8 de maio de 2013

LIVROS - NOVIDADES



O CHALET DAS COTOVIAS
Carlos Ademar — Editora Parsifal
Abril 2013

Sinopse
 
Certa manhã de Agosto de 1936, Luís Lencastre, um advogado de Lisboa, saiu apressado do Café Gelo, no Rossio, para tomar o comboio com destino a Sintra. Momentos antes, soubera que Rosinha, a sua irmã mais nova, era uma das convidadas para o evento que ia decorrer no famoso Chalet das Cotovias, localizado naquela vila. Não voltou a ser visto com vida. O Chalet das Cotovias era frequentado pelas figuras femininas da alta sociedade lisboeta. Mas além de saraus de poesia, exposições de pintura ou concertos musicais que o clube nele instalado promovia com alvoroço mediático, o palacete escondia outras actividades menos próprias perante uma sociedade que aos poucos abandonava o liberalismo de costumes adquirido ao longo da Primeira República: a realização de encontros lésbicos, envolvendo filhas ou mulheres de conhecidos políticos ou de importantes homens de negócios. O que tem a morte de Luís Lencastre que ver com o que se passa na misteriosa casa? O que pensam os agentes da Polícia de Investigação Criminal? E pensarão o mesmo os seus colegas da PVDE? Partindo de um crime real e de uma casa que ficou célebre num período em que Salazar ia consolidando o Estado Novo, o autor de O Homem da Carbonária ou Estranha Forma de Vida volta a surpreender, criando, a partir de acontecimentos verídicos, uma trama narrativa que não deixará de arrebatar os leitores mais exigentes.

LIVROS - NOVIDADES




O INIMIGO INVISÍVEL
Rute Pinheiro Coelho — Editora Matéria Prima
Maio 2013

Sinopse
 
Margarida Vaz Mendonça descobre que o primeiro-ministro foi escolhido e preparado para o cargo da Maçonaria. Confrontada com um relato detalhado sobre os bastidores dos partidos e da vida política portuguesa, a jornalista tem acesso a informações que põem em causa a democracia. O poder escondido da irmandade, a forma como actua nos meios de comunicação social e as ligações que fomenta entre Portugal e Angola, a América Latina e Timor-Leste tornam-se claras aos seus olhos. Numa vertigem de receios e sentimentos contraditórios, a jornalista decide partilhar com o mundo todos os segredos que lhe foram revelados…Mas a tarefa torna-se complicada. A teia do poder da Maçonaria é demasiado grande. E atingir um inimigo invisível passa a ser mais difícil do que nunca. Neste livro, vai entrar no perigoso jogo de influências que domina o país. Um jogo de máscaras e sombras que apenas a coragem poderá destruir.

7 de maio de 2013

LIVROS - NOVIDADES



Mentira & Diamantes
J. Rentes de Carvalho — Quetzal Editores (Clicar)
Abril 2013

Sinopse
 
Jorge Ferreira, conhecido como o conde, recebe na sua quinta uma jovem e muito bela inquilina inglesa, que pretende passar uma temporada no interior algarvio a escrever um livro.
Rondando os cinquenta, o anfitrião é um homem educado, atraente e rico, mas extremamente reservado (partilha a imensa casa senhorial, no meio de uma paisagem de cortar a respiração, com apenas duas governantas velhas, uma cozinheira e um feitor): não se lhe conhecem amigos, amantes ou outro tipo de laços. Talvez porque o seu passado esconde um acto de ignomínia, uma tremenda infâmia, que o vitima até hoje e que pretende erradicar da memória.
Sarah Langton é impulsiva e aventureira, viciada em liberdade e em correr riscos e não consegue coadunar com a reclusão e a disciplina que a escrita exige. Filha de um italiano riquíssimo, também não são os problemas monetários que a atraem para o perigoso mundo do tráfico de diamantes… mas sim a perspetiva de produzir matéria-prima ficcional de primeira, mesmo que a não passe ao papel, e a de que a aura de segredo e mistério mantenha à distância curiosos indesejados.
Tudo parece concorrer para que estas duas pessoas se aproximem lentamente e que comecem a processar o que as atormenta (a Jorge, o episódio do passado; a Sarah a dificuldade extrema em escrever alguma coisa pertinente)… Mas a súbita visita de Biafra  vistoso fato de linho branco, cravo na botoeira, panamá na mão , para praticar uma pequena chantagem, precipita uma cascata de revelações, desenlaces, mortes, desaparecimentos entre a Libéria, Marrocos, Algarve, Londres e Amsterdão.

Mentiras & Diamantes, o mais recente e inédito romance de J. Rentes de Carvalho, é um thriller habilmente construído e uma narrativa implacável, violenta e sexy. E um maravilhosamente obscuro objecto de suspense.


BIBLIOTECA FICÇÃO CIENTÍFICA

BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (103)
Volume 103 — The Heritage of Stars (1977) de Clifford D. Simak
(é o 3º livro do escritor incluído na Biblioteca, para informações sobre o autor e 1º livro clicar AQUI e para o 2º livro clicar AQUI)
The Heritage of Stars: Numa terra de uma Era Incalculável no futuro, Tom Coshing abandona a rotina e segurança para encontrar o legendário Lugar para ir às Estrelas. Percorre uma América do Norte selvagem onde pouco a pouco vão desaparecendo os vestígios da civilização tecnológica. Nos acontecimentos quotidianos de ordem cósmica, seres marginais com formas de vida mortíferas e inexplicáveis, mágicos, pedras viventes árvores pensantes, criaturas de luz e escuridão.

http://coleccaoargonauta.blogspot.pt/
Ficha Técnica
Os Herdeiros das Estrelas
Autor: Clifford D. Simak
Tradução: Eurico da Fonseca
Ano da Edição: 1979
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta Nº262
Páginas: 221

 

6 de maio de 2013

BIBLIOTECA FICÇÃO CIENTÍFICA

BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (102)
Volume 102 — (1977) In The Ocean of Night de Gregory Benford


Gregory Benford, autor de Ficção Científica, nasceu em 1941 em Mobile, Alabama, EUA. Doutorado em Física Teórica pela Universidade da Califórnia, viveu na Europa e Japão. Benford foi professor universitário e assessor científico da Enciclopédia britânica. Activo fã da Ficção Científica chega a editar um fanzine: Void. Manifesta um especial interesse pelos temas da Ciência no mundo contemporâneo: a ideia do Universo como fronteira a conquistar pela humanidade e formas de inteligência radicalmente distintas da nossa. Distingue-se na sua obra “Great Sky River” (1987) o primeiro volume de uma trilogia — na linha da iniciada com” In the Ocean of Night” — com continuação em “Tides of Light” obra fundamentais no conhecimento de Benford.
In The Ocean of Night é uma obra mestra, quer da Ficção Científica, quer da literatura em geral. Reúne todas as características indispensáveis a uma boa obra literária. É a primeira parte de Galatic Center Saga, que continua co “Across The Sea of Suns”; é uma especulação sobre a vida na galáxia, digna de realce e apreço.
 
 
 

 
 
 
Ficha Técnica
No Oceano da Noite
Autor: Gregory Benford
Tradução: Alexandra Tavares
Ano da Edição: 1998
Editora: Livros do Brasil

Colecção: Argonauta Nº492 e 493

5 de maio de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (3 - 2ª PARTE)

 
No 1º fim-de-semana de cada mês, repartido por sábado e domingo, continua a publicação da série dedicada a Sherlock Holmes da autoria de M. Constantino~.

Foi publicado:




 
 

 

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (3 — 2ª Parte)
 
 
PASTICHE/PARÓDIA — A AVENTURA DO SUPER LOBISHOMEM
De Robert L. Fish (1912-1981)


Relembro inúmeros casos em eu acompanhei o meu Mr. Schlock Homes, mas um deles prevalece na memória. Um de tamanha importância nacional que assombra todo e qualquer trabalho realizado por Homes naquele ano, pois além de lhe fornecer a oportunidade de demonstrar outra vez a sua extraordinária habilidade em analisar distorções na sua própria perspectiva, deu-lhe a possibilidade de servir o seu país como poucos homens o fizeram. Nas minhas notas, agora feitas meticulosamente em inglês bem claro, encontrei o caso batizado como A Aventura do Super Lobisomem.
Eu acabara de espalhar pó no espaço perigoso do passeio, na esperança de reduzir assim os frequentes escorregões que ali se registavam, quando descobri que, na minha ausência, Criscroft, irmão de Homes, chegara e lá estava refastelado com o meu amigo num sofá. Encontrei os dois engolfados no jogo favorito de ambos e, como sempre, parei em reverente silêncio, enquanto eles mediam as extraordinárias inteligências em raciocínio analítico.
Assim que coloquei um drinque na mão de cada um e Homes acendeu o cachimbo, Criscroft tratou de nos expor o seu caso
— Como devem saber, permitimos às nossas antigas colónias participarem dos problemas que emanam presentemente de Berlim. O representante das ex-colónias americanas e um certo General Isaac Kennebunk, Esquire; e em confidência lhes digo que provavelmente este cavalheiro será escolhido para General-em-Chefe das nossas forcas aliadas. — Limpou a garganta e dobrou o corpo para a frente. —.E fácil, pois, compreender a nossa perturbação quando vos confessar que desde ontem o General Kennebunk, desapareceu!
— Desapareceu? — exclamei alarmado, dando um salto. — Desapareceu o quê?
— O General em pessoa — replicou Criscroft pesadamente — Desde ontem de manhã, quando deixou o Conselho de Guerra para voltar aos seus aposentos, não foi mais visto por ninguém. Será bastante dizer que o General esta a par de-todos os segredos da nossa estratégia. Se cair nas mãos do inimigo ou dos seus simpatizantes, estaremos em posição muito embaraçosa.
— E queres que o localize — disse Homes, positivo, a esfregar fortemente as mãos num gesto muito conhecido, que indica sempre extremo interesse ou falta de circulação.
— Exactamente. Desnecessário é acrescentar: o mais depressa possível.
— Então, vamos as perguntas. Primeiro, onde estava instalado o General?
— O Ministério da Guerra arranjou-lhe um apartamento numa velha estalagem, a Bedposts, na Bolling Alley.
— E ficou lá sozinho?
— Com excepção do seu ajudante militar, um certo Major Anguish Mc-Anguish, que temporariamente, partilhava os seus aposentos.
— E o Major?
— Também nunca mais foi visto depois do desaparecimento do General, mas como podem imaginar o nosso principal interesse é o Kennebunk.
— Claro. E que medidas tomaram até agora?
Criscroft levantou-se, o rosto acinzentado de tão grande responsabilidade.
— O Ministério da Guerra recorreu logo à Polícia Militar, na pessoa de um ex-agente policial chamado Flaherty, que com certeza conheces. Assim que o Ministério do Exterior foi avisado, insistimos em dispensá-lo da incumbência para falar contigo. O Ministério da Guerra concordou entusiasticamente. Apesar disso, desejam manter contato com Flaherty, embora admitam que possuas o cérebro analítico mais afiado de toda a Inglaterra de hoje.
— Flaherty nada conseguirá — replicou Homes muito sério.
— Concluo, pois, que tenho carta-branca Os aposentos estão guardados?
— Mandei que os selassem e que guardas lhes vigiassem as portas. Demos ordens para que apenas tu e Watney ali penetrassem.
— Óptimo — disse Homes levantando-se e tirando o roupão. — Neste .caso é entrar logo em acção.
A carruagem de Criscroft deixou-nos em Bolling Alley. As nossas credenciais deram-nos pronto acesso ao andar que abrigara o oficial desaparecido e após a afirmação do rígido polícia de que ninguém ali entrara, abrimos a porta e entrámos no aposento. À primeira vista nada indicava a remoção forçada do General. As camas estavam bem esticadas, a mobília perfeitamente disposta e o sol dava um ar alegre à sala.
Homes parou um instante, percorreu a cena com os seus olhos penetrantes, depois, fechando a porta atrás de nós, deu início à busca.
As gavetas da cómoda não forneceram indício algum. Ajoelhou-se para espiar por baixo da cama, mas, excetuando-se alguns pares de botas e sapatos de alpinismo, o espaço estava vazio.
Avançando para o armário, Homes passou revista a uma série de uniformes, todos em ordem no varão. Depois, com resolução repentina, empurrou-os para o lado e espiou mais atrás. Ouvi um grito de triunfo do meu amigo e percebi que descobrira a primeira pista.
Com olhos cintilantes, retirou alguns tacos de formato estranho, diversas bolas brancas de tamanho fora do comum e algumas cavilhas minúsculas de madeira. Manipulando estes objetos com grande delicadeza, colocou o seu achado em cima cama.
— Homes! — exclamei assombrado, estendendo a mão para os estranhos objetos. — Que poderá ser isto?
— Cuidado! — advertiu, pegando-me no braço.— E muito provável que se tratem de armas estranhas. Deixemos tudo aí, por enquanto, e continuemos a nossa busca.
A própria ordem do aposento parecia anular a possibilidade de se conseguir encontrar mais alguma coisa.
Abrindo a gaveta da cómoda, Homes retirou um bloco em branco e ia coloca-lo no lugar quando os seus olhos vivos notaram umas leves marcas na superfície da primeira página. Levando o bloco rapidamente para a janela, colocou-o horizontalmente à altura dos olhos, contra a luz.
— Depressa, Watney — exclamou em grande agitação. — Descobrimos algo! A minha pasta!
Polvilhando de carvão a folha vazia, soprou o pó suavemente até penetrar nas ranhuras deixadas pressão da pena na página anterior e uma mensagem apareceu.
Mammy — dizia(ou Manny, a escrita não era muito clara) Apenas tempo para nove, hoje; subi a cinquenta e seis! Comecei em quatro, mas não quero dizer nada sobre o resto. O que atrapalha é sempre a minha direita e o resultado e aquele fracasso! Falem em lobisomem! Acho que sou vítima do super lobisomem!
Esta desconcertante mensagem estava simplesmente assinada com as iniciais do oficial desaparecido, I. K.. Levantei os olhos e dei com Homes tão absorto nas suas reflexões que me abstive de falar. Finalmente, de testa, franzida disse:
— Precisamos de voltar a Bagel Street imediatamente, Watney!
— Mas Homes — exclamei — quer dizer que a resposta está na decifração desta mensagem críptica?
— Isso não é código, Watney, embora contenha uma mensagem secreta. Venha, temos muito que fazer!
Logo que o carro diminuiu a marcha diante da nossa morada, Homes atirou o dinheiro da corrida para as mãos do cocheiro e saltou antes de os cavalos pararem completamente. Subi a escada atrás dele.
— Primeiro, Watney — disse acendendo a luz e correndo a puxar a cadeira para junto da mesa — se quiser ter a bondade de me alcançar o Debretts, poderemos começar sem mais delongas!
Entreguei-lhe o volume e ele percorreu com o dedo a lista alfabética com rapidez. Anguish Mc-Anguish — murmurou enquanto observava cada linha. Ah, aqui está! Anguish Mc-Anguish, Edgeware Road, 224, Hyde Park 6—24… Não, não, Watney! Este é o Guia Telefónico! O Debretts, por favor!
Recoloquei o volume, correndo de leve, e ele atirou-se ao estudo enquanto eu the observava o rosto
 — E agora o Atlas Mundial, por favor.
Esperei enquanto ele abria o Atlas. Depois, vendo que já se esquecera da minha presença, saí sem ruída e voltei para o meu quarto.
 
Acordei com os primeiros raios, da madrugada a enfeitar a bandeira da janela.
— Venha Watney — disse.
era evidente que o meu amigo passar a noite a trabalhar.
Homes já estava sentado no carro e enquanto eu corria deu as instruções ao cocheiro, puxando-me para o veículo com mão forte.
— Desculpe, Watney — disse rindo, enquanto saímos às sacudidelas para a Euston Station. — Descobri a solução há pouco e ainda tive de telegrafar para Flaherty pedindo para nos encontrarmos no comboio com alguns dos seus homens. Também tive de conseguir as nossas passagens na Ayr Express e arranjar um carro que nos levasse à estação. Por isso o acordei no último minuto.
— E a resposta está na Escócia? — perguntei.
— Sim, está — replicou sorrindo o meu amigo. Depois, inclinando- se para a frente, gritou — Terá dois pence a mais, cocheiro, se não perdermos o comboio!
Entrámos ruidosamente na Euston Station e nomes arrastou-me. Descemos a correr a plataforma deserta, a espiar os compartimentos. Homes instalou-se confortavelmente no primeiro vagão de fumadores que encontrámos.
— Flaherty e os seus homens estão no comboio — disse ele, enfiando a mão no bolso à procura do cachimbo. Com um pouco de sorte teremos o caso deslindado antes da noite.
— Mas não entendo nada, Homes — exclamei perplexo — Vi tudo que o que você viu, e nada faz sentido aos meus olhos! Quer dizer que você descobriu o paradeiro do General e a trama do seu desaparecimento, apoiado nos simples indícios dos quais tenho conhecimento?
— Simples indícios? — replicou — Ora, Watney, jamais tive um caso com tantos indícios. Permita que o demonstre!
Tirou do bolso o papel que continha a mensagem criptográfica e colocou-a na mesinha em baixo da janela. Sentei-me diante dele e começaram as explicações.
— Primeiro, Watney — disse alisando o papel de modo que eu, pudesse ler outra vez as palavras rabiscadas — escute atentamente o que diz o General. Começa por dizer “apenas tempo para nove”, o que, indubitavelmente, significa que tem, tempo apenas para poucas palavras. Segue isso “subi a cinquenta e seis” e as palavras “comecei em quatro”. Que podem indicar? Apenas uma coisa: direções! As mais positivas direções que conhecemos, Watney, latitude e longitude! Cinquenta e seis, e quatro. Evidentemente cinquenta e seis garis de latitude norte e quatro graus de longitude oeste! Temos mais alguma coisa para confirmar estas deduções? Que mais diz ele? “O problema é minha mão direita” E quem é a sua mão direita ? O Major Anguish Mc-Anguish E Debretts nos dá o solar dos Mc-Anguish em Carnoustle, na Escócia, exactamente nesta latitude e longitude!
Homes recostou-se no banco, a fumar furiosamente o seu cachimbo.
— Vamos um pouco mais longe — continuou, enquanto eu observava estupefato esta brilhante exposição. — O General afirma em seguida “O resultado é aquele fracasso”. Não sei se conhece a gíria dos americanos, Watney, mas o fracasso significa que ele está a ser pressionado para fazer alguma coisa que o repugna. E termina “Sou vítima do super lobisomem”. Todos nós sabemos o que é o lobisomem, uma das superstições da nossa infância. E o super lobisomem só pode ser duplamente terrível na imaginação do coitado!
Nesta base, pois, vejamos a mensagem tal como o General a teria escrito se não quisesse esconder dos inimigos o seu significado. Diria o seguinte: “Tempo apenas para um rápido bilhete. Preciso voltar a Carnoustle, porque Mc-Anguish está a fazer chantagem comigo. Ali serei forçado a participar em alguns rituais pagãos terríveis demais para serem comentados!
— Rituais pagãos, Homes?
— Não há dúvida. Lembre-se do lobisomem, Watney! Não sei se você está familiarizado com as religiões pagãs baseadas na feitiçaria com sacrifício humano. A Escócia tem vários nacionalistas que simpatizam com estes inimigos. Espero apenas chegar a tempo de salvar o General Kennebunk destes velhacos.
— Que coisa horrível, Homes! Por esta razão é que trouxe Flaherty e seus homens?
— Exactamente. Pode haver pancadaria e além do mais não temos uma posição oficial, particularmente na Escócia.
Ficou combinado que quando chegassem ao local certo, com o apoio do maquinista o comboio abrandaria o bastante para saltarem fora. E assim foi, estudado o mapa da área, verificou-se pouco depois a charneca isolada e o abrandamento do comboio.
Segundos mais tarde encontrámo-nos nos trilhos enquanto o expresso pouco a pouco recuperava a velocidade. Além de Homes e- eu, Flaherty vinha acompanhado por três homens fortes, todos similarmente guarnecidos, curvados ao peso dos apetrechos que traziam. A um sinal de Homes atravessamos a linha os trilhos e avançámos pela charneca. Avançávamos a passo quando, de repente, algo nos assobiou aos ouvidos e uma pedra branca passou sobre perdendo-se à distância.
— Uma armadilha, Homes! — gritei, atirando-o para uma depressão cheia de areia e protegendo-o com o meu corpo.
Debruçou-se na beira do fosso, estudando a paisagem, com Flaherty a seu lado. De repente o agente da polícia endireitou-se e com os olhos fixos na distância, apontou o dedo agitado.
— É ele, Mr. Homes. Não sei como chegou a deduzir tudo isso, mas como sempre, estava com a razão! E vem rodeado por três outros, todos armados de pesados bastões! Mas, espere! — O polícia virou-se para Homes com perplexidade. Ele também está armado!
— É como eu temia — disse Homes, acompanhando a aproximação dos quatro homens. — Hipnotismo ou drogas, ambos bastante comuns-
— Desculpe,Mr. Homes. — replicou Flaherty, colocando a mão no ombro de Homes —As minhas instruções são muito claras. O senhor descobriu-o graças a um excelente trabalho, mas o meu dever é efectuar o salvamento. O senhor é valioso demais para se arriscar em semelhante operação. Mas não tema. Prometo-lhe que o terá são e salvo das mãos destes culpados!
— Então, não falhe — replicou Homes com severidade. — Venha Watney, temos apenas quarenta minutos para apanhar o próximo comboio para o sul!
 
De regresso a casa, procurava a notícia no jornal, quando Homes chegou e disse:
— Creio que perde o seu tempo, Watney — observou bem-humorado. Já fui informado por Criscroft de que o General voltou a Londres e duvido muito que os censores permitam que os acontecimentos de ontem cheguem ao conhecimento público.
 

4 de maio de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (3 - 1ª PARTE)


No 1º fim-de-semana de cada mês, repartido por sábado e domingo, continua a publicação da série dedicada a Sherlock Holmes da autoria de M. Constantino
foi publicado:

 
 

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (3 — 1ª Parte)
 


 

 
3 – OS HÁBITOS DE SHERLOCK HOLMES

Cita o seu biógrafo, John H.Watson em O Ritual de Musgrave:
Uma anomalia que muitas vezes me chocou no carácter o meu amigo Sherlock Holmes era que, muito embora os seus métodos de pensamento fossem os mais esmerados e lógicos da humanidade, e embora afectasse também certo pedantismo sóbrio no trajar, era apesar disso, nos seus hábitos pessoais, um dos menos asseados homens que já arrastaram um companheiro de quarto ao desespero. Não que eu próprio seja convencional nesse aspecto. O trabalho movimentado no Afeganistão levou ao cúmulo a minha natural disposição para a boémia, e tornou-me mais relaxado do que fica bem a um médico. Mas comigo há um limite, e quando encontro uma pessoa que guarda os charutos no balde de carvão, o tabaco nos chinelos persas, e correspondência por responder espetada com um canivete bem no centro da sua prateleira da lareira, então começo a dar-me ares de virtuoso. Eu também sempre afirmei que o uso da pistola devia ser exclusivamente um passatempo de ar livre; e quando Holmes, num dos seus humores esquisitos, se sentava numa poltrona, com o gatilho e cem cartuchos de Boxer, e começava a adornar a parede oposta com um patriótico V. R (Victoria Regina/Rainha Victória) feito a buracos de balas, eu sentia que nem a atmosfera nem a aparência da nossa sala melhorava com isso. Os nossos alojamentos estavam sempre cheios de ingredientes químicos e de relíquias de crimes, que tinham de permanecer em lugares impróprios e desapareciam na manteigueira, ou até em sítios ainda menos desejáveis. Mas os seus papéis eram a minha grande cruz. Tinha o horror de destruir documentos, especialmente os que se relacionavam com os seus casos passados. E era só uma vez em cada um ou dois anos que mostrava energia para os rotular e arrumar. Pois, como já mencionei algures nessas memórias incoerentes, a explosão de energia apaixonada na execução de façanhas notáveis às quais o seu nome estava associado, era seguida por reacções de letargia, durante as quais se deixava ficar com o seu violino e os seus livros, sem se mexer, a não ser do sofá para a mesa. Assim, mês após mês, os seus papéis acumulavam-se até que cada canto da sala ficava coberto de maços de manuscritos que de modo nenhum podiam ser queimados e não podiam ser deitados fora senão pelo seu dono.
 
Uma das suas ocupações ou hábitos favoritos, ainda que Watson considere que Sherlock tocava suficientemente bem para não ferir os ouvidos de quem estivesse perto, era pegar no violino e arranhar as cordas, ou sentado diante da lareira a meditar sobre um estranho problema que se propunha resolver, durante muito tempo.
Mais grave era o vício da cocaína, por vezes substituída pela morfina, se bem que só se drogasse em momentos de depressão profunda, isso é, quando não tinha nenhum caso entre mãos e se deixava invadir pelo tédio, apresentando-se em extremo, solitário e vulnerável, a lassidão levava-lhe a energia e sobrevinha a indiferença por tudo,— a espécie humana em geral — tornava-se desdenhoso e cínico. Watson via-o “retirar a seringa do estojo, afastar a agulha, carrega-la, levantar a manga da camisa e injectar-se”. Assistia àquele ritual três vezes por dia, durante meses a fio. Mas era demasiado victoriano e médico para se conformar. Jurava a si próprio que havia de abordar o assunto quando conseguisse vencer o terror irracional que sentia perante Holmes. Tê-lo-ia conseguido?
Há um dia que Watson questiona Holmes (este episódio foi censurado pelos próprios ingleses em várias edições de “O Sinal dos Quatro” onde foi inserido):
 
— Então que irá tomar hoje? — perguntou Watson — Morfina ou cocaína?
Holmes levantou os olhos languidamente do velho volume impresso com grossas letras negras.
— Cocaína — respondeu ele — uma solução de sete por cento.
— Mas pense melhor V disse logo Watson — Atente nos danos! Por que razão é que apenas por um prazer passageiro, se arrisca a perder esses grandes poderes com que foi dotado? Lembre-se que falo não apenas como amigo, mas como médico…
Holmes não pareceu ficar ofendido, antes pelo contrário. Juntou as pontas dos dedos e assentou melhor os cotovelos no cadeirão, como alguém que adorasse conversar.
— A minha mente — disse ele — rebela-se ante a estagnação. Dêem-me um problema para trabalhar, dêem-me um criptograma mais obtuso ou que requeira uma análise intrincada e estarei contente nessa actividade. Poderei assim dispensar os estimulantes. Mas detesto a aborrecida rotina da existência. Anseio por desafios mentais. Foi por isso que escolhi esta profissão em particular, ou antes que criei, pois sou o único detective não oficial que existe no mundo.
Watson, abanando a cabeça, levantou-se do seu cadeirão e começou a andar tropegamente até à janela.
— É uma pena — disse — que no presente não tenha nenhum caso em mãos.
Holmes fez um gesto de concordância.
— Sim, — disse ele — Não posso viver sem exercitar o cérebro. Será que existe outro motivo para viver? Qual a vantagem de termos poderes, Watson, quando não existe qualquer campo em que os possamos exercer? Oh, o crime é um lugar-comum e a existência também é um lugar-comum, e nenhumas qualidades, excepto as que fazem parte desse mesmo lugar-comum, têm qualquer função neste mundo.
 
Seja como for, a verdade e por efeito da intervenção de Watson, pelas palestras de Dalai-Lama, após a\sua grande ausência de regresso ao 221B, pôs de lado a seringa.
Uma curiosidade para terminar o tema dos hábitos de Holmes e o famoso 222B.
Artur Varatojo, no seu ABC Policial nº6, com fundamento no canon* tem um interessante estudo, inserindo uma planta de o 221B (significa 1 andar de Baker Street, do mobiliário dos aposentos de Sherlock Holmes e Watson, se não a sua disposição, pelo menos o seu conteúdo.
O apartamento 221B de Baker Street, consistia em dois confortáveis quartos de cama, uma espaçosa sala de estar com duas amplas janelas. Um sofá, uma poltrona, duas cadeiras, lareira, um fogão, bar, cadeira de balanço, mesa de investigação, químicos, uma estante de formidáveis cadernos e livros de referência, diagramas na caixa do violino, prateleiras de cachimbos, certificados científicos nas paredes e retratos de criminosos célebres.
 
* Canon refere-se à obra de Sherlock Holmes escrita por Arthur Conan Doyne e que abrange 56 contos e 4 romances. O Canon de Sherlock Holmes é utilizado para distinguir o trabalho literário de Conan Doyle do produzido por outros autores.
(Policiário de Bolso)
 
 
PASTICHE — A AVENTURA DA ESTRELA DE SAMARCANDA
De Jordi e Antoni Canal
Era um dia de Novembro e manhã fria. Na Baker Street só se ouvia o martelar dos cascos dos cavalos contra o empedrado da rua.
O meu amigo arrancava notas discordantes do violino. Eu, intentava concentrar-me na leitura do Times.
— Deve procurar o caso daquele diamante, actualmente propriedade de Lord Hawquesworth. Sem dúvida i diamante já não está em seu poder. Foi roubado. Leia o senhor mesmo, na página quatro. Parece-me
Efectivamente, na página quatro e a duas colunas podia ler-se:
ROUBO IMPORTANTE
Esta madrugada foi roubado da residência de Lord Hawquesworth, o ex-ministro dos Assuntos Externos, a célebre jóia Quilan I, mais conhecida como Estrela de Samarcanda.
Este diamante, diz-se foi adquirido in articulo mortis a um comerciante de Alexandria e posteriormente polido na célebre casa holandesa Wosmeller and Sons.
O inspector Gregson foi encarregado de investigar o caso que, em declarações à imprensa afirmou que o roubo é obra de um especialista. A sala onde estava guardada a jóia — afirmou — está completamente blindada. Só tem uma entrada, com duas portas de casa forte e um respiradouro no alto, protegido por uma grade; ambas estavam intacta A combinação das fechaduras de entrada só é conhecida por Lord Hawquesworth, tal como as chaves da vitrina onde se encontrava o diamante. O vidro da vitrina foi partido, porém não havia rastro de nenhum objecto contundente na sala. O alarme soou quando o lord fez a costumada visita ao seu património, como todas as manhãs. Avisou de imediato a polícia.
Ao acabar de ler, dobrado o diário, Watson dirigiu-se a Holmes:
— Que pensa disto?
— Watson, sabe bem que não gosto de dar opiniões antes de conhecer todos os factos, o que posso dizer é que me parece um caso seguramente intrigante…
Holmes não havia Ainda acabado a frase quando se ouviram os passos da Srª Hudson, que bateu à porta com os nós dos dedos:
— Acaba de chegar um telegrama — disse dirigindo-se a Holmes.
— Muito obrigado Srª Hudson. Vejamos o que diz… Bem como supunha, Gregson tem problemas. Este telegrama diz o seguinte: “Sr. Holmes agradecia que se dirigisse a Edimburgo. É o assunto do diamante. Estarei na pousada A Raposa com Cachimbo. Gregson”
Adiantando os acontecimentos, consultei o guia Bradshaw e disse:
 Holmes, temos vinte minutos para chegar até Charing Cross e apanhar o comboio das doze.
Quando chegámos à estação ainda faltavam cinco minutos para a saída do comboio e o meu amigo Holmes aproveitou para comprar uma lata daquele aromático tabaco da Esmirna a que ultimamente se havia acostumado.
Durante a viagem, que transcorreu com toda a tranquilidade, o meru amigo esteve, como era hábito, recostado, com os olhos fechados. Não me dirigiu uma só palavra até chegarmos a Edimburgo, onde pareceu adquirir novo ânimo. Apanhámos de pronto um coche que nos levou directamente à pousada, em cuja porta já nos esperava Gregson.
— Encantado por vê-lo, Holmes. Que tal vai Watson? Apresento-lhe o Inspector Mackenzie da polícia local.
— Muito gosto, Inspector. Já terá ouvido falar do Dr. Watson?
— Naturalmente. Sempre que há notícias suas, o nome de Watson acompanha-as. Porém, devem estar cansados. Vamos procurar quartos para ficarem e depois podemos comer alguma coisa. Esta pousada é famosa pela sua cerveja.
Imediatamente depois de comer, dirigimo-nos para casa de Lord Hawquesworth. Ao chegar bateram várias vezes à porta com a pata de leão em bronze que a ornamentava, até que apareceu o mordomo. Era alto, esguio e vestia uma libré grenat.
— O senhor espera por vós. Fazem favor de me acompanhar. O salão de Recepção era alto e espaçoso. Estava em semi-escuridão produzida pelo vidro da claraboia por cima da maciça porta de carvalho.
De imprevisto, Holmes, que nos fez afastar da luz, apareceu com a lupa na mão, dobrado sobre a alcatifa. Estava nesta posição quando apareceu Lord Hawquesworth.
— Bem-vindos a esta casa, Holmes, Dr. Watson.
Era um homem de estatura normal. Para a sua robustez a voz soou estranhamente aflautada. Vestia uma jaqueta de lã de cachemira cinzenta e uma camisa de seda branca, calças azul-marinho, mais largas do que o normal.
— Obrigada — respondeu Holmes Posso dizer-lhe com toda a segurança que este caso passará para os arquivos de Watson com o rótulo de “resolvido”.
Lord Hawquesworth esboçou um ligeiro sorriso ante estas palavras e
 Dando meia volta disse:
— Sigam-me por favor. Vou mostrar-vos a cena do roubo.
Depois de atravessarmos vários corredores chegámos a uma pequena sala fortemente iluminada por focos eléctricos que incidiam os\seus raios até uma vitrina no centro da sala. Todas as paredes estavam tapadas por tapeçarias, algumas tão antigas, que apenas se divisavam as figuras que representavam. A parede do fundo estava nua. Nela distinguia-se um buraco de ventilação protegido por uma espessa rede metálica.
— Não mexemos em nada — disse o lord — e ninguém entrou aqui.
Holmes aproximou-se rapidamente do buraco de ventilação, observando detidamente durante vários minutos, sem pronunciar mais do que alguns “Caramba!” de vez em quando. Finalmente acercou-se de nós e disse:
— Este buraco de ventilação comunica com o jardim, não é verdade?
— Sim — afirmou o lord — É necessário que as tapeçarias estejam ventiladas para não se deteriorarem com a humidade.
— Bem, — concluiu Holmes — Agora já tomei contacto com o caso, necessito retirar-me para reflectir. Amanhã continuarei com a investigação.
Dito isto, saiu rapidamente. Subi com ele para o coche que nos esperava e voltamos para A Raposa com Cachimbo. Face à recomendação de McKenzie pedimos um par de cervejas. Efectivamente tinham um excelente sabor. Depois acendemos os cachimbos e demos um passeio antes de cear.
— Obviamente, Holmes — disse eu. A única possibilidade está no buraco de ventilação. No entanto a tela metálica parecia intacta.
— Watson, já sabe quando se elimina o possível, o que resta, por mais improvável que pareça, tem de corresponder à verdade.
Não falámos mais no caso até à manhã seguinte.
— Watson, creio que tenho o caso resolvido. Sei já como se operou o roubo e unicamente nos resta averiguar a identidade do ladrão. Isto nos dará também o motivo.
Quando chegámos à casa de Hawquesworth aguardavam-nos Gregson e McKenzie.
— Bom dia, senhores — saudou jovial, Holmes. Vamos ver a rede de ventilação.
— Como queira Holmes — respondeu Gregson. Mas já a observei detalhadamente.
— Quatro olhos vêem mais do que dois, Gregson.
— De acordo.
Demos a volta à casa pelo jardim até chegar à rede do buraco da ventilação. Estava pouco acima da relva e Holmes não permitiu que nos acercássemos.
— Gregson, alguém além do senhor pisou este local?
— Que eu saiba não.
Holmes rastejou pelo espaço até chegar ao buraco de ventilação que observou durante alguns minutos, depois tacteou com os dedos compridos, como um cirurgião. Durante todo este tempo só o ouvimos dizer, mais do que uma vez, “É o que supunha”.
De repente, cheio de energia exclamou:
— Senhores, vamos falar com Lord Hawquesworth. Tenho de lhe fazer um par de preguntas. O caso já está resolvido.
Sem sairmos da nossa surpresa, seguimos Holmes. Gregson e McKenzie não evitaram um sorriso cúmplice de dúvida, que me irritava bastante.
Apercebendo-se do mordomo junto da porta principal, o meu amigo chamou-o, mostrando-se extraordinariamente loquaz com ele. Em várias aventuras anteriores já se havia feito notar por este estranho procedimento com algumas pessoas. Era capaz de se mostrar reservado e esquivo, com o mesmo semblante da Rainha Victoria em outras ocasiões, e noutras, ser o mais conversador com os criados dos que requeriam os seus serviços. Este era o caso.
Chegámos diante de Lord Hawquesworth e sentámo-nos a uma larga mesa.
— Sente-se o senhor também, Parker — disse Holmes para o mordomo.
Todos, até mesmo Parker, não pareciam sair do seu assombro.
— Bem, Parker — continuou Holmes — Eu conto a história, o senhor pode acrescentar os detalhes.
O primeiro a falar foi Lord Hawquesworth:
— Não sei a que vem isto Holmes, porém, Parker está ao meu serviço há mais de trinta anos. E antes os seus antepassados, estiveram sempre em serviço da minha família.
Ao mesmo tempo que se desenvolvia esta conversação, tanto McKenzie como Gregson tomavam posição atrás de Parker.
Holmes estava expedito:
— Não se inquietem, senhores, não vai suceder nada. Explicar-lhes-ei o sucedido e podem julgar depois. Comecemos pela vitrina que continha a jóia. Esqueçamos a porta, porquanto não estava forçada e Lord Hawquesworth em nenhum momento deu por falta das chaves. Assim se explica por que a nossa investigação se direcionasse para a vitrina. A forma como foi quebrado o vidro, indica que o golpe foi produzido no centro e de um golpe seco.
— Contudo, Holmes — interrompeu Gregson V se ninguém entrou na sala, como poderia partir o vidro?
— A isso devo esclarecer que nenhum ser humano, em qualquer momento, entrou na sala. Por favor, deixem-me continuar. Se a porta não estava forçada, só resta o recurso do buraco do ventilador. Eu não quis mexer-lhe. Deixo isso para vós, comprovar que está firme. No entanto a rede metálica foi cuidadosamente separada e voltou a ser ajustada. Foi separada para passar uma comprida cana de bambu com a qual se partiu no vidro da vitrina. Depois alargou-se o bastante para permitir a passagem de um pássaro, concretamente uma pega. Os senhores sabem que estas aves têm a particularidade de se enamorarem pelos objectos brilhantes. Na sala, evidentemente, era a Estrela da Samarcanda o objecto mais brilhante.
— Senhor, peço que me perdoe — exclamou Parker — dirigindo-se ao seu amo.
Holmes continuou imperturbável:
— Parker, acutilado por dívidas de jogo (a finura dos seus dedos denotava habilidade para os dados e cartas) não encontrou outra solução senão furtar alguma coisa de valor ao seu patrão para calar os credores.
Como homem do campo que é, não foi difícil domesticar uma pega, das que aqui tanto abundam, para cometer o furto perfeito. De qualquer forma não chegou para a reaver. Diga Parker, onde está a pedra?
Efectivamente Parker havia apostado forte no jogo
E perdera. Não subtraiu a Estrela de Samarcanda para vendê-la. Sabia que isso não era possível. Queria usá-la como penhor para obter crédito. Mas as coisas nunca sucedem como as pessoas pensam, sobretudo com a cumplicidade de seres nã racionais. A pega não entregara o furto.
Com a colaboração de Parker tivemos de usar uma escada para chegar ao ninho escondido no telhado. Ali, entre negras penas estava o diamante.
Seguindo a solicitação de Holmes e como o lord estava contente pela devolução da jóia, não apresentou nenhuma denúncia contra Parker, que continuou no exercício das suas funções até ao resto dos seus dias.
Holmes recebeu um cheque no valor de mil libras que nunca chegou a levantar e guarda com outros objectos.
Da aventura da Estrela de Samarcanda nunca mais se voltou a falar.
(em tradução de M. Constantino e com a devida vénia aos autores; extraído do fanzine castelhano “Las Notas del Violin” nº 6 — Julho de 1992)