21 de fevereiro de 2016

6º EPISÓDIO - O CABO JEREMIAS ERA UM POETA

Na esquadra, nas horas mortas ouviam muito frequentemente um assobio. O cabo Jeremias imitava o rouxinol e a toutinegra. Tentara durante longas horas o canário mas não tinha pé para tamanho chinelo.
A vizinha Rosalina uma rapariga que olhava muito para as fardas e sonhava de alto, ficava embevecida ao ouvir o cabo Jeremias a assobiar imitando o rouxinol.
Tanto assim que ela quando o via dizia para si baixinho “Ai rouxinol, rouxinol, de bico doirado, se te apanho um dia, chamo-te um rebuçado!”
É claro que o cabo Jeremias não se apercebia dos corações que despedaçava.
Porém, conforme um dia afirmou o guarda-nocturno da área, que todos os dias tinha que ir à esquadra assinar o ponto: “O cabo Jeremias, para além do mais, é um erudito poeta espontâneo, tipo António Aleixo, mas para melhor. Um dia sem ninguém estar à espera saiu-se com uma que nunca mais me esqueceu a profundidade, ora ouçam:

São as fezes que nos salvam
Nos momentos de aflição
Por isso acredito em Deus
Dia sim e dia não!

O Aleixo não faria melhor. E o Pessoa nem à cartucheira lhe chegava. E o que ele gostava da Florbela Espanca.
Não sei se conhecem esta poetisa.
Penso que ele gostava mais pelo nome. O nome Espanca dizia-lhe qualquer coisa.
O que seria? Mistério.

A. Raposo

14 de fevereiro de 2016

5º EPISÓDIO - O DIA-A-DIA DO CABO JEREMIAS

Nos idos anos 50/60, do século passado, a vida era dura para a malta que ia para a polícia.
O único benefício era poder dar porrada sem consequências. Mas dizia muitas vezes o cabo Jeremias para o travesseiro: “dar porrada não enche barriga!”
De facto, naquela época, para quem vinha da província  fizera a tropa antes das guerras de África − os empregos eram sobretudo mal pagos. O polícia vivia em quarto alugado, comia mal e no fim do mês não sobrava o dinheiro para o selo de 1 escudo tanto quanto custava uma carta para os pais na província.
O que lhes valia, para juntar algum pecúlio era os terrenos no norte onde a vinha dava para uma vida mais equilibrada.
Mas os terrenos eram de sua mulher…
Os problemas sexuais que nos vinte anos sempre fazem rebentar as hormonas na face e são causas de sonhos molhados, eram muito mal resolvidos pois as sopeiras tinham um pavor enorme de engravidar e respectivas consequências. Jeremias, felizmente, não tinha esses problemas. O cabo tinha o assunto controlado. Vivia num quarto alugado, com a mulher, a Micaela. Por alturas das vindimas ela tinha que ir à terra ajudar na adiafa.
Era nesses ínterins que a Dona Quitéria, uma viúva cinquentona, a dona da casa, resolvia os problemas mais prementes do cabo Jeremias. Dona Quitéria apreciava as brincadeiras do cabo Jeremias, as sugestões de chinfalhadas, quando estava para aí virada, o que era quase sempre, pois costumava dizer que a ocasião faz o ladrão…
Como já estava em pleno climatério, podia brincar à vontade. Era certo que de vez em quando o cabo Jeremias lá tinha que ir até ao Jardim Zoológico ver os primos macacos e o elefante a tocar o sino os prazeres máximos da Dona Quitéria.
A coisa era sempre muito bem montada não fosse alguma vizinha por a boca no trombone.
Mas para quem queria passar alguns domingos de folga a ouvir o relato da bola e a rebolar-se nas coxas da Quitéria, valia o custo/benefício, economicamente falando.
O cabo Jeremias tinha uma qualidade que raramente se encontrava na polícia: gostava de ler. “Sandokan e o Tigre da Malásia” era a sua bíblia. Emílio Salgari o maior escritor. Dizia ele com grande propriedade que só lia os clássicos!
“Isto quem quer ser homem de letras, não basta só ler as grandes!” Afirmava convicto o cabo Jeremias à Dona Quitéria enquanto lhe afagava os abundantes seios.

Se William Shakespeare ainda fosse vivo não desdenharia utilizar frase tão pitoresca!

A. Raposo

7 de fevereiro de 2016

4º EPISÓDIO - O CABO JEREMIAS E OS CIGANOS

(texto deixado escrito e assinado pelo cabo Jeremias, no seu “soi disant” caderno de memórias).

Quero desde já fazer uma declaração de interesses: não tenho nada contra os ciganos, nem contra os pretos nem contra os romenos, não os discrimino. Quando é para dar porrada levam todos sem discriminação!
Para mim não são raças menores pelo simples facto de não serem raças, são etnias.
Ora eu não sou racista, sou contra as etnias. Faz toda a diferença. Não é pecado, nem ilegal.
O meu nome é Jeremias. Sou o cabo Jeremias  cabo de esquerda do posto do Alto do Pina. Pratico a religião católica, quando não estou de serviço. Serviço é serviço, conhaque é conhaque. Mai nada!
Ando a estudar à noite psicologia numa dessas Universidades Novas que dão o canudo com uma certa elasticidade visto que o que o País precisa é de gente formada!
Gente culta, por assim dizer. Melhor dizendo gente acanudada.
Mesmo para dar porrada é preciso um curso! Vejam lá!
Para lidar com a etnia cigana é preciso dominar a técnica do toca e foge. Um misto de candomblé, de kung-fu e taekwondo com um cheirinho de karaté.
Por causa dessa etnia que dizem os conhecedores tem origem na longínqua Índia, daí a cor meio monhé dos ciganos que muitos dizem ser resquícios dos indianos mas que eu penso seriamente ter origens nos sóis do Alentejo, nas feiras a vender burros.
Certo certo é que eles usam facas afiadas, adoram rixas e usam golpes baixos.
Por mor disso, no meio duma refrega que me vi no ano passado, acabei no hospital de Beja com uma facada num testículo que me levou a ser  cerzido, pacientemente, por uma moça enfermeira uma boa hora, a frio.  Foram bem uns dez centímetros de ponto cruz.
Não vos conto as dores que tive. Não as desejo ao meu maior inimigo!
É por essas e por outras que não gosto particularmente da etnia cigana. E tenho as minhas razões.
Agora já não me apanham. Uso as mesmas defesas que os guarda-redes do hóquei em patins umas “coquilles”. Como se fossem duas cascas de nozes.
Agora já não há cigano que me meta medo!
Venham eles! Quantos são? Quantos são?

A. Raposo

31 de janeiro de 2016

3º EPISÓDIO - UMA FACADINHA NO MATRIMÓNIO



O cabo Jeremias era um homem sério. Um fiel cumpridor dos deveres do lar.
Estava casado com a sua Micaela − uma moçoila de Trás-os-Montes  habituada às geadas, a mugir as vacas e a levar umas boas palmadas nas nalgas.
Não é que o cabo Jeremias tivesse muitas virtudes. Mas era temente a Deus e à Santa Madre Igreja. Todos os domingos  quando a folga permitia  lá ia comungar, mais a Micaela. Pelo Natal, não perdiam a missa do galo.
Mas o Diabo tece-as e espreita. Um homem não é de ferro. Fundido. A carne é fraca e o bife é tenro. Era o caso da Menina Amélia florista. Vendia flores ao domingo no adro da Igreja da Penha de França e tinha um ar angelical.
O cabo Jeremias assim que a via começava a coçar-se. Pensava: a miúda é boa como o milho, carago!
Uma espécie de erisipela toldava-lhe o corpo e enevoava-lhe a visão.
Várias vezes pensou que era o Diabo a tentá-lo.
Até que um dia em que foi sozinho à missa abordou a pequena e perguntou-lhe se ela tinha licença de venda ambulante. Que não. Que não tinha ou se tinha estava lá em casa e se o Sr. Guarda quisesse ver podia lá ir que a mãe tinha ido à terra.
O cabo Jeremias foi.
O papel nunca mais aparecia, Amelinha chorava. O cabo Jeremias afagava-a as nalgas, com respeito e, às duas por três soltou-se um beijo.
Os nossos libidinosos leitores sabem que estas histórias acabam sempre no quentinho da cama. Esta não é excepção, porque estava frio e era inverno!
E o cabo Jeremias pecou. Pecou uma vez, pecou segunda vez e não pecou mais porque a hora do turno já estava a chegar. Vestiu-se, pegou no chanfalho ajeitou a pistola na cartucheira, apertou o cinturão. Enfiou as botas. Pôs o chapéu.
Desceu a calçada até à esquadra. O dever chamava-o.

(Não perca o próximo capítulo se por acaso é curioso ou mesmo voyeurista.
Se é temente a Deus: Adeus!)

A. Raposo



24 de janeiro de 2016

2º EPISÓDIO - HAJA RESPEITINHO OU LEVAM NO FOCINHO


“Haja respeitinho ou levam no focinho": Esta era a máxima que o cabo Jeremias – cabo de esquadra do posto de polícia do Alto do Pina na mui digna e leal cidade de Lisboa. Anos 60. Seculo XX.
Com o cabo Jeremias não havia “fun-fun nem gaitinha” ou as coisas corriam como ele queria ou resolvia-se tudo à porrada. Era por isso que alguém inventara o chanfalho.
Se alguém que me leia que não conheça – por mera iliteracia – esse adorno de autoridade, o chanfalho, passo a apresentá-lo. Trata-se de um rolo com cerca de um metro ou meio-metro, tipo borracha com interior rígido, para vergar nas costas dos pacientes. Dado com força faz doer.
Se algum dos meus inúmeros leitores, leitoras ou mesmo anaforditas (os que não são nem carne nem peixe) já levou uma boa chanfalhada nas costas sabe do que falo.
Hoje em dia o chanfalho ficou fora de moda desde que inventaram os carros da água sob pressão. É o futuro! O pessoal escusa depois de tomar banho! Poupa.
Ladrão de meia-tijela que caísse nas nãos do cabo Jeremias já sabia como acabava a história. Primeiro uns safanões para aquecer e depois umas belas chinfalhadas nos costados e a confissão surgia breve, completa e aumentada de detalhes inventados.
Para quê utilizar processos primitivos antigos tal como “os tratos de polé” ou máquinas sofisticadas, que a Santa Inquisição, graças a Deus inventou.
Para o Cabo Jeremias a dose era 20 chinfalhadas uma confissão – era tiro e queda!

Quem hoje for visitar a esquadra do Alto do Pina ainda encontra uma lápida na parede exultando os processos simples e práticos de obtenção de confissões sem dor. Era como tirar um dente sem anestesia. Só doía ao princípio.
Sem dor é como quem diz: com alguma dor! Mas esta vida não é ela um ramalhete de rosas perfumadas tendo na base os malvados espigões das roseiras?
Como dizia a avó do cabo Jeremias, depois de tomar meia litrada de tintol para aclarar a voz:
“Isto, meu querido neto, não há bela sem sermão!”

A. Raposo

18 de janeiro de 2016

LIVROS - JANEIRO 2016


DESEJO DE VINGANÇA
Jussi Adler-Olsen  Editorial Presença
Colecção Fio da Navalha: nº118
Tradução de Isabel Andrade

Quando Carl Mørck o subinspector do Departamento Q, se depara com o processo de um antigo crime na sua secretária, de imediato estranha o sucedido. Trata-se do homicídio violento de dois irmãos 20 anos antes. O culpado confessara e fora condenado. 
Sendo assim, como explicar o misterioso aparecimento daquele processo na sua secretária? Quem o deixara ali? Movido pelo instinto, Carl reabre o caso. As pistas guiam-no a Kimmie, uma mulher atormentada movida por um único propósito: vingança.
Mas Carl não é o único a procurar Kimmie. Homens poderosos tentam desesperadamente encontrá-la para silenciar os terríveis segredos que ameaçariam o seu futuro. Mas Kimmie esconde um segredo muito mais desconcertante do que todos imaginam.

Desejo de Vingança é o segundo livro da série Departamento Q e traz de volta o detetive Carl Mørck e o seu assistente Assad. É uma obra sádica, perturbadora, mas definitivamente inovadora.



17 de janeiro de 2016

1º EPISÓDIO: O CABO DE ESQUADRA


O CABO DE ESQUADRA JEREMIAS
(uma história policial a preto e branco )


Lisboa, nos anos cinquenta, era uma cidade com pessoas, coisa que se foi entretanto perdendo. Os casais novos mudaram-se, nos anos sessenta, para as casas da periferia, de rendas mais baratas. Nesses tempos vivia-se em bairros populares.
O operariado era numeroso e vindo em grande parte da província. A escolaridade era curta e breve, quando era. Para se ingressar na Polícia, na GNR era preciso saber ler e escrever e depois a 4ª classe.
Os bairros de barracas circundavam a cidade. Eram conhecidas algumas zonas onde a água canalizada era o chafariz mais próximo, a casa de banho era o “lá vai água” quando os bispotes eram atirados das janelas para a rua. Quando chovesse a água levava… Lisboa levou muitos anos a ter chamadas condições base de higiene generalizadas.
As esquadras de polícia nos bairros populares tinham uma actividade enorme e era o “Sempre em festa”.
As rixas entre os vizinhos era o dia a dia. A faca era a arma de agressão mais usada.

Na esquadra do Alto do Pina, imperava o cabo Jeremias.
Era o cabo de esquadra.
Tinha vindo aos vinte anos para a tropa. Fez a 4ª classe no quartel da Graça em Transmissões. Concorreu à Polícia, estagiou em Campo de Ourique e acabou nomeado cabo de esquadra do Alto do Pina.
Era uma esquadra muito animada pela etnia cigana que se amontoava na Picheleira, um bairro de barracas na zona ocidental de Lisboa.
A policia naquele tempo andava sempre a enxotar das ruas as varinas e restantes vendedores ambulantes.
Era conhecida a frase viperina atirada a uma varina levada pelo braço para a esquadra:

− Ó Micas, vais presa?
− Não, vou dormir com o chefe

O cabo de esquadra Jeremias ficou na história da esquadra pela forma expedita como resolvia as contendas  sempre à porrada!


A. Raposo

O POLICIÁRIO DE BOLSO ENTRA DE NOVO AO SERVIÇO


Hoje, o blogue inicia a publicação do primeiro de uma série de contos (muito) curtos, protagonizados pelo cabo de esquadra Jeremias. Personagem único, tem a particulariedade de ser desconhecido por todos. Cada conto do cabo Jeremias será uma verdadeira caixa de suspresas, que irá ser revelada e construída, pouco a pouco, em cada episódio.

Caros leitores, em rigoroso exclusivo, apresentamos


O CABO DE ESQUADRA JEREMIAS*

Autor: A. Raposo

*Sem qualquer grau de parentesco com uma das autoras do blogue.

14 de janeiro de 2016





DIA 17 DE JANEIRO

O


IRÁ RETOMAR A SUA ACTIVIDADE

30 de junho de 2015

OPINIÃO

O que escreve A. Raposo sobre os 
"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA"




Observações sobre o livro do M.Constantino

Decidiu o confrade Constantino fazer um estudo técnico e histórico sobre os muitos dos escritores de âmbito policial que nos últimos 150 anos resolveram escrever na área do “quarto fechado”, também conhecido por “crime impossível”.
O livro pretende ser um ponto de partida para os amantes do género e permitirá aos vindouros que se interessem, informações sobre os autores, breve critica sobre as obras e análise de alguns casos mais conhecidos.
É um livro de consulta, cronologicamente organizado e que terá lugar na biblioteca dos policiaristas que se desejem informados.

O género “ crime no quarto fechado” sempre fez as delícias dos apreciadores da literatura policial.
Contém em si um constante “suspense” que o leitor carrega até ao fim.
Este género, apesar de algumas desilusões e até de algum “copianço” de autores menos criativos, realça o esforço mental e a capacidade inventiva inerente aos bons escritores. Aqueles que hoje chamamos de clássicos e que fazem as delícias dos apreciadores. E só como exemplo indico três nomes para quem não os conheça:
 O Mestre John Dickson Carr/Carter Dickson, a eterna jovem Agatha Christie e o poeta escondido sob o pseudónimo de S.S.Van Dine.

Em fim de livro o autor oferece-nos dois contos portugueses: Um do autor e outro do Artur Varatojo. São a cereja em cima do bolo.

Obras deste género, julgo serem raras neste país, para não dizer desconhecidas.

Esse é o melhor elogio que poderei fazer ao amigo Constantino: deixar para a posteridade informação que foi colecionando ao longo de 70 anos de policiário puro e duro e de centenas de livros estudados.
Apesar da saúde ser sempre débil e do peso dos 90 anos, com a cabeça a trabalhar a 100% alguma coisa mais irá surgir em breve. Oxalá.


O amigo policiarista A. Raposo  

27 de junho de 2015

OPINIÃO

O que escreve ZÉ (Gustavo Barosa) sobre os 
"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA"

“Sou um ardente entusiasta de todas as coisas estranhas e curiosas e mesmo, para dizer a verdade, de tudo o que exercita e diverte o espírito”

Não tenho dúvidas de que este parágrafo de Fernando Pessoa (in – Histórias de um Raciocinador, editora Assírio e Alvim) se aplica, na perfeição, a M. Constantino (Manuel Botas Constantino) mas também a milhares de pessoas que, desde há muitas décadas, se têm dedicado, no nosso país, à prática do exercício mental a que nós, seus cultores assumidos, chamamos Problemística Policiária ou, quotidianamente, Policiário…
Para mim, mais do que um desporto ou passatempo, a Problemística policiária é um género literário. E um género literário que só existe em Portugal, pelo menos com a dimensão que vem atingindo, desde a dúzia de pioneiros (a quem saúdo e recordo) até aos milhares da Secção “Público Policiário” dos nossos dias.
Considero-o um género literário porque, para além dos requisitos dos outros (ficção, qualidade estilística, domínio vocabular, trabalho da acção …), possui uma característica peculiar – a interacção! A Problemística Policiária parte de um texto-provocação (o problema) mas só se completa com um texto-reacção (a solução). E, se conhecemos muitíssimos problemas com uma literariedade muito alta (quando o autor tem espaço para trabalhar bem a mensagem), também (pelo que fui lendo) muitíssimas soluções têm esse mesmo nível.
Talvez um dia, alguém, no futuro, “descubra” este género e o trabalhe, academicamente. Material não faltará e nesse trabalho, para além dos jornais regionais e do “Público”, serão preciosas as recolhas do Jartur e o enquadramento teórico, análise e cronologia histórica do Constantino.
M. Constantino passou grande parte dos seus 90 anos a recolher livros e textos policiais (nacionais e estrangeiros) mas foi muito mais longe – teorizou sobre eles, exemplificou, comentou e divulgou as suas análises, tornando mais claro perceber como se constrói uma acção policial.
Grande (muito grande) produtor, não sei se foi solucionista. Mas sei que, frequentemente, as soluções que apresenta não atingem o nível dos problemas que as originam. Creio que ao nosso querido amigo interessa muito mais construir uma bela casa do que habitá-la…
É bem conhecida (e indisfarçada) a sua maior paixão – o “crime impossível”, de que os de “quarto fechado” serão os mais conhecidos. É aí mesmo que o trabalho de criação e condução da acção tem de ser altamente minuciosa, de modo a atingir a utópica situação de impossibilidade de resolver o mistério proposto: ou seja – para um crime impossível … uma solução impossível!
Brindou-nos, há dias, o nosso velho amigo com a publicação de mais um livro – “150 anos de mistérios de crimes impossíveis na ficção policiária”.
Sendo um livro temático (sobre o crime impossível), não deixa de ser a síntese histórica do conto social, de onde partiram o romance policial e o problema policiário.
Coloca-nos o autor em 1841, quando Allan Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue, que reconhecemos como o embrião da narrativa policial/policiária (pelo menos, o mais emblemático).
A partir daí (e depois de teorizar sobre o seu conceito de crime) envolve-se, profundamente, nas técnicas do “crime impossível” (com exemplos e explicações muito claras) e na sua evolução cronológica, desde a primeira década do século passado até aos anos 60, que o autor classifica como o início da decadência do enigma, numa “evolução” para o romance mais “negro”.
É mesmo uma delícia ir desfolhando o livro e vendo citados todos os grandes (e menos grandes) autores que fizeram a formação policiária de todos os que gostamos muito do género…
A parte final é a que diz respeito a Portugal, com início em o Mistério da Estrada de Sintra (da dupla Eça de Queiroz/Ramalho Ortigão) e apontando os nossos faróis - do Repórter X a Strong Ross, não esquecendo aquele que é, para mim, o primeiro grande teorizador do texto Policiário – Fernando Pessoa, com as Histórias de um Raciocinador e Quaresma Decifrador, a que me permito acrescentar um texto fundamental mas muito menos conhecido – o ensaio “História Policial”, eventualmente incompleto, publicado a partir de manuscritos (em Inglês e Português), o que mostra que Pessoa conheceu (e leu) os grandes mestres, sobretudo de língua inglesa.
M. Constantino fecha o livro com dois excelentes textos, uma homenagem a Artur Varatojo e uma referência a Sete de Espadas, o grande aglutinador da nossa tribo policiária.
Um livro que se lê sem parar. Foi escrito para ficar e ser outro a recordar um dos vultos maiores do policiarismo português. Constantino é um valor de referência e consulta obrigatória na divulgação histórica da literatura Policial/Policiária e na análise exaustiva do seu tema de culto – “o crime impossível”.

Muito obrigado, velho Amigo. Ficamos à espera das próximas obras…

Um abraço do Zé


26 de junho de 2015

ÍNDICE - 150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA



JUSTIFICAÇÃO

I − INTRODUÇÃO.. 17
II − O QUE É O CRIME?. 19
III − “CRIME IMPOSSÍVEL” É O CRIME PERFEITO?. 21
IV – “CRIMES IMPOSSÍVEIS” NA REALIDADE.. 25
       FALSO SUICÍDIO.. 25
       SITUAÇÃO IMPREVISTA.. 27
V − TÉCNICAS DO “CRIME IMPOSSÍVEL” NA LITERATURA.. 29
VI − HISTÓRIA CRONOLÓGICA.. 35
      ABORDAGEM... 35
      DO INÍCIO AO FIM DO SÉC. XIX.. 37
VII − 1ª DÉCADA DO SÉC. XX – 10 ANOS DE OURO.. 41
VIII − ANOS 20. 49
IX − ANOS 30 A 40 – 2ª ÉPOCA DE OURO.. 49
X − AUTORES DOS ANOS 40. 97
XI − DÉCADA DO MEIO DO SÉC. XX.. 117
XII − ANOS 60 XX – CLARA DECADÊNCIA DO ENIGMA.. 131
XIII − A CAMINHO DOS 150 ANOS – ANOS 70 A 90. 149
XIV − CHEGADA AOS 150 ANOS
XV – “CALDEIRADA” LUSITANA.. 167
    1 − A LITERATURA POLICIÁRIA PORTUGUESA.. 167
    2 − HOMENAGENS. 170
         O CASO DA MOSCA MORTA.. 170
         O LADRÃO GENEROSO E HOMICÍDIO IMPOSSÍVEL.. 183
    3 − A LEITURA EM GERAL E NO POLICIÁRIO.. 192
    4 – QUESTÃO DE GOSTO.. 193

AGRADECIMENTOS. 195




FICHA TÉCNICA - 150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA





FICHA TÉCNICA

Título: 150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA                 FICÇÃO POLICIÁRIA

Autor: M. Constantino

Data da 1ª Edição: Maio 2015

Edição de Autor

Ilustração de Jartur

policiariodebolso@gmail.com

25 de junho de 2015

NOVO LIVRO DE M. CONSTANTINO




"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA"


Lançado no passado dia 17 de Maio, em Almeirim, durante a homenagem a M. Constantino, o livro tem como tema o "crime de quarto fechado" na ficção policiária.

"150 ANOS DE MISTÉRIOS DE CRIMES IMPOSSÍVEIS NA FICÇÃO POLICIÁRIA" é um estudo técnico e histórico que reúne em 200 páginas alguns aspectos mais relevantes da história deste género, também designado por "mistério ou crime impossível".


Em "Justificação" M. Constantino escreve:

  O mês de Abril do ano de 1841 é a data sancionada como o nascimento da história policiária e do designado “crime impossível”, ou de “quarto fechado”.
Naturalmente que, em 1941, o centenário do acontecimento exigia um estudo na matéria, que não se fez, segundo cremos; e pela nossa parte, uma madrugada adolescente, não passávamos da leitura do “Texas Jack”.

Nos 150 anos do evento (século e meio), tanto o assunto nos despertara o interesse que possuíamos material para iniciar esse estudo. Então, foi o trabalho profissional, que nos dominava por completo, que levou ao adiamento. Entretanto, no Convívio de Coimbra, prometemos ao L.S. (Lopes da Silva) pensar no assunto.
O tempo evapora-se… anos decorreram, limitando-nos então à leitura, mesmo essa escassa, de um ou outro livro cujo título ou autor nos despertou interesse e, estamos conscientes, achávamo--nos necessariamente, atrasados e desactualizados.
Após satisfeito o longo período de cumprimento integral das várias funções e cargos inerentes à profissão, os momentos de ócio − que nunca tivemos nem quisemos verdadeiramente − foram preenchidos com a entrega ao jornalismo regional e de tal modo que nos impediu qualquer desvaneio.
Cessado que foi, por iniciativa própria − uma opção de consciência − este outro ciclo da nossa vida, relembrámos a promessa feita ao L.S. de escrever um livro para publicação pela Tertúlia Policiária de Coimbra (T.P.C.). Seríamos, em vez de um potencial ofertante de promessas, um pagador de promessas. A Maria Luísa, elemento do policiário e funcionária do Ateneu, iniciou entusiasticamente a dactilografia dos nossos originais. Mas então tudo mudou: a morte do director do Ateneu, a saída da dita funcionária, a dispersão da T.P.C., as dificuldades em editar, tudo parou. É a esposa de L.S. que reinicia o trabalho mas, apesar do esforço, existem perdas irreparáveis… o original, as últimas cerca de meia centena de páginas, incluindo a providencial “pen”, perdeu-se entre Coimbra, Viseu, Santarém. Tivemos de refazer o original, reduzir o número de páginas e, eliminando a parte antológica, reescrever um novo final.

Sabemos que o título é pretensioso, o tema difícil, disso estamos convictos: se assim não fora, não chegaria a merecer o desafio a que nos propomos.
É facto que nos faltam fontes de apoio. Tanto quanto sabemos, mesmo na área da história da temática em causa onde a ficção se instalou, salvo um esboço de Robert Adey denominado “Locked Room Murders” (Londres, 1979), e no qual nunca tivemos a ventura de pôr os olhos, e duas ou três antologias não nacionais, mais comerciais que proveitosas, deixa-nos a alternativa de partir, em termos consultivos, do zero.
A sorte está lançada, entretanto! Porque procuramos honrar e não a honra, vamos empenhar todo o carinho e interesse na elaboração deste livro. E de algo estamos certos:

Com maior saber outros o fariam melhor;

Com maior dedicação, concedam-nos que expressemos as nossas dúvidas.

M. Constantino


AMANHÃ PUBLICAÇÃO DO ÍNDICE


Edição: Maio 2015
    Páginas: 200
    Formato: 150x210
   
10.00€ (inclui custos de envio)


Pedidos ao endereço
policiariodebolso@gmail.com