21 de maio de 2016

2º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO

Do Martim Moniz ao Campo Grande


Sesinando acordou com a boca a saber a papéis de música. Dormiu mal até às 3 da manhã.
Os quartos da pensão “Bons Sonhos” eram baratos – 15 escudos uma dormida, mas o quarto era minúsculo onde mal cabia o divã de molas e as paredes eram de tabique de madeira o que dava para se ouvir tudo o que se passava aos lados.
Estava convencido que a pensão mal dava tempo para sonhar pois as cabo-verdianas que faziam o Largo Martim Moniz entravam e saiam várias vezes e cabo-verdiano é assim, é expansivo na cama…
Sesinando não exigia mais pelos 15 paus. 
Lá pela madrugada adormeceu profundamente e agora já estava pronto para sair. Banho nem vê-lo. A pensão não tinha! Nem tampouco águas correntes  nem quentes nem frias. Era pegar ou largar. Pelo preço não se podia pedir mais. 
Divertiu-se fumar e a beber Sagres até às duas da manhã e a ouvir mornas e boleros tocados pelo ceguinhos-músicos do Bar “Bolero”. Não foi em engates.
Ainda era cedo. Havia muito tempo para a esbórnia. 
Vestiu-se e petiscou um copinho de leite na leitaria da esquina e seguiu o seu objetivo ir ver o lago dos barcos do Campo Grande e espreitar  e eventualmente almoçar no retiro do “Quebra Bilhas”.
Alguém lhe falara da casa. Com mesas de correr e um caramanchão a sombrear e refrescar o ambiente. Comida caseira e bom vinho da pipa.
Estava danadinho para comer umas iscas com elas, um prato do seu agrado e que não o via há mais de dois anos!
E lá foi o nosso alferes Sesinando a pé  agora já à civil, pela Almirante Reis acima até ao Areeiro e depois Avenida de Roma até ao Campo Grande.

Almirante Reis
Fonte: Urban Sketchers
A cidade mudara muito e a parte nova era de arquitetura moderna. O arranha-céus do Areeiro, com a sua dúzia de andares era o edifício mais alto da cidade. Matarruano que visitasse Lisboa tinha que ir espreitar o edifício e também ao Jardim Zoológico ver os animais exóticos.

Chegou ao Jardim do Campo Grande e foi ver o lago onde os pequenos botes a remos eram o prazer máximo dos namorados.


Campo Grande
Fonte: 
Urban Sketchers
Ali ficou sentado num banco de jardim a fumar e a gozar da boa vida quando de repente e sem dar por isso um cãozinho veio ladrar às suas botas. Era uma amostra de cão. Mal se via o focinho cheio de pelos bem como o corpo. Parecia um novelo de lá a ladrar-lhe aos pés. 
Afogueada atrás do canito vinha a dona. Chamando-o pelo nome e ele sem obedecer, pois embirrara com as botas do nosso alferes.
Sesinando, num golpe de rins, agarrou na trela solta e puxou-o. De seguida a dona a deitar os bofes fora chegou ao alferes e agradeceu.
− Ai, muito obrigado. Este malandro de repente foge-me e atravessa a rua. É um perigo. Não sei como lhe hei de lhe agradecer.
− Ora − disse Sesinando − não me custou nada apanhar o bichinho. Pode-me agradecer dizendo-me o seu nome?
− Milú. E o cãozinho chama-se Lanudo.
Sesinando pediu-lhe para ela descansar um bocadinho, ali no banco do jardim havia lugar para todos e sobrava espaço.
Estava-se a preparar um começo de uma bela amizade. Quase ia apostar.


(fim do 2º episódio) 

14 de maio de 2016

1º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA-BILHAS de A. RAPOSO



(Histórias de Lisboa do antes de 25 de Abril)

PAQUETE NIASSA Fonte: http://restosdecoleccao.blogspot.pt/

O Alferes Sesinando tinha acabado de desembarcar do Niassa no Cais a Rocha, em Lisboa.
O saco da roupa à civil e algumas recordações de África mais propriamente de Angola, era toda a sua riqueza.

Fonte: http://www.museudopapel.org/
Lá de Freixo de Lamego de onde era natural, uma aldeia perdida nas pedrarias da montanha, deixara os pais e os dois ou três amigos. Trabalho por lá não havia nem à partida nem à chegada. Isso sabia bem pois sempre recebia um ou outro aerograma dos pais quando estivera no mato dois longos anos.


Ali estava ele, com um futuro obscuro à sua frente mas são como um pero e sem marcas da guerra. Vinte e um anos, já a fazer vinte e dois em Agosto que já vinha perto.
Notava-se pelo calor.

Aliás, a guerra era para esquecer. Nada mudara em Angola e pelos vistos nada mudara em lado nenhum.
Pensara em ir para França. Diziam que se encontrava facilmente trabalho e bem pago. Em francos. O pior era a língua. Não dominava.
Tinha ainda uns escudos no bolso fruto das trocas de coisas com os pretos. O saco vinha carregado de pau de cabinda, madeira que se vendia bem em Lisboa. Era o seu pé de meia.

Meteu-se num elétrico e veio até ao Martim Moniz local que ele sabia haver pensões baratas para pernoitar e onde se dizia que a noite era divertida.
Ali à esquina ficava a conhecida “Base Aérea nº 1”  nome de guerra do Bolero, um bar de terceira com música ao vivo. 

Uma orquestra de três ceguinhos da Associação Luiz Braile que iam ali tocar na noite (para eles era sempre dia!) para fazer uns tostões extra. Entre as gargalhadas do mulherio já tocado e os acordes desafinados das concertinas uma nuvem de fumarada tapava das vistas muitas desgraças.

O bar era frequentado por senhoras que já tinham feito duas guerras mas que continuavam firmes e prontas a enfrentar qualquer batalhão, por mais armado que fosse desde que lhes oferecesse vinte paus e uma cerveja.

Sesinando estava precisado. Tinha que mudar o registo e retirar o mato da sua cabeça.
Agora a guerra dele era outra. Havia música, cerveja e putedo. E viva a “peluda”!



Fonte: http://madeinportugal560.blogspot.pt/



3 de abril de 2016

12º E ÚLTIMO EPISÓDIO - CARTA DO FINADO CABO JEREMIAS

Nota:
Este episódio final está relacionado com o 8º Episódio (Clicar) e com 9º Episódio (Clicar)

Da direção do Lar do Sagrado Coração de Jesus da Nazaré recebemos uma carta de um seu utente acabado de falecer, com a indicação de ser dirigida, após a sua morte, ao blogue Policiário de Bolso.

Eis o texto: 
Encontro-me só no mundo e sem ninguém. A minha saúde está por um fio pois a idade não perdoa e já vou perto da centena de anos. Tenho vindo a seguir com interesse e recordando com saudade os diferentes episódios contados pelo historiador A. Raposo de forma escorreita e verdadeira. Para ele os meus respeitos.
O homem sabe do que fala e sei que recolheu informações de forma a contar as histórias tal qual elas se passaram.
Acontece que guardei religiosamente segredo de um facto que aconteceu por alturas em que fui mais a viúva Teresinha apanhado em flagrante pelo Raul das Solas e Cabedais.
Nessa altura e uma vez que fui ameaçado pela sovela do Raúl, saí de rabinho entre as pernas e salvei as minhas vergonhas da degola e a viúva do falatório. 
O caso acabou em bem e o Raul ficou satisfeito e acabou no mês seguinte por casar com a Teresinha. Eu na altura vivia com a minha mulher e não podia fazer ondas…
Porém, eu sabia que ela já estava a faltar-lhe as regras há 1 mês e o casamento veio a tempo de salvar o escândalo. 
Acontece que a filha da Teresinha (que emigrou depois para a Austrália e de quem nunca mais soube nada) era afinal minha filha e tu Ana Teresa és minha neta.

Que Deus te proteja. Afinal a geração do cabo Jeremias não acabou – não tivemos filhos com a minha já falecida esposa e como prova do meu amor deixo-te em testamento o prédio onde estou a gozar os últimos dias da minha existência.

Assina

Cabo Jeremias

27 de março de 2016

11º EPISÓDIO - O CARNAVAL DO CABO JEREMIAS

Nos velhos anos de 1955 o Carnaval ainda não era um negócio e cada um mascarava-se como entendia.
Os números mais tradicionais:
O XEXÉ – indivíduo de fato séc. XVII, chapéu de dois bicos, meia alta, jaqueta vermelha. Na mão um chifre e na outra um facalhão de madeira pintada. Uma barriga enorme para atacar os transeuntes à barrigada. Este personagem desapareceu de cena nos anos seguintes. Era um personagem castiço.
Mas números populares mesmo, era a troca de trajes. Os homens mascaravam-se de matrafonas e as mulheres de homem.
De acordo com a lei e a ordem em vigor, era proibido tapar as caras com máscaras e os homens teriam que fardar de calças e as mulheres de saias.
Como no Carnaval − dizia-se, ninguém levava a mal, excepto o cabo Jeremias e seus iguais que tinham trabalho redobrado correndo à chanfalhada e mesmo prendendo os prevaricadores.  
O cabo Jeremias não tinha descanso.
Pela Rua Barão de Sabrosa abaixo vinham os patuscos personagens: um homem mascarado de mulher, pintado com mau gosto e exagero nas tintas, saltos altos de difícil equilíbrio uma barriga enorme a fingir de grávida, empurrando um carrinho de bebé.
Dentro dele com uma touca e chucha ao pescoço, um enorme biberão na boca com vinho tinto que alimentava o matulão que encolhido seguia encaracolado dentro do carrinho. De vez em quando fazia birra e a “mamã” chegava-lhe à boca o biberão que ele bebia sôfrego, ficando rapidamente etilizado e incapaz de sair do berço de seu próprio pé.
Atrás deles seguia de chanfalho na mão o cabo Jeremias e depois de breve corrida em que a “mamã” perdia os sapatos de senhora pelo caminho, lá os levava até à esquadra para despachar o auto e deixá-los uma noite no calabouço para evaporarem os vapores do álcool.
Na terça-feira de Carnaval não havia mãos a medir.
Era o tempo das serpentinas nas janelas e das batalhas entre rapazes na rua e raparigas nas janelas atirando saquinhos contendo feijões e outras leguminosas.
Atirava-se ovos e farinha que deixavam às vezes as moças em desespero e muitas vezes as brincadeiras eram peadas e inconvenientes pelo que pouco a pouco foram-se proibindo até hoje.
O Carnaval selvagem, popular e genuíno, por vezes abrutalhado mas que imanava do povo. Anos depois alguém se lembrou de transformar em negócio e tudo mudou.
O Carnaval ainda passou para os cinemas e hoje tem localidades que exploram a folia metendo em desfile mais nuas que vestidas as brasileiras da indústria hoteleira que vão para ali fazer umas horas extra e pôr o material à venda, quem sabe apareça algum construtor civil que entre no negócio…


Mudam-se os tempos mudam-se as vontades.

A. Raposo

20 de março de 2016

10º EPISÓDIO - UM CASO BICUDO DO CABO JEREMIAS



Talvez se possa dizer com mais propriedade que este era um caso de dois bicos.
Segundo se apercebia logo à primeira vista o cabo Jeremias estava a dirimir assunto de marido enganado.
Na Picheleira era o que mais havia era casos desses. Duravam até ao dia em que o marido, desconfiado ou mesmo avisado por algum amigo mais chegado, armava uma espera.
O resultado era uma cena de facada ou de pancadaria, na falta de talheres. No pátio, a algazarra subia de tom e o mulherio vinha todo às portas dar opiniões.
Aquela cena não tinha nada de especial. O marido chegara a casa umas horas antes do devido e apanhara na cama a patroa com o carteiro, e a pasta da correspondência.
A desculpa do carteiro é que Mariana estaria a assinar de cruz um aviso de recepção.
Como argumento esfarrapado não poderiam arranjar melhor.
O Fanan – o marido enganado saltara para o colchão e à força de punho distribuía soco ora para a patroa ora para o Firmino (o carteiro).
O carteiro mais conhecido no bairro pelo “brilhantinas” era um belo rapaz de bigodinho à Clark Gable – o grande boneco do filme “E tudo o vento levou”.
O brilhantinas tinha muita saída nas mulheres mas não aguentava duas galhetas no focinho. Sangrava pelo nariz que mais parecia Cristo crucificado.
Mariana não era uma moça muito jeitosa pois tinha um pouco de escoliose que junto ao facto de ter um nariz muito afilado lhe dava um ar de abelharuco. O que valia era o resto do corpo que me escuso de descrever não vá algum jovem imberbe ler estas linhas e entusiasmar-se nas artes de onanismo.
Certo é que a pancadaria não parava. Ora dava o Fanan ora levava o Fanan. Mariana gritava como vitela desmamada e depois entrou a vizinhança e o padeiro acabou também a dar a sua bordoada no Firmino que levava de todos e não tinha físico para responder.
A sacola da correspondência ocupava metade do quarto entre telegramas, cartas registadas e vales de correio.
Mariana com as vergonhas à mostra encolhia-se a um canto da casa, à cabeceira da cama. O quadro da última ceia que estava pendurado aos pés da cama já tinha tombado e o próprio bidé que aguardava as partes interessadas com água morninha, já levara um pontapé do “Marreco” que era o avançado centro do Penha de França que estava em casa de baixa com uma entorse.
Alguém veio cá abaixo chamar a polícia.
Jeremias subiu à cena e com o seu vozeirão anunciou:
–Vai tudo para a esquadra! Tudo à minha frente e a toque de caixa! A Menina Mariana vista qualquer coisa. Se leva tudo à mostra ainda vamos ter mais sarrabulho a descer a rua Barão de Sabrosa. Andor! 

13 de março de 2016

9º EPISÓDIO - AINDA O CASO DA VIÚVA TERESINHA


Nota Explicativa do Policiário de Bolso:
Na sequência da publicação de O Caso da Viúva Teresinha” (CICLAR), o Policiário de Bolso recebeu um testemunho que permite clarificar os acontecimentos relatados. A proveniência das informações foi devidamente comprovada através de contacto pessoal directo com a autora que autorizou também a divulgação do conteúdo do e-mail anteriormente enviado.
Ao leitor deixa-se, como sempre, a liberdade de muito bem acreditar no que quiser…

Exmos Senhores,
Sou seguidora do vosso blogue desde a primeira hora. Devo confessar que sou uma leitora compulsiva de livros policiais, vício transmitido pelo meu avô paterno, grande coleccionador dos livros da Vampiro. As histórias do cabo Jeremias prenderam-me de imediato, por motivos óbvios, que facilmente serão por vós entendidos.
Nunca pensei intervir porque sou uma pessoa bastante introvertida e não gosto de levantar ondas. No entanto, não consegui resistir ao apelo final de A. Raposo aos “indefetíveis leitores” do “Caso da Viúva Teresinha”. Apesar de ainda não ter nascido na altura acontecimentos, tive conhecimento dos mesmos porque me foram relatados por quem os viveu. Consta que o cabo Jeremias era um homem tão bem parecido e charmoso que era de conquista fácil. A viúva Teresinha viu-se ainda nova sem marido e o seu coração balançava entre o Raúl dos cabedais e o Jeremias da esquadra. Um, era solteiro e bom rapaz, mas o outro tinha a emoção do “bad boy”, do risco e da transgressão. E Teresinha andava ora com um, ora com outro, sem capacidade ou vontade para se decidir. Devia ser o eterno conflito entre a razão e o coração.
Ora acontece que na narrativa de A. Raposo é tudo verdade, mas a parte final dos torresmos é uma pura invenção posta a circular na altura para protecção dos intervenientes deste trio. Teresinha precisava de uma desculpa para meter o cabo Jeremias dentro de casa. O cabo precisava de uma desculpa para passar mais uma noite fora de casa e escapar às desconfianças da mulher. E o Raúl precisava de defender a sua própria honra. Acontece que o bem intencionado Raúl estava verdadeiramente apaixonado pela Teresinha e, como andava desconfiado, arranjou maneira de numa quarta-feira afastar de forma definitiva, o cabo de esquadra do seu objecto amoroso. Surpreendeu-os, aos dois. Teresinha estava nuinha em pêlo, Jeremias também, apenas com as ceroulas de atilhos penduradas no braço. Raúl não esteve com meias medidas, encostou a afiadíssima sovela de cortar cabedal à parte anatómica mais estimada por Jeremias e ameaçou: “Larga-a de uma vez por todas e inventa já uma história para sairmos limpos disto”. Compreende-se, uma coisa é casar com uma viúva estimada por todos, outra é casar com uma mulher demasiado estimada por vários.
Assim nasceu o mito dos torresmos mastigados por Teresinha de vela na mão. Deu-se continuidade à mentira inicial do barulho mastigatório do defunto marido e Raúl pode levar Teresinha ao altar ser dar azo a grandes falatórios. Para ele o raminho da laranjeira foi botoeira e para ela no chapeuzinho creme, porque parecia mal ir de branco, como atesta uma fotografia que tenho em meu poder.
Desculpem, é verdade, depois de tanto escrever ainda não me apresentei. O meu nome é Ana Teresa, filha de Maria Teresa e neta da genuína viúva Teresinha, que casou em segundas núpcias com o Raúl dos cabedais, uma união apadrinhada pelo (estranhamente atemorizado) cabo Jeremias.
Se A. Raposo precisar de um final feliz para esta história, eu posso apenas dar-lhe este. Terezinha e Raúl, meus avós maternos viveram felizes para sempre, nem a morte os separou porque partiram exactamente no mesmo dia.
Com os melhores cumprimentos,

Ana Teresa

6 de março de 2016

8º EPISÓDIO - O CASO DA VIÚVA TERESINHA

O cabo Jeremias apanhava na esquadra do Alto do Pina os mais disparatados visitantes carregando os mais esquizofrénicos temas.
Era preciso utilizar toda a psicologia do mundo para dominar e resolver o dia-a-dia naquela casa de doidos que era a esquadra.
Ora entrava um puto que tinha roubado ao Alfredo da Tasca um pires de jaquinzinhos fritos, ora a senhora Maria que tinha uma cadelinha que fora abalroada pelo cão do Sr. Joaquim da papelaria e o resultado era de esperar complicado.
O cabo Jeremias tudo dominava que mais parecia um treinador de futebol, de raiz popular e com má dicção em português, de nome Jesus que apareceu no mundo do jet-set uns 50 anos depois.
O mais complicado assunto foi sem dúvida o caso da viúva Teresinha que lhe deu água pela barba e alguns amargos de boca com a sua mulher.
Conta-se em poucas palavras: a viúva Teresinha (uma mulheraça que com toda a certeza ainda aguentaria alguns anos de felicidade erótica, pensamos nós que não somos grandes adivinhos neste particular) e que tinha um problema para o cabo Jeremias resolver.
Em sonhos, a viúva via o seu falecido marido a mastigar torresmos enquanto se despia para se deitar e a admoestá-la por ela andar a fazer olhinhos ao senhor  Raúl, da loja de solas e cabedais, por sinal um rapaz de bigode e cabelo às ondinhas sempre simpático para as senhoras que iam à loja adquirir atacadores para os sapatos dos respetivos esposos. Era o esquisito ruido do marido a mastigar os torresmos que a fazia acordar com o coração oprimido e o credo na boca. 
O cabo Jeremias tinha montanhas de paciência, mas um homem às vezes fraqueja apesar de se chamar Jeremias!
O marido aparecia à viúva, sempre à quarta-feira à meia-noite, exatamente na hora em que o cabo Jeremias saía de serviço. Coincidências destas só nos bons livros policiais da hoje extinta coleção Vampiro. Literatura que o cabo Jeremias desconhecia de todo, daí ter aderido à solicitação da viúva.
Contrariado, o cabo ofereceu-se, voluntariamente, para ocupar o quarto que a Dona Teresinha costumava alugar a estudantes e que estava vazio por causa das férias grandes. Era um quarto independente, amplo, cama “Quinane”, com psiché e penico dissimulado na mesinha de cabeceira, cortinados coloridos a imitar lupanar decadente do sec. XVIII.
A viúva lá conseguiu “engatar” (no bom sentido cristão) o cabo e seguiram para a rua Sabino de Sousa, a dois passos da esquadra. Por grande coincidência naquele dia era quarta-feira em todo o país.
Jeremias estava esgotado de tantas solicitações, durante as oito horas de serviço.
Mal chegou ao quarto independente da viúva Teresinha caiu na cama exausto nem dando tempo para se desenvencilhar das ceroulas de atilhos – à moda dos pescadores da Nazaré – que a sua mulher lhe oferecera pelo anos.
Caiu no sono como uma pedra. Porém, acordou sobressaltado com o ruido estranho de alguém perto dele, aparentemente a comer torresmos.
Acendeu a luz, pegou no chanfalho, e abriu a porta.
Do outro lado estava a viúva Teresinha, tal qual veio ao mundo com uma vela acesa numa mão e a comer uma mão cheia de torresmos, como se estivesse hipnotizada, com um olhar vidrado. As suas belas pupilas fixavam as ceroulas novinhas e aos quadradinhos coloridos, única peça de roupa no corpo da autoridade.
Acontece que a maioria dos nossos leitores são tementes a Deus e não “embarcam” em histórias da carochinha com laivos de literatura de Sacher-Masoch.
E nós respeitamos tal deriva.
A partir daquele dia o cabo Jeremias nunca mais foi o mesmo. Parecia que tinha visto o Diabo! Melhor: o Diabo de saias sem saias!

O que aconteceu realmente nunca se veio a saber ao certo.
Quiçá algum dos nossos indefetíveis leitores tenha encontrado saída para o beco em que o nosso bom cabo Jeremias se meteu, e se o fez merece todos os nossos encómios.
Mas os mistérios que a vida tece são às vezes tão insondáveis que um normal escritor de histórias curtas, como nós, por muito que tentemos não conseguimos até hoje construir um final feliz. É só drama e de faca e alguidar!

Não há pachorra!

A. Raposo

28 de fevereiro de 2016

7º EPISÓDIO (DRAMÁTICO) - A MENINA ARLETE

A menina Arlete era costureira de calças e todos os dias cedo, pela manhã, passava à porta da esquadra do Alto do Pina, para o seu trabalho.
 O cabo Jeremias já lhe conhecia o horário e por essa hora punha-se à porta a olhar o tráfego com um olho no eléctrico que passava e na Arlete que descia a rua.
 Havia sempre um piropo soprado em surdina. Um dos mais vistosos e que a deixava completamente acalorada era “ Ai menina Arlete... Quando é que vamos dar uma voltinha de biciclete?”
Era um piropo anódino. Sem segundas intenções e até incompreensível visto que atendendo às dificuldades económicas o cabo Jeremias não tinha bicicleta, nem, quando era puto, nem trotinete nem triciclo.
Lá na terra ainda estavam no tempo dos burros e das mulas.
Obviamente, não tendo aquele meio de transporte, não poderia convidá-la para tal viagem. Provavelmente, a frase estava construída num sentido metafórico.
Nunca ninguém conseguiu descobrir, nem o autor destas linhas.
O cabo Jeremias passou portanto ao ataque com outra táctica e cada vez que a menina Arlete passava na porta da esquadra entregava-lhe um bilhete com uma frase célebre. Regra geral copiava Shakespeare. Sem grandes resultados.
Como a menina Arlete tinha tirado só a 3ª classe, já quase adulta. O único romance que tinha lido, em fascículos semanais, fora a Toutinegra do Moinho, do grande Emílio de Richebourg, que contava a desgraça de uma menina perdida de seu pai e criada por um lenhador… (uma história de fazer chorar as pedrinhas da calçada).

Um dia ofereceram ao cabo Jeremias uns textos de Fernando Pessoa que alguém encontrara num baú, algures.
Daí que, para demonstrar a sua erudição, um dia a menina Arlete passou e ele atirou-lhe a seguinte verborreia, escrita a letra de forma numa cartolina:
“Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões”.
Arlete tropeçou na calçada e o cabo Jeremias pensou que ela tinha apreendido aquele texto hermético do maior poeta luso. (Vide Livro do desassossego, pag.189)
Essa ideia ficou-lhe sempre a bater na cabeça como se fosse uma pancadinha de chanfalho amigo.

Certo, certo, foi o facto de a menina Arlete nunca mais ter passado pela porta da esquadra.
Seria que ela não gostava de metáforas?


O cabo Jeremias a partir desse dia nunca mais quis ouvir falar de poetas e se acaso  pensou  o zarolho do Camões se lembrasse de passar lá pelo Alto do Pina, arriscava-se a levar uma chanfalhada do cabo Jeremias.
Ai levava, levava!

21 de fevereiro de 2016

6º EPISÓDIO - O CABO JEREMIAS ERA UM POETA

Na esquadra, nas horas mortas ouviam muito frequentemente um assobio. O cabo Jeremias imitava o rouxinol e a toutinegra. Tentara durante longas horas o canário mas não tinha pé para tamanho chinelo.
A vizinha Rosalina uma rapariga que olhava muito para as fardas e sonhava de alto, ficava embevecida ao ouvir o cabo Jeremias a assobiar imitando o rouxinol.
Tanto assim que ela quando o via dizia para si baixinho “Ai rouxinol, rouxinol, de bico doirado, se te apanho um dia, chamo-te um rebuçado!”
É claro que o cabo Jeremias não se apercebia dos corações que despedaçava.
Porém, conforme um dia afirmou o guarda-nocturno da área, que todos os dias tinha que ir à esquadra assinar o ponto: “O cabo Jeremias, para além do mais, é um erudito poeta espontâneo, tipo António Aleixo, mas para melhor. Um dia sem ninguém estar à espera saiu-se com uma que nunca mais me esqueceu a profundidade, ora ouçam:

São as fezes que nos salvam
Nos momentos de aflição
Por isso acredito em Deus
Dia sim e dia não!

O Aleixo não faria melhor. E o Pessoa nem à cartucheira lhe chegava. E o que ele gostava da Florbela Espanca.
Não sei se conhecem esta poetisa.
Penso que ele gostava mais pelo nome. O nome Espanca dizia-lhe qualquer coisa.
O que seria? Mistério.

A. Raposo

14 de fevereiro de 2016

5º EPISÓDIO - O DIA-A-DIA DO CABO JEREMIAS

Nos idos anos 50/60, do século passado, a vida era dura para a malta que ia para a polícia.
O único benefício era poder dar porrada sem consequências. Mas dizia muitas vezes o cabo Jeremias para o travesseiro: “dar porrada não enche barriga!”
De facto, naquela época, para quem vinha da província  fizera a tropa antes das guerras de África − os empregos eram sobretudo mal pagos. O polícia vivia em quarto alugado, comia mal e no fim do mês não sobrava o dinheiro para o selo de 1 escudo tanto quanto custava uma carta para os pais na província.
O que lhes valia, para juntar algum pecúlio era os terrenos no norte onde a vinha dava para uma vida mais equilibrada.
Mas os terrenos eram de sua mulher…
Os problemas sexuais que nos vinte anos sempre fazem rebentar as hormonas na face e são causas de sonhos molhados, eram muito mal resolvidos pois as sopeiras tinham um pavor enorme de engravidar e respectivas consequências. Jeremias, felizmente, não tinha esses problemas. O cabo tinha o assunto controlado. Vivia num quarto alugado, com a mulher, a Micaela. Por alturas das vindimas ela tinha que ir à terra ajudar na adiafa.
Era nesses ínterins que a Dona Quitéria, uma viúva cinquentona, a dona da casa, resolvia os problemas mais prementes do cabo Jeremias. Dona Quitéria apreciava as brincadeiras do cabo Jeremias, as sugestões de chinfalhadas, quando estava para aí virada, o que era quase sempre, pois costumava dizer que a ocasião faz o ladrão…
Como já estava em pleno climatério, podia brincar à vontade. Era certo que de vez em quando o cabo Jeremias lá tinha que ir até ao Jardim Zoológico ver os primos macacos e o elefante a tocar o sino os prazeres máximos da Dona Quitéria.
A coisa era sempre muito bem montada não fosse alguma vizinha por a boca no trombone.
Mas para quem queria passar alguns domingos de folga a ouvir o relato da bola e a rebolar-se nas coxas da Quitéria, valia o custo/benefício, economicamente falando.
O cabo Jeremias tinha uma qualidade que raramente se encontrava na polícia: gostava de ler. “Sandokan e o Tigre da Malásia” era a sua bíblia. Emílio Salgari o maior escritor. Dizia ele com grande propriedade que só lia os clássicos!
“Isto quem quer ser homem de letras, não basta só ler as grandes!” Afirmava convicto o cabo Jeremias à Dona Quitéria enquanto lhe afagava os abundantes seios.

Se William Shakespeare ainda fosse vivo não desdenharia utilizar frase tão pitoresca!

A. Raposo

7 de fevereiro de 2016

4º EPISÓDIO - O CABO JEREMIAS E OS CIGANOS

(texto deixado escrito e assinado pelo cabo Jeremias, no seu “soi disant” caderno de memórias).

Quero desde já fazer uma declaração de interesses: não tenho nada contra os ciganos, nem contra os pretos nem contra os romenos, não os discrimino. Quando é para dar porrada levam todos sem discriminação!
Para mim não são raças menores pelo simples facto de não serem raças, são etnias.
Ora eu não sou racista, sou contra as etnias. Faz toda a diferença. Não é pecado, nem ilegal.
O meu nome é Jeremias. Sou o cabo Jeremias  cabo de esquerda do posto do Alto do Pina. Pratico a religião católica, quando não estou de serviço. Serviço é serviço, conhaque é conhaque. Mai nada!
Ando a estudar à noite psicologia numa dessas Universidades Novas que dão o canudo com uma certa elasticidade visto que o que o País precisa é de gente formada!
Gente culta, por assim dizer. Melhor dizendo gente acanudada.
Mesmo para dar porrada é preciso um curso! Vejam lá!
Para lidar com a etnia cigana é preciso dominar a técnica do toca e foge. Um misto de candomblé, de kung-fu e taekwondo com um cheirinho de karaté.
Por causa dessa etnia que dizem os conhecedores tem origem na longínqua Índia, daí a cor meio monhé dos ciganos que muitos dizem ser resquícios dos indianos mas que eu penso seriamente ter origens nos sóis do Alentejo, nas feiras a vender burros.
Certo certo é que eles usam facas afiadas, adoram rixas e usam golpes baixos.
Por mor disso, no meio duma refrega que me vi no ano passado, acabei no hospital de Beja com uma facada num testículo que me levou a ser  cerzido, pacientemente, por uma moça enfermeira uma boa hora, a frio.  Foram bem uns dez centímetros de ponto cruz.
Não vos conto as dores que tive. Não as desejo ao meu maior inimigo!
É por essas e por outras que não gosto particularmente da etnia cigana. E tenho as minhas razões.
Agora já não me apanham. Uso as mesmas defesas que os guarda-redes do hóquei em patins umas “coquilles”. Como se fossem duas cascas de nozes.
Agora já não há cigano que me meta medo!
Venham eles! Quantos são? Quantos são?

A. Raposo

31 de janeiro de 2016

3º EPISÓDIO - UMA FACADINHA NO MATRIMÓNIO



O cabo Jeremias era um homem sério. Um fiel cumpridor dos deveres do lar.
Estava casado com a sua Micaela − uma moçoila de Trás-os-Montes  habituada às geadas, a mugir as vacas e a levar umas boas palmadas nas nalgas.
Não é que o cabo Jeremias tivesse muitas virtudes. Mas era temente a Deus e à Santa Madre Igreja. Todos os domingos  quando a folga permitia  lá ia comungar, mais a Micaela. Pelo Natal, não perdiam a missa do galo.
Mas o Diabo tece-as e espreita. Um homem não é de ferro. Fundido. A carne é fraca e o bife é tenro. Era o caso da Menina Amélia florista. Vendia flores ao domingo no adro da Igreja da Penha de França e tinha um ar angelical.
O cabo Jeremias assim que a via começava a coçar-se. Pensava: a miúda é boa como o milho, carago!
Uma espécie de erisipela toldava-lhe o corpo e enevoava-lhe a visão.
Várias vezes pensou que era o Diabo a tentá-lo.
Até que um dia em que foi sozinho à missa abordou a pequena e perguntou-lhe se ela tinha licença de venda ambulante. Que não. Que não tinha ou se tinha estava lá em casa e se o Sr. Guarda quisesse ver podia lá ir que a mãe tinha ido à terra.
O cabo Jeremias foi.
O papel nunca mais aparecia, Amelinha chorava. O cabo Jeremias afagava-a as nalgas, com respeito e, às duas por três soltou-se um beijo.
Os nossos libidinosos leitores sabem que estas histórias acabam sempre no quentinho da cama. Esta não é excepção, porque estava frio e era inverno!
E o cabo Jeremias pecou. Pecou uma vez, pecou segunda vez e não pecou mais porque a hora do turno já estava a chegar. Vestiu-se, pegou no chanfalho ajeitou a pistola na cartucheira, apertou o cinturão. Enfiou as botas. Pôs o chapéu.
Desceu a calçada até à esquadra. O dever chamava-o.

(Não perca o próximo capítulo se por acaso é curioso ou mesmo voyeurista.
Se é temente a Deus: Adeus!)

A. Raposo



24 de janeiro de 2016

2º EPISÓDIO - HAJA RESPEITINHO OU LEVAM NO FOCINHO


“Haja respeitinho ou levam no focinho": Esta era a máxima que o cabo Jeremias – cabo de esquadra do posto de polícia do Alto do Pina na mui digna e leal cidade de Lisboa. Anos 60. Seculo XX.
Com o cabo Jeremias não havia “fun-fun nem gaitinha” ou as coisas corriam como ele queria ou resolvia-se tudo à porrada. Era por isso que alguém inventara o chanfalho.
Se alguém que me leia que não conheça – por mera iliteracia – esse adorno de autoridade, o chanfalho, passo a apresentá-lo. Trata-se de um rolo com cerca de um metro ou meio-metro, tipo borracha com interior rígido, para vergar nas costas dos pacientes. Dado com força faz doer.
Se algum dos meus inúmeros leitores, leitoras ou mesmo anaforditas (os que não são nem carne nem peixe) já levou uma boa chanfalhada nas costas sabe do que falo.
Hoje em dia o chanfalho ficou fora de moda desde que inventaram os carros da água sob pressão. É o futuro! O pessoal escusa depois de tomar banho! Poupa.
Ladrão de meia-tijela que caísse nas nãos do cabo Jeremias já sabia como acabava a história. Primeiro uns safanões para aquecer e depois umas belas chinfalhadas nos costados e a confissão surgia breve, completa e aumentada de detalhes inventados.
Para quê utilizar processos primitivos antigos tal como “os tratos de polé” ou máquinas sofisticadas, que a Santa Inquisição, graças a Deus inventou.
Para o Cabo Jeremias a dose era 20 chinfalhadas uma confissão – era tiro e queda!

Quem hoje for visitar a esquadra do Alto do Pina ainda encontra uma lápida na parede exultando os processos simples e práticos de obtenção de confissões sem dor. Era como tirar um dente sem anestesia. Só doía ao princípio.
Sem dor é como quem diz: com alguma dor! Mas esta vida não é ela um ramalhete de rosas perfumadas tendo na base os malvados espigões das roseiras?
Como dizia a avó do cabo Jeremias, depois de tomar meia litrada de tintol para aclarar a voz:
“Isto, meu querido neto, não há bela sem sermão!”

A. Raposo

18 de janeiro de 2016

LIVROS - JANEIRO 2016


DESEJO DE VINGANÇA
Jussi Adler-Olsen  Editorial Presença
Colecção Fio da Navalha: nº118
Tradução de Isabel Andrade

Quando Carl Mørck o subinspector do Departamento Q, se depara com o processo de um antigo crime na sua secretária, de imediato estranha o sucedido. Trata-se do homicídio violento de dois irmãos 20 anos antes. O culpado confessara e fora condenado. 
Sendo assim, como explicar o misterioso aparecimento daquele processo na sua secretária? Quem o deixara ali? Movido pelo instinto, Carl reabre o caso. As pistas guiam-no a Kimmie, uma mulher atormentada movida por um único propósito: vingança.
Mas Carl não é o único a procurar Kimmie. Homens poderosos tentam desesperadamente encontrá-la para silenciar os terríveis segredos que ameaçariam o seu futuro. Mas Kimmie esconde um segredo muito mais desconcertante do que todos imaginam.

Desejo de Vingança é o segundo livro da série Departamento Q e traz de volta o detetive Carl Mørck e o seu assistente Assad. É uma obra sádica, perturbadora, mas definitivamente inovadora.



17 de janeiro de 2016

1º EPISÓDIO: O CABO DE ESQUADRA


O CABO DE ESQUADRA JEREMIAS
(uma história policial a preto e branco )


Lisboa, nos anos cinquenta, era uma cidade com pessoas, coisa que se foi entretanto perdendo. Os casais novos mudaram-se, nos anos sessenta, para as casas da periferia, de rendas mais baratas. Nesses tempos vivia-se em bairros populares.
O operariado era numeroso e vindo em grande parte da província. A escolaridade era curta e breve, quando era. Para se ingressar na Polícia, na GNR era preciso saber ler e escrever e depois a 4ª classe.
Os bairros de barracas circundavam a cidade. Eram conhecidas algumas zonas onde a água canalizada era o chafariz mais próximo, a casa de banho era o “lá vai água” quando os bispotes eram atirados das janelas para a rua. Quando chovesse a água levava… Lisboa levou muitos anos a ter chamadas condições base de higiene generalizadas.
As esquadras de polícia nos bairros populares tinham uma actividade enorme e era o “Sempre em festa”.
As rixas entre os vizinhos era o dia a dia. A faca era a arma de agressão mais usada.

Na esquadra do Alto do Pina, imperava o cabo Jeremias.
Era o cabo de esquadra.
Tinha vindo aos vinte anos para a tropa. Fez a 4ª classe no quartel da Graça em Transmissões. Concorreu à Polícia, estagiou em Campo de Ourique e acabou nomeado cabo de esquadra do Alto do Pina.
Era uma esquadra muito animada pela etnia cigana que se amontoava na Picheleira, um bairro de barracas na zona ocidental de Lisboa.
A policia naquele tempo andava sempre a enxotar das ruas as varinas e restantes vendedores ambulantes.
Era conhecida a frase viperina atirada a uma varina levada pelo braço para a esquadra:

− Ó Micas, vais presa?
− Não, vou dormir com o chefe

O cabo de esquadra Jeremias ficou na história da esquadra pela forma expedita como resolvia as contendas  sempre à porrada!


A. Raposo

O POLICIÁRIO DE BOLSO ENTRA DE NOVO AO SERVIÇO


Hoje, o blogue inicia a publicação do primeiro de uma série de contos (muito) curtos, protagonizados pelo cabo de esquadra Jeremias. Personagem único, tem a particulariedade de ser desconhecido por todos. Cada conto do cabo Jeremias será uma verdadeira caixa de suspresas, que irá ser revelada e construída, pouco a pouco, em cada episódio.

Caros leitores, em rigoroso exclusivo, apresentamos


O CABO DE ESQUADRA JEREMIAS*

Autor: A. Raposo

*Sem qualquer grau de parentesco com uma das autoras do blogue.

14 de janeiro de 2016





DIA 17 DE JANEIRO

O


IRÁ RETOMAR A SUA ACTIVIDADE