6 de junho de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (4 - 2ª PARTE)
PASTICHE / PARÓDIA — A SINGULAR HISTÓRIA DE M.me BOVARY-WATSON
De Joel Lima
O autor é, sem qualquer hesitação, o mais profundo conhecedor holmesiano português. Teve meios, inteligência, cultura e entusiasmo para estudar e escrever o que de melhor existe no país sobre as excentricidades dos homens de Baker Street 221B.
Mais uma vez, com a devida vénia e gratidão publicamos um pastiche, extraído do seu ensaio (2 volumes) “As Vidas Paralelas De Sherlock Holmes” e no fanzine castelhano “Las Notas del Violin”, nº4, de 1992.
 
M. Constantino
Tanto se tem dito e escrito sobre as Sagradas Escrituras, em geral, e a primeira Mrs. Watson em particular, que brada aos céus o desconhecimento da sua enorme influência no desenrolar da Saga. E, no entanto, para quem quiser ver, os textos de John H. Watson, M. D., falam como gente.
Mary Morstan era uma rapariga loura, magra, que vestia com elegância. Tinha grandes olhos azuis e a sua sensibilidade e inteligência souberam despertar em Watson uma paixão fulminante.
A certa altura o médico acompanha Mary a casa. Partem em Julho e chegam numa tarde enevoada de Setembro. E, no entanto, tão rápida é a passagem dos tempos felizes que, para Watson, tudo decorre num só dia. Que se passou entretanto? O inevitável, quando dois jovens se apaixonam loucamente: Sem ligarem a preconceitos, John e Mary decidiram não esperar por uma legalização demorada. E foi naquele dia de 1888, em que o calendário quase saltou do solstício para o equinócio, que consumaram a sua união.
Quando recolheram a uma alcova de fortuna. Watson, impenitente marialva, quis provar àquela angelical criatura toda a experiência mulherenga, recolhida em muitas nações e três continentes que fazia dele um amante de eleição, inventivo e de alta perícia. Para Mary, ingénua virtuosa, até aí consciente desse papel, aquela primeira noite — marcante como é dos livros — foi o abrir das portas de um Paraíso insuspeitado. De menina um tanto sensaborona passou, sem transição, a mulher provocante e sensual. No dia seguinte quis o mesmo ou mais e, depois, tornou-se insaciável.
Watson habituou-a mal. Jovem, fogoso, teve engenho e força para lhe alimentar, durante aqueles três meses, os anseios constantes, iniciando-a em fantasias cada vez mais requintadas.
Mas mesmo as maiores vertigens têm de ceder, mais tarde ou mais cedo, às realidades comezinhas. As economias de Watson esgotaram-se e os dois amantes viram-se forçados, como Adão e Eva, a abandonar o Paraíso para que, pelo menos um deles, ganhasse a vida com o suor do seu rosto.
John era cavalheiro, e não deixou a menina no embaraço. Após um curto noivado para satisfazer conveniências, os dois pombinhos deram o nó. Foi, como tantas vezes acontece, o princípio do fim. Mary caía da exaltação do pecado na rotina cinzenta do matrimónio.
Watson, aliás, presumira das próprias forças e sobrevalorizara a sua capacidade de amante. No dia do casamento, não passava já de um guerreiro alquebrado que, tendo dado o seu melhor no campo de batalha, apenas aspirava ao repouso.
Além disso, andava assoberbado: não só tinha de dedicar grande parte do seu tempo à clínica porque era preciso fazer face às despesas acrescidas do seu novo estado — como começou a ser bombardeado, de novo, por apelos de Sherlock Holmes que, a abarrotar de solicitações nessa época, se sentia pouco à vontade sem o seu Boswell. Começaram as deserções conjugais do bom doutor, aliás bem recebidas porque o afastavam do vendaval erótico que o esperava, quotidianamente, sem sinais de acalmia, mal abria a porta de casa.
Mary Watson, a princípio, suportou as escapadelas do marido, as suas frequentes dores de cabeça, as desculpas fornecidas pela bala afegã que umas vezes lhe imobilizava o ombro e, de outras, a perna. Mas o vulcão que Watson imprudentemente havia despertado, estava longe de se extinguir; bem pelo contrário, a lava do desejo acumulava-se e era inevitável uma explosão krakatónica.
Na “Liga dos Ruivos”, Holmes, como era seu costume, declama, à laia de epílogo, uma tirada erudita, desta vez extraída de uma carta de Gustave Flaubert a George Sand. Watson, que não era taquígrafo, tomou nota errada da citação e atribuiu à pena de Flaubert a frase L'homme c'est rien — l'oeuvre, c'est tout quando o bom Gustave havia escrito L'homme n'est rien  — l’ oeuvre, tout. Os leitores debitaram o lapso ao detective e Holmes, ainda picado pelos injustos remoques do doutor a propósito da sua cultura geral, resolveu prevenir recidivas, oferecendo ao amigo as obras completas do grande escritor francês. Mary ficou encantada; entrava-lhe porta dentro o remédio para as longas e entediadas horas que passava, sozinha, a ansiar pelo regresso do seu senhor e amo. Devorou, de um fôlego, “Madame Bovary” e, num arrebatamento de irrecuperável romântica, sentiu-se retratada de corpo inteiro na heroína.
O seu destino ficou traçado e o de Watson também O primeiro amante de Mary terá sido o Dr. Anstruther, a quem o fiel biógrafo confiava os doentes e os destinos da clínica, sempre que ocorria aos chamamentos de Holmes.
Quando surge nova hipótese de deslocação, Mary é já a primeira a aconselhar o marido a partir com o pretexto de que andava com mau parecer (pudera!) e de que a mudança de ares lhe faria bem. “Anstruther pode substituir-te como já tem feito em outras ocasiões” , diz ela cinicamente, ciente de que a substituição não se confinava ao gabinete de consultas.
Mas, lançada como estava, Mary não podia ficar-se por um só amante. Em vez de (ou, mais provavelmente. em acumulação com) Anstruther, despontaram outros paladinos com que Mary procurou reeditar a exaltação da primeira noite.
Com o correr dos tempos, a prática tornou-se rotineira e Mary foi relaxando as cautelas tidas, de início, para ocultar as suas leviandades. Aliás, já não lhe bastavam os tempos livres deixados pelos afazeres profissionais e pelas andanças, detectivescas do marido. E, nas “Cinco Pevides do Laranja”, para conseguir uns dias de idílio paralelo, pretexta uma suspeitosa visita à mãe (versão do Strand, de Novembro de 1891) ou ã tia (emenda introduzida nas “Aventuras”, quando publicadas em livro), esquecendo-se de que, antes de casar, havia assegurado a Holmes e ao futuro marido que a mãe morrera e não tinha parentes em Inglaterra.
Antes de se iniciar a “Aventura do homem do lábio torcido” Mary comete a gaffe tradicional da mulher apaixonada que não consegue afastar do espírito o nome do amante de serviço — e chama “James” ao marido.
Watson, revelando-se digno exemplar do clássico esposo enganado, não se apercebeu das implicações do lapso e levou o caso para a brincadeira. Horas depois, a caminho de Lee, no Kent, contou o pitoresco incidente a Holmes, entre duas gargalhadas.
O detective não riu; a mudança que havia observado em Mary, aliada àquela esquisita troca de nomes, puseram-lhe a pedra no sapato. E logo decidiu investigar por sua conta, com a discrição necessária para não alarmar o amigo. O acaso veio em seu auxílio. Por essa altura, o assunto proposto pelo major Prendergast levou-o ao Clube Tankerville, aí pôde provar que o major fora vítima de uma cabala urdida pelo coronel Sebastian Moran, membro do mesmo clube.
Rancoroso, o coronel, vendo-se descoberto, trocou palavras azedas com Holmes. Grande detective? Qual carapuça! Dizia-se amigo íntimo do Dr. Watson e nem sequer descobrira que Mrs. Watson enganava o marido. E, no entanto, a fulana, naquele mesmo momento, estava a curtir pecaminosas delícias nos braços de James Moriarty, seu colega da tropa e mano do patrão.
Foi a primeira vez que Holmes ouviu faiar daquele que iria tornar-se o seu grande e obsessivo inimigo. O personagem era de tal envergadura que, a breve -trecho, Holmes se esqueceu do James-coronel para se dedicar de alma e coração ao James-professor.
Um recado de Mary trouxe-lhe de novo ao espírito o, drama de Watson. Moriarty, desesperado pelas intromissões importunas de Holmes, concebera um diabólico plano. Pelo irmão coronel comunicou a Mary que, se não fizesse parar o detective, a sua leviandade séria exposta ao marido e, o que era ainda pior, às suas amigas de círculo. Mary teve, assim, de buscar ajuda junto de Holmes. “Não posso ir a Baker Street”, escreveu na mensagem angustiada que enviou ao detective, “porque a minha presença despertaria as suspeitas de Mrs. Hudson e chegaria aos ouvidos do meu marido. Por favor, Mr. Holmes, venha ver-me sem que o John saiba”.
E foi assim que Watson se viu despachado para Dartmoor, no início do caso dos Baskervilles. Holmes, segundo pretextou, não podia sair de Londres porque andava ocupado com um caso de chantagem de que era vítima uma pessoa que muito reverenciava — admirável meia-verdade bem digna do Grande Homem.
A entrevista com Mary começou em tom de harmonia. Holmes deu bons conselhos à rapariga e prometeu-lhe uma solução feliz, se ela acabasse com os desvarios extraconjugais. Mary sentiu-se reconfortada e relaxou — o que era perigoso para qualquer macho que estivesse por perto. As horas foram passando e o detective ficou para o chá — e depois, para o jantar. Com a ajuda da garrafeira de Watson, Holmes começou a pensar no seu longo jejum de frivolidades e a sentir certa urgência em pôr-lhe termo. Mary pediu licença para ir vestir, qualquer coisa de mais confortável — e que, na circunstância, era um negligée transparente importado de Paris.
Aconteceu o que era de esperar. Quando Holmes vai finalmente a Dartmoor, não tem coragem para encarar Watson à luz do dia. Aparece-lhe, furtivamente, envolto nas sombras da noite e assim se mantém, durante uns dias, a ganhar atento para fitar o amigo nos olhos.
Moriarty, entretanto, não abrandara a pressão sobre Mary e despachou o irmão para Kensington em missão de reconhecimento; a adúltera mantinha um fraquinho pelo coronel e, entre duas volúpias, contou-lhe o que sucedera com Holmes. O Professor rejubilou; o detective, num momento de desvario, dera-lhe a arma com que poderia neutralizá-lo. E, chamando-o ao seu antro, Moriarty disse-lhe o que sabia e ensaiou nova chantagem: ou o detective entrava para a quadrilha ou Watson conheceria a traição do amigo.
Herói de novela até ao fim, Holmes recuou, “aconteça o que acontecer”. Mas o golpe havia atingido o alvo e Sherlock vagueou, sem destino, durante uns tempos. Quando, cosido às paredes, volta a Baker Street, como um cão acossado, estamos já em pleno “Problema Final”.
Moriarty foi ainda ao 221-B, numa última tentativa para convencer o detective.
“— Sabe com certeza ao que venho, Holmes.”
“— Sabe, com certeza, qual é a minha resposta, Professor”.
Se mantém galhardamente a sua posição de cavaleiro andante dos tempos modernos, Holmes nem por isso deixa de recear o que pode acontecer, na segunda-feira seguinte, quando a Polícia deitar a mão ao bando de Moriarty. Se Watson estivesse por perto, o Napoleão do Crime, desesperado e sem nada a perder, era capaz de dar com a língua nos dentes, expondo o opróbrio de Holmes ao marido ultrajado, na presença de meia Scotland Yard.
Mais valia não correr riscos; urgia afastar Watson de Londres. E Holmes, contra o que seria natural, renuncia a assistir ao maior triunfo da sua carreira e arrasta o amigo numa fuga insensata em direcção ao Canal.
Pecou, no entanto, por soberba e esqueceu lamentavelmente a força do adversário. Falhado o plano A, Moriarty tinha, de reserva, um outro que pôs em prática desde que Holmes recusou, em definitivo, a sua oferta de emprego. Nessa mesma noite, Watson com provas na mão, foi posto ao corrente do seu infortúnio e da traição de Holmes. Foi como se, sob os pés, se lhe abrisse um abismo premonitório. E, sem mais delongas, na sanha de se vingar do falso amigo, fez um pacto demoníaco com Moriarty. Seria a sombra de Sherlock, não o perderia de vista nem um minuto e manteria o Professor ao corrente das andanças do detective para que, no momento certo, justiça fosse feita.
Holmes, receoso, troca as voltas a Moriarty e o Napoleão do Crime, sozinho e enganado, jamais descobriria o rasto do detective se Watson lhe não enviasse, metodicamente, relato fiel dos ziguezagues que os fugitivos ensaiaram sobre o mapa do Continente. A última mensagem de Watson foi expedida de Meiringen: “Amanhã, às tantas horas, vamos visitar a Catarata. Alea jacta est”.
Fora combinado que Watson estaria presente na cena final. O Professor, desabituado de lidar com armas de fogo (era Moran que fazia o trabalho “sujo”), precisava do doutor e do seu revólver de ordenança para garantir o êxito do massacre.
Só que Watson, farto de ser enganado, adquirira uma esperteza até aí insuspeitada. Se viesse sozinho anunciar a morte de Holmes, alguém que soubesse da traição do amigo, seria tentado a apontá-lo como suspeito de homicídio passional. Por isso, arranjou a artimanha da mensagem fictícia que o chamaria ao albergue a tempo de conseguir um álibi à prova de fogo: quando Holmes morresse, estaria ele a falar com o estalajadeiro. E Moriarty que se aguentasse sozinho.
Posto perante uma situação que não esperava. Moriarty enfureceu-se. E antes de travar com Holmes um corpo-a-corpo de recurso, lançou-lhe com toda a peçonha da aranha que avança para a presa: “Escusas de contar com o teu amigo. Ele é mais esperto do que tu ou do que eu. Sabe que dormiste com a mulher e combinou comigo a melhor forma de te liquidar. Mas, à última hora, pôs-se a milhas para evitar complicações”.
O duelo teve o fim consabido exit Moriarty. Holmes, sozinho, ficou a contas com a sua consciência. Não sentia coragem de enfrentar um homem que havia atraiçoado e que, sabendo-o, o atraiçoara por seu turno. A chaga estava viva e um reencontro imediato teria resultados imprevisíveis; seria melhor para ambos que Watson o julgasse defunto. Rabiscou, à pressa, uma nota de adeus, entalou-a debaixo da cigarreira e partiu, sem rumo, para um destino incerto.
Livre do infame sedutor, faltava a Watson punir a esposa infiel. Ao regressar a Londres, esperava-o uma surpresa. O coronel Moriarty, se saiu à estacada em defesa do irmão defunto, não se descoseu quanto às aventuras adulterinas de Sherlock Holmes. Era natural; estava noivo de uma filha-famílias podre de rica e receava que o seu envolvimento no caso não fosse do agrado dos futuros sogros. E, num estranho acordo de cavalheiros mesclado de conspiração do silêncio, de parte a parte ninguém abriu o bico.
Começou, então, a segunda parte da vingança de Watson, que fez apelo ao que lhe restava dos ensinamentos recebidos na Faculdade. Mary começou por sentir-se indisposta, depois teve vómitos, mais tarde acamou. Pouco restava da ninfomaníaca loura dos tempos áureos. O final chegou, sem alardes, em certa madrugada fria — e Watson passou a certidão de óbito.
A notícia da morte de Mrs. Watson chegou a Holmes, quando estava em Montpellier, a gastar a última mesada expedida por Mycroft. Aquilo não era vida de futuro e, além disso, estava farto de comer coxas de rã e escargots de Bourgogne.
Morta Mary, talvez a fúria de Watson se tivesse acalmado, Holmes regressou a Londres, prudentemente disfarçado. Seguiu Watson durante uns dias e verificou que o amigo voltara à sua vida de boémio impenitente. Não há nada para fazer esquecer a traição da mulher própria, como fazer amor com as mulheres dos outros. Watson estava, portanto, curado.
Uma investigação sumária permitiu a Holmes descobrir a verdade sobre a morte de Mary Watson. As últimas preocupações dissiparam-se; Johnson podia reencontrar Boswell.
Quando, em Park Lane, Watson tropeçou com um velho encurvado, não foi  “A origem do culto da árvore” que apanhou do chão. Todos os livros tinham o mesmo título que lhe gelou o sangue nas veias: “Othello”.
O alfarrabista voltou a aparecer nessa noite; apresentou-se em casa do médico e propôs-lhe a compra de cinco volumes anódinos. No entanto, quando Watson olhou para os livros, viu, nos cinco, uma vez mais, o título acusador: “Othello”! Branco como a cal da parede, voltou-se para pedir explicações e, no lugar do deformado ancião, deparou com Holmes que o fitava com um sorriso sardónico. “Levantei-me”, confessa o doutor “olhei-o, embasbacado, durante alguns segundos e, depois, devo ter desmaiado pela primeira e única vez na vida”.
Era inevitável; Watson fora fulminado, simultaneamente, por duas catastróficas surpresas: a aparição do homem que ajudara a matar e a certeza de que esse homem conhecia o seu terrível segredo.
O crime de Watson, no entanto, restabelecera o equilíbrio de forças entre os dois ex-rivais. Othello e o sedutor de Desdémona já nada tinham que recear, um do outro; as suas culpas anulavam-se reciprocamente. E, embora sem a candura dos velhos tempos, a convivência restabeleceu-se, cimentada, agora, pelo conhecimento mútuo de que ambos tinham iguais pesos nas consciências.
Podia acontecer o resto da Saga, com vantagens para os dois parceiros: Holmes assegurava os serviços de um operador publicitário e restabelecia a mesma situação de outrora, indispensável para reconquistar a confiança dos clientes; Watson garantia a sobrevivência, como narrador das aventuras que faltavam, sem ter de reler os de há muito esquecidos tratados de Medicina que se cobriam de pó na estante.
O biógrafo, no entanto, era gato escaldado. E, quando lhe apareceu a hipótese de segundas núpcias, disse adeus a Holmes e, pelo sim, pelo não, foi instalar-se em casa própria para as bandas de Queen Anne Street ocultando a mulher de tal forma que Holmes nem chegou a saber quem era — o que levou o detective a registar, com amargura, que Watson havia traído o pacto tácito firmado em 1894.
Desgostoso, Holmes nem por isso deixara de ser um cavalheiro. A infidelidade — única na sua vida — ainda lhe remoía e quis dar ao amigo a prova suprema de que os seus receios eram totalmente infundados.
E, num belo dia, pegou no Stradivarius, no “gasogéneo” e na chinela persa e foi para longe, criar abelhas.
Os anos passaram. Watson, com a fortuna da última esposa, assegurou uma reforma antecipada e confortável (entrecortada pelo episódico relato de uma que outra aventura remota, para “manter o jeito”) e Holmes foi vivendo a sua existência de apicultor eremita.
O último episódio ligado à memória da infeliz Mary Morstan ocorreu quando a Saga estava já em estertor.
O Coronel James Moriarty iniciara uma carreira política que prometia. Ajudado pelo sogro, sólido baluarte da nobreza saxónica, entrou para o partido do Governo, conseguiu um bom lugar no Estado-Maior e começou a sonhar com mais altos voos. Só que as coisas não aconteciam com a rapidez que ele queria e o velho era forreta. Preparava-se o vendaval de 1914 e o coronel, ambicioso e a precisar de suporte urgente para a sua propaganda pessoal, meteu-se em negócios escuros. A espionagem do Kaiser estava muito activa e ansiosa por saber coisas acerca da defesa aeronaval da Ilha. Um dos agentes, americano de nascimento que usava o pseudónimo “Jack James”, foi encarregado de contactar uma personalidade vulnerável com acesso fácil aos segredos militares; o código que utilizava, na altura, para transmitir mensagens aos seus chefes, muito adequadamente empregava nomes de pássaros para designar aviões de guerra e termos ligados à vida do mar, quando bolia com a defesa da costa. “Farol” correspondia a “sinalizações navais” e “corvo marinho” a certo tipo de “aeroplano”, ainda em fase experimental; quando o projecto fosse aprovado para fabrico, o “corvo marinho” passaria a considerar-se “amestrado”.
Na “Sua Última Vénia”, Holmes teve ocasião de neutralizar “Jack James” e o seu chefe Von Bork e apreendeu os dossiers deste último, entre eles os que continham o fruto do labor do subordinado acerca de “aeroplanos” e “sinalizações navais”.
Faltava descobrir qual o político que havia prestado as inconfidências aos agentes do Kaiser.
Holmes meteu mãos à obra, mas o assunto era delicado; o pseudónimo de “Jack” deu-lhe uma pista — o apelido “James” designava o nome da principal fonte de informações do espião. Não foi difícil a Holmes localizar a nascente daquele Nilo de traições e chegou, assim, a James Moriarty; o homem, na altura, estava alcandorado a posição de grande destaque na vida pública britânica e rodeado de muitos bastiões influentes que tratara de reforçar quando soubera da prisão dos cúmplices. A política tem razões que o patriotismo no compreende e Holmes viu-se forçado a meter na gaveta as provas tão laboriosamente obtidas contra o mano do seu defunto inimigo.
O coronel é que não estava descansado; um tal libelo nas mãos de um homem como Holmes era uma ameaçadora espada de Dâmocles, capaz de, a qualquer momento, lhe desfazer os sonhos mais queridos.
Nos finais de 1926, contratou homens de mão para roubar o dossier, mas o golpe falhou. Em desespero de causa, James Moriarty lembrou-se da sua amante de outrora e, com certa timidez, fez saber que a infidelidade de Mary Watson podia vir à luz do dia coisa que não perturbou sobremaneira nem o marido ultrajado, que já se vingara e esquecera essas águas passadas, nem o fortuito apaixonado de uma noite que estava todo entregue às suas abelhas e ao seu reumatismo.
Com o consentimento do detective, Watson decidiu informar sibilinamente o coronel de que as pressões não teriam qualquer impacto e que, a continuarem, as pretendidas vítimas se converteriam em algozes e revelariam à opinião pública quem era o “político” comprometido com o “farol” e o “corvo marinho amestrado”.
A publicação do aviso na “Hóspede Velada” foi remédio santo. James Moriarty, aterrado, compreendeu que os adversários dispunham duma arma contra a qual de nada valiam compadrios e encobrimentos. E antes que lhe caíssem em cima os milhões de ingleses que devoravam as “Aventuras”, cancelou os planos maquiavélicos e refugiou-se, também ele, numa reforma sem história.
Na campa esquecida de Mary Morstan Watson, podia inscrever-se finalmente: Requiescat in pace.

5 de junho de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (4 - 1ª PARTE)
4 — DESTAQUE PARA O DR. WATSON (Conclusão)

Esta “fixação” por James generalizou-se por muitos escritores, apontando-se a Mary, não só um amante James, mas vários. A título de exemplo, Loren D. Estleman, escritor americano, nascido em Michigan a 15 de Setembro de 1952, publica um pastiche “Dr. and Mrs. Watson at Home”, uma peça teatral de um só acto, que põe em cena John e Mary Morstan Watson.
Transcrevemos parte de um texto elucidativo:
A cena representa a sala de estar do casal. Mary, aborrecida, faz um bordado. Watson entra e beija Mary na testa:
Watson — Olá, bonequita!
Mary (sem entusiamo) — Olá James.
Watson — John. Chamo-me John…
Mary — Ah, sim, esquece-me sempre.
Watson — Por que continuas a chamar-me James, depois de tantos anos de casamento?
Mary — Como não confundir-me. Toda a gente com quem te relacionas se chama James. James Phillimore, James Mortimer, James Lancaster. Os três irmãos Moriarty…
Watson contrariado sai de cena. Mary toma atitude de quem escuta, suspira e pega no telefone.
Mary — O Professor Moriarty, por favor (espera). Está, Jimmy? Mary. Saiu, não volta até tarde. Estás livre esta noite? Esplendido! Como? Uma monografia? Sim, de qualquer modo gostava de a ver. Sim, encanta-me discutir “A dinâmica do teu Asteróide”. Contarei os minutos. Adeus, amor!
(Desliga sorridente)
 
A partir da visita de Holmes, Junho de 1889, no decorrer de “O Homem do Lábio Torcido”, Watson, por saudade ou gosto de aventura, ou porque a sua conta bancária se encontra muito depenada, embora o consultório sob a sua exploração tenha ganho clientes (esta é a opinião de Baring-Gould) acede acompanhar o detective, não alterando o seu padrão de vida de casado e dando assistência à clínica — sempre que era solicitado, chegando a ficar em Baker Street 221B durante os quinze dias de férias da Sr.ª Mary Watson.
 
 

Ilustração de Sidney Paget

 
Em 4 de Maio de 1891, dia em que Sherlock Holmes desapareceu nas águas profundas das cataratas de Reichenbach, próximo do lugarejo de Rosenlaui, na Suiça, Watson lamenta em “O Problema Final”, a tragédia do amigo e companheiro, “É com o coração angustiado que pego na pena para escrever estas últimas e escassas palavras com que registarei os dotes excepcionais que sempre distinguiram o meu amigo Sherlock Holmes”. Lembra que se esforçou por narrar as estranhas experiências adquiridas na companhia daquele, desde “Um Estudo em Vermelho” e recorda ao leitor que depois do seu casamento as relações assíduas que mantiveram, rarearam consideravelmente, pois Holmes apenas de tempos a tempos, quando desejavas companhia nas investigações, o procurava, sendo que no transacto ano de 1890 apenas considerava o registo de três ocasiões. Assim, foi com surpresa que o viu encontrar no consultório, em 24 de Abril, algo perturbado, apresentando-se mais pálido e magro do que o habitual. “Nunca o vi com medo mas, naquela altura, parecia-me assustado. Perguntou-me se já ouvira falar do professor Moriarty e, ao confessar-lhe que não, explicou-me que era um genial criminoso, o Napoleão do Crime, um cérebro de maior grandeza que agia livremente nas ruas de Londres sem ser caçado”. Holmes conseguira provas que ia entregar à polícia e estava a ser perseguido implacavelmente. Naquele mesmo dia já escapara a três atentados: uma caroça de transporte de madeira com os cavalos a galope viera sobre si, salvando-se por uma fracção de segundos, ao atravessar Vere Street um tijolo fora projectado de um telhado esfarelando-se a seus pés, por último fora agredido à cacetada, conseguindo dominar o malfeitor e entregá-lo à polícia. Holmes convidava Watson a ir com ele para o continente alguns dias, até que a polícia londrina capturasse todo o bando chefiado por Moriarty, que já tivera a ousadia de ameaçar Holmes na sua própria casa. Combinaram embarcar, separadamente, dirigindo-se a Paris e daí para Suíça, onde se hospedaram numa pequena povoação próxima das cataratas de Reichenbach que visitaram. Foi durante essa visita que Watson foi chamado de urgência para tratamento de uma senhora inglesa no Hotel.
Quando descobri que o pedido era falso voltou a correu para junto do amigo, em vão gritou por ele, apenas encontrou uma carta de despedida do famoso detective a despedir-se pois ia enfrentar Moriarty e ambos haviam desaparecido. Destroçado, tentando esquecer a morte — confirmada pelos jornais, se bem que não houvessem encontrado o corpo — “do homem melhor e mais inteligente que conheci”. O Dr. John H. Watson regressou a Inglaterra e à rotina do seu consultório. Algo mais lhe estava reservado: no fim desse\ano ou princípios do seguinte, a morte da esposa. Segundo Baring-Gould sempre muito esclarecido, a morte de Mary Watson, resultante de problemas de coração, contudo, para Rodolfo Martinez (1965) no capítulo VIII de um colossal pastiche, fixa textualmente a morte em 1 de Março de 1893, de uma epidemia de gripe. Nesse mesmo pastiche Watson comenta: “Nada pode apagar a dor motivada pela perda da minha mulher, a quem amei com toda a minha alma. Formosa e inteligente, culta, infinitamente paciente com as minhas excentricidades e as de Sherlock Holmes, Algo que conseguisse dizer acerca dela seria apropriado para poderem ter uma ideia acerva do que Mary significava para um solteirão de hábitos desordenados que eu era”. No canon, em circunstâncias imprevistas e breves palavras confirma-se a morte de Mary. Acontece que, depois do Hiato (4 de maio de 1891 a 5 de Abril de 1894), nesta última data, Sherlock Holmes, como por milagre e grande surpresa de Watson e do mundo, durante a narrativa de “A Casa Vazia”, que serve de parco ao encontro dos dois antigos amigos e onde Watson “desmaia pela primeira vez na vida”. Este fica a saber eu Holmes não perecera nas cataratas e sabia do falecimento de Mary, escreve: “Ele soubera do meu desgosto e manifestou a sua solidariedade mais pela atitude do que por palavras”. “ — O trabalho é um antidoto para a tristeza, caro Watson!” E nessa mesma noite o companheiro e biógrafo teve ocasião de presenciar o trabalho do detective, a prisão do coronel Moran, lugar tenente do Professor Moriarty e assassino do jovem Lord Ronald Adair, em 20 de Maio de 1894. Naturalmente que o encontro deu lugar a explicações de ordem vária, das quais resultou que Watson voltou às condições anteriores, viver em Baker Street, acompanhar Holmes nas suas aventuras e escrevendo as narrações que podia.
Voltando aos casamentos de John Watson. Baring-Gould faz referência ao seu terceiro casamento (para nós o segundo e último com assento nas letras do canon, sem grandes motivos para dúvidas) mas este autor sempre tão certo sobre os personagens Holmesianos data o casamento em 4 de Outubro de 1902, mas não identifica com quem. Palpites não faltam! Sabemos que, sem ter conhecimento do motivo nessa altura, em 3 de Setembro de 1902, por ocasião de “O Cliente Ilustre” e pelas palavras do próprio Watson, que “naquela época os meus aposentos ficavam na Queen Anne Street e, a menos que a saída de Baker Street 221B não fosse motivada por uma mulher (dúvida esclarecida por Holmes em Janeiro de 1903 em “ O Rosto Lívido”, onde afirma que “o meu amigo Watson tinha-me abandonado por uma mulher, a sua única acção egoísta de que me recordo”) poderíamos optar por Violet de Melville, “jovem rica, formosa, uma criatura prendada em todos os sentidos”, que Holmes libertara das garras cruéis do Barão Gruner, mas embora bonita tinha um caracter inflexível e egoísta que, com toda a certeza, nunca atrairia o coração mole de Watson. T. S. Blakeney em “Sherlock Holmes, Fact or Fiction” segue a mesma linha.
 
 
June Thomson (1930), em extenso e bem delineado anexo a “The Secret Journals of Sherlock Holmes”, opta com fortes argumentos por Miss Grace Dunbar, a acusada inocente da morte de Mrs. Gibson, em “A Ponte de Thor”, porém o consagrado Christopher Merley (1890-1957), escolheu Lady Fraces Carfax, cujo desaparecimento Holmes/Watson haviam investigado e resolvido em Junho de 1902. E voltando ao pastiche já referenciado de Rodolfo Martinez para revelar e escolha, que é também a nossa, de Watson:


“Quanto à minha segunda mulher, a história de como a voltei a encontrar e acabámos por contrair matrimónio, mereceria talvez todo um romance. Digo voltei a encontrar, pois tinha-a conhecido na Primavera de 1889, quando ela chegou aos aposentos de Holmes, na Baker Street, para o envolver num caso que mais tarde vim a relatar sob o título “As Faias Cor de Cobre”. Mal imaginava eu que aquela adorável e inquisitiva mulherzinha precoce de cabelos castanhos, se converteria, quase treze anos mais tarde, em minha mulher. Estou a falar, é claro, da menina Violet Hunter…”
Violet Hunter, Holmes e Watson - de Sidney Paget
 
É certo que John H Watson, com Sherlock Holmes, são fontes inesgotáveis, mas é tempo de terminar. E terminamos com um breve e justo apontamento que adaptamos de Ian Alfred Charmock in “Watson’s Last Case”
“Sem Watson, Holmes ter-se-ia tornado demasiado frio e calculista. Watson teve a capacidade de lhe dar um novo ângulo de vida. Holmes chegaria a concordar com isto, dizendo que precisava de Watson como uma pedra de afiar para a sua mente, quando pensava alto na sua presença. Chegou mesmo a dizer que estava perdido sem o seu Boswell.”
Enfim, diríamos: eram o oposto na semelhança.

4 de junho de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (4 - 1ª PARTE)
 

4 — DESTAQUE PARA O DR. WATSON
A segunda figura importante do canon ou saga de aventuras de Sherlock Holmes é, inevitavelmente o seu companheiro de habitação e aventuras, seu biógrafo, Dr. John H. Watson. Na sequência do processo tradicional de Poe — o indiscutível criador da narrativa policiária — Dupin tinha um amigo que para além do acompanhar era o narrador dos seus, poucos, casos, Conan Doyle seguiu a mesma directriz. Poderá dizer-se que sem Watson, Holmes não teria a celebridade que conhecemos, que o mundo conhece, dado que dos seus sessenta escritos (romances e novelas) que integram a saga holmesiana, cinquenta e quatro foram relatados por Watson, apenas dois pelo próprio Holmes e um por um narrador anónimo. Watson é pois um personagem em destaque. Como outras particularidades da sua vida de ficção, tem sido alvo da curiosidade dos fãs e estudiosos o nome que e oculta sob o “H.” que separa o “John” e o “Watson”. Num estudo de Michael Dibdin, o “H” será “Herbert”, para Dorothy Sayers é “Hamish”, se bem que, um tanto conservadores, apostamos pelo solitário “H”, ou seja o legendário John H. Watson.
Watson, companheiro e memorialista oficial de Sherlock Holmes é médico. Formado em medicina em 1878 pela Universidade de Londres, seguiu o curso de cirurgia militar em Nettley, sendo destacado para o V Regimento de Fuzileiro de Northumberland, foi mobilizado na qualidade de cirurgião-ajudante, seguindo com a sua unidade para a Índia, sendo que o regimento chegou a intervir na 2ª guerra do Afeganistão (1878-1881). Ferido na batalha de Maiwand, foi evacuado para o Hospital de Peshawer, onde foi tratado de um ferimento de bala “jezail” (espingarda artesanal de cano comprido, carregamento pela boca e disparo de pedreneira) acabando por contrair uma febre entérica que apressou o seu regresso a Inglaterra, onde depois de um período de licença de convalescença, foi passado à disponibilidade de serviço. Sem família, passou a viver de uma escassa pensão, até encontrar um colega, Stanford, que provavelmente Sherlock Holmes, que frequentava os laboratórios do Hospital de S. Bartolomeu e também andava à procura de casa, ou melhor, vivia numa\casa, o famoso 221B de Baker Street, com um quarto vago a preço módico. Após a apresentação e aceitação do alojamento, entraram em conhecimento mútuo e confissões de virtudes e defeitos. Watson confessa que é preguiçoso, levantando-se a qualquer hora do dia ou da noite, Holmes fala-lhe das suas pequenas manias. Porém, sendo verdade que nos primeiros tempos Watson mantem-se desagradado com os hábitos mais que extravagantes do companheiro, a partir do momento em que Holmes, por cortesia, o convida a acompanhá-lo no caso que veio a ser  divulgado por um “Um Estudo em Vermelho”, seduzido pelos mistérios policiários e pela actuação do amigo, entrega-se totalmente ao estudo e reprodução biográfica do alto e esguio detective, que fisicamente difere de si , já que é de estatura mediana, robusto, de rosto cheio, cabelo e bigode castanhos, bem tratados. Reconhece que Holmes é brilhante, de insólitas faculdades, o melhor detective do mundo, a sua personalidade demarca-se de toda e qualquer pessoa. Ele, Watson, colocava-se em plano nitidamente inferior, por vezes ridículo. Mas John H. Watson nada tem de parvo — talvez pecasse pela excessiva idolatria que denotava para com o amigo — demonstrava, se bem observarmos, que não é a pessoa apagada e pouco inteligente, pelo contrário, dá provas de sagacidade e discernimento psicológico não desdenháveis.
Fala-se, frequentemente, nos deslizes, ataques de amnésia ou cabeça no ar, referenciando datas e lapsos narrativos de que a saga é palco. Esqueçamos tal. Watson é um personagem — com vida própria, tal como Holmes — mas apenas um figurante nas mãos do autor. E se erros existem, porque de facto existem, concordamos, são reportáveis a Doyle que, não gostando particularmente daqueles a quem deve a fama, honrarias e vantagens monetárias, não cuidava da escrita, não mantinha sequer um guia, como qualquer escritor mais medíocre faria em narrativas sequenciais. Absolvemos, pois, o nosso Dr. Watson. Se defeitos tem, está reduzido à condição humana comparativamente. Mas boa parte dos estudiosos da saga, exploram até à minúcia qualquer palavra, gesto ou situação, para conseguirem um ponto de partida para as suas divagações. Ora põem em dúvida o seu comportamento sexual (lembremos a paródia de Rex Stout “Watson era uma Mulher”), pelo facto de viver em comum com Holmes, o que o obriga publicamente a esclarecer “Sim , mas vivemos em quartos separados”, ora a considerar-se mulherengo por afirmar  “Tenho conhecimento sobre mulheres de três continentes. Neste caso particular, se bem nos parece “conhecimentos” não significa, necessariamente, conhecimentos sexuais. A simples observação da fala, do vestuário, do comportamento das mulheres também é conhecimento sobre as mulheres e tendo o visado vivido em três continentes, as suas observações teriam que abranger, naturalmente, mulheres de três continentes. Só com  “relações com” se poderia intuir uma relação física. Não esqueçamos, por outro lado, que Watson era um cavalheiro… e vitoriano!

William S. Baring-Gould (1913-1967)
 
Muito para além destas observações, diria vãs observações, o tema de Watson e as mulheres é intenso, até quanto ao número de casamentos. William S. Baring-Gould, excelente autor da biografia de Sherlock Holmes, já referida anteriormente, obra cujo percurso do nascimento à morte do biografado e afins, ultrapassando em muito o texto da saga holmesiana contem elementos laterais, e encontra, milagrosamente, três casamentos do Dr. Watson. O primeiro com Constance Adams, de 27 anos (Watson tinha 32, segundo o mesmo autor) não muito bonita, mas do tipo que agradou ao médico, tinha o rosto redondo, boca grande cabelos castanhos e olhos azuis-esverdeados, simpática e nada egoísta. Relata tal autor que após “A Aventura da Faixa Malhada”, Abril de 1883, em que Watson tomou parte com Holmes, o primeiro se deslocou aos Estados Unidos da América para auxiliar um irmão, em S. Francisco, muito doente e sem dinheiro. Holmes teria financiado a viagem. Watson constituía consultório em S. Francisco para poder pagar a dívida ao amigo de Baker Street, pois descobrira que ainda era bom como médico, e aí se manteve até ao Verão de 1886, altura em que achou que poderia trespassar o consultório. Vivera com Constance, com quem prometera casar logo que concluísse a narrativa de de “um Estudo em Vermelho”. O Casamento realizou-se em S. George, na Hanover Square em 1 de Novembro de 1886. Se de facto assim foi Watson manteve a boca fechada como uma ostra. Mas onde se teria escondido a Sr.ª Watson? Não o sabemos, Baring-Gould apenas nos diz qua a senhora faleceu em Dezembro de 1887. No caso de Miss Mary Morstan, com quem Watson irá casar, é diferente. Aparece no primeiro capítulo de “O Signo dos Quatro” quando da consulta a Holmes. É descrita por Watson no capítulo II, estava-se em 7 de Julho de 1888, ao que se conclui do texto e deixa no narrador um indício fatal de paixão: recorda mentalmente os seus sorrisos, o timbre da voz, o estranho mistério da sua vida. No final do capítulo confessou o amor mútuo e no fim diz a Holmes que receia que esta seja a última investigação em que teve oportunidade de estudar os seus métodos, “ Miss Morton fez a honra de aceitar-me como marido”, casaram, agora é Baring-Gould que o afirma, em 1 de Maio de 1889.
Como seria normal, Watson deixa Baker Street logon após o casamento e acrescenta: “Comprei uma clínica no Distrito de Paddington. O velho Sr. Farquhar tivera noutros tempos uma clientela excelente. Porém a idade e a doença de São Vito desfavoreceram-no muito. O público, como é natural, baseia-se no princípio de quem cura os outros deve curar-se a si próprio e desconfia da capacidade daquele cujos remédios não o curam. Os pacientes tinham baixado de mil e duzentos por ano para menos de trezentos, mas estava convencido que com a sua saúde e energia, em poucos anos o negócio estaria de novo florescente” Aí o visitou Holmes e soube que o amigo continuava a “reler as notas e a classificar alguns dos seus resultados” e que não se importava de acompanhar o detective na aventura, já que o seu vizinho também era médico, e possuía uma clínica, estava sempre pronto a tomar o seu lugar, pagando assim a dívida de igual procedimento de Watson.

Ilustração de Sidney Paget
“O Homem do Lábio Torcido”
 
Numa noite de Junho desse ano (1889) algo sucedeu que iria motivar os estudiosos holmesianos a divagar sobre o procedimento da Sr.ª Watson. Tocaram à campainha de casa e uma vizinha amiga e colega de escola, Kate Whitney, entrou aflita, sem saber o que fazer. Mary consolou-a e declarou (“O Homem do Lábio Torcido”): Fez bem em ter vindo. Agora vai tomar um copo de refresco e sentar-se confortavelmente para desabafar. Ou prefere que mande James para a cama?”. É este James o pomo da grande discórdia. Watson não o notou, não fez caso ou achou-o natural. Mas a pequena pedra transformou-se em pedregulho e transformou, igualmente, Mary Watson numa adúltera, porquanto se refere a James, enquanto o marido era John, estava a pensar — segundo opiniões — no amante.
Vamos ser razoáveis. O facto sucede apenas a pouco mais de um mês do casamento, em plena lua-de–mel, diria. Mary já teria arranjado um amante ou já o trazia da situação de solteira. Por outro lado, segundo Dorothy Sayers, Mary empregou apenas o segundo nome de Watson, do H Hamish, que em escocês é sinónimo de James. Também Baring-Gould ao falar de Watson chama-o de John Hamish Watson.
(CONTINUA AMANHÃ)

2 de junho de 2013

APRESENTAÇÃO DE MEMÓRIAS...



 
 
 
Domingos Cabral apresentou o livro de M. Constantino durante o convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade que se realizou hoje em S. Pedro de Sintra, na Taverna dos Trovadores.
Domingos Cabral realçou o vasto trabalho de pesquisa feito pelo autor sobre diversos temas policiários. Centenas de livros lidos, portugueses e estrangeiros, muitas horas de estudo e de escrita criativa que aguarda publicação.