15 de janeiro de 2013

CONTO — ROBERT LEWIS

A BIBLIOTECÁRIA

A biblioteca ficava afastada da rua, por trás de um relvado e de um conjunto de arbustos. Era uma casa branca e baixa, idêntica a tantos outros edifícios públicos das cidades pequenas de Nova Inglaterra. Por cima da porta, via-se um letreiro Biblioteca de Quigley e mais abaixo, um outro, mais pequeno, dizia com orgulho : Ar Condicionado.
Quando entrei, fiquei numa espécie de corredor formado por duas estantes baixas, que separavam a sala em duas secções. Os dísticos Ficção e Outros Assuntos explicavam a finalidade da divisão. No centro do corredor, de frente para a porta, havia uma mesa, onde estava sentada a bibliotecária. Era uma mulher de meia-idade, uma solteirona de cabelos ralos que usava pince-nez.
— Boa-tarde — disse eu. — Posso dar uma olhadela?
— Boa-tarde — respondeu a bibliotecária. —Com certeza. Pode ver o que quiser. É para isso estamos aqui.
A mulher olhou-me com um ar de conspiração intelectual. Parecia dizer-me: “Estou a gostar de si. O senhor percebe de livros".
O departamento Outros Assuntos estava completamente vazio. Entrei. No centro havia uma grande caixa de metal, com uma grade na parte superior, que enviava o ar refrigerado para toda a sala. Fiquei ali de pé, deixando que o ar fresco me batesse no rosto. Depois, sentindo que a bibliotecária me estava a observar, andei um pouco por entre as estantes, tirei um livro ao acaso e tornei a colocá-lo na estante, depois de o folhear durante alguns minutos.
A bibliotecária depressa veio para ao pé de mim, ansiosa por me ajudar.
— Deseja alguma coisa em particular? — perguntou-me.
— Tem alguma obra que trate dos mariscos?
A mulherzinha ficou desapontada:
— Acho que, não. Mas, vou ver.
Consultou o catálogo e veio anunciar, tristemente :
— Não.
— Não tem importância — disse eu para a consolar. — Vim aqui, na verdade, por causa do ar condicionado.
— Foi uma boa ideia. Nestes dias de muito calor, acho que não há lugar melhor…
O orgulho que se lia na expressão do rosto da bibliotecária indicava, claramente, de quem fora ideia. Contudo, limitou-se a dizer:
— Gosto das coisas bem feitas.
E deixou-me à vontade, na biblioteca de Quigley, uma atmosfera sonolenta que nos fazia esperar encontrar gente velha a dormitar pelos cantos. Contudo, a não ser a bibliotecária e eu, só havia na sala duas crianças : na secção de Ficção, um rapazito que estava sentado, lendo atentamente, e uma menina de uns doze anos que andava entre as estantes. Finalmente, encontrou um livro que agradou e levou-o à bibliotecária, com um cartão.
Depois da menina sair, aproximei-me da mesa e perguntei à bibliotecária o que era preciso fazer para levar um livro para casa.
— O senhor tem cartão de inscrição? — perguntou ela, sabendo muito bem que não, uma vez que Quigley é uma cidade minúscula.
— Não. Sou novo aqui na cidade. É preciso fazer a inscrição?
— Bem, temos os nossos regulamentos, o senhor compreende… Mas posso fazer um cartão provisório, se quiser.
— Muito bem. Se não for muito trabalho para a senhora.
— Oh! Absolutamente. Fico satisfeita quando tenho companhia, aqui na biblioteca. Olhei para o rapazito que lia, lá em baixo.
— Oh… o Tom? — murmurou ela. — Tommy de pouco me valeria, não é?
— De pouco lhe valeria? Não compreendo…
— Ah! Bem se vê que o senhor é de foral Pensei que o caso era conhecido de todos. Olhou-me de soslaio e continuou:
— Sou Miss Cassidy.
Vendo que a expressão de meu rosto não se modificava, conservando apenas o mesmo ar de interesse educado, Miss Cassidy falou:
— Pelo que vejo, o senhor não lê jornais Nunca ouviu falar de Malone, o Pernalta, o gangster de Nova Iorque? Pois bem, fui eu quem o mandou para a prisão.
— Espere aí! Lembro-me, sim, de haver lido alguma coisa sobre isso! Ele não atropelou uma criança, ou coisa parecida?
Miss Cassidy estava radiante.
— Foi aqui em Quigley que aconteceu. Bem em frente da biblioteca na altura em que eu saía do trabalho.
Simmons estava a jogar à bola na rua quando uma grande limusina preta, com placa de Nova Iorque, passou como um raio e atropelou a criança. O motorista diminuiu a marcha e olhou, depois fugiu a mais rapidamente possível. Foi o bastante para eu ter tempo de fixar a matrícula do carro, antes de este desaparecer.
— Que aconteceu depois? — perguntei,
— O homem foi condenado por assassínio. Quando o caso foi julgado, eu fui chamada para identificar o motorista e foi assim que o Pernalta foi preso.
Abanei a cabeça, admirado.
— A senhora é corajosa. Eles não lhe fizeram nenhuma ameaça?
— Claro que sim — respondeu ela, muito corada e satisfeita. — Mas é que essa gente não me conhece! Já compreende porque não gosto de ficar sozinha na biblioteca. Nunca se sabe o que esses bandidos seriam capazes de fazer!
— Mas a senhora não pediu proteção à polícia?
— Pedi, é claro! Isto é, logo depois do que me aconteceu O filho dos Sneckells costumava escoltar-me todos os dias, quando vinha para a biblioteca e quando regressava a casa. Mas isso já foi há um ano! Acabei poe pedir à Polícia que parasse com aquilo. Esse tal Malone deve ser um homem muito perverso. No dia do julgamento, lançou-me um olhar, que fiquei aterrorizada.
— Ora, ele está na prisão e a senhora está a salvo. Não precisa de se preocupar.
O garoto aproximou-se da mesa com o livro na mão.
— Então Tommy, andas a ler histórias de índios? — perguntei.
— Como é que sabe?
Expliquei ao rapaz que eu era mágico. O menino olhou-me, desconfiado e disse “Ah!”, num tom de quem não acreditava. Recebeu o álbum de selos que deixara com Miss Cassidy e saiu.
— Bem, então vamos fazer sua inscrição provisória — disse a bibliotecária, pousando a caneta numa ficha. Dei-lhe meu nome, acrescentando :
— Não é agradável, isto aqui sem ninguém…
— Muito agradável. Qual é a sua morada?
— Nova Iorque.
Ela ergueu rapidamente os olhos, fitando-me e rosto.
— É isso mesmo, Miss Cassidy, as suas suspeitas têm fundamento — disse pesaroso. — Um certo homem perverso pediu-me que lhe viesse fazer uma visita… Teria sido muito melhor para a senhora, que se tivesse deixado guiar pela razão durante o julgamento.
Miss Cassidy abriu a boca e emitiu um som que me fez lembrar um passarinho. Com a mão esquerda eu agarrara no cartão que ela preenchia e com a mão direita tirava a pistola do coldre. Miss Cassidy não se moveu, mas seus olhos estavam arregalados e piou outra vez.
Nesse momento, senti um objeto duro encostado nas minhas costas e alguém disse : — Renda-se!
Eu deveria ter compreendido o que se passara, naturalmente. Mas, neste fugidio instante em que um homem compreende que o seu plano, cuidadosamente preparado, acaba de ser reduzido a nada, deixei-me dominar pelo pânico e não notei que a ordem fora dada por uma vozinha infantil. Já tinha largado a pistola quando notei isso, virando-me vi Tommy que empunhava um revólver de brinquedo. Tinha os olhos brilhantes e seus lábios tremiam, maravilhado com a própria coragem! Quando tornei a procurar a pistola, já esta se achava em poder de Miss Cassidy.
Não havia mais nada a fazer. Voltei-me e sai a correr, empurrando Tommy para o lado. Lá fora, ainda correndo, fui para o meu carro, que deixara estacionado na esquina. Tudo aconteceu sem problemas. Apenas, ao sair, quase ia caindo por cima de uma bicicleta parada junto a uma árvore, bem em frente da biblioteca. Decerto seria a de Tommy, porque preso à frente via-se uma placa brilhante onde se lia : DETECTIVE JUVENIL.

13 de janeiro de 2013

LIVROS - NOVIDADES



Os Inocentes
David Baldacci  Clube do Autor (Clicar)
25 de Janeiro de 2013

Sinopse
“Os Inocentes” é um livro viciante — tem cenas repletas de acção, personagens dinâmicas e complexas e a dose certa de sedução e mistério — que, no final, vai deixar o leitor a questionar os seus próprios valores. Esta é a história de uma amizade que luta pela sobrevivência numa conspiração que atinge as grandes esferas do poder. Ao longo destas páginas encontramos um assassino com uma missão especial e uma jovem em fuga cuja sobrevivência depende da cooperação entre ambos.

11 de janeiro de 2013

LIVROS - NOVIDADES



O Estilete Assassino
De Ken Follett – Bertrand Editora
(18 Janeiro 2013)

Sinopse (Editora)
Um agente secreto de Hitler, um assassino frio e profissional com o nome de código “Agulha”, vê-se envolvido na manobra de diversão dos aliados que antecede o desembarque militar em França. Estamos em 1944, a semanas do Dia D.
O Estilete Assassino é um arrebatador bestseller internacional em que o destino da guerra assenta nas mãos de um espião, do seu adversário e de uma mulher corajosa.


Crítica Publishers Weekly:
Um thriller absolutamente extraordinário, perturbador, engenhoso e tão assustadoramente realista que não o conseguimos parar de ler.

Crítica Sunday Times:
Um thriller cheio de tensão e pormenores extraordinários, baseado nos alicerces sólidos dos factos.

9 de janeiro de 2013

CONTO DE RANJEE SHAHANI


DINHEIRO FÁCIL

Era um dia extremamente frio de Janeiro, com o vento a soprar furiosamente e a levantar nuvens de poeira seca em turbilhões hostis.
Bamji, o Marwari, sentia os dias maus, sentado a um canto de sua choupana, contemplando a braseira com olhos ausentes. A pouca distância, a sua mulher, encolhida, tremia de frio. Vestira todos os trapos que possuía, mas não conseguia aquecer-se. Tinha o rosto petrificado e os dentes batiam. Há dois dias que não se alimentava.
Bamji sentia no seu coração apenas uma coisa: intensa inveja de seu próspero vizinho, a quem nada faltava. Sentia-se mais mortificado ainda ao pensar que fora ele, Bamji, que iniciara o vizinho nos negócios. Esse pensamento consumia-o. Estava seguro de que o rival não tinha mais aptidões do que ele próprio, no entanto, o vizinho prosperava, enquanto os seus negócios iam de mal a pior.
Porquê que isso acontecia? Trabalhava arduamente, conscienciosamente, sem descansar um só dia. Mas nada dava certo. Agora não tinha vintém. Porquê que isso acontecia? A vida de um homem honesto estaria destinada a ser uma cadeia de contrariedades, pontilhados de sofrimentos? Bamji praguejava em voz baixa.
— Em vez de estares a praguejar, levanta-se e faz alguma coisa — interrompeu a voz da mulher. — Estou a morrer de fome enquanto tu ficas sentado, parado.
O homem olhou-a com profundo ressentimento:
— Sabes bem que tenho tentado tudo, mas não adianta. Cheguei mesmo a vender o relógio que o Mahatma Gandhi me deu de presente durante o Movimento de Não-Cooperação. Mas estou a cair cada vez mais para baixo.
— Que excelente marido tu és! — retorquiu a mulher. — Fazias melhor se te atirasses ao rio.
A linguagem era chocante para uma mulher de um hindu. Bamji sentiu-se ainda mais deprimido. Tranquilamente levantou-se e saiu da casa. A noite caíra e o frio estava penetrante, mas ele andou sem rumo pelas ruas da aldeia, sem reparar por onde caminhava.
Em breve chegou à beira do pântano congelado que rodeava a aldeia. De uma árvore veio o pio estranho de uma coruja. Olhou na direcção de onde se fizera notar o barulho e viu um fogo no limite da terra firme. Dirigiu-se para essa direção, pois, mesmo que se tratasse de assaltantes, sentia grande necessidade de se aquecer. Se fosse assassinado, tanto melhor. Então, talvez sua bondosa mulher ficasse satisfeita.
Ao chegar, encontrou vários estranhos que se aqueciam na fogueira e cantavam refrões desconhecidos. Em nada disso encontrou coisa alguma de bizarra: perdera a capacidade de se surpreender. Mas tinha de se aquecer. Instintivamente, estendeu a mão na direção da fogueira.
— Amigo, pode arranjar-me um lugar? — disse calmamente, procurando instalar-se.
Sentia que os forasteiros entenderiam o Indi, língua nacional da índia, embora ele próprio não a falasse com entusiasmo, pois sua língua materna era o Gujarati. De qualquer forma, julgava-se um patriota e assim procurava agir. E, assim, sentou-se, esfregando as mãos.
Mas, subitamente, começou a perceber a companhia em que se encontrava: murmuravam entre si e pareciam estar a discutir. Levantou os olhos para os examinar e notou que estavam transformados. De cada cabeça saíam chifres como de touros, em cujos extremos se fixavam olhos vidrados. Em lugar de pés, tinham cascos voltados para trás. O choque foi tão grande que o deixou paralisado.
— Ó Marwari — disse o vizinho que ele empurrara para obter lugar.
— Como sabe que meu nome é Dost?
— Porque eu me lembrava muito bem de si — replicou, desesperado, o Marwari.— Não me reconheceu?
— Nunca o vi na minha vida.
Então o Marwari notou pela primeira vez que eram todos muito jovens, simples rapazes e raparigas. Uma ideia emergiu subitamente no cérebro e, voltando-se para o vizinho novamente, disse-lhe em tom de censura:
— Quando é que me vais pagar aquelas cem rupias?
A pergunta chocou Dost pelo absurdo, fazendo-o olhar inexpressivamente para o interlocutor e responder:
— Tolice. Não lhe devo essas rupias. Sou demasiado jovem para incorrer em tal débito.
— Então deve ter sido ao teu pai que eu emprestei o dinheiro — insistiu o Marwari agressivamente. — Onde está o patife? Se eu o encontrar, fá-lo-ei pagar por isso.
— Mas ele está morto — disse Dost, triunfante.
— Tanto melhor. Agora o débito é teu, sem dúvida. Se não me pagares, amarro-te à cauda de um búfalo selvagem.
— Que fazemos? — perguntou Dost nervosamente a seus camaradas. — Sei que vocês podem ajudar-me. Todos os do círculo começaram a aconselhar-se uns com os outros e, em consequência da atitude ameaçadora do Marwari, perderam o pouco bom senso que tinham. O Marwari percebeu o pânico deles e tornou-se mais exigente.
— O dinheiro! O dinheiro, imediatamente! — Gritou, batendo o pé.
Os espíritos sabiam que a tia de Dost tinha um saco de ouro escondido perto de uma árvore, em Bengala.
— É melhor ele ir buscar o ouro e pagar a dívida — sugeriu o que parecia o mais velho entre eles. Mas Dost tinha muito respeito pela tia solteira e declarou que não se atrevia.
— Mas — atalhou uma menina, jovem esperta de chifres e cascos tenros — o dinheiro será teu quando ela morrer. Porque não começar a usá-lo agora?
Esse argumento pareceu convencer Dost, que resolveu cavar o metal precioso e pagar a dívida. Todos o aplaudiram e resolveram ir juntos até à árvore, deixando um refém com o Marwari. Voltaram com o saco que passaram ao incómodo visitante sem se dar sequer ao trabalho de contar as moedas.
O Marwari estava altamente satisfeito com o sucesso de seu truque e pensando em levar o dinheiro para casa. Mas pensava também nos assaltantes que infestavam os pântanos. Não tinha o menor desejo de ser morto. Agora obtivera dinheiro fácil. Que maravilha! Fora um tolo durante toda a vida e agora tinha aberto o caminho da riqueza: bastava apenas um pouco de esperteza. Mas preocupava-se com os assaltantes. Como escapar a essa ameaça?
De repente sorriu. Como não lhe ocorrera antes a ideia? Os espíritos podiam ser aproveitados como escolta.
— Escuta lá, — declarou — não cobrei juros do dinheiro, de modo que tu deves levá-lo até à minha casa.
Dost, completamente acobardado, concordou em fazer o serviço. E assim o grupo inteiro formou-se em procissão; Dost com o saco às costas, logo seguido pelo Marwari. Quando se aproximaram da aldeia, o Marwari ainda pensou em outro ardil para evitar outros riscos. A sua miserável choupana podia despertar suspeitas e ele não queria ser incomodado pela tia, portanto, disse-lhes que morava na casa de seu rival e agarrou o saco do ouro, despedindo-os em seguida.
Sorrindo consigo mesmo, seguiu com o tesouro para a sua choupana. As ruas estavam escuras e não havia ninguém, de modo que ele entrou confiante. Atirando o ouro para o chão, olhou triunfante para a mulher. Ela ainda estava encolhida a tremer de frio, mas seus olhos iluminaram-se ao ver o marido: comida, afinal!
— Vê — gritou o Marwari, exultante. — Temos ouro para muitos anos. Podes comer o que quiseres.
Ela olhou para o chão, mas não viu nada, absolutamente nada.
— Onde está o ouro? — perguntou.
— Bem na tua frente. Estamos ricos para o resto da vida E mais do que isso, consegui vingar-me do patife do nosso vizinho.
— Sorriu, ao pensar na fúria da tia.
Então começou a clarear e tudo na choupana se tornou bem visível. A mulher viu as condições da roupa do marido, rasgadas e enlameadas. Não havia ouro em lugar nenhum.
— Que aconteceu contigo? — perguntou ela.— Ficaste louco?
Mas não conseguia obter nada dele, além do grito incessante e desesperado:
— Ouro! Ouro!

7 de janeiro de 2013

BIBLIOTECA FICÇÃO CIENTÍFICA


BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (70-71)




Volume 70 — Make Room! Make Room! (1966) de Harry Harrison


Harry Harrison é o pseudónimo do norte-americano Henry Maxwell Dempsey (1925 – 2012). Foi soldado aos 18 anos, estudou artes gráficas, desenhador de quadradinhos, ilustrador, chefe de redacção de revistas até descobrir a Ficção Científica, passado então a viver quase exclusivamente do que escreve. Tem uma vasta bibliografia. É um viajante tremendo, tendo percorrido vários países. Citam-se como relevantes as obras: Make Room! Make Room! (1969), Captive Universe (1969), The Daleth Effect (1970), Tunnel Through the Deeps (1972), The Jupiter Plague (1982), West of Eden (1984) e Winter in Eden (1986)


Make Room! Make Room!, na tradução portuguesa “À Beira do Fim”, é uma novela ferozmente amarga, uma antecipação que poderá situar-se em 1999, algures no nosso mundo. Nova Iorque é uma cidade superlotada com trinta e cinco milhões de habitantes, automatizada, perigosa, repressiva, ecologicamente ruinosa, onde a água é severamente racionada e a alimentação é escassa a tal ponto que um rato que se deixa apanhar é um menu afortunado.
É neste mundo super nervoso que se dá um crime e se inicia a caça ao criminoso.


Ficha Técnica
À Beira do Fim
Autor: Harry Harrison
Tradução: Daniel Gonçalves
Ano da Edição: 1986
Editora: Caminho
Colecção: Caminho de Bolso, Ficção Científica Nº33
Páginas: 198





Volume 71 — Night of Light (1966) de Philip José Farmer
(é o 3º livro do escritor incluído na Biblioteca, para informações sobre o autor e 1º volume clicar AQUI e para o 2º volume clicar AQUI.


O romance Night of Light põe uma questão controversa que dá que pensar a muito boa cabeça: a possibilidade de cada um escolher um deus do Bem e um deus do Mal é muito mais aceitável, do que um deus imposto por uma estrutura fechada e decadente.
John Carmody é um assassino, violador e mercenário que se converte à religião cristã e crê em Cristo, o filho é um messias que defende o boontismo: o que está em posse da verdade.
Novela interessante, polémica, de um autor igualmente polémico.


Ficha Técnica
Noite de Luz
Autor: Philip José Farmer
Tradução: Eduardo Saló
Ano da Edição: 1969
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Série Antecipação
Páginas: 160

6 de janeiro de 2013

CONTO — CRAIG RICE

O MOTIVO

— Minha cara senhora — disse John J. Malone suavemente — eu sou o seu advogado. Pode confiar em mim.
A jovem senhora fitou-o com os olhos castanho-escuros muito arregalados e abanou a cabeça, desesperada.
— E lembre-se — acrescentou Malone — que o Dr. Cramer, aqui ao nosso lado, é o seu psiquiatra. A partir deste momento pode já a confiar nele.
Ela abanou novamente a cabeça. Era uma coisinha adorável com o rosto em forma de coração e os cabelos castanhos em ondas.
“Coloque-se isto em frente de um júri — pensava Malone consigo mesmo — e depois será suficiente arranjar um bom motivo.”
O Dr. Cramer tocou gentilmente nos seus ombros. Era, um homem alto, simpático, de cabelos grisalhos, com gestos e fisionomia que inspiravam confiança.
— Vamos, minha, amiga — disse — diga ao Dr. Malone o que aconteceu, como e porquê. Estamos aqui para a ajudar…
— Afinal de contas — acrescentou Malone — não queremos vê-la na prisão para o resto da vida. Ou — acentuou com propositada brutalidade — na cadeira eléctrica.
Sorriu, assumindo um tom diferente:
— Não se preocupe. Até hoje, nunca perdi uma causa.
Ela levantou os olhos e falou pela primeira vez:
— Sim, senhor Malone. Matei o meu marido. Tinha de fazê-lo.
— Espero que não tenha dito isso à polícia — proferiu o advogado, ansioso.
 — Não disse ainda a ninguém. Matei-o com o seu próprio revólver. Roubei-o e pratiquei durante várias semanas, para não correr o risco de errar.
Malone quase gemeu. Ali estava o seu caso:
— Quer dizer que não foi um impulso momentâneo? Não foi uma coisa repentina? — perguntou.
Ela abanou a cabeça encantadora:
— Planeei tudo durante muito tempo, senhor Malone. Era uma coisa que eu tinha de fazer, compreende?
— Mas porquê? — insistiu Malone.
— Porque ele estava a enlouquecer-me.
“Bem, isso podia ser um óptimo motivo, desde que o júri fosse escolhido” pensou Malone.
— Como? — perguntou Malone.
— Ele soprava anéis de fumo pelo nariz — respondeu ela, perdendo os sentidos em seguida.
O advogado gritou pela enfermeira de serviço na prisão e disse ao Dr. Cramer:
— Parece-me que não percebi bem o que ouvi.
Uma hora depois, na confortável segurança de uma mesa de bar, Malone disse:
— Acho que preciso de outra bebida. Ambos precisamos, E eu preciso também de muitas explicações.
O grande psiquiatra bebeu a sua bebida e fez uma careta:
— Ela procurou-me há algumas semanas, como uma criança assustada. O seu único problema era que o marido soprava anéis de fumo pelo nariz. Tentei encarar o caso pelo lado divertido, brincando com ela. Perguntei-lhe se soprava anéis quadrados e da abanou negativamente a cabeça. Perguntei-lhe se: eram circulares e o gesto também foi negativo.
Malone debruçou-se na mesa para ficar mais perto:
Acho que nenhum júri no mundo seria capaz de condená-la comentou. — Mas conte o resto.
Continuei a perguntar-lhe se ele soprava anéis de fumo oblongos e ela sacudiu a cabeça, começando: a chorar, Então exclamou: “Dr. Cramer, ele soprava anéis de fumo comuns, redondos. Mas soprava-os pelo nariz”.
O psiquiatra deteve-se para acender um cigarro. Tentei animá-la, dizendo-lhe: “Minha querida, não precisa de se preocupar com isso. Neste mundo deve haver centenas de milhares 'de homens que sopram anéis de fumo pelo nariz”.
O advogado assentiu com a cabeça:
— Concordo plenamente.
E secretamente Malone tomou a resolução de experimentar também esses tais anéis.
E depois, que aconteceu?
Ela entrou em pânico, um pânico completo — disse o Dr. Cramer. — E a sua resposta foi, a seguinte: “Sim, eu sei isso. Há provavelmente centenas de milhares de homens que sopram anéis de fumo pelo nariz. Mas compreenda-me: O meu marido não fuma”.

5 de janeiro de 2013

POLICIAL OU POLICIÁRIO?

Autor: Dr Raul Machado (Presidente da Sociedade de Língua Portuguesa
Artigo publicado na revista Investigação em Janeiro de 1954


Policial ou policiário?
Digamos desde já que pode ser policial e policiário, porque um e outro estão bem formados, como o estão também os adjectivos judicial e judiciário. Estes últimos, porém, contam já longos anos de existência, pois vêm lá do velho latim, iudiciolis e iudiciarius, ao passo que os outros dois, trazidos aqui ao tribunal da crítica, não gozam de avançada idade.
O adjectivo policial só aparece registado a primeira vez na 2ª edição do dicionário de Morais, (a 1ª de 1813, não inclui o termo); encontra-se ele depois em todas as edições até à 9ª (a 10ª não chegou a essa palavra, nem sequer à letra P). Os dicionários de Cândido de Figueiredo e o de Caldas Aulete, muito posteriores ao de Morais, registam igualmente o termo policial.
Não custa nada afirmar que todos os dicionários e vocabulários, de maior ou menor categoria — (foram manuseados para este fim doze léxicos diferentes, além dos referidos 'acima) — todos, sem excepção, arquivam o vocábulo policial.
A “Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” é a primeira publicação lexical portuguesa que regista o termo policiário em data bastante recente. Mas note-se que o vocábulo policiário vem anotado ali, não como adjectivo, mas como substantivo, para significar “instituição restritiva das liberdades sociais ou humanas”; e cita-se, como abonação para a palavra policiário, um passo de Silva Bastos, pág. 42, da História da Censuro Intelectual em Portugal: “… a Inquisição e o Jesuitismo, os dois famosos policiários Contra-Reforma…”
É pois, lícito inferir que, pela consulta dos registos vocabulares existentes no país, o adjectivo policiário é um neologismo de criação recente, ainda não incluído nos léxicos nacionais.
Quem terá criado esse neologismo? Parece que o termo policiária como adjectivo, saiu a primeira, vez da mão de Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, no dia 13 de Janeiro de 1935, e publicada na “Antologia de Autores Portugueses e Estrangeiros”, — Poesia — Fernando Pessoa— Segundo Volume, pág. 10, onde se lê a seguinte expressão — “novela policiária”.
Criado, esse adjectivo novo tem proliferado largamente em múltiplas expressões, como “problema policiário”, “coisa policiária”, “família policiária”, “colecção policiaria”. Formou-se, a par, o substantivo policiário que entra em frases como as seguintes: “uma sátira ao policiário de concepções americanas”; “o policiário tinha sido desenvolvido em Portugal com e por Reinaldo Ferreira»; “havia os bons e os maus romances, como na policiário havia os bons e maus autores”; etc.
As expressões e frases agora citadas, com o termo policiário, adjectivo e substantivo, respigaram-se na Separata nº 4 (Vol. 30) da Colecção XIS.
Nesta mesma separata se observa que, a propósito de uma festa do semanário Cartaz, alguém usou, ao microfone e na representação, “dezenas de vezes o termo policial, e nem uma só o policiário”.
Em outro local, na “História do Conto Policial” de Vítor Palla, empregando-se com largueza a palavra policial, acrescenta-se “policiárias, dizia Fernando Pessoa”.
O aparecimento do vocábulo na carta do poeta da Mensagem para Casais Monteiro, a paternidade do termo atribuída a Fernando Pessoa, o uso recente e abundante da palavra, dão-nos a convicção de que antes de 1935 não havia penetrado no léxico em Portugal o adjectivo policiário.
Perguntar-se-á agora se o termo policiário adjectivo e substantivo, fazia ou faz falta na língua, portuguesa, onde vive, há mais de cem anos, a palavra policial.
Notemos, antes de mais nada, o facto palpável da existência actual de um género novo de literatura de ficção em que abundam os temas de carácter policial. Notemos, ao mesmo tempo, que o organismo policial, incumbido oficialmente e legalmente da investigação policial, não intervém, directa nem indirectamente na descoberta desses crimes de fantasia, nem na sua análise, nem na prisão dos seus autores, nem na organização dos seus processos e julgamento.
Tais crimes fictícios, praticados e expostos para matar ócios e para aguçar a perspicácia policial dos leitores, existem apenas como imitação e elaboração romanceada de casos que poderiam, infelizmente, ter acontecido, mas, felizmente, só acontecem na fantasia. Não são, em suma, a exposição da triste realidade, como a lemos e vemos em livros, jornais e revistas, com narrações pormenorizadas de casos vividos, que deixam a humanidade consternada e perplexa. Essas descrições minuciosas e circunstanciadas como enigmas a puxar à subtileza e à argúcia, ou como charadas para desalentar a paciência de Job, reduzem-se, em última análise, a pura literatura romanesca.
Parece-me, por isso, que à existência recente deste género literário, ou desta, tendência da literatura de ficção, em livros, jornais e revistas, lhe quadra bem o adjectivo policiário recém-criado. Adapta-se perfeitamente a essa finalidade literária, e serve para separar dos temas fictícios, romanceados, confinados à literatura, o aspecto oficial, legal ou jurídico dos casos reais.
Assim diríamos: “história policiaria”, “problema policiário”, “enigma policiário”, “novela policiária”, “matéria policiária”; enfim, “literatura, policiária”, etc. Isto quanto ao adjectivo.
Quanto ao substantivo… Julgo que este deveria empregar-se, não sob a forma substantivada do adjectivo masculino (o policiário), mas sob a forma do feminino, a policiária; e englobaria a (matéria) policiária, a (técnica) policiária, a (questão) policiária, a (literatura) policiária, etc. É assim que nós empregamos, no feminino, segundo a tradição linguística, muitos outros termos de assuntos literários e científicos, provenientes de adjectivos femininos: a gramática, a técnica, a épica, a dinâmica, a acústica, a balística, a política, etc. O substantivo policiário no masculino, parece que cheira um pouco, embora não tresande muito, a francesismo (le policier). Ou talvez não.
Seja, porém, como for, eu por mim inclino-me para o adjectivo biforme, policiário a, e para o substantivo, a policiária. Mas nas coisas linguísticas, quem manda é o uso, que não a inclinação. Pode dar-se aqui também o que acontece às vezes na moda: — a extravagância e o exagero impõem-se e sobrepõem-se ao gosto

4 de janeiro de 2013

POLICIÁRIO DE BOLSO — PASSADO E FUTURO


Durante 2012, o Policiário de Bolso apresentou o Caleidoscópio, uma espécie de almanaque que nasceu a partir de algum material já reunido por M. Constantino.
A obrigatoriedade de publicação diária determinou um esforço, aparentemente fácil de gerir na fase inicial, mas que se foi avolumando com o decorrer dos dias.
A necessidade de garantir rigor no conteúdo tropeçou muitas vezes nos dados contraditórios e até no excesso de informação veiculada pela Internet. Foi necessário pesquisar, filtrar, confirmar, confrontar diferentes fontes, descobrir os sites credíveis, descartar o duvidoso, reunir e organizar tudo o que parecia ter maior interesse.
Muitas horas de biblioteca e de Internet, mas que tiveram um resultado final com mais de 3 milhões e seiscentos mil caracteres, 650 autores referenciados nas Efemérides, publicação de cerca de 200 contos e um número não contabilizado de estudos policiários.
O Caleidoscópio só foi conseguido pela parceria que estabeleci com M. Constantino, cumpridor implacável na entrega de fotocópias e de indecifráveis folhas manuscritas, que desta forma me empurrava, sem hipóteses de retrocesso, para a fase seguinte do trabalho. Ao mesmo tempo, o aumento progressivo de visualizações do Blogue também nos servia de incentivo.
Ficou muita coisa pelo caminho, por exemplo, a divulgação das novidades editoriais que será retomada neste 2º ano do Policiário de Bolso. Está também planeada a continuação da BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA e do DICIONÁRIO DE AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA NARRATIVA DE ESPIONAGEM e bem como a publicação de estudos e contos.
Quanto a novidades, nesta fase as ideias empilham-se no papel à espera de uma selecção exequível.
Para já, avançamos com um olhar especial sobre a famigerada Colecção Vampiro, merecedora de um registo mais completo nos meandros da Internet.

Detective Jeremias