26 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 270

Efemérides 26 de Setembro
Minette Walters (1949)
Nasce em Bishop’s Stortford, Inglaterra. É considerada a rainha do thriller psicológico, publica o seu primeiro livro, The Ice House, em 1992. Tem 13 livros publicados e um novo romance, Innocent Victims agendado para Fevereiro de 2013.Em Portugal estão editados:
1 – A Casa Do Gelo (1992), Nº555 Colecção Vampiro, Livros do Brasil Título Original: The Ice House (1991). Premiado em 1992 com John Creasy Award para First Novel atribuído por Crime Writer’s Association.
2 – A Escultora (1995), Nº69 Colecção Vida e Aventura, Livros do Brasil Título Original: The Sculptress (1993). Premiado em 1994 com o Edgar Award-Best Novel atribuído por Mystery Writers of America e com o Macavity Award atribuído por Mystery Readers Internacional e em 1996 ganha o 1º lugar no Kono Mystery ga Sugoi!, que distingue os 10 melhores livros policiários estrangeiros publicados no Japão. O livro é reeditado pela Relógio D’ Água em 2009 na Colecção Crime Imperfeito.
3 – A Máscara De Desonra (1998), Nº2 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Scold’s Bridle (1994). Premiado em 1994 com Gold Dagger Award atribuído por Crime Writer’s Association.
4 – A Câmara Escura (1999), Nº7 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Dark Room (1995). Nomeado para Gold Dagger Award.
5 – Ecos Na Sombra (1999), Nº13 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Echo (1997).
6 – O Violador (2000), Nº21 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Breaker (1998).
7 – A Sombra Da Serpente (2003), Nº50 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Shape Of Snakes (2000). Galardoado em 2000 com o prémio dinamarquês Pelle Rosenkrantz e em 2010 nomeado no Japão para o Honkaku Mystery Grand Prize.
8 – A Caso Da Criança Desaparecida (2003), Nº55 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: Acid Row (2001). Nomeado para Gold Dagger Award.
9 – O Caçador De Raposas (2004), Nº86 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: Fox Evil (2002). Premiado em 2003 com Gold Dagger Award.
10 – Sob Suspeita (2006), Nº90 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Tinder Box (1999).
11 – Fantasmas Do Passado (2009), Nº104 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: Desordered Minds (2003).
12 – A Pena Do Diabo (2009), Colecção Crime Imperfeito, Editora Relógio. Título Original: The Devil’Feather (2005).



TEMA — ESTUDOS DE ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — ENIGMAS TÉCNICO CIENTÍFICOS
M Constantino
Não deixaremos de abordar o problema dos venenos e drogas
A morte violenta provocada por substâncias tóxicas absorvidas pelo organismo é frequente, tanto no homicídio, como no suicídio, menos raro no acidente.
No crime, tal como no suicídio, o meio mais usado é a absorção do tóxico por ingestão oral, só em raros casos se usa a injecção.
A dose tóxica ministrada quase sempre excede o mínimo capaz de provocar a morte (dose mortal, que não é igual para todos os organismos) e esse é o primeiro indício de intencionalidade do acto que se quis. Pode, porém, o envenenador procurar disfarçar o seu acto com doença ou morte natural da vítima, ministrando pequenas doses até atingir o fim pré-estabelecido.
Impõe-se ao investigador, recolher para exame pericial, todos os restos de vómitos, defecções, bebidas, louças, talheres, etc.
Duma forma geral podemos dividir os tóxicos em minerais, ácidos e corrosivos, alcalóides e vegetais.
Nos primeiros contam-se o arsénio, o fósforo, o mercúrio, o cobre o chumbo, o bário, o antimónio, etc; nos segundos, os ácidos cianídrico, clorídrico, fénico, nítrico, oxálico, sulfúrico, o amoníaco, o cianeto de potássio, etc.
Sintomatologia de alguns venenos:
ARSÉNIO — utilização via bocal, algumas vezes injectável, raras por via rectal ou até vaginal (óvulos arsenicais). A via respiratória já tem sido detectada em casos de envenenamento profissionais (vapores produzidos em certas operações industriais).
Dificuldade na sintomatologia face às variedades referenciadas, contém-se, porém, no seu quadro, vómitos persistentes, diarreia, tenesmo, relaxante dos esfíncteres, algidez, cianose, colapso. Dose fatal, dependendo da sua pureza, de 0,15 a 0,20 gramas.
FÓSFORO — mortal na dose de 0,15 gramas e acima de 0,50.
Só o chamado fósforo branco tem essa propriedade, nem sempre possível de encontrar em condições de aplicação.
Utilização via bocal, salvo os casos de envenenamento profissional por via respiratória.
Delírio, convulsões, estupor e estado comatoso, terminando quase sempre, por colapso cardíaco.
CHUMBO — quase sempre nos seus diferentes compostos. É actuante a longo prazo. A utilização de alguns compostos, em doses diárias de 1 ou 2 miligramas pode provocar a morte em poucas semanas Muito dependente, tal como o arsénio, do grau de sensibilidade do indivíduo.
Dores gástricas com sensação de queimadura, náuseas e vómitos, intensa contracção da garganta.
Cianídrico (ácido), conhecido por ácido prússico é, na realidade, o nitrilo fórmico. O mais vulgarizado, por virtude de fins industriais é o cianeto de potássio.
Cheiro a amêndoas amargas; mistura-se na água ou álcool.
Desta mesma família de ácidos corrosivos, citam-se os ácidos sulfúrico, nítrico, clorídrico, hidróxido de sódio, etc.
Doses mortíferas entre 5 e 10 cc. (0,15 a 0,20 gr).
Fortes ardores na garganta, boca e estômago, vómitos sanguinolentos, dificuldade de deglutir, palidez e choque (Choque) nos casos em que a morte não é instantânea.

ENIGMA PRÁTICO — MORTE DE UM TIRANO
Segue-se um enigma exemplificativo para o qual pedimos a atenção. A solução será posteriormente publicada
M. Constantino

Era uma vez um rei.
Rei glutão.
Rei brutal, egoísta, jamais se dignara olhar o povo esfarrapado e faminto, sacrificado… a não ser no necessário à satisfação dos seus reais apetites!
Naquele dia…
Naquele dia, Primavera na natura, Inverno impotente nos corações, o rei fazia anos. Afadigavam-se mais uma vez os bons súbditos, vindos dos mais longínquos cantos dos vastos domínios, a ofertar-lhe os mais requintados acepipes. Carnes, vegetais superiormente cozinhados, frutas…
O rei olhava desdenhosamente, servia-se voraz do que lhe agradava, afastando com o pé, ou com o forte bastão, brutal e superfluamente, o submisso ofertante. Todos os alimentos eram, porém, antecipadamente sujeitos a rigorosa prova contraveneno, pelos cães, pelos escravos, e até pelos coelhos que lhe serviam de cobaias, porque o rei em ninguém confiava. Não raras vezes um ser humano acabava na ponta de uma corda ou sob o azorrague do carrasco.
Mais um escravo ajoelhou, submisso, mostrando apetitosa salada de alface.
Os olhos do monarca luziram de gula. Pontapeou o ofertante, deu a provar a um coelhinho branco que conservava ao colo, e só se banqueteou depois de eliminada qualquer suspeita de envenenamento.
Contudo… o coelhinho branco alegre e saltitante, viveu; o rei, chamados à pressa os magos da ciência daqueles tempos de antanho, só puderam verificar o seu estado alarmante, que se resumia em diminuição da acuidade visual, pela midríase, secura da boca (dificuldade de deglutição), rigidez dos membros, o delírio, a coma, e por fim… era uma vez um rei… fora uma vez um rei…
Vieram os medicamentos, os feiticeiros, os magos mais magos, mas o rei... continuava morto.
E, como sempre acontece… rei morto não dá pontapé… não reclama…
Reuniu o conselho dos “velhos”, troaram pelas praças, pelos vales e montes os rufares dos tambores e a voz dos arautos, procurando um rei, um novo rei. Uma condição: responder à pergunta que andava nos lábios de toda a gente e que, parecia ninguém poderia responder.
- COMO FORA ENVENENADO O TIRANO?
Da serra, onde vivia com o seu rebanho, desceu o jovem pastor. Prometera à sua amada um reino, um reino de sonho…
Traz, na sacola, o magro pão dos pobres, no olhar uma promessa de bondade, no coração uma vontade indómita.
Deus é grande!
Diante do conselho reunido, ouviu, raciocinou e RESPONDEU! …
Hoje, o povo desse reino sonha realmente, Vive feliz e adora o rei. O rei pastor e a sua pastorinha. Na bandeira que se avista de léguas em redor, pode ver-se um gentil coelhinho branco sobre um feixe de mandrágoras do monte, de grandes folhas verde-escuras. Bandeira que jamais se desfraldará para a guerra, símbolo de um reino, realmente, de sonho.
À lareira, nas longas noites de inverno, após a história ser contada e recontada, ainda se ouve a obrigatória pergunta:
‑ COMO FOI MORTO O REI, APESAR DA SUA PRECAUÇÃO?

25 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 269

Efemérides 25 de Setembro
William Faulkner (1897 - 1962)
William Cuthbert Faulkner nasce em New Albany, Mississípi. EUA. Autor galardoado com o prémio Nobel de Literatura em 1949 e um dos escritores norte americanos mais célebres, também escreve ficção policiária (ver TEMA). A obra de Faulkner recebe diversos prémios conceituados. Destaca-se The O. Henry Award — que distingue anualmente as melhores short stories — atribuído em 1939 a Barn Burning e em 1949 a A Courtship. Os livros do autor que são considerados explicitamente policiários têm sido publicados em Portugal, em por variadíssimas editoras. Contrariamente ao habitual, — de acordo com a ordem cronológica da publicação dos originais — indica-se a edição portuguesa mais recente para facilitar a procura por parte de eventuais leitores interessados.
1 – Santuário (2010), Colecção Clássicos, Bertrand Editora. Título Original: Sanctuary (1931).
2 – Luz Em Agosto (2004), Colecção Mil Folhas, Público Comunicação Social. Título Original: Light In August (1932).
3 – Absalão, Absalão (1992), Colecção Ficção Universal, Editora Dom Quixote. Título Original: Absalom, Absalom! (1936)
4 – O Intruso (2011), Colecção Grandes Romances, Bertrand Editora. Título Original: Intruder In The Dust (1948)


G. H. D. Cole (1889 – 1959)
George Howard Douglas Cole nasce em Cambridge, Inglaterra. Economista, historiador e escritor com uma vasta obra de “não ficção”, escreve também policiários em parceria com a mulher já referida nas Efemérides do CALEIDOSCÓPIO 127 (Clicar). Ver mais em TEMA.



Richard Lockridge (1899 – 1982)
Richard Orson Lockridge nasce em St Joseph, Missouri, EUA. Forma uma dupla (ver TEMA) com a mulher Frances Lockridge, já referida no CALEIDOSCÓPIO 10 (clicar).


Maj Sjöwall (1935)
Nasce em Estocolmo, Suécia. Tradutora e escritora, também forma uma dupla com o marido Per Wahlöö, já devidamente apresentada no CALEIDOSCÓPIO 218 (clicar).


 

TEMA — LITERATURA POLICIÁRIA — PRÉMIO NOBEL E DUPLAS DE AUTORES
M. Constantino

PRÉMIO NOBEL
Não é novidade a conquista de adesão ao policiário, se não permanente, pelo menos esporádica, de escritores de indiscutível renome, tais como Graham Greene, Ernest Hemingway, Norman Mailer, Truman Capote etc.. Não falta até um Prémio Nobel, William Faulkner. Este autor laureado, reflecte em toda a sua obra uma marcada inclinação pelo thriller tendo escrito Sanctuary (1931), Intruder In The Dust (1948), romances inteiramente de cariz policiário, e também um livro de seis contos, a que não falta o protagonista detective, Gavin Stevens mais conhecido por “Tio Gavin”, intitulado “Knight’s Gambit”.

William Faulkner

DUPLAS DE AUTORES
São numerosas as duplas de escritores na história da narrativa policiária, quer marido / mulher, quer entre familiares, como no caso de Ellery Queen, que se transformou numa verdadeira instituição.
A dupla George Howard Douglas Cole e Margaret Postgate, depois Cole, que escreveram com o nome comum G D. H. e Margaret Cole 33 romances personalizados pelo superintendente Henry Wilson, que viria a ser expulso da corporação porque tentou acusar um alto funcionário do Ministério do Interior de corrupção — apesar ds sua muito possível certeza, optando por se dedicar à investigação particular
A outra dupla Richard e Frances Lockridge, ele Richard Orson Lockridge, ela Frances Louise Davis, escreveram sob o nome Frances e Richard Lockridge, criadores do casal North (Palmela e Gerard North), detectives amadores a partir de 1940 com “The North Meet Murder” cerca de cinquenta romances. Um outro personagem, o capitão Merton Heimrich aparecerá posteriormente e será utilizado por Richard após a morte da esposa.

 

24 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 268

Efemérides 24 de Setembro
Steve Miller (1957)
Steve Robert Miller nasce em Buffalo, New York, EUA. É músico, jornalista e escritor tem uma longa experiência como repórter de investigação, o que certamente lhe proporciona o material para os seus livros de crime real. No corrente ano — 2012 — é nomeado para o Edgar Award para Best Crime Fact pelo livro Girl, Wanted: The Search for Sarah Pender (2011) e tem agendado para Outubro um novo livro: Nobody’s Women: The Crimes and Victims of Anthony Sowell, the Cleveland Serial Killer.


TEMA — BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (44-46)

Volume 44 — Tiger! Tiger! (1956) Alfred Bester
(é o 2º livro do escritor incluído na Biblioteca, para ver o primeiro volume e informações sobre o autor clicar CALEIDOSCÓPIO 175


Tiger! Tiger! Conta a odisseia de Gulliver Foyle abandonado no espaço após a destruição da sya nave, a luta titânica para se libertar da morte lenta e horrível que o aguarda. Foyle foi o primeiro homem que descobriu a faculdade de teletransportar-se por mero poder da mente. Voltando à Terra descobre um século XXV fervente de tensões sociais e económicas, uma Terra que jamais voltaria a ser aquela que conhecera antes.
Nesta obra, a potencialidade nata de Bester, como escritor, arrasta o leitor para um mundo enlouquecido que jamais esquecera. Um lugar assegurado na biblioteca.



Ficha Técnica
Tiger! Tiger!
Autor: Alfred Bester
Tradução: Eurico da Fonseca
Ano da Edição: 1977
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta Nº241
Páginas: 240






Volume 45 — Double Star (1956) de Robert A. Heinlein   

Robert Anson Heinlein (1907-1908), natural do estado de Missouri, descendente de uma família de origem alemã, estudou no Kansas, frequentou a Universidade de Missouri e a Academia Naval, posteriormente trabalhou como engenheiro civil. De 1946 a 1961 escreveu uma média de dois livros por ano, sendo deste período os três primeiros livros premiados com o HUGO em 1956,1960 e 1961; foi igualmente galardoado com o mesmo troféu em 1967. Tem uma bibliografia vastíssima em todos os tipos de narrativa.


Double Star conta-nos a história de Lorenzo Smith, um actor fracassado, fisicamente parecido com o político mais importante do Império Este é raptado e há necessidade de este facto não ser público, assim Smith é chamado a substitui-lo, Opera-se então neste, uma gradual transformação de personalidade, modificando-o e humanizando-o… o final é  surpreendente!




Ficha Técnica
Estrela Dupla
Autor: Robert A. Heinlein
Tradução: H. dos Santos Carvalho
Ano da Edição: 1957
Editora: Livros do Brasil
Colecção:Argonauta Nº39
Páginas: 224





Volume 46 — The Midwich Cuckoos (1957) de John Wyndham
(é o 2º livro do escritor incluído na Biblioteca, para ver o outro volume e informações sobre o autor clicar CALEIDOSCÓPIO 169

The Midwich Cuckoos: Midwich, uma aldeia tranquila, no coração da Inglaterra rural é um dia atacada por estranha doença: enquanto nos demais locais as pessoas começavam a encher o dia com gritos de alegria, Midwich dormia… os seus aldeões, os seus cavalos, vacas, carneiros, porcos, aves da capoeira, os melros, toupeiras, ratos, tudo estava prostrado. Num momento tudo se movia, no outro silêncio absoluto só interrompido pelo sussurrar das folhas. Foi pouco depois da passagem desta estranha doença, que as mulheres, incompreensivelmente, apareceram grávidas, inclusive as solteiras que nunca haviam contactado com o sexo oposto, as viúvas que não tinha homem… nasceram crianças de olhos dourados de inteligência anormalmente elevada, capazes de dominar o homem. Havia de surgir o inevitável conflito.


Ficha Técnica
A Aldeia dos Malditos
Autor: John Wyndham
Tradução: Álvaro Simões
Ano da Edição: 1963
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta Nº77
Páginas: 243





TEMA — CONTO — MAIS CONVINCENTE DO QUE AS PALAVRAS
Homenagem ao autor Jack Edwin Moseley pelo extraordinário conto, uma visão própria da humanidade.
M. Constantino

Num outeiro dominando a empoeirada cidadezinha ficava a igreja de S. André, único lugar de adoração num raio de cinquenta milhas. O Padre Francis Grimmeon vinha das suas orações matinais para o sol ofuscante. “Quem somos nós para discutir a Tua vontade”, pensava ao percorrer os céus em busca de um farrapo de nuvem que prometesse um pouco de sombra. Não havia nenhum.
No instante em que se voltava para reentrar na igreja uma mulher chamou:
— Padre.
O sacerdote virou-se na direcção da voz e viu Marie Hébert, uma das mais pobres ovelhas do seu rebanho, a subir a rua. Nos braços grossos trazia uma criança e, trotando atrás dela, subiam quatro garotinhos pobremente vestidos, de três a seis anos.
Assim que Marie chegou aos degraus da igreja o Padre Francis sorriu, estendeu as mãos e disse:
— Bom dia, Marie. Philip, bom dia — cumprimentou o mais velho dos garotos. — Desejava me falar sobre alguma coisa, Marie?
A mulher assentiu com um gesto de cabeça e o sacerdote pegou-a pelo braço para levá-la ao santuário.
Os garotos esperaram lá fora.
— Padre — disse Marie ao entrarem juntos na câmara do confessionário. — Vou ter outro bebé.
— Isso é maravilhoso, Marie. Jon ficará muito orgulhoso. Que Deus os abençoe e…
— Mas não — interrompeu Marie vivamente. — Não devo ter este filho. Jon é muito forte e trabalha muito na fábrica de aquecedores. Jon é bom homem, mas eles pagam muito pouco. — A mulher afogueada e suada olhou para o Padre com ar de súplica como que a dizer: Não compreende?
O sacerdote ficou pensativo. Tornou a olhar para a mulher com o filho no colo.
— Que quer dizer com isso? — perguntou.
— Vim pedir a absolvição pelo que vou fazer, Padre. Porquê pôr no mundo uma pobre criança, quando não temos comida, nem cama, nem roupa? Não, Padre, não podemos ter este filho. Compreende?
A criança nos braços de Marie começou a choramingar de leve. Ela levantou-a amorosamente e embalou-a nos joelhos.
— Marie — disse o Padre após uma pausa — o teu filho já existe.
A expressão não se alterou no rosto dela.
— Este filho por nascer, Marie, tem uma alma, como este que embalas nos braços. Ele existe agora. E quando uma coisa está aqui, connosco, nós não a destruímos. Nós aceitamos e amamos, dando-lhe tudo o que pudermos. Construímos com ela e crescemos com ela.
O Padre tornou-se severo:
— Expulse estes pensamentos da cabeça. Vá ipara casa e conte a Jon. Ele se vai ficar feliz, estou certo disso. Deus agirá pelo melhor. Confia Nele.
Ao descer a rua com os filhos, Marie ia cheia de perplexidade e confusão. A próxima paragem foi o consultório do Dr. Marcus Gavin, um velho clínico que pouco se preocupava com Deus e muito menos com aqueles que se submetiam a grandes sacrifícios para provar a sua fé.
— Como vê, doutor, preciso da ajuda — disse Marie enquanto o médico lançava um olhar para as tímidas crianças que se agrupavam a um canto da sala.
— Sim, mulher, vejo que tem um problema sério — disse o velho, estendendo a mão para um dos temerosos garotos de olhos arregalados. Depois coçou o queixo por barbear e se dirigiu a passos lentos para o consultório.
Alguns segundos mais tarde voltava com uma seringa hipodérmica na mão.
— Farei o que me pede — disse — Não costumo atender a estas coisas; mas com estes quatro — apontou para os garotos que o olhavam com respeito — tem mesmo um problema sério. Hmm, creio que ajudei a trazer ao mundo a maioria desses diabinhos chorões, nestes últimos cinquenta anos. Bem, acabemos logo de uma vez. Venha cá, menino — berrou o Dr. Gavin ao caçar o garoto mais próximo, imobilizando-o na cadeira — Creio que tanto faz que seja este ou qualquer outro. Alguns dos que ajudei a nascer são verdadeiros demónios, mas alguns são bem bonzinhos, sabe?
Antes que Marie se desse conta do que estava a acontecer, o velho doutor esfregava o bracinho do garoto com álcool.
— Esta droga liquida em três minutos. Por sorte não causa dor nenhuma. Direi que foi um envenenamento dos rins. Preciso dar um atestado de óbito, entende? Bem, vamos lá. Era isso que me pedia, não é? Que matasse o seu filho, não foi?
Aterrada Marie saltou da cadeira e arrancou o filho das mãos do velho. Repentinamente percebia o que o Padre Francis queria dizer, ao afirmar que a criança já existia.
O Dr. Gavin soltou uma risada assim que o pequeno grupo voou da sala. — Ainda bem que sou o único médico na cidade — de contrário ficaria sem clientes dentro de uma semana.

23 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 267

Efemérides 23 de Setembro
Emma Orczy (1865 - 1947)
Emma Magdalena Rosalia Maria Josefa Barbara Orczy nasce em Tarna-Örs, Heves, Hungria. Muda-se com os pais para Bruxelas, Paris e Londres onde estuda Arte. Emma Orczy, ou a Baronesa Orczy é pintora, ilustradora e novelista torna-se célebre por ter criado um personagem, Pimpinela Escarlate, que surge inicialmente numa peça teatral escrita em parceria com o seu marido. Os seus primeiros contos policiários foram publicados em The Royal Magazine e posteriormente reunidos em livro.


TEMA — UM PERSONAGEM NOTÁVEL DA BARONESA DE ORCZY — O VELHO DO CANTO
É o primeiro detective que, podendo ser identificado pelo aspecto, não se lhe conhece o nome. É simplesmente o Velho do Canto. Um homem de idade que todas as tardes se coloca num canto do salão de chá ABC (Aerated Bread Company) em Norfolk Street, em plena Strand londrina, e aí, sem sair do mesmo lugar, resolve com apurada lógica os casos mistério-policiais que ocorrem, lê nos jornais ou lhe são apresentados pela jornalista Mary (Polly) J. Burton.
É um tipo estranho, grotesco, alto, que veste um extravagante traje aos quadrados, é extremamente sagaz. Entretém-se constantemente a produzir nós numa corda que sempre traz consigo
 “Eu sou apenas um amador — diz. O crime não me interessa mais do que uma partida de xadrez bem disputada, com muitos e intrincados movimentos de peças”
De facto, o crime não lhe interessa mais do que um problema, os seus exercícios de inteligência nem sequer são do conhecimento da polícia, muito menos do eventual criminoso, que pode continuar em liberdade com o regozijo do “velho” e o desespero da polícia.
Foram recompilados três grupos de contos deste personagem “The Case of Miss Elliott” (1905) com doze contos, “The Old Man in the Corner” (1909), igualmente com doze histórias e “Unrevealed Knots” (1925), com treze casos do mesmo detective
Sem a fama de o Velho do Canto, a notável autora de Pimpinela Escarlate, criou ainda dois outros detectives: Lady Molly (Molly Robertson-Kirk, (directora da secção feminina da Scotland Yard), em “Lady Molly of Scotland Yard” (1910) e o advogado Mr. Patrick Mulligan, contido em doze histórias de “Skin O’ My Tooth” (1928).




TEMA — UM CASO VERÍDICO — O HOMEM SEM IMPRESSÕES DIGITAIS
Robert James Pitts gozava de uma curiosa má fama entre os “diplomados” do sistema penitenciário da Carolina do Sul, onde Pitts cumpriu a maior parte das penas acumuladas durante sua carreira criminosa de mais de 40 anos.
O retorno mais recente à prisão ocorreu em 1970, condenado por coroar a diversificada carreira criminal com um assassinato cometido no decorrer de um assalto.
Pelos comentários feitos por observadores qualificados, Pitts não considerava a vida de presidiário um sofrimento; muito pelo contrário, alguns sugeriam até que ele era mais feliz lá dentro.
Bob Pitts era ímpar, era o único homem do mundo que poderia dizer sem mentir:
— Eu não tenho impressões digitais!
Condenados recém-chegados logo ficavam a saber da estranha peculiaridade de Pitts, mas lhes era impossível acreditar. Isso dava origem a apostas, das quais Pitts ficava com a parte do leão. E, como se isso não bastasse, ele ainda cobrava dos incrédulos uma taxa, pelo privilégio de ver aquelas mãos inteiramente desprovidas de impressões digitais.
Do ponto de vista dos agentes da lei, um escroque sem impressões digitais é um fenómeno dos mais perigosos por, pelo menos, duas razões: pode cometer uma grande variedade de crimes sem deixar vestígios e, o que é muito pior, pode espalhar pelo submundo do crime o segredo de como remover as impressões.
Pitts deliciava-se em contar sua história que começava a 30 de Outubro de 1941, uma tarde de quinta-feira, quando um carro da polícia parou ao lado de um homem de seus vinte e poucos anos
Dois polícias saltaram do carro e começaram a fazer algumas perguntas de rotina. O andarilho, sem se mostrar nem um pouco perturbado, respondeu polida e convincentemente aos polícias, os patrulheiros H. R. Owens e R. C. Levelace.
— Qual o seu nome? — perguntou Owens.
— Paul Klein — respondeu imediatamente o andarilho.
— Para onde vai? — indagou Lovelace.
— Nenhum lugar em particular — a resposta veio junto com um encolher de ombros que parecia indicar uma consciência limpa Não estou a pedir boleia. Se algum motorista me oferecer aceito, mas eu não peço favores
— Documentos — pediu Owens O jovem pareceu não se importar com o pedido e começou a tirar dos bolsos seus poucos pertences: dinheiro, lenço, um aparelho de barbear, pedaços de papel, algumas chaves, um canivete inofensivo e um isqueiro barato.
Quando os patrulheiros disseram que aquela colecção de objectos não servia para comprovar sua identidade, ele retrucou:
— Vocês terão que aceitar minha palavra. Eu não estou metido em nenhuma encrenca, não estou sem dinheiro, posso pagar o que preciso e não estou a incomodar ninguém. Só estou a viajar.
Parecia ser sincero, mas mesmo assim os dois polícias insistiram:
— E a carteira de motorista? E o certificado de reservista?
A compostura de Paul Klein não foi abalada. Com simplicidade, ele disse tê-las perdido.
Os dois polícias resolveram levar Klein à esquadra de polícia de El Paso.
Como rotina, o primeiro passo foi tirar as impressões digitais. O encarregado segurou uma das mãos de Klein, pressionou a ponta de um dedo na almofada de tinta e tentou fazer a impressão. O resultado o deixou perplexo: era uma simples mancha de tinta.
Todas as pontas eram absolutamente lisas.
O choque desta descoberta pôs o Quartel General da Patrulha Rodoviária num alvoroço total. Eles tinham sob custódia um homem cuja identificação era virtualmente impossível. E porque teria um homem removido suas impressões?
O facto foi imediatamente levado ao conhecimento de Homer Garrison, chefe do Quartel General da Patrulha em Austin, capital do Texas. Ele sabia que John Dillinger e muitos outros gangs tentaram livrar-se de suas impressões digitais queimando, raspando, descascando, lixando e submetendo-se a cirurgia, mas tais métodos só serviram para acentuar mais ainda as características individuais de suas impressões.
Mas, eis que aparece um homem que acertou onde todos os outros falharam. O chefe Garrison notificou o FBI em Washington, cujo director, J. Edgar Hoover, mal pode acreditar no que ouviu.
Era urgente descobrir--a verdadeira identidade de Klein, para em seguida descobrir quem fora o cirurgião sem escrúpulos que realizara o sinistro milagre, para evitar que ele repetisse a infâmia. E ainda havia uma incógnita de extrema importância: em quantas outras mãos ele teria realizado sua mágica?
Enquanto isso, Paul Klein contemplava a confusão com um sorriso de prazer. Os melhores interrogadores do estado nada conseguiram arrancar dele.
Tendo Garrison notado um leve sotaque sulista na voz de Klein/Pierce, resolveu telefonar para seu velho conhecido, Frank N. Littlejohn, detective chefe da polícia de Charlotte, Carolina do Norte.
Littlejohn, que desvendara ou ajudara a elucidar alguns dos casos mais importantes do Sul, só acreditou no que lhe era contado porque era Garrison quem o dizia. Mas não havia nenhum homem chamado Pierce ou Klein que fosse procurado pelo seu departamento, assim como em todos os outros em que Garrison procurara informações. Mesmo assim, Littlejohn pediu uma descrição mais detalhada de Plerce/Klein. Estava interessado no caso.
Desde Maio daquele ano ele tentava localizar um certo Robert James Pitts, um criminoso veterano, que estava a ser procurado por um trabalho feito em North Wilkesboro. A descrição correspondia à de Pitts.
O FBI segurou Pitts por três meses antes de entregá-lo a Littlejohn, mas nada obteve dele.
Littlejohn acompanhara toda a carre-ra de Pitts, desde que este era um garoto e já o tinha prendido várias vezes, conhecendo-o, portanto, muito bem. Por isto não se surpreendeu quando no dia seguinte soube que Pierce tinha confessado que o seu verdadeiro nome era Pitts. Pitts tinha contado também toda a sua carreira criminal às autoridades texanas, mas recusar-se a fornecer qualquer detalhe sobre a operação. Entretanto descobriram, não o médico, mas o sistema utilizado.
Primeiro, o doutor cortou a carne das pontas dos dedos da mão esquerda quase até os ossos. Depois as pontas dos dedos foram colocadas dentro de cortes feitos no lado direito do peito durante três semanas onde a carne, em contacto cresceu Os dedos foram então separados do peito. Assim, novas pontas foram formadas sem impressões digitais, sem afectar as unhas, nem o movimento dos dedos. O procedimento foi então repetido na mão direita.
A pena reservada a Pitts pelos seus últimos crimes foi de 26 anos.
Quando Littlejohn voltou à penitenciária um mês depois, foi com uma proposta à queima-roupa: o nome do doutor em troca de uma redução na pena. Ainda não seria desta vez que Pitts cederia, assim como não seria em nenhuma das próximas vezes que o chefe conseguiria saber alguma coisa.
Littlejohn resolveu então tentar outras pistas. Depois de muito pressionar um parente chegado de Pitts, este cedeu e disse ao polícia para efectuar uma busca cuidadosa ao quarto de Pitts.
Foi o que Littlejohn fez e depois de muito procurar encontrou entre o espelho e a maderia do armário, um cartão com o nome e o endereço de um médico em City, New Jersey.
Sem demora, Littlejohn foi à penitenciária e perguntou a Pitts:
— Como foi que conheceu o doutor Ernest Matz?
— Nunca ouvi falar de nenhum doutor Matz — veio a resposta fraca e assustada.
Uma semana depois as autoridades do presídio interceptaram uma mensagem de Pitts para o doutor Matz. Littlejohn esperou até o detido estar ansioso por uma resposta para voltar à prisão. Revelou a Pitts que a mensagem tinha sido interceptada e que a única maneira de se ajudar era ajudando à polícia. E um mês depois, Pitts finalmente “cantou”.
Quando ele estava em Alcatraz, fizera amizade com o companheiro de cela, Fritz Gumpert, famoso gangster que cumpria pena por um fabuloso roubo de um caminhão do correio americano. Ele dera-lhe o cartão do doutor Matz, acrescentando: “Se um dia precisar de algo grande use este cartão”.
Ao começar a ser procurado pelo assalto de North Wilkesboro, resolveu ir a New Jersey procurar Matz.
Lá, foi bem recebido e após três semanas, Ernest Matz ofereceu-se para remover a cicatriz da face de Pitts.
Dois meses depois, o doutor perguntando-lhe se queria ficar livre das impressões digitais, avisando-o que a dor seria infernal, o que não demoveu Pitts.
Ernest Matz foi preso e acusado de abrigar um fugitivo da justiça e de adulterar a aparência de um homem com intuito criminoso. Porém, para desgosto de Littlejohn, que tanto se esforçara, ele foi absolvido da primeira acusação, alegando que não sabia que o homem era um fugitivo, e da segunda porque o tribunal decidiu que retirar as impressões digitais não era um acto criminoso.
Pitts teve sua pena reajustada de maneira a poder sair em quatro anos e foi transferido para um campo de trabalho onde pôde receber as visitas da família. Mas, pouco tempo depois, pressionado por Littlejohn, que lhe prometia outra redução na pena, Pitts acabou por confessar o que conhecia sobre a clínica do Dr. Matz; estas pistas levaram o FBI a desvendar dois casos misteriosos, um de sabotagem e outro de assassinato.
Como fora prometido, Pitts foi libertado, e como era de se esperar, voltou ao mundo do crime. Em 1949 apanhou 21 anos por roubo e em 1969, Pitts usou uma arma contra um homem e a sentença foi prisão perpétua a ser cumprida na Carolina do, Sul.
Parece que Pitts estava feliz com a vida de prisioneiro, fazendo uso de seu status de “único no mundo sem impressões digitais” e ainda por cima facturando uns cigarros por causa disso
A 26 de Junho de 1976 terminou a vida de Robert James Pitts.
Dedos sem impressões digitais