8 de abril de 2012

“P” de PÁSCOA, “P" de POLICIÁRIO

BOA PÁSCOA!


Aqui se fala de Páscoa e de mistério. Não da ilha, mas do Domingo de Páscoa.
Por todo o Mundo, muitos países celebram a Páscoa com rituais religiosos ou pagãos.
No entanto, na Noruega cumpre-se uma tradição única e insólita. O período entre a 5ªfeira santa e a 2ª feira depois da Páscoa é uma época de férias a nível nacional. Os noruegueses aproveitam para descansar nas montanhas ou na costa e entregam-se à prática mais comum da quadra pascal: leitura de policiários.
Påskekrim (Crime na Páscoa) está nas prateleiras das livrarias — cheias de novidades em livros policiários — nos jornais e revistas, na rádio e televisão.
Segundo os especialistas, este estranho ritual pode ter origem na morte violenta de Cristo. Seja como for, Påskekrim é bem diferente das doces amêndoas e ovos de chocolate, ou dos inocentes coelhinhos da Páscoa.

A Páscoa também está presente na Literatura Policiária.
Em Portugal é difícil encontrar esta relação, entre a Páscoa e os livros de crime e mistério, apesar da promissora frase inicial de O Crime do Padre Amaro de Eça: Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.Em português:Easter Parade Murder (1957) de Rex Stout
É uma história publicada no livro And Four To Go, que foi editado pelo Círculo de Leitores em 1992 com o título E Vão Mais Quatro com tradução de Manuel Cordeiro.
Em inglês:
Death and the Easter Bunny
(1998) de Linda Berry — a detective Truddy Roundtree, única mulher na Polícia de Ogeechee, investiga o assassinato de um bêbado.
Easter Weekend (1998) de David Bottoms — No fim-de-semana da Páscoa, dois irmãos raptam um jovem rico para exigir um resgate.
Cue the Easter Bunny (2005) de Liz Evans — Grace Smith vê-se obrigada a aceitar um trabalho na Junta de Turismo local. Vestida de coelhinho da Pascoa para promover a cidade “amiga de crianças” acaba por se ver envolvida numa investigação de cartas anónimas que ameaçam um rapaz.
Antiques Bizarre (2010) de Barbara Allan — um mistério da Pascoa que envolve uma raridade, o último ovo Fabergé fabricado.
Easter Murders (2010) de Bryant Jackson & Edward Meadows — o primeiro livro desta dulpla de autores.



CALEIDOSCÓPIO 99

EFEMÉRIDES – Dia 8 de Abril
Baynard Kendrick
(1894 – 1977)
Baynard Hardwick Kendrick nasce em Filadelfia, EUA. Advogado, a partir de 1931 escreve contos para revistas; em 1932 dedica-se em exclusivo à escrita e publica o primeiro romance Blood On Lake Louisa em 1934. O autor é conhecido pela série Duncan Maclain, um detective privado cego que conta com a família e dois cães pastores alemães para investigar crimes de homicídio; a série tem 14 livros editados entre 1937 e 1961 e é a base para o argumento de 2 filmes. Baynard Kendrick escreve também a série Miles Standish Rice, com 3 títulos e ainda mais 7 livros policiários do sub género Quem matou? . Sob o pseudónimo Richard Hayward publica 2 livros:Trapped (1952) e The Soft Arms of Death (1955). Baynard Kendrick é um dos fundadores do Mystery Writers of America e em 1967 é galardoado com The Grand Master Award, a maior distinção atribuída a um escritor policiário por esta organização.


Héléna André (1919 – 1972)
Nasce em Narbone, Aude, França. Autor maldito, esquecido pelos seus contemporâneos e durante muito tempo subestimado. No entanto é um dos escritores mais prolíficos com uma extensa produção na área do romance negro. Durante a sua carreira de 30 anos publica mais de 200 livros. Traduzido nos EUA e Alemanha é considerado nestes países como um dos criadores do romance Polar — o equivalente em língua francesa do policiário negro americano. Héléna André desmultiplica-se em pseudónimos: Andy Helen para a série Ennie Murolas; Buddy Wesson, Patricia Wellwood e Terry Crane para a série La Môme Murielle; Mauren Sullivan e Kathy Woodfield para as histórias de La Môme Patricia e Miss Cyclone; Robert Tachet para a série Le Gars Blankie; e Noël Vexin na série do advogado Valentin Roussel. Usa ainda os seguintes pseudónimos: Alex Cadourcy, Andy Ellen, C. Cailleaux, Clark Corrados, Herbert Smally, Jean Zerbibe, Joseph Benoist, Lemmy West, Peter Colombo, Sznolock Lazslo e Trehall. Com o seu nome publica um conjunto de romance negro sob o título genérico Les Compangnons du Destin e cria o seu personagem mais famoso L’Aristo (ver TEMA) com 16 livros publicados. Em Portugal estão editados alguns títulos com assinatura André Héléna (4 e 5) e todos os restantes sob o pseudónimo Noël Vexin.
1 - Os Amigos da Família (1960), Nº2 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Ces Messieurs De La Famille (1956)
2 – O Jogador (1961), Nº10 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Le Flambeur (1958)
3 - O Segredo de Ursula (1961), Nº12 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: (?)
4 - Proibição de Permanência (1961), Nº15 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Interdit de Séjour (1956)
5 – Em Fuga (1962), Nº24 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: (?)
6 - Os Vagabundos de Nossa Senhora de Paris (1962), Nº26 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Les Cloches de Notre-Dame (1956)
7 - O Mistério do Ouro Desaparecido (1962), Nº27 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Une Affaire En Or (1958)
8 - A Taberna do Cais (1962), Nº38 Colecção Mocho, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Le Bar de l'Ecluse (1957)





Ursula Curtiss (1923 – 1984)
Ursula Reilly Curtiss nasce em Yonkers, New York, EUA numa família de escritores policiários. A mãe Helen Reilly (1821-1962), o tio James Kieran e a irmã Mary McMullen dedicam-se à escrita deste género literário. A autora escreve 22 trillers, muitas vezes com elementos góticos e finais surpreendentes. Os seus contos estão reunidos em The House on Plymouth Street (1985). O romance policiário mais conhecido da escritora é The Forbidden Garden (1962), que também foi editado com o título Whatever Happened to Aunt Alice?




TEMA — CONTO DO VIGÁRIO — HOTEL AVIZ
De Fernando Saldanha
Seriam cerca das 21 horas quando um imponente Buick negro se deteve junto à estrada do Hotel Aviz. O porteiro apressou-se a abrir a porta de trás dando saída a um cavalheiro de 45 a 50 anos, alto e bem parecido, de aspecto distinto.
— Muito boa noite, senhor.
— Boa noite — disse o recém-chegado em tom de polida delicadeza. E depois acrescentou dirigindo-se ao motorista:
— António, venha buscar-me às 10!
Quando o magnífico automóvel se afastou, o cavalheiro estendeu uma nota de cinquenta escudos ao porteiro, que se curvou deferentemente:
— Muito obrigado, senhor…
— Proprietário V…
— Muito obrigado, senhor Proprietário V…!
O novo cliente atribuiu generosamente igual gratificação ao recepcionista, paquete, ascensorista e criado de quarto. E durante dois dias seguidos, pontualmente, sem uma excepção, Proprietário V… continuou a distribuir a mesma gratificação a todos os empregados que o serviam. Tanto bastou para o tornar popularíssimo entre o pessoal.
Na manhã do terceiro dia, Proprietário V… dirigiu-se pessoalmente à recepção.
— Estou à espera de três visitantes. Dois senhores que devem chegar esta manhã e outro que deve vir de tarde. Quando se apresentarem gostaria que os fizesse conduzir imediatamente aos meus aposentos.
— Sim, senhor Proprietário V… Não haverá demora alguma!
O hóspede rapou da habitual nota de cinquenta e depô-la nas mãos do funcionário.
— Ah! Já me esquecia! Deve vir também o meu médico particular. Se este ainda se encontrar nos meus aposentos quando o último visitante chegar, fará o favor de comunicar comigo pelo telefone a fim de lhe dizer quando deverá mandar subir.
— Sim, senhor.
— Mais um pedido.
— Faz favor, senhor Proprietário V… Faz favor!
— Se houver necessidade de me telefonar, faça favor de falar em inglês, pois que o último cavalheiro que espero é dessa nacionalidade e seria indelicado…
— Oh! Mas com certeza, senhor Proprietário V… Com toda a certeza! Pode ficar inteiramente descansado.
O primeiro visitante era um homem de estatura mediana, elegantemente vestido e de porte distinto.
— Desejava falar com o senhor Proprietário V… — disse ele.~
O recepcionista pediu para aguardar um momento, chamou um paquete e mandou acompanhar o visitante, sendo gratificado com uma nota de vinte escudos.
A segunda visita, homem dos seus quarenta anos, de aspecto respeitável, apresentou-se pouco depois.
— Faz favor: pretendia falar com o Proprietário.
— Como? Ah! Ao senhor Proprietário V…?
— Sim, sim…
— Certamente, senhor. É só um momento… — disse o recepcionista enquanto chamava de novo o paquete.
Desta vez a gratificação foi apenas de dez escudos.
Proprietário V… mandou servir almoço para três nos seus aposentos, dando ao criado a infalível gorjeta.
Cerca das 15 horas chegou um cavalheiro
A cena repetiu-se, mas desta vez não houve gorjeta.
O quarto visitante apresentou-se uma hora depois com uma pequena mala de viagem. Muito magro, alto e louro, com óculos de grossas lentes, o recém-vindo não deixava dúvidas quanto à sua nacionalidade.
— Boa tarde — disse em inglês correctíssimo. E acrescentou com aquela singela economia de vocabulário que caracteriza todo o bom súbdito de sua graciosa Majestade Isabel I:
— Desejo falar com Proprietário.
— Muito boa tarde, senhor — respondeu o recepcionista também em inglês — Um momento, faz obséquio. O senhor Proprietário V… está com o seu médico particular. Vou anunciá-lo imediatamente.
— Sim, sim…
Depois de ligar para os aposentos de Proprietário V…, o recepcionista mandou subir o ilustre visitante. As excelentes instalações do hotel e as atenções que o pessoal dispensou ao recém-chegado pareciam encantá-lo e ele entrou radiante nos aposentos de V…, cruzando-se com um homem de maleta na mão que vinha a sair.
— Que lamentável! — disse o visitante para o aprumado funcionário que o recebeu.
— Esta arreliadora doença! Esperava que a transacção pudesse realizar-se ainda hoje, pois necessito deslocar-me sem demora ao Líbano a fim de adquirir uma cadeia de hotéis… Que pena! Provavelmente perderei o avião...
— Não haverá certamente impedimento — disse o jovem funcionário polidamente. — O senhor V… espera que não se importe de ser recebido no quarto.
— Claro! De maneira alguma! — e irrompeu resolutamente pelo quarto onde se encontrava Proprietário V…, muito enfiado entre almofadas e cobertores, assistido por um criado de fardamento impecável.
— Boas tardes. Que contratempo! — ia dizendo o visitante em tom contrito. — Espero que não seja nada de cuidado.
— Muito prazer, senhor Butler — disse Proprietário V… em voz sumida e dolorosa, apertando a mão que o outro estendia. Esta maldita gripe! E logo no dia da sua chegada! As minhas desculpas.
— Não tem importância. O contrato está pronto?
— Só precisa ser assinado — respondeu V… Seguidamente, voltando-se de modo achacado para o jovem funcionário, ordenou: — Traga-me a pasta de couro que está no gabinete da administração.
— Excelente. Óptimo! — comentava o inglês enquanto consultava um volumoso maço de documentos que o funcionário retirara da pasta que fora buscar. — Como vamos nós arranjar para ir ao notário? O avião parte às 20 horas
— Imediatamente — disse V… — Queira ter a bondade de aguardar um momento na sala.
Cinco dias depois, quando Proprietário V… há muito abandonara o Hotel, o pessoal ficou surpreendido com o insólito procedimento de um tal senhor Butler, súbdito inglês recentemente chegado do Líbano, que declarara ruidosa e categoricamente ser o novo administrador do hotel e pretendia que este tinha sido por ele comprado -- e pago em genuínas libras— em nome da London National Company, Inc., directamente ao proprietário V…
Só nessa altura o pessoal deu conta da singular coincidência do cliente que distribuía notas de cinquenta escudos se chamar V… — como o verdadeiro proprietário do hotel. Mas o mais trágico era que o senhor Bulter, com tocante simplicidade e a maior compostura, afirmava ainda que V… lhe conseguira obter, a peso de boas e sonantes libras do Banco de Inglaterra, um contrato de aluguer do Arco da Rua Augusta para lá montar um grande anúncio luminoso do hotel.
— Que tremenda patifaria! — comentou indignado o Chefe Sequeira, da Polícia Judiciária, quando foi encarregado do caso.— Ora esta, esta! Instalar um cartaz publicitário no Arco da Rua Augusta!



TEMA — UM CRIMINOSO INCOMUM — L’ARISTO, O ÉMULO DE LUPIN
Aristo é um ladrão cavalheiro na linha de Arsène Lupin, mas um Arsène Lupin um pouco degradado, mais parecendo uma versão caricatural por causa do calão e da linguagem vulgar utilizada deliberadamente por André Héléna.
A Série Aristo foi publicada pela Editions de la Flamme d'Or de 1953 a 1955.
Mas deixemos ao próprio autor o trabalho de nos apresentar o seu personagem num texto da contra capa dos seus livros:
Aristo apresenta-vos os melhores cumprimentos e tem o prazer de anunciar que tomou a decisão de contar as suas façanhas mais marcantes ao velho amigo André Héléna, que as irá pôr preto no branco, com uma bela capa a cores da autoria de Jef de Wulf.
O leitor verá Aristo aumentar a sua colecção de pinturas de grandes mestres e de livros raros. Verá Aristo aplacar a miséria — de preferência com o dinheiro dos outros. Verá Aristo chegar mesmo a tempo para arrebanhar de passagem os bens mal adquiridos e dar-lhe um uso nobre e aristocrático, o que não o impede de ser um barra em golpes duros — dar e receber — dar e levar pela medida grande.
Mas também verá surgir sempre no momento crucial, para lhe dar uma mão, Suplice, um matulão de coração sensível.
Há apenas um ser humano no mundo, que nem a um nem a outro poderá levar a melhor, é a sedutora, a terna, a apaixonada e ferozmente ciumenta Martine, a amiga de Aristo
Cada volume da série tem uma das aventuras de Aristo, Suplice e Martine, mas é uma história completa.


A biografia de André Héléna assinala que o escritor aos 17 anos foi assistente de Diamant-Berger no filme Arsène Lupin Détective.

De Arsène Lupin a Aristo, uma boa persistência.


7 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 98

EFEMÉRIDES – Dia 7 de Abril
Stephano Vignaroli
(1959)
Nasce em Jesi, Itália. Veterinário de profissão é um apaixonado por animais, jazz, pela montanha e, nos últimos anos, pela escrita. Publica o primeiro livro Delitti Esoterici (2011) seguido de Misteri di Villa Brandi (Janeiro 2012). A protagonista dos dois romances é a Commissario Caterina Ruggeri, responsável pelo Destacamento Cinotécnico do Aeroporto de Ancona. O autor considera o género dos seus livros sui generis: policiário/thriller negro com muita divagações de fantasia e de ficção científica.





TEMA — TERROR SOBRENATURAL — FANTASMAS
Na literatura de terror o efeito arrepio é, em regra, proporcionado pelo sobrenatural, protagonizado por uma horrível dança macabra de arquétipos estranhos que, apesar do realismo científico e cultural, ainda faz parte do subconsciente humano, depositário eterno da herança do primitivismo, quando o homem se encontra com o aterrador e com o desconhecido potencialmente hostil, com o insólito e o mistério.
Da longa e horrível galeria, apresentam-se os Fantasmas, os quais desde sempre têm a primazia. Há-os das mais diversas classes e procedências, infinitas raças e famílias, porém o modelo é o fantasma invisível, que se limita a manifestar a sua presença, gemendo, abrindo e fechando portas, mudando a posição de móveis e objectos ou, ruidosamente arrastando correntes a que estão aguiolhados. Deste tipo são os veneráveis habitantes dos castelos da Escócia e da Inglaterra vitoriana, dir-se-ia mesmo que o fantasma faz parte da valorização do local. Ainda há poucos dias o The Sun noticiava que a Mansão que a cantora Adele adquirira no Essex era povoado por um incomodativo fantasma, a rivalizar com a ultra famosa Dama de Branco que ainda assombra o quotidiano londrino e se internacionaliza. Armaduras ocas que se movimentam, jovem de longos cabelos loucos que levanta o véu e revela a caveira terrificante, ou esqueleto sem cabeça, ancião morto há mais de cem anos que teima em ocupar uma janela e nunca se encontra, luminosidade perseguidora etc. No entanto também existem fantasmas de bom coração e que aparecem somente à família para lamentar a saída prematura para outra vida.
Para tornar o assunto mais tenebroso, a ciência, como é regra, em dúvida vê-se forçada a expor o domínio do invisível. Os materialistas mantêm que a matéria é tudo, que tudo começa e acaba com ela. A parte contrária responde com a razoabilidade de se reconhecer que a matéria e espírito são dois estados diferentes da mesma substância. A matéria vai-se com a morte do corpo, o espírito faz parte do outro mundo, cuja existência, mesmo na simples hipótese, a nossa subconsciência regista num plano de possíveis realidades.




TEMA — LITERATURA — A VALSA
Numa noite de gélido e distante Inverno, em volta da parreira, ouvíamos as histórias da Ti’Ana. Antecipadamente cientes do terror das narrativas, como força estranha e irresistível, um frémito esquivo, que não é febre nem frio, apodera-se-nos do corpo. Em perfeita lucidez, entretanto, vozes fantasmagóricas, ininteligíveis, introduziam-se no chiar do vento provindo da alta chaminé. A candeia de azeite mal cheiroso fumegava sombras mostrengas desenhadas nas paredes deficientemente caiadas.
Mal ousávamos respirar.
A velha, delgada sombria, puxou o xaile negro para os ombros descaídos. O gato preto de olhos cor de fogo, saltou com um miado de posse, e foi anichar-se-lhe no colo! A mão esquelética de dedos incrivelmente compridos acariciou o felino.
Ti'Ana começou:
— Vocês conhecem muito bem aquela casa abandonada da Rua do Açude. O que talvez desconheçam é que aquela moradia teve uma história… uma história terrível e inacreditável.
Fui moça e bela há muito. Pois já nesse tempo os vizinhos contavam que ouviam, por vezes, estranhas e indecifráveis vozes que pareciam originadas num complicado idioma estrangeiro. Isso acontecia, invariavelmente, a altas horas da noite, ia-se ver, não era ninguém… apenas o ranger da madeira velha, guinchos dos ratos que infestavam as ruínas…
Outrora aquela casa, fora entretanto, um berço de amor! Um casal de artistas austríacos, com um filhinho louro e belo, levados por uma predestinação cruel, sabemo-lo agora, mandaram construir o edifício e nele se instalaram felizes.
A senhora, esposa e mãe amantíssima, adoeceu, um dia, subitamente. Tuberculose.
Vários médicos foram consultados. Muitos lugares aconselhados foram percorridos na esperança de se recuperar a saúde perdida. Não melhorando e reconhecendo que as poucas economias desapareciam, pediu ela para voltar para casa. Apresentou então melhoras incríveis e, embora cansada, pediu para tocar piano. O marido tentou dissuadi-la, em vão. Sentou-se e iniciou a melódica execução da sua música predilecta — a Valsa da Meia-noite — mas, quando estava prestes a terminar, teve uma hemoptise, falecendo pouco depois.
O corpo foi a enterrar coberto de violetas, última homenagem do inconsolável esposo.
Precisamente um mês depois o artista acordou ao som da Valsa da Meia-noite. Correu para a sala e viu nitidamente o vulto da esposa tocando: um esqueleto cujos cones fétidos começavam a soltar-se. Um horrível cheiro de podridão e violetas pairava no ar.
— Venho buscar o meu filho, disse o espectro, e desapareceu.
Terríveis gritos vieram então do quarto do garoto, para o qual o artista correu apavorado. O menino, de braços erguidos, numa contracção muscular anormal e inexplicável, como se procurasse o corpo da mãe, estava morto.
No ar, mais uma vez, o odor de podridão e violetas.
Um mês depois, sentado ao lado do piano, como se apreciasse a execução da doce melodia, o homem foi encontrado morto.
Encurtando caminho, passei pela vivenda. Tomara-se-me a vontade um anseio de não acreditar ante o reflexo supersticioso de ser obrigado a reconhecer.
Nada vi até chegar à desconjuntada porta. Depois… a luz de uma vela desceu do primeiro andar ao rés-do-chão e das ruínas… Saiu o som da Valsa da Meia-Noite…
M. Constantino



6 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 97

EFEMÉRIDES – Dia 6 de Abril
Lowell Thomas
(1982 – 1981)
Lowell Jackson Thomas nasce em Woodington, Ohio, EUA. Pioneiro no jornalismo de rádio, repórter de guerra, explorador e escritor, é famoso por ter dado a conhecer Lawrence da Arábia com With Lawrence In Arabia (1924). As viagens de Lowell Thomas a locais remotos do planeta são o tema dos seus livros de aventuras; e a actividade como repórter na 1ª e 2ª guerra mundial está bem patente na sua extensa bibliografia.

Douglas Hill (1935 - 2007)
Douglas Arthur Hill nasce em Brandon, Manitoba, Canadá. Editor e escritor de ficção científica, com meia centena de livros publicados, é mais conhecido pela série Galactic Warlord (The Last Legionary) destinada a leitores jovens. A série Last Legionary é composta por 5 volumes: Galactic Warlord (1979), Deathwing Over Veynaa (1980), Day of the Starwind (1980), Planet of the Warlord (1981) e Young Legionary (1982). Usa também o pseudónimo Martin Hillman.




TEMA — ESPIONAGEM — LAWRENCE DA ARÁBIA
Thomas Edward Lawrence, mais conhecido por Lawrence da Arábia, nasceu no País de Gales em 1888, segundo filho de um nobre irlandês e veio a tornar-se uma lenda. Poeta, arqueólogo, guerreiro, agente secreto e aventureiro, cabe-lhe justamente esta última qualificação.
Numa sociedade em que impera o culto pelo desporto, despreza-o, preocupando-se tão só por endurecer o corpo e a capacidade de resistência, desde os primeiros dias de escola. Estudou em Oxford e fez férias na Síria praticando o idioma árabe. Doutorou-se em História com uma tese sobre arquitectura militar dos cruzados. Trabalhou para o Museu Britânico em Carquemis (Jerablus), tendo percorrido a Mesopotâmia e o Egipto. No início da 1ª Guerra Mundial, alista-se no exército britânico, como oficial exerce funções no Estado Maior, mas em 1915 foi enviado para os Serviços de Informação do Exército no Egipto. No ano seguinte desembarca em Deraa para contactar o rebelde árabe contra a ocupação turca da Arábia. Dois anos mais tarde, com três mil homens, imobiliza mais de cinquenta mil soldados turcos, facilita a conquista da Palestina e Arábia pelas tropas inglesas e entra em Damasco à frente e como chefe do exército rebelde, vestido de branco dos peregrinos de Meca, adornado com cordões amarelos e vermelhos e uma adaga de ouro à cintura. É a glória. Lawrence converte-se num herói. Vestido com roupas árabes é respeitado e considerado um deles, tem influência e protege os interesses britânicos, cujo dinheiro anda altamente envolvido. Mais do que um agente secreto, é um guerreiro entre os guerreiros, um aventureiro de sorte. O domínio britânico vai-se alargando e estabelecendo. Herói duplo para ingleses e árabes, esquecendo-se por vezes de que é um oficial inglês e um espião pago pela coroa, favorece os árabes com os quais se identifica, até alguém se lembrar desse facto. Regressa a Londres já em 1918 com a promoção a tenente-coronel. Deixa o seu coração nas areias escaldantes, que no íntimo a sua luta seria, claramente, a independência árabe.
O esforço físico dispendido foi exaustivo. Sente-se esgotado mas regressa a Oxford e resolveu escrever. Não se conhece relação feminina. Morre num acidente de mota em 19 de Maio de 1935.
Um homem estranho com muita vida, rodeado de muitos acontecimentos, sobre os quais muito se escreve e comenta.




TEMA — ANATOMIA DO CRIME — MÁGICA REALISTA
Nos meados do século XIX, mais precisamente em 1862, nenhum outro mágico conseguiu alcançar a força de Ugo Cavalli.
O mais velho e conhecido número de magia — serrar uma mulher pelo meio — era por si praticado com um realismo jamais atingido por outrem. Ainda que antecipadamente se soubesse que não passava de um truque bem delineado e concebido, e que a mulher estava encolhida num canto da caixa cortada, longe do alcance das lâminas, ou já desaparecida por uma abertura secreta, os espectadores sustinham a respiração, dilatavam os olhos suspensos do resultado.
De resto Cavalli cativava a plateia. Capa negra que lhe chegava ao chão, chapéu alto da mesma cor, bigode torcido e enrolado, igualmente negros os olhos profundos, espessas sobrancelhas, voz de barítono na realidade um mágico encantador.
Ainda que fosse a sensação máxima do velho continente, desejava sempre e sempre aperfeiçoar o seu número de serras. Tão meticuloso e concentrado se mostrava no seu trabalho que, invariavelmente, ao dar por findo o espectáculo, desmaiava, no que era acompanhado pelos espectadores mais impressionáveis no meio dos mais fortes aplausos dos outros.
Claro que tinha concorrentes que não só copiavam o seu trabalho como os próprios modos de falar e de vestir.
Ugo sorria desdenhosamente. Um dia pensou fazer um trabalho deixaria os seus copiadores roendo as unhas de inveja! Duas semanas mais tarde teve a ideia genial que revolucionaria toda a sua mágica. E durante meses, com um fim, procurou um par de gémeas, jovens e bonitas. O seu trabalho não ganharia com mulheres feias.
De Praga chegaram, finalmente as desejadas irmãs gémeas, Caterina e Hilda Freagu, de vinte e um anos, moças lindíssimas.
Ugo preparou tudo e o número fenomenal que pretendia realizar foi anunciado em todos os jornais com uma enchente soberba. Toda a gente queria ver o espectáculo! Na hora marcada Ugo Cavalli ocupou o palco. Convidou os mais eminentes cidadãos e autoridades locais a examinarem a caixa, a qual, referiu bem, não tinha fundos falsos. Curvou-se, enfim, diante do público, pegou a linda Hilda Freagu pela mão, e apresentou-a ao público, colocando-a na caixa com galanteria e carinho. Caterina esperava na sombra.
Ugo pegou na serra. Medonhos gritos começaram a sair da caixa, quando começou a serra-la. Encantados, os espectadores deliravam de emoção, apreciando o toque de realismo do grande mago enquanto ia serrando a caixa até atingir o fundo.
Ugo limpou o suor com um grande lenço escarlate, sorriu para o público e abriu a caixa. A linda rapariga saiu alegremente do seu interior — era Catarina.
A plateia aplaudiu frenética e longamente.
Desta vez foi Caterina quem desmaiou. E quando recuperou os sentidos e correu para a caixa seguida de alguns espectadores, encontrou a sua irmã gémea serrada ao meio… o inevitável realismo que Ugo oferecia ao publico!
Sadismo? Loucura?
O júri achou que merecia a morte e Ugo Cavalli, o super-mágico, deu o seu último espectáculo balouçando desesperadamente na ponta de uma corda.
M. Constantino


5 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 96

EFEMÉRIDES – Dia 5 de Abril
Lee Thayer (1874 - 1973)
Emma Redington Lee Thayer nasce em Troy, Pensilvânia EUA. Artista, pintora, ilustradora e escritora. Publica 60 (sessenta!) romances policiários: o primeiro The Mystery of the Thirteen Floor, em 1919, e escreve o último aos 92 anos de idade Dusty Death (1966). Com a excepção de um único livro, são todos protagonizados por Peter Clancy, um detective ruivo nova-iorquino. O estilo da autora tem sido comparado com o de Anna Katharine Green e S.Van Dine.



Robert Bloch (1917 – 1994)
Robert Albert Bloch nasce em Chicago, Illinois, EUA. Começa por publicar contos na revista Weird Tales. Durante uma carreira de 60 anos escreve 22 romances e mais de 200 contos sobretudo de fantasia, horror e ficção científica, mas também policiários de crime e mistério. Trabalha como argumentista em Hollywood para televisão e cinema. É um dos autores mais produtivos e mais premiados de literatura fantástica do séc. XX. Considerado um sucessor de Edgar Allan Poe e Lovecraft, tem no entanto uma escrita com características muito próprias. A sua obra mais conhecida é sem sombra de dúvida Psycho (1959), base do famoso filme de Alfred Hitchcock. Robert Bloch é presidente da Mystery Writers of America em 1970. Em Portugal estão editados:
1 – Psico (1961), Nº3 Colecção Grandes Êxitos do Cinema Mundial, Agência Portuguesa de Revistas. Título Original: Psycho (1959)
2 – O Vale da Corrupção (1969), Nº2 Colecção O Livro Oportuno, Palirex. Título Original: The Star Stalker (1968)
3 – A Sombra do Campanário (1975), Nº68 Colecção Série Antecipação, Editora Panorama. Título Original: The Shadow From the Steeple (1950)
4 – Dragões e Pesadelos (1979) Portugal Press. Título Original: Dragons and Nightmares (1968)
5 – No Limiar da Realidade (1984) Nº5 Colecção Livros de Bolso, Série Pêndulo, Publicações Europa-América. Título Original: Twilight Zone (1983)



Arthur Hailey (1920 – 2004)
Nasce em Luton, Bedfordshire, Inglaterra. Vive no Canadá, Estados Unidos e fixa-se definitivamente nas Bahamas no final da década de 70. Inicia a carreira de escritor em 1958 com Flight Into Danger. Escreve um total de 11 romances que estão traduzidos em 40 idiomas, com 160 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e quase todos adaptados ao cinema ou séries de televisão. Alguns dos seus livros estão editados em Portugal:
1 – Voando Para o Perigo(1960), Nº1 Colecção 3C, Ulisseia. Título Original: Flight Into Danger (1958), também editado com o título Runway Zero Eight
2 – Aeroporto (1969), Colecção De Hoje, Livraria Civilização. Título Original: Airport (1968)
3 - Mundo Automóvel (1972), Colecção De Hoje, Livraria Civilização. Título Original: Wheels (1971)
4 - Hospital (1974), Círculo de Leitores. Título Original: The Final Diagnosis (1959)
5 - Os Traficantes de Dinheiro (1979), Circulo de Leitores. Título Original: The Moneychangers (1975)
6 – Catástrofe (1980), Nº172 Colecção Século XX, Publicações Europa-América. Título Original: Overload (1978)
7 – Remédio Amargo (1985), Circulo de Leitores. Título Original: Strong Medicine (1984)



TEMA — CIÊNCIA FORENSE — UM CASO NO EGIPTO
Depoimento de Sir Sidney Smith professor da Universidade de Edimburgo.

Pode acontecer que, quando o perito médico-legal e chamado não haja qualquer prova circunstancial. Achei-me perante um caso típico, no Egipto, em mil novecentos e vinte e tal, quando se encontrou o corpo de um oficial britânico, nas margens do Nilo, com uma bala na cabeça. Era um homem novo, solteiro e saudável; não conhecia inimigos e não tinha complicações com o outro sexo; não tinha também dificuldades financeiras e ocupava um bom lugar no Governo Egípcio. Aparentemente, saíra de casa depois do jantar, percorrera de bicicleta cerca de uma milha, fora da cidade, dirigira-se a pé até à margem do Nilo, sentara-se e, ou fizera saltar os miolos, ou alguém lhos fizera saltar. Não havia qualquer carta a anunciar o suicídio, nem qualquer motivo plausível para homicídio, mas, naquele tempo, no Egipto, o assassínio político era corrente, e mais da que um súbdito britânico fora encontrado morto em circunstâncias estranhas. Este caso levantou considerável celeuma nos círculos governamentais e, se se tratasse de assassínio, a sua repercussão devia ser séria. Na falta de qualquer outra prova, tudo dependia do exame médico-legal.
A bala entrara pelo lado direito da testa e saíra pelo lado esquerdo da nuca. Uma mancha negra e queimada à volta do ferimento mostrava que a bala fora disparada de perto. Não havia qualquer sinal de luta, quer no corpo do homem, quer no lugar em que fora encontrado. Tudo isto indicava fortemente o suicídio, mas a falta de outra prova tornava desejável uma corroboração. Depois de um exame cuidadoso a todo o corpo, dois pormenores ressaltaram: havia uma pequena equimose num dos dedos da mão direita e o colete e a camisa estavam desabotoados. Deduzi que a equimose fora feita ao entalar a pele do dedo, quando puxara o percutor da pistola e parecia lógico deduzir que desabotoara o colete e a camisa com a primeira intenção de alvejar o coração. Só por si, estas hipóteses eram fracas, mas importantes, como prova corroborativa. O veredicto foi suicídio.
O perito médico-legal pode ser chamado a fornecer provas quer à acusação quer à defesa. Se os seus serviços não estão agregados pela polícia pode utilizá-los para ajudar uma pessoa acusada do crime. E ainda que ajude a polícia nunca deve deixar-se influenciar por qualquer teoria desta. O que ele descobrir pode muito bem destruir o que a autoridade considerara um caso evidente contra uma pessoa particular. Pode também dirigir a atenção da polícia para uma nova linha de investigação.
O campo de acção da medicina legal não tem sido constante. Houve tempo em que incluía a saúde pública, mas está 'tornou-se há muito, uma especialidade separada. Similarmente, a psiquiatria tem absorvido grande parte do trabalho que costumava incluir-se no campo de acção do médico-forense. Depois, até dentro do seu próprio campo, verificou-se grande quantidade de especializações. O patologista, o serologista e o toxicologista legais são quase especialistas por direito próprio e, idealmente deveriam trabalhar em conjunto, como que formando uma equipa.
Nem toda a ciência forense é médica e muitas vezes torna-se necessária a cooperação do botânico, do zoólogo, do entomologista, do geólogo e de outros especialistas. As fronteiras entre as várias disciplinas científicas nem sempre estão nitidamente marcadas e, em certas circunstâncias, criaram-se algumas anomalias. Nada há de médico na identificação de armas de fogo através de um exame das balas e das cápsulas dos cartuchos; mas não existe qualquer especialidade separada de balística legal e este trabalho, no meu tempo, recaía sobre o perito médico-legal, por este estar acostumado a lidar com balas em relação a ferimentos e por não haver mais ninguém que o fizesse.


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — PAZ NA TERRA
De Hélia

Quando estava a morrer, pediu--me: “Vai ao cemitério, antes de eu ser enterrada, e põe na minha cova este saquinho. Dissimula-o bem. Quero ficar com ele bem perto… no Além”.
Ela foi sepultada sem grande acompanhamento.
Em vida fora demasiado perigosa para ter amigos. Por isso fora sozinha para a Morte.
Havia qualquer coisa de estranho naquela morte. Não sei dizer o que seria. Fora uma morte rápida mas não identificada.
Médico algum conseguira diagnosticar a natureza da doença. Inexplicavelmente, todo o seu organismo envelhecera e definhara, em vinte e quatro horas. Só.
Fui para casa depois do funeral. Sentia-me aterrorizado ao pensar numa longa e primeira noite sozinho. Sem a minha esposa.
Duramente olhei a cama vazia. Na sua almofada havia uma depressão. Um frio tocou-me, envolveu-me.
A porta atrás de mim fechou-se com suavidade macabra.
Uma dor aguda de terror rasgou-me o peito.
Alguém estava junto de mim. Voltei-me lentamente, fazendo um esforço brutal para não gritar.
O perfume dela asfixiou-me num pesadelo. Pendurado na porta o seu robe oscilava levemente… quase trocista.
Sacudi a cabeça. Não havia mais ninguém no quarto.
Sentei-me, completamente arrasado. As mãos tremiam-me violentamente. De súbito o telefone tocou. Foi como uma descarga eléctrica. Saltei, espavorido, e olhei maquinal para o relógio. Tinham passado três horas desde o funeral de Mirzah. Três horas passadas não sei como, a deambular com medo da solidão da nossa casa.
Abri a porta, entrei na sala e atendi o telefone.
— Sim?
— Querido… estou Livre… adeus.
O estrondo do auscultador a bater na mesinha fez-me saltar. Largara o aparelho como se fora fogo. Porque… a voz era dela!
Naquela noite apanhei uma bebedeira e dormi no sofá. Aquele quarto, o meu quarto, metia-me medo.
No dia seguinte encontrei um bilhete preso na almofada.
— Há algo que por enquanto não poderás entender visto seres terrestre. Talvez te consiga passar para o nosso lado. MIRZAH.
Era a letra dela.
Fui consultar um psiquiatra. Não lhe mostrei o bilhete, pois nada provava. Diagnóstico: desequilíbrio nervoso, saudade, enfim…
Algo se moveu quando entrei em casa. Entrei no quarto para mudar de roupa.
Finalmente ela estava ali.
Bela, como fora antes da estranha doença.
Senti-me entorpecido. Estava louco por certo, mas só de vê-la não me importava. Ela sorriu-me:
— Olá, querido.
— Olá!
— Não tens medo?
— Um pouco. Porém ao ver-te sosseguei. Sei que me queres bem… embora não saiba o que se está a passar.
— Vais sofrer qualquer coisa que é demasiado complexo para te explicar. Mas consegui autorização para que passes para o nosso lado.
— Mas…
— Eu sei que, te parece tudo irreal. Não sou um fantasma. Sou o que vocês chamam… de outro planeta. Fui espia na Terra e trabalhei sob essa capa pois era uma verdadeira espia inter-espacial. O vosso planeta foi considerado como não perigoso para nós. Quando te pedi para enterrares aquele saquinho, confiei-te a minha vida. Se não o tens feito teria morrido enterrada viva. O saco continha um transferidor de matéria, que actuou sobre mim e me transportou para aqui. Irás fazer uma longa viagem no tempo… e no espaço…
Eu olhava-a, fascinado. As suas palavras entravam-me no cérebro sem que qualquer som saísse da sua boca.
— Deita-te, amor.
Injectou-me algo e senti-me adormecer. Ainda vi Mirzah deitando o nosso gato junto a mim.
Depois…
O Dr. Fritz franziu fortemente o sobrolho. Era o segundo caso de envelhecimento súbito. Primeiro fora aquela mulher, Mirzah, e agora… Santo Deus! Mas aquele era o viúvo de Mirzah!
Poucos minutos tinha de vida. Algo de muito estranho se passava, pois haviam-lhe telefonado dizendo haver um moribundo naquela morada. Ele fora. Um homem envelhecido precocemente jazia num leito, agonizando. E uma carta junto a ele rezava:
“Quero ser enterrado no cemitério de…, com o meu gato e este saquinho. É este o meu último desejo.
Paz na Terra aos Homens de boa vontade”.

4 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 95

EFEMÉRIDES – Dia 4 de Abril
Stanley G. Weinbaum (1902 – 1935)
Stanley Grauman Weinbaum Weinbaum nasce em Louisville, Kentucky, EUA. É um escritor de ficção científica, que inicia a sua carreira com o conto A Martian Odyssey em Julho de 1934, na revista Wonder Stories (1929–1955), uma das primeiras a surgir no mercado norte-americano. O conto teve um sucesso estrondoso pela inovação e realismo com que é descrito o cenário extraterrestre. Weinbaum é de imediato considerado como o melhor escritor de Ficção Científica. A sua morte prematura faz com que a maior parte da obra literária deste autor seja editada postumamente. Tem trabalhos adaptados à rádio, televisão e cinema. É galardoado em 2008 com Cordwainer Smith Rediscovery Award, um prémio instituído em 2001 com que a Cordwainer Smith Foundation distingue os autores de fantasia e ficção científica. Uma cratera do planeta Marte tem o nome do escritor, uma curiosidade que demonstra a importância de Weinbaum.




TEMA — BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA POLICIÁRIA – 6
(continuação de CALEIDOSCÓPIO 74)

Estamos a findar os últimos anos da Idade Média e pouco existe de relevante para os antecedentes da narrativa policiária. Citamos duas fontes:

O Decameron de Giovanni Boccaccio (1313-1375), foi escrito, com muitas possibilidades, entre 1349 e 1353, constituindo a única actividade literária do autor. E mais uma recolha e adaptação de narrativas já existentes então, mas de procedência desconhecida. Ali um conto contém todos os ingredientes adstritos ao género policial hoje em voga, a que não falta o erro policiário, mistério e intriga, para culminar no duplo, temática esta bastante divulgada e apreciada.
Geoffrey Chaucer (1340-1400), que desempenhou cargos importantes na corte de Henrique II e Ricardo II, é um outro autor a citar. Os Contos da Canterbury (1387) formam um panorama completo da Inglaterra do Século XIV, distinguindo-se pela variedade dos temas, alguns totalmente originais, outros inspirados em Boccaccio ou em fontes francesas, porém todos diferentes, cheios de vida
Para o tema em questão, escolhe-se, entre outros igualmente prestáveis factualmente, a história do tesouro que, sob vistas diferentes, figura também no Novellino, uns famosos Contos de Canterbury acreditando-se recolhida de um exemplar anónimo do Século XIII pelo monge inglês Udo de Cheriton.

Havia em Flandres um grupo de jovens entregues a todos os excessos e loucuras possíveis.
Três desses libertinos encontravam-se a beber numa taberna, quando passou um funeral.
Um deles chamou o criado e disse-lhe:
— Corre a informar-te quem é o defunto.
— Senhor - respondeu o criado. — Não é necessário. Duas horas antes de chegares já se sabia que era um amigo vosso. Morreu repentinamente, bêbado, na noite passada. Foi um ladrão clandestino a quem chamam Morte e que assassina toda a gente. Tem matado mais pessoas do que a peste; seria conveniente tomar precauções!
— Tem razão o rapaz - disse o Taberneiro.
— É assim tão perigoso? — disse um dos libertinos — Pois mataremos esse falso Traidor a que chamais Morte.
E logo ali, os três juraram viver e morrer cada um pelos outros, até encontrarem o assassino.
Saíram. Começaram a procurar. Ainda não tinham andado meia milha quando encontraram um ancião que os saudou:
— Deus os proteja, Senhores!
O mais orgulhoso deles perguntou:
— Porque vives, se és tão velho? Porque tapas o rosto?
O velho mirou-o e respondeu:
— Senhor, porque percorri todo o mundo até à Índia pela minha velhice. Por isso sobrevivo, mas não é cortês da vossa parte desdenhar de um homem de cabelos brancos e que espera a todo o momento o sudário da Morte.
— Acabas de mencionar o nome do Traidor que assassina nesta terra todos os nossos amigos, deves ser um espia desse assassino.
— Bem, Senhores — voltou o ancião — se desejais falar com a Morte, percorrei esse caminho tortuoso e procurai aquela árvore…
Os três lançaram-se a correr, sem mais ouvir, direitos à árvore. Ali chegados esqueceram-se por completo da Morte, pasmados ante o espectáculo que lhes oferecia: um monte de famosos brilhantes e moedas de ouro.
Sentaram-se à sua volta.
Um deles, talvez o pior, disse:
— Irmãos, julgais-me mal, mas sou de bom juízo. A sorte deu-nos este tesouro para que vivamos entre diversões e alegrias, com a mesma facilidade do que temos feito. E uma oferta de Deus! Se pudéssemos transportar todo este ouro seríamos felizes. Mas a verdade é que não podemos levá-lo de dia, sob pena de nos tomarem por ladrões. A minha opinião é que devemos sortear entre nós quem irá à cidade e traga dissimuladamente pão e vinho e quando chegar a noite levaremos o tesouro como melhor pareça.
Tiraram à sorte e coube ao mais novo ir à cidade. Logo partiu.
Quando já ia longe: os que ficaram combinaram entre si o assassinato do outro, pois no repartir este dois poderiam atender a todos os desejos.
O mais novo, a caminho da cidade, não parava de pensar, imaginando o que faria com montes de riqueza, se ficasse com todo aquele tesouro. Por fim, o demónio inspirou-o a comprar veneno para matar os companheiros.
Foi ao boticário comprar veneno para ratos, sendo-lhe recomendado cuidado, pois qualquer criatura que dele tomasse um pouco morreria num instante, pois era eficaz e violento.
O jovem guardou o veneno, pediu emprestados três garrafas para levar vinho e em duas delas colocava o veneno.
Voltou para junto dos outros dois, os quais prontamente, como combinado lhe deram a morte.
Um deles disse:
— Pronto, está feito, agora vamos sentar-nos e bebamos um pouco. Depois enterramos o cadáver e levamos o ouro.
Retiraram uma garrafa, que por acaso era uma das que continha veneno, e beberam o conteúdo. De imediato caíram mortos.
Assim acabaram os dois homicidas e o falso envenenador.
O segundo e anterior capítulo, correspondente a um período dominado manifestamente pela ignorância e superstição, distinguiram-se, entretanto para a nossa causa: “Juízos de Deus”, uma directa aplicação da psicologia criminal moderna; espírito analítico no seu estado mais puro; valor da observação; sabedoria e perspicácia, lógica e dedução, astúcia; o trama dos duplos e, por fim, uma boa pitada de pré-novela negra e suspense que baste.

Historicamente atingem-se os finais da Idade Média e na literatura inicia-se a época dos grandes contistas e o movimento designado por Renascença.
No plano da justiça, a concepção germânica do direito, que prevalece até ao séc. XIV e compreendia a quase totalidade da. Europa que se apregoava civilizada, é um direito na qual as partes gozam de iguais oportunidades, julgados divinamente, mas aplicada por pessoas que nada tinham de divinas, deu lugar ao direito canónico, influenciado pelo direito romano. O processo de inquisição junto dos Tribunais domina todo o Sacro Império Romano Germânico e espalha-se pela Europa. Os “Juízos de Deus”, cruéis sem dúvida, os duelos, deram lugar à tortura (aquilo que hoje se designa pela prática policial do “terceiro grau” e será uma sombra do passado já que se impunha que ninguém podia ser acusado sem confissão e era necessário obtê-la.
É incompreensível às mentalidades actuais como foi possível tolerar durante tantos anos os requintes de crueldade praticados, quando nem a desculpa da sua eficácia se lhe reconhecia!


3 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 94

EFEMÉRIDES – Dia 3 de Abril
Reginald Hill
(1936 – 2012)
Reginald Charles Hill nasce em West Hartlepool, Country Durham, Inglaterra. Escritor policiário criador dos detectives Andrew Dalziel, Peter Pascoe e Edgar Wield, publica o primeiro livro em 1970, A Clubbable Woman, que inicia a série Dalziel e Pascoe, um conjunto de 24 romances adaptados pela BBC à televisão. Escreve sob o seu nome, ou com os pseudónimos literários Dick Morland e Charles Underhilla a série Joesixsmith — com 5 títulos, 15 romances policiários e 3 livros de short stories. Entre 1971 e 1991, sob o pseudónimo Patrick Ruell, publica 6 thillers. Este autor é nomeado para o Edgar Award, Best Novel com Bones and Silence em 1991 e para o prestigiado Anthony Award Best Novel com On Beulah Height, em 1999; os dois livros pertencem à série Dalziel e Pascoe, que lhe dá também, em 1990, o Gold Dagger. Reginald Hill recebe ainda em 1995 o prémio mais ambicionado pelos escritores policiários, o Cartier Diamond Dagger Award, atribuído pela Crime Writers Association aos autores que ao longo da vida, contribuíram de forma notável para este género literário.


TEMA — SOCIEDADE — POLÍCIA DE FICÇÃO, BOM; POLÍCIA REAL, MAU…
O título supra, encerra um conceito vulgarizado, se bem que sem unanimidade ou nem sequer maioria. A verdade é que desde o aparecimento do primeiro investigador privado — polícia amador ­— criado por Edgar Poe em 1941 seguido mais tarde por outros autores criadores de vários tipos de polícias amadores e oficiais. Estes têm fascinado os leitores do mundo inteiro, milhões de pessoas de todas as classes e credos, deliciam-se, compartilhando as dificuldades, fracassos e êxitos dos personagens investigadores, procurando por conta própria ajudar ou tentar desvendar os mistérios, em plena cumplicidade, admirando a habilidade e inteligência ficcionada.
Em contrapartida, muito pouco se tem escrito sobre os polícias e investigadores da vida real. De ordinário — a surpresa das surpresas — os nomes dos grandes criminosos são a notícia e o livro para o grande público, enquanto os homens que os investigaram e detiveram, arriscando por vezes a própria vida e a dos seus familiares, quedam obscuros nas páginas da história. São notícia quando protestam, mesmo quando cumprem um dever.
O papel do polícia, desde a simples vigilância, à protecção da sociedade, ajuda humanitária, etc., revela-se um importante factor social. E não é fácil, nem digno de estima, por vezes estar ao lado da lei.
Por vezes, quando o polícia se sente desamparado reage negativamente “a quente”. É natural, como no caso que apresentamos em seguida.

Por volta do final dos anos oitenta, exercia funções em Santarém. Uma vez por semana, ou de quinze em quinze dias, ia almoçar a um restaurante chinês — uma amizade que havia estabelecido — existente por detrás do mercado municipal.
Junto ao portão principal um cego, com uma caixa de cartão, pedia esmola. Num rápido movimento, um jovem de cerca de 25/30 anos, acerca-se, limpa a caixa das moedas e põe-se em fuga em direcção ao tribunal. Tão rápido, surgiu um agente policial que numa corrida apanha o ladrão. Este debate-se para se soltar. Junta-se uma pequena multidão que ajuda o raptor, mesmo sem ter conhecimento do acontecido. A autoridade, rodeada, acaba por deixar escapar o detido, perante a zombaria do pequeno ajuntamento.
Meses mais tarde, passava de carro no mesmo local. Aí dois veículos haviam chocado: nada de grave, apenas chapa batida. Desviei-me e segui caminho mas, quase a chegar à rua do Jardim da República, vi um polícia olhar para o acidente, virar-se e escapulir do acontecido. Acelerei e ultrapassei-o disposto a interpelá-lo em relação à sua atitude, porém, para meu espanto, reconheci o polícia do outro dia e compreendi (mal!) a sua atitude de “gato escaldado”. Abanei a cabeça e comentei em voz alta: “Isso é feio, sr. Guarda!”. Continuei, mas não estava satisfeito pela sua atitude e até pela minha, pelo que logo que consegui voltei para trás, mas não vi o polícia. Prossegui, passei pelo local do “acidente” e lá estava ele de apito a ordenar o trânsito. Certo! Certo!
Não mais voltei a ver o polícia, com o tempo duvido que o reconhecesse, guardei para mim o que lhe queria dizer: “ Meu caro, uma andorinha, não faz a Primavera. Espero que compreenda, uma pequena multidão pode ser desagradável, mas nunca representa a Sociedade em si.
M. Constantino


TEMA — CASOS E ACASOS DO CRIME — CRIME MISTERIOSO
Uma manhã, a senhora Payne dirigiu-se à garagem da sua residência, pôs o automóvel a funcionar e partiu para o seu passeio matutino que realizava todos os dias. Madame Payne, pois este era o apelido de seu marido, um advogado muito conhecido em Amarillo, encontrava-se adoentada desde há dias e o seu médico aconselhou-a a dar todas as manhãs um passeio de automóvel até ao campo. Naquela manhã, o automóvel, depois de ter percorrido dois quilómetros, foi pelos ares, autenticamente feito em estilhas. A automobilista, como é de supor ficou horrorosamente esfacelada
A polícia, que logo foi chamada a intervir verificou, sem dificuldade, que tinha havido uma explosão de dinamite no automóvel. Pelo mistério que envolvia o acontecimento e pela categoria da vítima, hábeis agentes empregaram o melhor da sua argúcia para a descoberta do caso. Passaram-se semanas sem que alguma coisa de concreto fosse revelada. E, por isso, perante o fracasso das investigações, fora praticado um crime perfeito.

Diz o repórter A. Mac Donald, que desvendou o mistério
Adquiri todos os jornais que falavam do caso e fiz constar que novo detective tinha chegado para proceder a investigações. Nessa qualidade dirigi-me à vivenda do advogado Payne, porque entendi que devia falar com ele antes de proceder a qualquer trabalho. Recebeu-me amavelmente e relatou-me a tragédia num tom de frieza que me surpreendeu. A sua voz não tinha emoção. A certa altura, disse-me: “Fomos uns esposos modelos, nunca tivemos um incidente, como o podem testemunhar os nossos vizinhos”. E era verdade. Perguntei-lhe qual era a importância em que sua esposa estava segura e respondeu-me que não era coisa extraordinária.
O velho refrain da polícia francesa, “Cherchez la femme”, girava na minha imaginação. Por isso ouvi a empregada Verona Thompson que, perante a minha insistência, declarou para minha surpresa que o patrão preparara o assassínio da mulher.

O Sr. Payne na sede da polícia não se fez rogado.
— Como preparou a morte se sua esposa?
— Antes disso retorquiu o sr. Payne — pergunto: serão capazes de o adivinhar?
O seu sangue frio surpreendeu-me. Cada um dos presentes formulou uma hipotese e ele ria, ria ao verificar que ninguém acertava. E contou com toda a calma.
— Principiei por lhe aplicar, nos alimentos, uma porção de veneno, mas isso não deu resultado. Depois, tentei asfixiá-la com o gás e, durante seis horas, deixei o fluído livre no seu quarto. Também não deu resultado. Abandonei essa ideia e tentei outro processo. Um dia coloquei, com um dispositivo especial um revolver na porta do quarto, para que, ao abri-la, a arma se disparasse e a bala atingisse. Nem assim. Farto de tanta tentativa, comprei três petardos de dinamite, que uni a um detonador. Na noite antes da morte, coloquei-os debaixo do assento dianteiro do automóvel, com uma mecha embebida em álcool cuja combustão calculei duraria dez horas antes que a chama chegasse à dinamite. Na manhã seguinte minha mulher levantou-se e foi dar o seu passeio habitual. A minha suposição falhou um pouco. Supus que a explosão se desse a maior distância da minha casa. Porque resolveu matar sua mulher?
— Ainda o pergunta? Por causa da outra mulher.

2 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 93

EFEMÉRIDES – Dia 2 de AbrilHulbert Footner (1879 – 1944)
William Hulbert Footner nasce em Hamilton, Ontário, Canadá. Muda-se para Nova Iorque em 1898. Actor, jornalista, dramaturgo e escritor publica os primeiros livros sobre viagens no rio Hudson em canoa. Nos anos 20 inicia a sua carreira como autor policiário com o livro The Under Dogs. Cria os personagens Amos Lee Mappin e Rosika Storey. Entre 1925 e 1944 escreve um total de 51 romances, 6 livros de contos policiários.


Howard Engel (1931)
Nasce em St Catharines, Ontário, Canadá. Curiosamente, tal como Hulbert Footner, é um escritor canadense, mas vive sempre no país. Cria a série Benny Cooperman, um investigador privado da pequena cidade canadiana de Grantham, já com 12 títulos publicados. Escreve ainda 2 romances: Mr. Doyle and Dr. Bell (1997) e Murder in Montparnasse: A Literary Mystery of Paris (1999). Howard Engel é um dos fundadores de Crime Writers of Canada. O autor recebe o Arthur Ellis Award for Crime Fiction, Best Novel em 1985 com Murder Sees The Light e em 1998 recebe o prestigiado Derrick Murdoch Award que distingue os escritores que de crime e mistério.
Em Portugal estão publicados 4 livros deste escritor, todos editados pela Caminho e com tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.
1 – Os Suicidiocídos (1987), Nº62 Colecção Policial de Bolso. Título Original: The Suicide Murders (1980), o 1º livro da série Benny Cooperman
2 – O Jogo do Resgate (1988), Nº78 Colecção Policial de Bolso. Título Original: The Radsom Game (1981), o 2º livro da série Benny Cooperman
3 – O Crime Tem Uma Revelação (1989), Nº94 Colecção Policial de Bolso. Título Original: Murder Sees The Light (1998), o 4º livro da série Benny Cooperman
4 – Crime Em Montparnasse (1997), Nº176 Colecção Policial de Bolso. Título Original: Murder in Montparnasse: A Literary Mystery of Paris (1999)





TEMA — BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (18-20)

Volume 18 — I Robot (1940) de Isaac Asimov
Volume 19 — Fundation (1942) de Isaac Asimov
Isaac Asimov (1920-1992) nasceu em 1920 em Petrovichi (URSS), de família judia que emigrou para os EUA pouco depois do nascimento do autor, que viria a converter-se num perfeito americano. Possuidor de invulgares qualidades científicas formou-se em química pela Universidade de Columbia e obteve o título de professor pela Boston University School of Medicine. Iniciou-se na Ficção Científica em 1938. De então para cá escreveu mais de quatrocentos livros, entre ficção, ensaio, divulgação científica, etc., com uma reputação e audiência fora do comum. Alcançou os prémios Hugo, Nebula e outros…

I Robot é um conjunto de contos dedicados à temática dos robôs psicotónicos, que se inicia com Strange Playfellow, ou simplesmente Robbie. Êxito clamoroso. Os robôs de Asimov são absolutamente diferentes de todos os seus antecessores. Pela primeira vez aparecem as famosas leis da robótica cujo principal fim é submetê-los às ordens dos seus donos sem que de modo algum se possam revoltar. Em I Robot conta-se a história de gerações sucessivas de robôs, desde o mais antigo ao mais sofisticado, das contradições e conflitos.
Eu Robô está editado em Portugal. O livro faz parte do Plano Nacional de Leitura e está disponível gratuitamente online
CLICAR AQUI.
Ficha Técnica
Eu Robô
Tradução: Eduardo Saló
Autor: Isaac Asimov
Ano da Edição: 2004
Editora: Publicações Europa-América
Colecção: Nébula Nº96
Páginas: 216
ISBN: 9789721054417







Fundation não é propriamente um livro, mas uma série. Quem ler este primeiro volume é inevitavelmente levado a ler os restantes e conhecer a continuidade da história. Este primeiro volume é como que a introdução do conjunto. Fala-se de uma Era Galáctica, do ano 12067, em que o Império é constituído por vinte e cinco milhões de planetas habitados na nossa galáxia.
Inicialmente o ciclo do Império foi composto por:
1 - Foundation (1942)
2 - Foundation and Empire (1952)
3 - Second Foundation (1953)
4 - Foundation's Edge (1982)
5 - Foundation and Earth (1986)
Entretanto Asimov, com volumes intercalares conseguiu ligar a série Robots e Fundation, como resultado as duas séries completam-se entre si; formado pelas seguintes obras:
1 - The End of Eternity (1955)
2 – The Complet Robot (1982)
3 - The Caves of Steel (1953)
4 - The Naked Sun (1956)
5 - The Robots of Dawn (1983)
6 - Robots and Empire (1985)
7 - The Stars, Like Dust (1951)
8 - The Currents of Space (1952)
9 - Pebble in the Sky (1950)
10 – Livro 1 — Fundation
11 – Livro 2 — Fundation
12 – Livro 3 — Fundation
13 – Livro 4 — Fundation
14 – Livro 5 — Fundation
(Falta a transição entre os livros 5, 6 e 7)

A Trilogia Fundação — Fundação e Império e Segunda Fundação — também faz parte do Plano Nacional de Leitura e está disponível gratuitamente online
CLICAR





Ficha TécnicaFundação
Autor: Isaac Asimov

Tradução: J. Santos Tavares
Ano da Edição: 1998
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta Gigante Nº8
Páginas: 205
ISBN: 9789723816709





Volume 20 — Nerves (1942) de Lester del ReyRamon Felipe San Juan Mario Silvio Enrico Lester del Rey (1915-1993), conhecido por Lester del Rey, escritor americano de Ficção Científica teve uma infância e uma juventude algo irregular que se reflecte na sua escrita. Começou a escrever em 1937 sob vários pseudónimos, relevando em particular, os expendidos contos. Nerves é, contudo, a sua obra máxima.

Um dia tranquilo e sem problemas pode converter-se no último. Pode ser o fim do mundo quando uma central nuclear é perturbada na sua marcha e uma fuga radioactiva está prestes a causar uma explosão, o maior de todos os perigos imagináveis, uma luta contra o relógio… um clima de suspense que testemunha a visão aterradora do perigo das novas tecnologias — a nuclear neste caso.



Ficha TécnicaAcidente Nuclear
Autor: Lester del Rey
Tradução: Eurico da Fonseca
Ano da Edição: 1979
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta Nº266
Páginas: 189

1 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 92

EFEMÉRIDES – Dia 1 de Abril
Edgar Wallace
(1875 - 1932)
Richard Horatio Edgar Wallace nasce em Greenwich, Inglaterra. Jornalista, argumentista, escritor e editor está considerado como um dos melhores autores de romances policiários. O seu trabalho como correspondente de guerra dá-lhe conhecimentos sobre o mundo da espionagem. Publica o primeiro romance em 1905 The Four Just Men, com que inicia uma série de 6 títulos. Cria o Comissário Sanders, o Lieutenant Bones e o detective J. G. Reeder entre outros. O guião de cinema mais conhecido é o famoso King Kong. Deixa uma vastíssima obra, também publicada em Portugal por diferentes editoras: Círculo de Leitores, Dêagá,Gradiva, Livros do Brasil, Minerva e Publicações Europa America.
Ver HOMENAGEM EDGAR WALLACE no Caleidoscópio 41 clicando
AQUI





Maurice Arcy (1888 -1946)
René Baudu nasce em França. Escritor policiário e de ficção científica usa o pseudónimo Maurice Arcy. Publica La Formule Rouge, Le Maître de la Guerre e Le Tueur de Cerveaux.




TEMA — NARRATIVA – QUATRO IMAGENS DA ROSA

IMAGEM 1
Flor de doce perfume (Enciclopédia)
Diz a lenda
… e a nobre senhora receando a ira do seu real esposo, com um olhar suave, mostrou exclamando
— São rosas, Senhor...

IMAGEM 2
Caracteriza-se por folhas imparipinuladas e caule com ESPINHOS (Enciclopédia)
É um facto que:
Numa tarde de sol, a senhora Stevenson tratava do seu jardim quando a senhora Butler, sua vizinha parou para admirar o roseiral. Colhendo uma rosa vermelha, a Sra. Stevenson foi até ao portão e, com um sorriso amável ofereceu-a à admiradora. A Sra. Butler aceitou a flor com gratidão e levou-a ao rosto para lhe sentir a fragrância, após o que trocou algumas palavras com a ofertante, despediu--se e dirigiu-se ao lar.
Frente à sua residência começou a sentir-se mal. Cambaleante, trémula, e transpirando profusamente, conseguiu chegar ao quarto, deitando-se na cama, quase desfalecida.
Aguardou no leito várias semanas presumindo que a enfermidade fosse uma das muitas doenças tropicais que então grassavam na região.
Contou então a John Middleton, indivíduo das suas relações, que poucos minutos antes de ser atingida pela doença havia cheirado uma flor que lhe dera a vizinha.
Tanto bastou para Middleton convencer a amiga de que a flor continha bruxaria.
Middleton fora uma das vinte pessoas que recentemente haviam sido acusadas de “pacto com o Diabo”. Fora sujeito ao”Suplício da Água”, escapando ao afogamento por confessar que era realmente bruxo e implorando perdão público para os muitos e horríveis pecados que havia cometido, pecados esses que iam desde o furto de galinhas e perus, do “gazear” nos tempos de estudante, ao dormir com a mulher do próximo.
As autoridades tomaram conhecimento do caso.
A Sra. Butler foi submetida a interrogatório e acusou a vizinha de haver posto feitiço na rosa que lhe ofertara. Sua filha chegou mesmo a acrescentar que tinha apanhado a rosa do chão, onde sua mãe a deixara caída, e que a rosa estava negra e orvalhada.
A senhora Stevenson não tardou a ser presa. Um “júri” de sete mulheres desnudaram a acusada percorrendo minuciosamente todo o seu corpo, procurando sinais ou verrugas que, no dizer dos entendidos em bruxarias, costumavam ser “chupados pelos demónios”. A pele, é certo, não continha o mais ligeiro indício de mancha, mas, dentro da boca da acusada, segundo declarações do “júri”, havia “duas pequenas tetas”, consideradas provas bastantes de que a senhora era de facto feiticeira.
Condenada, morreu na forca, sustentando até que a vida se extinguiu, a sua inocência e ignorância do que fosse bruxaria, arte diabólica ou espíritos sobrenaturais.
Chamava-se, na realidade, Christian Stevenson, tinha quarenta e cinco anos, viúva, de temperamento alegre, cabelos castanhos e tez clara. Vivia num bungalô à beira da estrada, nas cercanias de Hawilton — Bermudas — naquele longínquo ano de 1653.
A senhora Stevenson colhera, da rosa, tão só... os espinhos.

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SÍMBOLO do regalo e dos prazeres, abraçava as estátuas de Vénus, os pagãos inspiravam-se neste culto, para impor o uso da rosa às meretrizes (Enciclopédia)
É um facto, igualmente.
Numa tarde de domingo de Páscoa, no ano de 1959, de céu triste e chuva impertinente, uma morena alta, vestida de saia preta e blusa vermelha, o que lhe realçava o corpo atraente, depois de ser estimulada por alguns cálices de martini no Bar do Hotel da Westh Sixth Street, em Los Angeles, acompanhada de um corpulento sargento de fuzileiros, registou-se como hóspede do mesmo hotel.
Foi-lhe dado o quarto 303.
Ferne Celia Reed Wessel, a bela morena, conforme foi constatado, hospedava-se habitualmente no hotel, e dele se servia como lugar de encontro com um variado sortido de amantes.
Ninguém a viu subir ao quarto.
Quase 24 horas depois, o gerente do hotel telefonava á polícia: a empregada da limpeza, quando pretendia fazer a arrumação do 303, encontrara Ferne morta.
Os polícias puderam observar o trágico quadro de um violento assassinato. O corpo, quase nu, estava deitado de través no meio das roupas desarrumadas da cama de casal. A única peça de roupa que vestia, a combinação, achava-se em tiras e não cobria os feios ferimentos que realçavam a carne que antes fora desejável. À volta do pescoço, num laço frouxo, a blusa que usara. Marcas de dedos enfurecidos imprimiam-se nas lívidas e macias carnes da garganta da vítima.
— Estrangulada — sussurrou um polícia.
— E sufocada — acrescentou outro.
Enquanto esperavam o médico legista, os detectives puseram-se a observar o quarto. Como todos os quartos de hotéis destinados a amores clandestinos, nada dizia dos seus ocupantes. O que restava das roupas da mulher estavam caídas sobre uma cadeira ou caídas no chão, rasgadas, como se tivessem sido arrancadas brutalmente. Na casa de banho adjacente, na pia cheia de água, flutuava uma rosa amarfanhada.
— Assassinato e rosas! — comentou um polícia.
— Estas pobres infelizes não aprendem. É sempre a mesma história — sentenciou o outro.
Depois que o grupo de peritos efectuou o seu trabalho, procurando impressões digitais e outras pistas, depois que o corpo foi removido, a polícia prosseguiu as investigações junto dos fregueses do bar e do hotel.
Todos os suspeitos se comprovaram inocentes. Sete meses depois, a despeito de todo o esforço desenvolvido, o criminoso, “o estrangulador da rosa”, como passou a ser designado, continuou desconhecido e à solta.
Em 22 de Novembro, um outro crime monstruoso, em idênticas circunstâncias, veio relembrar o caso Ferne. Numa casa reboque, em Polk Street, Sylmar, a noroeste de Los Angeles, Nancy Louise Tardy, de 28 anos, mas também bonita morena, foi encontrada estrangulada, nua, de braços e pernas abertos sobre a cama. As roupas jaziam em pedaços à sua volta, como se tivessem sido arrancadas violentamente do seu corpo.
Desta vez, as impressões digitais colhidas conferiam com as de Donald Kinnan, e Kinnan desaparecera misteriosamente.
Toda a grande máquina policial se movimentou. A prisão do suspeito foi solicitada a vários Estados, e um boletim com a sua descrição era diariamente transmitido na Rádio e na Televisão. Somente, porém, em 2 de Dezembro, enquanto a caçada prosseguia, um homem de cabelo ondeado, roupas esfarrapadas, barba crescida, entrou no posto policial de San Fernando Vallery, e se identificou.
— Sou Donald Kinnan.
Minutos depois confessava-se autor da morte de Nancy Tardy, do assassinato de Ferne Wessel, contando que, num impulso irresistível que o dominava, nove vezes, em várias cidades, tinha sufocado prostitutas até à morte.
… a todas deixara uma rosa… o símbolo.






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Passou também a ser símbolo de luto e assim se tornou usual enfeitar com rosas as sepulturas (Enciclopédia)
No dia a dia.
Numa aldeia, numa vila, numa cidade, algures em qualquer lugar da terra…
…sobre uma sepultura recente a mão de uma criança depõe uma rosa…

M. Constantino




ABRIL



Embora sem certezas, pensa-se que a origem latina de Abril seja Aprilis, que significa abrir, uma alusão directa à Primavera e à renovação da natureza.
O 1º de Abril é celebrado em vários países como o Dia das Mentiras, April Fools' Day nos países anglo saxónicos ou Poisson D’Avril em França.
Faz parte da tradição os órgãos de comunicação social divulgarem uma grande mentira do 1º de Abril.