3 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 338

Efemérides 3 de Dezembro
Joseph Conrad (1857 - 1924)
Józef Teodor Nałęcz Korzeniowski, nasce em Berdychiv, Ucrânia. Berdychiv pertencia anteriormente à Polónia, razão pela qual o autor é referido como tendo origem polaca. Presta serviço na marinha mercante durante uma dezena de anos o que irá marcar a sua escrita. Autor de romances e short stories inicia-se na escrita aos 30 anos, sendo considerado um dos maiores escritores de língua inglesa. Na literatura policiária é um dos mestres de narrativa espionagem e por isso um autor a incluir no
Dicionário de Autores Contemporâneos da Narrativa de Espionagem, destacam-se os seus dois romances mais famosos: The Secret Agent (1907) e Under Western Eyes (1911)

Fanny Siwers (1928 - 1981)
Karin Bang nasce em Oslo, Noruega. Consagrada poetisa, romancista e autora de livros infantis escreve também dois livros policiários sob o pseudónimo Fanny Siwers: Mord I Måneskinn (1956) — Morte ao Luar em tradução literal — e Seilas med døden(1960) — Cruzeiro com a Morte em tradução literal.


TEMA — DIÁRIO DE UM ADVOGADO — PREGAÇÃO AOS ENCARCERADOS
Esperávamos Os nossos constituintes na antiga Casa de Detenção. O dia estava belo e Os presos passavam por nós, parecendo indiferentes à condição de presos. Um ar natural e, por isso mesmo, um pouco cínico. Em fisionomia alguma a expressão do castigo ou a angústia da carceragem. Bom e mau, pensava Bom, porque talvez isso reflita uma administração sábia e humana. Mau, porque pode ser que essa naturalidade, esse jeito de quem esta em casa, registe aquilo que nós, os advogados criminais, já temos surpreendido nas várias incursões obrigatórias por essa triste realidade carcerária — no livro na doutrina, estaria o sonho romântico e irrealizável.
Aqui, na vida prática, a hipocrisia que se mostra, por exemplo, na certeza de que os detentos de estrelinha ao ombro, os padrões de bom comportamento presidiário são, quase sempre, os elementos mais temíveis… Os que se adaptam gostosa e calculadamente ao regulamento e deixam os ponteiros do relógio fazer o resto…
Os revoltados, os inconformados, os que se desesperam e explodem e vão bater na sinistra solitária, talvez sejam, mesmo, os que devem ser aproveitados. Moral e socialmente. Porque são aqueles que não reflectem na infração criminal o próprio temperamento…
Por essas e outras é que não gosto de visitar as casas de castigo e de readaptação.
Só os ingénuos deixam de ver o que esta gritantemente ostensivo e claro — a infinita hipocrisia humana. Desde a direcção, distribuindo prémios aqueles que sabe os mais perigosos, uma vez que estes são os de mais intimidade com os regulamentos, até às solenidades retumbantes da liberdade condicional.
A população carceraria reunida para o espectáculo. E para os discursos. E que discursos! Lembro-me de um em que tomou parte um colega de turma. Um homem só. Sempre foi assim, o M. L. Vazio de tudo. Na Faculdade fazia intrigas sob pretexto de política universitária. Foi ele quem denunciou um colega nosso como filho da dona de uma pensão alegre. Só vendo a alegria safada, pequenina, sórdida, com que ele se dispôs a espalhar pelos quatro cantos que o colega é filho de Z. Vivia discretamente esse companheiro bom, temo, querido por todos, Notávamos nele, lá isso notamos desde o começo de nossas vivências universitárias, uma espécie de tristeza orgânica. Existe sim. E como se a tristeza fosse tão grande, tão grande, que contamina o corpo todo, de onde ela como que também se desprende… Muitos anos depois vim encontrá-la, essa tristeza orgânica. Em uma senhora, jovem ainda, casada e que fora ao escritório pedir o meu interesse profissional para o irmão. Senti nela essa tristeza. Não tinham filhos. E ambos queriam ter filhos. Mas voltando ao M. L., pois vou encontra-lo na festa carcerária (ah! meu Deus, que indecência nessas duas palavras quando unidas). Começou assim o pandego: Senhores encarcerados
Um tiro de revolver no meu ouvido não me teria feito major reacção. Só mesmo um animal como M. L., forrado de insensibilidade, poderia usar de tais expressões. Senhores encarcerados… A contradição, a mentira, o ridículo, o solene, tudo isso de mãos dadas, dançando ciranda com trejeitos de rock num velório. Como falou sobre o mal, o crime, a recuperação dos senhores encarcerados, a política criminal na Franca, na Itália, no Brasil, citou o livro de Lemos Brito sobre o Problema Sexual dos Detentos (esse livro vale pela compilação doutrinária mas… na hora de concluir e após apresentar a brutalidade do fenómeno sexual com excepcional fidelidade, a conclusão é humorística… mais humorística ainda porque nos presídios actuais Iá estão os parlatórios, os locais oficialmente determinados e oficialmente aparelhados para o encontro dos casais. E parlatório, porque neles a conversa é glandular, é sexual, é humaníssima dentro desse insuportável farisaísmo do Estado que faz as vezes de peru em relação a esse problema.
Por falar em parlatório, há de tudo. Critérios têm de haver. Se todos fossem casados no civil… mas há os que se casam só religioso, há os que não estão casados, mas têm filhos… há os que estão amigados com respeitabilidade e os que… não estando nessa catalogação, são homens e tem direito palavra, ora essa. Qual o critério?
Ora o critério… Sei de um guarda cuja função no Presidio é preparar o expediente com informação como se investigação se tratasse, para habilitar a visita. Tem uma tabela esse expediente. O curioso é que a mulher, assim solucionada para um, pode ser a solução para muitos, pois… são arrebanhadas no baixo meretricio.
Mas o M. L. estava feliz. Ao lado dele, duas jovens assistentes sociais, beatificamente acreditando na regeneração dos senhores encarcerados.
Bem consideradas as coisas, onde estaria o verdadeiro Crime nessa cena?


TEMA — DESORDENS EM PICCADILLY
De J. J. Marric
Valente, amável, perspicaz, amigo de família, “detective infalível com os métodos tradicionais, eia o inspector Gideon, comandante do Departamento de Homicídios da Scotland Yard.

É natural que outros lugares pretendam ser o centro do mundo, mas na opinião de Gideon este era Piccadilly. Já Piccadilly o fascinara quando não passava ainda de uma criança e ainda exerce sobre ele a mesma fascinação, mesmo agora, quando é o Comandante do Departamento de Investigações Criminais da Força da Polícia Metropolitana.
Gideon conhecia Piccadilly como a palma da sua própria mão. Mas a pequena explosão de vadiagem e arruaças ocorrida lá, certa noite quente de verão, preocupou Gideon. Os bêbados perdem, às vezes, o controle.
O segundo incidente em Piccadilly foi bem mais sério. Ocorreu três noites mais tarde: Polícia Sturgeon, da Divisão Central de Londres estava de ronda… sozinho. Ele sabia que o seu próximo serviço era o de auxiliar na evacuação do tráfego na hora da saída dos teatros, e os polícias a paisana encarregar-se-iam, enquanto isso, dos s carteiristas que escolhiam aquela hora para um “trabalho”.
Subitamente, Sturgeon notou um grupo de rapazes bem vestidos e barulhentos que saía de uma das ruas laterais. Avançou para o grupo, na esperança de que o uniforme acalmasse os integrantes.
Qual nada. Os jovens aumentaram mais ainda a barulhada que já faziam. Eram seis.
Com a aproximação do polícia fardado, os jovens fizeram um cordão, fechando completamente a calçada no ponto onde Piccadilly entra na Rua Coventry. Todos os que vinham à frente e atrás dos jovens ficaram subitamente bloqueados.
Sturgeon compreendeu imediatamente que os rapazes faziam aquela bagunça deliberadamente.
— Acabem com isso, gente — pediu o polícia delicadamente.
Mas nenhum dos seis jovens disse nada.
Sturgeon teve apenas um lapso de segundo para perceber o que aconteceria em seguida.
Esmagaram-no literalmente. Um deles atracou-se ao guarda e os demais caíram-lhe em cima.

Fugiram — reportava o Superintendente Lemaitre, braço-direito de Gideon, na manhã seguinte. — Formavam um bando de transviados. A divisão mandou para o local uma dúzia de homens, que lá chegaram em cinco minutos, mas era tarde demais. Alguns transeuntes tentaram apaziguar os agressores, mas receberam também alguns bofet6es. E esta já foi a segunda vez, Gideon.
— E Sturgeon, como está? — perguntou o inspetor.
— Levou vinte e sete pontos.
— Pode falar?
— Só amanhã.
— Providencie para que a Central verifique entre os homens deles, e faça o mesmo entre os nossos. Veja se consegue qualquer descrição dos assaltantes e se algum deles pode ser identificado entre os que fizeram arruaça semelhante na semana passada.
Lemaitre não se surpreendeu no dia seguinte, quando Gideon anunciou que iria ao Hospital Charing Cross, para onde tinham levado Sturgeon.
Logo que pode falar, o próprio Sturgeon declarou que gostava realmente daquela parte da cidade sua ronda e não se lembrava de ter vista antes qualquer dos agressores.
— Na realidade, senhor, — acrescentou Sturgeon — tive a impressão de que me agrediram apenas para distrair-se. Pareciam estar apenas a brincar.
Gideon providenciou, depois disso, melhor policiamento em Piccadilly Circus e deu instruções para que se fizesse uma chamada para a Yard caso fosse observado qualquer ajuntamento de jovens transviados nas imediações.
Durante a semana que se seguiu houve três ou quatro alarmes falsos. Por duas vezes Gideon levou Kate, sua esposa, a passear em Whitehall e, dali, dirigiram-se a Piccadilly.
Na segunda-feira da outra semana, um polícia observou um novo ajuntamento de alguns jovens, que pareciam andar à cata de arruaça. Fez sinal para uma radio patrulha e esta pediu auxílio a Scotland Yard.
Dois polícias aproximaram-se do grupo… um pela frente e outro pela retaguarda. Subitamente os jovens começaram a agir exactamente como fizeram com Sturgeon: formaram um cordão que ocupava toda a calcada.
O polícia fardado, já com a mão no cassetete, procurou falar delicadamente:
— Acabem com isso, meninos. Aqui não é lugar de bagunça.
— Bagunça?! — vociferou um dos homens… E todos os outros precipitaram se sobre o guarda.
Mas dois polícias à paisana e mais três fardados caíram sobre os desordeiros antes mesmo que tivessem tempo de dominar o ronda. Após breve luta, dois dos seis conseguiram enfrentar e driblar o intenso tráfego daquela hora e atravessaram a rua, escapando, mas os quatro restantes foram acuados na esquina.
Uma carrinha da polícia chegou logo ao local e os transviados foram detidos por perturbação da ordem.
Na manhã seguinte, Gideon compareceu ao juiz enquanto eram ouvidas as acusações. O promotor pedia a prisão para os desordeiros.
— Realmente não vejo necessidade de tal prisão — disse um jovem advogado que se apresentara como defensor dos rapazolas. — Estes jovens são homens trabalhadores, oriundos de boas famílias. Pertencem todos a um clube social em Victoria e jamais se meteram em confusões antes. Apenas beberam um pouco além da conta e perderam a cabeça.
— Ora… Que diz o senhor a isto, Inspector-Chefe? — perguntou o magistrado a Gideon.
— Precisamos de algum tempo para podermos obter mais informações sobre os acusados, senhor.
— Compreendo… compreendo. Muito bem. Mandarei reencarcerar as culpados por oito dias, ao fim dos quais prestarão fiança de vinte e cinco libras cada um. Podem conseguir as vinte e cinco libras?
— Sim, senhor — responderam todos, em coro.
— Queremos descobrir o máximo possível sobre eles — disse Gideon. — E precisamos saber também mais sobre o clube. Ah, sim… E temos que ver se Sturgeon reconhece alguns deles.
Sturgeon não reconheceu nenhum.
— Se quer saber o que penso, Gideon, esses tipos são um bando de selvagens prontos para provocar tumultos e não precisam de nenhum motivo para isso — disse Lemaitre. — E vão recomeçar a qualquer momento. É sinal dos tempos, meu velho. Não há remédio.
— O que é preciso é por um freio nesse clube deles — disse Gideon. — Já descobriram alguma coisa sobre o tal clube?
— Tem setenta ou oitenta membros, de ambos sexos, com idades entre dezassete e vinte e cinco anos — disse Lemaitre. — As actividades são como as de qualquer outro clube.
— Fique de olho vivo nesse negócio — ordenou Gideon.

Foi exactamente quatro dias depois que Lemaitre entrou como um tufãopelo gabinete, juntou as mãos ossudas e exclamou:
— Agora estamos na pista, Gideon. Há uma porção de membros do clube que costumam visitar o Sammy de vez em quando. Sammy é o mais esperto receptador de roubos que temos em Londres. Agora, se pelo menos pudéssemos descobrir porque ele usa aquela rapaziada…Ponha a massa cinzenta a funcionar, Gideon.
— Os rapazes fizeram aquelas desordens para atrair a atenção, é claro — disse Gideon. — Pretendiam fazer com que nos concentrássemos em Piccadilly, como está realmente a acontecer. Haverá um novo truque destes muito breve e um dia, quando estivermos ocupados, a patrulhar…
— Outros membros do clube irão executar assaltos nas ruas mais afastadas! — Berrou Lemaitre, descobrindo a pólvora.
Três noites mais tarde, tudo se passou assim mesmo.
Desta vez, foram sete os homens que iniciaram inopinadamente uma briga com berreiros e palavrões do lado de fora do Criterion. Quase imediatamente soaram os apitos dos polícias.
Enquanto isso, nas estreitas ruas de Soho, outros jovens assaltaram restaurantes e teatros, roubaram o que puderam e precipitaram-se… para os braços da polícia, que já os esperava.

— Mas como foi que descobriu o truque deles? — Perguntou Lemaitre.
— Na realidade, demorei demasiado tempo a entender — disse Gideon. — Tinha a certeza de que ninguém iria provocar confusão no Circus a menos que quisesse arriscar-se deliberadamente a ser preso. Mas aqueles rapazolas eram peritos demais quando fugiam; não podiam ser apenas bêbedos ou jovens transviados. Foi dai que comecei a desconfiar.

2 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 337

Efemérides 2 de Dezembro
Emery Bonett (1906 - 1975)
Felicity Winifred Carter nasce em Ecclesall, Sheffield. Inglaterra. Escritora e dramaturga, em 1936 vê editado o seu primeiro romance, A Girl Must Live,— inicialmente publicado em folhetins na revista Leisure, e mais tarde, em 1939, adaptado ao cinema. A autora torna-se conhecida também pelos livros policiários que escreve em parceria com o marido John Bonett (Clicar), que em geral se encarrega do tema, enredo e planeamento do romance e Emery que se dedica ao pricesso e escrita. Além dos livros e peças que têm em comum Emery Bonett publica individualmente Never Go Dark (1940), Make Do With Spring (1941), e High Pavement (1940), editado também como título Old Mrs Camelot.



TEMA — ENIGMA CRIMINAL COM 104 ANOS — CRIME IMPUNE
No dia 31 de Maio de 1908 às 6 horas da manhã, Rémy Couillard, criado do pintor Adolphe Steinheil, entrou como de costume, no quarto do seu patrão, no primeiro andar de uma vila no beco sem saída de Ronsin no bairro de Vaugirard. Deparou, então, com um horrível espectáculo. Caído de bruços sobre o patamar da escada, o pintor estava morto. Perto dele via-se um “alpenstock” (bastão ferrado para alpinismo), mas não havia uma só gota de sangue. Na cama, a sogra do pintor, a velha Senhora Japy, estava estendida com as vestes em desordem, e um tampão de algodão na boca, também assassinada. Enfim, a mulher do pintor, Sra. Marguerite Steinheil, esta viva, estava amarrada aos pés da cama. Ajudado por um vizinho que acorrera aos seus gritos, Couillard desamarrou imediatamente a esposa do pintor, que contou como, durante a noite, três homens vestidos de longos capotes negros e de barbas postiças, haviam entrado em casa na companhia de uma mulher ruiva, estrangulando-lhe o marido e a mãe.
“Na escuridão”, explicou ela, “confundiram-me com minha filha Martha que felizmente partira na véspera com a cozinheira Mariette Wolff, para a nossa casa de campo de Bellevue, o Vert Logis. Foi, sem dúvida por isso que me pouparam.”
Nas primeiras investigações, a polícia iria recolher certo número de indícios estranhos, aparentemente valiosos, mas em termo dos quais se iria girar durante três anos, sem resultado. Notou-se em primeiro lugar, que a chave da porta da vila havia desaparecido. Nunca mais seria encontrada. Descobriu-se também no armário da cozinha um rolo de cordas semelhantes àquelas com as quais a senhora Steinheil fora amarrada.
Esta última, a única testemunha do crime, fez uma descrição detalhada da maneira pela qual o seu esposo e a sua mãe haviam sido estrangulados pelos misteriosos agressores. Na confusão da luta, que se teria desenrolado em plenas trevas, um tinteiro fora derrubado, sujando-a de tinta por todo o corpo. Além disso, uma pedra do único anel que ela então usava havia caído. Um cão de guarda, que deveria provocar muitas discussões, fora afastado do jardim na véspera, quando, habitualmente, era solto todas as noites.
A hora do crime? Um pequeno relógio de parede atirado pelos assassinos no fundo de um armário, deixara de trabalhar com a mola quebrada aos doze minutos depois da meia-noite. Tais eram as indícios desse obscuro caso, aos quais se veio juntar prontamente o depoimento do criado. Da última vez em que vira o pintor, este pedira-lhe uma garrafa de conhaque e um capo para preparar um grogue.
“Uma mulher ruiva e três homens de capote”, dissera Madame Steinheil, a quem os jornais já chamavam “Meg”, o nome que lhe davam os íntimos.
Recolhendo informações no meio dos pintores, a polícia viu-se pouco depois na pista de trezentas mulheres ruivas. Todas elas podiam ter sido antigas modelos do pintor ou ainda suas amantes.
“Adolphe, apesar dos seus bons costumes, tinha uma ligação com a cantora Nora N… afirmou Meg, que sem hesitar reconheceu a sua rival, numa fotografia. Mas a cantora estava no estrangeiro havia meses.
Dois dias depois, foram encontrados na casa de um vendedor de roupas velhas os famosos capotes que haviam sido roubadas de um teatro judeu.
Entretanto, o caso não se esclarecia. Os depoimentos recolhidos estavam longe de se harmonizar.
A polícia anunciou que a vila trágica fora violada por arrombadores dois anos antes, mas não foi capaz de dizer por quem. Um cocheiro afirmou ter conduzido, na noite do crime, dois homens e uma mulher, ruiva esta última, para o beco Ronsin. Aliás, todo o bairro viu, os assassinos, mas em horas diferentes e em diversos lugares : uns num café, palestrando em voz baixa; outros, ao escurecer, vigiando a calçada ; outros, ainda, sobre os telhados, ao luar.
Procurava-se por toda a parte a mulher ruiva, nos cabarés de Montmartre, nos cafés de Montparnasse, mas seguiam-se vinte pistas diferentes, ao mesmo tempo. Suspeitou-se assim de um jornalista americano tido como honesto, o Sr. Burkingam, que a Sra. Steinheil julgou reconhecer. Suspeitou-se de álibis indiscutíveis.
Certa imprensa julgou mesmo dever acusar os agentes da Alemanha, em virtude das origens alsacianas da vítima, o que provocou viva emoção em Berlim.
Depois de passados seis meses, a 21 de Dezembro, foi preso o criado de quarto Rémy Couillard, em cuja carteira se encontrou uma carta de Martha Steinheil ao noivo e a famosa pedra que faltava ao anel de Meg.
Dessa vez, a opinião pública convenceu-se de que fora encontrado o culpado. “Foi ele quem matou meu pobre marido…” — declarou Meg em lágrimas ao juiz de instrução, Leydet. “Agora com a cabeça repousada, livre dos atrozes pesadelos que me perseguiam todas as noites, eu reconheço-o formalmente”.
“Sou inocente…”, repetia Couillard indignado. “Foi alguém da família Steinheil que colocou esses objetos comprometedores na minha carteira. Estou a ser vítima de uma pavorosa maquinação.”
Mas vistoria realizada no seu quarto não deu nenhum resultado e as autoridades foram obrigadas, apesar de tudo, a reconhecer que as presunções eram demasiado vagas. A descoberta da pedra levantou, aliás, uma série de novas questões: Quem arrancara a pedra do engaste do anel? Porquê Couillard a teria estupidamente colocado na carteira, guardando-a durante seis meses? Ou, então, quem a teria posto lá e com que fim? Inopinadamente, verificou-se um fato espectacular: um joalheiro apresentou uma prova irrefutável das mentiras de Meg, diante dela, no gabinete do juiz.
“Esse anel, Madame? Foi a senhora mesma quem me pediu que retirasse a pedra, o que fiz devolvendo-lhe a jóia e a pedra, separadas.”
Ao ouvir isso, a Sra. Steinheil empalideceu e desmaiou.
Obrigada a reconhecer a falsidade de suas acusações, Meg foi prontamente presa e julgada por cumplicidade no crime, enquanto o infeliz Couillard, posto em liberdade, movia uma acção cível contra ela.
Enquanto isso a mulher encontrara meios de denunciar outro dos seus criados, Alexandre Wolff, também reconhecido inocente.
Encarcerada na prisão de Saint-Lazare, na cela numero 13, a Sra. Marguerite Steinheil converteu-se numa monstruosa celebridade. Os jornais publicavam listas completas dos seus amantes e davam mil e um detalhes de suas aventuras galantes, que fariam empalidecer de inveja a própria Messalina. A lista dos amantes abrangia a quase todo o Almanaque de Gota. E houve quem afirmasse, com a maior seriedade do mundo, que o próprio Guilherme II fora um hóspede discreto dos seus apartamentos de Bellevue e Meudon.
Mas acima de tudo, foi a sua aventura com Félix Faure que monopolizou a atenção. Meg era, informava-se, amiguinha do falecido presidente da República. Ora, na mesma época em que toda a cidade dizia que Félix Faure estava em colóquio íntimo com uma mulher por ocasião do seu falecimento súbito e misterioso, descobriu-se em casa de Meg uma seringa. Meg passou, então, a ser chamada a Dubarry do Vaugirard, a mulher fatal que se aproveitava dos momentos de fraqueza de suas vítimas para fazê-las absorver um entorpecente.
Os interrogatórios pareciam de resto confirmar esta tese. Dela não se conseguia arrancar senão acusações ao seu falecido esposo.
“Eu não o amava”, dizia ela. “Fui levada a fazer um casamento de conveniência mas queria divorciar-me porque ele tinha costumes infames”.
Depois, não teve dúvida em confessar a sua vida dissoluta e em reconhecer as liberalidades dos seus amantes, que ela atribula a uma certa tia Lily".
Vingativo, Couillard converteu-se em seu acusador, afirmando que ela premeditara o crime, misturando um soporífero às bebidas da mãe do marido, depois de ter telefonado a cúmplices para que a ajudassem a cometer o crime antes de amarrá-la ao leito.
Ela, porém, negava a pés juntos, contentando-se com admitir o irrefutável e em sustentar a história abracadabrante dos três fantasmas de capote e da mulher ruiva.
Passaram-se dezoito meses. A Sra. Steinheil, definitivamente acusada de uxoricídio e de parricídio, teve de responder ao júri. No intervalo, não deixou as manchetes dos jornais. Em primeiro lugar, informou-se que o juiz de instrução se fizera seu amante! Foi preciso confiar o inquérito a outro magistrado que reuniu um processo compreendendo três mil seiscentos e quarenta documentos, perfazendo treze mil e seiscentas páginas! Certas pessoas querendo com fantasia secundar a justiça, apresentar queixa contra ela pelo assassinato do Presidente Félix Faure. O bulevar tomou conto do caso
No Bouffes Parisiens, uma peça de Xanrof e de Fred Amy, “L’Impasse”, manifestamente inspirada no caso, tinha casas cheias todas as noites. Personagens apareciam e desapareciam.
Acusado por um louco, um certo Ângelo, explorador de mulheres, foi preso e depois posto em liberdade.
Resultado: cinco mil pessoas inscreveram-se para assistir ao júri, onde foram necessárias dez audiências para o julgamento de “Dubarry de Vaugirard”.
Ao cabo de tudo isso, uma absolvição; os jurados responderam “não” aos onze quesitos, segundo anunciaram as edições especiais disputadas pela multidão.
Posta em liberdade, Marguerite Steinheil foi morar na Inglaterra. Recusou o pedido de casamento do seu advogado Steinhard, e casou-se em 1917, com um nobre inglês, Lord Abinger. Enviuvou ainda uma vez, dez anos depois. Entretanto, a sua filha Martha se recusou a revê-la depois da liquidação da vila e dos móveis.
Com os anos, veio o esquecimento. Mas ninguém jamais pode afirmar, nem mesmo os detectives particulares chegados do outro lado da Mancha, se os três homens de capote preto e uma mulher ruiva amarraram realmente Meg à cama, antes de estrangular sua mãe e seu esposo.
E muita gente continua a acreditar que Félix Faure não morreu de morte natural.
Julgamento da Sra. Steinheil

TEMA — CONTO MÁRIO DOMINGUES — UMA TRAGÉDIA MESQUINHA

Acossados pela ambição, tio Ambrósio latoeiro, e sua mulher Ermelinda, assentaram em partir para as Áfricas em demanda de fortuna. Estiveram primeiramente tentados em embarcar para o Brasil mas como de lá vinham desanimadoras notícias acerca da famosa árvore das patacas, que já não florescia nem dava fruto, decidiram optar pelo continente negro, pleno de riquezas abandonadas. Constava-lhes que andavam por lá os diamantes pontapés, sem que lhes desse mais importância do que a dispensada na sua aldeia às pedras dos caminhos. Os pretos já não comiam as pessoas assadas no espeto, como noutros tempos, nos tempos de D. Sebastião, e quem tivesse lume no olho e fizesse pacto com os feiticeiros, que eram homens de muito saber, depressa alcançaria a fortuna que, em muitos anos de trabalho, tio Ambrósio não granjearia a remendar panelas e cafeteiras.
Um engajador de boas falas, achando-os predispostos, decidiu-os a emigrar. E como Ambrósio a quem a ideia seduzia, aparentasse ainda certa relutância em sacar do fundo do baú uma parte do pé-de-meia para dispêndios da viagem, o engajador assediou de perto e em particular a tia Ermelinda, dizendo-lhe em segredo:
— Vossemecê, aqui nesta aldeola do Minho, se o ti Ambrósio morrer, fica na miséria, sem uma broa para entreter a fome. Em África pode fazer fortuna e, mesmo que ele morra pelo caminho, chega aqui com dinheiro para luzir, para comprar a quinta dos Setemontes e viúva, casar com o Henrique Brasileiro, que está cheio de ouro.
As palavras do engajador fizeram germinar com mais pujança as ambições de Ermelinda. O pensamento que no seu íntimo lhe era mais grato acarinhar, era o do possível matrimónio com o Henrique brasileiro, que a desprezara anos antes pela sua pobreza. Foi mais por-despeito, do que por simpatia que ela se unira ao tio Ambrósio que, apesar de rijo, não era rico e já entrara na casa dos cinquenta.

Não levou muito tempo a convencer o marido a partir. O engajador, mediante boa percentagem, arranjou-lhes as passagens e, um belo dia, antevendo as riquezas que os esperavam, lá partiram para a Guiné, na terceira classe incómoda de um paquete nacional.
Acolheram-se a uma povoação insignificante, onde não haveria uma dúzia de brancos, entre a população negra. E, ao cabo de seis meses, começaram a descrer das maravilhas que tinham ouvido contar acerca das Áfricas misteriosas. Havia alguns feiticeiros por lá, era certo, mas o que de mais extraordinário fizeram ante os seus olhos assombrados, foi, uma vez que Ermelinda se queixara de uma forte dor num braço, arrancarem-lhe, sem que na pele quedasse o menor vestígio alguns pregos e pedacinhos de ferro, que se ocultavam dentro da carne dorida.
O estranho facto assombrara-os, mas não satisfizera suas ambições insofridas.

Principiavam a desanimar quando, uma tarde, um árabe, que acasos misteriosos levaram àquela terra, embuçado na sua vestimenta branca lhes bateu à porta.
Quis o misterioso visitante falar em segredo ao tio Ambrósio. No coração do latoeiro penetrou luminoso raio de esperança. Pressentiu que se lhe ia revelar algumas das sonhadas maravilhas.
O Árabe chamou-o a um canto da casa e falou-lhe baixinho para que ninguém mais ouvisse o que dizia. Mas Ermelinda, curiosa como todas as mulheres, escutou tudo, oculta atras dum tabique.
— O Senhor — dizia o árabe, dirigindo-se ao tio Ambrósio — possui uma grande fortuna enterrada no seu quintal.
Uma chama de alegria brilhou nos olhos do latoeiro.
— Mas nunca a poderá encontrar sem o meu auxílio — prosseguiu o árabe, acarinhando uma barba espessa e emaranhada. — Se me promete que dividirá comigo essa quantia, que nos poderá transformar nos homens mais ricos deste mundo, revelar-lhe-ei o local exacto onde ela se encontra.
O tio Ambrósio teve de amparar-se à parede para evitar que a comoção o derrubasse. Chegara, enfim, a almejada felicidade.
— Exijo ainda duas condições -— continuou serenamente o mouro, afectando não atentar na emoção do europeu — guardar segrede perante sua mulher e ajuntar ao ouro que lhe vou desencantar todo o dinheiro que possua.
Ambrósio recuperou o ânimo para dizer que a última condição era violenta, mas o árabe ergueu o dedo ao céu, invocando o testemunho de Alah, para afirmar a- sua sinceridade e acrescentou:
— O seu dinheiro juntar-se-á a essa grande fortuna para anular o malefício que o ouro oculto contém. Voltaremos a enterrar o tesouro e o seu dinheiro no mesmo local. Dez dias depois tornarei aqui para dividirmos irmãmente os nossos bens.

Sem uma palavra, o coração palpitante no peito, Ambrósio acedeu e conduziu o árabe ao quintal. Com o auxílio duma enxada cavaram fundo o buraco ate que um grande pode de barro surgiu. O latoeiro espreitou e viu muitas libras em ouro reluzentes e novas cintilando ao sol. Para convencer-se melhor da realidade meteu a mão em garra e trouxe um punhado de ouro. Esfregou depois os olhos para ter a certeza de que não estava sonhando.



O árabe contemplou-o com um sorriso misterioso e Ermelinda, fremente emoção, espreitava a cena deslumbrante. E como o europeu não se decidisse a repor no seu lugar o punhado de livros, juntando-lhe as do seu pé-de-meia, o mouro incitou-o:
— Vamos, Ambrósio, apressemo-nos que pode alguém surpreender-nos.
Ambrósio esvaziou no buraco as escassas libras das suas economias, que tilintaram lá dentro, humildes, envergonhadas de se encontrarem entre tantas irmãs.
Voltaram a tapar a cova, apagando os vestígios da escavação.
A porta, o árabe, despedindo-se, disse:
— Ambrósio, dentro de dez dias poderemos ser donos do mundo. Adeus…
E desapareceu.
— Que te queria aquele homem? — perguntou Ermelinda, mal o árabe se perdeu de vista.
Ambrósio, que não sabia ter segredos para com a mulher, fez esforços sobre-humanos para não contar a verdade, a deslumbrante verdade que lhe enchia o pensamento, e repondeu:~
— Mais tarde o saberás…
Ela não se mostrou mais curiosa porque sabia, tão bem como o marido, todos os pormenores do estranho acontecimento.

Nessa noite, nem um, nem outro, puderam conciliar o sono. O tesouro ocupava todos os seus pensamentos. Sonhavam acordados, fingindo que dormiam. Ermelinda visionava o seu regresso a terra, com grandes cordões de ouro ao pescoço, anéis enormes em todos os dedos. Pensava nas casas e quintas que poderia comprar e na riqueza enorme que ainda lhe sobraria para ocultar num baú chapeado de ferro, cuja fechadura de segredo só ela poderia abrir de madrugada, a horas mortas, quando todos dormissem, para à vontade, mergulhar as mãos nas libras tilintantes e luzidias.
De súbito, uma ideia sinistra atravessou-lhe a mente. Repeliu-a logo em seguida, receosa, anelante, como pessoa que foge do abismo que a seduz. Mas, lentamente, perversa, cautelosa, a ideia voltou de mansinho a bater-lhe à porta das ambições.
Ermelinda bem a pressentia, mas, enganando-se a si própria, fingia não se aperceber que ela estava ali próxima, disfarçada na sombra, esperando com paciência. Não se afastava — a perversa! E já andava em torno da sua consciência — a maldita e sedutora ideia! E acabou por se lhe apresentar, frente a frente — a desavergonhada — e falar-lhe sem hesitação nem pudor:
— Ermelinda — dizia-lhe ela — não sejas tola. Com essa fortuna que esta oculta no quintal podes voltar à terra e casar com o Henrique brasileiro. Tens a felicidade ao alcance da tua mão. Sim, matas o teu marido. Quem saberá, neste ermo, nesta terreola onde não há justiça, que tu assassinaste o tio Ambrósio? Mata-o e embarca para Portugal. Toda a gente admitirá que ele morreu de febres malignas.
Ermelinda adormeceu a altas horas,e sonhou que tinha regressado à aldeia, onde a recebiam com foguetes e musica.

No dia seguinte, a despeito de instada pelo marido, não quis jantar. Sentia-se adoentada. Tio Ambrósio bebeu o caldo distraidamente, pensando que já não faltavam senão nove dias para ser, como vaticinara o árabe, dono do mundo.
Meia hora depois sentiu que algo lhe queimava as entranhas. Era uma dor violenta, brutal, como se uma garra cruel lhe dilacerasse o estômago. Antes de morrer, perante o olhar ansioso e duro da mulher, que lhe espiava as contorções do rosto, Ambrósio com a clarividência que dá a proximidade da morte, ainda rouquejou:
— Miserável, envenenaste-me para ficares com o tesouro! Maldita sejas!
Ergueu-se, num último assomo de energia, correu para a porta e foi cair, de borco, sem vida, sobre o local onde as libras se ocultavam.

A morte do tio Ambrósio não causou estranheza. Ermelinda chorou muito e enterrou-o. E pôs-se a contar impaciente os dias que faltavam-para o regresso do árabe. Mas, ao décimo dia, o misterioso feiticeiro não apareceu.
Não se afligiu, ela com o caso. Julgou ver na ausência do árabe mais um desígnio da boa sorte. Tudo se conjugava para que fosse ela, só ela, a única possuidora do grande, tesouro. Na manhã seguinte, munida da enxada, cavou desesperadamente a terra. O pote maravilhoso surgiu, enfim, mas — Ó, surpresa! Ó fatalidade! — estava vazio.


1 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 336

Efemérides 1 de Dezembro
Rex Stout (1886 - 1975)
Rex Todhunter Stout nasce em Noblesville, Indiana, EUA. É mundialmente conhecido por ter criado um dos mais famosos detectives da história da literatura policiária, Nero Wolfe (ver TEMA). Rex Stout começa a escrever a partir de 1910 para os pulpls magazines, publica o seu primeiro livro em 1929, mas só Nero Wolfe só surge em Outubro de 1934 no romance Fer-de-Lance, editado em Portugal com o título Picada Mortal. Rex Stout escreve 47 livros da série Nero Wolfe e mais cerca de duas dezenas de romances. Vê os seus romances adaptados à radio, televisão e cinema, numa carreira literária de sucesso que acumula distinções e prémios. Em Portugal, a quase totalidade dos seus livros está publicada, em particular, pela Livros do Brasil, quer na Colecção Obras Escolhidas de Rex Stout (Clicar) quer nos 43 títulos da Colecção Vampiro (Clicar).


Francis Clifford (1917 - 1975):
Arthur Leonard Bell Thompson nasce em Bristol, Inglaterra. Escreve 19 livros policiários, na sua maioria thrillers. Recebe por duas vezes o Silver Dagger Award atribuído pela Crime Writers Association: em 1969 com Another Way Of Dying e em 1974 com The Grosvenor Square Goodbye. Em Portugal está editado:
1 – O Fugitivo Nu (1969), Colecção Excelsior, Empresa Nacional de Publicidade. Título Original: The Naked Runner (1966).


Douglas Clark (1919 - 1993)
Douglas Malcolm Jackson Clark nasce em Lincolnshire, Inglaterra. Geólogo e escritor policiário, publica 30 livros, 26 deles protagonizados pelo atlético e distinto Chief Inspector George Masters e pelo seu subordinado, Inspector Green, que detesta e inveja o chefe; s personagens surgem em 1969, em Nobody's Perfect. O autor usa também os pseudónimos James Ditton e Peter Hosier.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — NERO WOLFE, DETECTIVE PARTICULAR
Autor desconhecido, os anos não perdoam e a memória falha. Agradeço ao autor a colaboração e se ler, assinale)
M. Constantino



Personagem de corpulência elefantina (cerca de 140 kg de peso), detesta qualquer tipo de actividade física e raramente se ausenta do seu escritório-residência na Rua 35-Oeste em Nova Iorque.
Egocêntrico, extravagante e vaidoso, considera-se um génio, detesta a vulgaridade e exprime-se fluentemente em francês, espanhol, italiano, húngaro, alemão, bari e servo-croata, além de inglês, culto e sofisticado.
Indolente por natureza, trabalha exclusivamente para suprir os elevados custos do luxo e conforto de que se rodeia, valendo-se quase abusivamente do dedicado Archie Goodwin, secretário, guarda-costas, motorista, contabilista e mensageiro, que nas horas vagas faz as investigações de rotina.
Floricultor de reconhecidos méritos, gourmet de paladar requintado, permite-se ter ao seu serviço Fritz Brenner, um categorizado chef suíço que, mediante principesco salário satisfaz a sua gula com as mais delicadas iguarias.
Reticente acerca do seu passado, aufere proventos fabulosos que dissipa prodigamente. O passado de Wolfe é investigado por William S. Barino-Gould em extenso estudo biográfico sobre Nero Wolfe — Nero Wolfe of West Thirty-fifth Street (1969).
Plena de imaginação, a história baseia-se em dados conjunturais que conferem ao detective ilustre paternidade. Assim, Nero bem como Marko, o seu irmão gémeo, teriam nascido em Trento Nova Iorque, no ano de 1892, da auspiciosa união de Sherlock Holmes e Irene Adler, célebre cantora de ópera, que ao enviuvar teria contraído segundas núpcias, com um tal Vukvik oriundo da região balcânica.
Desta forma se explicaria a presença do herói nas remotas regiões do Leste Europeu, onde teria colaborado com os Serviços Secretos do Império Austro-Húngaro, sendo posteriormente integrado no Exército montenegrino.
Em acção em combate no decorrer da 1ª guerra mundial o jovem Nero percorre mais de 600 milhas para se reunir às forças americanas, depois de eliminar cerca de 200 inimigos.
A etapa seguinte situa-o de regresso aos Estados Unidos onde se estabelece como investigador criminal.
Detective consultivo, arguto e inteligente, adquire desde logo fama e proveito, sem que para tanto pareça esforçar-se. Efectivamente Nero Wolfe desdenha o trabalho físico e dedica grande parte do seu tempo ao cultivo de orquídeas raras.
A sua rotina diária raramente se altera. Desperta pelas 8 horas, toma pequeno almoço na cama, lê um ou dois periódicos e logo após a toilete matinal dirige-se para a estufa no seu elevador particular.
No intervalo entre almoço (13H15) e o jantar (19H15) despende mais de duas horas junto das suas flores preciosas e, se estritamente necessário concede breves períodos às tarefas de investigação.
Surge então Archie Goodwin com os seus relatórios detalhados e o detective, instalado em confortável cadeirão, com um copo de cerveja espumosa ao alcance das mãos, mantem os olhos semicerrados e escuta com atenção. Normalmente lacónico e imperturbável, face aos casos mais intricados, o seu raciocínio encadeia-se velozmente e não tarda a obter solução.
Singularmente antagónico ao sexo feminino, Nero Wolfe admite candidamente que tal constitui mero mecanismo defensivo e recebe com prazer as mais belas clientes. Por sua vez atraente, apesar das avantajadas proporções físicas, o detective tem a pele lisa, os dentes brancos e regulares e traja normalmente fatos completos de esmerado corte e camisas amarelas com colarinho de goma que ao deitar substitui por luxuosos pijamas de seda pura, igualmente amarelos.
Nos seus casos, para além do eterno Archie Goodwin, colabora com vários investigadores, com destaque para: Saul Panzer, tão experiente quanto arguto: Fred Durkin, tão honesto quanto incipiente; Orrie Carter, tão fiel quanto detestado; e Dol Bonner, a única mulher na sua vida.
Permanentemente suplantado, o inspector Cramer, chefe do Departamento de Homícidios da Polícia de Nova Iorque



TEMA — CONTO DE LIMA RODRIGUES — QUEM?
Já nem sabia ao certo há quanto tempo aquela dúvida o atormentava. Estas coisas, aparecem quase sem a gente se aperceber delas. Surgem um dia, a propósito de qualquer coisa — a maior parte das vezes, qualquer coisa sem importância — tomam lugar no subconsciente, aí se desenvolvem, ampliam, ganham forma e, quando mal a gente se apercebe, estamos dominados, obcecados por essa ideia.
Precisamente com ele, a coisa tinha-se passado assim. E, agora, chegara a altura de pôr ponto final no assunto. Estava firmemente decidido a tirar a coisa a limpo, muito embora poucas dúvidas já lhe restassem. E, a maior dúvida que ainda tinha e para a qual não havia meio de atinar com a resposta, podia traduzir-se numa única palavra: Quem?
Quanto ao resto, ao longo de todo aquele tempo, desde que pela primeira vez se vira forçado a pensar no assunto, tinha bastantes e suficientes provas para que se desse ao trabalho de pensar no assunto duas vezes. Um homem casado, desde que esteja suficientemente prevenido, sempre consegue, pacientemente, verificar indícios da infelicidade conjugal. E os que ele acumulara, apenas lhe deixavam um caminho aberto: Quem?
Apesar das várias tentativas para a desmascarar, ela sempre tivera artes de se sair airosamente delas. Parecia até que nunca seria capaz de conseguir apanhá-la em flagrante.
Várias vezes desabafara o turbilhão dos seus pensamentos com Laura, uma amiga de infância da sua mulher que, na qualidade de amiga íntima e confidente de ambos, muitas vezes servira de intermediária e conselheira em pequenas questões familiares.
Laura ficara atónita com tão absurda ideia. Mas, que sabia ela destas coisas? Que poderia uma solteirona de quarenta anos saber disto? Desiludido com uma ajuda que imaginara eficiente, não lhe voltara a falar no assunto.
Uma boa gorjeta ao porteiro, também não obtivera qualquer resultado, muito embora a maneira delicada como o abordara.
Mas — tinha decidido — daquele dia não passaria. Preparara tudo de modo a que ela pensasse o que ele lhe conviria que ela pensasse: que ele nesse dia só regressaria lá para as tantas. E, com certeza, ela não iria desperdiçar semelhante oportunidade. E ele, também não…
Antes de meter a chave à porta, escutou pacientemente. Não queria agora, por precipitação, deitar tudo a perder. Como nada ouvisse, rodou a chave devagar e empurrou a porta mansamente, espreitando para o corredor. Ninguém à vista.
Caminhou então na ponta dos pés — mais por excesso de precaução, pois calçava sapatos de borracha — em direcção ao seu quarto.~
Foi então que ouviu umas risadas fracas, histéricas.
Sentiu uma aceleração no seu sistema circulatório, enquanto o rosto se ruborizava de vergonha. Finalmente! Conseguira por fim resolver aquela incógnita.~
Mas, não sabia se se devia sentir feliz com aquela descoberta, se infeliz pelo que ela representava de escabroso e infame.
Começou a sentir que no seu rosto se formavam gotas de suor, enquanto o coração batia desordenadamente.
Ao avançar alguns passos na direcção do quarto, deu-se conta de que as suas pernas tremiam como se não fossem capazes de suster o peso do corpo. Por fim, encontrou-se em frente da porta. De dentro, continuavam a ouvir-se risinhos nervosos. Susteve a respiração e, enquanto sentia o coração bater-lhe na garganta, apurou mais o ouvido. O ruído característico de alguém que se mexe na cama e palavras soltas como “meu amor”, “queridinha”, chegaram-lhe aos ouvidos.
Sentiu-se estoirar de indignação ao avaliar a profundidade daquela infâmia: sua mulher e o amante, na sua própria cama!
Acariciou a coronha do revólver e apertou-a com tanta força que teve a sensação de que se ia desfazer. Quis certificar-se de que não teriam a porta fechada. Com infinitas precauções — admirou-se da calma com que o estava fazendo — rodou levemente a maçaneta. A porta não estava fechada.
De súbito, teve uma ideia — e voltou a admirar-se como ainda tinha cabeça para pensar — e espreitou pelo buraco da fechadura.
O quarto estava mergulhado numa semi-obscuridade e, além disso, dada a disposição do mobiliário, pouco conseguia descortinar. Viu, no entanto, pendentes duma cadeira, as roupas íntimas de sua mulher e, essa visão, foi como que uma chamada à realidade. Abriu a porta de rompante, revólver na mão, pronto a disparar.
No auge dos seus amores, entre risinhos e palavras sem nexo, os dois amantes não tinham dado pela sua aparição. Uma raiva surda, incontida, angustiada, levou-o a disparar até sentir a arma descarregada. Os dois corpos ficaram finalmente quietos. Para eles, a morte tinha chegado.
No quarto, pairava agora um fumo acre de pólvora. E o homem que ao desfazer de uma dúvida se tornara um assassino, olhava como um sonâmbulo para a sua obra.
Tinha finalmente diante de si a resposta à sua interrogativa: Quem?
Foi então que reparou. O corpo ensanguentado que jazia junto do de sua mulher, era o da sua amiga Laura…


DEZEMBRO




Inicia-se o último dia do presente ano, o mês mais solidário de todos os meses, ainda que todos eles o devam ser.
Abrimos a folha com a imperativa crónica: ABRIR O CORAÇÃO.


Do estudo do homem como ser humano, é a filosofia a ciência que mais têm preocupado o próprio homem. Nele se incluem todo o vasto campo do nascimento, existência e morte, da prática cultural à realização pessoal.
Nascer, sobreviver, têm naturalmente, significado. O homem foi criado para viver, mas nenhum ser humano se conforma ter apenas a importância de viver, quer mais. E, na verdade, tem oportunidade de levar uma vida feliz e dinâmica, porém, em regra, é cego para a felicidade que está perto, esgota-se antes, ambiciosamente, num frenesim incontido, torturado por ansiedades e dúvidas, em subir a escarpa do triunfo onde enganosamente procura encontrar a ventura que, afinal, deixou para trás.
Temos receio em afirmar que falamos com experiência feita; receio temos em negar a evidência consumada. O êxito tornou-nos mais sábios, não mais felizes.
O homem actual tem todas as possibilidades de ser mais feliz que os seus semelhantes das gerações passadas. Hoje, como nunca, o homem tem ao seu dispor facilidades para obter o que de melhor a vida tem para oferecer, inclusive uma gama enorme de conhecimentos sobre quase todos os assuntos concebíveis, recolhidos, classificados e ordenados…
… curiosamente o gigante tecnológico em que se transformou, fê-lo pigmeu nos anseios mais essenciais e importantes — a faculdade de se conhecer a si próprio e agir com esse conhecimento.
Todos enxergamos muito mais sobre o mundo material que nos rodeia, que do mundo natural dentro de nós.
O mundo material dá-nos vida; o mundo íntimo faz-nos viver.
Ao mundo primeiro pergunta-se: o que poderei tirar da vida?
— O que fizeres do uso apropriado das tuas faculdades e possibilidades.
Ao mundo segundo, indaga-se: como poderei obter a alegria de viver?
— No amor.
Há mais de 2000 anos Jesus trouxe consigo o Amor para unir as pessoas entre si.
 O nosso mundo interior preenche-se na alegria de amor: amar os outros, agir com entusiasmo ao serviço do bem.
O mundo natural dentro de nós assegura-nos uma dupla necessidade de amar e ser amado, de aceitar e de dar, de contar para o outro e de contar com o outro.
Num mundo desorganizado e egoísta, o amor perde a sua força…
… a força que, afinal, está na faculdade de cada um se conhecer, dar-se a conhecer e abrir o coração!
M. Constantino