30 de junho de 2015

OPINIÃO

O que escreve A. Raposo sobre os 
"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA"




Observações sobre o livro do M.Constantino

Decidiu o confrade Constantino fazer um estudo técnico e histórico sobre os muitos dos escritores de âmbito policial que nos últimos 150 anos resolveram escrever na área do “quarto fechado”, também conhecido por “crime impossível”.
O livro pretende ser um ponto de partida para os amantes do género e permitirá aos vindouros que se interessem, informações sobre os autores, breve critica sobre as obras e análise de alguns casos mais conhecidos.
É um livro de consulta, cronologicamente organizado e que terá lugar na biblioteca dos policiaristas que se desejem informados.

O género “ crime no quarto fechado” sempre fez as delícias dos apreciadores da literatura policial.
Contém em si um constante “suspense” que o leitor carrega até ao fim.
Este género, apesar de algumas desilusões e até de algum “copianço” de autores menos criativos, realça o esforço mental e a capacidade inventiva inerente aos bons escritores. Aqueles que hoje chamamos de clássicos e que fazem as delícias dos apreciadores. E só como exemplo indico três nomes para quem não os conheça:
 O Mestre John Dickson Carr/Carter Dickson, a eterna jovem Agatha Christie e o poeta escondido sob o pseudónimo de S.S.Van Dine.

Em fim de livro o autor oferece-nos dois contos portugueses: Um do autor e outro do Artur Varatojo. São a cereja em cima do bolo.

Obras deste género, julgo serem raras neste país, para não dizer desconhecidas.

Esse é o melhor elogio que poderei fazer ao amigo Constantino: deixar para a posteridade informação que foi colecionando ao longo de 70 anos de policiário puro e duro e de centenas de livros estudados.
Apesar da saúde ser sempre débil e do peso dos 90 anos, com a cabeça a trabalhar a 100% alguma coisa mais irá surgir em breve. Oxalá.


O amigo policiarista A. Raposo  

27 de junho de 2015

OPINIÃO

O que escreve ZÉ (Gustavo Barosa) sobre os 
"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA"

“Sou um ardente entusiasta de todas as coisas estranhas e curiosas e mesmo, para dizer a verdade, de tudo o que exercita e diverte o espírito”

Não tenho dúvidas de que este parágrafo de Fernando Pessoa (in – Histórias de um Raciocinador, editora Assírio e Alvim) se aplica, na perfeição, a M. Constantino (Manuel Botas Constantino) mas também a milhares de pessoas que, desde há muitas décadas, se têm dedicado, no nosso país, à prática do exercício mental a que nós, seus cultores assumidos, chamamos Problemística Policiária ou, quotidianamente, Policiário…
Para mim, mais do que um desporto ou passatempo, a Problemística policiária é um género literário. E um género literário que só existe em Portugal, pelo menos com a dimensão que vem atingindo, desde a dúzia de pioneiros (a quem saúdo e recordo) até aos milhares da Secção “Público Policiário” dos nossos dias.
Considero-o um género literário porque, para além dos requisitos dos outros (ficção, qualidade estilística, domínio vocabular, trabalho da acção …), possui uma característica peculiar – a interacção! A Problemística Policiária parte de um texto-provocação (o problema) mas só se completa com um texto-reacção (a solução). E, se conhecemos muitíssimos problemas com uma literariedade muito alta (quando o autor tem espaço para trabalhar bem a mensagem), também (pelo que fui lendo) muitíssimas soluções têm esse mesmo nível.
Talvez um dia, alguém, no futuro, “descubra” este género e o trabalhe, academicamente. Material não faltará e nesse trabalho, para além dos jornais regionais e do “Público”, serão preciosas as recolhas do Jartur e o enquadramento teórico, análise e cronologia histórica do Constantino.
M. Constantino passou grande parte dos seus 90 anos a recolher livros e textos policiais (nacionais e estrangeiros) mas foi muito mais longe – teorizou sobre eles, exemplificou, comentou e divulgou as suas análises, tornando mais claro perceber como se constrói uma acção policial.
Grande (muito grande) produtor, não sei se foi solucionista. Mas sei que, frequentemente, as soluções que apresenta não atingem o nível dos problemas que as originam. Creio que ao nosso querido amigo interessa muito mais construir uma bela casa do que habitá-la…
É bem conhecida (e indisfarçada) a sua maior paixão – o “crime impossível”, de que os de “quarto fechado” serão os mais conhecidos. É aí mesmo que o trabalho de criação e condução da acção tem de ser altamente minuciosa, de modo a atingir a utópica situação de impossibilidade de resolver o mistério proposto: ou seja – para um crime impossível … uma solução impossível!
Brindou-nos, há dias, o nosso velho amigo com a publicação de mais um livro – “150 anos de mistérios de crimes impossíveis na ficção policiária”.
Sendo um livro temático (sobre o crime impossível), não deixa de ser a síntese histórica do conto social, de onde partiram o romance policial e o problema policiário.
Coloca-nos o autor em 1841, quando Allan Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue, que reconhecemos como o embrião da narrativa policial/policiária (pelo menos, o mais emblemático).
A partir daí (e depois de teorizar sobre o seu conceito de crime) envolve-se, profundamente, nas técnicas do “crime impossível” (com exemplos e explicações muito claras) e na sua evolução cronológica, desde a primeira década do século passado até aos anos 60, que o autor classifica como o início da decadência do enigma, numa “evolução” para o romance mais “negro”.
É mesmo uma delícia ir desfolhando o livro e vendo citados todos os grandes (e menos grandes) autores que fizeram a formação policiária de todos os que gostamos muito do género…
A parte final é a que diz respeito a Portugal, com início em o Mistério da Estrada de Sintra (da dupla Eça de Queiroz/Ramalho Ortigão) e apontando os nossos faróis - do Repórter X a Strong Ross, não esquecendo aquele que é, para mim, o primeiro grande teorizador do texto Policiário – Fernando Pessoa, com as Histórias de um Raciocinador e Quaresma Decifrador, a que me permito acrescentar um texto fundamental mas muito menos conhecido – o ensaio “História Policial”, eventualmente incompleto, publicado a partir de manuscritos (em Inglês e Português), o que mostra que Pessoa conheceu (e leu) os grandes mestres, sobretudo de língua inglesa.
M. Constantino fecha o livro com dois excelentes textos, uma homenagem a Artur Varatojo e uma referência a Sete de Espadas, o grande aglutinador da nossa tribo policiária.
Um livro que se lê sem parar. Foi escrito para ficar e ser outro a recordar um dos vultos maiores do policiarismo português. Constantino é um valor de referência e consulta obrigatória na divulgação histórica da literatura Policial/Policiária e na análise exaustiva do seu tema de culto – “o crime impossível”.

Muito obrigado, velho Amigo. Ficamos à espera das próximas obras…

Um abraço do Zé


26 de junho de 2015

ÍNDICE - 150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA



JUSTIFICAÇÃO

I − INTRODUÇÃO.. 17
II − O QUE É O CRIME?. 19
III − “CRIME IMPOSSÍVEL” É O CRIME PERFEITO?. 21
IV – “CRIMES IMPOSSÍVEIS” NA REALIDADE.. 25
       FALSO SUICÍDIO.. 25
       SITUAÇÃO IMPREVISTA.. 27
V − TÉCNICAS DO “CRIME IMPOSSÍVEL” NA LITERATURA.. 29
VI − HISTÓRIA CRONOLÓGICA.. 35
      ABORDAGEM... 35
      DO INÍCIO AO FIM DO SÉC. XIX.. 37
VII − 1ª DÉCADA DO SÉC. XX – 10 ANOS DE OURO.. 41
VIII − ANOS 20. 49
IX − ANOS 30 A 40 – 2ª ÉPOCA DE OURO.. 49
X − AUTORES DOS ANOS 40. 97
XI − DÉCADA DO MEIO DO SÉC. XX.. 117
XII − ANOS 60 XX – CLARA DECADÊNCIA DO ENIGMA.. 131
XIII − A CAMINHO DOS 150 ANOS – ANOS 70 A 90. 149
XIV − CHEGADA AOS 150 ANOS
XV – “CALDEIRADA” LUSITANA.. 167
    1 − A LITERATURA POLICIÁRIA PORTUGUESA.. 167
    2 − HOMENAGENS. 170
         O CASO DA MOSCA MORTA.. 170
         O LADRÃO GENEROSO E HOMICÍDIO IMPOSSÍVEL.. 183
    3 − A LEITURA EM GERAL E NO POLICIÁRIO.. 192
    4 – QUESTÃO DE GOSTO.. 193

AGRADECIMENTOS. 195




FICHA TÉCNICA - 150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA





FICHA TÉCNICA

Título: 150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA                 FICÇÃO POLICIÁRIA

Autor: M. Constantino

Data da 1ª Edição: Maio 2015

Edição de Autor

Ilustração de Jartur

policiariodebolso@gmail.com

25 de junho de 2015

NOVO LIVRO DE M. CONSTANTINO




"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA"


Lançado no passado dia 17 de Maio, em Almeirim, durante a homenagem a M. Constantino, o livro tem como tema o "crime de quarto fechado" na ficção policiária.

"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA" é um estudo técnico e histórico que reúne em 200 páginas alguns aspectos mais relevantes da história deste género, também designado por "mistério ou crime impossível".


Em "Justificação" M. Constantino escreve:

  O mês de Abril do ano de 1841 é a data sancionada como o nascimento da história policiária e do designado “crime impossível”, ou de “quarto fechado”.
Naturalmente que, em 1941, o centenário do acontecimento exigia um estudo na matéria, que não se fez, segundo cremos; e pela nossa parte, uma madrugada adolescente, não passávamos da leitura do “Texas Jack”.

Nos 150 anos do evento (século e meio), tanto o assunto nos despertara o interesse que possuíamos material para iniciar esse estudo. Então, foi o trabalho profissional, que nos dominava por completo, que levou ao adiamento. Entretanto, no Convívio de Coimbra, prometemos ao L.S. (Lopes da Silva) pensar no assunto.
O tempo evapora-se… anos decorreram, limitando-nos então à leitura, mesmo essa escassa, de um ou outro livro cujo título ou autor nos despertou interesse e, estamos conscientes, achávamo--nos necessariamente, atrasados e desactualizados.
Após satisfeito o longo período de cumprimento integral das várias funções e cargos inerentes à profissão, os momentos de ócio − que nunca tivemos nem quisemos verdadeiramente − foram preenchidos com a entrega ao jornalismo regional e de tal modo que nos impediu qualquer desvaneio.
Cessado que foi, por iniciativa própria − uma opção de consciência − este outro ciclo da nossa vida, relembrámos a promessa feita ao L.S. de escrever um livro para publicação pela Tertúlia Policiária de Coimbra (T.P.C.). Seríamos, em vez de um potencial ofertante de promessas, um pagador de promessas. A Maria Luísa, elemento do policiário e funcionária do Ateneu, iniciou entusiasticamente a dactilografia dos nossos originais. Mas então tudo mudou: a morte do director do Ateneu, a saída da dita funcionária, a dispersão da T.P.C., as dificuldades em editar, tudo parou. É a esposa de L.S. que reinicia o trabalho mas, apesar do esforço, existem perdas irreparáveis… o original, as últimas cerca de meia centena de páginas, incluindo a providencial “pen”, perdeu-se entre Coimbra, Viseu, Santarém. Tivemos de refazer o original, reduzir o número de páginas e, eliminando a parte antológica, reescrever um novo final.

Sabemos que o título é pretensioso, o tema difícil, disso estamos convictos: se assim não fora, não chegaria a merecer o desafio a que nos propomos.
É facto que nos faltam fontes de apoio. Tanto quanto sabemos, mesmo na área da história da temática em causa onde a ficção se instalou, salvo um esboço de Robert Adey denominado “Locked Room Murders” (Londres, 1979), e no qual nunca tivemos a ventura de pôr os olhos, e duas ou três antologias não nacionais, mais comerciais que proveitosas, deixa-nos a alternativa de partir, em termos consultivos, do zero.
A sorte está lançada, entretanto! Porque procuramos honrar e não a honra, vamos empenhar todo o carinho e interesse na elaboração deste livro. E de algo estamos certos:

Com maior saber outros o fariam melhor;

Com maior dedicação, concedam-nos que expressemos as nossas dúvidas.

M. Constantino


AMANHÃ PUBLICAÇÃO DO ÍNDICE


Edição: Maio 2015
    Páginas: 200
    Formato: 150x210
   
10.00€ (inclui custos de envio)


Pedidos ao endereço
policiariodebolso@gmail.com

4 de maio de 2015

HOMENAGEM A M.CONSTANTINO

Video gravado em 2012


HOMENAGEM A M.CONSTANTINO

Tertúlia Policiária da Liberdade 

Dia 17 de Maio em Almeirim 

Homenagem a M. Constantino

Contactos para esclarecimentos e inscrições:
214719664 ou 966102077 (Pedro Faria);
213548860 ou 966173648 (António Raposo);
219230178 ou 965894986 (Rui Mendes).

7 de abril de 2015

LIVROS - NOVIDADES





Crime Num Quarto Fechado
Hans Olav Lahlum — Edições Asa (Clicar)
Colecção: Crime à Hora do Chá - volume 7
Tradução de Elsa T. S. Vieira
Março de 2015


Sinopse
Num pequeno prédio em Oslo onde todos os moradores se conhecem, dá-se um crime impossível. Harald Olesen é assassinado a tiro na sua sala de estar. A arma não foi encontrada. A divisão estava fechada à chave por dentro, o apartamento vazio. Admirado por todos, Harald era um lendário herói da resistência a Hitler.
É difícil imaginar quem terá cometido um crime tão vil. Mais complicado ainda é imaginar como terá sido executado. O detective inspector Kolbjørn Kristiansen (também conhecido como K2) é chamado ao local. À medida que interroga os vizinhos da vítima, K2 começa a desenredar uma teia de mentiras que teme não ter fim. Felizmente, tem uma aliada: Patrícia Borchmann. A jovem está confinada a uma cadeira de rodas mas a sua mente prodigiosa não se detém perante tais limitações. Juntos, são a única esperança de deslindar este enigma aparentemente insolúvel.


LER EXCERTO (CLICAR)


6 de abril de 2015

LIVROS - NOVIDADES



Um Homem Sem Passado
Colecção Marcador Literatura
Tradução — Ana Mendes Lopes
Abril de 2015



Sinopse
Fin Macleod está de regresso à ilha que o viu nascer. Deixou a mulher, a vida e a carreira na Polícia de Edimburgo e está determinado a recuperar as suas relações antigas e a restaurar a quinta abandonada dos pais.
Entretanto, um cadáver não identificado é recuperado de um campo na ilha de Lewis. O corpo, perfeitamente preservado, está marcado por hediondos golpes de esfaqueamento. É inicialmente classificado pelos investigadores como o cadáver de um homem que viveu há dois mil anos. Até encontrarem uma tatuagem de Elvis no seu braço direito. 

Quando os testes de ADN indicam um parentesco entre o cadáver recuperado da turfa e o pai de Marsaili, a paixão de infância de Fin, este vê o seu regresso assumir contornos mais turbulentos do que aquilo que inicialmente esperava.
Como Fin acabará por descobrir, é uma mentira que Tormod manteve por uma boa razão.


"Um Homem Sem Passado" é um livro cheio de mistério e suspense até à última página.

Crítica
"Poderoso e autêntico." Sunday Herald
"Uma das melhores séries criminais dos últimos anos." The Independent
  • "A descrição do ambiente é tão impressionante quanto a própria acção." The Sunday Telegraph
  • "Tão bom quanto o seu soberbo antecessor, A Casa Negra." The Guardian




Nota Policiário de Bolso 
Um Homem Sem PassadoThe Lewis Man no original, segue-se a A Casa Negra e constituem, respectivamente o 2º e o 1º livro da trilogia The Lewis TrilogyUm Homem Sem Passado foi publicado pela primeira vez em Janeiro de 2012 e nesse mesmo ano foi vencedor de  prémios literários em França: Prix des Lecteurs no Festival Les Ancres Noires e Prix des Lecteurs do jornal Télégramm. Recebeu ainda o Prix Internacional 2012 do Cognac Festival.


18 de março de 2015

LIVROS - NOVIDADES

HOJE NAS LIVRARIAS







Sacrifício a Moloc
Åsa Larsson — Planeta (Clicar)
Março 2015


Sinopse
Um grupo de caçadores mata um urso nos bosques perto de Kiruna. Quando abrem a barriga do animal, encontram restos humanos entre as vísceras.

8 de março de 2015

UM CASO A RECORDAR - SOLUÇÃO

de Manuel Constantino


Os primeiros factos que chamaram a minha atenção foram:

1 -
a) O tiro no rosto como a disfarçar a identidade;
b) Os pingos de sangue nos dois sapatos;
c) Os dentes níveos;
d) A pele excessivamente pálida;
e) A chamada ao criado de “Ich”;
f) Ver-se “diante de um espelho”.
Decidira desde logo que o morto não era o alemão. Ninguém que masque tabaco tem os dentes níveos. A partir daqui deduzi que o morto era o Armando, um homem saído da prisão há poucos dias (razão da palidez), que para seu azar era tão parecido com o alemão que este lhe chamava “Ich” (eu) e se julgava perante um espelho.
Depois, ambos os sapatos tinham pingos de sangue - mas ninguém se descalça depois de morto e verificamos que um sapato foi atirado para junto da varanda, fora do alcance de qualquer salpico.
As impressões digitais deixadas na arma bem oleada e no cofre e não quaisquer outras, bem como o desaparecimento das folhas do passaporte onde eventualmente estaria uma impressão digital identificadora, dão-nos a certeza da premeditação do crime, quiçá para fugir a um chantagista incómodo (lembremos que o alemão era um oficial, muito possivelmente com culpas no cartório).

2 -A resposta à segunda questão é simples. Se a polícia tivesse desde o início tirado as impressões digitais do morto e procurasse identificá-las com os arquivos existentes, verificaria desde logo que o morto era o criado. O resto viria por arrastamento.
Creio que é o bastante, embora o problema dê “pano para mangas”.

1992 - 2º classificado no I Torneio de Divulgação organizado pela secção “Policiário”, orientada por Luís Pessoa, no jornal “Público”.


7 de março de 2015

UM CASO A RECORDAR



O concurso de contos promovido pela Tertúlia Policiária da Liberdade, com o apoio da Secção Policiária do jornal PÚBLICO decorre  até o dia 31 de Março.

Um dos pontos do Regulamento (Clicar para consulta) do CONCURSO DE CONTOS "MANUEL CONSTANTINO" determina:  

Dos trabalhos deverá obrigatoriamente constar, mas não como título, a frase da autoria de Manuel Constantino que a seguir se transcreve:  "QUEM RECORDA NUNCA ESTÁ SÓ", frase que pertence ao problema policial intitulado "UM CASO A RECORDAR" de 1992.

que agora aqui recordamos...


UM CASO A RECORDAR de Manuel Constantino
(publicado no jornal Público de 6 de Dezembro de 1992)

Há quem afirme, convicto, que as histórias se contam em qualquer altura, os casos verídicos relatam-se quando acontecem. No primeiro é a invenção que surge em qualquer momento, no segundo a realidade presente. Sem discutir a coerência do exposto, ninguém duvide da veracidade do presente relato: respeitem-se as recordações… Quem recorda nunca está só.
Comecei pelos problemas ou enigmas policiários, acabei como elemento da Judiciária, após um curso universitário e a passagem pela vida militar. Não me estava a sair nada mal. A prática objectiva e consciente, o entusiasmo e a intuição postos nos casos que me saíam – como se de um problema policial ficcionado se tratasse – acabaram por chamar a atenção dos superiores, determinando promoções e respeito. Em todas as circunstâncias, dar o melhor é um lema que sempre resulta: nem que seja para satisfação própria.
Naquele tempo, início do ano de 1947, algures para os lados de Sesimbra, o local pouco importa, uma moradia isolada, bem tratada… Quando chegamos, a GNR fazia guarda. Ninguém se aproximara, o que se justificava, aliás, pela localização.
O espectáculo que se me deparou não era bonito, não senhor. O corpo era algo horrível de se observar: de costas, a pele extremamente pálida, um branco pálido pouco comum, mãos abertas, de dedos em leque, a parte superior do rosto, do nariz para cima, parte da cabeça e cabelos, era carne dilacerada à mistura com sangue e o escuro da pólvora; dentes níveos, cerrados num rictos dir-se-ia diabólico, lábios afastados e franzidos, como se um sorriso de morte os aflorasse… Uma camisa um pouco larga, com monograma H.H., calças vulgares, o pé direito descalço, o dedo mínimo ligeiramente arranhado. O sapato parecia ter sido atirado descuidadamente para junto da varanda. Aos pés da vítima uma espingarda de cano único, calibre 12, de cuja câmara extraí e voltei a colocar um cartucho recentemente detonado, sem que os meus dedos deixassem ou apagassem qualquer indício e sem alterar igualmente a posição da arma.
O cesto junto da secretária continha papéis rasgados, contas sem importância para o caso, restos de cartas sem interesse, duas cartas meio rasgadas que a paciência me ajudou a reconstituir, assinadas por “Monte”, nas quais se exigia elevadas quantias que coincidiam com os talões dos cheques de uma caderneta encontrada no cofre aberto, constatando-se, por consulta ao banco, que haviam sido levantados sem possibilidade de identificação do detentor, já que o gerente contactara telefonicamente o depositante que, prontamente, confirmara a ordem de pagamento.
Descobri, caída debaixo da secretária, uma folha solta de passaporte; ainda que mutilada, continha a fotografia, nome e naturalidade de Hans Hentschel, tendo-me sido impossível descortinar em qualquer parte o resto deste importante documento.
O cofre continha vários documentos sem valor, moedas e notas várias de pouca importância, um envelope de grande formato contendo a foto de um oficial alemão (a vítima) ostentando diversas condecorações e datado de 1942.
Ninguém presenciara directamente a tragédia. Os dados mais consistentes foram fornecidos pelo antigo proprietário da maioria, o sr. Joaquim Mata, cujo depoimento encerra uma estranha história. Disse que por volta de 1944, sem dinheiro e sem família e com idade a pedir descanso, vendera a propriedade, por intermédio de um procurador, ao sr. Hentschel, ficando a habitar um pavilhão do jardim, que mobilara para esse fim, conforma escritura lavrada no notário. O novo proprietário era um indivíduo pouco sociável, nunca saía e raras vezes lhe falara, se bem falasse português com facilidade. Um criado, também alemão, fazia todo o serviço caseiro, bem como as compras necessárias no exterior. Este faleceu em Outubro do ano anterior e, ele, Mata, cegara pouco depois. A sua cegueira era irreparável e aguardada conforme informação médica anterior. Os primeiros tempos foram horríveis de suportar, sem um só gesto de ajuda do vizinho.
Valeu-lhe posteriormente a solicitude do novo criado, Armando Ricardo, um homem acessível que a justiça atirara para a prisão durante quinze anos e que aceitara o emprego poucos dias após a libertação, exactamente pelo isolamento do local. Não se mostrara receptível ao contacto público. O patrão proibira-o terminantemente de lhe falar ao segundo dia da sua chegada e vigiava o cumprimento dessa proibição, pressentia ele. Nada mais sabia da sua vida, embora Armando encontrasse maneira de lhe deixar à porta o indispensável ao sustento que, em regra, pedia telefonicamente.
Hentschel mostrava-se cada dia mais rabugento, verdadeiramente intratável. Ouvia-o passear no jardim dia e noite, atirando pontapés a tudo o que se lhe deparasse no caminho, entregue ao terrível vício de mascar tabaco continuamente. Tratava o novo criado por “Ich” e seguia-o com sonoras gargalhadas. Resmungava vinganças, em voz surda, para si próprio, falava em “Monte”, ou “Morte”, em “chantagem”, ria como um louco, dizia-se “diante de um espelho”, repetia a frase e ria, ria muito. Chegara a temê-lo, principalmente quando se punha a gritar em “estrangeiro”!
Naquele dia ouvira-o chamar por Armando repetidamente. Não sabia se o encontrara, mas a meio do dia ouvira um tiro abafado. Tudo estava num silêncio profundo. Receando qualquer anormalidade ou por uma espécie de pressentimento, dirigira-se, tacteando, à casa. Não obtivera resposta aos seus chamamentos de quem quer que fosse. O silêncio assustara-o, voltara para o pavilhão e telefonara. E terminara:
– Oh! Armando deve ter abalado ontem à noite, farto desta vida, com toda a certeza! Ainda bem que o fez porque, apesar de não o conhecer bem, pressentia que era um homem bom que pagara à sociedade o seu crime, fosse ele qual fosse.
Hentschel é um tirano.

É tudo.
Mesmo antes de obter a confirmação que as impressões digitais encontradas na arma bem oleada eram exclusivamente da vítima – arma, aliás, averbada em seu nome –, tudo indicava que fora disparada com o dedo mínimo do pé descalço; que os pingos de sangue encontrados nos sapatos eram igualmente da vítima, bem como todas as impressões digitais encontradas no cofre. Antes de confirmar tudo isso, eu tinha formado uma teoria que reduzi a relatório e, afinal, se mostrara correcta.
O problema que se punha era de vastas hipóteses: admitir o suicídio como tudo indicava; o homicídio perpetrado pelo desaparecido Armando, farto do alemão ou por roubo; assalto por pessoa ou pessoas desconhecidas ou pelo “chantagista”, nos dois últimos casos disfarçando o crime, etc.…

Qual a opinião dos meus queridos amigos e leitores, e porquê?

Pensando bem, excluindo todo o raciocínio e encaixe dos vários detalhes, se a polícia tivesse em princípio procedido a uma elementar operação técnica, teria solucionado todo o trama.

Qual era essa operação?