4 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 248

Efemérides 4 de Setembro
Cyril Hare (1900 – 1958)
Alfred Alexander Gordon Clark nasce em Mickleham, Surrey, Inglaterra. Advogado e juiz, é também escritor de livros policiários sob o pseudónimo de Cyril Hare. Cria a série Inspector Mallett — com 3 títulos, a série do advogado Francis Pettigrew, também com 3 títulos publicados; escreve ainda 2 romances onde junta estes dois personagens, 1 livro de contos mistério / detective, 2 romances policiários e uma peça de teatro. Em Portugal é possível encontrar o registo das seguintes edições:
1 – A Morte Do Financeiro (1964), Nº12 Colecção Policial Nova Série, Empresa Nacional de Publicidade. Título Original: Tenant For Death (1937). É o 1º livro da série Inspector Mallett.
2 – Tragédia No Tribunal (1982), Nº3 Colecção Clube do Crime, Publicações Europa América. Título Original: Tragedy At Law (1942). É o 1º livro de Inspector Mallett e Francis Pettigrew.



TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR? COMO? — TRADIÇÕES (2)
Na terra de Esfinge, em coincidência espantosa com as profecias do Apocalipse, na previsão de um fim do mundo resultante de “terramotos e erupções dos quais nenhuma nação escapará”, têm sido apontadas na interpretação da Grande Pirâmide Quéops.
Construída antes do Dilúvio e tendo a ele resistido, está implantada no ponto zero do planeta, divide ao meio as terras e as águas e por ele passam os eixos norte-sul e este-oeste, tudo parecendo indicar que não foi construída por acaso e apenas com o fim de abrigar faraós mortos como as suas irmãs.
Vista do espaço é um quadrado inscrito num círculo; os seus quatro lados alinham com os pontos cardeais; cada um destes está representado por três signos do zodíaco, correspondendo a cada um trinta graus da circunferência. Possui, de resto, tantas revelações nos seus corredores, que é coerente a designação corrente de “livro da pedra que permanece”.
Segundo uma história do antigo Egipto, escrita por um historiador copta medieval, Quéops e uma outra, Quéfren, teriam sido mandadas construir após um sonho profético do rei Surid, em face do qual “o céu e as estrelas cairiam sobre a Terra”.
Os intérpretes de sonhos preveniram que “viria uma grande inundação, acompanhada por um fogo da constelação Leão que incendiaria o mundo”. Surid ordenara a construção das pirâmides para que neles fossem registadas todas as ciências e conhecimentos das estrelas, matemáticas e geometria, como testemunho futuro dos seus conhecimentos.
Os estudiosos da grande pirâmide dizem nela encontrar coincidências com o apocalipse anunciado por S. João; garantem que o período preconizado pelos egípcios para o fim do mundo, se situa entre os anos 2001 e 2090. Para S. João, o ciclo do homem terminará na Era do Aquário, as previsões piramidais, que abrangem um período que começa numa data equivalente a 22 de Setembro de 4000 a.C.,termina em 17 do mesmo mês, do ano 2000 d.C. - o fim do sexto milénio.
Note-se a curiosidade da profecia de Nostradamus, profeta do Século XVI:
“No ano de 1999,em Setembro,
virá do céu um grande rei terror…”

A tradição dos Astecas e dos Hopi são concordantes. Árabes, chineses e judeus, possuidores noutros tempos de calendários diferentes dos nossos são concordantes quanto ao cataclismo final. Igualmente a tradição hindu aponta para o aniquilamento da raça humana no ciclo que decorre até ao ano 2000.

Na prática zodiacal, a ascendência de um novo signo, mais ou menos em cada 2 000 anos provoca sempre catástrofes enormes, tais como o afundamento da Atlântida que ter-se-ia registado na passagem do ciclo do Leão para o Caranguejo.


TEMA — CONTO DE TERROR — CINCO MIL MORTES
De Guillaume Apollinaire
— Tenho de me pentear sempre com muito cuidado Senão, nota-se esta maldita cicatriz lívida e tão visível que tenho no couro cabeludo, que dá a impressão de ser calvo. A cicatriz não é nova. Data da época em que fui fundador de uma cidade. Foi isso aí há uns quinze anos e passou-se na Colúmbia Britânica, no Canadá — Cox-City! Uma cidade de cinco mil almas. Vinha-lhe o nome de Cox… Chislam Cox… um homem meio-cientista, meio-aventureiro. Havia provocado rush naquelas bandas, ainda virgens, das Montanhas Rochosas, onde hoje se situa Cox-City.
Os mineiros tinham sido recrutados um pouco por todo o lado: no Quebeque, em Manitoba, em Nova Iorque. Foi nesta cidade que dei com Chislam Cox. Encontrava-me ali havia uns seis meses. De resto, devo confessar que não ganhava ali nem um tostão e sentia um tédio de morte.
Não vivia só, mas sim com uma alemã bastante bonita, cujos encantos tinham o seu sucesso. Tínhamo-nos conhecido em Hamburgo. E tornara-me seu manager, se assim me posso expressar. Chamava-se Marie-Sybille ou Marizibill, para falarmos como se fala em Colónia, sua cidade natal.
Deverei dizer que ela me amava loucamente? Pela parte que me cabe não era nada ciumento. Mas a vida preguiçosa que levava era para mim mais pesada do que poderia imaginar. Não tenho feito para chulo. Mas era sempre em vão que procurava alguma coisa onde empregar os meus talentos.
Certo dia, no saloon, lá me deixei levar por Chislam Cox, que em voz alta, encostado ao bar, exortava os consumidores a seguirem até à Colúmbia britânica. Sabia de um sítio onde abundava o ouro.
No seu discurso misturavam-se Cristo, Darwin, a Banca de Inglaterra e, diabos me levem se sei porquê, a papisa Joana. Não deixava de ser convincente, o Chislam Cox. Lá me alistei no grupo em companhia de Marizibill, que me não queria deixar, e partimos.
Não levava comigo qualquer ferramenta de mineiro, mas tão somente materiais de bar e desvairados álcoois, whisky, gin, rum, etc., bem como cobertores e balanças de precisão.
A viagem foi um tanto custosa, mas assim que chegámos aonde Chislam Cox nos queria levar, construímos uma cidade de madeira que foi baptizada com o nome de Cox-City, em honra de quem nos comandava. Inaugurei a minha venda de bebidas, que depressa começou a ser muito frequentada. O ouro era efectivamente abundante e eu pessoalmente fazia um autêntico negócio da China. Uma boa parte dos mineiros eram franceses ou canadianos franceses. Havia também alemães e indivíduos de língua inglesa. Mas predominava o elemento francês. Mais tarde recebemos elementos mestiços de Minitoba e um grande número de piemonteses. Chegaram também chineses. De tal modo que, passados alguns meses, Cox City contava com mais de cinco mil habitantes, os quais possuíam uma escassa dezena de mulheres.
Conseguira portanto uma situação invejável nesta cidade cosmopolita. O meu saloon estava cada vez mais florescente. Baptizara-o com o nome de Café de Paris, um título que lisonjeava todos os habitantes de Cox City.
Começaram a fazer-se sentir os grandes frios. Era terrível. Cinquenta graus abaixo de zero é uma temperatura deplorável. Foi com terror que constatámos que Cox-City não continha alimentos suficientes para passarmos o Inverno. Não eram possíveis as comunicações com o resto do mundo. A perspectiva era a morte a aproximar-se. Os víveres não tardaram a ficar esgotados e Chislam Cox mandou afixar uma proclamação emocionante onde nos dava a conhecer todo o horror da nossa situação.
Pedia-nos perdão por nos ter trazido para a morte e, mau grado o seu desespero, achava ainda maneira de falar de Herbert Spencer e do falso Smerdis. A parte final do edital era qualquer coisa de aterrador. Cox convidava a população a reunir-se, no dia seguinte de manhã, na praça que tínhamos tido o cuidado de erigir ao centro da cidade. Toda a gente devia levar um revólver e suicidar-se depois de dado o sinal, assim escapando todos aos pavores do frio e da fome.
Não houve protestos. A solução foi aceite como muito elegante e a própria Marizibill, em vez de se pôr aos soluços, disse-me que se sentia muito feliz por morrer comigo. Fizemos distribuição de todo o álcool que nos restava. No dia seguinte de manhã lá fomos, de braço dado, para a praça mortuária.
Nem que vivesse cem mil anos, jamais esqueceria o espectáculo desta multidão de cinco mil pessoas, todas enroupadas em casacos e cobertores. Toda a gente tinha na mão um revólver e todos os dentes estalavam… juro-vos que estalavam, sim!... Juro!
Chislam Cox erguia-se num plano superior ao de todos nós, em cima de um tonel. De súbito levou o revólver à fronte. Soou o tiro. Era o sinal e, ao mesmo tempo que Chisiam Cox caía do seu tonel, morto, todos os habitantes de Cox-City, incluindo eu próprio, estoiravam com os miolos… Que terrível recordação! Que tema de meditação, esta da unanimidade no suicídio! Mas que frio terrível estava!
Eu não morrera, estava apenas um tanto estonteado, não tardei a levantar-me. Um ferimento, ou talvez antes uma esfoladela que me causava dores horríveis, e cuja cicatriz me deixa assinalado até ao fim dos meus dias, era a única coisa que me recordava o facto de me ter tentado suicidar. Mas seria que eu estava só?
Não tive qualquer resposta. De olhos esbugalhados, tiritando de frio, ali fiquei imenso tempo pasmado a olhar para aqueles mortos, cerca de cinco mil, todos com uma ferida voluntária na fronte.
Senti depois uma terrível fome que me torturava o estômago. Os víveres tinham-se esgotado. Nada encontrei nas casas que espiolhei. Desnorteado e vacilante, atirei-me a um cadáver e devorei-lhe a cara. A carne estava ainda morna. Comi até me fartar, sem sentir quaisquer remorsos. Pus-me depois a passear pela necrópole, pensando nos meios para dela fugir. Armei-me, tapei-me bem, carreguei-me com todo o ouro que pude achar. Seguidamente comecei a pensar na comida. O corpo das mulheres tem mais banha, a carne é mais tenra. Procurei uma e cortei-lhe ambas as pernas. Este trabalho levou-me mais de duas horas. Mas fiquei senhor de dois pedaçoos que, por meio de duas correias, pendurei ao pescoço. Percebi nessa altura que o que cortara tinham sido as pernas de Marizibill. Mas a minha alma de antropófago pouco se emocionou. O que eu tinha era pressa de me ir embora. Pus-me a andar e, por milagre, acabei por me reunir a um acampamento de lenhadores, exactamente no dia em que se me tinham esgotado as provisões.
O ferimento da cabeça não tardou a sarar. Mas a cicatriz que oculto com todo o cuidado está sempre a trazer-me à lembrança Cox-City, a necrópole boreal, e os seus enregelados habitantes a quem o frio conserva no mesmo estado em que ficaram ao cair, armados e feridos, de olhos abertos, com os bolsos cheios do inútil ouro por que morreram.

3 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 247

Efemérides 3 de Setembro
Sally Benson (1897 – 1972)
Nasce em St. Louis, Missouri, EUA. Argumentista e autora de contos, inicia a sua carreira no New York Morning Telegraph como crítica de cinema; entre 1929 e 1941 publica 1 centena de contos na famosa revista The New Yorker, sob o seu nome ou sob o pseudónimo Esther Evarts. Em 1935 e 1936 ganha o prémio O. Henry pelos seua contos “The Overcoat” e “Suite 2049”. No policiário, e como argumentista, destaca-se o trabalho de Sally Benson na adaptação de um conto de Thornton Wilder para filme Shadow Of A Doubt (1943), um clássico do cinema de suspense, dirigido por Alfred Hitchcock. É um dos filmes preferidos do cineasta, em Portugal tem o título Mentira!



TEMA — CONTO POLICIÁRIO DEDUTIVO — ÁLIBI ACUSADOR
De Joe Doe
O pseudónimo Joe Doe utilizado para assinar este conto é aproveitado por vários autores para publicação dos seus contos em revistas menos cotadas. No caso presente estamos na presença de um bom conto, que merece ampla divulgação.

O Inspector Joe Brady examinou os detalhes do assassinato de Epworth e meneou a cabeça. O dono da casa de penhores fora assassinado nos aposentos que ocupava por cima de sua loja, mais ou menos às nove horas da noite de sexta-feira. O assassino levara todo o dinheiro da vítima, porém havia deixado as balas disparadas por uma arma que poderia ser encontrada, cápsulas vazias, um pacote de cigarros no qual se viam as impressões digitais bem nítidas (bem gordurosas!) e até pegadas!
— Comissário, gostaria de ver este homem, Hype Ruxton, levar uma lição? — indagou. Brady — Ele é o pistoleiro mais frio que existe no ficheiro da polícia. É culpado de mais crimes do que se pode contar. Mas devo admitir que desta vez parece haver uma trama contra ele. Entretanto, parece que seu álibi é indestrutível!
— Agarre-o e interrogue-o — recomendou o comissário. — Talvez ele saiba quem o quis comprometer.
— Há muitos que gostariam de enrascá-lo — exclamou Brady. — Pois não é um sujeito estimado nos anais do crime.
Achar Hype Ruxton foi fácil. Brady só teve de ir ao seu salão de snooker favorito e lá estava ele! Pondo de lado seu taco, Hype fez uma careta e ergueu os braços.
— Não há necessidade, inspector! Eu não uso nenhuma arma desde aquela última vez.
— Não espero encontrar a arma que procuro. Era um ferro-velho que lhe apreendemos há um ano atrás, e que mais tarde desapareceu do oitavo distrito. Imaginei que tivesse encontrado uma maneira de reavê-la. Naturalmente alguém pode ter-se apoderado da arma com a esperança de o poder comprometer um dia.
— O que houve, inspector?
Brady esmiuçou as provas, peça por peça. O caso era incontestável, Hype percebeu como a trama foi feita antes que Brady acabasse de contar.
— Epworth? — gemeu Hype —  O dono da casa de penhores? Liquidaram-no? Há um mês que não vejo Epwprth. Mas eu estava noutro lugar! Quando foi que isto aconteceu, inspector?
— Terá que arranjar um bom álibi entre as oito e as dez horas da noite de sexta-feira para se livrar, Hype. E terá de ser muito bom.
Pela primeira vez, na sua longa prática, o Inspector Brady viu Hype Ruxton estremecer.
— Eu e Tex Lubin estávamos a fazer a ronda nos “dancings” favoritos de Tex — disse Hype. — Tínhamos um negócio para liquidar antes que ele partir para o Sul. Naturalmente, ninguém confiava na palavra de Tex, porque tinha ficha na polícia e por pertencer aquela espécie de gente que quando parte nunca deixa endereço
 — “Okay"”, Hype — exclamou Brady. — Venha connosco! Faremos a mesma ronda que fizeram na sexta-feira. Talvez consiga encontrar uma testemunha nesses lugares que se lembre de tê-lo visto em companhia de Tex Lubin naquela noite!
Brad ficou intrigado, pois Hype aceitou a oferta, porém demonstrou ao mesmo tempo ansiedade. No “Blue Room Taproom”, evidentemente um dos lugares favoritos de Lubin, Hypo segurou a jaqueta do dono do bar, insistindo:
— Você não se lembra de mim? Estive aqui na sexta-feira a noite com Tex Lubin!
— Lamento, senhor, Mas só me lembro que Tex comprou duas cervejas, uma para ele e outra para um homem que estava a fazer uma chamada telefónica. Não sei se o outro homem era o senhor, pois não lhe vi a cara.
Hype estava nervoso quando saiu. Na esquina, junto a um vendedor de cigarros, tentou de novo.
— Eu sou o homem que ficou à espera do lado de fora quando Tex comprou os cigarros. Lembra-se?
— Como é que vou me lembrar de si, se estava lá fora, e eu ocupado a atender clientes?
Outras visitas foram feitas sem melhor resultado. Uma ideia estava-se a formar na cabeça de Brady. Hype tinha seguido aquele caminho. Ele sabia os lugares em que Tex Lubin tinha estado, porém evitara ser reconhecido. Por quê?
Mesmo assim, Hype estava desanimado. Olhou por cima do ombro do polícia uniformizado. Brady saudava o oficial, porém Ruxton falou rapidamente.
— Ouça-me — seu tom era de súplica — você conheceu Tex Lubin, ou melhor, você conhece o Tex. Por conseguinte, deve se lembrar de mim! Eu estava sentado no carro dele quando ele parou para o cumprimentar. Você deve ter me visto.
— Tex diz-me sempre “alô” — declarou Cassidy. — E o carro dele estacionava ali a maioria das vezes. Por que haveria eu de olhar para dentro do carro? Se conhece o Tex tão bem, onde esta ele? Não o tornei a ver desde aquela noite.
As sobrancelhas de Brady soergueram-se. As peças do quebra-cabeças começavam a juntar-se. Tex Lubin era o único homem no mundo que poderia provar o álibi de Hype — e Tex Lubin desaparecera!
Por isto, Hype Ruxton foi preso por causa do assassinato de Epworth, sempre afirmando sua inocência. O Inspector Brady contou a história toda ao comissário.
— Continuo a pensar que alguém quis comprometer Ruxton. Este caso tem todos os indícios de um plano. Estou convencido de que Hype foi passear com Tex Lubin na sexta-feira, conforme afirma. Entretanto, na sexta-feira à noite, Hype Ruxton não queria ser reconhecido! Mas agora, que está desesperadamente a procura de um álibi, espera que alguém o tenha reconhecido e não consegue.
— Por que estaria a tentar não ser reconhecido? — perguntou o comissário, — Visto que a sua única “chance” de escapar agora é encontrar Lubin?
— Nós encontraremos o Lubin. — declarou Brady — Penso que Ruxton afinal deixou escapar o seu segredo. Mais tarde, conto-lhe.
A guarnição da rádio-patrulha de Brady levou três dias para encontrar Tex Lubin trancado no seu carro, no fundo de uma pedreira fora da cidade. Quando o inspector contou isto a Hype o homem perdeu o controlo.
A confissão esclareceu tudo, numa das coincidências mas extraordinárias dos anais da polícia. Hype atraíra Tex Lubin para a morte na mesma noite em que os inimigos de Hype — membros de um “gang” rival — haviam urdido um esquema para o comprometer no assassinato de Epworth! E Hype tinha assassinado o único homem capaz de provar o seu álibi!
A situação na qual se encontrava agora não lhe proporcionava nenhuma defesa possível. Fosse o que fosse que alegasse para livrar-se de um assassinato, provaria que era culpado do outro!
O maior e melhor advogado do mundo não poderia salvar Hype Ruxton desta vez!

2 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 246

Efemérides 2 de Setembro
Chris Kuzneski (1969)
Nasce em Indiana, Pensilvânia, EUA. Escritor de sucesso, de thrillers/aventura, tem os seus livros traduzidos em mais de 20 línguas. Publica o seu primeiro romance, The Plantation em 2002, seguindo-se: Sign Of The Cross (2006), Sword Of God (2007), The Lost Throne (2008), The Prophecy (2009), The Secret Crown (2010) e The Death Relic (2011). Em Portugal está editado:
1 – Sinal da Cruz (2008) Editora Millbooks. Título Original: Sign Of The Cross (2006).



TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR? COMO? — TRADIÇÕES 
O mundo bíblico segue-se à tragédia dos Atlantes…

Do ano 600 da vida de Noé, as comportas do céu abriram-se, a chuva caiu na Terra quarenta dias e quarenta noites. Todas as montanhas sob os céus ficaram submersas e assim pereceu toda a carne que se movia na Terra
Era o grande Dilúvio!
Em cada rincão da Terra onde se guardaram recordações, antigas tradições, se encontram narrativas da grande inundação. Em todas elas, ainda que sob nomes locais, se evidencia um Noé, não sendo coincidentes nem os motivos da escolha dos sobreviventes, nem a duração da catástrofe. Tudo indica que houve adaptações impossíveis de classificar.
Na bíblia é o resultado de um julgamento de Deus sobre o comportamento dos homens que criou. São quarenta dias e noites de chuva; sobreviventes Noé e família, um outro casal e sete machos e sete fêmeas de todos os animais limpos.
Na narrativa egípcia representa a irritação do deus do céu, do qual os homens pensavam “coisas malévolas”, por já ser velho, e que a conselho de outros deuses, sobretudo do deus das águas, Nun, decidiu recorrer aos préstimos da deusa Hathor, a vaca do céu.
Para os sumérios e babilónicos, uma terrível tromba de água ergueu-se até ao céu; escaparam da tragédia Xisuthros ou Khasistrata, com a família, amigos e animais, quando a barca encalhou nas montanhas de Gordyene, na Arménia.
Segundo os documento assírios a catástrofe durou apenas seis dias e seis noites… “os cadáveres flutuavam como algas…” "; o herói foi Ubaratutu que com os seus familiares foi para o monte Nizar.
Na tradição grega com água a sair da terra e o mar a sair do seu leito “durante nove dias e nove noites, enquanto na grande arca Deucalião, a mulher Pirra, os filhos e animais terrestres aguardavam que aquela encalhasse no Monte Parnaso.
Da Índia conhecem-se várias versões, nas quais os sobreviventes teriam sido Nanu e outros sete, avisados por um peixe considerado como a metamorfose de Vishnu, ou Satyrawata.
Na lenda galesa salvaram-se Dwyfan e Dwyfach da inundação causada pela erupção do Llynllion, o Lago das Ondas. Mas na Irlanda a catástrofe foi extensa, durante sete anos a meio um barco sobreviveu com a rainha Ceseair e a sua corte, sendo a Terra inabitável durante duzentos anos após Dilúvio.
As águas e o vento duraram doze dias e doze noites para os tibetanos, sobrevivendo alguns casais e animais no alto de uma montanha, sendo daí salvos quando as águas atingiram o pico, numa casca de noz gigante atirada pelo Ser Supremo.
Bergalver e a mulher são os sobreviventes na tragédia norueguesa, quando o fogo chegou do próprio céu, as serpentes agitaram os oceanos, a Terra escureceu.
Na zona da América do Sull encontram-se díspares versões: para os astecas e toltecas, a inundação durou cinquenta e dois anos, salvaram-se Coxcox ou Tezp ou Teocipacti, com mulher e filhos numa grande jangada; os chichimacos falam de um tronco de árvore escavado que salvou Xochiquetzal; oS Malas salvaram-se em cavernas profundas, os Incas escalando os Andes.
Os índios hurão da América do norte recordam que a tragédia durou vários meses, enquanto o grande pai das tribos aquietava os indisciplinados animais que ameaçavam tombar a grande jangada.
As tribos Sioux, Hopj e Chickasaw salvaram as espécies em grandes canoas.
Para as tribos que habitavam o actual Brasil, guarani e tuscarora, as palmeiras foram a grande salvação.
A mitologia chinesa, recorda que “as colunas do céu quebraram-se”, “a terra desfez-se” e o “sistema do Universo ficou desconjuntado”.
Não é fácil definir, face a estes e outros relatos conhecidos, se as descrições se reportam ao mesmo Dilúvio referenciado na Bíblia
 Platão nos seus escritos avisou:
“lembrai-vos apenas de um Dilúvio,
Quando houve muitos dilúvios…”
Os estudiosos apontam que, àparte pequenos e localizados dilúvios teria havido, pelo menos, cinco de elevada intensidade: dois originados pela fusão dos gelos da Antárctida e três outros pelo Pólo contrário a este.
Seja como for, o Dilúvio Bíblico, o chamado Dilúvio Universal, é o mais invocado na memória humana e, presentemente, poucas dúvidas restam quanto à sua realidade.
Em 1872 decifraram-se as tabuinhas cuneiformes provenientes das escavações de Ninive, pelas quais se conclui que os Assírios tinham conhecimento directo do Dilúvio. Os descobrimentos de Siper e Nipur evidenciam, por sua vez, um relato de um escriba da Babilónia, que remonta ao Século XVII a.C. que se lhe refere.
Em 1914, um assiriólogo decifrou novos escritos, pelos quais prova que o episódio do Dilúvio já era do conhecimento dos sumérios há 4000 anos antes de a Bíblia haver sido escrita, e remete ao início do III Milénio a. C. a sua efectivação. Nesta descrião, que abrange trezentas linhas, Noé é representado por Ziusudra, a quem um deus preveniu:
“… um dilúvio vai invadir os centros de culto,
Para destruir a semente do género humano…”
As provas acumuladas sobre o Dilúvio, este fim do mundo bíblico, são bastante convincentes. Sobre ele um historiador americano reuniu cerca de 80000 (oitenta mil) obras literárias em setenta de dias línguas diferentes!
Para muitos arqueólogos, as escavações na Mesopotâmia permitem revelar restos da civilização suméria abaixo do nível de uma camada de lodo de três a cinco metros de espessura, denunciadoras de inundações tremendas, o que nada têm a ver com os vestígios das mais recentes dinastias.
É pois natural, que o mito tão profundamente enraizado na memória dos povos se apoie num facto real.

1 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 245

Efemérides 1 de Setembro
Arthur Upfield (1890 - 1964)
Arthur William Upfield nasce em Gosport, Hampshire, Inglaterra. Em 1910 vai para a Austrália onde fica a viver. Naturaliza-se australiano e torna-se especialista em cultura aborígene australiana. Escritor policiário, é o criador do detective Napoleão Bonaparte da polícia de Queensland, que surge em 1928 em The Barrakee Mystery, também editado com o título The Lure Of The Bush e protagoniza 29 romances do autor. Arthur Upfield escreve ainda mais 6 romances fora desta série e The Murchison Murders (1934), um livro de crime real. Em 1987 H. R. F. Keating inclui The Sands of Windee (1931), na sua lista dos 100 melhores livros de crime e mistério. The Sands of Windee, o 2 livro da série Bonaparte, é uma história de crime perfeito, onde o autor inventa um método para destruição de todas as provas.

Roderick Thorp (1936 – 1999)
Roderick Mayne Thorp nasce em Nova Iorque. Em jovem trabalha na agência de detectives do pai, publica o primeiro romance policiário em 1961. Cria a série Joe Leland, com 2 títulos publicados: The Detective (1966) e Nothing Last Forever ou Die Hard (1979), que são os seus romances mais conhecidos, devido à adaptação a filme: O Detective e Assalto ao Arranha Céus.


TEMA — MISTÉRIOS E CRIMES DA HISTÓRIA — OS SUPLÍCIOS DO MAGNICIDA
Sua Majestade, o Rei Luís XV, o Bem-amado, recebeu uma canivetada pela ilharga. O ferimento foi leve, mas causou grande escarcéu. Obra dum magnicida chamado Damiens. Pelas 6 horas da tarde de 5 de Janeiro de 1757, o monarca saía de Versalhes para o Trianon, onde devia dormir, quando, ao pisar o último degrau da escadaria dos Guardas para tomar a carruagem, um homem que ocultava o rosto com o chapéu bem enterrado na cabeça correu sobre ele e deu-lhe um encontrão.
— Duque de Ayen — disse o Rei ao camarista que o acompanhava — levei um soco.
E, imediatamente, levando a mão ao flanco e retirando-a cheia de sangue, acrescentou:
— Fui ferido! Agarrem o homem, mas não o matem!
O homem, que rompera o cordão de guardas, foi agarrado. Luís XV subiu sozinho a escadaria e recomendou que chamassem um confessor e um cirurgião. Houve grande confusão. Não havia nada preparado para atender a semelhante circunstância. Improvisou-se um leito, um médico qualquer lavou a ferida até que chegasse o assistente do soberano, Lamartiniére, que a sondou e a declarou sem perigo. Salvo se a arma estivesse envenenada. Sangraram, pois, Sua Majestade, como era de uso na época. O Rei confessou-se e fez recomendações ao Delfim, que lhe devia suceder no trono. Passou alguns dias de cama, depois restabeleceu-se com rapidez e voltou à vida de sempre.
O atentado causou espanto no seio do povo, que, apesar de tudo, amava o soberano. Escreve um cronista que houve “consternação geral e muitas pessoas derramaram lágrimas. Mais do que amor, adulação!” O Marquês de Argenson pinta, a propósito, a agitação da corte. Enquanto isso, o quase regicida jazia na prisão, onde o viu o Duque de Croy, que desta forma o descreve: “Homem bastante bonito, de olhos fundos, nariz grande de tez colorida pela febre das suas queimaduras”. É que já lhe haviam queimado a sola dos pés e as pernas, a fim de fazê-lo confessar se tinha cúmplices. Media seis pés e seis polegadas de altura, os cabelos eram castanhos, as pernas fortes e os braços musculosos. Boa presença. Falava suavemente.
Inquirido e reinquirido, não se tirou dele outra confissão dos motivos de seus actos senão
— Foi por causa da religião.
Acrescentava que o reino e o povo desgraçando-se e o monarca sem atender a nenhuma reclamação. Todas essas declarações eram vagas e arrancadas a poder de tormentos. Damiens sofria calado. A Polícia apurou que viera de Arras, tendo chegado a Paris no dia 31 de Dezembro de 1756 e hospedara-se num albergue da Rua Mazarina. Divertira-se com algumas raparigas alegres da Rua Gilles-Coeur. As autoridades consideravam-no instrumento de vasta conspiração, à qual não deveriam ser estranhos os jesuítas perseguidos pelo Ministro Choiseul. Mas ele jamais cedeu nesse ponto, afirmando que actuara sozinho e por sua livre vontade, sem cúmplices ou mandantes.
Transferido da prisão de Versalhes para a Conciergerie em Paris, foi metido na cela que Ravaillac, o assassino de Henrique IV, ocupara. Escoltado por mais de 800 soldados, mal podendo mover-se pelo peso das correntes, atravessou a cidade de carruagem por entre a multidão curiosa, apesar do frio e da hora — duas da madrugada. Na masmorra circular, iluminada por duas altas frestas duplamente gradeadas na espessura da parede, amarraram-no com um complicado sistema de correias a um leito de colchões, de modo a impedir qualquer tentativa de suicídio. Aplicaram-lhe várias vezes horas seguidas a tortura chamada do borzeguim, que acabava inutilizando as pernas do paciente, sem nada conseguir. Ele resistia, portando-se com extraordinário sangue frio. Dizia mesmo piadas. Depois, contava anedotas aos guardas. Respondia a todas as perguntas com a maior presença de espírito.
A execução de Damiens foi um espectáculo medonho, uma exibição de crueldade sem par. Convocaram os carrascos de vinte cidades para o devido preparo das tenazes, das caldas ardentes a serem deitadas nas feridas, dos cavalos e material do esquartejamento e da fogueira final. A hedionda tarefa realizou-se na Praça da Greve, cercada de cordões de tropas. Incalculável multidão grulhava em torno. As janelas do casario em volta, alugadas por alto preço, estavam cheias de damas e cavalheiros. Havia gente pelos telhados.
Depois de despirem o infeliz e lhe mostrarem um por um os instrumentos dos suplícios, descrevendo minuciosamente seus efeitos, prenderam-no com cordas e cintas de ferro, de costas, sobre um estrado de madeira. Primeiramente queimaram devagar com enxofre a sua mão direita, tendo nela preso o canivete com que ferira o Rei. Dizem as crónicas que soltou um verdadeiro urro, depois calou-se e ficou a olhar para a mão queimada. O Doutor Cabanés vê nisso “uma espécie de analgesia, de semi-anestesia, própria dum carácter nitidamente anormal ou, melhor, patológico”. Continuou impassível quando o carrasco de Orleães, sob a direcção do de Paris, começou a atenazá-lo nos braços, nos seios, nas pernas e nas coxas; mas, quando o de Lião ia derramando nos profundos talhos abertos azeite a ferver, pez com resina, ou chumbo derretido, soltava berros fortes e rápidos. Calava-se em seguida e ficava a olhar as partes torturadas de seu corpo. Não demonstrava a menor impaciência, afirma uma testemunha ocular.
Seguiu-se o esquartejamento destinado aos parricidas e aos regicidas que lhes eram assemelhados no direito penal antigo. Teve os braços e as pernas amarrados por fortíssimos tirantes de couro a quatro cavalos. Os animais, chicoteados furiosamente pelos algozes, puxavam o corpo em sentido contrário, deslocando as articulações, pondo fora do lugar rótulas, cotovelos, ombros, cabeça dos fémures, sem conseguir, no entanto, romper o corpo, dilacerá-lo. Foi preciso cortar os nervos e tendões principais para facilitar a tarefa dos cavalos. O carrasco de Paris deu os cortes necessários e, assim, os membros foram arrancados. O autor dum relato contemporâneo dessa repugnante cena diz que Damiens vivia ainda, ao ser o seu tronco lançado às chamas da fogueira.
O Duque de Croy emitiu justo parecer sobre o infeliz Damiens. Era, na sua opinião, um desajustado, um louco, guiado pela vaidade e sofrendo a influência dos protestos que ouvia contra o soberano e que lhe viraram a cabeça. Desde a meninice, tinha sido atrabiliário e perigoso. Julgava-se destinado a emendar o mundo. Vivia sempre descontente. Tinha de quando em quando crises de exaltação que só passavam com doses de ópio ou sangrias. Durante as mesmas era capaz de todas as violências.
Conta o Doutor Cabanés, de acordo com os documentos do processo, que Damiens estava justamente sob o império duma dessas crises quando feriu o Rei. Na véspera do atentado, ele pediu à Senhora Fortier, proprietária do albergue onde se hospedara, que chamasse um cirurgião para sangrá-lo. Ela achou melhor dar-lhe um bom copo de vinho. Depois de praticar seu acto temerário, o desgraçado exclamou que se o tivessem sangrado a tempo, aquilo não teria acontecido. Aconteceu e ele foi submetido aos mais hediondos suplícios.



TEMA — CONTO — UM CASO BASTANTE ESTANHO
De Fernando Saldanha

Sobranceiro ao rio havia um antigo solar em ruínas que há muito não era habitado.
Pertencia a uma nobre família beirã e nem mesmo os homens mais velhos das redondezas se lembravam de ver alguém nas suas salas enormes ou nos vastos jardins, onde apenas cresciam as ervas daninhas e uma ou outra árvore secular se conservava.
 Era crença entre o povo que, altas horas da noite, os fantasmas povoavam os parques desertos e passeavam por toda a casa, afirmando serem os espectros de dois antigos senhores do solar das Torres.
Certo dia…
 Um homem, novo ainda, trajando à caçador, da arma a tiracolo, aproximou-se do rio e, reparando na velha casa, acercou-se dos portões…
Fez minuciosa investigação, em redor dos muros desmoronados, contemplando demoradamente as janelas cerradas com as vidraças partidas… talvz espreitando qualquer sinal de vida.
— Oh, oh! — murmurou — Parece que é mesmo o que me convém!
Sem fazer cerimónias, galgou a vedação.
Já nos jardins da casa da Torre seguiu decididamente pelas áleas desertas onde só a vegetação espontânea vivificava tomando conta dos caminhos outrora cuidados.
Chegando junto à entrada não se deteve muito tempo frente às portas cerrada. Meteu os ombros… e mais não foi preciso: a madeira apodrecida, cedeu, franqueando-lhe o acesso.
No átrio apenas existiam um corroído cabide e duas cadeiras sem fundo… Sobre o sobrado, nas paredes e no tecto, camadas de poeira a tapar tudo, levantando nuvens espessas a cada passo que arriscava.
— Livra! — bradou o nosso homem recuando ante o ataque secular de pó — Isto nem para fantasmas!
Porém, não desistiu. Avançou mais cautelosamente, a proteger-se conforme podia, principiando a visitar a casa.
O andar térreo estava quase desprovido de mobiliário, sendo evidente que somente tinha ficado os trastes velhos, O andar superior apresentava-se, contudo, em muito melhor estado, havendo em alguns quartos bastante mobília.
Finalmente, chegou à parte principal do edifício: uma Torre circular que tinha acesso por uma escadaria de mármore.
Subiu resolutamente.
Grande surpresa o aguardava: encontrou-se numa sala majestosa ricamente mobilada. Em todo o aposento havia um cheiro característico e desconhecido…
Assombrado, notou que tudo estava num estado de limpeza satisfatório. A um canto uma mesinha redonda sobre a qual repousava um livro, tendo perto duas poltronas, despertou-lhe fortemente a atenção.
Acercou-se…
Na encadernação primorosa sobressaiam a letras douradas os seguintes dizeres: Manuela Almada Torres, o meu diário.
Pegou no livro e ficou estarrecido; na última página escrita leu: Torres, 29 de Outubro de 1929.
Céus! Aquela data… mas… então o solar era habitado! Aquele dia antecedia em 24 horas a actual época!
Num sobressalto o nosso herói olhou em volta. A quietude que reinava em toda a casa não foi de molde a tranquilizá-lo e, antes de ler os restantes dizeres, tirou a arma do ombro colocando-a defronte de si, em cima da mesa.
Só então olhou a escrita.
“Fui avisada de que alguém viria à velha torre. Ao desconhecido, seja quem for, quero pedir um favor que, uma vez realizado libertará para sempre o meu espírito escravizado há um século, desde o dia trágico de 29 de Outubro de 1829.
Se quiser ficar na posse de uma das maiores fortunas da Bretanha, deve fazer o seguinte:
Queimar todas as folhas deste diário até chegar à data indicada acima.
Depois de tornar a colocar o livro no lugar onde se encontra, aguarde nesta sala as 12 badaladas da meia-noite.
Ao soar a última pancada um homem entrará e sentando-se numa cadeira há-de ler este mesmo diário. Não se assuste: o recém-chegado não poderá vê-lo. Ele apenas cumpre uma terrível maldição: ler pelos séculos fora, todos os dias ao soar a derradeira pancada da meia-noite, as páginas deste livrinho pertença de sua mulher a quem barbaramente assassinou na data fatídica de 29 de Outubro de 1829.
Após isto ele dirigir-se-á para a capelinha do parque. Siga-o. E… eis o principal — deve ajudá-lo na tarefa em que se empenhar.
Mas note bem: sem a sua actuação nada poderá acontecer. Da sua acção dependerá encontrar um cofre com jóias. É a minha recompensa por me libertar de anos sem conta, através dos séculos, ser obrigada a levantar-me datumba sem descanso, escrever estas páginas durante noites sem fim…”
Enquanto lia, o aventureiro chegou a sentir arrepios. De repente riu-se de si próprio e soltou uma gargalhada:
— Oh, oh!,— disse entre dentes — Algum engraçado quer divertir-se à minha custa!
Resolveu tomar parte na brincadeira. Fez o indicado na carta singular. As horas passaram…
Instalara-se o melhor possível, na sala iluminada por dois cotos de vela que encontrara e de arma carregada, esperou…
Sonora, lúgubre, a última pancada da meia-noite soou. Um estranho pressentimento avisava-o que algo iria passar-se. Então qualquer coisa sinistra e apavorante aconteceu.
A porta abriu-se e um vulto coberto de roupagens exóticas entrou no aposento num andar cadenciado, sem que os seus passos se fizessem ouvir dirigindo-se para a mesa onde repousava diário…
O nosso homem passado o primeiro momento de assombro, recompôs-se.
— Alto lá! — disse com espantoso sangue frio, apontando a arma. — Quem quer que é o senhor, faz favor de ficar quietinho!
Porém o recém vindo, que aliás, nada tinha de humano, pareceu não dar por nada… com ar cansado e tendo nas feições cadavéricas uma palidez mortal, sentou-se numa poltrona, tomando o livro e abrindo-o com movimentos lentos e arrastados.
O nosso herói estava varado. Quase se convencia da existência de fantasmas…
Viu emocionado, que o homem ou o espectro, ou lá o que era, teve um gesto de surpresa ao deparar com as folhas do diário. Primeiro ficou indeciso. Depois, febril, desfolhou o manuscrito com incrível rapidez. Por fim quedou-se.
Seguidamente, o duende levantou-se, correu para a porta e… desapareceu. Quando o aventureiro surpreso e inquieto se acercou da saída, já o não descobriu.
— Bom… bom! — Rosnou para consigo. — Isto não está nada agradável. Vamos seguir as instruções do livrinho a ver o que isto dá… e se encontrasse o tesouro? Mas pode lá ser uma coisa destas!
Levou uma vela consigo e sem largar a espingarda chegou aos jardins.
A capelinha lá estava… tendo a porta aberta.
O nosso homem entrou resolutamente. Assombro dos assombros: o estranho personagem tentava forçar a tampa dum jazigo ali existente.
Então, se bem que não acreditasse em nada daquilo, resolveu seguir as instruções do diário.
Colocou a vela num ponto alto.
Surgia porém, uma dificuldade: não queria, de maneira alguma aproximar-se…
— Ah, não, senhor fantasma! — disse alto — Assim não! E vejo que não conseguirá o que pretende: se quiser que lhe dê uma ajudazinha tem de ter a bondade de afastar-se um pouco, sim?
Ainda desta vez o personagem não pareceu ouvi-lo, continuando na sua tarefa…
— Bom, isto torna-se difícil: é preciso proceder da melhor maneira…
Pôs a arma à cara. Assestou-a contra um orifício que lhe pareceu ser a fechadura e cautelosamente, embora quase estivesse convencido de que o estranho indivíduo não poderia ser atingido, disparou.
A detonação foi ensurdecedora, A chamazinha da vela alongou-se devido á deslocação do ar… quando o aventureiro já admitia a hipótese de ficar nas trevas, a luz, como por encanto, resistiu.
A tampa cedera.
Passou-se então una cena incrível: o fantasma, pois certamente o era, pelo menos assim o julgava o nosso homem, penetrou no jazigo espaçoso chegando junto duma urna abriu-a.
Que iria acontecer?
Viu o espectro inclinar-se sobre um cadáver singularmente bem conservado e… coisa espantosa: arrancou-lhe um refulgente punhal que tinha cravado no peito.
Um estremecimento sacudiu aquilo que lhe parecia um corpo de mulher e, quase louco de terror, viu o espectro ajoelhar, a implorar.
Horrível gemido, arrancado das profundezas do jazigo chegou até ele e julgou ouvir palavras de perdão:
— Dorme em paz, Jacinto! A minha alma já te perdoou…
Pareceu-lhe ver também o fantasma abraçar-se ao cadáver e, com um ruído medonho, a tampa da urna fechou-se sobre aquele amontoado sinistro da espectros…
Horrorizado ante um pavoroso estrondear que aumentava de intensidade de momento a momento, o nosso herói safou-se por fim.
Nessa mesma altura a estrutura secular da pequenina capela ruiu com estrondo e as suas apodrecidas paredes caíram uma por uma… até tudo ficar reduzido a um montão de ruínas.
Era o fim.
Mas sobre o amontoado dos sagrados destroços, um cofrezinho com a imagem de Jesus Cristo feriu-lhe a vista, milagrosamente intacto…
… A provar-lhe, com as ricas jóias que encerrava, que tudo aquilo não fora um pesadelo da sua imaginação exaltada!