14 de fevereiro de 2016

5º EPISÓDIO - O DIA-A-DIA DO CABO JEREMIAS

Nos idos anos 50/60, do século passado, a vida era dura para a malta que ia para a polícia.
O único benefício era poder dar porrada sem consequências. Mas dizia muitas vezes o cabo Jeremias para o travesseiro: “dar porrada não enche barriga!”
De facto, naquela época, para quem vinha da província  fizera a tropa antes das guerras de África − os empregos eram sobretudo mal pagos. O polícia vivia em quarto alugado, comia mal e no fim do mês não sobrava o dinheiro para o selo de 1 escudo tanto quanto custava uma carta para os pais na província.
O que lhes valia, para juntar algum pecúlio era os terrenos no norte onde a vinha dava para uma vida mais equilibrada.
Mas os terrenos eram de sua mulher…
Os problemas sexuais que nos vinte anos sempre fazem rebentar as hormonas na face e são causas de sonhos molhados, eram muito mal resolvidos pois as sopeiras tinham um pavor enorme de engravidar e respectivas consequências. Jeremias, felizmente, não tinha esses problemas. O cabo tinha o assunto controlado. Vivia num quarto alugado, com a mulher, a Micaela. Por alturas das vindimas ela tinha que ir à terra ajudar na adiafa.
Era nesses ínterins que a Dona Quitéria, uma viúva cinquentona, a dona da casa, resolvia os problemas mais prementes do cabo Jeremias. Dona Quitéria apreciava as brincadeiras do cabo Jeremias, as sugestões de chinfalhadas, quando estava para aí virada, o que era quase sempre, pois costumava dizer que a ocasião faz o ladrão…
Como já estava em pleno climatério, podia brincar à vontade. Era certo que de vez em quando o cabo Jeremias lá tinha que ir até ao Jardim Zoológico ver os primos macacos e o elefante a tocar o sino os prazeres máximos da Dona Quitéria.
A coisa era sempre muito bem montada não fosse alguma vizinha por a boca no trombone.
Mas para quem queria passar alguns domingos de folga a ouvir o relato da bola e a rebolar-se nas coxas da Quitéria, valia o custo/benefício, economicamente falando.
O cabo Jeremias tinha uma qualidade que raramente se encontrava na polícia: gostava de ler. “Sandokan e o Tigre da Malásia” era a sua bíblia. Emílio Salgari o maior escritor. Dizia ele com grande propriedade que só lia os clássicos!
“Isto quem quer ser homem de letras, não basta só ler as grandes!” Afirmava convicto o cabo Jeremias à Dona Quitéria enquanto lhe afagava os abundantes seios.

Se William Shakespeare ainda fosse vivo não desdenharia utilizar frase tão pitoresca!

A. Raposo

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