3 de novembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 308

Efemérides 3 de Novembro
Harry Stephen Keeler (1890 – 1967)
Nasce em Chicago, Illinois EUA. Escritor de policiário e de alguma ficção científica, apesar da sua vasta obra, é muitas vezes descrito como um autor injustamente esquecido. Considerado como um dos criadores de alguns dos mistérios mais originais, improváveis e estranhos da sua época, é especialista em webwork plot, um estilo narrativo exageradamente complicado. Em Portugal a Editorial Século edita, entre 1942 e 1960 20 títulos de Harry Stephen Keeler, na Colecção As Grandes Obras de Mistério e Acção.

John Bingham (1908 – 1988)
John Michael Ward Bingham nasce em Haywards Heath, Sussex, Inglaterra. Durante a 2ª guerra mundial trabalha para o MI5 o que certamente o inspira para os romances de espionagem. Publica o primeiro livro em 1952, My Name is Michael Sibley, que segundo H. R. F. Keating é uma inovação na Grã Bretanha, porque é a primeira vez que um romance de crime não descreve a polícia britânica como agindo de uma forma impecável. John Bingham escreve no total 17 livros policiários e 1 de crime real. Em Portugal está editado:
1 – Casamentos E Infidelidades (2009), nº112 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença. Título Original: Five Roundabouts To Heaven (1953). Editado também com o título The Tender Poisoner. (Clicar)


Martin Cruz Smith (1942)
Martin William Smith nasce em Reading, Pennsylvania, EUA. Jornalista, romancista e argumentista começa por publicar, sob o pseudónimo Martin Cruz Smith a série Roman Grey, segue-se a sua série mais conhecida Arkady Renko, o investigador russo que protagoniza Gorky Park (1981) — um bestseller vencedor do Gold Dagger Award — e outros êxitos editoriais como Polar Star, Red Square e Rose. O escritor, que usa os pseudónimos Nick Carter, Jake Logan, Martin Quinn e Simon Quinn tem visto a sua obra ser distinguida com diversos prémios literários e tem vários livros adaptado ao cinema. Em Portugal estão editados:
1 – Parque Gorky (1982), Colecção Ficção, Moraes Editores. Título Original: Gorky Park (1981). Reeditado em 1984 pela Círculo de Leitores e pela Editora Asa em 2005. É o 1º livro da série Arkady Renko.
2 – A Contagem Final (1988), Círculo de Leitores. Título Original: Stallion Gate (1986).
3 – O Estrela Polar (1990), Círculo de Leitores. Título Original: Polar Star (1989). È o 2º livro da série Arkady Renko.
4 – A Baia De Havana (2000), Círculo de Leitores. Título Original: Havana Bay (1999). É o 4º livro da série Arkady Renko.
5 – O Homem Com Dois Corações (2004), Colecção Noites Brancas, Editora Asa. Título Original: December 6 (2001). Editado também com o título Tokyo Station.
6 – O Fantasma De Estaline (2010), Editora Casa das Letras. Título Original: Stalin’s Gosth (2006). É o 6º livro da série Arkady Renko.



TEMA — CONTO POLICIÁRIO DE V. E. THIESSEN — ÁLIBI INATACÁVEL
Hugh Blount começou a achar que o promotor estava exacto demais no seu papel de adivinho. Blount havia tentado para fazer a sua defesa, e estava a passar um mau bocado com as perguntas do advogado.
O promotor disse vagarosamente.
— Agora vou-lhe dizer, Sr. Blount, o que realmente aconteceu: O senhor voltou de uma viagem de negócios na noite de vinte e nove de março. Encontrou o bilhete da sua esposa dizendo que o tinha deixado por outro homem. Então, enraivecido, o senhor tornou-se violento, mas ficou sem saber o que devia fazer até que achou um isqueiro no apartamento. Um isqueiro caro no qual estava gravado o nome Michael. O senhor lembra-se do isqueiro, Sr. Blount?
Blount pensou rapidamente. Teria deixado impressões digitais no isqueiro? Não tinha certeza e disse:
— Talvez o tenha visto, mas não tenho certeza. Eu estava confuso.
— O senhor pensou que o isqueiro pertencesse ao homem que lhe roubara a esposa.
— Não! Não me recordo de ter pensado tal coisa.
— O senhor sabia que sua esposa não o esperava naquele dia e pensou que o homem voltaria para ir buscar o isqueiro quando desse por falta dele. O senhor preparou a arma e esperou. O senhor tinha um revolver no seu apartamento, não é verdade, Sr. Blount?
— Sim, tinha um revólver.
Embora tivesse estudado o que ia dizer. Blount não conseguia manter a calma.
O promotor falou sarcasticamente:
— E quando o homem entrou no apartamento, às duas horas da manhã, o senhor disparou contra ele. O senhor o matou sem saber que ele não estava envolvido no caso, pois a sua esposa tinha-lhe alugado o apartamento.
O advogado de defesa levantou-se e protestou.
O juiz repreendeu o promotor.
Mas Blount percebeu que o júri seria influenciado por esta ideia. O promotor lançou outra directa, dizendo.
— A sua esposa era proprietária do apartamento. Podia alugá-lo sem o seu consentimento?
— Sim.
— Aliás sua esposa é quem tem dinheiro, e sustentava-o desde o ano passado, enquanto o senhor a tratava cruelmente.
— Não era exactamente assim.
— Mas o senhor recebia dela grandes quantias.
(O promotor não tinha pena).
— Sim.
— Aquele homem vinha acabar com isto, não é? E mesmo assim o senhor espera que acreditemos que, na ocasião do homicídio, o senhor estava a discutir a abandono de sua esposa com um amigo que nem o seu próprio advogado pediu para identificar.
— Sim.
Blount sentiu-se nervoso e tenso. O promotor era mesmo muito esperto.
— E quem é este amigo que o senhor tem tanto escrúpulo em revelar a identidade? Blount olhou para o juiz.
O juiz avisou prisioneiro.
— A sua vida está em perigo, Sr. Blount. Aconselho-o a responder a esta pergunta.
Blount respondeu gentilmente.
— Esse amigo é John Harriman. — Dizendo isto sentou-se na cadeira, para descansar
Houve um murmúrio de surpresa entre os presentes, e o promotor falou novamente:
— Não tenho mais perguntas a fazer.
Blount sorria quando desceu as escadas.

Tinha sido uma ideia genial a de envolver Harriman, pensou Blount. Conhecia Harriman desde o tempo de universidade, e se não eram amigos, ao menos eram conhecidos e Harriman era seu banqueiro. Harriman era conhecido peia sua integridade. Se Harriman dissesse que Blount estivera no seu apartamento da uma às três da manhã, então o júri não teria dúvidas.
Tinha sido uma boa ideia também deixar o promotor descobrir o álibi. Fechou os olhos e lembrou-se de Harriman, o tolo e honesto Harriman, que nunca fechava a porta do seu apartamento e que dormia como uma pedra. Foi fácil entrar no apartamento de Harriman, atrasar todos os relógios para a uma hora, e então acordar Harriman e contar-lhe a sua desgraça.
Harriman tinha sido um grande confortador. Falara durante umas duas horas tentando dissuadir Blount das loucuras que tencionava fazer, e até o fizera deitar na sala para dormir.
Foi simples também pôr os relógios novamente na hora certa, depois de Harriman ter ido dormir.
O advogado de Blount levantou-se sorrindo confiantemente e disse:
— A defesa convoca a sua última testemunha, John J. Harriman.
O tribunal ficou em profundo silêncio enquanto Harriman fazia o juramento. Era um homem alto e muito bem vestido, mas simples. A voz era grossa e indicava cultura. Sorriu com simpatia para todos, em geral.
O advogado de defesa perguntou:
— O senhor recorda-se da visita do Sr. Blount à sua casa na noite de vinte e nove de março? Ele acordou-o nesta noite?
— Sim. Lembro-me que ele me sacudiu para me acordar. Tenho um sono pesado e estava a precisar de dormir bem.
— Ele sacudiu-o? Como foi que ele entrou no apartamento?
Harriman sorriu.
— Creio que deve ter tocado a campainha e como eu não atendi, entrou. Raramente fecho a porta, e durmo pesadamente. Blount sabia disto desde a época da universidade.
— O senhor olhou para o relógio quando acordou?
— Sim.
— Que hora marcava?
— Uma hora da manhã.
— Porque queria Blount vê-lo àquela hora?
— Ele estava muito abatido. A sua esposa tinha-o abandonado e estava emocionalmente perturbado. Nem estava a raciocinar muito bem.
— O senhor crê que esta emoção era verdadeira?
— Creio que sim. Estava mesmo transtornado e tinha razões para isso.
— Quanto tempo conversaram?
— Umas duas horas.
— Como presume o senhor que foram duas horas? Olhou para o relógio novamente?
— Sim.
— E depois o que aconteceu?
— Pus Blount a dormir na sala.
— Seu relógio trabalha bem Sr. Harriman?
— Sim, acerto-o todas as manhãs pelo rádio.
— O senhor verificou-o na manhã seguinte, como de costume!
— Sim. Estava com um atraso de um minuto.
O advogado de defesa sorriu:
— Obrigado, Sr. Harriman. Dou a palavra ao promotor. — E sentou-se.
A assistência estava muda e espantada. Blount devia estar salvo. O assassinato tinha ocorrido às duas horas da manhã, hora em que ouviram o tiro e pouco depois foi encontrado o corpo.

Blount viu o promotor agitar-se e perguntar sem esperanças:
— O senhor tem certeza de que Blount esteve no seu apartamento da uma às três da manhã?
Harriman respondeu.
— Não senhor!
Blount olhou fixamente e sussurrou para o seu advogado.
— Que é que ele está a tentar fazer?
— Não compreendo — disse lentamente o promotor. — O senhor disse e garantiu que olhou Para o relógio…
— Sim, olhei. Alguém tinha-o atrasado. Depois, quando adormeci, alguém o acertou novamente.
O pânico começou a crescer em Blount. Fez uma carranca para Harriman, mas ao ver uma pessoa da assistência olhando para ele, forçou um sorriso.
O promotor estava atento e pronto para outra pergunta.
— Como é que o senhor soube que seu relógio tinha sido atrasado?
Harriman respondeu:
— Eu saí com uma amiga naquela noite, e só voltei às duas horas da manhã.
Com estas palavras Blount compreendeu que estava perdido. Mesmo assim, ainda tentou um artifício, e levantando-se gritou:
— Seu mentiroso! Seu grande mentiroso!
O seu próprio advogado estava abalado. Todavia, mesmo um homem como Harriman podia mentir e quando chegou sua vez, perguntou à testemunha:
— Há alguém que possa confirmar a sua história? Alguém que possa dizer que o senhor esteve na rua até depois da uma hora?
A audiência ficou em suspenso. Todos acreditavam em Harriman, mas… e se mentisse? Que escândalo não seria!
— Sim, disse Harriman. Minha amante poderá garantir.
— Quem é a sua amante?
O homem que testemunhava era John J. Harriman., a própria Verdade. Não havia dúvida em nenhum dos presentes.
— Eu tinha saído com a Sra. Blount. Eu sou o outro homem — disse Harriman pausadamente.


2 de novembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 307

Efemérides 2 de Novembro
Ed Gorman (1863 - 1945)
Edward Joseph Gorman nasce algures nos EUA. Desde 1984 dedica-se em exclusivo à escrita e desde então têm publicado 2 a 3 livros por ano, várias short stories e antologias. Funda e edita Mystery Scene, uma revista de mistério. Ed Gorman escreve policiários, mas também outros géneros literários — westers e terror. Tem recebido vários prémios literários ao longo da sua carreira: Shamus Award, Spur Award, International Fiction Writers Award; O autor usa também os pseudónimos E.J. Gorman, Daniel Ransom, Edward Gorman Jr., Robert David Chase e Richard Driscoll.


TEMA — PEQUENOS GRANDES CONTOS DA LITERATURA UNIVERSAL — A CONFISSÃO
De O. Henry
A narrativa que se segue foi publicada em estreia no dia 20 de outubro de 1894, no
The Rolling Stone — já lá vão 118 anos!— e que nos conste, é uma história desconhecida em Portugal. Leia e aprecia a arte do velho Mestre.
Depois faremos um comentário final.

— Mas é claro, Lynette — disse a mãe — os seis anos de residência na Escócia e Inglaterra e a associação com a gente melhor e mais aristocrática do estrangeiro devem permitir-lhe julgar se ele é ou não um nobre genuíno.
— É muito difícil hoje em dia, mãe — disse eu — distinguir a imitação do genuíno. Além disso, depois de conseguir identificar o artigo cem por cento legal, é um “pincel” saber se a gente afinal de contas obteve coisa melhor do que a mercadoria “manhosa”.
— Que linguagem esquisita, querida — disse mãe.
— Oh, é a gíria da escola. Preciso realmente tentar largar este hábito. És muito boa em ter tanta paciência comigo.
O que motivou esta conversa entre mim e a minha querida mãe e foi o facto de ter expressado certo dia uma vaga dúvida a respeito de Lorde Cranston. Eu estivera durante seis numa aristocrática escola para jovens perto de Londres e há cerca de, um mês voltara para casa. A minha mãe é uma espécie de anglomaníaca e, sendo estreitamente ligada a uma família inglesa de alta posição, estava decidida a educar-me no estrangeiro. Nós éramos muito ricas e frequentávamos a melhor sociedade de Nova Iorque. Consequentemente, tínhamos poucas dúvidas quanto à concretização da mais cara esperança de que eu me casasse com um nobre inglês.
Eu estivera fora tanto tempo que a mãe mal me reconheceu quando voltei para casa. Olhou-me durante longamente, depois beijou-me com afecto e disse:
— Minha querida, mudaste muito em relação à menininha que me deixou há seis anos, mas estou muito satisfeita. Adquiriste aquela calma e pose aristocráticas que só se obtêm em associação com a melhor gente.
Lorde Cranston entrou em cena umas duas semanas após eu ter chegado.
Era alto e magro, com nariz aquilino, olhos azuis claros e bigode comprido, de pontas curvadas para baixo. O sotaque e a entoação eram perfeitos. As unhas tinham a verdadeira forma de avelã. Os trajes eram correctos em todas as minúcias e as maneiras, embora polidas e impecáveis, eram moderadas e discretas.
— Eu receava que ele fosse bom demais para ser verdadeiro. — disse a minha mãe.
Tive momentos agradáveis, durante algum tempo. Recém-libertada das restrições da escola, aproveitei avidamente as diversões e os prazeres ociosos da Narragansett Bay, onde estávamos a passar a temporada. A vida nos Estados Unidos era também nova para mim e a liberdade que eu gozava era tão incomum, que uma cabeça menos fria do que a minha poderia ter sido virada pelos goles que bebi da taça da vida.
Era bonita e viva. Tinha melhorado a mente e nunca perdia o tacto e a presença de espírito.
Lorde Cranston era a minha companhia constante. Era mulher e podia ver que ele me amava. Poderia casar-me com ele no dia que desejasse.
E nem sabia o que me impedia de fazê-lo. Quase me convencera da autenticidade do seu título e riqueza.
Apesar disso, certa dúvida indefinível, certo cepticismo intuitivo, me retinham.
Ficava aborrecida porque não conseguia encontrar defeitos nele. Tentei até mesmo uma estratégia.
Certo dia estávamos preguiçosamente sentados à sombra de uma grande pedra à beira-mar.
— Oh, Lorde Cranston — disse eu de repente. — Queria perguntar-lhe uma coisa. O senhor disse que o seu castelo fica em Seaview. Então deve conhecer minha querida amiga Lady Augusta Trevor, de The Rookery. A propriedade dela não fica a. mais de quilómetro e meio de Seaview.
Lorde Cranston voltou os seus olhos azuis claros para mim por um momento e depois disse:
— Não existe família ou lugar com esses nomes. A. minha terra. Deve estar mal informada quanto à residência dela, Menina Lynette.
Não teria um impostor afirmado que a conhecia?
Naquela noite estive muito perto de prometer a minha mão a Lorde Cranston na varanda sul entre os oleandros.
Certa tarde, a minha mãe, Lorde Cranston e eu estávamos a passear com a nossa carruagem e parámos na estação quando o comboio chegou.
Entre os últimos passageiros a passarem pela plataforma estava um jovem baixo e encorpado, com um fato cor de pimenta e sal, e um boné de tweed, acompanhado por uma jovem loira e bonita, com um vestido de viagem e um boné de marinheiro.
Olharam em volta, como se estivessem indecisos para onde ir.
De repente, a minha mãe apertou-me fortemente o braço e senti a mão tremer-lhe
Olhei-lhe para a cara e vi que ficava alternadamente pálido e corado.
A jovem tinha parado e também a fitava com curiosidade.
O jovem baixo e encorpado observava-nos da mesma forma, e, colocando um monóculo sobre o olho esquerdo, encaminhou-se para a carruagem.
A minha mãe nem me deu atenção, mas disse “Lynette!” com voz trêmula e estranha, e saltou da carruagem.
A jovem desconhecida correu para ela e um segundo depois estavam nos bralos uma da outra, aos beijos e a soluçar.
O jovem baixo e encorpado fixou lord Cranston, severamente:
— Higgins, meu patife! — disse — Onde estão as minhas malas e os meus documentos? Dou-te quinze minutos para me devolveres tudo, caso contrário entrego-te à polícia.
Lord Cranston desceu graciosamente da carruagem:
— O senhor encontrará tudo intacto na Ocean House — disse ele calmamente— Ainda tinha dinheiro meu para gastar.
Virou-se para mim e disse em voz baixa:
— Adeus. Gostaria que tudo tivesse sido verdade.
Quando se virava para se ir embora, eu disse:
— Espere um momento Sr. Higgins, acho que vou para o mesmo lado que o senhor.
Quando descíamos pela plataforma juntos, ouvi a jovem dizer:
— Querida mãe, deixe-me apresentar-lhe o lord Cranston, que foi muito bondoso e atencioso comigo durante a viagem. O criado dele roubou-lhe todas as suas coisas e fugiu com elas. Agora, vamos comer alguma coisa, estou com tanta fome, e falar a respeito de tudo.

Quem sou eu não faz agora grande diferença.

Comentário:
Depois de ler o conto procurámos responder à última frase — “Quem sou eu não faz agora grande diferença.”
Faz sim. Face ao conteúdo da narrativa, só podemos tirar uma conclusão: a Lynette da estória não era de facto Lynette, mas uma usurpadora tal como o falso lord…
Esplêndido enigma de um famosíssimo autor.
M. Constantino

1 de novembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 306

Efemérides 1 de Novembro
Arthur Morrison (1863 - 1945)
Arthur George Morrison nasce em Poplar, East End, Londres. Jornalista e escritor conhecido pelas novelas realistas sobre o East End de Londres e também pelos romances e as short stories policiários. O seu personagem principal é o Investigador Martin Hewitt (ver TEMA), que surge pela primeira vez em Março de 1894 no conto The Lenton Croft Robberies publicado emThe Strand Magazine. Com este protagonista, Arthur Morrison publica mais 25 contos em várias revistas da especialidade e escreve os livros: Martin Hewitt, Investigator (1894), The Chronicles Of Martin Hewitt (1895) The Adventures Of Martin Hewitt (1896) e The Red Triangle (1904).


Gerard Fairlie (1899 - 1983)
Francis Gerard Luis Fairlie nasce em Kensington, Londres. Jornalista, argumentista e escritor policiário. Publica The Man Who Laughed em 1928, escreve mais 13 romances policiários até 1958. Cria ainda as séries Mr. Malcolm (3 títulos) e Victor Caryll (6 títulos). Depois da morte do escritor Sapper — CALEIDOSCÓPIO 272 (Clicar) — Gerald Fairlie da continuidade à série Bulldog Drummond criada por aquele escritor.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — MARTIN HEWITT, UM DOS RIVAIS DE HOLMES
Por M. Constantino
Tem sido frequentemente assinalado pelos estudiosos da matéria, que o detective é o personagem chefe, digamos o personagem principal da narrativa policiária. Os acontecimentos que constituem a intriga são rapidamente esquecidos pelos leitores; são banidos igualmente da sua memória os nomes e as características dos principais suspeitos e mesmo do eventual culpado. Em contrapartida, o detective queda-se bem vivo na recordação do público, talvez porque na maior parte dos casos a sua acção não se limita a uma centena ou duas de páginas de um livro, mas porque ressurge sucessivamente em várias obras do autor. Por outro lado, o poder de arrebatamento que flui do personagem domina o espírito do leitor, marcando fundo a sua recordação. Assim foi e continua a ser, por enquanto.
Em plena época vitoriana — a rainha vitória, que nasceu como Alexandrina Victória reinou de 1837 a 1901 — seguindo a onda de êxito de Sherlock Holmes, personagem de Conan Doyle, aparecem diversas tentativas de “rivais”, mais ou menos bem sucedidas. Assim surge Martin Hewitt pela pena de Arthur Morrison, um dos mais credíveis émulos de Sherlock Holmes.
Martin Hewitt é um detective privado, com escritório no Strand londrino, perto da estação de Charing Cross, que se apresenta como conselheiro policial dos grandes bancos e companhias de seguros, dedicando-se em especial, ao esclarecimento de roubos e burlas. É um homem corpulento, ainda que de mediana estatura, bem barbeado de trato afável. Segundo ele, o seu sistema de investigação nada tem de especial, por quanto se limita a aproveitar as faculdades mentais.
Curiosamente, a primeira série de histórias do personagem em causa, foi ilustrada por Sidney Paget, o mais consagrado intérprete de ilustrações de Holmes.



TEMA — CONTO DE MAURICE LEVEL — DIA DE TODOS OS SANTOS
De pé, com a capa de hospital que a fazia parecer ainda mais magra, a doente estava imóvel junto à cama. Tinha a cara magra e olhos azuis tão grandes que todo o seu rosto parecia iluminado: olhos dolorosos, profundos.
A cara pálida, maçãs do rosto vermelhas da febre e um sulco descendente, caminho que as lágrimas tinham traçado.
Quando o médico parou diante dela, baixou a cabeça.
— Bem, pequena da cama nº4, que é que me disseram? Quer sair?
Ela respondeu num sussurro:
— Sim, doutor.
— Isso é uma tolice. Levantou-se apenas há oito dias. Com o tempo que faz, ficará outra vez doente. Espere. É infeliz aqui? Alguém lhe fez mal?
Com o mesmo tom humilde e muito doce, ela responde:
— Não… Oh não, doutor.
— Então?
Desta vez, com um pouco mais de energia na voz, ela disse:
Eu preciso sair.
E, falando muito depressa, antecipando a pergunta continuou:
— Hoje é dia de Todos os Santos. Prometi levar flores à campa do meu amigo… Jurei… Ele só me tem a mim… Se eu não for, ninguém irá… Eu jurei…
Uma lágrima deslizou por debaixo da pálpebra. Ela limpou-a com os dedos.
Um pouco emocionado por esta dor terrível, talvez por curiosidade, talvez mecanicamente, ou para não ficar calado sem uma palavra de compaixão, o médico perguntou:
— Há muito que ele faleceu?
— Quase um ano
— Do quê? Sabe?
De repente ela pareceu mais frágil, com ombros encolhidos, mãos mais pálidas, olhos semi-cerrados e lábios trémulos, murmurou:
— Foi executado.
O médico mordeu os lábios
— Oh! Desculpe, pobre pequena. Se realmente precisa, vá… Não apanhe frio. Regresse amanhã.
… Transposto o portão do hospital, ela tremeu.

Era uma manhã melancólica de Outono. A água escorria pelas paredes. Estava tudo cinzento: o céu, as casas, as árvores despidas e o horizonte nebuloso onde as pessoas passavam depressa, fugindo da tristeza das ruas.
Como tinha ficado doente em pleno Verão, vestia uma saia muito fina e um corpete de linho claro. A fita amarrotada à volta do pescoço esquelético dava-lhe um ar ainda mais lamentável. Saia, fita, corpete que o sol talvez fizesse sorrir e que pareciam chorar neste dia hesitante.

Começou a caminhar com um passo indeciso, parando a cada minuto, ofegante e com a cabeça pesada. As pessoas com quem se cruzava, voltavam-se por segundos. Ela parecia hesitar, pronta a falar, depois, medrosa, olhava para a direita e para a esquerda e retomava o seu caminho. Atravessou assim metade de Paris. No cais, ficava imóvel, a comtemplar o rio pesado e lamacento. Um frio intenso penetrou-lhe o corpo e temendo não conseguir avançar, prosseguiu o seu caminho.
Atravessada a Praça Maubert e Avenida des Golbelins, sentia-se quase em casa, no seu bairro. Depressa encontrou figuras conhecidas, pessoas que ao vê-la passar diziam:
— Mas… não é a amante de Vandat? Como ela mudou!
— Qual Vandat?
— Vandat, o assa…
Ela apressou o passo e crispou as mãos sobre o rosto, para não ouvir o final da palavra.
O dia começava a acabar quando ela chegou ao hotel mal afamado onde residia antes de ficar doente. Entrou. Chulos e meninas jogavam às cartas no cafezinho do rés-do-chão. Quando a viram gritaram:
— Olha! Está aqui “Meus Olhos” (chamavam-lhe assim antigamente. Queres tomar alguma coisa, “Meus Olhos”? Senta-te…
Um pouco emocionada, sufocada pelo fumo espesso e acre que pairava, de repente ficou muito corada, respondeu:
— Não… não tenho tempo… A patroa está?
— Sim. Estou aqui.
Sorriu, timidamente.
Madame, vinha buscar umas roupas. Tenho frio com estas…
— Levamos as tuas tralhas para o sótão, não sei bem onde estão. Enquanto as procuram, fica aqui para te aqueceres.
— Não, não tenho tempo… eu já volto.
Dirigiu-se para a porta. Um homem achincalhou-a:
— Já a trabalhar. Não perdes tempo.
Saiu, e o frio parecia ainda mais cortante, depois de ter permanecido naquela atmosfera demasiado quente.
No passeio as pessoas passavam, ramos e coroas de flores nos braços; pessoas de luto em marcha lenta; outras endomingadas, também com ramos de flores, mas conversando e rindo, a caminho do cemitério mas sem grande emoção, como se cumprissem um dever, onde há tanto de hábito como de sentimento. E nada como ver estes homens, mulheres e crianças para poder adivinhar quem estava perto do luto e com a dor presente.
Ao longo da calçada, estavam parados pequenos carrinhos flores. Crisântemos inclinavam-se, sobre as rosas: de um lado e do outro as mimosas deixavam cair sobre as violetas pólen dourado. Mais perto do cemitério, diante dos marmoristas, potes com flores nas prateleiras, tristes, idênticos, evónimos de folhagem sombria, mais adiante as sempre-vivas e coroas grandes, orvalhadas.
Ela observava tudo aquilo com um olhar de inveja, sonhador.
— Se eu pudesse levar-lhe… a ele! … no fundo do cemitério, num quadrado triste e deserto, onde ele dorme sem uma cruz, sem uma palavra!
— Assassino!
Não pesava muito nisso. Era o homem adorado, o amante, que estava lá. O amante que tivera o corpo dela, toda a sua alma… Num momento de loucura, ele matara… Não pagara a sua terrível dívida?
Desde o dia em que o levaram, ela jurara a si mesma, não ser de mais ninguém. Nunca mais. Jurara abandonar a vida de mulher perdida, jurara trabalhar, tornar-se honesta, para ser esquecida. Não foi o suficiente, par que ela pudesse lembrar-se.
Continuava a olhar para as flores. O vendedor disse-lhe:
— Um ramo? Crisântemos? Rosas?
Vai-se embora sem responder, porque não tem nem um centavo.
Então uma ideia fixa-se na sua cabeça: “Flores. Preciso de flores… tenho de lhe dar… Jurei.”
Cansada e com fome, sem pensar nisso. Apenas pensava na terra nua, lá em baixo, na terra que umas flores animariam durante algumas horas… Sim, mas e o dinheiro! Naturalmente teve uma ideia que nem sequer roçou o pudor que retornara depois de feito o voto de honestidade.
Como um bom artesão que regressa à oficina para recuperar as ferramentas e retomar as suas funções, com um gesto mecânico, compôs o cabelo, esticou o bolero e começou a andar pelas ruas, onde tantas vezes vagueava à noite para fazer o trabalho, sem alegria nem tristeza, enquanto o seu homem jogava no cabaré.
Caminhava, com o olhar à espreita, arqueando o corpo, provocante, sibilando aos homens, entre dentes:
— Psstt! … Ouve…
Mas todos, ao vê-la tão pálida, apressavam o passo. Porque o rosto dela já não estava realmente feito para o prazer, nem o corpo esguio, nem o busto com os ombros salientes debaixo da roupa demasiado clara.
Antigamente, quando era bonita, quando ela era “Meus Olhos”, não ficava muito tempo parada, mas agora…
— Psstt! … Ouve… Psstt! … loiro bonito..
Todos passavam sem sequer voltar a cabeça. O dia acabava mais depressa. Enquanto percorria o passeio pensava:
— Vai fechar antes de conseguir comprar as flores…
Um nevoeiro fino caia, impalpável, silencioso e as formas inundavam-se de sombras. No rosto emagrecido só se viam os olhos, os seus olhos dolorosos e febris.
Na esquina de uma rua deserta caminhava um homem, gola do sobretudo levantada, mãos nos bolsos. Ela tocou-o ao de leve, e colocando toda a força de desejo murmurou:
— Escuta… vem comigo…
Ela olhou-a por um momento. Ela aproximou-se, mergulhando o seu olhar no olhar dele, um olhar infinito, que já não era o olhar promissor de menina.
Ele pegou-lhe no braço. Então ela entrou no hotel mal afamado onde estivera à pouco. Rapidamente, ela pediu entreabrindo a porta:
— A minha chave… uma vela…
A patroa sussurrou-lhe docemente:
— No 23, segundo andar, terceira porta.
Ela disse, da mesma forma:
— Eu sei…
Os homens e as meninas inclinaram-se, e, enquanto subia a escada ela ouvia gracejos e risos.

Quando desceu a noite tinha quase já chegado. Atirou um rápido “Adeus” ao seu companheiro de um momento e começou a correr. Parou diante do vendedor de flores, agarrou um ramo ao acaso e lançou as duas moedas claras que tilintavam na mão.
Depressa, depressa, correu até ao cemitério. As pessoas saiam em grupos. Tremia:
— Desde que chegue a tempo! …
Na entrada, o porteiro preveniu:
— Demasiado tarde. Está fechado.
Suplicou:
— Oh! Senhor! O tempo de entrar e sair… dois segundos…
— Então, vá lá, mas depressa.
Correu pelas alamedas, tropeçando nas pedras. O caminho era longo. Mal podia respirar, com uma sensação de peito a arder. No Muro dos Executados parou, caiu de joelhos e com as flores espalhadas pelo chão. Grandes lágrimas escorriam-lhe pela face, pelas palmas das mãos com que escondia o rosto. Tenta rezar, mas já não sabe orações, e com os lábios na terra, chora:
— Meu querido! Meu querido! …
Depois, cansada, tão cansada, já não sentia as pernas, no entanto, com um bocadinho de alegria no coração, levantou-se e foi-se embora.
Sorriu ao guarda:
— Como vê, não me demorei.
Agora que visitara o seu homem, tinha consciência do cansaço e do frio. Arrastou-se para tossir, apoiando-se contra a parede.
Chegada ao hotel, abriu a porta. Na sala, demasiado quente, enfumarada, as meninas e os chulos continuavam a jogar. Ficou imóvel à entrada e disse “olá”.
As conversas morreram. Fez um esforço para sorrir.
No fundo da sala, uma mulher recostou-se na cadeira e gritou:
— Diz lá, “Meus Olhos” fizeste uma bela conquista, na tua rentrée!
Ela encolheu os ombros. A outra continuou:
— Não sabes quem é?
— Não…
— Pois vem! É o Bingue!
“Meus Olhos” balbuciou:
— Que é que estás a dizer? O…
E a mulher, emborcando um gole, e continuando a jogar, atirou-lhe:
— O Bingue… O carrasco, pois quê!

NOVEMBRO

Novembro é um mês triste…

… Um mês de dor e saudade. Anda no ar um cinzento opaco que convida à melancolia, secundado pelo cair das folhas
Propenso à meditação sobre o acaso da vida… a própria chuva são lágrimas que, do alto se vêm juntar às que através dos olhos irrompem da alma…
Lágrimas de dor
Dor e Saudade pelos idos…
Nossos, vossos, de todos nós.
Novembro arrasta consigo o Dia dos Finados e este não é um dia comum: queira-se ou não, a recordação de uma mãe, de um pai, de um folho, de um parente ou amigo. É uma prova dolorosa…
O nascimento e a morte são os pólos de todas as manifestações da vida.
A noite e o dia. E quão longa é a noite do tempo sem limites comparada com o curto sonho da vida.
Em Novembro há rostos diferentes; húmidos e feridos de nostalgia. Diante um qualquer coval, um cortejo de íntimas lembranças revivem um passado de manifestações inesquecíveis… olhares, afectos. Passos, gestos… sonhos da vida interrompida que deixa sofrida lembrança em quem fica.
Baixemo-nos humildes sobre esta verdade. Deixemos que as lágrimas nos rolem pelas faces, livremente, sentida e abertamente, rezemos pela paz eterna dos que nos deixaram, rezemos com saudade, ternura e amor…
E bem seria de espalhar por este mundo, a mesma compreensão, a mesma ternura e amor… bom seria que se instalasse entre nós…
… que não houvesse mais mão estendidas à míngua de compreensão e ternura
… que a fome e a miséria fossem banidas do dia a dia
… que cada criança recebesse o seu quinhão de carinho e amor
… que os idosos tivessem o reconhecimento do respeito que merecem
… que vivêssemos como irmãos leais, mais envolvidos e mais humanos
Então; quem sabe?
Novembro, na sua melancolia poderia abrir-se num breve e tímido sorriso, brindar-nos com um pouquinho de sol mais quente…
… os crisântemos transformaram-se em rosas brancas… pombas da Paz volteando nos céus!