28 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 302

Efemérides 28 de Outubro
Anne Perry (1938)
Juliet Marion Hulme nasce em Blackheath, London, Inglaterra. Em criança tem tuberculose e por isso a sua família decide mudar-se para as Caraíbas, África do Sul e por fim, quando Juliet tem 13 anos, para Christchurch na Nova Zelândia. É aqui que dois anos mais tarde é condenada a uma pena de prisão, por se envolver com uma amiga no assassinato da mãe desta. Cumprida a pena, fixa-se nos EUA onde se torna numa escritora de sucesso com a publicação de romances policiários históricos, sob o nome Anne Perry, a sua nova identidade. Desde 1979, altura da publicação do seu primeiro livro, The Carter Street Hangman, a escritora tem-se dedicado à escrita em exclusivo e conta, actualmente, com uma obra literária muito vasta, a maioria com a Londres pré-vitoriana e vitoriana, como pano de fundo.
A série Thomas Pitt — com 27 títulos, e o 28º agendado para 2013 — e a série William Monk — com 18 títulos — são sem dúvida as séries mais famosas de Anne Perry, mas a autora escreve também a série Christmas Stories (19 títulos), The World War I (5 títulos) — e tem ainda publicados mais de duas dezenas de romances policiários diversos. A autora tem sido nomeada para alguns dos mais prestigiados galardões da literatura policiária.
Anne Perry vive actualmente em Portahomack, na Escócia.
Em Portugal estão editados:
(Actualizado/rectificado em 4 de Fevereiro de 2014)

1 – O Mistério Do Beco Sem Saída (1999), Nº83 Colecção Vida e Aventura,  Livros do Brasil. Título Original: The Pentecost Alley (1996). É o 16º livro da série William Monk. 
2 – A Mansão De Ashworth (1999), Nº85 Colecção Vida e Aventura,  Livros do Brasil. Título Original: The Ashworth Hall (1997). É o 17º livro da série William Monk.
3 – O Rosto De Um Estranho (2001), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: The Face Of A Stranger (1990). É o 1º livro da série William Monk.
4 - Um Luto Perigoso (2002), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Dangerous Mourning (1991). É o 2º livro da série William Monk.
5 – O Estrangulador de Cater Street (2002), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: The Cater Street Hangman (1979). Reeditado em 2013 pela Edições Asa com o Nº2 da Colecção Crime à Hora do Chá. É o 1º livro da série Thomas Pitt.
6 – Defesa E Traição (2003), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Defend And Betray (1992). É o 3º livro da série William Monk.
7 – O Mistério De Callander Square (2003), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Callender Square (1980). É o 2º livro da série Thomas Pitt.
8 – O Crime De Paragon Walk (2004), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Paragon Walk (1981). É o 3º livro da série Thomas Pitt.
9 – Uma Morte Súbita E Terrível (2004), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: A Sudden, Fearful Death (1993). É o 4º livro da série William Monk.
10 – Um Morto A Mais Em Resurrection Row (2005), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Resurrection Row (1981). É o 4º livro da série Thomas Pitt.
11 – Os Segredos De Rutland Place, (2006), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Rutland Place, (1983). É o 5º livro da série Thomas Pitt.
12 – Os Pecados Do Lobo (2006), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: The Sins Of The Wolf (1994). É o 5º livro da série William Monk.
13 – Caim Seu Irmão (2007), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: The Cain His Brother (1995). É o 6º livro da série William Monk.
14 – O Cadáver de Bluegate Fields, (2008), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Bluegate Fields (1984). É o 6º livro da série Thomas Pitt.


Henrique Nicolau (1941 - 2012)
António Damião nasce em Pocariça, Alenquer. Realizador de filmes publicitários, documentários em cinema e televisão, realizador do programa televisivo Ensaio e da curta-metragem Talvez Amanhã (1969) assistente de realização de António de Macedo, José Fonseca e Costa, António da Cunha Telles e Pierre Kast entre outros; co-guionista dos filmes Off (1994), de Ruy Guerra, e de Água na Fervura (1995), de José Pedro Andrade dos Santos. Usa o pseudónimo literário Henrique Nicolau para e escrita de romances policiários. O seu primeiro livro O Trabalho É Sagrado (1985) ganha o prémio Editorial Caminho de Literatura Policial e em 1992 ganha o prémio e Repórter X atribuído pela Associação Policiária Portuguesa a Todos e Nenhum. Bibliografia do autor:
1 – O Trabalho É Sagrado (1985), Nº18 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Sinopse (Clicar)
2 – A Escola Da Verdade (1986), Nº8 Colecção Horizonte Romance, Livros Horizonte.
3 – Na Boca Da Infância (1988), Colecção O Campo da Palavra, Editorial Caminho. Nota: Livro não policiário como António Damião.
4 – Alcança Quem Não Cansa (1987), Nº 60Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho.
5 – A Arca Do Crime (1988), Nº74 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho.
6 – O Assombrado (1988), Nº86 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Sinopse (Clicar)
7 – Uma Vida Em Beleza (1990), Nº112 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Sinopse (Clicar)
8 – Todos E Nenhum (1991), Nº126 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Sinopse (Clicar)
9 – Autópsia De Um Desatino (1992), Nº146 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Sinopse (Clicar)
10 – O Meu Nome Já Se Foi (1992), Nº12 Colecção Bolso Negro, Puma Editora.
11 – A Alpista Do Canário (1993), Nº15 Colecção Bolso Negro, Puma Editora.




TEMA — DIÁRIO DE UM ADVOGADO — A CONFISSÃO DO RÉU
O juiz disse em tom seco e rápido:
— Aproxime-se, para ser interrogado.
Tribunal de Júri, manhã de sol, de muito sol. A vida boiava em tanta claridade que poucos minutos antes um jurado, por sinal engenheiro, dissera ao oficial de justiça: — Dia de sol, dia de liberdade!
Esse jurado, que fizera justiça à liberdade, porque encontrara a sugestão no próprio sol, estava sentado, minutos depois, no banco reservado aos jurados. Acompanhava com atenção gulosa o espectáculo, que estava no interrogatório. Havia uma solenidade gorda no réu. No que dizia, no que fazia, no que sugeria. Mais no que sugeria. O seu tom de voz, de hesitante e tímido, cresceu, alargou, cobriu tudo enquanto olhava firme para o juiz de toga, para os juízes leigos e para o seu advogado espantado.
— Matei, sim senhor. Matei bem. Porque ele merecia morrer. Merecei morrer, sim, tanto como eu agora… Dizendo estas coisas, talvez mereça uma condenação dos senhores. Mas… isto não tem importância. O principal, senhor juiz, é que o matei. Se não matasse, não sei como poderia viver. Não, não vou dizer que estou arrependido. Seria mentira, nunca agi tão certo na minha vida. Fugi. Cheguei a casa… abracei os meus filhos. Beijei a minha mulher. Um beijo diferente. Beijo de macho. Beijo de homem. E a mulher, alvoroçada, sentiu no meu beijo… o crime. Ficou com medo no início. Depois… feliz, muito feliz. Ela sabia que eu não poderia beijá-la assim, amá-la como amei, enquanto o outro continuava a fazer o que fazia, a dizer o que dizia. Difamá-la, chamá-la de puta, senhor juiz! Chamar de puta a minha mulher, a mãe dos meus filhos, a minha mulher, a minha companheira de todos os dias, aquela que comigo passou fome, que comigo passou o diabo, que comigo tomou conta da loja, e, tudo… seu Doutor, porque ela quando era nova não lhe ligara, não o aceitou como noivo, seu Doutor. Chamá-la de puta para me forçar a ir ao encontro dele! Para me forçar a mostrar a todos e a ela que eu não era homem. Tinha razão o bandido porque… Seu Douto ! Não Doutor! Por amor de Deus, agora o senhor tem que me ouvir, quero lavar a alma, quero, preciso dizer tudo que está cá dentro a ferver, a matar-me… Porque, tinha razão ele, eu… passei a fugir dele! A evitá-lo… A fugir dele nas esquinas. Por isso, apesar de saber que a minha mulher não é, nunca foi o que aquele sem-vergonha dizia, eu… nunca mais pude fazer justiça na cama a ela, a mim, aos meus filhos, à Vida! Mas… quando, com a graça de Deus, enchi o coração, forrei a alma para o crime que eu tinha de praticar, para a Justiça que eu tinha de fazer, e que fiz, aí então ela, Maria, a minha mulher, sentiu na cama que o crime tinha vindo. Bem, senhor Juiz, era o que eu tinha que dizer. É verdade, peço desculpas ao meu advogado. Ele queria, recomendou que eu respondesse certinho como máquina. Não, não posso ser máquina. Devo ao crime não ser mais máquina.
Senti, do cantinho onde acompanhava tudo isso, com os olhos arregalados como todo mundo, que o jurado que saudara o sol e que o associara à Liberdade, sorriu um ponto final para dentro dele mesmo. Aquele réu podia ter infringido todos os tabus do Judiciário. Mas era o mais livre de todos nós.

27 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 301

Efemérides 27 de Outubro
Frances Crane (1896 - 1981)
Frances Kirkwood nasce em Lawrenceville, Illinois, EUA. Começa por escrever artigos no jornal The New Yorker — assina com o nome de casada Frances Crane. No final da década de 30 vive na Alemanha de onde acaba por ser expulsa devido às suas posições políticas. Divorcia-se e inicia-se na escrita policiária por necessidades económicas; casa com o escritor Norbert Davis — CALEIDOSCÓPIO 109 (Clicar). Inspirada por um acontecimento real, um assalto a uma joalharia, publica o primeiro romance em 1941 The Turqouise Shop, protagonizado por Pat Abbott e pela sua futura mulher, Jean. Em 26 romances da autora os Abbotts, uma dupla de detectives privados, desvendam crimes / mistérios entre 1941 e 1965; curiosamente cada um dos livros desta série tem uma cor no título. Frances Crane escreve ainda os romances Em Portugal The Reluctant Sleuth (1961), Three Days In Hong Kong (1965), A Very Quiet Murder (1966) e Worse Than A Crime (1968). Em Portugal está editado:
1 - Três Dias Em Hong-Kong (1968), Nº146 Colecção Grandes Mistérios, Edições Romano Torres. Título Original: Three Days In Hong Kong (1965).~



TEMA — SOCIEDADE — SE A ESPERANÇA MORRESSE
Por M. Constantino
Já não tenho esperança — ouve-se aqui e ali — mas aquele que o diz, aquele que, provavelmente, terá perdido a perseverança, a dedicação, a coragem para reagir ao naufrágio de todos os seus empenhos e ideais, num recanto escondido do seu íntimo, conserva ainda despojos sempre prontos a reavivar ao mais pequeno sopro, qual Fénix, a que imortal renascendo sempre das próprias cinzas.
Só o homem é capaz de esperar, porque, ser limitado e inteligente que é, jamais se acomoda à sua fronteira terrena; no ter, no ser, no viver, é constante a luta para se libertar dessa barreira, já que a esperança é um sentimento de tal modo profundo, que na sensação do confronto é como que a certeza da realização. Ter esperança é ter confiança.
A esperança é a varinha mágica de sábio, o ânimo do homem que trabalha, o engano de presunçoso e indolente, o lenitivo na dor, a promessa dos olhos que choram e do coração que padece, a riqueza de quem nada tem materialmente…
São muitas as esperanças que alimentam a vida de todos os dias, incertos e falíveis, é certo, porque não dependem apenas da vontade de quem espera, mas juntamente das circunstâncias várias e interesses alheios; nascem, nuvens em forma de sonho realizável cujos elementos constitutivos são a resolução inabalável do querer, a fé interior; e abre-se a horizontes ilimitados e a futuros e possibilidades imprevisíveis.
A esperança é a arma permanente ao nosso alcance: não há derrotas que não possam transformar-se em vitórias, não há desilusões que não possam ser passageiras, não há infortúnios sofridos que o apoio da força da esperança não mitigue ou vença… em tudo e para tudo, com excepção do incerto e derradeiro acto, há um novo amanhã… um horizonte de luz.
A esperança é absolutamente inseparável das realidades da vida e da força interior que nos sustenta em qualquer momento da capacidade de se opor a dúvidas e tentações sob pena de vermos naufragar ideias, fraquejar e ameaçar a nossa paz interior. Cada vez que o homem entra em desespero está a denunciar a sua impreparação, a antecipar levianamente a fragilidade da fé na esperança, a desfazer a plenitude do êxito ou felicidade só ao futuro reservada: Não podemos ter o que queremos no momento em que queremos.
A esperança humana afirma-se sob a acção vigilante da vontade imanente, virtude que mantém intacta através das contingências e vicissitudes da vida, a capacidade de sempre poder esperar mesmo contra toda a perspectivada impossibilidade.
Ao longo da terrena caminhada, às demoras, paragens necessárias: sombras que são benfazejas — aproveitai-as; água que é reconfortante — bebei-a; montanha ou abismo que vos vede — ultrapassai-os; mas o caminho deve prosseguir, a marcha impõe-se, a esperança aliviar-vos-á os passes.
A esperança não morre… deixa-nos à beira da sepultura, como a última e a mais fiel companheira.
Se a esperança morresse…
… o mundo seria aridez.
… revolvida pela tempestade do desalento…

TEMA — CONTO POLICIÁRIO NACIONAL — AJUSTE DE CONTAS
De Severina Fortes
Feliz pelo agrado que, a sua actuação despertara, Lucília sorria, ainda graciosa apesar de quase quarentona, segurando nos braços dois caniches e agradecendo reconhecida as palmas prolongadas do Público a darem-lhe tempo para apreciar o movimento rítmico das mãos a branquejar no gesto de aplaudir, contrastando com o fundo confuso, feito de meios tons.
A casa estava cheia. Envolvida pelo calor humano a artista vibrava atingindo o sentido do seu amor ao circo e o porquê de só nele se sentir bem, presa na magia dum encantamento. Maravilhava-a participar e exibir-se sob o efeito das luzes que realçavam os trajes escolhidos segundo a fantasia de cada qual; mas prestava verdadeira adoração à presença da massa indistinta de gente, à mistura heterogénea que reunia adultos e crianças de alma aberta ao riso, procurando a alegria e o sonho de mãos dadas, voltadas para o mesmo lado especial da vida.
Ao sair da pista, já no corredor de acesso aos camarins, ia contente pela própria coragem de se assumir e voltar a actuar no seu país. Queria sacudir o passado, pôr fim à inquietação que lhe ensombrava os dias — ainda mais as noites - dizendo “Basta!”. Cansara-se de ter medo, de se esconder atrás doutro nome, doutra nacionalidade, noutra terra. Precisava arrancar a garra do remorso por um crime hediondo, sim, mas que não cometera. Somente — e era tanto — anuíra calar, levada pelo estouvamento da idade, na miragem da promessa de amor que fora breve, paraíso ilusório tornado inferno.
Na euforia da conseguida emancipação moral — discutível, mas tão desejada — sentia-se feminina e leve no belo fato azul turquesa marchetado a prata que lhe adelgaçava a linha, evocando a esbelteza de outrora. Via-se remoçada, de tal modo que se atrevera a pôr a peruca de cabelo louro, comprido e liso, como usara na mocidade, a ressaltar a tiara prateada, sem lhe ocorrer como se assemelhava demasiado à jovem Lili, certa noite desaparecida e dada como morta, num fim trágico horrível.
Foi apenas ao inclinar-se para ajudar os cães a saltarem-lhe do colo, que viu Alberto Kurt à sua espera, reconhecendo-o de chofre, de todo desprevenida.
No impacto da surpresa, desmascarou-se.
Recuou precipitadamente não querendo encontrá-lo, desejando sumir-se, ou não ser ela quem estava ali. Gemeu como animal ferido ao julgar encontrar no fulgor do olhar dele a acusação directa pela sua cumplicidade no crime, por todo o mal que fizera para lhe fugir de vez, incapaz de se desmentir, fosse no que fosse. E ao ver a arma aparecer-lhe na mão adivinhou o termo dos seus dias e deu um grito gutural, alucinada pelo pavor que lhe apertava a nuca, com mão gelada, enquanto intensa contracção nervosa lhe arrepanhava o dorso, paralisando-a.
Nos breves instantes, em que Lucília deixara transparecer de forma tão clara a sua consciência pecadora, pela mente de Alberto Kurt desfilaram anos de tormento e mágoa, penando injustamente a morte daquela mulher.
Sentiu-se enojado por haver chorado a sua perda, e logrado por ter querido vingá-la, quando tinha sido ela a causadora do mal que o perseguia. Percebeu, arrependido, como fora louco ao casar com uma adolescente, sendo já homem maduro. Como se enganara!
Todavia não a obrigara, pelo contrário - Lili parecia adorá-lo! Talvez o artista e não o homem… Mas quisera acreditar nela: percebia agora que no íntimo gostar de acreditar. Sempre! Mesmo ao encontrá-la de novo estava pronto a crer, porque no fundo o amor é persistente, e ainda a amava!
Mas, de alma crispada, reconheceu a razão que instintivamente lhe assistira ao acusá-la de ser amante de Fred, o ilusionista. Como havia sido crédulo em não ter acreditado verdadeiramente…Só hoje lhe caía a venda dos olhos e podia ver aquilo que todos sabiam, no fim de contas. Corou de vergonha pelo riso que despertara ao gritar-lhe ameaças terríveis, lançadas para amedrontá-la, de todo incapaz de as concretizar.
Era lá possível lançá-la às feras…
Porém, não tinham rido ao apontá-lo como criminoso! E foram essas ameaças a base para a punição, ao ser considerado assassino, e condenado!
Perdera a liberdade até ao momento final da sentença, até ao instante em que o atiraram à rua — como se o houvessem alojado a título de favor e agora tivessem pressa de se verem livres dele.
Ficara só, atordoado, numa vida que desaprendera de viver. Agarrara-se ao desejo de vingança, à busca do verdadeiro culpado. Apenas essa vontade foi a amarra sólida que o prendera à vida e o ajudou a sobreviver.
Frequentava os circos. Procurava indícios, acreditando neles, disposto ao desforço, custasse o que custasse, confortado com o uso da arma que comprara na rua, a um qualquer, pronta a ser usada na altura precisa.
Então, quando já por vezes uma ponta de desespero se lhe insinuava, a querer mostrar-lhe as dificuldades da sua teimosia, minando-lhe o ânimo, ao assistir ao primeiro espectáculo da nova companhia circense, reconheceu a mulher julgada morta, actuando num número com os seus cães, usando até o mesmo estilo de fantasia.
Num espanto, tornado um pesadelo, perguntava-se:”Quem morreu?”
Nos escassos restos sobrados do sangrento repasto que alguém, matreiramente, oferecera aos cinco tigres (de que era domador), tendo ficado pedaços duma fantasia parecida com aquela que via agora na arena, e pertencente a Lili, fazendo crer a todos ser ela a vítima.

A enormidade da culpa dela explodiu-lhe no espírito, surpreendendo-o por inesperada. Se não morrera, como se pensara, onde estava nessa altura e porque não voltara para o ilibar?
Por uma vontade mais forte que a sua, desceu aos corredores do circo, ávido dum engano, querendo ver de perto a artista, desejando ardente mente encontrar uma estranha!
Esperou-a, mostrando-se abertamente, ansioso, pronto a duvidar e, quem sabe? a perdoar…
Desgraçadamente, ao ver-se reconhecido, teve a certeza que não queria — soube a verdade da sua desgraça!
Uma raiva surda o tomou, impelindo-o a vingar algo que não podia discernir bem: quer a sua vida truncada, a traição em troca de dedicação e amor, a desgraçada que morrera no seu lugar (atraída a um fim medonho), os seus tigres mortos imediatamente em retaliação (animais que domara laboriosamente e eram o seu ganha pão e estima), ou talvez só o recuo instintivo e depreciativo de Lucília, ao vê-lo!
Ah! Mas estava a tempo! Tinha-a à sua mercê…
Não lhe importava o que lhe sucedesse depois! Já passara por tudo, até mesmo os olhares hostis de gente curiosa, do mesmo bairro, e pronta a atirar a primeira pedra. Mas acusações, isso não…
A sentença tinha sido cumprida.
Como quem se liberta dum pesado fardo ao chegar ao fim do caminho Alberto Kurt reagiu e disparou a arma, sem mais considerações, não deixando de atirar enquanto teve balas no carregador.
Lucília caía, ferida da morte que não esperava, sacudida pela impulsão dos impactos, enrodilhada no belo fato que a denunciara -agora um trapo sujo e sem forma, esburacado e a empapar-se em sangue vivo como um berro obsceno…
Lá atrás, no anfiteatro, onde continuava o espectáculo, troava uma ovação que abafou o som dos tiros.

26 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 300

Efemérides 26 de Outubro
Vincent Starrett (1886 - 1974)
Charles Vincent Emerson Starrett nasce em Toronto, Ontario, Canadá. Novelista, contista, poeta, ensaísta, crítico, biógrafo, famoso coleccionador de livros sobre Sherlock Holmes, é um dos fundadores da Baker Street Irregulars, uma organização de fãs de Sherlock Holmes. Em 1929 inicia uma série Murder On “B” Deck com Water Grost como figura principal; em 1938 o personagem Riley Blackwood aparece em Midnight And Percy Jones. Tem uma série de excelentes contos personalizados por Jimmie Lavender, muitos deles publicados na pulp magazine Short Stories. A obra de Starrett mais famosa é The Private Life Of Sherlock Holmes (1933).



Charles B. Child (1903 - 1993)
Claude Vernon Frost nasce em Londres. Jornalista e autor policiário, escreve o primeiro livro, The Crime On The Heath, em 1937 que assina como C. Vernon Frost. Sob o pseudónimo Charles B. Child escreve vários contos protagonizados pelo Inspector Chafik J Chafik da polícia de Bagdad (ver TEMA); estes contos, cuja acção decorre sempre no Iraque — país onde o autor vive vários anos— começam a ser publicados a partir de 1947 na Colliers Magazine e são finalmente reunidos num livro publicado em 2002 com o título The Sleuth Of Baghdad. Em Portugal é possível encontrar registo do conto conto Matem Esse Palhaço! publicado em 1964, em 50 Gigantes do Conto Policial, nº6 da Antologia Policial de Ross Pynn.



TEMA — CONTO DE VINCENT STARRETT — LER NAS ENTRELINHAS
— É a letra dele, não tem dúvida — disse Jimmie Lavender. — A sua mulher assim o afirma, e o mesmo faço eu. Portanto trata-se de uma opinião unânime.
— Dodd acha que se trata de uma falsificação, apesar de tudo — observou Mack, o repórter do Departamento de Homicídio. — E uma pobre imitação do tipo de humor do Professor.
— Óptima imitação — volveu Jimmie Lavender — É claro que foi forçado a escrever.
— Isso é o que querem que se pense, de qualquer forma — disse o corpulento Mack.
Jimmie Lavender acomodou-se entre os travesseiros da sua cama de hospital e tornou a ler a carta.
— Ele procura dizer algo nas entrelinhas — murmurou Lavender. — Naturalmente não podia escrever: “Estou prisioneiro na Gooseberry Street, 1129. Apressem-se e venham salvar-me, pois de contrário dão-me cabo da pele”. Uns camaradas bastante espertos releram o bilhete antes de enviá-lo a Mrs. Buckner. E precisamos de sobrepujá-los em inteligência, a fim de descobrir o que ele está a tentar dizer.
Jimmie atirou a cabeça para trás, nos travesseiros.
— E eu preso aqui com uma apendicectomia. Vocês darão um jeito nisso?
Mack resolveu mostrar a sua solidariedade:
— Dodd achou que se alguém podia entender a coisa, esse alguém só podia ser você, pois conhece o professor Buckner muito bem, não é?
— Conheço-o o bastante para saber que não escreveu essa página de tolices apenas para brincar connosco. Leia em voz alta, Mack, talvez eu apanhe qualquer coisa.
O sorriso do detective da polícia encheu-se de malícia.
Querida — começou com exagerada emoção — esta serve apenas para te dizer que estou bem por enquanto. Mas não sei o que acontecerá se não seguires à risca as minhas instruções. É imprescindível que não leves esta carta à polícia, pois de contrário jamais me verás. E eles não brincam neste particular. Quero que tires um envelope azul do meu arquivo, sabes bem onde procurar, para mandá-lo via aérea ao endereço que te vou fornecer. Não te assustes. Como tia Bessie costumava dizer: “Colombo arriscou-se e eu farei o mesmo”. Falo em tia Bessie e na sua frase predilecta para te provar que esta carta partiu realmente de mim. Quero que também te arrisques, querida e mandes o envelope, o mais depressa possível. É a minha única esperança. Assim que for entregue serei posto em liberdade.
— E é tudo — disse Mack — com excepção do endereço, no México. Acha mesmo que vão levá-lo para o México?
— Absolutamente, — retrucou Jimmie Lavender— Matam-no assim que forem avisados que a carta aérea chegou. Mas é claro que ela não irá. O envelope azul deve conter a chave de uns planos já roubados. A mensagem para nós está contida nas linhas a respeito de tia Bessie e na alusão a Colombo. Creio que as linhas têm qualquer ligação com a linha anterior “o endereço que te vou fornecer.” Isso deve ter dois sentidos. Miss Buckner ficou tão assustada que quase não nos mostrou a carta. Mas não conseguiu encontrar o envelope azul e não sabia o que fazer.
— Talvez não exista nenhum envelope azul — volveu Lavender lentamente. Reflectia com profunda atenção. — Sim, talvez não exista nenhum envelope azul. Isso foi invenção dele para que lhe permitissem escrever a carta. Mrs. Buckner, nunca teve uma tia chamada Bessie.
— Nunca teve tia nenhuma que fizesse tal referência a respeito de Colombo. É por isso que acha que o Professor enlouqueceu.
— Louco como uma raposa…Talvez eu também esteja louco, Mack, mas… qual é o outro nome de Bessie? Betty, Betsy, Elizabeth, Lizzie…
— Elizabeth — murmurou Lavender. — Não é apenas o nome de uma mulher. É também o de uma rua. Aí está o ponto de partida para uma rua, Mack, tão certo como você tem um pé de altura!
O detective da polícia encolheu de ombros.
— Bastante forçado, não acha?
— Claro que sim. Porém é bastante simples também. O Professor estava a arriscar a vida, e sabia disso. E usou do máximo cuidado; mas tinha de nos dizer onde é que se encontrava.
— Ok. — concordou Mack com um sorriso. — Pode ser e não é difícil de experimentar. Mas há um mundo de casas na rua Elizabeth. Quem sabe se, dando o nome da rua, não nos deu também o número da casa?
— Claro que sim — retrucou Jimmie Lavender. — E escreveu-o bem debaixo do nariz deles. Há duas notas falsas naquela carta, tia Bessie e…
— Colombo! Ora, ora, vejam só
Jimmie Lavender tentou estender o braço, sentiu uma picada no abdómen e disse:
— Chegue-me aqueles cigarros em cima da mesa, sim, Mack? — Acendeu um deles, a sorrir muito satisfeito. — Escute, Mack, que data associa ao nome de Colombo?
— Oh, ohl — retrucou Mack, repentinamente, em voz baixa, lançando um olhar nervoso para a porta, começou a cantar Em mil quatrocentos e noventa e dois, Co-lombo navegou pelo mar azul. É isso mesmo, Mr. Lavender
— Pode ser — concordou Lavender. De qualquer forma vale a pena tentar. Precisamos fazer algo pelo Professor. Volte depressa para a Esquadra e passe pela rua Elizabeth 1492. Diga a Dodd que leve um esquadrão reforçado. Reclinou-se nos travesseiros, depois tornou a sentar-se. — E telefone-me assim que puder, Mack. Santo Deus! Eu preso aqui cama, e todo este rebuliço.
Durante muito tempo ficou deitado, serenamente. De repente o telefone à sua cabeceira tocou e, surdina.
Era Dodd, o chefe dos detectives, e por alguns instantes Jimmie pensou que o chefe estivesse embriagado. Depois percebeu que o homem cantava num tom baixo profundo, lembrando um comboio a chegar à estação de Madison e Wabash. Apanhou algumas das palavras:
e noventa e dois, Colombo navegou pelo mar azul. Em mil quatrocentos e novena…
Concluiu então que tudo estava bem com o Professor Buckner e com o envelope azul — se é que realmente existia tal coisa.




TEMA — UM PERSONAGEM DE CHARLES B. CHILD — O INSPECTOR CHAFIK
Inspector da Polícia de Bagdade, no antigamente, Chafik J. Chafik, era um homem delgado, baixo, muito moreno, olhos grandes cor de azeitona madura — em geral despidos de qualquer emoção, excepto para a família — maçãs do rosto pronunciadas, nariz fino e aristocrata de uma pessoa cuja história está enterrada sob a lama e pó da terra do seu nascimento, dedos finos, no dedo mínimo brilha um anel sinete, que por vezes roda impaciente. Vestia com discrição bum casaco branco, imaculado, leve e o chapéu preto cobria-lhe a cabeça de cabelos lisos, meticulosamente penteados, e usa gravata de borboleta. Mora na Rua dos Distribuidor das Bênçãos, é casado com a deliciosa e meiga Leila, de cabelos negros. Tem um filho adoptivo, o irrequieto Faisal, de que se orgulha muito.
Tem por ajudante, companheiro e braço direito o sargento Abdullah, um homenzarrão forte e destemido, fiel adorador do seu amo; de uniforme caqui, rosto como que esculpido em madeira, destituído de expressão, que arrasta a devoção a ponto de ficar, na noite escura no quintal da família Chafik, para caçar eventuais escorpiões e cobras que possam incomodar, se bem que o seu superior lhe faça sentir que “o tempo de escravatura já acabou”.
Chafik confessa-se “ como polícia no cumprimento do dever sou impuro e os meus ouvidos profanos”. Acha que “ não sendo um homem bom, Deus proteje-me por motivos insondáveis”. É diligente e eficiente, por vezes audaz em demasia na caça aos criminosos. Tem uma memória excepcional só compatível com um moderno computador, pois conhece de cor as fichas dos mais proeminentes habitantes, positivos e negativos, da cidade. Conhece o Alcorão que cita apropriadamente. Gosta de fumar e raciocinar em voz alta — de que se recrimina, por a sua língua “ser de uma criança tagarela”.



25 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 299

Efemérides 25 de Outubro
R. Barri Flowers (1956)
Ronald Barri Flowers nasce em Detroit, Michigan, EUA. Criminologista e escritor policiário tem duas dezenas de short stories publicadas e mais de 40 livros editados, entre criminologia, crime real, thrillers e police procedural. O escritor utiliza também o pseudónimo literário Devon Vaughn Archer. É o criador dos personagens Leila Kahana e Skye Delaney, é um autor de diversos bestsellers e tem recebido vários prémios ao longo da sua carreira literária.



TEMA — AMORES CONTRARIADOS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL (3) — PEDRO E INÊS
Não têm faltado representações literárias e outras, sobre o drama do Infante D. Pedro, mais tarde El-Rei D. Pedro I de Portugal e D. Inês de Castro. Muito se tem explorado o evento, entrando por caminho de lenda ou cenários irrealistas quase sempre no sentido delineativo dos factos. Poucas vezes se admitiu, frontalmente, que o Infante D. Pedro, filho de D. Afonso IV “o muito poderoso D. Afonso, muito temido e de grande poder”, que reinou em Portugal por 37 anos, tivesse sido uma vítima de excessiva rigidez do poderoso soberano.
Os arranjos políticos que, como ainda hoje sucede, se transformam em comprometimentos e que naqueles tempos começavam invariavelmente por casamentos de interesse, reservou ao Infante uma menina insignificante, doente, pálida e franzina, Branca de Castela, quando ele não completara oito anos e ela sete. Em cerca de quinze anos, por imbecil e sem préstimo foi reexpedida com o seu dote à corte de Castela, sem consumação do casamento. Já desquitado, Pedro vê-se casado com D. Constança, uma esposa repudiada de Afonso XI, que casara igualmente por conveniência e acabara por encerrar a noiva num convento. Estava-se em 1336, ela tinha 23 anos e ele 16; o casamento fez-se por procuração em Évora, mas a noiva só foi autorizada a vir para Portugal quatro anos depois. Qual seria a reacção do Infante D. Pedro perante estas decisões que o tocavam de perto e para as quais não era consultado? É natural que tivesse curiosidade. Não é de crer que houvesse antecipada antipatia, até porque D. Constança era uma mulher de 27 anos, temperada pelo sofrimento e até com certa beleza, que via em Pedro o Príncipe dos seus sonhos alto, desenvolto, larga fronte coroada de anelados cabelos louros, barba sedosa e dourada, faces claras róseas, onde brilhavam olhos negros, profundos e cismáticos mas defendia-se de uma familiaridade que não sentia e se consolidaria, sem saber porquê, numa muralha invisível. Constança amava-o sossegadamente, mas o seu ídolo consome as horas dela esquecida na caça ou na lembrança, cada dia mais activa, de uma certa donzela do séquito da esposa: D. Inês de Castro.
Esta, é uma jovem de dezoito garridas Primaveras que lhe traz recados da ama e cuja voz é música para Pedro, que quando levanta inadvertidamente o olhar cora de embaraço mostrando uns olhos verdes transparentes, cristalinos, em que apetece mergulhar em busca de frescura como que num lago verde em tarde de calmaria. Tudo nela parece perfeito, o rosto oval, epiderme de leite e rosas, mãos flexíveis de lírio, cabelo de ouro puro, corpo ondeante… o Infante começara a descobrir o verdadeiro amor; pela esposa apenas existia a vaga amizade do hábito de convivência — é com amargo sobressalto que o reconhece.
Também Inês sente uma louca atracção pelo Infante e, a ponto tal, que adoece gravemente. Dir-se-ia desejar morrer.
— Dizei-lhe… ouvis? Dizei-lhe que… que eu lhe suplico que sare… que viva… para que eu viva!
Recebida a mensagem, dias depois a febre não volta a apoquentá-la. Reaparece oscilante para uma paixão cega e delirante, sem fim. Nem as chamadas de atenção do Rei, nem as artimanhas postas no caminho para os afastar, nem a clausura no Convento de Santa Clara onde o Infante a descobriu, nem tão pouco a expulsão para Castela onde Pedro a foi buscar sobre o dorso de um cavalo, tão pouco os filhos que D. Constança tenta inutilmente oferecer ao marido e acaba por morrer, com trinta e dois anos, no acto do nascimento de D. Fernando, separa os dois apaixonados.
Para D. Afonso IV as acções do filho são punhaladas violentas nas costas. Através de amigos comuns por várias vezes sugere-lhe o casamento com uma princesa para que assegure a segurança do reino, o “não” é a resposta.
Com trinta anos, quatro vezes mãe, Inês não era menos formosa do que a donzela de dezoito que Pedro conhecera, Continuam a amar-se, ébrios de felicidade, agora instalados em Santa Clara — Coimbra, depois de alguns tempos no Paço da Serra d’El-Rei, próximo de Peniche.
Numa manhã dos inícios de 1355, Afonso IV convocou uma reunião dos principais conselheiros: Diogo Lopes Pacheco, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves. Persuadira-se o Rei ou persuadira os conselheiros da imoralidade da ligação do filho e intranquilidade para o Reino enquanto Inês estivesse junto de Pedro, obcecados pelo amor. Punir o Infante, seria desumana crueldade, mas Inês punha em perigo a independência do Reino… a pena é a degolação, “por ser nobre a ré”. Em 7 de Janeiro daquele mesmo ano, muito cedo, ainda com estrelas pálidas e friorentas, o meirinho de El-Rei e dois guardas de armas, invadem os aposentos de Inês quase desnuda, arrastam-na para o pátio e, diante dos próprios filhos, ajustam-lhe a cabeça no cepo e… de um só golpe o machado do carrasco, Brás, separa a cabeça de cabelos louros.
Horas depois, apressadamente, Afonso e os seus conselheiros e demais homens de armas saem de Coimbra. Quando o infante regressa e chama por Inês esta já fora sepultada na Igreja do Convento… alucinado pela dor, desvairado pelo desespero, gritando, clamando, procura arrancar com as unhas a terra que esconde o corpo.
— Inês! Minha Inês! Ouve-me. Não posso viver sem ti, minha Inês!
Desvairado de Amor por Inês, torna-se desvairado de ódio contra o pai e Rei.
— Não é pai, é carrasco! Não é Rei, é assassino!
Não nos alongaremos em conceitos até à morte do Rei Afonso, carregado de anos e mágoas em 1357.
Sucede-lhe no trono o Infante, agora El-Rei D. Pedro I. Foi um rei correcto, amigo do povo e de boa civilidade, um justiceiro à moda do seu tempo. Ilusoriamente parecera esquecer Inês, adormecida carinhosamente dentro de si.
Um pedido do Rei de Castela, seu sobrinho, para permuta de foragidos nos dois reinos, veio reavivar os agravos. Convenhamos que o ódio é tão fértil na justificação dos seus argumentos como o Amor… D. Pedro de Portugal levou o assunto ao Tribunal da Corte para conhecer se os argumentos dos conselheiros que condenaram Inês à morte tinham relevância. O Tribunal entendeu que não, condenando esses homens à morte e perda dos seus bens. Os refugiados castelhanos foram entregues, porém, dos portugueses apenas Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves figuram na troca, Diogo Lopes Pacheco, por milagre da sorte não foi encontrado e foge para Aragão.
Muitas lendas se teceram em volta do suplício ordenado aos prisioneiros entregues à justiça de D. Pedro I que, ao tempo pousava no seu Paço da Porta de Leiria, em Santarém. Não passaram realmente de lendas, tais suplícios, pois, se necessários fossem ocorreriam antes da sentença lavrada. De concreto sabe-se que a Lei Real foi cumprida — a um foi-lhe arrancado o coração pelas costas, ao outro pelo peito, os quais foram queimados e as cinzas atiradas ao rio.
D. Pedro não ficou por aqui. Fez construir dois formosos túmulos no mosteiro de Alcobaça, num dos quais a estátua jacente de Inês de Castro ostenta a coroa de Rainha, e fez para ali trasladar com honras de Soberana, a urna levantada do túmulo de Santa Clara. Ele não tardou a fazer-lhe companhia; morre aos 47 anos, com apenas dez anos de reinado.
O Amor e a Dor são dois grandes mestres da vida - mestre de um rigor inexorável, exigente. E quem não tiver para lhe obedecer, sucumbe sem atingir a plenitude de viver. Foi o Amor o grande mestre que levou D. Pedro I ao encontro da sua personalidade. Foi a Dor que facultou com essa personalidade todos os recursos para a luta do seu querer, sem desfalecimento. O Amor desperta as faculdades, a Dor estimulou-as para a acção. Pedro, Rei de Portugal, sofreu, mas amou da única forma que se pode amar: plenamente!

Inês de Castro - Lima de Freitas




TEMA — CONTO DE FANTASIA— SONHO DE UM ESPELHO
De Marcia Souto
Tradução de M. Constantino

Uma casa velha, abandonada, escura. Nas janelas abandonadas os vidros haviam caído lá dentro. Está em silêncio. De vez em quando uma folha atirada pelo vento, entra e é duplicada pelo espelho. Cai e fica por ali, esperando outras. O espelho, no centro da parede, é o único objecto vivo na casa. É grande e quase esqueceu como são os homens. O fio que o sustenta está cada vez mais débil…
Houve tempos em que os homens e as mulheres se detinham na sua frente e nele os reflectia com avidez. De noite, quando todos dormiam, sonhava ensaiando formas de quem nele se havia mirado. Caminhava pelo quarto nas suas pernas copiadas e, por vezes, espreitava pela janela e as árvores e casas mais além. Nunca se atrevia a sair, e ao ouvir o menor ruído corria para a parede e colocava-se no seu lugar até à próxima oportunidade.
Agora já não pode fazê-lo. As suas recordações são vagas e não poderia reproduzi-las correctamente. A última vez que o tentou, as pernas e a forma do corpo foram tão imperfeitas que caiu no solo. Teve de rebuscar na memória a imagem de um gato para chegar, ajudado pelas suas quatro patas, até à parede.
Homens. Homens. Homens! Já não vos poderei copiar. Estou a esquecer tudo, esquecer…quem sou?
O fio rompeu-se.
Uma volta pelo ar. Caiu de frente: vinte e três pedaços! Uma morte … e vinte e três vidas novas… sem recordações!
Chegou o Outono e o vento secou os troncos, deixando poucas folhas nas árvores.
Um dia o sol levou uma borboleta à janela. Entrou na sombra e deu várias voltas. Torpemente, sobrevoando por fim os meus restos.
Pela janela saíram então, uma, três, oito, vinte e três borboletas.
Saíram para o dia, livres, exibindo as suas cores sem produzirem sombras.