3 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 185

EFEMÉRIDES – Dia 3 de Julho
Mário Domingues


Mário Domingues (1899 – 1977)
Mário José Domingues nasce na roça Infante D. Henrique, na Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe. Jornalista, ensaísta, romancista e tradutor publica mais de 200 obras, com destaque para temas de História ou biográficos, mas também livros de aventuras e policiários. Hoje é um escritor quase desconhecido e injustamente ignorado. No final desta mensagem TEMA com destaque para a vida e obra do escrito.
Está disponível, gratuitamente, na Internet um livro da autoria de Luís Dantas: Mário Domingues CLICAR AQUI

Evelyn Anthony (1928)
Evelyn Bridget Patricia Ward-Thomas nasce em Londres e escreve sob o pseudónimo literário Evelyn Anthony. Desde 1953 publica um total de 41 livros, os mais recentes são No Resistence (2004) e Mind Games (2005).
O Policiário de Bolso já fez referência à escritora no Dicionário de Autores Contemporâneos da Narrativa de Espionagem, no CALEIDOSCÓPIO 152 (Clicar)



William Bankier (1929)
William John Bankier nasce em Belleville, Ontario, Canadá. È redactor de publicidade, romancista e prolífico autor de short stories policiárias. Apreciado pela sua escrita inventiva, bem-humorada e com enredos sinuosos, tem publicado cerca de 100 contos no Ellery Queen’s Mystery Magazine e Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA NARRATIVA POLICIÁRIA CLÁSSICA (Parte II- a)
por M. Constantino

ELEMENTOS FUNDAMENTAIS (a)
Crime
Vítima

1. Mais ou menos aceitáveis, muitas têm sido as regras propostas para a estrutura da narrativa policiária clássica. Definitivamente, como já adiantamos anteriormente, esta apresenta-se como um relato de uma investigação, de um determinado CRIME ou DELITO — o primeiro elemento fundamental.
Toda a violação das leis penais é delito ou crime, mas é uma noção difícil de estabelecer e seria sempre imprecisa, já que é variável no espaço ou no tempo. O outrora era consentido, hoje é proibido, a muitos dos factos antes considerados criminosos são hoje lícitos. Em vários Estados do Universo legal existem crimes que a nossa lei não prevê; o contrário é igualmente possível.
O homem não pode avalizar-se apenas pelo seu conceito de justiça, se a lei é justa ou não, se está de harmonia com as condições sociais, se protege os interesses da maioria ou da minoria, se ofende os direitos daqueles a que devia proteger e dá protecção aos que não a merecem; releva, tão só, a corelação entre a lei e o caso concreto.
Cada país tem a sua criminalidade típica. A. Varatojo, com a autoridade que lhe é reconhecida, tipifica essas tendências: o crime violento, de arma na mão, organizado e desenvolvido nos sindicatos do crime, saudosamente herdado dos tempos do western americano; sóbrio mas sofisticado, ponderado, na Inglaterra; emotivo, mistificante em França; organizado e vingativo na Itália; uma amálgama de todos eles, com prevalência para a vigarice, em Portugal.
Note-se que no domínio da narrativa o crime não basta. É necessário que, sob o ponto de vista dos observadores, se mostre indecifrável quanto ao motivador ou motivadores, que seja um mistério ou enigma a resolver, Mas, sendo o crime enigma, ou crime enigmático, o eixo da narração, o autor não deve sujeitá-lo a um simples jogo. Todo o género literário tem a sua natureza artística, e reduzi-la a um puro problema lógico, desprovido de toda a sensibilidade criativa, seria da arte literária para converter o problema numa ciência exacta. Isto significa que a narração deverá reunir valor artístico -literário bastante para se impor como realidade no campo literário geral.
Tudo pode começar por um crime simples, como no “Caso de Erro Fatal” de Fran Grubber;

Johnny olhou para o homem morto. A sua morte, logicamente tinha sido causada por uma arma de fogo, pois o tiro atravessara-lhe a testa. Ora Oliver Darcy, o tio de Ethel, o homem que a ia processar: era aquele homem que ela viera visitar trazendo uma arma na bolsa.

Ou mais complicado, um mistério de quarto fechado, como em “O Nome na Vidraça”, de Edmund Crispin:

… encontrava-se caído no chão… um punhal, que mais tarde descobriu ter sido roubado da casa, estava enterrado logo abaixo da sua omoplata esquerda. Nele não foi encontrado o mais leve sinal de impressões digitais… as janelas fechadas a prego, nenhuma porta secreta, chaminé por demais estreita para permitir a passagem do bebé e, na poeira do corredor, apenas uma série de pegadas feitas indubitavelmente pelo próprio morto… uma caixa vazia…

Não obstante a referência genérica ao crime, a prática reduz-se a algumas, poucas, espécies delituosas, nas quais o assassinato é o mais visado.

2. Um outro elemento fundamental é a VÍTIMA. Porventura o personagem menos destacado, mas nem assim dispensável: poderá observar-se, com reservas, que aparece como que cumprindo uma obrigação — morrer — para preencher o drama e honrar o enigma subjacente narração.
A sociedade moderna está positivamente intoxicada pelo materialismo e pelo egoísmo que endurece o coração dos homens e a vítima revela-se na história e é prontamente esquecida.
Na época romântica os escritores propunham-se atrair sobre ela sentimentos de antipatia, atribuir-lhe defeitos, distinguindo-lhe a avareza, a crueldade, vícios tais de ordem a criarem a ideia de que merecia na realidade, um fim delituoso.
É exemplo o conto de Conan Doyle, “ O Estrela de Prata”, no qual a vítima é descoberta:
… na charneca, uma depressão em forma de bacia e lá no fundo o cadáver do infeliz treinador. Tinha a cabeça esmagada por um golpe dado com alguma arma pesada. A coxa estava ferida com um golpe longo e simétrico ocasionado, evidentemente, por um instrumento muito afiado…

Mas referindo-se-lhe, logo acrescenta:

John Straker que, pela calada da noite descera aos estábulos e tirara de lá o Estrela de Prata. Mas com que fim? Evidentemente com um fim desonesto… Straker levava uma vida dupla e mantinha uma segunda casa…

Numa outra alternativa, se o criminoso contém os defeitos enunciados relativamente à vítima, é um depravado ou mentalmente anormal, então, por contraste, a vítima seria uma pessoa repleto de bondade e inocência, compreensiva, por puro jogo de equilíbrio.
Em um terceiro aspecto, onde brilha a perícia da polícia científica, não obstante as manifestações de ordem moral concernentes aos personagens, para compreensão e brilho da narrativa, a vítima decide, só, por si, a sorte do inquérito.
O exame do corpo e a sua posição, o vestuário, extensão dos ferimentos e localização, manchas de sangue, etc., são indícios precisos, tais como sinais externos, pegadas, e vestígios de vária ordem. A autópsia da vítima e análise laboratorial impõe-se sempre que uma pessoa morre em consequência de ferimentos, e quando não há testemunhas oculares seguras da ocorrência. Frequentemente as respostas correctas são difíceis, pois é muitíssimo natural que um assassino, que tenta escapar, coloque a sua vítima em circunstâncias tais que, pelo aspecto, aparente acidente ou suicídio.
Da investigação minuciosa e atenta do orifício de um projéctil, o percurso deste no corpo, conclui-se a distância, a trajectória e ângulo do tiro; a observação das lesões leva a determinar não só se foram produzidas antes ou depois da morte, como a natureza da instrumento ou arma utilizada; pela análise química dos órgãos verifica-se a causa da morte, a presença de produtos tóxicos, etc., etc.
Não há dúvida, porém, que quer na realidade quer na ficção, nas mãos da medicina legal, a vítima é “actor indiscutível”, e as conclusões insuspeitadas, amiudamente surpreendentes.
De quando em quando não existe vítima, melhor, o corpo desaparece, as dificuldades são, evidentemente maiores, é o exemplo de “Wolf to the Slaughter” de Ruth Rendell (“O Jogo da Navalha” na tradução portuguesa).
Mais difícil, não impossível, a vítima pode transformar-se em criminoso — “O Vingador” de Brian Garfield — mas não adiantemos.
(continua)


TEMA — APRESENTANDO UM AUTOR — MÁRIO DOMINGUES
De Raul Ribeiro
Mário José Domingues, ou simplesmente MÁRIO DOMINGUES, escritor de raça negra nascido na Ilha do Príncipe em 3 de Junho de 1899 e falecido, em Lisboa, no dia 24 de Março de1977, é um dos maiores testemunhos em como são enormidades e parvoíces racistas as teses que defendem ser a raça negra uma raça de pessoas cujo grau de inteligência é inferior ao da raça branca.
Mário Domingues foi um multifacetado homem de letras, tendo manifestado o seu talento em diversos sectores da vida cultural em Portugal.
Efectivamente, foi um dos melhores jornalistas portugueses, tendo levado a cabo reportagens memoráveis em que o repórter se metia por dentro dos assuntos, vivendo-os directamente, para depois escrever sobre eles. Foi assim que surgiram reportagens como “Um Jornalista na Mitra”, “No Limoeiro”, etc.
A maior parte destas reportagens foi publicada no semanário “Detective” de que foi um dos fundadores em 1932 e director. Trabalhou também como jornalista no semanário “Repórter X”, do seu amigo Reinaldo Ferreira, igualmente como ele, jornalista e escritor policial.
Como historiador, a sua obra é notável. Escreveu biografias das figuras mais importantes da nossa História, bem como de outros grandes vultos da História Mundial, e, não raras vezes, introduziu elementos novos, fruto não só da sua laboriosa consulta nas obras que lhe serviam de suporte, mas também da sua extraordinária capacidade de raciocínio lógico e analítico, sempre presentes nos seus livros de temática policiária.
Como escritor de ficção, escreveu vários romances, de que se destaca “O Preto do Charleston” (1930). No que diz respeito à literatura juvenil, escreveu sob pelo menos pseudónimos da dupla Henry Dalton/ Philip Gray vários romances.
Aquando das suas famosas reportagens enquanto director do semanário “Detective”, familiarizou-se com os assuntos de carácter policial, e, a experiência então adquirida, ajudou-o a escrever dezenas e dezenas de romances policiais sob vários pseudónimos.
A sua primeira novela policial, “O Homem Sem Boca”, apareceu na colecção “Novela Policial”, de Reinaldo Ferreira, e por condicionalismos de espaço terá ficado incompleta. Anos depois, no “ABC Policial” nº 1, do Dr. Artur Varatojo, Mário Domingues dá o final lógico a essa novela.
Sob o seu nome escreveu unicamente um romance policial: “O Crime de Sintra”, que foi incluído na colecção “Detective”, onde ainda esteve anunciado outro romance que não chegou a aparecer. No entanto, sob pseudónimos vários, Mário Domingues, escreveu dezenas de romances policiários. Alguns desses pseudónimos são conhecidos já, mas há ainda imensos que continuam ainda no desconhecimento do público.
Para bem da literatura policial e até da cultura portuguesa, seria bom que fosse dado público conhecimento de todos os outros pseudónimos de Mário Domingues.

Os que são conhecidos são os seguintes:
— Fred Criswell
— Henry Jackson
— James Black
— Joe Waterman
— Marcel Durand
— Max Felton
— Nelson MacKay
— Peter O'Brion
— Thomas Birch
— W. Joelson

Estes são os conhecidos. Alguém sabe dizer os outros?


OBRAS POLICIAIS DO AUTOR

Sob o seu nome
? — O Homem Sem Boca
1926 — Uma Tragédia Mesquinha
1938 — O Crime de Sintra

Sob o pseudónimo de Fred Criswell
1937 — O Salteador de Mulheres
? — O Acusador Invisível ?
—A Vingança do Legionário

Sob o pseudónimo de Henry Jackson
1937 — O Polícia Demónio
1937 — Quem paga o Cheque?
1940— O Último Gangster
? — Os Brilhantes Falsos
?— O Engenhoso Alibi

Sob o pseudónimo de James Black
1937 — O Suicídio É Inevitável
1937 — O Homem Réptil
1938 — O Segredo do Índio
1941 —A Tragédia do Palhaço
? — No Gang entra uma Mulher
? — A Marca do Degredo

Sob o pseudónimo de Joe Waterman
1937 — O Contrabando de Mulheres
1942 — A Seita Tenebrosa
? — Rivais Frente a Frente

Sob o pseudónimo de Marcel Durand
1938— O Degredado da Guiana
1943 — Um Homem Aniquilado

Sob o pseudónimo de Max Felton
1942 — A Esfera Misteriosa
1945— Meia Noite e Doze

Sob o pseudónimo de Nelson McKay
1937 — O Colar da Felicidade
1937 — O Crime da Louca
1941 — O Cão Polícia
? — A Casa Blindada
? — A Reportagem Fatal

Sob o pseudónimo de Peter Olrion
1944 — Pegadas no Caminho

Sob o pseudónimo de Thomas Birch
1937 — O Brinquedo Trágico
1938 — Na Cadeira Eléctrica
1942 — O Punhal Envenenado
? — Eis a Provai

Sob o pseudónimo de W. Joelson
— O Rapto de Miss Damby
— Os Forçados da Ilha Sem Nome
— Um Crime nas Ruas de Nova Iorque
— O Tenebroso Mistério do Bairro Chinês
— A Mulher Jogada aos Dado
— A História Sem Nome dum Homem Sem Pernas
O Clube dos Gangsters
— Um Grito no 65º Andar
— A Dança do Sabre
— O Mercador de Crime
— O Navio Sem Pátria
— O Penitenciário 1022
— Chang Contra Savil
— Uma Batalha no Pacifico
— Gregor Mão de Ferro
— O Bruxo do Oriente~
— Savil Contra Savil
— A Vingança de Chang
— Um Golpe à Traição
— A Última Proeza de Savil

Retrato de Mário Domingues

 Autor: António Domingues, filho do escritor

2 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 184

EFEMÉRIDES – Dia 2 de Julho
William Le Queux (1864 – 1927)
William Tufnell Le Queux nasce em Londres. Jornalista e escritor de 150 novelas na sua maioria mistérios, thrillers e espionagem. As obras de maior sucesso, escritas antes da 1ª guerra mundial, envolvem histórias fictícias de infiltração de potências estrangeiras ou possível invasão da Grã-Bretanha por parte da Alemanha. The Great War In England In 1897 (1894), The Invasion Of 1910 (1906), e The Seven Secrets (1903) são um verdadeiro êxito editorial na altura da sua publicação.

Mark Billingham (1961)
Mark Philip David Billingham nasce em Birmingham, Inglaterra. Actor, comediante é um autor bestseller de policiários. Cria série Tom Thorne, um detective londrino, iniciada em 2001 com Sleepy Head e com o 10º livro Good As Dead, publicado em Agosto de 2011. Mark Billingham escreve também os romances In The Dark (2008) e Rush Of Blood (2012) e, sob o pseudónimo Will Peterson, cria Triskellion, uma série de thrillers para crianças. A obra do escritor tem sido distinguida com vários prémios e nomeações: Scaredy Cat (2002) ganha o Sherlock Award para Best Detective Novel e é nomeado para o Gold Dagger da Crime Writers Association; LazyTbones (2003) ganha em 2004 Theakston’s Old Peculiar Crime Novel of the Year Award; Lifeless (2005) é nomeado em 2006 para BCA — Crime Thriller of the Year Award; Death Message (2007) ganha mais um Theakston’s Old Peculiar Crime Novel of the Year Award em 2009 e por fim In The Dark é nomeado em 2009 para o Gold Dagger.

Agnete Friis (1974)
Nasce em Copenhaga. Escritora e jornalista e escreve em parceira com Lene Kaaberbøl já referida nas efemérides de CALEIDOSCÓPIO 84 (clicar)



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA NARRATIVA POLICIÁRIA CLÁSSICA (Parte II)
por M. Constantino

HISTORIOGRAFIA
Criação
Sequència
Anterioridade
Pós – Poe
Idade de Ouro
Futuro

1. É ponto assente que o criador ou pai do género foi Edgar Allan Poe (1809-1849), com a publicação no Graham's Magazine daquela que é considerada a primeira narrativa policiária — “Os Assassinatos da Rua Morgue”.
Poe, cria não só um novo género literário, como inventa o moderno detective ou investigador: Dupin — no dizer de Locassin: “um arquétipo literário; o detective amador, o homem que coleccionava enigmas como os outros coleccionavam objectos”.

2. Exemplo da narrativa policiaria semi-real, igualmente da pena de Poe, é “O Mistério de Maria Roget". Na verdade, o autor serviu-se de factos reais — o assassinato de Marie Cecília Roger; — extraído dos jornais da época, para idealizar toda uma narrativa e solução coerentes com o enigma. Sem contacto com o local em que o facto ocorreu ou com os envolvidos na tragédia, empiricamente, através do interferências e plausíveis, faz Dupin desvendar o enigma sem sair do seu domicílio.
Poe esfacela assim os limites entre o real e o ficcional.

3. Com anterioridade a Poe, tem-se admitido, não sem alguma razão, a existência de passagens literárias que bem se podem considerar mais ou menos detectivescas, pelo menos do ponto de vista da indução e dedução.
A história de “Daniel” e “Casta Susana”, no Antigo Testamento; Arquimedes no “Tratado de Arquitectura” de Vitrúvio; um texto de “Eneida” referenciado a uma dedução de Hercules sobre pegadas; os contos de “Os Três Chefes da Polícia”, e “Dalila”, nas “Mil e Uma Noites”; um conto de Canterbury, de Chaucer; Zadig, de Voltaire; etc, etc., são exemplos de observação e análise tão perfeitos como os constantes dos escritos de Poe e seus seguidores.

4. Têm igualmente importância, do ponto de vista em causa, “The Castle of Otranto” de Horace Walpole, “The Mysteries of Udolpho” de Ann Radcliffe, “Der. Geisterseher” de Schiller, e outros da época se bem que o enredo pouco tenha de policiário e muito de sobrenatural, mas a técnica da descoberta das soluções, para cada caso, é idêntica à usada pelos escritores de narrativas detectivescas.

5. Após Poe há um compasso substancial, porém, na segunda década do aparecimento do género que havia criado, há um movimento substancial, como se os autores reconhecessem enfim o valor daquele tipo narrativo. Desse arranque sobressai Conan Doyle através de Sherlock Holmes (1887), sem dúvida o mais famoso e perdurável das representantes. Todavia, se as histórias de Holmes mereceram destaque especial, outras são de recordar e reler; é, de resto, a Idade Notável da narração curta, a qual terminou com a I Guerra Mundial — o período, claro, não a narrativa…

6. No período entre as duas guerras “A Idade de Ouro”, revela-se a decadência imediata, na qualidade e número, da narrativa curta, prevalecendo na medida inversa a forma de romance.
É o período de Rinehart, Christie, Chesterton, Sayers, Carr, Queen, Van Dine, Simenon, etc., etc..
O género criou leis dedutivas rigorosas, um código de hábeis recursos e regras de jogo próprias, que são um perpétuo repto dedutivo á inteligència e imaginação dos inúmeros leitores.

7. Os intentos de violar as normas típicas da narração policiária ou de as reconverter, são patentes em Hammett e Chandler (máscara negra) e William Irish (suspense), influem particularmente na quebra da popularidade daquela.
Não faltam vozes (Jacques Barzun em “Catalogue of Crime” que avançam pelo seu desaparecimento. ou, discordantes (Julian Symons, em “Bloody Murder From the Detective Story to the Crime Novel: A History”).

8. A verdade, é que coexistindo com todas as tendências, continuam a escrever-se e a publicar-se, contínua e aceleradamente, narrativas, detectivescas. Todos os dias surgem novos autores, novos métodos de investigação consoantes com o processo técnico, novos tramas, e versões, que não afastam totalmente os tradicionais, demonstram o evidente Propósito da substância do género e excluem, desde logo, a sumamente improbabilidade do seu desaparecimento.

9. Algo, porém, é fundamental, Que os autores rectifiquem as intoleráveis e toscas redacções das suas histórias, não escrevam narrativas policiárias por desfastio entretinimento o por dinheiro, a boa literatura deve uma unidade absoluta, o tema é que pode variar. E não estamos sós quando afirmamos que o tema policiário é omais difícil de idealizar e de escrever, exige saber contar, saber escrever com arte e inteligência.
(continua)



TEMA — ANATOMIA DO CRIME — MENSAGEM TEVELADORA

Na madrugada de 2 de Novembro de 1917, em Bloomsbury, a oeste de Londres, um jardineiro que iniciava o trabalho, encontrou um pacote deixado ma orla do parque central de Regent Square. A curiosidade fê-lo descobrir um saco de carne, contendo o dorso e os braços de uma mulher. Colocado no saco, um bocado de papel comum a mensagem escrita a lápis “Blodie Belgiam”. Quando recuperou do choque, participou à polícia. Ainda havia de passar algum tempo para se encontrar a cabeça. No entanto encontrou-se no lençol que envolvia o dorso a marca da lavandaria (II H.), por onde se descobriu que se tratava da senhora Emilienne Gerard, de nacionalidade francesa, com residência no nº50 de Munster Square. Significativo foi o facto de não ser vista desde a noite de 31 de Outubro.
Um exame ao apartamento permitiu à polícia reunir algumas peças para recompor a história da desaparecida. O sorriso de uma fotografia de Louis Voisin — como se apurou — contemplava os agentes do rebordo da chaminé, onde fora colocada a moldura.
Era um francês expatriado, carniceiro de profissão, amante da vítima, residente numa cave em Charlotte Street que partilhava com uma amiga Berthe Roche.
Voisin não negara o conhecimento com Madame Gerard, havia estado com ela no dia 31 de Outubro e, sabendo que se ausentava para França em visita ao marido ofereceu-se para ficar com o gato de estimação. Não voltara a vê-la.
O lendário Inspector Chefe Frederick Porter Wensley da Scotland Yard assumiu a direcção da investigação. Informado pelo departamento que o desmembramento estava de acordo com os processos decidiu usados pelos carniceiros franceses convocou Voisin para o interrogatório na esquadra, do qual não obteve qualquer informação, a não ser o conhecimento já referido de que Emilienne tinha partido para França. No dia seguinte o Inspector decidiu efectuar uma experiencia que poderia relacionar, de forma concludente, o suspeito com o despojos encontrados em Regent Square.
Através de um intérprete, para não haver mau entendimento, perguntou a Voisin se tinha algum inconveniente em escrever as palavras “Blody Belgium”. Voisin acedeu e com a mão lenta de quem conhece apenas o alfabeto escreveu “Blodie Belgiam”. O erro e a letra coincidiam com a nota encontrada. Wensley pensou e disse que talvez não estivesse tudo bem, e tentasse escrever de novo. Escreveu cinco vezes com o mesmo erro. Na última escreveu praticamente o original. Tudo apontava para o culpado, mas não era prova para tribunal. Nem sequer se identificaram os despojos com segurança.
Pouco tempo depois apareceu um novo pacote com pernas, mas a chave do enigma, que era a cabeça identificativa continuava sem aparecer.
A conexão final foi estabelecida e o sargento detective Alfred Collins, recebeu ordens para visitar a adega de Charlotte Street e ao tirar a tampa de um barril, descobriu a cabeça e as mãos delatoras com as impressões digitais de Emilienne Gerard.
Quando preso e acusado, Louis Voisin limitou-se a encolher os ombros e a murmurar: — Má sorte! Fez uma declaração completa que envolvia Berthe.
Julgados, face à sentença, Voisin foi executado em 2 de Março de 1918. Berthe Roche, por participação no assassínio, foi condenada a sete anos de prisão, onde enlouqueceu, morrendo numa instituição de doentes mentais, onde fora internada.

Adega de Voisin - Foto da época

1 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 183

EFEMÉRIDES – Dia 1 de Julho
James M. Cain (1892 – 1977)
James Mallahan Cain nasce em Annapolis, Maryland, EUA. Jornalista nos anos 20, mais tarde argumentista em Hollywood e escritor é um dos criadores do romance negro. É considerado como um dos mestres do género Hard Boiled, com violência e conteúdo sexual, embora o autor recusasse esse título. Em 1934 publica o primeiro livro, The Postman Always Rings Twice, que foi por duas vezes adaptado ao cinema com sucesso. No total escreve 18 romances de mistério/detective, 2 peças de teatro e 3 argumentos para cinema. Em Portugal estão registadas as seguintes edições:
1 – O Destino Bate À Porta (1966), Colecção Miniatura, Livros do Brasil. Título Original: The Postman Always Rings Twice (1934).
2 – Pagos A Dobrar (1984), Nº2 Colecção Horizonte Romance, Editora Horizonte. Título Original: Double indemnity (1936).
3 – Alma Em Suplício (1984), Nº4 Colecção Horizonte Romance, Editora Horizonte. Título Original: Mildred Pierce (1941).
4 – Serenade (1985), Nº7 Colecção Horizonte Romance, Editora Horizonte. Título Original: Serenade (1937).



William L. DeAndrea (1952 – 1996)
Nasce em Port Chester, New York, EUA. Colunista e escritor de policiários publica o seu primeiro romance Killed In The Ratings em 1978, também o primeiro da série Matt Cobb, que tem 8 livros editados. O autor, admirador de Nero Wolfe, cria a série Niccolo Benedetti (3 títulos) que pretende ser uma homenagem aos grandes detectives e escreve ainda a serie de espionagem Clifford Driscoll. William L. DeAndrea recebe 3 Edgar Awards: em 1979, Best First Novel com Killed In The Ratings (1978); em 1980 Best Paperback Original com The Hog Murders (1979; em 1995, Best Critical Work com Encyclopedia Mysteriosa - A Comprehensive Guide to the Art of Detection in Print, Film, Radio, and Television (1997).


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA NARRATIVA POLICIÁRIA CLÁSSICA (Parte I)
por M. Constantino

PROPOSIÇÃO
Definição
Realidade
Ficção Narrativa Clássica

1. Considerando o hibridismo de que se reveste, qualquer definição generalizada da narrativa policiária, com apriorismo, apresenta dificuldades inultrapassáveis.
A classificação ainda que excessivamente ambígua, resulta na observância de determinada narração, a qual na sua concepção se contém numa manifestação criminal.
A norma comum da sua arquitectura, impõe que a intriga seja concebida a partir do problema ou enigma, a impossibilidade da sua resolução e o desvendar do mistério.
2. Numa primeira fase há que distinguir a narração imaginária da verdadeira.
Neste último campo é necessário determinar se o conteúdo é puramente real ou se se está em presença de uma crónica novelada. Não é indiferente por “no mesmo saco” as “Memoires” de Vidocq, descrição da vida e aventuras do célebre polícia francês, a biografia de Al Capone, uma história dos crimes da Máfia, a recompilação de crónicas forenses, julgamentos e crimes célebres, que correspondem a factos reais, e a novelização desses mesmos factos, nos quais podendo seguir embora directrizes reais são rodeadas de alguma fantasia, bastante para criar a tensão do mistério e intriga indispensáveis ao interesse do leitor.

3. Pelo contrário, o romance, a novela, o conto, o problema policiário — jogo lógico de raciocínio proposto por revistas e jornais como passatempo — são ficção pura, circunscritos à habilidade, fantasia ou imaginação dos autores. Carecem de realidade, movimentando-se na adopção de modalidades e procedimentos ardilosos de cada autor.
É nesta expectativa que se distinguem a ficção detectivesca de aventuras policiais, da máscara negra, suspense ou psicologia criminal.

4. Resumindo esquematicamente

NARRATIVA POLICIÁRIA



Vida de Vidoc

REAL
História da Máfia


Crónicas, artigos




SEMI REAL
A Sangue Frio (novelização de Truman Capote)





Romance
Detectivesco Puro
(clássico)
FICÇÃO
Novela
Aventuras Policiais

Conto
Máscara Negra

Problema
Psicologia Criminal
ou de Crime






5. No que concerne à narrativa de detective (base temática a desenvolver), a clássica narração que origina todo o género policiário, na prática, nenhuma dificuldade resulta, aparentemente, em diferenciá-la dos outros géneros policiários.
Estrutura-se na existência de um crime ou delito misterioso ou enigmático (por tal também se apelida de “narrativa de enigma”, já que a designação de “mistério” é muito mais ampla e pode aplicar-se a toda uma generalidade) face ao qual o detective, investigador ou simples curioso, recorrendo a pistas e interrogatórios desmascara o culpado.
Pode ocasionalmente ocorrer a não existência de crime, tão só a presunção da sua existência. É o caso contido em “Os crimes da Rua Morgue”, na qual não existia delito humano, as mortes misteriosas, se bem que constituam enigma bastante para dar lugar a uma investigação e consequente descoberta da verdade.
Uma outra derivação do género, mas nele incluído, é a chamada narração “invertida”. Nesta, sabe-se quem cometeu o crime, e como foi cometido, residindo o interesse em seguir o trabalho de detective na vida árdua da investigação, registar as pistas que o criminoso inadvertidamente deixou ao cometer o crime, até à sua identificação.

6. A narrativa pura, clássica ou de detective, faz efectivamente do problema ou enigma a desvendar, todo o centro -de gravitação do seu interesse, ao redor do qual gira toda a história, O enigma actua como desenvolvimento da narrativa, e a busca da sua solução, a elucidação ou explicação é o motor que impulsiona e mantém todo contexto.
É evidente que o autor frequente e genericamente inclui aspectos individuais, sociológicos, fantasiosos terroríficos, etc., para dar impacto à obra e confundir leitor, contudo, qualquer que seja essa derivação determina sempre a resolução do enigma fulcral,
(continua)


TEMA — ALGO DE SOBRENATURAL — DÍVIDA ANTIGA
De Severina Fortes
Não seria talvez o primeiro dia de verdadeiro verão nesse ano, no entanto era decerto aquele em que o senti verdadeiramente no sangue e no espírito.
Estivera doente, muito doente, e convalescia. O meu corpo sedento de sol e ar impeliu-me para a rua. E, sem saber bem como, reminiscências infantis levaram-me ao Cais das Colunas, à beira do rio Tejo, onde tanta vez em criança ia ver os barcos.
Não, o Tejo já não parecia o mesmo. Estava sujo e cheirava mal. As águas, agora mais baixas, deixavam ver detritos que constrangiam.
Levantei os olhos aos mastros dos barcos, filtrei como pude apenas o cheiro a maresia e segui pela Ribeira das Naus, rumo ao Cais do Sodré.
O encanto mantinha-se. Ali estava a Estação da linha de comboios para Cascais. Quantas vezes, e aí revia-me como era então, juvenil e alegre, quantas vezes embarcara nesses comboios a caminho das praias, praias ainda suficientemente limpas para serem usadas com confiança!
Porque não ir até Cascais de comboio? Havia tanto tempo que não utilizava esse transporte…
Comprei um bilhete e entrei na gare. Um comboio acabava de partir, mas não me importei. Entrei no que seguiria primeiro e sentei-me na última carruagem. Estava vazia. Escolhi um lugar junto da janela, ao lado do rio, ajeitei melhor os meus óculos de sol e esperei.
Os lugares foram ficando ocupados, mas só distraidamente o percebia, entretida a ver as gaivotas e perguntando a mim própria se ainda haveria delfins no Tejo como havia na minha adolescência, saltando fora de água e mergulhando em redor dos barcos que nos levavam à Trafaria.
Um barulho mais vivo fez-me olhar os meus companheiros de viagem e, como sempre me acontece quando viajo num transporte público, admirei intimamente a extraordinária ordem da Natureza que nunca reúne, num grupo de pessoas, duas semelhantes. Haverá qualquer excepção, mas-regra cumpre-se sempre.
Logo que habituei os olhos à claridade menos intensa do interior da carruagem, reconheci a senhora sentada na minha frente. Não havia dúvidas: era a Clementina, a minha companheira de classe na escola primária. Desde então não mais a vira, mas era ela sem engano possível. Do outro lado e mais atrás um grupo conversava e ria; um grupo de mulheres em que reconheci antigas condiscípulas da mesma classe e que provavelmente sempre ficaram a conviver e ali também estavam.
A coincidência chocou-me. Pensara em princípio dar-me a conhecer a Clementina, no entanto uma espécie de receio, ainda vago mas a delinear-se, fez-me calar.
Olhei de novo o rio já bravio, um “mas” minha tarde esplêndida.
Não espero que me acreditem. Nem eu própria que vi e assisti ainda acredito. Uma a uma reconhecendo todas as ocupantes do compartimento. Todas condiscípulas da mesma escola, todas mulheres sensivelmente da minha idade. Nenhuma criança, nenhum homem e, com excepção daquele grupo, ninguém parecia reconhecer-se.
Tive medo, medo puro, sinal de alarme dentro de mim perante um acontecimento ilógico.
Entretanto o comboio partira. Ainda havia lugares vagos, talvez que na estação seguite entrassem passageiros diferentes…
 Esperança vã que logo se desvaneceu!
Mais duas passageiras conversando, mais duas ex-companheiras e só um lugar sem ninguém Talvez que na outra estação saíssem alguma: que os passageiros que entrassem dessem novo ambiente.
Entrou um homem idoso. Olhei-o com curiosidade. Reconheci-o, sim, conhecera-o em tempos, mas não me lembrava de onde.
Não podia ser verdade. O que estava a acontecer nunca, mesmo nunca acontece!
No entanto acontecia com aparente naturalidade naquela tarde magnífica de sol e diante dos meus olhos. E porque só aos meus? Teria a doença por que passara deixado em mim traços que davam um poder de receptibilidade super normal?
Não sei.
Fiquei apavorada. Impulsivamente levantei--me e dirigi-me à porta de saída, resolvida a sair no primeiro apeadeiro. Logo que parámos quis abrir a porta e sair, mas, cheia de terror, um terror incrível que me fazia transpirar uma viscosidade que nunca sentira no meu corpo, verifiquei que a porta encravara.
Ia gritar. Tinha que gritar. Olhei para todas, todas aquelas mulheres com quem brincara, que tratara por tu, com quem passara horas e horas e que agora me horrorizavam como fantasmas insensíveis.
Do outro lado da carruagem a porta de ligação abriu-se. Reanimei-me. Ali estava uma saída.
Com uma calma aparente que ainda hoje me dá admiração, atravessei pela coxia aquele grupo de pesadelo, parei para deixar passar o revisor que tinha entrado e fui para a saída.
Na minha intensa tensão havia alívio, um alívio que me queria penetrar mas que um auto-domínio doloroso não deixava.
No mesmo instante, embora o intervalo me parecesse longo, muito longo mesmo, o revisor chamou-me. O bilhete. Sim, era isso. Nada havia de mais natural. Olhei-o enquanto lhe estendia o cartão para ser perfurado com o alicate próprio e, ali na minha frente, voltei a ver de bibe infantil o Fernando, o filho da contínua da escola; conhecê-lo-ia em qualquer lado pela mancha vermelha junto do ouvido esquerdo e pelos olhos azuis deslavados.
Já com o bilhete na mão fiquei estática. Não sei o que foi mais forte em mim, se o medo, se o espanto.
Que fazia ele no meio de nós? O que o levaria ali? Não andara na nossa classe, pois esta era feminina e, mesmo ele, era mais novo uns anos.
Afastou-se de mim e falou ao homem, ao único homem que além dele ali estava, e foi então que me lembrei. A verdade atingiu-me então e deu-me forças para me arrancar àquele lugar. Corri para a porta, abri-a sem dificuldade, e isso maravilhou-me, andei até ao fim do outro compartimento, esperando avidamente a paragem.
Desci a tremer receosa por cair. Dei uns passos e sentei-me num daqueles bancos que a estações da linha têm.
Devia ter um ar transtornado, pois as pessoas que passavam fitavam-me intrigadas.
Não sei quanto tempo para ali estive sem querer pensar em nada. Quando o princípio de uma ideia surgia, afastava-a, não a queria.
Mas a verdade soubera-a ao reconhecer motorista da carrinha da escola, ao lembrar-me daquele passeio a Cascais que a classe fizera no último ano e no qual leváramos o pequeno Fernando, estimado por todas. Fora um passeio bonito e o dia estivera assim, tal e qual, mas só por um triz escapámos da carrinha ter caído por uma ribanceira, desastre esse do qual dificilmente teríamos escapado, a não ser alguém com muita sorte.
Entardecia quando reuni forças para falar aos meus, pedindo para me irem buscar. Estava abatida, abalada e triste.
Sentia uma amargura extrema, uma certeza dentro de mim que eu não queria definir e me desgostava como um presságio.
Mas aquilo que eu não queria admitir, num; espécie de auto-defesa, e a que teimosamente fechara o espírito, transmitiu-o o locutor da televisão nos documentários do acontecimento durante noticiário, enquanto mostravam, em reportagem a última carruagem, desfeita, do comboio onde eu fora num impulso infantil; carruagem que se soltara e despedaçara, assim como os corpos quo levava dentro, levados a pagar uma velha dívida a que eu escapara, por sorte, a tal sorte que salva vidas de desastres pavorosos ou, quem sabe, eu não devesse nada e só fosse levada a testemunhar que nada foge impunemente à ordem das coisas estabelecidas.
A Natureza espera, mas não perdoa.