gesto ou acção de agressividade, ainda que intencional, te trará imediatamente a morte. Deixarás a arma à entrada ou não chegarás a dar três passos no interior do templo. Acompanhar-te-á um andróide que te vedará a visita à zona interdita. Estarei de vigia e basta que fales se pretenderes qualquer informação”.
O computador estranhou o comportamento da criatura que ali ficou parada, olhando espantado o interior escuro para além da entrada, sabendo que olhava para além do tempo…
Tangor nada disse. Deu meia volta e desceu as escadas. Sabia que estava perdido, condenado a não voltar mais voltar ao seu planeta. Os sábios do seu Sistema já tinham visitado o templo há muitos milhares de unidades de tempo, apenas espiritualmente. De outra maneira era quase impossível, mas ele estava ali! Agora sabia que tinha entrado no chamado “buraco intemporal”, que era por assim dizer a porta para um tipo de “universo paralelo”. Para entrar, uma hipótese num milhão. Para sair, talvez nenhuma… Procurar a saída para o seu Universo era pouco mais ou menos procurar uma esfera infinita, cujo centro está em todo o lado e o círculo limite em parte nenhuma!
Entrou na nave e os reactores de activação dimensional começaram a zunir. Lembrou-se dos heróis que morriam nas suas “vimanas”, na grande batalha do “Armagedon”, no longínquo planeta dos homens da Terra, dos quais falava o “Livro dos Deuses”. Lembrou-se ainda da sua companheira, afastada dele... apenas uma eternidade!
Já a nave subia no espaço azul, quando o portão do Templo se fechou. O Guardião meditava para com os seus componentes electrónicos, sem saber como elaborar o relatório do estranho acontecimento.
Tangor, 1º Oficial Graduado da Esquadrilha Temporal, acelerou a sua "vimana" na ordem do factor inverso do módulo de gravidade, com rumo ao infinito. O robot-mecânico fitava um ponto que não existia. A nave tremeu ligeiramente e o humanóide de metal, começou a cantarolar baixinho. Tangor ligou o sistema de auto-desintegração da nave, e entrou na câmara de suspensão de vida!
Lá em baixo, o Guardião tentava ainda detectar a nave que perdera já de vista. Entretanto, um robot-móvel procedia à substituição de um filtro biológico, que se decompusera. Velava assim pelo bom estado do seu Mestre e Senhor, Guardião do Templo, por todos os séculos sem fim…





21 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 81

EFEMÉRIDES – Dia 21 de MarçoDavid Alexander (1907 – 1973)
Nasce em Shelbyvill, Illinois, EUA. Jornalista e romancista prolífico, publica muitas short stories nas revistas da época. O primeiro livro, Most Men Don't Kill (1951), também editado com o título The Corpse in My Bed. Cria os personagens Tommy Twotoes e Bart Hardin, um editor do The Broadway Times, que surge em Terror On Broadway em 1954 e é a personagem central de 8 livros. O autor usa os pseudónimos Kyle Maning e John Sievert.




Michael Dibdin (1947 – 2007)
Michael Dibdin nasce em Wolverhampton, West Midlands, Inglaterra. O primeiro romance The Last Sherlock Holmes Story, é publicado em 1978. Michael Dibdin muda-se para Itália e vive em Perugia durante 4 anos, o que lhe fornece os dados políticos e sociais para criar o ambiente do seu personagem principal, o polícia veneziano Aurelio Zen que protagoniza 11 livros. Fora desta série o autor publica mais 8 romances e edita 2 antologias The Picador Book of Crime Writing em 1993 e Vintage Book of Classic Crime em1997. Recebe o Grand Prix de Littérature Policière em 1994 e da Crime Writers' Association o Macallan Gold Dagger para Ficção em 1988. Em Portugal estão editados 2 livros deste escritor:
1- Jogos Sujos (1992), Nº8 Colecção Bolso Negro, Editora Puma; Título original: Dirty Tricks (1991)
2 – Lagoa Morta (2001), Colecção Noites Brancas, Asa Editores; Título original: Dead Lagoon (1994), o 4º livro da série Aurelio Zen.







TEMA — TESTE DE RACIOCÍNIO 1Uma mulher percorreu as ruas de determinada zona. Chegou esfalfada. No entanto ainda lhe restava fazer algo. Suspirou. Não havia nela deliberação para os seus actos; ela nem sequer conhecia, ao que se lembrava, os três indivíduos a quem destinava uma comunicação séria. Um mexicano turista, um ladrão de bancos, produto nacional que fazia parte de uma quadrilha e tinha um papel específico no assalto planeado, e um padre.
Escreveu os três bilhetes iguais a estas pessoas diferentes. O tal ladrão ao recebê-lo riu-se e atirou-o fora, o turista teve igual atitude, somente o padre ficou triste, deveras preocupado ao receber o bilhete.
Quem era essa mulher? Como explicar a atitude dos três homens?
Raciocine com calma. Não tenha pressa. Bom raciocínio.

TEMA — CONTO DE TERROR — O RELÓGIO FATÍDICODe F.S.P.

Algum dia se saberá qual a relação que existia entre o coração e o relógio de parede herdado da sua bisavó. Por que no dia em que este parou, o seu coração deixou de palpitar. Uns, pobres de espírito, diziam que o relógio era um irmão siamês que havia sido separado por artes médicas. Outros, desembaraçadamente, contavam que o defunto realizara experiências com o tempo utilizando o relógio e que havia morrido durante umas dessas experiências, vítima de uma falha técnica. Todavia um grupo dos mais cépticos, que pensam e dizem para quem quer ouvir, que o dito defunto era maníaco, hipocondríaco e a sua obsessão pelo relógio, no dia em que deixou de trabalhar, o seu coração pararia para sempre. Apesar de tudo, a mim nenhuma destas explicações me parece conveniente. Continuo a pensar que entre o coração do morto e o relógio existia uma estranha relação. Poderia analisar os factos e talvez um dia chegar a encontrar a relação. Entretanto, conformamo-nos em assistir ao enterro do desditoso defunto.

20 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 80

EFEMÉRIDES – Dia 20 de Março
Ernest Bramah (1868 - 1942)
Ernest Bramah Smith nasce em Hulme, Manchester, Inglaterra. Jornalista e editor inicia a carreira de escritor em 1900 com The Wallet of Kai Lung,o primeiro da série Kai Lung um chinês contador de histórias, protagonista de 7 livros. Cria Max Carrados, um detective cego, coleccionador de moedas — reflexo do interesse em numismática do autor; este personagem, que é mais tarde adaptado à rádio e à televisão, surge em 1914 no livro de short stories: Max Carrados. Ernest Bramah escreve diversas short stories e um total de 21 livros.





TEMA — CRIMINOLOGIA — MÓBIL DO CRIME
O elemento impulsionador do delito, seja contra ou património ou delito de sangue — homicídio — é, em regra considerável, o detonador que revela o autor do crime. Sem dúvida que, também em regra, um quebra-cabeças para o investigador, mas uma vez encontrado, é como ter descoberto a placa identificadora de uma rua que se procura. Com os motivos assegurados, os indícios e as provas dos delitos surgem com naturalidade fora do comum.
Na lista das motivações, relacionada com maior frequência:
1 – Lucro (roubo, burla, peculato, corrupção, herança, partilha, etc.) em delitos materiais acompanhados ou não de assassínio,
2 – Vingança, ciúme e traição muitas vezes ligadas, que nos parece impossível apontar com infalibilidade, cada um deles (o crime passional irreflectido, também emocional ou ponderado),
3 – Eliminação, que também pode ser enquadrado no ponto anterior (sempre que se trate de eliminar um marido ou esposa que se tornou indesejável, a remoção de um amante pelo marido ou cônjuge), um chantagista ou uma testemunha que sabe demais etc.;
4 - Convicção, exemplo de um rival politicamente perigoso por qualquer circunstância;
5 – Prazer de matar, o criminoso nato, o psicopata, que se satisfaz no acto ou na vaidade de ver o assunto na comunicação social;
6 – Sexo (violação, orgia tortura, sadismo, etc., às quais se segue a morte — para esconder os actos ou pelo caso de ser abrangido pelo ponto anterior)
Outras hipóteses seriam de aludir, o mundo é vasto e as motivações parecem ainda maiores.
M. Constantino

TEMA — CASOS E CASOS — O DILEMA DO PISTOLEIRO
Eddie Simpson era chamado o Houdint Louco por causa do brilho selvagem dos seus olhos e da sua extra-ordinária habilidade para fugir, mesmo quando trancado numa cela.
Como membro da infame quadrilha Kilgallen, em Boston, Eddie havia adquirido a fama de ser o melhor atirador do bas-fond. Entretanto, embora a sua especialidade fosse assassinar os concorrentes, guardava seu mais acerbo ódio para a polícia.
Mais de uma vez havia sido encurralado, mas depois que o fumo dos tiros se dissipava, Eddie havia desaparecido. Mesmo quando a polícia o prendeu em 1923, acusado de tentativa de assassinato contra um polícia escapou facilmente. Traiu os amigos e livrou-se da pena.
Em 1937 era um bandido solitário, odiado no seu meio, evitado pelos seus antigos amigos e perseguido desesperadamente pela polícia que o agarrou e encarcerou na Cadeia da Rua Charles, em Boston. Entretanto, alguns dias mais tarde, o Houdint Louco tinha desaparecido.
Usando um fio humedecido com saliva e coberto com esmeril em pó, abriu passagem cerrando as barras da janela do seu cubículo.
Novamente em liberdade, furtou um carro, roubou alguns restaurantes e arranjou dinheiro para comprar roupas vistosas. Queria a companhia das mulheres, mas sabia que qualquer das suas antigas conhecidas entregá-lo-ia à polícia na primeira oportunidade. Assim, no carro roubado e bem vestido fez uma conquista.
A moça manifestou o desejo de aprender a guiar Eddie, ansioso para agradar à sua nova namorada, entregou--lhe o volante. Alguns minutos depois ela avançou num sinal vermelho. Dois polícias do trânsito, Henry Bell e William Phelan, obrigaram o carro a encostar.
Ser preso, mesmo por violação do regulamento do tráfego, era uma coisa que Eddie não podia sofrer. Tentou subornar os policiais, o que foi um erro, pois fez William Phelan ir ao café da esquina e telefonar ao distrito.
— Há qualquer coisa esquisita neste negócio — disse Phelan ao colega, antes de partir. Vigie esse sujeito. Não tem boa cara.
Logo que Phelan partiu no carro da polícia, Eddie perdeu a cabeça, Pôs a moça fora do carro, sacou uma arma, e obrigou Bell a entrar.
— Vá guiando — ordenou — e depressa!
Este foi o segundo erro.
A moça, gritando que um polícia tinha sido raptado, chamou a atenção de outro, Lawrence Murphy, que partiu velozmente em perseguição, na sua motocicleta.
Eddie percebeu então que tinha avançado muito para recuar. As balas da sua mortífera pistola abateram Murphy. Bell soltou o volante e atracou-se com o homem ao seu lado. Eddie disparou contra ele, depois saltou do carro e começou a correr.
Murphy, embora mortalmente ferido, levantou-se e disparou contra o fugitivo. O homem cambaleou, porém não caiu. Um instante depois tinha desaparecido.
Uma vez mais estava livre. Mas…
O tiro de Murphy tinha-o atingido nas costas. A bala alojara-se numa vértebra do pescoço. Havia nela as marcas balísticas que a identificariam como disparada pela arma de Murphy.
Durante dias ficou de cama no seu esconderijo, tratado empiricamente e servido por um homem com quem travara amizade na prisão. O ferimento o atormentava e em vez de sarar, estava dando sinais de infecção.
Eddie viu-se pela primeira vez, numa situação contra a qual nada podia fazer. Pior do que isso, encontrou-se nas portas de um dilema como poucas pessoas se têm encontrado. Se mandasse extrair a bala por um médico, a polícia saberia e a bala condená-lo-ia à cadeira eléctrica. Se não a mandasse extrair, morreria de infecção.
Ainda permanecia indeciso quando a polícia invadiu o seu esconderijo. Mesmo no leito do hospital da prisão, delirando de febre, ele não tomou uma resolução. E a lei não podia intervir. Em Massachussetts nenhuma pessoa encarcerada pode ser submetida a uma operação sem seu próprio consentimento.
Somente quando percebeu que ia morrer cedeu. Uma rápida intervenção cirúrgica salvou-lhe a vida. E a mesma operação revelou a bala de Murphy e condenou-o à morte.

19 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 79

EFEMÉRIDES – Dia 19 de MarçoPatrick Quentin (1912 – 1987)
Hugh Callingham Wheeler nasce em Hampstead, Londres, Inglaterra. Tradutor, poeta, dramaturgo fixa-se em 1934 nos EUA e naturaliza-se americano em 1942. Usa os pseudónimos Patrick Quentin, Q. Patrick e Jonathan Stagge. O escritor tem várias obras publicadas em colaboração com outros escritores Richard Wilson Webb, Martha Mott Kelley e Mary Louise White Aswell. Desta co-autoria destaca-se Richard Wilson Webb. Entre 1936 e 1960 são editados 39 romances policiários com os personagens Peter Duluth, Iris Duluth e tenente Timothy Trant; 8 policiários sob o pseudónimo Q. Patrick protagonizados também pelo tenente Timothy Trant; 9 policiários sob o pseudónimo Jonathan Stagge com o personagem Dr. Hugh Westlake e 1 colecção de short stories The Ordeal of Mrs.Snow and Other Stories (1961) premiada com o Special Edgar Award atribuída pelo Mystery Writers of America.



Joe L. Hensley (1926 – 2007)
Joseph Louis Hensley nasce em Bloomington, Indiana, EUA. Jornalista, advogado, juiz e procurador, começa a escrever ficção científica e policiários sob os pseudónimos as Joe L. Hensley e Louis J. A. Adams, este último em parceria com Alexei Panshin. Muitos dos seus livros são protagonizados por advogados que solucionam crimes. Entre 1971 e 2001 publica 13 livros da série Donald Roback. Escreve ainda mais 7 romances e 2 colecções de contos Snowbird's Blood (2008) é o último livro editado deste autor.


Angus Ross (1927)
Kenneth Giggal nasce em Dewsbury, Yorkshire Inglaterra. Usa o pseudónimo Angus Ross na escrita de romances de espionagem. Publica o primeiro livro em 1970, The Manchester Thing, também editado com o título The Manchester Connection, o início da série Marcus Aurelius Farrow que tem um total de 18 livros. Escreve ainda mais 3 romances: A Bad April (1984), Doom Indigo (1989) e Last One (1992).






TEMA — BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (12-14)
Volume 12 — Odd John (1935) de Olaf Stapledon
(é o 2º livro do escritor incluído na Biblioteca, para ver o 1º volume e informações sobre o autor clicar
AQUI)
Odd John, pode sintetizar-se no tema de uma raça de super-homens perseguida pelos normais, o que significa legitimar a paternidade de um dos temas mais típicos da Ficção Científica. Neste livro narra-se a história de um mutante superior que com alguns da sua classe intenta fundar uma colónia numa ilha do Pacífico, com toda a oposição dos homens normais.




Com humor e ironia, narra-se em Válka s mloky, título original — War With The Newts em inglês — o descobrimento da utilidade das salamandras como mão-de-obra, a sua rápida aprendizagem e aquisição de conhecimentos intelectuais capazes de rivalizar com os homens. Capek relata o esforço e progresso dos sáurios, os confrontos com os homens até à obtenção dos direitos de cidadania, por fim a rebelião e luta entre as duas raças inteligentes do planeta (homens e salamandras) com o simples argumento de que não há na Terra espaço suficiente para os dois grupos.
War With The Newts, A Guerra das Salamandras entre nós é uma novela clássica de excelente temática, que mantém viva a sua frescura ao longo do tempo.

 

Ficha Técnica
A Guerra das Salamandras
Autor: Karel Čapek
Ano da Edição/reedição: 2009
Editora: Europa-América
Colecção: Grandes Clássicos do Século XX
Páginas: 240
ISBN: 9789721059771


Volume 13 —Válka s mloky (1936) de Karel Čapek
(é o 2º livro do escritor incluído na Biblioteca, para ver o 1º volume e informações sobre o autor clicar
AQUI



Volume 14 — Star Marker (1937) de Olaf Stapledon
(é o 3º livro do escritor incluído na Biblioteca)

O autor tinha uma concepção própria das leis físicas e biológicas que regem o Universo. Star Maker descreve o Cosmo, a aparição da inteligência no universo, o desenvolvimento e união das diversas raças cósmicas de que resultará a inteligência galáctica que se converterá, finalmente, no espírito universal, supremo momento do cosmos. É uma concepção evolucionista gigantesca na escala cósmica e temporal que não parece, entretanto, ao alcance das dimensões dos humanos.


18 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 78

EFEMÉRIDES – Dia 18 de MarçoRichard Condon (1915 – 1996)
Richard Thomas Condon nasce na cidade de Nova Iorque. Publicitário e produtor teatral é assessor de impressa dos maiores estúdios da época — Walt Disney, Hal Horne, 20th Century Fox. Num total de 27 obras, escreve 12 romances policiários protagonizados pelo Captain Colin Huntington, com enredos intricados onde a sátira tem uma forte marca. As obras mais conhecidas são: The Manchurian Candidate (1959), prenúncio dos assassinatos do Presidente John F. Kennedy e do irmão Robert; An Infinity of Mirrors (1964) tem como pano de fundo o terror nazi; a série bestseller Prizzi, 4 romances, entre 1982 e 1994. Richard Condon tem várias obras adaptadas ao cinema.



TEMA — ACTUALIDADE — PLANETA EM PERIGOA terra tem 4,5 mil milhões de anos de existência. Neste período sofreu transformações estruturais, físicas, químicas e surgiu vida. Todas estas mudanças ocorreram lentamente, prolongando-se por centenas de milhões de anos. Não faltam vestígios de catástrofes mais ou menos profundas: a separação dos continentes, erupções vulcânicas, glaciações, dilúvios, desaparecimento dos dinossáurios etc.
Michael J. Drake, recém falecido em Outubro de 2011, director
Lunar and Planetary Laboratory da University of Arizona, não escondia a hipótese da extinção terrestre. A comunicação social e revistas científicas não esquecem a existência de um asteróide 1999 RQ36 de 560 metros e diâmetro, que se aproximará perigosamente da terra entre 2169 e 2199, não sendo o único, já que no início do presente ano se conhecia um outro asteróide de 840 metros de diâmetro e com mais de 1 quilometro de extensão que periodicamente se aproxima da terra. Para Drake era essencial o projecto da NASA, que já gastara 800 milhões de dólares na sonda OSIRIS-Rex que irá estudar a estrutura dos asteróides de modo a serem bombardeados e desviar a sua trajectória. Resta saber se resultará, já que o mais próximo asteróide poderá roçar o planeta em 2029,faltam poucos anos, um espaço muito curto para obter uma solução salvadora.
M. Constantino

TEMA — CONTO POLICIÁRIO — O AVISO
De Victor Dimas
Quando acordou, já sabia o que tinha de passar-se na noite seguinte E desta vez deixaria a bestialidade à solta, não lhe travaria o ímpeto à custa de um esforço titânico de auto-domínio.
Só porque não podia mais. Nem queria repetir a mais um neurologista, depois a outro e outro, a mesma história.
Não, porque era absolutamente inútil.
O remédio era só um, inevitável: matar.
Nunca o tinha tomado mas sabia — no certo e necessário como o ar que respirava. E já o conhecia há muito, estava recomposto do choque que aquela revelação lhe provocara. Enquanto não destruísse uma vida de mulher, enquanto não sentisse fluir-lhe entre os dedos enclavinhados um sopro essencial, a sua angústia cresceria todos os dias, olhando os homens como inimigos até deixá-lo prostrado de ânsia, doente de esmagadora impotência. Porque a lei…
Ah! Mas agora estava resolvido e não poderia viver sem satisfazer esta necessidade imperiosa. Vital, Inalienável.
O projecto era bom. Tinha a oportunidade e o local. Mas não a vítima.
O rapaz era alto e de boa presença. Tinha mesmo um ar de distinção. E uma ruga de preocupação na testa elevada.
Mesmo assim, não devia ser grande problema. Os jovens não têm grandes problemas. E ela sorriu-lhe, aproximou-se coleando entre as mesas.
Ele tinha pedido uma bebida que lhe acalmasse a inquietação. E olhava-a, hesitando ainda. Sabia que, se saíssem juntos, ela não voltaria. Ela estava já sentada, sorrindo sempre, insinuando.
E talvez nem fosse crime libertar a sociedade de uma mulher. Uma mais, que diferença faz?
A mulher que sorria representava a solução. Ou a demência.
O local, o motivo, tinha-os. A vítima inconsciente sorria outra vez, cada vez mais perto os lábios sanguíneos.
Levantou-se.
O hotel numa rua tranquila era muito acanhado. Escuro e pouco frequentado. Mas tinha uma saída lateral para outra pequena rua. E o recepcionista, do seu nicho ao fundo do corredor, não podia vigiá-la sem torcer o pescoço. Nem estaria interessado. “Senhor e senhora qualquer coisa” — escreveu em letra de imprensa.
— Bagagem?
— Não. É só por esta noite. Pagou.
O homem estava habituado. Mirou-os. ~
— Bem. Não queremos fitas, hein? — Tirou a chave. “22”, dizia a pequena etiqueta adjunta.
Subiram calmamente.

Já não era possível retroceder. Ela iria prodigalizar-lhe carinhos, estandardizados mas que o são. E umas mãos, um corpo vibrante de mulher completa, excitante, dão sempre resultado.
Quase sempre, aliás. Porque com ele... bem, ela rir-se-ia quando descobrisse. Talvez lhe voltasse as costas, simplesmente. Ou lhe exigisse compensação. “Pelo tempo que perdemos”….
O costume.
Era a situação, a humilhação que faria dele o assassino
Inexorável, avizinhava-se o momento. Depois seria livre, humano e igual a todos os outros.
Um homem, enfim. Sem complexos.
Ela pareceu surpreendida com a sua lentidão. Tirou o fato, calmo, meticuloso. Depois, puxou a carteira do bolso interior e abriu-a.
Ela compreendeu e estendeu a mão aberta, com os dedos a falarem. Sem uma palavra, ele tirou duas notas e, suavemente, deixou-as cair sobre a cama.
Ela, com uma perna em ângulo agudo, apanhou-as maquinalmente e estendeu-se para a malinha. Sobre a mesinha oval, no centro do quarto, a carteira dele com o monograma, com os documentos, ficou à espera.
Ela abre muito os olhos. Ri histericamente. Esforça-se em vão.
No peito, ele sente uma torrente de fogo a desfazer-lhe os últimos resquícios de prudência. É a sua oportunidade de destruir o demónio que o inibe. Frustração psicopática, ou lá o que é. A morte como recurso, na guerra de que não tem culpa. A lei do mais forte.
Pronto.
A mulher parece dormir, de cara para baixo. Ele voltou-a. Sente-se despersonalizado. É um assassino agora, mas um homem, acima de tudo. E vai prová-lo, embora ela não possa sentir. Mas é a ele que interessa saber se não foi inútil.
É um animal, pois. Mas os homens são animais. Monstros, até.
E vencem.
Agora, é preciso ponderação. Não dar largas à euforia, à sensação de vitória que o percorre.
Tapa a mulher, mete no bolso os papéis que encontra na malinha. Deixa o dinheiro. Passeia a vista pelo círculo do quarto. A mesinha, ao centro é apenas uma oval perfeita com uma jarra de flores artificiais que fazem sombra no centro.
Encaminha-se para a porta, tranquilizado. Antes de apagar a luz, os olhos afloram um aviso rectangular. Mas não lêem, não percebem que as letras formam palavras.
Nem lhe interessa o que possa dizer um letreiro de hotel. Desce a escada com cuidado. Rápido, vê-se na rua. Em casa.
E dorme, tranquilo pela primeira vez em muitos anos. Até ao meio do dia seguinte. Quando abre os olhos, estúpida, inexplicavelmente, o aviso no quarto do hotel, na face interior da porta, salta-lhe na memória:
“Por Favor, Verifique Se Não Esqueceu Nada. Obrigado”.
E soube então que na mesinha oval tinha esquecida a sua sentença de morte.

17 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 77

EFEMÉRIDES – Dia 17 de MarçoPatrick Hamilton (1904 - 1962)
Anthony Walter Patrick Hamilton nasce em Hassocks, Sussex , Inglaterra. Actor, assistente de palco e novelista, escreve também peças de teatro e para rádio. É classificado como um dos autores mais dotados e mais admirados da sua geração. Publica 4 livros de mistério/detective, 3 deles com o personagem Ernerst Ralph Gorse. O livro Hangover Square (1941), em termos de percepção psicológica e realismo, é considerado pela crítica como uma das melhores e das mais emocionantes obras escritas sobre um assassino esquizofrénico. A peça de teatro Rope (1929), baseada no caso verídico Loeb-Leopold, é mais tarde um filme de Alfred Hitchcock. Outra peça notável do autor é Gas Light (1938), ou Angel Street nos EUA, com o detective Rough, adaptada duas vezes ao cinema e que estreia no Teatro da Trindade em 28 de Setembro de1949 com o nome A Luz do Gás.





Richard Martin Stern (1915 – 2001)
Nasce Fresno, Califórnia, EUA. Começa por escrever contos policiários na década de 50. É autor de 26 romances, 6 dos quais da série Johnny Ortiz. O livro The Bright Road to Fear (1959) ganha o Edgar Award para Best First Novel desse ano. A sua obra mais conhecida é The Tower, de 1973, um dos livros que este na base do filme The Towering Inferno - A Torre do Inferno (1974) com Steve McQueen e Paul Newman.
A Torre do Inferno foi editado em Portugal em 1976 pelas editoras Civilização e Círculo de Leitores. Está também editado Tsunami! no volume 9 da colecção Livros Condensados das Selecções do Reader's Digest.






TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — O HOMEM QUE NÃO NASCEU
Original de Ane Revis
À medida que os anos passavam e se tornava adulto, mais se robustecia em si o curioso desejo de viajar no Tempo, de poder ir livremente ao passado, a fim de conhecer a mãe, quando ainda viva, já que fora assassinada antes de ele nascer. Nunca se descobrira o criminoso; e, amiúde, pensava como gostaria de desmascará-lo. Também, de si para si, considerava injusto e limitado o período da vida humana compartimentada num lapso do largo espaço abrangido pela história da Humanidade; achava, igualmente, que, do mesmo modo que se pode compulsar qualquer compêndio de história clássica, deveria ser possibilitada — àqueles que tivessem motivos fortes para ter perfeito conhecimento de determinado facto — a capacidade de o verificar ao vivo.
No entanto, apesar de querer desesperadamente e de se interessar pelo muito pouco que encontrava descrito de forma vaga, não tinha a mínima esperança de realizar tal façanha; todavia, conseguiu-o!
Ao emergir no passado precisamente na época desejada, mal queria acreditar no que fizera, e assim: com tamanha facilidade. Pareceu-lhe mesmo insignificante o esforço final, quase sem valor, como se apenas despertasse um simples dom latente. Com notável precisão e rapidez, passou para o local exacto do momento escolhido pelo subconsciente, sem entender muito bem como fora ,possível: e, agravada pela náusea e mal-estar naturais, não pode deixar de sentir uma ponta de medo.
Sim, era então verdade: o homem podia vencer o Tempo! O homem — essa máquina potencial e estranha — tinha em si os dados para responder a todas as questões equacionadas claramente e no verdadeiro sentido. Bastava haver um objectivo forte — e o seu, para si, era-o!
Atordoado pelo que conseguira, sem esperar tão cedo ter êxito, e pela sorte de acontecer no seu quarto — vizinho daquele onde se dera o drama a que tanto queria assistir —, tomou consciência, desde logo, da atmosfera diferente que o envolvia, da mudança do ambiente geral. E, duma forma indefinida, sentiu saudade desse tempo que não conhecera, do aconchego que nunca verificara ali, na mesma casa, indo ao ponto de apreciar a agradável fragrância feminina que perfumava o ar.

No lugar da cama um berço armado à espera duma vida a sua. Comoveu-se. Foi tomado de violenta emoção e deu-se conta de não estar emocionalmente preparado. Compreendeu que, assoberbado pela ânsia da sua vontade e enganado pela falta de confiança no feliz resultado, não pensara em fazer o ponto das possibilidades a enfrentar, nem calculara as reacções possíveis perante o inesperado. Agora, a profundidade do que encontrava mostrava-lhe como se precipitara, considerando-se irresponsável.
Quis voltar atrás. Não houve tempo! Algo, no quarto ao lado, o alertou — foi ver.
Junto à jovem mulher, grávida (a mãe), dormitando em repouso sobre o largo leito, apenas o marido (o pai): mais ninguém. Mas o crime ia acontecer na hora certa, impressionando-o extraordinariamente. Assistiu, petrificado pelo espanto e horror, ao instante em que o pai feria de morte, a sangue frio, com ódio no olhar, a vítima adormecida, sem parecer haver motivo.
Numa fracção de segundo, avaliou a verdadeira razão dos silêncios do pai sobre o acontecimento e o porquê de não se lhe arrancar uma descrição completa da morte da mulher e, até, porque nunca se encontrara o assassino. Percebeu como ele achara o álibi quase perfeito — que resultara — ao correr a chamar o médico que fizera nascer a criança, ainda viva, mas não pudera salvar a mãe.
Esqueceu que lhe devia duplamente a vida; não pôde dominar-se. Atacou o criminoso, não querendo saber quem era, sem atender às circunstâncias especiais da sua estada ali, com fúria e raiva, utilizando o cinzeiro de alabastro, levado pela dor de se ver lesado do bem que nunca haveria de ter: o carinho de mãe.
No ímpeto da surpresa, o pai deixou-se dominar, aterrado pelo imprevisto; e ele bateu com força, loucamente, sem piedade e sem parar. Só quando o viu inerte, correu para junto da mulher que morria.
Lágrimas de desespero e mágoa não o deixaram ver os movimentos convulsos da criança, ainda viva. Perdeu então, subitamente, a vontade de viver, a noção do Tempo a que pertencia, ignorando as regras a cumprir, a respeitar, dispondo-se a ficar ali, segurando as mãos da mãe, que iam arrefecendo. Absurdamente, quis assistir ao próprio nascimento, sabendo, em consciência, que não devia.
Começou a sentir-se fraco, muito fraco. Perguntou-se como seria possível estar dividido, se poderia ver-se a si mesmo, achando importante entender, esforçando-se por se concentrar.
Ectoplasma, talvez…
Quis reagir, afastar a lassidão. Ocorreu--lhe, num lampejo, que o médico não viria para o fazer nascer, já que impedira o pai de o ir chamar (quando o matara) e a criança (que era ele) nunca veria a luz.
Os pensamentos esvaíam-se, tornavam-se difusos na sua mente, careciam da convicção que já não tinha. O fim ia chegar, provocado levianamente por si mesmo. E antes de deixar de ser aquele em que se tornara (porque vivera), e perder a forma actual (já que não viveria por estar a morrer no útero materno), por instinto, e na ânsia de protecção, achou ainda forças para se abraçar ao corpo que o encerrava e onde ficaria, levando consigo a vaga sensação de haver vingado a mãe — talvez o verdadeiro objectivo…

TEMA — O CASO DO DIA — TODOS DIZEM O MESMOParece anedota, mas não é!Quanto mais esquiva e fechada em si, maior o desejo do Don Juan das Milhariças em quebrar os cadeados da beldade e entrar na sua intimidade. O homem não é louco nem ajuizado, só procurava o melhor e, por conta dos seus créditos o fato de riscas verticais, bem penteado, perfumado, olhos melosos e piscadeiros como as asas de um beija-flor, já ultrapassara dúzias de altos muros e janelas ainda mais altas, apertando a si opulentos e macios seios a poucos passos das camas apetecidas, onde as vítimas descuidadas, surdas às virtudes, desatinadas de espírito e insaciáveis de corpo, se abandonavam até ao êxtase. Saída entre vãs promessas, lençóis arrefecidos e trocados, o Don Juan, herói de muitas batalhas, deleitado de vaidade, busca outra porta por abrir.
Alda, a belíssima esposa do chefe da polícia, guardada a sete chaves, não disfarça um estremecimento quando os olhares beija-flor a atingem mas… uma vez por todas, num descargo de consciência, telefona ao marido. Eis que o galã, ainda não dobrara a esquina próxima, um veículo da polícia, ruidosamente, pára a seu lado e três possantes guardas da lei atiram-no para o fundo do carro. Aguarda-o o chefe, a que se juntam os captores.
— Entra homem. A casa é tua; está à vontade!
— Perdão chefe — responde Don Juan das Milhariças, cabisbaixo, isto é, parecendo humano. Continuou: — Perdão, sou um louco, um louco!
O chefe nada diz. Pensa. Sai, telefona.
Cerca de vinte minutos depois, dois alentados enfermeiros seguram-no e enfiam-lhe a camisa-de-forças com que entrará no hospício.
Ainda grita: Mas eu não sou doido doutor… Mas o director do hospício, pensando na sua desprotegida, linda e airosa esposa, responde:
— Todos dizem o mesmo…
O chefe encolhe os ombros, tira da estante o Código Penal e enfia-o no cesto dos papéis velhos.
M. Constantino

16 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 76

EFEMÉRIDES – Dia 16 de Março
Margot Arnold
(1925)
Petronelle Marguerite Mary Cook nasce em Plymouth, Devon, Inglaterra. Em 1948 emigra para os EUA e em 1953 adquire a cidadania norte-americana. Diplomada em arte, arqueologia e antropologia, depois de escrever alguns romances históricos estreia-se na literatura policiária em 1979 com Exit Actors Dying. Este livro é o primeiro de uma série de 12, editados entre 1979 e 1985, que têm como personagens principais a antropologista Penny Spring e o arqueólogo Toby Glendower. A autora escreve ainda 4 livros de intriga diplomática.



TEMA — ESPIONAGEM — CRIPTOGRAFIA NAS DUAS GUERRAS MUNDIAIS
Em aditamento ao artigo sobre criptografia, referimos abaixo quatro momentos em que esta arma silenciosa e eficaz foi decisiva.
1 – O telegrama Zimmermann, contado centenas de vezes, evitaria citá-lo se não fosse, talvez, o que maior consequência teve em toda a história da informação. Diz respeito a um telegrama enviado, no dia 16 de Janeiro de 1917, pelo ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Zimmermann, ao seu embaixador no México, pedindo-lhe que tentasse envolver o México e o Japão numa guerra contra os Estados Unidos. Este telegrama foi enviado por diversas vias, entre as quais a rádio, e interceptado e decifrado pelo Serviço de Informações naval britânico. O texto descodificado foi transmitido ao presidente Wilson, que apesar das exacções cometidas pelos Alemães no mar, e até no seu próprio território, se recusava a fazer entrar o seu povo num conflito. Quando teve a certeza de que o texto era verdadeiro, Wilson declarou guerra à Alemanha (6 de Abril de 1917).


2 - O uso da rádio generalizou-se no seio dos exércitos, e os serviços de descodificação empenharam-se em decifrar as mensagens estratégicas do adversário. Um êxito espectacular e da maior importância foi conseguido neste domínio por um oficial francês, o capitão Painvin, que decifrou em vinte e seis horas o telegrama que anunciava a data e a direcção da grande ofensiva do marechal Hindenburgo, em Julho de 1918. Esta informação segura, que vinha confirmar e precisar informações anteriores, permitiu ao marechal Foch alterar à pressa os seus planos e entregar ao general Mangin as divisões suplementares graças às quais bloqueou a ofensiva alemã e contra-atacou de forma decisiva.



3 - A máquina Enigma, que os Alemães puseram ao serviço no início das hostilidades e da qual se serviram para codificar todas as suas mensagens estratégicas. O Serviço de Informações polaco havia conseguido reconstituir esta máquina, por um lado, graças às indicações fornecidas por operários de origem polaca que trabalhavam na fábrica onde ela fora construída e, por outro lado, com a ajuda das informações recebidas da Segunda Divisão francesa; os seus extraordinários especialistas criaram, em seguida, um método de descodificação. Pouco tempo antes de ser declarada a guerra, em 1939, o Serviço de Informações polaco entregou uma máquina aos Ingleses e outra aos Franceses. Além desta, os Ingleses obtiveram verdadeiras Enigma encontradas uma dentro de um avião abatido, outra num carro de transmissão, a terceira com o código junto — num submarino inimigo. Os Alemães confiavam de tal maneira na inviolabilidade do código da Enigma que continuaram a utilizá-la durante toda a guerra apesar destes incidentes. O Special Intelligence Service (SIS) britânico descodificou milhares de telegramas da Enigma. Esta fonte de informação, baptizada com o nome de Ultra, era considerada por Churchill a melhor e a mais secreta; a propósito dela, escrevia o general Eisenhower, em Julho de 1945, ao general Menziès, director do SIS:
Essas informações (da Ultra) foram para mim de um valor inestimável. Simplificaram imenso a minha tarefa de comandante-chefe. Salvaram milhares de vidas britânicas e americanas e contribuíram em parte — que não foi pequena para a celeridade com que o inimigo foi derrotado e, finalmente, obrigado a render-se.



4 - Desde 1941 que os Americanos eram capazes de ler o código diplomático e militar dos Japoneses. Isto não impediu, porém, o desastre de Pearl Harbor, porque nesta operação os Japoneses só utilizavam a rádio quando rodeados de enormes precauções e talvez também porque houve negligências deploráveis por parte dos Americanos. Em compensação, permitiu que a frota americana se concentrasse em tempo e lugar oportunos para repelir o ataque sobre Midway e ganhar em seguida a batalha do mar de Coral.

15 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 75

EFEMÉRIDES – Dia 15 de Março
Lillian de la Torre
(1902 – 1993)
Lillian de la Torre Bueno McCue nasce em Manhattan EUA. Contista exímia, publica o primeiro romance Elizabeth Is Missing em 1945. Cria uma série de contos Dr. Sam: Johnson, Detector, com os personagens Samuel Johnson e James Boswell. É eleita presidente da Mystery Writers of America em 1979.


Lawrence Sanders (1920 – 1998)
Nasce em Brooklyn, New York City, EUA. Jornalista durante 20 anos começa por publicar em 1968-69, na revista Swank, um conjunto de contos protagonizados pelo investigador de seguros Wolf Lannihan, mas torna-se célebre com o livro The Andersen Tapes (1969) que inicia a série Edward X. Delaney com um total de 5 títulos, ganha o Edgar para Best First Novel em 1971 e é adaptada com sucesso ao cinema; o segundo livro desta série The First Deadly Sin (1973) é também um filme de sucesso onde Frank Sinatra interpreta o papel de Denaney. O autor escreve mais 16 romances entre 1971 e 1998 e cria ainda a série Peter Tanget (2 livros), Commandement (4 livros), Timothy Cone (2 livros) e escreve a série Archy McNally, com 13 títulos metade dos quais com Vincent Lardo como co-autor. O escritor usa os pseudónimos Lesley Sanders e Mark Upton e tem três dezenas de livros editados em Portugal.





TEMA — OS GRANDES TEMAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA - CYBORGS
Um dos temas evidenciados na ficção científica diz respeito à estreita conexão homem — máquina. O designativo de cyborg (ciborgue) para tais casos, resulta da combinação das palavras cybernetic e organism, reflectindo, na prática, a aplicação ao organismo da ciência da cibernética, já que esta, no seu conceito e em breves termos é a ciência do controle e comunicação no homem e na máquina.
O princípio básico do cyborg não é novo para o homem que, durante séculos, se tem modificado a si mesmo, progressivamente, com dentes de matéria não humana, membros artificiais, válvulas cardíacas, etc…
Novo será a retro-alimentação e auto-regulação em perfeita simbiose, e tão perfeita para que entre a carne e o metal não haja destrinça. Em síntese, um cyborg seria um sistema humano — máquina auto-regulado (homeostase), cujas partes mecânicas estariam unidas às biológicas de um modo tal, integral e sistemático, como o coração humano está para o resto do corpo.
Ocorre, naturalmente, uma inquietante pergunta: será humano ou máquina?
Na medida em que a humanidade se vai modificando à sua vontade ou necessariamente, e pode comunicar conhecimentos às gerações futuras, a perspectiva clássica acerca da evolução humana mudará dramaticamente. Pode mesmo dizer-se que, com o advento dos cyborgs, o homem terá cumprido o ciclo completo da sua existência.
Vanguardista de ideias e proposições, a temática não poderia ficar estranha à literatura de ficção científica e aparece mesmo antes de o termo obter enquadramento. Os casos de The Cybernetic Brains e Wolfbane, respectivamente de Raymond F. Jones e C. M. Kornbluth em colaboração com Frederik Pohl. Mais interessantes e mais recentes, Gray Matters de William Hjortsberg e Catchworld de Chris Boyce. No entanto, aponte-se, o termo nem sempre tem sido entendido na sua verdadeira dimensão: os ciberhomens da série televisiva Doctor Who, são apenas e tão só robôs; bem diferente e imaginariamente plausível é a série também da T.V., The Six Milion Dollar Man extraída da novela de Martin Caidin, Cyborg.
Em Moderan, do bem pouco conhecido mas muito interessante David R.Bunch (1925 – 2000) num planeta devastado e envenenado pela guerra, resta recorrer aos armazéns de componentes importantes onde os homens recebem substitutos orgânicos, até que, para alguns, ocorra os Novos Processos —a transformação da espécie. A um jovem rei entre os demais, é-lhe dada a prorrogativa de observar a própria adaptação a cyborg.


… bisturis na cavidade ocular esquerda; bisturis na cavidade ocular direita. Agora extraem o globo ocular esquerdo… o direito… há sangue… enquanto as enfermeiras de aço, esterilizadas, dinâmicas, ocorriam eficientes e frias…


Na maior parte dos casos há tácita aceitação. É o caso da bailarina da um conto de C.L. Moore (1911 - 1987), uma personalidade admirável, a quem nem os obstáculos físicos ou técnicos, nem a presença de amigos de outros corpos, podem impelir prosseguir o destino reservado a uma bailarina — cyborg.
Para Flaccus, o cyborg de Jack Dann (1945), é símbolo de confiança e força, a nova condição…


Flaccus recordou que tinha posto a armadura. Podia sentir que estava fortemente envolvida em redor do corpo, aguardando o sinal que transmitia aos músculos. Era a sua própria força. A armadura, dermo-esquelética de metal ligeiro provida de sensores que antecediam todos os movimentos e os transmitiam aos músculos artificiais. Com ela Flaccus podia sustenta nos braços mais de mil quilos, mil quilos em cada mão, ou…

Quentin, personagem de um conto Henru Kuttner (1915 - 1958), reduzido a cérebro, sente-se bem com a sua situação. Não é um super-homem, mas um rapaz comum, com um bom físico, e que teve que adaptar-se a um novo corpo. Faltam-lhe alguns atributos, mas em compensação…


Leio literatura de evasão, embebedo-me mediante uma irritação eléctrica, tenho paladar ainda que não para comer. Vejo espectáculos da T.V.. Tento conseguir todos os prazeres sensitivos puramente humanos que posso... sim, agora pode resolver problemas infinitamente mais complicados,'com os cálculos que exigem reacções em fracções de segundo, como conduzir uma nave espacial..."

Nem todos os autores são positivos a este ponto. Damon Knigt (1922 – 2002) que em Ask Me Anything, Four in One desenvolve problemas patéticos a alto nível, em Masks aborda o efeito psíquico de alguém perder o corpo.


Este homem foi mutilado integralmente. Só um impacto mental geral pode compensar uma perda tão catastrófica. Perdeu a base fisiológica de todas as emoções humanas. Carece de coração que acelere as suas batidas, de glândulas… Não Pode sentir o amor, temor, ódio, afecto. Porém pode e deve aceitar um funcionamento limpo e uniforme como norma. Quando olha a carne suada de outras pessoas, a única emoção que pode sentir, repugnância… este homem é um eunuco. Sabido que é inteligente, ocultará a verdade a si mesmo?

A tecnologia ciborg abarca a engenharia biológica, as próteses, a tecnologia espacial e dezenas de campos diversos. Poderia desenvolver ampla variedade de seres humanos com adaptações especializadas para explorar o espaço ou viver nos oceanos.
A relação entre a técnica ciborg e as viagens espaciais, assunto primariamente abordado por Thomas N. Scortia, tem lugar próprio assegurado. O impacto psicológico no espécime humano revela-se, com dramática estrutura — é uma opinião pessoal — na narrativa de Frederik Pohl, Man Plus.

Um ser humano está em causa, um ser humano não parece particularmente importante, quando existem oito biliões vivos. Não é mais importante, por exemplo, do que uma partícula microscópica numa memória. Mas uma única partícula pode ser decisiva quando transporta um pedaço essencial, e a importância de Terraway era precisamente esta. Era um belo homem ,como o é a maioria das pessoas. Famoso também. Ou tinha sido.
Roger Torraway, coronel (aposentado) da Força Aérea dos Estados Unidos, bacharel em Arte, Licenciado em Arte, doutorado em Ciências (honoris causa), casado, uma mulher linda, que adorava, que andara no céu duas a três semanas juntamente com outros cinco astronautas, tornara-se famoso. Agora era preciso conquistar Marte, manter uma colónia em Marte antes que a Rússia o fizesse. E Roger era parte integrante desse projecto. Nenhum ser humano pode viver em Marte. Mas se se remodelar um ser humano? Nada há que respirar em Marte; tiram-se os pulmões do corpo humano e substituem-se por sistemas de renovação de oxigénio em miniatura. O sangue do corpo humano ferveria; muito bem, elimina-se o sangue. O corpo humano precisa de alimento: substitui-se por máquinas e o alimento diminui. Apenas o cérebro é que deve ser alimentado. Elimina-se a água do ciclo de beber, circular, evacuar ou transpirar, revista-se o corpo com uma pele especial anti-radiação, ore lhas de morcego, olhos infra-vermelhos.
O homem transforma-se num organismo cibernético: um cyborg
Não tinha aspecto humano. Os seus olhos eram brilhantes, globos facetados de vermelho. As narinas dilatavam-se com pregas de carne, como o focinho de uma toupeira, em forma de estrela. A pele era artificial; a cor era muito bronzeada, mas a textura era a da pele de um rinoceronte. Nada naquilo que se podia ver tinha a ver com o aspecto com que nascera. Olhos, orelhas, pulmões, pele — tudo fora mudado ou aumentado. No meio das pernas não havia nada. Nem pénis, nem testículos, nem escroto; nada a não ser carne artificial, brilhante, com uma ligadura transparente sobre ela escondendo as cicatrizes. Era como se nunca lá tivesse existido nada. Dos sinais diagnósticos de virilidade… nada.
Terminara a insignificante operação e aquilo que restava não era nada. As últimas alterações visíveis eram a ponta do iceberg. O que tinha sido feito dentro dele era muito mais complexo e muito mais importante.
Fechava os olhos mas não dormia.
O cérebro corria invocando pensamentos de sexo, de comida, ciúme raiva, filhos, nostalgia, amor.
Os psicólogos tentavam compreendê-lo em testes tortuosos, mas dentro de si manteve uma cidadela de privacidade que não permitia que invadissem.
Tudo em ordem para a grande missão.
O problema que não solucionara era o que faria se por qualquer razao, quando estivesse concluída a missão, não o pudessem reconstituir logo de seguida. O que não era capaz de decidir era se se suicidaria ou mataria tantos quanto pudesse dos seus amigos, superiores e colegas.
M. Constantino


14 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 74

EFEMÉRIDES – Dia 14 de Março
Algernon Blackwood (1869 - 1951)
Algernon Henry Blackwood nasce em Shooter’s Hill, Londres. O fascínio que tem pelo hipnotismo e pelo sobrenatural leva-o ao estudo de filosofia e ocultismo. A sua escrita reflecte estes interesses: escreve centenas de contos de fantasmas/terror/sobrenatural e é reconhecido como um mestre deste género literário. The Empty House and Other Ghost Stories é publicado em 1906 e depois segue-se uma série de contos com John Silence, um investigador extraordinário. Em 1914 escreve Incredible Adventures, a primeira colectânea do género sobrenatural alguma vez publicada.



Showell Styles (1908 – 2005)
Frank Showell Styles nasce em Four Oaks, Birmigham, País de Gales, R.U. Explorador, montanhista escreve o primeiro livro policiário, Traitor’s Mountain, em 1946. Publica perto de 150 livros de aventuras históricas, parte na série Midshipman Quinn e na série Lieutenant Michael Fitton. Entre 1951 e 1969 utiliza o pseudónimo Glyn Carr para a escrita de ficção policial, escrevendo um total de 15 livros, todos da série Abercrombie Lewker. O autor usa também o pseudónimo C.L. Inker para as narrativas humorísticas.



TEMA — BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA POLICIÁRIA – 5
(continuação de
CALEIDOSCÓPIO 66)
A colectânea designada por As Mil e Uma Noites, só foi conhecida na Europa a partir de 1701, não obstante traduza a recolha de épocas bem remotas, verdadeiramente impossíveis de detectar. Os estudiosos têm concluído entretanto, que sua primeira tradução árabe teria sido feita em Bagdad no Século III, do Livro persa Hazar Efsanch que, por sua vez, teria origem indiana.
Cabe aqui perfeitamente a afirmação dos filósofos de que a luz de todo o conhecimento procede do Oriente.
Terão razão? De qualquer modo, representam um grupo de episódios muito antigos e de proveniências diversas, como se depreende da variedade de lugares em que se situam, muitos dos quais envolvem características que as definem como fortes raízes que sustentam a formação da grande árvore narrativa policiária.
Vejamos a história do mercador de Bagdad, Ali Cogia (uma entre outras):

No reinado do califa Harun-al-Raschid, um mercador chamado Ali Cogia, como bom muçulmano, resolveu ir em peregrinação a Meca.
Vendeu os móveis e a loja e, da posse de mil moedas de ouro conseguidas, preocupado se as levasse consigo: escolheu uma vasilha de bom tamanho, meteu-as lá e acabou de encher o recipiente com azeitonas.
Depois que a fechou muito bem, levou-a a casa de um mercador amigo a quem pediu que guardasse a vasilha.
Esse mercador respondeu delicadamente:
— Aqui está a chave do meu armazém. Levai a vasilha, pondo-a onde quiserdes e prometo-vos que lá a encontrareis quando voltardes.
Ali Cogia assim fez. Carregou depois um camelo e partiu.
De tal modo lhe correu bem a viagem que, depois de Meca, visitou Cairo, Damasco, Alepo, Xiraz e, sete anos depois resolveu voltar.
Entretanto, o seu amigo em Bagdad resolveu comer as azeitonas e, dirigindo-se ao armazém deparou com elas todas podres, mas encontrou as moedas de ouro que se apressou a tirar, enchendo a vasilha de azeitonas que foi comprar.
Ao voltar, o assunto foi posto na justtiça.
Nas vésperas do julgamento, o califa, com o grão-vizir Giafar e Mesrur, o chefe dos eunucos, fez o seu giro habitual pela cidade. Em determinado ponto deparou com uns rapazes que brincavam aos julgamentos e ficou a escutar.
Estava em causa o caso das azeitonas de Ali Cogia.
O rapaz que fazia de juiz perguntava:
— Sabeis por quanto tempo se podem conservar as azeitonas em condições de se poderem comer?
— Senhor — responderam-lhe — por muito cuidado que haja ao prepará-las e conservá-las, se se guardam por muito tempo, ao fim do terceiro ano já não valem nada: deixam de ter sabor, de ter cor, só servem para deitar fora.
— Se é assim — volveu o que fazia de juiz — se Ali Cogia esteve ausente sete anos, alguém mexeu na vasilha, pois posso garantir que as azeitonas que foram encontradas são deste ano.

Mas não se julgue que o Oriente tenha o exclusivo de histórias imaginariamente geradoras de espécie em causa.
Pedro Afonso ou Petrus Alphonsi, efectivamente Mose Sefardi, um judeu espanhol nascido em 1062 convertido ao catolicismo e médico do Ren Afonso, deixou em Disciplina Clericalis vasta obra de carácter filosófico e exemplos, nos quais se encontra desde anedotas puras a histórias inteligentes de observação e investigação, muito próximo das embrionárias histórias policiais.
Passamos por Samaveda, com a colecção de contos indianos Kathasaritsagora onde algo se poderia desfrutar, poeta, autor do livro Alif Ba com a bem concebida história de conta dos pães com versões diversas segundo autores, Nuzhetol Udeba ou Giraldo Cint Ecatormiti (1354 - 1426) um jurisconsulto e gramático que chegou a Kadi de Granada e deixou uma extensa colecção de anedotas, provérbios e contos da época, para nos fixarmos nas Histórias de Sinbdan, atribuídas a um sábio sírio desta última época.
Com as referências anteriores aproxima-se a Época das Literaturas Modernas. Citam-se, não obstante, o Novellino uma colecção de cem contos dos finais do século XIII, cuja exploração aduz um novo elemento em busca da identidade pré-policiaria.
A escolha recai sobre a resolução de um famoso litígio num tribunal de Alexandria e, como acontece com muitas outras narrativas aludidas, também ela de duvidosa proveniência. Transcreve-se não na exacta medida constante do Novellino, mas a que, reportada ao mesmo período, se afigura mais popular e melhor enroupamento na contextura.


Cansado e de garganta a arder, Jemal-ed-Din, alegrava-se por ser este o último caso do dia que requeria a sua atenção, pensando, não obstante, na melhor maneira de lidar com Nasr-et-Din (traduza-se por “a vitória da Fé”), o arguto professor e “dirigente das preces”, oficialmente protegido pelo Imperador Tamerlão, que apreciava as suas graçolas e ironias e o dignificara com o título de “Hoja”. Este estivera toda a tarde no Tribunal, mascando ruidosas pastilhas goma e apontando falhas nos julgamentos de Jemal-ed-Din.
Réu e autor aproximaram-se da mesa do Cadi, um baixote, gordo, feio e sujo trazendo na mão um saco com dinheiro, o outro, um homem alto e condescendente.
Um dos dois tinha mandado subornar o juiz.
Jemal-ed-Din solicitou levemente:
— Sou Bedi-ud-Din. Este homem combinou cortar cinquenta carradas de lenha para um nobre… por cem moedas de ouro. Ofereci-me para ser seu sócio. Concordou. Agora depois que a lenha foi cortada e entregue e o pagamento feito, guarda o meu quinhão.
O outro homem, que enrubesceu explodiu:
— Ele é um trapaceiro e tenta roubar-me!
— Declare o seu nome na forma da lei, réu — disse Jemal-ed-Din asperamente — depois o caso.
— Isso não Cadi — atalhou o outro. Eu fiz a minha parte e, por isso, reclamo o meu quinhão.
Fez um sinal ao oficial de diligências do Tribunal que arrancou o saco da mão de Abnur Ago. Este mugiu como um touro:
— Fui EU quem cortou, quem enfeixou, carregou o burro, o conduziu e descarregou… Cinquenta vezes! Ele não fez nada!
— Nada disso! — repetiu Bedi-ud-Din — ajudei-o!
— De que forma? Diga de que forma! — berrou Ahmet Ago a ferver.
— Certamente — replicou Bedi-ud-Din.
— Eu gemi com força, cada vez que ele levantava o machado. Lamentei-me a valer cada vez que ele ergueu uma carga. Encorajei-o. Teve muita sorte em ter um sócio como eu! Está claro Cadi, fiz a minha parte.
— Está louco - bramiu Ahmet Ago.
— Nada disso, Cadi. Por acaso não lhe poupei o fôlego que precisava para gemer, queixar-se, não foi por minha causa que teve mais forças para concluir o trabalho?
O auditório agitou-se e Jemal-ed-Din congratulou-se por poder meter o Hoja no embrulho.
— Nasr-ed-Din — chamou. Como sois entre nós o mais sábio dos homens, peço o vosso precioso auxílio para proferir a sentença neste caso…
O Hoja adiantou-se.
— O autor — disse o juiz — foi certamente sócio do réu. Concordais? O Hoja acenou sabiamente, — Fez parte do seu trabalho — continuou Jemal-ed-Din a questão é… qual é o seu quinhão?
Vocês estão loucos! — gritava Ahmet Ago.
— Não tanto — adiantou o Hoja — o tribunal de Jemal-ed-Din é um tribunal de justiça, não de loucura, se me permitis Cadi, farei a divisão justa das moedas.
— Era o que eu tencionava! — afirmou o juiz.
O Hoja pediu que trouxessem uma bandeja e entregou-a a Bedi-ed-Din, dizendo-lhe: — Eu mesmo contarei as moedas.
Bedi sorriu, Ahmet encolheu-se com fatalismo.
O Hoja tirou a primeira moeda do saco de Ahmet Ago e deixou-a cair na bandeja.
— Soa bem... não é? — disse o Hoja - e, metodicamente, prosseguia, inclinando a cabeça a cada moeda que caia, fitando o radiante Bedi-ud-Din. Quando acabou de contar a quinquagésima moeda Ahmet Ago fechou os olhos. O Hoja virou o saco vazio…
— Cadi — perguntou o Hoja — mantive os altos padrões de justiça e equidade deste tribunal? Jemal-ed-Din fitando a pilha de moedas de ouro sobre a bandeja, fez um sinal afirmativo.
Então o Hoja pegando nas moedas voltou a colocá-las no saco e entregou-o a Ahmet Ago.
— As moedas — disse — foram agora divididas igualmente.
— Você deu todas as moedas a Ahmet Ago, eu não recebi nada! — gritou Bedi-ud-Din. — Nada disso — contestou o Hoja. — Ouviu quando fiz cair as moedas na bandeja, não foi? Esse foi o seu pagamento. E a lei: Bedi-ud-Din contribuiu com os sons do trabalho, em pagamento recebeu o som do dinheiro.

13 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 73

EFEMÉRIDES – Dia 13 de Março
Bill S Ballinger
(1912 – 1980)
William Sanborn Ballinger nasce em Oskaloosa, Iowa EUA. Consultor de rádio e televisão, argumentista, escritor é considerado um autor com uma linguagem e narrativas únicas. Escreve 160 peças para televisão: The Mice, Outer Limits, para as séries Ironside, I Spy, Mickey Spillane's, Mike Hammer, etc. Escreve ainda 27 romances, 2 com o personagem Barr Breed, um investigador privado de Chicago e 5 com o agente Joaquin Hawks. Bill S Ballinger usa os pseudónimos B. S. Sanborn e Frederick Fryer. O seu livro de 1950 The Deadlier Sex, também editado com o título Portrait In Smoke recebe o prémio Les Grands Maîtres Du Roman Policier; The Longest Second (1958) é galardoado com Edgar Allan Poe e Ballinger é premiado ainda com um segundo Edgar em 1961 pelo seu trabalho para a televisão. O escritor tem vários livros publicados em Portugal.



TEMA — NARRATIVA POLICIÁRIA – COM UM POUCO DE SORTE
De Severina Fortes
A jovem jazia nua, sobre a cama desfeita.
Deitada de costas, vista da entrada do quarto, dir-se-ia adormecida no conforto do aquecimento ligado. Poderia, até, julgar-se que respirava pausadamente — o rosto delicado caído de lado sobre o almofadão.
Não era verdade. Estava morta, tão morta como fora abandonada horas atrás.
Depois de breve contemplação, o seu assassino entrou devagar no compartimento, ainda iluminado, do que faria se quisesse evitar despeitá-la; embora já nada a conseguisse acordar. Foi-se aproximando da cama desejoso que a jovem estivesse viva, que a anormalidade que recordava não passasse de pesadelo.
A evidente quietude da morta retirou-lhe qualquer ilusão. E só então, verdadeiramente temeu as consequências!
“Afinal, porque a matara?”, pensava em desespero, “Porquê?”.
Não sabia.
Após o crime refugiara-se no escritório da sua residência, ia eufórico, empolgado pelo feito inesperado; assim como estaria se acabasse de vencer um inimigo no campo de batalha. Todavia à medida que se ia acalmando (e moderando, em resultado da chamada telefónica de negócios a que fora preciso atender) a euforia abrandara e dera realce à sensação atávica do prazer de matar em liberdade — a defrontar; afoita, o condicionalismo relativo de toda a vida.
Logo o instinto de defesa, no intuito de lhe fornecer o escape a uma situação sem controlo imediato — que no fundo o horrorizava — tornara-o confuso e duvidoso. Já não se queria acreditar, não se vendo a roubar a existência a quem quer que fosse. E porquê a ela?
Por isso voltara ao apartamento — apesar do risco — a fim de se certificar; e, sendo verdade o que agora recusava aceitar, tentaria descobrir o que o arrastara a tamanha loucura.
Quando chegara à capital, na véspera, soube pela empregada doméstica que a esposa se encontrava era visita na casa dos pais, nos arredores, só viria no dia seguinte. Tinha jantado antes de entrar em casa. Ainda se encerrara no escritório, mas o cansaço não lhe dera paciência para se entregar aos assuntos pendentes. Aguardava uma chamada telefónica de fora, necessária; contudo não esperara. Saíra directamente pela porta exterior do gabinete e encaminhara-se para a casa da jovem, carente de calor humano.
Divertido, vira os artigos de artesanato criados pela jovem, que os venderia nas lojas da especialidade. Achara graça aos últimos arranjos dela para se deitar e tivera a surpresa de saber que dormia sempre nua. Observara o medicamento que andava a tomar para dormir e entretivera-se a vê-la mergulhar no sono, a seu lado, até que dormirá também.
Ao acordar, vendo-a profundamente adormecida e indefesa — a oportunidade que não pedira, mas em consciência desejara, agigantou-se. Algo de bestial o movera e incentivara, pois nem esboçara uma tentativa de superar o impulso assassino. Com súbita resolução apoiara almofadão no rosto da jovem, antes de se arrepender, não de matar mas de ter coragem para o fazer, cedendo à tentação do momento.
Tinha sido fácil — tão fácil… — impedi-la de respirar sem empregar a força, mantendo-se firme até ao ligeiro espasmo final, com a vítima imersa no sono. Se de algum modo vinha a encarar essa morte como desejável, estava feita. Mas nunca dera por tal!
Olhando-a, já morta, despida de tudo que por direito tivera ao nascer, não sentira compaixão; nada se animou em si por ela, nem houve a turbação que seria natural pelo relacionamento. Mesmo reconhecendo o mal que lhe fizera — e o que se aproveitara — estava seco, quase indiferente. Quem sabe se porque somente vira nela uma fêmea cheia de vivacidade, de rosto de criança e corpo de mulher, ignorando-lhe a personalidade — talvez por não lhe interessar…
A virgindade que lhe trouxera lisonjeara-o, claro, sem contudo apreciar demasiado tê-la conseguido sem se bater por ela. As vezes dava consigo a pensar porque motivo aquela quase criança se dera ao homem casado há muito, começando a ser abandonado pela força da vida, em vez de escolher um parceiro da sua idade.
Tinha a certeza de que pouco a requestara, e nem teria insistido se se tivesse negado. Em verdade talvez nem se importasse tê-la, ou conservá-la muito mais. Ia arrastando a ligação naquela de “não gosto muito, mas deixa andar”, pelo comodismo supérfluo tão ao gosto dos machos endinheirados, ou apenas para a assistir, retribuindo-lho o que lhe devia.
Admirava-se ainda dela não mostrar ciúmes da mulher dele, nunca lhe ter pedido para se -divorciar, nem lhe exigir mais do que lhe dava. Limitava-se a estar disponível, a ser como coisa dele, predisposta a alcançar um fim. Descortinava essa determinação no fundo dos seus olhos, ao fitarem-se seriamente de vez em quando. E ele não gostava!
Tratava-se da mesma determinação que a esposa, se tivesse sido perspicaz a quando do noivado, teria vislumbrado nos seus olhos. E também não teria gostado!
Para se casar mentalizara-se que se apaixonara. Inventara naquela frágil menina rica a beleza e os dons para se prender a uma união proveitosa: Mais tarde confessava-se que o casamento enganara ambos. No entanto, ele tivera o lucro!
Era isso que lhe desagradava, e por vezes odiava, na jovem mulher: a ambição do amanhã alcançado a pulso por ser útil, sem outro sentimento sincero: Via-a igual a si, na faceta que desprezava. O relacionamento de ambos, psicologicamente, estivera errado à partida: Existe a lei da atracção dos opostos; para dois egos iguais, é o choque!
Seria essa identidade o bastante para, no subconsciente, querer desembaraçar-se dela!
Não ousou contrapor. Afinal, não há efeito sem causa…
Considerou se devia telefonar à Polícia, não deixar o corpo, decerto ainda tépido devido ao aquecimento ligado, abandonado de novo, facultando-lhe a decência de se decompor em dignidade; contudo tratou de limpar as suas impressões digitais nos sítios em que poderia ter tocado, logo voltado a construir a sua defesa.
Chegara o momento de partir. O elo, de algum modo afectivo, que o prendera à morta, ausente a essência vital do corpo, tornara-se nulo e ficava para trás. Pensaria em si!
“Se por excepção — monologava — desta vez não se cumprisse essa espécie de regra que faz colocar um indivíduo desconhecido que nos conhece, no nosso caminho quando queremos passar despercebidos, e que pode testemunhar…”
Viera ali para ter uma certeza, talvez para se julgar: Todavia, apesar do crime, não estava disposto a passar o resto da vida como criminoso. Tivera a sua razão!
Com cuidado, desligou o aquecimento — a hora da morte não seria determinada com exactidão. E havia a chamada que atendera no escritório!
Com um pouco de sorte…


TEMA — HUMOR NEGRO – VINGANÇA AO PEQUENO ALMOÇO
Pelo ténue zumbido, Rita pressentiu o perigo, antes mes mo de o descortinar. Com o peito oprimido, incapaz de ousar respirar, tremendo pelo imprevisto, tímida e ansiosamente olhava o marido do outro lado da mesa.
Matias espalhava satisfação no rosto corado e bolachudo. Mastigava devagar e ruidosamente a torrada extremamente barrada de manteiga, enquanto os olhos seguiam em leitura atenta as notícias. Lambeu guloso os dedos molhados e procurou, sem desviar o olhar, nova torrada.
A mosca saltitou ligeiramente à aproximação dos dedos disputativos interrompendo a inspecção gustativa, para logo continuar, entretanto, entre a chávena de leite e a restante torrada.
Rita rolava os olhos hipnotizada pela manobra do insecto, em impotente expectativa. Demais conhecia a aversão mórbida do marido pelas moscas. Assistira e fora parte integrante das invectivas violentas quanto a sua pessoa e seu zelo em particular, e as moscas em geral. Tinha consciência do comportamento ordeiro, limpo, constante, duma boa dona de casa. A sua luta esbatia-se, porém, na incompreensão do marido.
O verão era a época crítica. Apesar dos cuidados, da multiplicidade de armas usadas, havia sempre um exemplar obstinado, como que nascido do próprio vácuo, a romper o cerco. A acrimónia do marido, sem vislumbre de desculpa, não tardava, azeda.
A mosca continuava as suas deambulações exploratórias indiferente ao martírio que proporcionava.
Matias dobrou o jornal e estendeu a mão. Inesperadamente enrubesceu. Num ímpeto de raiva, olhos esgazeados, atirou-se mosca, vociferando esganiçado, violento, bateu e bateu sem ordem, insensível e insensato.
Rita quedou-se de olhos baixos e lacrimosos.
Os bocados de louça fina, resultado do desigual combate, espalhavam-se pela mesa e caídos no chão.
Sacudiu com raiva incontida o vestido manchado de leite, peganhoso da manteiga dispersa. Desta vez, enfim, verdadeiramente revoltada pela atitude desabrida do marido.
Vingança, vingança — uma palavra a mexer, a impor-se--lhe no cérebro.

Dias depois, a velha cena do início do dia.
Rita, prenhe de medo, ainda que satisfeita consigo própria.
O marido, sempre ruidoso, trincava a torrada loura.
— Tem um sabor estranho! — comentou.
Rita quase desmaiou. Deus! Iria ele descobrir o seu crime? A vingança, a sua terrível, terminante vingança de eterna ofendida?
O homem, o “seu homem” acabou a derradeira torrada.
Arrotou grosseiramente, grunhiu um “óptimas” saciado. Acabara de engolir duzentas e quatro moscas, esmagadas em papa gordurosa, trituradas, passadas ao coador e misturadas na manteiga.
Duzentas e quatro…
M. Constantino