3 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 277

Efemérides 3 de Outubro
Edgar Box (1925 - 2012)
Eugene Luther Gore Vidal nasce em West Point, EUA. Conhecido activista político norte-americano começa a escrever aos 19 anos de idade. Publica obras de diferentes géneros: história, política, ficção científica, argumentos para televisão e cinema, crítica literária etc. Utiliza o pseudónimo Edgar Box para escrever romances de mistério / detective protagonizados pelo Peter Sargeant. O autor recebe em 1955 o Edgar Award para Best TV Series, atribuído pelos Mystery Writers of America a Smoke (1954).


TEMA — ESTUDOS DE PSICOLOGIA CRIMINAL — O ORGULHO DO PRESO
Penitenciária é uma coisa e cadeia pública é outra. A cadeia é um depósito de presos de todas as categorias e espécies. Entra e sai gente, e nos seus cubículos a sujeira e o vício tomam pro-porções muita vez indescritíveis. E ai, se não aparecem já à luz das fogueiras os carcereiros armados de chicote e seguidos de cães bravios, os escorpiões, os ratos, as baratas e os percevejos constituem uma fauna terrível que atormenta os que cá fora tiveram na vida um pouco de conforto e de amor a si mesmos.
Todavia a cadeia pintada por Cyro Dos Anjos em O Amanuense Belmiro, é menos sórdida do que a das páginas naturalistas de Alberto Leal em Cais de Santos. Vale a pena pedir licença ao carcereiro e conviver um pouco no meio dos reclusos para surpreender os seus costumes e o seu “argot”. Esse amanuense Belmiro é um espírito amável de Belo Horizonte preocupado em passar para suas Memórias todos os “faits divers” de sua modesta vida de amanuense. Tem um amigo de nome Redelvim, cuja cabeça se enche de caraminholas revolucionárias embora seja praticamente inofensivo. Estoirando um movimento comunista em alguns pontos do país, Redelvim tem que ajustar contas com a polícia, e o amanuense Belmiro vai interceder por ele, certo da sua influência pessoal. Mas a polícia está de maus bofes e o trancafia1 no xadrez.
Ora, seu manguarão2, deixemos de luxinhos. Você vai é mesmo para as grades…

Demos ao Belmiro ao menos o prazer de ser o narrador de sua triste história:
Saído o investigador, acolheram-me festivamente. Um me dirigiu a palavra:
— Não ache ruim, não, meu velho. A “cana” é isso, não tem sopa.
— Está com “pinta” de “lunfa” da “penosa”, disse, rindo-se para o outro.
Achei-os divertidos, embora o momento não fosse de graças. Que seria “lunfa de penosa”? Propus-me, por isso, ir ganhando a confiança dos dois presos.
Na gíria policial “pinta” é aparência, jeito, e “lunfa” é ladrão. A combinação — lunfa da penosa — era, porém, estranha. Percebi que estava no meio de larápios e fiquei extremamente curioso de ouvir suas conversações.

— Qual nada! — falei. Bem que tinha vontade de fazer um “servicinho” de vez em quando, mas não dou para isso.
— Pois olhe, — respondeu o baixo, gordo, de cicatriz na face, indicando-me o companheiro magro e alto — Este é o Manequinho, mestre punguista3. “Mancou” agora. Ia para a Baía mas quis ver a morena.
— Mais amor e menos confiança, — disse o magro, fingindo zangar-se.
— Maneou, mesmo, prosseguiu. A “sodade” apertou, veio ver a negra e foi “encanado”. Namora, “pessoar”!
Depois se apresentou:
— Não ouviu falar de mim, não? Os jornais estão cheios. (Disse isto com orgulho profissional) Fui preso por causa dele. Fomos juntos à casa da pequena, os “tiras” estavam “acampanando” a “grinfa”. Mas isso é doce de leite. Já fui encanado mais de cinquenta vezes. Sou punguista. Banco o “vigário” só quando não encontro “otários” para “punga”. Não “afano” a carteira; tiro só a “grana” e deixo o “couro” para o “ota'” não dar o grito. Já corri os estados todos, menos Goiaz, Mato Grosso e Amazonas.
1 – Trancafia (Bras.):  preso;
2 – Manguarão (Bras.): homem alto e magro;
3 – Punguista (Bras.): Ladrão de carteiras.


  
TEMA — CONTO POLICIÁRIO — DEFESA ENGENHOSA
O presente conto foi publicado no dia 24 de Abril de 1877 num semanário britânico “The Leisure Hour” sem qualquer indicação de autor e assim se mantém no presente.
M. Constantino

O advogado Vaughan apreciava e muito uma boa conversa com qualquer pessoa comunicativa que o acaso pusesse ao seu dispor. Em pouco tempo ficou a saber que o seu companheiro também se destinava ao Tribunal em Chelmsford, cujos trabalhos deveriam ser inaugurados no dia seguinte
— Na qualidade de jurado, provavelmente? — perguntou Vaughan.
— Não, senhor, não vou como jurado — disse o outro.
— Ah, testemunha é o que deveria ter dito.
— Nem como testemunha tão pouco… Oxalá fosse algo tão agradável como isso.
— Compreendo agora: o senhor vai actuar como promotor num caso que confrange os seus sentimentos. Porem tais coisas acontecem e o remédio é resignarmo-nos com elas.
— Continua enganado nas suas conjecturas. Vou desembolsar certa quantia de dinheiro por um parente processado no Tribunal
— Ah, então é isso! Muito desagradável, sem dúvida, ter de abrir mão de dinheiro assim desta forma — observou o educado causídico.
— Sim, sim, principalmente quando não se dispõe de grandes meios — observou o outro.
— Espero que não se trate de uma quantia considerável.
— Como sabe, a soma é fixada segundo as posses de quem faz o pagamento.
— Sim, sim, exactamente.
— A quantia é de quinhentas libras o que, para alguém de posses tão limitadas quanto as minhas, é bastante pesado.
— Oh, mas acredito que o senhor seja indemnizado mais tarde.
— Isso é muito problemático. Depende do meu parente ser ou não bem sucedido nos negócios. É estalajadeiro.
— Bem, o caso é realmente difícil, — observou Vaughan com ar muito sério.
— É a opinião de todos aqueles que conhecem a história em detalhe.
— Ah, sim? Existem circunstâncias especiais neste caso?
— Existem, não há dúvida — replicou o outro com algo entre um suspiro e um gemido.
— Trata-se de um segredo? — inquiriu Mr. Vaughan, com a curiosidade francamente aguçada.
— Contar-lhe-ei a história se não a achar demasiado cansativa.
— Tenho o máximo interesse em ouvi-la.
— Pois saiba que há cerca de seis semanas um respeitável negociante de cereais em Londres, a caminho de Chelmsford, encontrou numa diligência, duas pessoas completamente estranhas. Tais pessoas dentro em pouco entabularam conversa com ele e tendo descoberto o motivo da visita do negociante a Chelmsford afirmaram para lá se dirigir com o mesmo intuito, isto é, tratar da compra de certos cereais. Após mais alguns instantes de palestra foi sugerido por um dos estranhos que seria melhor para os três se chegassem a um entendimento sobre o montante da compra a fazer, porque se se apresentassem no mercado sem uma combinação prévia, tratando-se de um lugar pequeno como Chelmsford, isso resultaria apenas na elevação dos preços; mas se operassem com cuidado, obedecendo a um acordo que servisse a todos, esse perigo seria evitado.
O segundo estranho fingiu aprovar tal sugestão, propondo ainda, para mostrar que nenhum teria vantagem sobre os outros, que todos os três depositassem o dinheiro nas mãos do respeitável proprietário da principal estalagem, tomando o cuidado de fazê-lo na presença de testemunhas, e que instruções detalhadas fossem dadas ao estalajadeiro para que não entregasse parte da importância a nenhum deles em particular, até os três voltarem juntos para reclamar o dinheiro. O primeiro estranho propôs então que se o estalajadeiro violasse as instruções recebidas, fosse responsabilizado pelo seu acto.
O mercador londrino conhecendo o dono da estalagem como um homem de indiscutível respeitabilidade — O estalajadeiro em questão é meu parente — deu logo o seu consentimento à proposta e cada um dos três colocou na mão do senhorio, nas condições combinadas, duzentas e cinquenta libras, perfazendo um total de setecentas e cinquenta.
— Ora, o senhor despertou o meu interesse com a sua singular história — disse Vaughan. — E qual foi o resultado?
— Foi o seguinte: mal os três tinham saído da estalagem, quando um dos dois estranhos — aquele que se apresentara ao senhorio e com ele fizera todos os arranjos — voltou e disse que, pensando melhor, haviam resolvido fazer as compras o mais cedo possível e em consequência disso os outros dois tinham-lhe pedido que voltasse para buscar o dinheiro.
— E o estalajadeiro seu parente entregou a soma toda? — riu Vaughan.
— Sim, entregou — infelizmente para ele e para mim — replicou o outro.
— E depois? — quis saber o instruído cavalheiro sempre interessado.
— Ora, o mercador e o outro estranho voltaram cerca de uma hora mais tarde e exigiram cada um a sua parte, duzentas e cinquenta libras por cabeça.
— E o estalajadeiro, é claro, declarou ter entregado a soma toda ao primeiro estranho?
— Sim, foi o que fez. E como resultado, segundo suponho, o segundo estranho e o mercador processaram o estalajadeiro?
— Exactamente. E uma vez que toda defesa será inútil, uma vez que o estalajadeiro entregou o dinheiro a um deles, quando as instruções recebidas o proibiam de fazê-lo até que os três estivessem reunidos, meu parente vai permitir que o processo se faça sem defesa. O dinheiro deverá ser pago ao vigarista pois ambos os estranhos, segundo ficou provado eram vigaristas e também ao negociante londrino.
— E o senhor está realmente decidido a pagá-lo?
— Mas claro, não há como fugir a isso.
— Sou advogado e terei muito prazer em defender o pobre estalajadeiro gratuitamente.
O outro desfez-se em agradecimentos pela sua bondade, porém expressou as suas dúvidas de que qualquer esforço no sentido da defesa resultasse em qualquer coisa.
— Veremos — disse o advogado — veremos. Procure-me hoje à noite, acompanhado do seu parente, e combinaremos a defesa para amanhã.
O dia seguinte chegou e o caso foi apresentado no tribunal. O pobre estalajadeiro, agindo de acordo com os conselhos de Vaughan, mas sem perceber que benefício tiraria daquilo, exigiu a defesa do caso. Durante algum tempo tudo decorreu tão favoravelmente para a promotoria e, embora todos os presentes se condoessem do infortunado homem, não se via a possibilidade de um veredicto que não fosse contra ele. Mas o advogado Vaughan, quando a promotoria se silenciou, levantou-se e disse: — Agora, senhores jurados, já foram ouvidas as provas apresentadas. Segundo as testemunhas aqui presentes, o réu recebeu as instruções mais rigorosas da parte dos três para não entregar o dinheiro, nem parte dele, a ninguém em particular, excepção feita quando os três estivessem presentes. Cavalheiros, o meu cliente guarda o dinheiro em seu poder e está pronto a entregá-lo quando as três partes interessadas se apresentarem para exigi-lo. Que a parte agora ausente apareça em companhia dos outros dois e cada um receberá o seu dinheiro. A promotoria pareceu assombrada.
O veredicto, é claro, foi favorável ao réu.
É desnecessário acrescentar que o homem que fugira com o dinheiro nunca apareceu, e que, consequentemente o estalajadeiro nunca teve de desembolsar quantia alguma
Talvez fosse mais justo dividir a perda do honesto negociante de cereais, mas um negociante londrino merece pagar algo pela experiência adquirida.

2 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 276

Efemérides 2 de Outubro
Graham Greene (1904 - 1999)
Henry Graham Greene nasce em Berkhamsted, Herifordshire, Inglaterra. Jornalista, dramaturgo, escritor é o autor de cerca de 60 livros. Desde o início da sua carreira literária Graham Greene sempre mostrou interesse pela escrita de policiários, apesar de marcar bem a distinção entre os seus romances sérios e os outros que classificava como entretenimento. Publica 25 livros de crime / mistério / espionagem e 3 livros de contos do mesmo género. (VER TEMA). O autor tem vários romances adaptados ao cinema.

Jack Finney (1911 – 1995)
Walter Braden Finney nasce em Milwaukee, Wisconsin, EUA. Autor de policiário e ficção científica tem diferentes obras adaptadas ao cinema. No campo da narrativa policiária destaca-se os romances: Five Against The House (1954), The House Of Numbers (1957), Assault On A Queen (1959) e The Night People (1977) e ainda Forgotten News: The Crime Of The Century And Other Lost Stories, uma colectânea de contos publicada em 1983.


Edmund Crispin (1921 - 1978)
Robert Bruce Montgomery nasce Chesham Bois, Buckinghamshire, Inglaterra. Compositor, professor universitário e escritor, é o autor de 9 romances policiários e 2 livros de contos protagonizados por Gervase Fen (ver TEMA): The Case Of The Gilded Fly (1944), Holy Disorders (1945), The Moving Toyshop (1946), Swan Song (1947), Love Lies Bleeding (1948), Buried For Pleasure (1948), Frequent Hearses (1950), The Long Divorce (1952), Beware Of The Trains (1953) - Contos), The Glimpses Of The Moon (1977) e Fen Country (1979) Contos. O autor assina os seus livros policiários com o pseudónimo Edmund Crispin, nome do protagonista de Hamlet Revenge de Michael Innes referido há dois dias nas efemérides. Em Portugal está publicado:
1 – Crime No Colégio (1991), Nº18 Colecção Crime S.A, Editora ulisseia. Título Original: Love Lies Bleeding (1848). Reeditado em 2005 pelo Publico com o Nº14 da Colecção 9 mm. É o 5º livro da série Gervase Fen.



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — DOIS AUTORES
Por M. Constantino
Em 1950 Graham Greene publicou The Third Man, editado entre nós com o título O Terceiro Homem que serviria de base argumental a um guião cinematográfico para um filme de Carol Reed, com o mesmo título. É uma obra que está na fronteira do género policiário e o comum, mas é excelente. Narra o caso de um acidente e as testemunhas que o presenciaram, o protagonista Holly Martins suspeita que há algo de estranho no acidente que custa a vida a um amigo e investiga para descobrir a verdade.
Outras novelas de mistério do autor A Gun For Sale (1936) e Brighton Rock (1938).

Graham Greene


Na ordem da tradição clássica da narrativa policiária, há que incluir com satisfação a obra de Edmund Crispin que publica o seu primeiro livro The Case Of Gilded Fly em 1944. O autor é o criador de um dos personagens favoritos da literatura detectivesca na pessoa de Gervase Fen, professor de literatura inglesa na universidade de St Christopher's College, (ficcionada) em Oxford e igualmente detective amador, observador e dedutivo que auxilia com frequência o Inspector Humbleby, Detective da Scotland Yard.


Edmund Crispin



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — ESCREVER UM ROMANCE POLICIÁRIO
O presente artigo, da autoria do consagrado Nicholas Blake foi publicadonos numa revista francesa há mais de uma dúzia de anos. Dado o seu âmbito importa recordá-lo para extrair o que de bom tenha para proveito dos futuros escritores.
M. Constantino

As qualificações mais positivas e necessárias para escrever este género de romance, são: — um espírito engenhoso, o gosto pelo fantástico, alguns conhecimentos de Medicina Legal e da maneira de agir da polícia de investigação e dos direitos humanos, e, também, uma certa curiosidade sobre os assuntos relacionados com o comportamento dos seres humanos sob os efeitos de uma violenta emoção.
É essencial, antes de começar a escrever um romance policiário, executar um plano minucioso e, claro, saber ter esse plano… O método do assassínio, o horário, o possível móbil, os movimentos da vítima e dos suspeitos durante as horas fatais… Tudo isto terá que ser previamente estabelecido. É somente depois deste trabalho que se deve começar a traçar, a arquitectar, o falso quadro… aquele que é destinado a enganar o leitor. As “ideias luminosas” que vos apareçam enquanto escreverem o livro, devem ser examinadas com a maior meticulosidade e, por fim, registadas. Claro que há, naturalmente, excepções a esta regra.

 Nicholas Blake justifica em seguida a necessidade das “pistas falsas” destinadas a “levar” o leitor, pois ele compara a realidade com a ficção:
Na realidade a investigação policiária é uma longa recolha de elementos e acumulação de perguntas, não dramáticas, onde o texto será sempre bastante minucioso para todos os leitores, mesmo que não sejam criminologistas. Nos romances, é preciso que a investigação seja sofisticada e dramatizada. Para esse feito, são estabelecidas certas convenções, especialmente a dos chamados “crimes duplos”…
“É um elemento que oferece a vantagem de excitar o interesse. O leitor pergunta-se continuamente qual das personagens será a próxima vítima. Este procedimento contribui, também, para o chamado “fantástico essencial”. Por outro lado os “crimes múltiplos” podem, exageradamente, complicar a intriga; não são, por vezes, se não um fácil procedimento para eliminar alguns desses aspectos… e isto parece bastante perto de um outro facto: — a incapacidade de manter o leitor desperto, sem nova efusão de sangue, por assim dizer…

É possível, no entanto, encontrar a surpresa mais longe, sob a pena de um bom autor de romances policiários, segundo a seguinte apreciação:
O romance policiário aparece-nos assim mais perto dos textos dos crimes clássicos, o que pode acarretar o desaparecimento do género. Será isto uma grande perda? Eu julgo pretensioso considerar o romance policiário como uma forma de arte; no entanto ele traz consigo duas funções principais: — distrai e responde a uma necessidade psicológica.

Esta enumeração das duas funções principais de “arte”: — distrair e responder a uma necessidade psicológica, parece-nos, por nosso lado, bastante discutível. Eis a conclusão a que chega Nicholas Blake:
Tal como, o conto de fadas, o romance policiário pode ter um significado mais pro-fundo do que parece. Eu creio que, fundamentalmente, o seu atractivo deriva de um conflito entre o ideal humanitário do carácter sagrado da vida humana individual, por um lado, e por outro, o instinto da luta à morte — a moral atávica de “olho por olho, dente por dente”. O romance policiário poderá pois sobreviver por muito tempo, tanto como os valores morais e humanistas continuarem a opor-se ao nosso espírito de vingança instintivo, o que quer dizer, até que se constitua ou seja formada uma nova moral que o faça “desaparecer”.

Nós não queremos parecer tão pessimistas no que se refere à possibilidade de ver formar-se a “moral nova” de que nos fala Nicholas Blake, mas cremos fortemente (é uma maneira de falar…) que, nestas condições, o romance policiário não seja… eterno!

1 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 275

Efemérides 1 de Outubro
Sarah Gainham (1915 - 1999)
Sarah Rachel Stainer nasce em Islington, North London, Inglaterra em 1915, e não em 1922 como afirmava. Mais tarde recebe o apelido Ames do marido, mas usa o pseudónimo literário Sarah Gainham. É jornalista e escritora com 13 livros publicados entre 1956 e 1983. Apesar de ser mais conhecida pela trilogia Night Falls On The City (1967) sobre o quotidiano em Viena sob o jugo nazi, Sarah Gainham, no início da sua carreira literária, é autora de 5 romances de suspense e espionagem: Time Right Deadly (1956), The Cold Dark Night (1957), The Mythmaker (1957), The Stone Roses (1959) e The Silent Hostage (1960).



TEMA — CONTO POLICIÁRIO — OS FANTASMAS DE ELIZABETH G.
De Natércia Leite
Toda a gente gostava de Charlie. Elizabeth gostava de Charlie. Generoso, correcto, com uma cultura geral muito acima da média — pois quase não havia assunto em que Charlie não falasse, desse a sua opinião, discorresse. Olhos e cabelos de mel. A boca severa mas quando se abria para rir ou falar, deixava ver os dentes pequenos e muito brancos.
Charlie namorava a irmã estava fim, estava no fim de Medicina e todo o Verão lhes fizera companhia, pois as casas de ambas famílias eram vizinhas.
Tinha sido um Verão maravilhoso. Merendas no pinhal, passeios de bicicleta ou a pé pelas, serras passeios de barco pelo lago sombrio, longas conversas e pelas tardes adiante — ala, a irmã, o irmão e Charlie pelo menos.
Chegara o Outono e tudo mudava de cor. Já um frio fininho arrepiava a certas horas a pele. As grandes árvores vestiam-se de tons amarelos e castanhos.
Naquele dia Elizabeth foi passear de barco com Charlie: remavam silenciosos. Ouviam-se os galhos a estalar, a folha ciciando, um coaxar de rã perdido de vez em quando.
O coração de Elizabeth batia de mansinho dentro do peito.
Charlie estava na sua frente, remando silencioso — olhos e cabelos de mel, distante, pensando provavelmente na irmã com quem já aprazara casamento.
E depois fora tudo de repente, sem explicação. O barco desequilibrara-se, voltara-se e aí estavam os dois dentro de água já muito fria nessa época. Elizabeth esbracejou, nadou, gritou. Deixou de ver Charlie perto de si. Nadou e gritou. Gritou e nadou. Conseguiu por milagre chegar à margem onde perdeu os sentidos.
Esteve em estado de choque. Sobreveio uma pneumonia. Ficou triste de morrer e nunca mais voltou a ser a mesma Elizabeth. O corpo de Charlie fora apanhado mais tarde nas buscas do lago.

O pai Marcus acabou anos mais tarde por voltar a casar. Gastara quase até à última a herança familiar e via-se agora com os três filhos e letras e urgentes a vencer. Daí a casar outra vez — coisa de que os filhos não gostaram mas que tiveram de aceitar. Era salvação financeira, a recuperação da dignidade económica. A mulher sofria do coração, era frágil e caprichosa e sempre à volta com as suas pílulas e comprimidos. A sua preferida era Elisabeth que desde o drama do lago a tornara numa rapariga silenciosa e um tanto apática. A irmã, passados tempos de grande depressão acabara por ser cortejada por um jovem bem parecido e casara deixando a casa paterna.
O irmão entrava e saía, estava pouco em casa, os estudos não avançavam, a boémia engolia-o.
Na casa da cidade Elizabeth com a madrasta. Quando a dor chegava como uma garra, Elizabeth corria a buscar os comprimidos que a madrasta mastigava — um, dois, quantos fossem precisos até passar a dor.
Um dia Elizabeth não estava presente. Os comprimidos não estavam à mão — a dor chegara como um espasmo doloroso. A madrasta chamara, tentara subir ao quarto, sufocada, a buscar os remédios, ficara-se a meio da escada, fulminada por uma crise.
Lamentou-se o facto mas ninguém sentiu grandemente a perda e as finanças ficaram equilibradas.

Depois fora a vez de Elizabeth. Mas Elizabeth, ela bem o sabia, era uma jovem sem sorte, condenada ao desespero e ao silêncio!
Os olhos e os cabelos de mel de Charlie andavam dentro da sua cabeça revoluteando e nunca mais nada seria o mesmo.
Elizabeth era uma rapariga adorável mas com um feitio estranho e incompreensível.
Pois chegara a sua vez. Conhecido o rapaz pensou que talvez tudo desse certo. Os olhos dele eram grandes e envolventes, sabia ser agradável divertido e vivia bem. Tinha algum dinheiro de seu — não passariam mal.
Elizabeth disse adeus à casa paterna com uma certa tristeza e foi para a sua própria casa.
Mas nada era como teria sonhado ou desejado.
Ou talvez porque Charlie não deixasse. Charlie que nunca a tinha requestado ou desejado ou balbuciado para ela uma palavra de amor. Só na sua imaginação Charlie a abraçava com ternura e a sua boca bonita encostava-se na dela, sôfrega e terna. Mas depois toda a água do lago os rodeava e inundava e Charlie era só um corpo desarticulado boiando ao sabor das águas.
Nada era como seria bom. Elizabeth entristecia. O marido bebia. Cada vez bebia mais. Deixara de ser agradável e divertido. E os olhos enormes olhavam-na, acusando-a.
Com Elizabeth tudo acabava em infelicidade e tristeza.
E um dia, a janela aberta de par em par e o marido completamente embriagado caindo do terceiro andar à rua, colando-se ao asfalto; de corpo desarticulado e mole como fora um dia o de Charlie.
Estes eram os fantasmas de Elizabeth G. que a roíam, sugavam, mortificavam.
Charlie nunca lhe falara de amor. Só tinha olhos para a irmã… Os olhos e cabelos de mel não seriam para ela.
Por Isso Elizabeth neurótica e tortuosa, durante o passeio no lago levantara-se de repente, fizera desequilibrar o barco e dera com o remo com quanta força tinha em Charlie. Depois foram as águas e envolvê-los. Ainda vira Charlie mergulhar, ser levado pelas águas atordoado incapaz de reagir. Ela lutara, esbracejara, gritara, num instinto de sobrevivência, embora ao fim e ao cabo no seu íntimo desejasse estar, ir-se com Charlie.
Ninguém desconfiara.
Depois fora a madrasta que os comprara para lhes evitar a ruína. Odiada surdamente, Elizabeth controlava os remédios, os ataques,
Naquele dia vira a aflição, o espasmo, não acudira, mantivera-se ausente. Os comprimidos estavam todos fora de alcance. Quando a madrasta tentava subir a escada, as forças tinham-se esgotado, sumido e ali mesmo ficara.
E ainda o marido detestado, insuportado, alcoólico.
Charlie, Charlie, Charlie… tão longe no tempo, apodrecendo debaixo da terra em vez de estar com ela.
A janela aberta do par, em par. Sol. O marido bêbado, amargurado e desiludido.
O empurrão. O fim.
Eram estes os fantasmas de Elizabeth G.
Que a perseguiam noite e dia até aos limites do tolerável, lhe roubavam a cor ao rosto, o sono às longas noites insones.
Os olhos e os cabelos mel revoluteavam na cabeça de Elizabeth G., Charlie, Charlie…
E Charlie como os outros era apenas um fantasma distorcido e macabro, boiando nas águas de um lago, boiando nos seus tristes, pensamentos, de olhos a cabelos de mel…


DICIONÁRIO DE AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA NARRATIVA DE ESPIONAGEM (11)

16 – BLOCK (LAWRENCE)
1938

Escritor já referido no CALEIDOSCÓPIO 176 (Clicar).
A inclusão do autor no Dicionário de Autores deve-se em especial à serie Tanner, uma das mais fascinantes no universo dos romances de espionagem.
O protagonista Evan Tanner tem um perfil bem diferente dos populares espiões americanos. Vive aventuras surpreendentes e é um agente de tal forma especial que é vigiado de perto quer pela CIA, quer pelo FBI, que temem o espírito demasiado independente do espião. Tanner tem ainda uma particularidade: sofre de insónia total, consequência de uma ferida de guerra (Coreia) que lhe causou uma lesão no lobo temporal, comprometendo o sono. Tem, por isso, mais tempo disponível do que o comum dos mortais aproveitando para estudar línguas estrangeiras, o que lhe permite efectuar missões em todo o mundo.
Livros da série Evan Tanner:

The Thief Who Couldn't Sleep (1966)
The Cancelled Czech (1966)
Tanner's Twelve Swingers (1967)
Two for Tanner (1967), também editado com o título The Scoreless Thai
Tanner's Tiger (1968)
Here Comes A Hero (1968), também editado com o título Tanner's Virgin
Me Tanner, You Jane (1970)
Tanner On Ice (1998)

OUTUBRO

OUTUBRO
Vamos entrar no último trimestre do ano…



PÁRA, ESCUTA, OLHA

PÁRA
É bom parar… ouvir o silêncio do mais profundo, do mais íntimo que temos em nós
É bom encontrares-te contigo próprio
Para quem não tem tempo para nada, há sempre uma oportunidade de fazer uma pausa
para meditar
fazer uma revisão da vida
ouvir a voz da consciência
programar pensamentos
organizar acções
No silêncio do teu silêncio
viver a tranquilidade desse silêncio
Porventura
desfrutar esses momentos de paz

ESCUTA
É uma ideia errada pensar que o mundo começa ou
termina e nós
Há vida
há vidas
em torno de nós
Escuta, sem tentares fechar os ouvidos ao clamor que corre da planície à serra, da terra ao infinito
O clamor
dos que sofrem
injustiçados
famintos
incompreendidos
doentes
oprimidos
abandonados
Escuta
Estende a tua mão
abre o teu coração
enxuga as lágrimas da dor
sê solidário com teus semelhantes
Espalha à tua volta
alegria na tristeza
luz nas trevas
união na discórdia
justiça na opressão
amor no ódio
O amor e a paz são grandezas que se fundem
Deus deixa-nos uma porta aberta para a paz
a paz total e verdadeira dos que crêem

OLHA
Olha para dentro de ti próprio
olha ao teu redor
É triste ver pessoas que constroem as suas vidas sobre esquemas materiais…
… decepcionam-se, geralmente, pois não são o que esperavam
Há quem construa altos muros nas suas casas para obterem paz
Paz que vem daquele que entra em tua casa e dás ajuda
do que estava doente e foste visitar
do que tinha fome e deste de comer
do que tinha sede e deste de beber
do que aliviaste a do
pelo diálogo concórdia fraternidade
Olha irmão/semelhante, olha
É tempo de PARAR, ESCUTAR, OLHAR
a paz vem do amor que se derrama em dádivas
do silêncio da consciência
PÁRA, ESCUTA E OLHA…

Ah, se também tu, ao menos neste dia
pudesses conhecer o que te pode trazer a paz (Lc 19.24).

M. Constantino