7 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 220

Efemérides 7 de Agosto
Stephen Marlowe (1928 – 2008)
Milton Lesser nasce Brooklyn, Nova York. Utiliza para a escrita o pseudónimo Stephen Marlowe, mas escreve sob outros pseudónimos Adam Chase, Andrew Frazer, C.H. Thames, Ellery Queen e Jason Ridgway. Escritor de policiário e ficção científica — short stories e romances— é também autor de autobiografias ficcionadas de personalidades famosas, entre as quais Edgar Allan Poe. O autor, muito popular na época, mas depois caído no esquecimento, é o criador de Chester Drum, um detective privado de Washington, mas cujos casos o levam a viajar um pouco por todo mundo desde a América do Sul, ao Canadá e a resolver crimes ou problemas em Meca, Moscovo, Roma e Berlim; Chester Drum surge em 1955 em The Second Longest Night e protagoniza 20 livro. Entre outros prémios, Stephen Marlowe recebe em 1997 o Life Achievement Award atribuído por Private Eye Writers of America. Em Portugal é possível encontrar registo das seguintes edições.
1 – Guarda Costas (1960), Nº21 Colecção Enigma, Livraria Ática. Título Original: Danger Is My Line (1960). É o 10º livro da série Chester Drum.
2 – Acção Em Berlim (1965), Nº4 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Publicações. Título Original: Drum-beat Berlin (1964). É o 16º livro da série Chester Drum.
3 – O Perigo É A Minha Profissão (1966), Nº14 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Publicações. Título Original: Manhunt Is My Mission (1961). É o 13º livro da série Chester Drum.
4 – Acção Em Paris (1967), Nº22 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Publicações. Título Original: Drum-beat Dominique (1965).
5 – Acção Em Madrid (1967), Nº27 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Publicações. Título Original: Drum-beat Madrid (1966). É o 18º livro da série Chester Drum.
6 – A Morte é Minha Amiga (1969), Nº40 Colecção Espionagem, Editora Dêagá. Título Original: Death Is My Comrade (1960). É o 11º livro da série Chester Drum.
7 – O Último Golpe De Um Espião (1969), Nº43 Colecção Espionagem, Editora Dêagá. Título Original: Come Over Red Over (1968).




MISTÉRIOS E CRIMES DA HISTÓRIA — A MORTE DE PETRÓNIO
Era um homem da “doce vida” romana. Seu nome: Petrónio. Seu tempo: o tempo de Nero. Ainda hoje, tantos séculos depois de sua morte, falam nele, na sua elegância. De fato, Petrónio ficou na história como um homem que sabia vestir-se e sabia viver, principalmente viver. Esse é o retrato popular de Petrónio.
As suas qualidades de escritor quase ninguém comenta. Entretanto, deixou um livro famoso: “Satíricon”, que passa por ser a novela dos costumes do tempo de Nero. Alguns pesquisadores negam que seja Petrónio o autor de “Satíricon”. Autor ou não dessa obra, o certo é que a sua presença está com lugar garantido na História romana. Foi Petrónio, sem dúvida, um dos seus mais requintados personagens. Se viveu em delícia, fazendo de seus dias um caminho de rosa, a sua morte, corajosa e original, redime Petrónio de todas as fraquezas.
— Ou muito me engano — disse certa vez Saint-Évremond — ou é a morte de Petrónio a mais bela de toda a antiguidade.
Realmente, morreu como viveu: elegantemente. Nos seus dias, quando algum romano recebia ordem de sair deste mundo pela porta do suicídio, era comum que o condenado apelasse para os seus deuses. Mesmo Catão, o Severo, ao deixar este mundo o fez sem grande classe. Scribónio Libo, por exemplo, uma das primeiras vítimas de Tibério, quis dar remate aos seus dias da mesma maneira que tinha vivido, isto é, em alegria.
Mandou aprontar uma farta mesa, com as melhores iguarias de Roma. Mas não conseguiu ficar alegre. Disse Tácito, o grande historiador que durante todo o tempo em que esteve à mesa Scribónio não teve outro assunto que não a sua morte:
— Falou de suas tristezas e não de suas alegrias.
Foi assim que Tácito viu o fim de Scribónio Libo. Outro que morreu desesperado: o nobre Júlio Cano. Encaminhou-se para o suplício acompanhado de um filósofo particular. Mesmo o conhecido Séneca, condenado por Nero, não teve um fim que o credenciasse à admiração futura. Morreu como qualquer um, falando da virtude e da esperança.
Petrónio, o epicurista, não. Acabou como viveu. O seu drama começou quando Nero se interessou por ele. Durante muito tempo foi Petrónio por assim dizer, o seu consultor preferido. Nero pedia a opinião de Petrónio sobre tudo, desde os arranjos do palácio ao modo de vestir, não se falando dos versos. Petrónio, com aquela elegância que ficou na História, dava ao Imperador conselhos de bom gosto. Nero, admirado, não se cansava de exaltar o talento de Petrónio.
Isso fez com que um dos homens mais poderosos do templo, o temível Tigelino, logo procurasse cortar essa amizade que acabaria por lhe roubar a posição junto do Imperador. Diga-se de passagem que Tigelino era profissional no assunto. Sabia manobrar a Corte a seu modo. Aliás vivendo em tempos tão tumultuados, não era difícil aos intrigantes arranjar meios e modo de perder os seus inimigos. Foi o que aconteceu a Petrónio, um homem de espírito, sem dúvida, mas que não estava preparado para o crochet da intriga.
Tigelino sabia disso. Sabia que Petrónio só cairia em desgraça se em torno dele fosse fabricado um complot. Mas isso era coisa trivial para uma inteligência ardilosa como a de Tigelino. Naqueles dias Roma vivia em estado de permanente inquietação. Sucediam-se as revoltas. E foi depois de um desses complots contra a vida de Nero, que Tigelino resolveu agir. Estava o Imperador em Campânia, longe de Petrónio. Junto de Nero encontrava-se Tigelino, que não teve dificuldades em fazer crer ao Imperador que Petrónio participara do último atentado à sua vida:
— Aqui estão as provas.
E, de facto, mostrou o depoimento de serviçais de Petrónio. Nero não teve dúvidas em mandar prender o seu conselheiro de elegância. Era hábito em Roma condenar sem ouvir os acusados. Assim fizeram com Petrónio. Achava-se ele em Cumas, a caminho de Campânia, onde queria avistar-se com o Imperador, quando foi detido. Recebeu ordem de permanecer em Cumas até que o seu destino fosse definitivamente resolvido. Petrónio sorriu e disse:
— Aguardo aqui a justiça Imperial.
Mas Petrónio não era homem acostumado a esperar por nada, nem pelo Imperador. Não gostava de viver entre temores e esperanças. Por isso, serenamente, tomou a deliberação de suicidar-se. Ordenou que preparassem seus últimos momentos.
Então, o homem quase afeminado, o “doce vida”, transfigurou-se. Ninguém podia esperar que uma criatura que viveu manso, que tirou da vida todos os prazeres, um fim tão corajoso como o de Petrónio. Quase todos os condenados consideravam um dever fazer os testamentos com adulações, principalmente deixando parte dos bens ao Imperador. Petrónio quebrou essa rotina. O seu testamento foi como uma bofetada no rosto de Nero. Nele, falava Petrónio das fraquezas do Imperador, das suas ridículas manias de grandeza e do seu pouco talento para tudo, desde lidar com mulheres a fazer versos. E não contente, Petrónio quebrou um vaso de valor incalculável para que não caísse em mãos de Nero.
Quis morrer aos poucos. Abria uma veia, em seguida, fechava-a. E assim por diante. Bastante enfraquecido com essas constantes sangrias, Petrónio, nesse fim a prestações, não apelou para os deuses romanos. Contentou-se em ler versos. E foi entre poemas e sangrias que desapareceu esse homem elegante, um dos mais finos espíritos da antiguidade, o “árbitro da elegância”. Morreu sem cóleras, sem mágoas, sem querer entrar na História. Morreu como viveu: elegantemente.


TEMA — CRÓNICA DO REPÓRTER X — O MENINO DO CASTELO
Era um macrocéfalo monstruoso, quase anão, que há mais de dez anos andava por ai. De todos os loucos, de todos tarados, caídos na arena brutal da cidade, nenhum foi mais infeliz do que este desgraçado que não devia passar dos vinte anos. E era infeliz porque, através da sua loucura, conservava sensibilidade e pudor; sentia-se e chorava quando o troçavam, quando o maltratavam.
Era o mais pacífico e o mais silencioso de todos os bobos de Lisboa. Vendia às vezes cautelas — mas não insistia ante as negativas. E fora do seu negócio, passeava lentamente, rebolando os seus olhitos tristes, nas orbitas hipertrofiadas e balanceava aflitivamente a cabeça monstruosa como se ela lhe pesasse toneladas e os ombros não a pudessem aguentar.
Cozia-se à parede, esquivava-se à curiosidade do público; assustava-se, experimentado por todas as brutalidades humanas.
Um sábado à noite, junto ao Café Gelo, a garotada berrava num banzé escandaloso. Fui ver o que era; e vi, no meio da roda, o Menino do Castelo, de olhos esbugalhados pedindo, por esmola, que o deixassem seguir o seu caminho.
E a garotada puxava-lhe pelo casaco; sovava-o pelas costas, tentava fazê-lo cair; acusava-o, entre galhofas, de todas as ignomínias — só para o excitar, só para o torturar…
E o Menino do Castelo agitava a cabeça, choramingando como as crianças:
— Deixem-me… deixem-me… Não me digam isso… Eu não faço isso… Não me batam… Deixem-me… É mentira Ai minha mãezinha!
E, num grito que ficou para sempre a ecoar dentro de minha alma, exclamou:
— Não há ninguém mais desgraçado do que eu!
E o mais doloroso, o mais aflitivo, é que esta 'cena estava sendo presenciada por homens, homens fortes, homens de várias categorias sociais que não só não libertavam o pobre macrocéfalo das garras dos seus tiranos como ajudavam ao suplício, ferindo-o de gargalhadas e açulando os pequenos verdugos…

6 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 219

Efemérides 6 de Agosto
Kjell Westö (1961)
Nasce em Helsínquia, Finlândia. Jornalista e escritor, publica poesia, short stories e romances. Pertence a nova geração de escritores escandinavos de literatura policiária. Lang (2002) é o seu primeiro romance de suspense/crime. O escritor, que também usa também o pseudónimo literário Anders Hed tem sido distinguido com vários prémios.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA — O GÉNERO MENOS VOLUMOSO NEM SEMPRE É O MENOS VALIOSO
De José Maria Merino, tradução livre de M. Constantino
Um os maus hábitos a nossa cultura é o menosprezo pelo conto curto. Só os editores verdadeiramente literários publicam indiscriminadamente contos, novelas ou romances, ainda que pouco convencidos da pouca rentabilidade económica do género curto, pois o público leitor de contos parece muito menos numeroso do que obras mais extensas. Tal falta de interesse reflecte a escassa atenção de grande parte dos especialistas críticos, que vemos com frequência como ao exercer a crítica agrupam no mesmo artigo livros de contos de diferentes autores como se tratasse de material necessitado de amontoamento para conseguir algo de consistente em face da análise. Parece consolidada a ideia de que o conto é um género menor não só pelo seu tamanho, mas também pela sua natureza.
No capítulo de anedotário recordo que Luis Mateo Diéz publicou a sua primeira obra narrativa — um livro de contos — o director de um suplemento literário da época, após alardear os esplêndidos ainda que breves frutos do livro, indicava que ao autor deveria exigir-se uma novela longa, conquista de maior ambição. Numa entrevista ao excelente escritor galego Xosé Luis Méndez Ferrín concluiu-se ser o literato um “impecável corredor de curta distância, ainda que resistisse à longa distância”, o mesmo é dizer bom contista mas sem provas dadas na novela. Ora o largo conteúdo da novela admite diversos graus de qualidade ao passo que o conto não dá para tanto: é bom ou mau. A conclusão é muito atinada e vemo-nos obrigados a comparar ambos géneros de uma perspectiva de substância, em que seria o mais curto o menos valioso. Borges acreditava que “o conto tão antigo como o homem” era mais importante do que a novela ou romance e que não há dúvida de que qualquer dos seus contos tem maior densidade e verdade literária do que muitas novelas intermináveis que enxameiam os mercados.
Para a boa saúde literária de uma cultura é imprescindível a presença e a vitalidade do conto. O esplendor contemporâneo das literaturas ibero americanas não pode compreender-se se recordar nomes como os contistas Bioy Casares, Onetti, Quiroga etc. , de obra por menor tamanho, porém grande e sólida pela sua significação.
É que a literatura ao contrário de desporto, não é questão de músculos e de envergadura física.

 Vai publicar as minhas short stories? Não.
Ilustração de Tom Gauld


CONTO FICÇÃO CIENTÍFICA — SOBREVIVENTES
De A. Dekker Savage
— Oluf!
— Bowron!
Reconheceram-se simultaneamente, para além da estreita franja de maltratados arbustos que rodeavam o oculto lago.
— Oluf, alegra-me ver-te de novo… Pensei que não existiam mais que montanhas, lobos e selvagens entre a civilização e eu!
Caminharam lentamente, juntos, até margem.
Oluf deixou-se cair, satisfeito, sobre a areia quente, à qual a luz do sol poente dava um tom mais escuro e avermelhado.
Não estás muito enganado… Há rastos de lobos em toda a parte. Mas, em nome da Lua, que fazes tu tão longe de Nova Iorque?
— Dirijo-me ao sul, para ficar por ali — disse Bowron. Observou cuidadosamente os montes e as árvores que existiam perto deles, e deitou-se junto do companheiro suspirando. — Estou a tornar-me demasiado velho para suportar os invernos, e os alimentos enlatados das ruínas tornam-se mais escassos a cada ano que passa.
Oluf olhou-o incrédulo.
— Viajas só?
— Não fazes tu o mesmo? — a resposta foi rápida, com o sério orgulho dos anciãos.
Algo como um riso cansado soou das profundidades da garganta de Oluf. Disse com sinceridade:
— Sim, mas… olha Bowron, eu sou caçador por escolha própria. Sou jovem e forte. Posso correr meio dia a toda a velocidade e aguento uma luta. Tu eras um mestre… sábio, no entanto desconheces os usos das terras selvagens; os teus sentidos não estão desenvolvidos, as tuas reacções são lentas, como a de todos os habitantes das cidades.
Os olhos de Bowron pareceram repentinamente cansados, envelhecidos. Olhou as plácidas águas.
— Não consegui convencer ninguém a acompanhar-me — disse com simplicidade — Fizeste bem, Oluf, ao deixar os teus estudos e procurar a liberdade das terras selvagens… a vida natural que creio que todos devemos seguir um dia — suspirou profundamente. Naturalmente há um sonho de conquistas que todos os habitantes das cidades têm. Fizemo-nos moles e dependentes da comida enterrada entre os escombros; passando o nosso tempo no estudo dos livros e outras coisas divinas, esperando sempre poder compreender e reproduzir a antiga civilização; todavia os nossos melhores pensadores, dado que são os exploradores mais ansiosos, caem frequentemente nas ocultas zonas de radioactividade ainda subsistente e morrem; com eles morre o seu conhecimento; os sonhos e aspirações debilitam-se em cada geração.
Oluf grunhiu e Bowron prosseguiu como se falasse consigo mesmo:
— Cheguei a acreditar que é inútil seguir os passos dos deuses… que devemos esperar, pensar, trabalhar, cada um á sua maneira, até que aprendamos à custa da nossa própria experiência e os nossos engenhos simples. Aprendemos muito das coisas divinas, lentamente, em todos estes anos. Mas também sabemos que somos mutantes, alterados pela radiação das áreas que mais sofreram na grande guerra, e que ao fim e ao cabo transmitimos a nossa mutação. Somos diferentes dos selvagens. Certamente somos superiores, mas… não somos deuses. Se pudéssemos alguma vez…
Oluf havia-se posto de pé e desapareceu a toda a velocidade. Bowron sentou-se, tristemente escutando o ruído entre o mato e, por fim, o agudo gemido de uma vida que se extinguia. Relaxou e esperou até que Oluf, sorridente, regressou com um coelho.
— A nossa ceia, meu velho. Lamento não ter escutado com atenção o que dizias.
Depois, quando comeram e se estenderam confortavelmente na orla de areia banhada pela luz da Lua, Oluf começou a recordar:
— Lembro-me das tuas lições, Bowron, e também nos nossos inumeráveis intentos de fazer trabalhar as máquinas. Sempre nos pareceram estranhas. Do que mais gostava era das histórias dos velhos tempos: histórias dos nossos antepassados.
Bowron concordou pensativamente:
— Acontecia com a maior parte dos meus alunos: Era mais confortável sonhar com o passado do que enfrentar os problemas do presente. Parecia despertar algum instinto adormecido no interior de todos… gostarias de ouvir outra dessas histórias?
— Muitíssimo!
Bowron estudou a Lua brilhante.
— Bom… há muito tempo, muitíssimo tempo, havia um homem chamado Smith que habitava uma grande cidade…
Quando o conto terminou, Oluf pareceu profundamente comovido.
— Creio — disse lentamente — que irei contigo para as terras de sul. Sozinho morrerias com certeza no caminho, e umas palavras como as tuas devem continuar vivas para dar aos outros esperança e consolo… talvez encontres ainda algum dos deuses, vivo, em qualquer recanto do mundo… Devia ter sido maravilhoso — balbuciou sonolento — viver em companhia dos deuses… com o HOMEM.
Enroscou-se confortavelmente, com as patas encolhidas e colou o focinho sobre a cauda peluda.


5 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 218

Efemérides 5 de Agosto
Per Wahlöö (1926 – 1975)
Per Fredrik Wahlöö nasce em Tölö — mais tarde Kungsbacka — Halland, Suécia. Trabalha como repórter, viaja por todo o mundo e regressa à Suécia onde volta a trabalhar como jornalista. Forma uma dupla famosa com a mulher, Maj Sjöwall. Escrevem entre 1965 e 1975 10 livros policiários, protagonizados por Martin Beck, um detective da polícia de Estocolmo. A série Martin Beck retrata a sociedade sueca, vista através de uma lente crítica, reflectindo a perspectiva socialista dos dois autores, que no final da série mostram o desencanto de Beck com o trabalho da polícia. O 2º livro da série Den Skrattande Polisen (1965) é traduzido em 1968 com o título The Laughing Policeman e ganha o Edgar Award em 1971 para Best Novel. Per Wahlöö e Maj Sjöwall traduzem para sueco grandes autores policiários americanos, como Robert B. Parker e Ed McBain. Wahlöö escreve ainda individualmente ficção política e 2 thrillers futuristas, onde o personagem principal é o Inspector Chefe Jesen. Em Portugal estão editados:
1 – O Homem Que se Desfez Em Fumo (1989), Nº92 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Mannen Som Gick Upp I RöK (1966). É o 2º livro da série Martin Beck.
2 – O Homem À Varanda (1989), Nº99 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Mannen På Balkongen (1967). É o 3º livro da série Martin Beck.
3 – O Polícia Que Ri (1990), Nº122 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Den Skrattande Polisen (1968). É o 4º livro da série Martin Beck.
4 – Desapareceu Um Carro De Bombeiros (1992), Nº142 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Brandbilen som försvann (1969). É o 5º livro da série Martin Beck.
5 – O Homem Abominável (1994), Nº168 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Den Vedervärdige Mannen Från Säffle (1971). É o 7º livro da série Martin Beck.
 


TEMA — MIL FORMAS DE ACABAR O MUNDO
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 214 (Clicar)
À hipótese do degelo opõe-se uma outra, a glaciação.
As grandes variações climatéricas observadas no passado deram aos climatologistas dados que lhes permitem afirmar que, apesar de estarmos presentemente num período privilegiado, dito “interglaciário” considerando o avanço e recuo dos glaciares, que são sempre breves na escala dos tempos geológicos e raramente ultrapassam os doze mil anos, poderemos ter nos próximos dois mil anos uma grande glaciação que provocará uma diminuição de cerca de seis graus na temperatura média do planeta. Estes seis graus terão efeitos catastróficos, se se considerar que o decréscimo de dois graus bastará para comprometer quase todas as culturas de cereais e frutas
Registou-se ligeira descida geral de temperatura, que se observou a partir de 1944, obtendo-se um aumento das superfícies geladas ao ritmo de 2 a 3% em cada ano, parecendo errado subestimar o perigo de um “inverno sem fim”. A temperatura depende, de facto, do calor recebido do Sol, cuja irradiação solar sofre alterações energéticas periódicas.
Inversamente, se as explosões solares se ampliarem, o planeta ressequido originará o fogo, ao qual se segue a fome e a peste. Mais, se a temperatura do Sol — cerca de 6500 graus — se elevasse alguns poucos, para além daquela trindade maligna, dar-se-ia a fusão dos geles polares e cairíamos na hipótese primeira — um novo dilúvio.
Mas, o fim do mundo pelo fogo tem outras vertentes.
O estudo da actividade vulcânica moderna e antiga permite relacionar o arrefecimento e a glaciação com a intensificação do vulcanismo. Este influencia a atmosfera terrestre alterando a sua composição e temperatura, poluindo-a com enormes massas de cinza, medidas em milhares de milhões de toneladas, e as partículas de cinza reduzem a radiação solar e consequentemente há uma diminuição das temperaturas, se bem que a atracção principal da actividade vulcânica resulte do seu potencial catastrófico. O fogo: saído do ventre da Terra ultrapassa, em termos de energia, o de qualquer bomba atómica, calculando-se que a potência da explosão dos vulcões Katmai (Alasca-1912) e Bandai (Japão-1888) igualassem, em cada caso, quatro bombas atómicas, enquanto o de Cracatoa (Indonésia-1883) a de 20000 e a de Tambora (Indonésia -1815) a de 200000!!
A actividade sísmica de que resulta em regra, o fogo, tal como a actividade vulcânica, tem um efeito secundário tão ou mais terrível do que a principal, os catastróficos maremotos.
Em breve apontamento dir-se-ia que o sismo de Lisboa (1755) vitimou 50000 pessoas enquanto o de Loess (China-1920) qualquer coisa como 200000!
Em termos de energia libertada as explosões vulcânicas e os sismos podem ser comparados aos resultados de um embate meteórico.
A -superfície terrestre conserva fartos vestígios da queda de grandes meteoritos, cabendo notar que é um fenómeno muito raro; os cálculos indicam que de 50000 em 50000 anos existir a possibilidade e um embate calamitoso, se bem que a queda de pequenos aerólitos não seja invulgar, desfazendo-se no espaço antes de atingir a Terra.
Aponta-se a hipótese, não confirmada, do Golfo de São Lourenço, no Canadá, ser parte de uma imensa cratera de choque com 290 km de diâmetro e cerca de 6 km de profundidade; a bacia de Popigai, na Sibéria, uma cratera aerolitíca confirmada que atinge 100 km, estimando-se a energia da explosão, há 30 milhões de anos, mil vezes a mais potente explosão vulcânica; o Devil Canyon no Estado do Arizona tem origem num aerólito, tal como os lagos duplos Clearwater, no Canadá
Um dos mais recentes fenómenos cósmicos da espécie, registou-se a 30 de Junho de 1908, em Tunguska na Sibéria Oriental. Um pequeno cometa entrou na atmosfera terrestre explodindo aos 5 ou 10 km de altura. Uma explosão colossal equivalente, no mínimo, a 3 milhões de toneladas de TNT, ou seja, cem vezes mais potente que as explosões atómicas de Hiroxima e Nagasaki.
Pelas suas proporções este fenómeno equivale aos maiores cataclismos conhecidos ou imaginados; felizmente ocorreu numa região absolutamente desabitada.
Flammarion escreveu em 1884:
“Não se podem desprezar o efeito que produziria a colisão de um cometa errante com o planeta. Um continente destruído, um reino esmagado… Paris, Londres, Nova Iorque, Pequim aniquiladas constituiriam os efeitos menos importantes da catástrofe celeste.”
De momento nada no movimento dos astros que constituem a nossa galáxia permite descortinar semelhante colisão, no entanto, se acontecesse, conforme o volume do impacto e local, a violência do choque poderia suprimir toda a vida ou deslocar o planeta da sua órbita, porventura fazê-lo regressar à vertical que teria ocupado há alguns milénios.
Impensável o resultado apocalíptico daí dimanante.
(continua)



PEQUENOS GRANDES CONTOS DA LITERATURA UNIVERSAL — O SEGREDO FATAL
De Daniel Webster (1782-1852)
Um homem, sem um inimigo no mundo, na sua própria casa e no seu próprio leito, é vítima de um crime sanguinário, por uma simples questão de dinheiro.
Num sono profundo mergulhara não só a predestinada vítima, como todas as pessoas sob o seu tecto. Um velho saudável, para quem o sono era doce, maciamente embalado pelos primeiros sintomas de entorpecimento. O assassino penetra pela janela antecipadamente preparada, num aposento desocupado. Sem fazer o menor ruído atravessa o hall deserto, meio iluminado pela lua; sobe a escada e alcança a porta do quarto. Move a maçaneta e empurra-a de leve até a porta rodar nos gonzos sem ruído. Entra e contempla a vítima à sua frente.
O aposento recebe a luz da Lua. A face do inocente adormecido acha-se virada para a parede e os raios da Lua, pairando sobre as madeixas grisalhas que lhe cobrem a fronte, mostram-lhe onde atacar.
O golpe fatal é vibrado! E a vítima, sem luta e inconsciente, passa do repouso do sono para o repouso da morte!
O assassino propusera-se fazer um trabalho seguro; por isso lança mão da faca, embora seja mais do que óbvio que a vida foi cortada pela força do golpe Chega até a levantar o braço do velho a fim de não errar o coração que tem como alvo, e torna a recolocá-lo sobre o ferimento recém aberto. Para terminar, explora o braço à procura do pulso. Encontra-o e certifica-se de que não bate.
Está tudo acabado. A acção foi realizada. O assassino recua sobre os seus passos, volta à janela, salta por ela e escapa. Praticou o crime sem que alguém o visse ou ouvisse. O segredo pertence-lhe e está bem guardado!
Ah, amigos, mas aí está o terrível engano! Tal segredo jamais estará seguro em parte alguma. A inteira criação de Deus não tem recesso ou cantinho onde o culpado o possa enterrar e julgar-se a salvo. Isso sem falar naquele olho que tudo vê e tudo sabe…
Na verdade, diz-se que “o crime sempre vem à luz”. Na verdade, sabe-se que por desígnio da Providência, todo aquele que infringir a grande Lei, derramando o sangue do homem, dificilmente conseguirá encobrir o seu crime. E num caso como este, a atrair tamanha atenção, a descoberto se fará…
Mil olhos voltam-se em seguida para explorar cada homem, cada coisa, cada circunstância ligada à hora e ao local; milhares de ouvidos apanharão qualquer sussurro pronunciado; milhares de mentes excitadas trabalharão incessantemente na cena do crime, aplicando ali todas as suas luzes e prontos a transformar a mais insignificante circunstância numa descoberta ofuscante.
Entretanto, o culpado não poderá ocultar o seu segredo. Ele é falso consigo mesmo; ou melhor, sente um irresistível impulso de consciência de manter-se fiel a si mesmo. O coração humano não pode dar guarida a uma tal habitante. Sente-se perseguido por um tormento que não ousa confiar a Deus nem a homem algum. Um corvo o devora e não lhe é possível pedir simpatia ou compreensão, seja ao céu, seja à terra.
O segredo que possui o assassino, em breve o possui a ele. E, à semelhança dos maus espíritos a respeito dos quais se lê constantemente, aquilo acaba por dominá-lo, mantendo-o sob a sua vontade. Ele sente-o a pulsar no coração, a levantar-se-lhe na garganta e a exigir revelação. Crê que todo o mundo o vê no seu rosto, reconhece-o nos seus olhos e tem a impressão de ouvi-lo até no silêncio dos seus pensamentos. Tornou-se seu senhor e dono. Atraiçoa-lhe a discrição, anula-lhe a coragem, vence-lhe a prudência.
Quando a suspeita de fora começa a embaraçá-lo e a rede das circunstâncias a fechar-se em volta dele, o segredo fatal luta com maior violência para rebentar cadeias que o prendem. Precisa ser confessado, e será confessado, pois não existe mais refúgio a não sei no suicídio, e o suicídio é a confissão.
Fonte: first-stop.org


4 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 217

Efemérides 4 de Agosto
Dennis Lehane (1965)
Nasce em Dorchester Massachusetts. EUA. Trabalha como empregado de mesa e motorista de limusinas, em livrarias e como conselheiro de crianças deficiência mental, antes de se dedicar em exclusivo à escrita. É o autor de diversos bestsellers. O seu primeiro livro A Drink Before The War (1994) inicia a série Patrick Kenzie e Angela Gennaro — já com 5 títulos publicados— e ganha o Shamus Award, prémio atribuído anualmente pela Private Eye Writers of America, na categoria de Best First Novel. O livro Gone, Baby, Gone, é adaptado ao cinema em 1997 por Ben Affleck; Mystic River, um romance de 2001 ganha o Anthony Award e o Barry Award — prémio literário atribuído por editores de ficção policiária, recebe ainda o Massachusetts Book Award in Fiction e o francês Prix Mystère de la Critique. Mystic River foi adaptado ao cinema sob a direcção de Clint Eastwood. O escritor tem 10 livros publicados, sendo um de contos, tem o lançamento do próximo livro, Live By Night, agendado para Outubro e tem escrito vários argumentos para televisão.
1 – Um Copo Antes Da Guerra (2002), Nº 5 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: A Drink Before (1994). É o 1º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
2 – A Caminho Das Trevas (2003), Nº 13 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Darkness Take My Hand (1996). É o 2º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
3 – Mystic River (2003), Nº 22 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Mystic River (2001).
4 – Shutter Island (2003), Nº32 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Shutter Island (2003).
5 – Gone, Baby Gone (2007), Nº52 Colecção Nocturnoss, Editora Gótica. Título Original: Gone, Baby Gone (1998). É o 4º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
6 – Prenúncio De Chuva (2008), Nº58 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Prayers For Rain (1999). É o 5º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
1 – Terra Dos Sonhos (2008), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: The Given Day (2008).
TEMA — ALGO SOBRENATURAL — A CRENÇA DA EXISTÊNCIA DO DIABO
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 211 (clicar)
A crença da existência de um poder a quem se atribuem a autoria (responsabilidade) dos males dos homens e dos animais, de calamidades mil na própria natureza, tem raízes na realidade do homem. Mas um poder inidentificável.
Nas civilizações primitivas não existia apenas um responsável, mas espíritos, génios ou deuses vários, especializados nos diversos géneros de malefícios — não existia o personagem DIABO.
As mitologias conhecidas seguem este padrão. São deuses, são monstros bons ou maus, ou simultaneamente ambos segundo os factos e os momentos, cujos domínios se estendem ao mar, aos abismos, à terra, aos céus, à luz às trevas, aos homens, aos animais; porém, sempre e estranhamente de comportamento humano.
Necessidade de distinguir o Bem do Mal, atribui-se-lha (ao Diabo) origem Judaico-cristã, se bem que os antigos hebreus partilhassem com outros povos semitas as crenças primitivas já expostas da existência de uma multidão de demónios, de cruéis espíritos malignos ou génios errantes dos desertos e oásis da Terra. Também eles, antes da chegada do seu Cristo, que renovaria toda a tradição religiosa, conheciam a religião persa, já dualista, mesmo antes da chegada do profeta Zoroastro. Na dualidade Persa existia o Bem e o Mal. Para Zoroastro, desde o princípio das “Coisas” existiam dois espíritos, por vezes chamados “primários”, um Bom e o outro Mau. Dois espíritos que por uma especial impenetração mútua acabam por produzir o Bom e o Mal, a Vida e a Morte, o Céu e o Inferno. O espírito ou princípio do Bem, definido como “o melhor estado mental possível”, chama-me AHURA; o princípio ou o espírito do Mal, conceituado como “a pior vida possível”, intitulava-se AHRIMAN ou ANGRA MAINYU.
Numa das obras da antiguidade persa, o “Yasma”, pode ler-se:
“O ESPÍRITO BOM FALOU AO MAU E DISSE-LHE: NÃO TEMOS EM COMUM NEM OS PENSAMENTOS NEM OS MANDAMENTOS, NEM AS CONCEPÇÕES, NEM AS CRENÇAS, NEM OS ACTOS, NEM AS CONSCIÊNCIAS, NEM AS ALMAS.”
Esta mesma percepção de separação absoluta está na essência da religião judaico-cristã cujo princípio do Bem assimila a Deus e o oposto ao Demónio.
Na versão bíblica da criação do mundo, a Génese, debate-se o problema do Bem e do Mal e, pela primeira vez, segundo os teólogos, se pode identificar o DIABO sobre a aparência da serpente que persuade Eva a entregar a maçã a Adão.
Num livro famoso da literatura apocalíptica “Adão e Eva”, cujo conteúdo só se conhece por referências, conta-se que o demónio fez primeira mulher para dela obter o consentimento de tornar-se o instrumento do pecado.
Eva perguntara-lhe porque perseguia Adão com tanto afinco sem que este lhe tivesse alguma vez ocasionado mal, ao que o demo respondera que teria, por culpa de Adão, perdido a magnificência de que dispunha no Céu, porquanto, tendo Deus, criado o homem a sua imagem e lhe vida, o arcanjo São Miguel ordenara a todos os anjos que adorassem a nova criatura, dando ele próprio, São Miguel o exemplo.
Mas a lenda encontra duas teses distintas da rebelião do Senhor das Trevas, a primeira das quais se fundamenta nesta exposta conversa, no ciúme ante o desvelo, afecto e destino prometido por Deus à nova criatura, inferior sem dúvida mas provida da interessante dualidade: corpo e alma.
A segunda atribui ao então Lúcifer — Príncipe dos Anjos, o mais belo e inteligente entre os anjos que rodeiam o Criador, um desmedido orgulho e soberba que, Este, desgostado ordena a sua expulsão do Céu, missão cumprida, como no primeiro caso pelo Anjo São Miguel
Nos primeiros livros do Antigo Testamento só por indução ao pode atribuir qualquer utilização do nome do personagem em causa. Na primeira vez que aparece textualmente lê-se:
“SATAN ERGUEU-SE CONTRA ISRAEL E INCITOU DAVID A FAZER O CENSO DE ISRAEL” (Crónicas I-21-1)

Mais ou menos contemporâneo das “Crónicas” outro livro refere igualmente o questionado:
“O SACERDOTE JOSUÉ, DE PÉ DIANTE DO ANJO YOUÉ, ENQUANTO SATAN ESTAVA À DIREITA PARA ACUSÁ-LO. O ANJO DISSE A SATAN: — QUE YOUÉ TE REPRIMA SATAN.”

Em Apocalipse (12.7), descreve-se a sua derrota:
“ENTÃO HOUVE A BATALHA DO CÉU: MIGUEL E OS SEUS ANJOS COMBATERAM O DRAGÃO. O DRAGÃO LUTOU JUNTO COM OS SEUS ANJOS, PORÉM, NÃO CONSEGUIRAM A VITÓRIA E DEIXOU DE HAVER PARA ELES LUGAR NO CÉU.
O GRANDE DRAGÃO, A ANTIGA SERPENTE, QUE POR VEZES TOMA OS NOMES DE DIABO E SATANÁS, O SEDUTOR DO UNIVERSO FOI PRECIPITADO PARA A TERRA E COM ELE OS SEUS ANJOS.”

Mas a presença de citações bíblicas, directas ou indirectas, nada resolvem, nada elucidam validamente.
Enigma.
Enigma sim, que se afigura de colocar no seu verdadeiro contexto: O teológico.
Para as religiões não cristãs a realidade demoníaca á contestável e discutível; para a cristã a existência do diabo é uma existência dogmática com enquadramento no Velho o Novo Testamento. Assim, não causa espanto o seu apogeu nos primeiros séculos do cristianismo em que o perfil do diabo fica delineado, em contraste com a lacuna e enorme deserto encontrado até à Idade Média, período em que é mais temido, recebe as mais a poderosas honras, glorificado por tradicionais e disciplinadas hostes de seguidores e combatido ferreamente por outras.
Em realidade, até ao século X a força do catolicismo não tinha necessidade de espantalho satânico para se impor, desmoronando num impulso crescente as diversas religiões pagãs. As relações entre Deus, Satanás os homens era aceite com certa complacência pela Igreja tradicional. Com a Idade Média, a miséria, ignorância e insegurança então reinante, perdida a fé em Deus, o culto do Demónio desenvolveu-se extraordinariamente. O Diabo já não aterroriza então, antes é um cúmplice nos processos de prazer fácil, da riqueza e agressividade.
Antes mesmo e principalmente a partir do Século XII os Papas reagiram a propagação do satanismo em todas as suas formas, e as fogueiras da Inquisição ardem em toda a Europa. Sob a sua alçada caem hereges, cristãos inocentes, adoradores ou não do demónio. A história noticia que, embora haja documentos justificativos de linchamentos e execuções na fogueira a partir de 1163 (ex: Colónia- Alemanha) como casos exporádicos, o passo decisivo para a grande fogueira deu-o Gregório IX.
Primeiro a tortura e a fogueira para os hereges, depois a perseguição e morte das bruxas, astrólogos e alquimistas, com verdade ou não, por simples denúncia e sem possibilidades de defesa.
São séculos de loucura que só viria a afrouxar a partir do século XVII, mas mesmo até ao século XVIII o espírito mau só podia ser invocado em cavernas solitárias e ocultas.
É impossível apontar o número de pessoas mortas no período inquisicional, os historiadores renunciaram a estabelecer uma estatística, mesmo aproximada dês execuções pela fogueira até ao século XVII referido.
O número de pelo menos um milhão, nada tem de fantasia, afirma Bernard Michel,

Que tem o diabo com tudo isto?
Tudo e nada.
Mais do que o interesse do diabo em afirmar-se, releva a utilização que dele fez a Inquisição para readquirir a força religiosa.
A renascença, o grande choque da Reforma, as descobertas geográficas e científicas não apagam instantaneamente o obscurantismo predominante, mas o tempo e as ideias desenvolvem-se e o diabo poderá recuperar de algum modo os pergaminhos meio destruídos mas não perdidos. Atingirá mesmo a “alta-roda” reabilitando introduzindo a Franco-Maçonaria ao longo do século XIX, que dele fará o “Grande Arquitecto do Mundo”, e assim continuará no século XX.
Contemporaneamente abundam diabos e diabas de todas as facetas; a própria problemática da existência da humanidade está nas mãos mais ou menos limpas, na consciência mais ou menos bem intencionada, de um diabo qualquer… um obscuro candidato a Satanás!
E isto já não é sonho, nem alucinação
(continua)



TESTE DE RACIOCÍNIO — UMA AVENTURA DO LOURENÇO
O Lourenço precisava de ir à livraria buscar um livro encomendado. Meteu-se no automóvel, passou pela rua de sentido único onde a livraria se situava e onde era proibido andar de patins ou de bicicleta. Só encontrou lugar para estacionar mesmo no extremo da rua. Saiu do carro e foi à livraria. Voltou ao automóvel e guiou até casa.
Desde a livraria ao local onde estacionara o automóvel existiam três Bancos, todavia Lourenço não passou a pé por qualquer deles nem na ida nem na vinda…
A livraria e lugar onde estacionara ficavam em extremos opostos da mesma rua, no entanto ele não saiu dessa rua. Estranho. Então como foi possível não passar pelos Bancos?
Exercício para as suas “células cinzentas”. Pense um pouco que não é difícil.