3 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 216

Efemérides 3 de Agosto
P. D. James (1920)

P. D. James


Phyllis Dorothy James (White) nasce em Oxford Inglaterra. Trabalha durante 30 anos em diferentes departamentos do Civil Service britânico, incluindo o Police and Criminal Law Department of Great Britain's Home Office. Actualmente é uma das escritoras britânicas mais célebres, autora de 20 romances, a maioria adaptados à rádio, televisão e/ou cinema. É frequentemente chamada a nova rainha do crime Tem milhões de cópias dos seus livros vendidos em todo o mundo e a sua obra  tem sido distinguida com  os galardões mais importantes da literatura policiária.   O seu personagem mais famoso é Adam Dalgleish, que aparece pela primeira vez em 1962, como Detective Chief Inspector, em Cover Her Face; passa a comandante da Metropolitan Police Service da New Scotland Yard em Londres e protagoniza 14 livros da autora. Dalgleish é polícia e poeta tem sido qualificado como o último detective cavalheiro da ficção policiaria britânica. Em 2000 a autora celebrou o 80º aniversário com a publicação da sua autobiografia Time To Be In Earnest. Em Portugal as Publicações Europa – América têm vindo a editar as obras da escritora desde 1983. Presentemente a Colecção P. D. James (Clicar) tem 15 títulos publicados. O 1º livro da série Adam Dalgleish está editado com o título O Enigma de Sally Jupp.


TEMA — ESTUDO — A CATEGORIA LITERÁRIA DA NOVELA POLICIAL
De Augusto de Freitas
Transcrevemos com a devida vénia ao autor e à revista Investigação de Maio de 1953 um artigo merecedor de divulgação.
M. Constantino

Dia a dia cresce a importância do romance policial. À sua produção literária poderá dizer-se corresponder a maior procura no comércio dos livros de ficção. Isto a meu ver não significa a desnaturação do gosto literário do público, mas a acentuada preferência da massa de leitores actuais por uma literatura talhada mais pela inteligência do que pela paixão. A leitura do romance policial constitui uma das grandes distracções da actualidade. Tendo aquele, por isso, como uma manifestação literária relevante, não me parece inoportuno neste primeiro número da revista que nasce, dedicar-lhe algumas palavras. Para haver romance policial não basta que haja, um crime dentro do romance. Ilustrando a tese o “Crime do Padre Amaro” é somente um combate, luz da realidade, do celibato do clero. Mas dir-se-á que este romance foca um crime muito especial, uma questão de ofensa a princípios morais, crime é certo, mas não crime de morte, o verdadeiro crime!
A minha tese mantém-se de pé. Pode existir o crime como base da acção de um romance, e não estarmos diante de um romance policial. Fixo a atenção no célebre e angustiante “Crime e Castigo” de Dostoievsky — Raskolnicov mata, o Inspector investiga, e o romance não é policial. Porquê? Primeiramente por uma razão evidente, que é a de não haver mistério no caso em relação à posição do leitor; em segundo lugar porque a obra referida foi destinada a ser dramática, a mostrar a confusão que existe entre um criminoso e um simples desgraçado vítima da sua soberba e da sua falsa ideologia.
A primeira coisa que podemos notar é que o romance policial como manifestação artística, não tem merecido a consagração literária dos outros ramos das letras. Estão estudadas as causas que, segundo parece, dão a explicação para o facto referido. Nos romances consagrados é tema verdadeiro a intriga e choque das paixões humanas. Ora isto não existe classicamente no romance policial, ainda que se vá verificando, de certo modo, uma modificação nessa feição clássica de ser. O romance policial começou por ser, e ainda é praticamente, antes de mais e de tudo, um problema posto e a resolver. Deste modo, no romance policial não tem havido a preocupação da substância das coisas, e a história aparece-nos de pura natureza, formal. Na literatura acreditada o romancista cria o homem como um ser vivente, ainda que vivendo de um modo absurdo. O romance policial desnuda-se de tudo isso e apresenta-nos um homem lógico e geométrico. No romance comum há muitas paixões em choque. No romance policial isso não interessa, e a mecânica do escritor está em contrapor duas inteligências, a do investigador e a do criminoso. Philo Vance e Poirot não são homens, ainda que gostem de quadros e percebam de cavalos ou de muitas outras coisas — são máquinas de calcular. Não têm outras concepções intelectuais ou morais senão as que servem para desvendar o mistério. Roger Caillois disse que o romance policial está distanciado da vida e das paixões, pelo que se tornou um problema matemático. No entanto, certo é que, como Georges Simenon, Graham Green e outros, ele está-se tornando, além de um problema matemático, num caso humano. O caminho é difícil porque, para mim a meta a alcançar, neste sentido, deve ser o de integrar no tipo do criminoso e dos outros protagonistas toda a conjuntura psicológica que explique o crime; simplesmente a figura do investigador deve manter-se e continuar fria, lógica e matemática, porque à investigação verdadeira deve pertencer a inteligência do investigador, alheado da sua humanidade. Esta pertence sim ao magistrado que julga, não ao homem que investiga.
A numerosíssima produção ficcionista neste capítulo do romance policial, feita a escolha do trigo e do joio, mostra-nos que o escol resulta criado da obediência a uma série de regras mais ou menos flexíveis que os autores têm adoptado. Assim deve defender-se a existência de um só crime no bom romance, e o processo executivo daquele crime deve ser o menos exótico possível, isto é, muitíssimo natural. S. S. Van Dine ensinou que é má técnica para um escritor emprestar ao crime e ao criminoso caracteres inexpressivos ou vagos que permitam soluções finais facilmente alcançáveis. Mas a compleição de caracteres do crime, do criminoso, e dos restantes personagens, não deve implicar complicação de exposição. Largo um romance policial, e deixo de lê-lo quando a acção não está exposta com simplicidade; sinto-me roubado quando a solução final parece um espectáculo de circo. Recorda-se que as histórias de Georges Simenon ganham em compleição intrigante quanto redobram em simplicidade de exposição.
Antes de terminar por hoje, as considerações sobre a categoria literária da novela policial, e deixando para outro número o estudo das possibilidades nacionais da mesma, deixo ficar aqui uma breve referência à situação dela perante determinados factores políticos imperantes no Mundo. O ambiente do romance policial não tem localização precisa no tempo e no espaço. Diz-se que isto traduz uma necessidade de fugir às características dos ambientes. O alheamento do histórico dos tempos e dos lugares, dá a este tipo de romance uma essência individualista. E é curioso notar que por causa deste individualismo nasceu neste capítulo a atitude política da Alemanha nacional-socialista e da Itália fascista, pela qual a atitude literária policial foi encarada como uma manifestação prejudicial do liberalismo. O “detective particular” da grande maioria dos romances policiais representa uma ofensa ao princípio do prestígio da autoridade pública. Spengler viu no “inglês” e no “alemão” dois tipos antinómicos humanos, existindo no primeiro a consciência pessoal do homem privado e independente, e no segundo a ideia de serviço social e de integração na colectividade.

2 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 215

Efemérides 2 de Agosto
Régis Messac (1893 - 1945)
Nasce em Champagnac, França. Tradutor e escritor é considerado como o primeiro analista da literatura policial e de ficção científica. Autor de um ensaio sobre a origem do romance policial Le Detective Novel et L'influence De La Pensée Scientifique e de Influences Française Dans L'œuvre d'Edgar Poe, ambos editados em 1929, escreve também os primeiros ensaios sobre Ficção Científica publicados em França. Régis Messac é detido pelos alemães em 1943, deportado e acaba por ser dado como desaparecido na Alemanha em 1945. Le Detective Novel et L'influence De La Pensée Scientifique, um volume com mais de 500 páginas foi reeditado o ano passado em França e é reconhecido como uma obra de leitura obrigatória.


Joseph Hayes (1918 – 2006)
Joseph Arnold Hayes nasce em Indianapolis, Indiana, EUA. Editor, produtor teatral, argumentista e escritor de 3 dezenas de peças de teatro e de 10 romances policiários. Na sua obra literária destaca-se o thriller The Desperate Hours de 1954, mais tarde adaptado — pelo autor — ao teatro e ao cinema com grande sucesso, por duas vezes (1955 e 1990). Este livro ganha o Grand Prix de Littérature Policière e o Edgar Allan Poe Award para melhor argumento em 1956. Em Portugal estão editados:
1 – O 3º Dia (1967), Editorial Minerva. Título Original: The Third Day (1964).
2 – Horas De Desespero (1970), nº190 Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: The Desperate Hours (1954).



 
TEMA — ESTUDOS DE PSICOLOGIA CRIMINAL — SACRIFÍCIO MATERNAL
É de interesse notar que se o erro judiciário resulta muita vez de falsos testemunhos de terceiros contra o suposto criminoso, não é raro que se baseie em falsas declarações de alguém que pretende favorecer o verdadeiro delinquente, chamando a si próprio a autoria do facto. É que ao lado das ervas daninhas e tóxicas cresce também a relva delicada, ou o arbusto de qualidades terapêuticas, ou a planta que perfuma o ambiente; assim, juntamente com a maldade humana repontam na alma sentimentos nobres, abnegação e altruísmo, despreendimento, espírito de sacrifício.
No livro de João Luso, Vocês, Criminosos, há um conto que vem a talhe de foice. É o que se intitula A Mulher do Bar, adaptação brasileira de um conhecido drama estrangeiro. No bairro das Laranjeiras cai assassinado um cavalheiro de importância social, que acabava de receber em seus aposentos a visita de uma senhora. A fotografia desta é encontrada entre os papéis do morto. Seria ela a assassina?
Inquire a polícia. A imprensa toma conta do caso misterioso.
— Quem foi que matou? Perguntam.
Alguém entra num bar para um aperitivo. Ali está, em libações, a um canto, uma dama que ele reconhece ser aquela cuja fotografia os jornais publicam.
— O senhor quer fazer-me um favor? Leve-me a uma delegacia. Preciso de acabar com isto. Sim, fui eu que pratiquei o crime. Matei esse homem porque tinha razão para isso. Ele me havia feito promessas de fidelidade, de constância até a morte. Em minha casa, desde que começou a visitar-me, não entrou mais ninguém. Passei a ser uma coisa sua. Aproveitou o que me restava da mocidade, tudo o que me podia valer no mundo… E um dia, sem o menor motivo da minha parte, naturalmente porque se agradara doutra, declarou-me que era obrigado a deixar-me. Revoltei-me. De repente, secaram-se-me as lágrimas. Passou-me por diante dos olhos uma nuvem vermelha. Tinha ali à mão uma faca. Matei.
O cavalheiro aconselha-a a explicar o facto à autoridade. Vai. Pouco depois, tomado de curiosidade e comiseração, levanta-se também e dirige-se à delegacia. Nesse momento vê que dois soldados querem obriga-la a retirar-se, apesar da sua confissão de culpada.
— Mas, fui eu que matei… fui eu… fui eu! — gritava a mulher entre soluços.
O comissário, à sua mesa, olhava a cena placidamente.
João Torres, o visitante, tenta intervir.
— Talvez ela diga verdade…
A autoridade, porém, declara:
— O criminoso já está preso.
— E o retrato encontrado? Trata-se evidentemente…
 Então o comissário, pondo termo às explicações:
— Quem matou o homem foi o filho dela. Compreendeu?


TEMA — O DIABO EM DECADÊNCIA — TEMPOS MODERNOS
De Lucien Lowen
O diabo estava sentado sob uma árvore folhas, jogando paciências. Era uma noite de luar, clara e fria, com os montes e vales banhados por uma fantástica luz prateada. Saí da Hospedaria Dartmoor e caminhei para a árvore nua e de galhos quebrados, que admiro particularmente em virtude, talvez, da sua forma grotesca. Um galho está intacto e dobra-se para cima, à semelhança do gesto de um homem que houvesse fracassado na vida em quase tudo.
Debaixo da árvore encontrava-se algo escuro agasalhado, que reconheci como sendo o Diabo, mas somente depois é que me aproximei mais perto. Era uma figura perfeita de Hyronimus Bosch: um macaco de feitio surrealista. As mãos que seguravam as cartas eram muito descoradas, entretanto bem cuidadas, o que fazia com que se parecessem com luvas brancas em contraste com a luzidia pelagem negra do macaco satânico.
Era fascinante para ruim encontrar-me assim, inopinadamente, diante de um tipo tão famoso e histórico.
— Desculpe-me — disse eu aproximando — Mas não acreditava que o senhor existisse realmente.
O Diabo voltou para mim os olhos grandes e melancólicos. Havia na sua expressão um misto de inteligência, repugnância e amargura, coisa, que me impressionou profundamente.
— Sei que pertenço ao passado — respondeu-me com um encolher de ombros, enquanto baralhava as cartas. Depois, destacou do maço o seis de copas e nada mais disse.
— Será que esse jogo de paciência tem um significado mais amplo? — disse eu para puxar conversa.
— Para determinadas pessoas, sim — disse impassível. — Cada uma dessas cartas representa uma alma humana. Eis, por exemplo, o seis de copas. É a Joana uma jovem dançarina, graciosa e bonita, de cabelos pretos ambiciosa. Está neste momento no camarim de um teatro, desembaraçando-se do excesso de pintura.
Dividiu o baralho em duas partes, retirando de uma delas uma outra carta.
— Cá está o cinco de espadas. Coloco-o sobre o seis de copas, e acontece isto: Prokhimof, e cinco de espadas, está a entrar no aposento onde se encontra Joana. Prokhimof, é um agente de filmes protector de talentos nascentes e com um nada de canalhice sob a capa de amistosa assistência.
— Começo a entender — interrompi — Mas pretende o senhor interferir com o destino dessas criaturas?
— Cavalheiro! — A voz do habitante das entranhas da terra soou roufenha, enquanto ele arremessava para longe as cartas — Se o senhor quer discutir, meu amigo perguntador, estou sua disposição — prosseguiu, agora, com, delicadeza.
Alisou o pêlo negro em torno do corpo, colocou um chapéu de feltro preto sobre os chifres curtos e levantou, a gola do sobretudo, o que de pronto, lhe deu a aparência de um frequentador do bar do Café Royal.
— O senhor tocou num dos meus pontos sensíveis — recomeçou ele a conversa depois de ter caminhado um pouco — Saiba que o meu poder se esfumou. Idos são os tempos, quando eu me deliciava na luta por uma alma, quando deixava ã solta a inveja, a avareza, ambição enfim, todos os pecados mortais, com a secreta missão de perverter uma alma simples. Havia então resistência, obstáculos intransponíveis, havia o grande e poderoso baluarte, Deus. Não pense que estou propenso a subestimar o meu adversário. Acontece, porém, que Deus, essa sublime inspiração do homem imperfeito. Deus morreu no coração humano. A humanidade louva-o oralmente, mas a sua verdadeira, influência desapareceu. Ida é a Idade Média. Assim como a elevação do espírito. Ao passado pertencem a angustiosa ansiedade e o desejo por um amparo após os conflitos íntimos. As limitações da tradição já não existem, também.
— Exibiram o meu retrato através dos séculos, gravaram-no na pedra das Catedrais, Fui eu quem concorreu para que as visões do Inferno, de Breughel, fossem moldadas. O mesmo fiz com as de Hyronimus Bosch. Milhares de artistas, talentosos ou não, preocuparam-se com a minha figura., emoldurando belamente o alegre vermelho do inferno no azul infinito do céu. Feiticeiros e bruxas morreram queimados em holocausto à minha causa, porque me acreditavam real. Tudo isso sem mencionar os teólogos, que viveram a preocupar-se comigo.
— Tudo acabado. Tornei-me uma relíquia de folclore, uma superstição decadente. Eu que era a sombra grandiosa, a sombra que era a razão do brilhar da grande luz.
— Caí tão baixo que me tornei um vigário, tentando, desesperadamente, reviver a crença em Deus, para assim salvar uma parcela mínima do meu poder. Em vão o meu esforço, pois o inferno domina desvairadamente na terra sem o meu auxílio. Se quer certificar-se basta que relance os olhos em volta.
— Vez ou outra, em noites calmas e enluaradas, costumo sentar-me aqui, na orla das charnecas, eu, o fantasma do princípio eterno, para jogar paciências, tal como se fosse um coronel reformado. Mas adeus, vou-me embora!

Hieronymus Bosch - Jardim das Delícias (detalhe)

1 de agosto de 2012

LIVROS - NOVIDADES


A Anatomia do Segredo
Leslie Silbert Child — Editora Saída de Emergência
(Julho 2012)

Sinopse (Editora)
Inglaterra 1593:
Três semanas antes da sua enigmática morte, o famoso e sedutor Christopher Marlowe goza um enorme sucesso como dramaturgo. Rival de Shakespeare e espião ao serviço da Rainha da Inglaterra, Marlowe conhece o submundo de Londres como a palma das próprias mãos.
Nova Iorque, actualidade:
Kate Morgan, uma jovem licenciada em história da arte, trabalha como detective numa agência privada com ligações à CIA. A hábil e encantadora Kate é contratada pelo jovem milionário Medina para desvendar o mistério de um tomo escrito há mais de 400 anos que tem em seu poder. Na busca de uma perigosa verdade, ela envolve-se numa intriga que a leva dos Estados Unidos à Inglaterra, dos desertos da Tunísia a uma Itália deslumbrante.
E quando as páginas amareladas começam a desvendar os seus segredos... o que esconderá este manuscrito? O que fará com que séculos mais tarde ainda leve alguém a matar?

LIVROS - NOVIDADES

Os Diários Secretos
Camilla Läckberg — Dom Quixote
(Julho 2012)

Sinopse (Editora)
A escritora sueca de maior sucesso da actualidade. O verão está a chegar ao fim e a escritora Erica Falk regressa ao trabalho depois de gozar a licença de maternidade. Agora cabe ao marido, o inspector Patrik Hedström, tratar da pequena Maja. Mas o crime não dá tréguas, nem sequer na tranquila cidade de Fjällbacka e, quando dois adolescentes descobrem o cadáver de Erik Frankel, Patrik terá de conciliar os cuidados à filha com a investigação do homicídio deste historiador especializado na Segunda Guerra Mundial. Recentemente, Erica fez uma surpreendente descoberta: encontrou os diários da mãe, com quem teve um relacionamento difícil, junto a uma antiga medalha nazi. Mas o mais inquietante é que, pouco antes da morte do historiador, Erica tinha ido a casa dele para obter informações sobre a medalha. Será que a sua visita desencadeou os acontecimentos que levaram à sua morte? E estará Erica preparada para conhecer os segredos dos diários da mãe?
Camilla Läckberg combina com mestria uma história contemporânea com a vida de uma jovem na Suécia dos anos 1940. Com recurso a numerosos flashbacks, a autora leva-nos a descobrir o obscuro passado da família de Erica Falk.

LIVROS - NOVIDADES



A Senda Obscura
Åsa Larsson — Planeta Editora
(Julho 2012)

Sinopse (Editora)
Está escuro no Norte da Suécia e uma tempestade de neve fustiga o lago gelado de Torneträsk. Procurando abrigo do frio mortal, um pescador encontra o cadáver de uma jovem numa cabana. A vítima é Inna Wattrang, uma executiva da empresa mineira Kallis Mining. Anna-Maria Mella, a inspectora da polícia encarregada do caso, precisa da ajuda de um especialista em leis, e conhece o melhor: Rebecka Martinsson. Juntas iniciam uma investigação em duas frentes que parece revelar uma sinistra relação entre o ambiente que rodeia a vítima e o dono da empresa.
Åsa Larsson é uma das autoras de romance policial mais reconhecidas do mundo e queridas em vários países. Aurora Boreal e Sangue Derramado, os seus anteriores romances, foram um êxito de vendas aclamado pela crítica. No entanto, nada do que possa ser dito irá preparar o leitor para o abalo emocional de A Senda Obscura, um relato arrepiante que deixa a descoberto a fragilidade da alma humana.

LIVROS - NOVIDADES

 
O Oásis Escondido
Paul Sussman — Bertrand Editora
(Julho 2012)

Sinopse (Editora)
No ano de 2152 a.C., oitenta sacerdotes do Antigo Egipto usam a capa da noite para irem até ao deserto levando consigo um misterioso objecto envolto num pano. Quatro semanas mais tarde, ao chegarem ao seu destino, cortam em silêncio os pescoços uns dos outros.
Quatro mil anos mais tarde, no Egipto dos nossos dias, Freya Hannen, alpinista profissional, chega para ir ao funeral da irmã, Alex, uma exploradora do Sara. Desde o início que Freya desconfia das alegações de que a irmã se terá suicidado e decide investigar as verdadeiras causas da sua morte. Recebe a ajuda de Flin Brodie, um académico britânico amigo da falecida irmã. Também Flin procura respostas: dedicou a vida inteira à procura de um mítico oásis escondido.
Num thriller de cortar a respiração — o próprio Sussman trabalhou como arqueólogo no Egipto – seguimos a inesquecível aventura dos dois protagonistas. Em jogo não está apenas um grande mistério da arqueologia, a localização do lendário oásis de Zerzura, mas também a chave para um segredo terrível e surpreendente que reside no coração do oásis.
Paul Sussman é jornalista e arqueólogo, actividade que o leva a passar vários meses por ano em escavações no Egipto. Autor best-seller de quatro thrillers, é um dos mais conceituados e populares autores do género. É casado e vive em Londres.

LIVROS - NOVIDADES

O Chapéu do Sr. Briggs
Kate Colquhoun — Bertrand Editora
(Junho 2012)

Sinopse (Editora)
Dia 9 de Julho de 1864. Após um serão com familiares, Thomas Briggs chega à estação ferroviária e entra na carruagem 69 do comboio das 21.45 com destino a Hackney. Sem saber que a sua viagem haveria de ficar para a história Alguns minutos mais tarde, dois bancários entram no compartimento. Quando se sentam, um deles repara no sangue que se acumulara nas concavidades dos botões dos estofos. Depois vê sangue no chão e nas janelas da carruagem, assim como a marca de uma mão ensanguentada na porta. As senhoras na carruagem adjacente queixam-se de que têm os vestidos salpicados de sangue que entrou pela janela quando o comboio estava em movimento. Mas não há sinal de Thomas Briggs. Na carruagem está apenas uma bengala com castão de marfim, uma mala de pele vazia — e um chapéu que, estranhamente, não pertence ao senhor Briggs< Assim começa a história vertiginosa, fascinante e verídica de um crime que obcecou a nação e mudou para sempre a maneira como viajamos. Com formidável mestria narrativa, Kate Colquhoun evoca as imagens, os sons e os cheiros da viagem ferroviária vitoriana e revela segredos há muito enterrados de uma das mais apaixonantes investigações de homicídio daquela era.

LIVROS - NOVIDADES

A Relíquia
Douglas Preston, Lincoln Child — Editora Saída de Emergência
(Junho 2012)

Sinopse (Editora)
Num dos maiores museus do mundo esconde-se um dos maiores segredos do passado
Quando uma equipa de arqueólogos é selvaticamente massacrada na bacia do Amazonas, tudo o que resta da expedição são algumas caixas contendo amostras de plantas e a estátua de um deus misterioso. Viajando de barco em barco e de porto para porto, as caixas acabam por chegar ao Museu de História Natural de Nova Iorque, apenas para serem fechadas numa cave e esquecidas. Mas o coração negro da Amazónia nunca esquece. Algum tempo depois, quando o museu decide expor a arrepiante estátua, alguém ou algo começa a vaguear pelos corredores e galerias poeirentas do museu. E é então que se dão as mortes brutais. Mas quem será o responsável? Um louco… ou algo muito mais inexplicável? A Relíquia é um romance arrepiante onde se entrelaça o dia-a-dia de um enorme museu com factos científicos, personagens poderosas e um enredo que arrebata o leitor da primeira página até à reviravolta final.

LIVROS - NOVIDADES

A Queda da Babilónia
Montserrat Rico Góngora — Planeta Editora
(Junho 2012)

Sinopse (Editora)
Após a morte repentina do pai, Manrique de Sandoval recebe uma mensagem bastante intrigante do seu executor testamentário: entregar em Roma três mil ducados ao irmão Severo Pompeu, de cuja existência nunca ouvira falar.
Obrigado a cumprir esta estranha ordem e pensando que se poderá tratar de um logro, Manrique parte contrariado e muito desgostoso por o pai lhe ter ocultado que tinha um irmão.
Na viagem conhece um jovem, de origem judaica, Gonzalo Maqueda, que se tornou suspeito de um crime. Ao ajudá-lo tornam-se amigos e Gonzalo acompanha-o à Cidade Eterna, onde terá um papel fulcral sem o saber. Chegam poucas semanas antes de uma estranha horda de luteranos e espanhóis, sob o comando do imperador Carlos V, invadir a cidade e protagonizar uma das consequências mais dramáticas nos anais da História – o Saque de Roma.
Apanhados no meio do saque, torna-se difícil encontrarem o irmão de Manrique e as vicissitudes dos dois amigos acabam por ser diluídas pelo protagonismo de Roma, a velha Caput Mundi, a Babilónia, a Grande, que vive o seu momento de glória… mas o seu destino apocalíptico aproxima-se.

LIVROS - NOVIDADES

Quem Sofre São as Crianças
Donna Leon Zafón — Planeta Manuscrito
(Junho 2012)

Sinopse (Editora)
A tranquilidade da noite veneziana é perturbada quando um bando de homens armados força a entrada no apartamento do Doutor Gustavo Pedrolli, fracturando-lhe o crânio e levando o bebé de dezoito meses.
Quando o Comissário Guido Brumerri, arrancado da cama pela notícia, chega ao hospital para investigar, ninguém sabe o porquê de tão violenta agressão ao eminente pediatra.
Mas Brunetti em breve começa a descortinar uma história de infertilidade e desespero, e um submundo onde os bebés podem ser comprados com dinheiro, entre um esquema fraudulento com farmácias e médicos da cidade. O conhecimento pode ser tão destrutivo como a ganância, certas informações acerca de um vizinho podem levar a todos os tipos de corrupção e diversas formas de dor.

LIVROS - NOVIDADES

Ninguém Quis Saber
Mari Jungstedt — Editora Contraponto

Sinopse (Editora)
O fotógrafo Henry Dahlström aparece brutalmente assassinado na até então adormecida e invernal ilha de Gotland, após ter recebido uma avultada soma com as apostas nas corridas de cavalos. A resolução do caso parece ser fácil, pois tudo indica que o crime foi cometido por alguém do círculo social de Dahlström, com o intuito de ficar com o seu dinheiro. Enquanto isto, uma jovem de catorze anos, Fanny, desaparece e a polícia começa a investigar um suposto sequestro. O rumo das investigações dá, porém, uma reviravolta quando o porteiro do edifício onde morava Dahlström descobre uma caixa com fotografias pedófilas, nas quais aparece a jovem Fanny.
Anders Knutas vai precisar de todo o seu talento e da ajuda do seu amigo, o jornalista Johan Berg, para descobrir o que se esconde por detrás deste terrível caso.

LIVROS - NOVIDADES

Flores Caídas no Jardim do Mal
Mons Kallentoft — Oficina do Livro
(Junho 2012)

Sinopse (Editora)
O sol primaveril brilha em Linköping, no centro da Suécia, e aquece os poucos habitantes, ainda pálidos da escuridão de um inverno prolongado, que ousaram sair para tomar café nas esplanadas da cidade. Já há andorinhas a voar em círculos no céu e as bancas de flores já exibem tulipas coloridas. Uma mulher passeia com as duas filhas pela Praça Grande da cidade e dirige-se à caixa automática de um banco para levantar dinheiro. E, subitamente, há um som aterrador que atravessa a cidade e faz estremecer as construções mais sólidas e os corações mais endurecidos. Momentos depois, Malin chega à praça e a visão que a atinge dificilmente poderá ser apagada. Num manto de flores despedaçadas e ramos espalhados há vidros partidos, o sapato de uma criança, um pombo a debicar o que aparenta ser um pedaço de carne e, a pairar sobre este cenário de tragédia, um silêncio absolutamente ensurdecedor. Alvo de um atentado, Linköping nunca mais será a mesma.

LIVROS - NOVIDADES

O Prisioneiro do Céu
Carlos Ruiz Zafón — Planeta Manuscrito
(Junho 2012)

Sinopse (Editora)
Barcelona, 1957. Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas. Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria de Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si.
Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração do Cemitério dos Livros Esquecidos.

CALEIDOSCÓPIO 214

Efemérides 1 de Agosto
Carter Brown (1923 - 1985)
Alan Geoffrey Yates nasce em Londres, mas emigra para a Austrália com 25 anos de idade. O escritor que adquire dupla nacionalidade é um dos escritores mais populares na Austrália e na Europa com mais de 300 romances e novelas escritos em cerca de 30 anos de produção literária. Traduzido em diversas línguas tem dezenas de milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Cria as séries Mavis Seidlitz, Danny Boyd, Al Wheeler e Rick Holman. Em 1997 o escritor é distinguido a título póstumo com o australiano Ned Kelly Award pelo contributo à literatura policiária. Em Portugal o autor tem três dezenas de títulos publicados a maioria pela Galeria Panorama e pelas Publicações Europa-América.


W. J. Burley (1914 – 2002)
William John Burley nasce em Falmouth, Cornwall, Inglaterra. Professor de Biologia e escritor policiário cria a série Henry Pym — um professor de Zoologia e a série Inspector Charles Wycliffe, esta última com 22 títulos publicados entre 1968 e 2000, que se tornou célebre devido à adaptação televisiva.




TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR?
1 — FATALISMO
A morte é a Lei Natural comum a todos os seres vivos. Mas quando se discorre sobre o fim do mundo ergue-se um clamor uníssono, concordante entre a multidão dos mortais; voz universal atemorizada, angustiada ante visão do Pesadelo Supremo: O MUNDO IRÁ ACABAR?
O vigor da palavra bíblica impõe-se ao raciocínio mais inume: APOCALIPSE!
“… tocou o primeiro anjo a trombeta, e formou-se uma chuva de pedra e de fogo, misturada com sangue, caiu sobre a terra… e foi abrasada a terça parte da terra, e foi queimada toda a erva verde.”
“… o segundo anjo tocou a trombeta: … e foi lançado no mar como grande monte ardendo em fogo, e se tornou em sangue a terça parte.” “ … e a terça parte das criaturas que viviam no mar morreu e a terça parte das naus pereceu.”

Nunca faltaram, de resto, audazes profetas, religiosos ou não, astrónomos ou cientistas, videntes, todos ciosos de popularidade, proclamando a cada momento, fatalisticamente, hoje como ontem, o fim inevitável, o juízo final.
Talvez a necessidade de encontrarmos no exterior, algo que justifique a insegurança invisível de que somos interiormente possuidores, a possibilidade de expandirmos exteriormente os medos vagos e crescentes que nos dominam, sejam a razão directa do clamor. Em todo o caso, o sinistro fascínio do “fatalisticamente possível” é um envenenamento em doses graduais, mas evolutivas, do espírito.
Friamente poderíamos contrapor que a Terra existe há cinco milhões de anos sem que a sua existência ou risco de eliminação tenham sido postos em causa.
É certo que sofreu um número apreciável de catástrofes mais ou menos importantes, mas não danos irreparáveis. É um facto que nos pode tranquilizar. Não obstante, não existe um mínimo de garantia de que aquelas se não repitam num obscuro futuro, mais terrificantes e mortíferas.

2 — MIL FORMAS DE ACABAR
Um dos juízos finais evidenciados pelos profetas modernos — cientistas ou simples pensadores — diz respeito a elevação das águas mar. O degelo dos pólos produziriam efeitos tremendos no mundo moderno, tantas são as cidades populosas junto dos portos do mar ou horizontes abaixo daqueles. Simplesmente pavoroso se pensarmos que actualmente a Antárctida conterá 27 000 000 de quilómetros cúbicos de gelo, o equivalente a 24 500 000 quilómetros cúbicos de água, o bastante para elevar o nível do mar a mais de duzentos metros!
Diversas seriam as configurações para a movimentação das águas. A teoria mais evidenciada e altamente especulativa, diz respeito à inversão dos pólos Norte e Sul. O que não seria a primeira vez, afirma-se.
Qual poderá ser o mecanismo desencadeador?
Propõe-se que seja um grande corpo cósmico: um planeta que entre no sistema solar em órbita errante. Vénus, conclui-se entrou no sistema solar depois de 3000 a.C., porquanto os registos hindus e babilónicos referem Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno mas não Vénus que, pela lógica da distância, mais facilmente seria detectado para registo.
Um corpo celeste com 1000 km de diâmetro que passasse perto da Terra, num dse eventuais agrupamentos planetários raros, misteriosos, mas existentes, exerceria sobre ela consideráveis efeitos gravitacionais e eléctricos capazes de deslocar um pólo e inclinar o eixo da Terra em condições de a inverter.
(continua)


TEMA — CONTO — A NOITE
De Orlando Guerra
Mal refeita do susto, uma manta grosseira nos ombros cruzando sobre o peito, ainda algumas lágrimas trémulas mesclando a pintura esborratada, Elisa agarrou a tigela de caldo quente que o homem lhe estendia, levando-a à boca quase com sofreguidão. O homem de pé envolvia-a num olhar complacente, um sorriso bondoso adoçando-lhe a rudeza do rosto. Elisa sentia-se melhor, mais reconfortada. O calor amigo das chamas da lareira acariciando-lhe os joelhos, apaziguadoramente. E a quietude interior chegava-se aos poucos, substituindo o tumulto anterior.

Razão tinha o pai. Luís não prestava, era um oportunista mal formado. Mas os seus 17 anos esfusiantes de vidas, pletóricos de energia e rebeldia, não aceitavam conselhos, não admitiam orientações… E não resistira ao chamamento de Luís, ao apelo de dar uma volta no Porsche vermelho, à perspectiva de ouvir o mar naquela noite de inverno.
De mãos dadas escutavam o marulhar surdo das ondas, em baixo. Uma paz doce acolhia-a, sentindo os dedos de Luís apertar com ternura os seus. E deixava-se vogar, entre o sussurro das vagas esboroando-se na areia, o silêncio pesado daquela noite sem estrelas, e os salpicos de chuva no pára-brisas do Porsche vermelho… E uma lassidão serena adormecia-a.
Luís dobrou-se sobre ela e, docemente, beijou-a na testa. Semicerrou os olhos, recostando-se para trás. Em redor era silêncio apenas. Silêncio e noite…
Luís pôs o carro a trabalhar e arrancou. Enquanto o Porsche vermelho galgava a estrada apenas o zunido do limpa pára-brisas cortava o silêncio da noite, pesada e fria.
Vagamente Elisa apercebeu-se de que o Porsche vermelho inflectia para a serra de Sintra. O rapaz dava a volta para fugir ao trânsito da Marginal. Olhos cerrados, cabeça para trás, Elisa voava, nas asas do sonho…
O pai e as suas rabugices de homem de meia-idade. Luís e o seu sorriso delicado… Como era bonito o mar em noites de Inverno…
Pressentiu que o carro parava num largo sem saída. Ao lado as árvores erguiam-se, negras, difusas…
Sentiu que Luís se debruçava sobre ela, acariciando-lhe o rosto e os cabelos. Como eram macias e doces as mãos de Luís… E Elisa continuava a sonhar, olhos fechados…

As chamas da lareira alteavam-se, informes. E o seu calor mole penetrava-a, tranquilizante. O homem permanecia de pé, continuando a olhá-la, silenciosamente, o mesmo brilho bondoso iluminando-lhe as faces…

Bruscamente despertou. As mãos de Luís já não eram macias e doces, mas bruscas e violentas, desapertando-lhe os botões da blusa, maculando-lhe a carne entumecida dos seios virgens. A boca dele lambuzava-lhe o queixo e o pescoço, e ele arfava, ávido… O peso dele entontecia-a, mas despertava-a numa reacção instintiva, fugindo ao ultraje… Debateu-se… Gritou… uma vez… duas vezes… até que uma mão sapuda lhe tapou a boca. Mordeu ferozmente os dedos que a sufocavam, e que antes eram ternos e meigos. Apercebeu-se de que a seda da blusa se rasgava. A sua cabeça era um turbilhão… Luís… Luís…
A porta do Porsche vermelha abriu-se num supetão, e Elisa sentiu que Luís a despegava… Meio inconsciente deu conta que um vulto masculino se debruçava sobre ela, ajudando-a a erguer--se. Um homem forte de feições duras amparava-a… Luís levantava-se do chão, para onde fora arremessado.
Como um autómato acompanhou o homem que, pondo-lhe a mão sobre os ombros, lhe sussurrava palavras amigas, animando-a.
E quando o homem abriu a porta da casa do guarda-florestal ouviu o ruído do motor do Porsche a pôr-se em marcha.

As chamas da lareira continuavam viçosas. E Elisa recebia cupidamente a carícia tépida das labaredas.
Um monstro, o Luís… O pai, afinal, tinha razão… Não fora o aparecimento providencial do homem, o guarda-florestal, e deixaria de ser menina às mãos de um vândalo.
De pé, o homem esperava, pacientemente, que acabasse o caldo quente. A mesma expressão tranquila no rosto maduro…
Elisa estendeu as mãos, entregando a tigela ao homem. Estava calma, agora… A manta, com o movimento, soltou-se-lhe dos ombros, e Elisa cruzou os braços procurando tapar os seios túrgidos que escapavam da roupa rasgada.
O homem dardejou-lhes um olhar rápido e vivo. Elisa estremeceu. Levantou-se, tacteando dois passos.
— Um telefone. Preciso de um telefone…
O homem colocou a tigela sobre uma mesa velha e aproximou-se.
— Vou telefonar para casa. O meu pai é rico… Recompensá-lo-á.
O homem aproximou-se mais, pousando-lhe a mão no ombro.
E foi com um brilho decidido no olhar que lhe respondeu, em voz áspera e cortante:
— Quem foi que falou em dinheiro, menina?