28 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 241

Efemérides 28 de Agosto
Jack Vance (1916)
John Holbrook Vance nasce em San Francisco, Califórnia, EUA. Autor premiado de fantasia e ficção científica, publica também 11 romances policiários que assina com o seu nome ou sob os pseudónimos Peter Held, Alan Wade e Ellery Queen. O seu romance The Man In The Cage (1960) recebe em 1961o Edgar Award para Best First Novel, porque apesar de ser o 3º livro policiário do autor é o primeiro que assina com John Holbrook Vance.


TEMA — ALGO SOBRENATURAL — CONCLUSÃO E EPÍLOGO DE O DIABO
Existe, na realidade dessa época, uma manifestação favorável à reabilitação do Príncipe das Trevas, após o ligeiro recuo na obra do A. Soumet “Divine Épopée” (1840), onde volta a ser imolado. Em “La Fille du Diable”, poema de 1941-1843, do J. P. Béranger, o Divino chega a derramar uma lágrima ante as súplicas da filha de Satanás em favor do pai; em “Merlin L'Enchanteur” (1869) é o filho que consegue o perdão da diabólica figura; em “La Prière Pour Tous” (1880) é Victor Hugo que intercede pelo Demónio;em “La Pitié Suprême” (1879) fá-lo salvar-se graças ao próprio filho que é igualmente Deus, morrendo em “La Fin de Satan” (1854-1886) para ressurgir como arcanjo que foi.
Escreve-se:
O arcanjo ressuscita e o demónio acaba
Acaba a noite para que dela nada reste
Satanás morreu, renasce Lúcifer celeste.

Outras possibilidades de resgate ou conversão surgem em obras como: “Les Noces de Satan” (1890), de J.Bois, “La Tristesse du Diable” (1866) de Leconte de Lisle, “Crime Amoris” (1873) de Verlaine, “Festus” (1839) de T. S. Bailey, “Satan Absolced” (1899) de W. Blunt. Em contrário, porque o seu egoísmo o faz fracassar nos propósitos de salvação através do amor de uma mulher, em “O Demónio”, de M. Lermontov.

Apesar da persistente obstinação em procurar a libertação, é vã a esperança.
Encontramo-lo no épico poema do M. Rapisardi, “Lucifero” (1877) ligado do novo a Prometeu para livrar a Terra das trevas no drama de R. Dehmel, Lúcifer (1899) chega a ser glorificado como portador da luz e alento dos homens; tem um defensor em Bernard Shaw que em “Man and Superman” (1903) o faz aparecer como o primeiro defensor da soberania do espírito individual.
Em “La Revolte des Anges” (9114), de Anatole France, o demónio, como verdadeiro imérito de truques, provoca uma revolta de anjos pretendendo demonstrar que não quer ser duro com Jeová, remetendo-se à qualidade do oprimido em lugar de opressor. O seu melhor papel, não obstante, revela-se como crítico o satirizador da sociedade, qualidade sobejamente comprovada em “The Mysterious Stranger” (1911), de Mark Twain, e “Tagebuch des Satans” (1920) de Leonid Andraiev.

Desnecessário continuar citações, aliás abundantes, já que, contemporaneamente as bibliotecas podem fornecer elementos de consulta bastante, quanto à temática, nos últimos anos do Século. E, não obstante, de realçar, e isso é por demais evidente na literatura exposta, a preocupação de uma filosofia
de interpretação do personagem, manifestamente pela face mais generosa.
Os céus escurecem…
No fantástico moderno, a força maléfica do Diabo é destrutiva, obsessiva e terrífica. Os demónios aparecem em forma de pensamentos mais secretos, como a projecção do nosso “eu” que inquietante, sinistro e estranho assume a voz do “outro”.
Sou eu, eu mesmo e não tu quem fala… nem por um momento te considero realidade… tu és uma mentira, a minha doença, o meu fantasma… uma alucinação. És o fruto de mim mesmo… és eu só que com outra cara. (Irmãos Karamazov, Fiódor Dostoiévsky).

Em Peter Schlemihl, uma simples sombra, a sombra do demónio,”cada vez mais sinistra”. O terror mais intenso, o da imaginação:
Ela tentou ignorar o ruído, mas acabou por abrir os olhos pesados.
Um grito de pavor, tão aterrador quanto a visão contida na sua frente, brotou-lhe da garganta.
A porta do armário estava escancarada revelando o seu conteúdo macabro, que olhava para ela com olhos de bode a boca aberta num sorriso hediondo era a cabeça do demónio pintada nos murais…

A CONCLUIR:
O universo inteiro é constituído de modo a estabelecer um fosso que separa o bem do mal. Toda e qualquer coisa pertence necessariamente a um destes reinos. Temos assim os elementos opostos por pares, como a luz e a escuridão, os perfumes e o fedor, a saúde e a doença, o prazer e a dor, a vido e a morte, todos e cada um, alinhados nos partidos opostos do BEM e do MAL — assim o disso o teólogo Edward. Langton, por outras palavras.
O homem tem de fazer um esforço para separar esta dualidade nos seus propósitos, porque no mundo do espírito tudo é forma, intenção, movimento, finalidade e plano e, no contexto das realidades, as criaturas livres necessitam escolher diante das alternativas.
Para escolher o BEM é necessário distingui-lo do MAI, a indispensabilidade pois, de um Diabo, lendário, artificial, existente, sobretudo elucidativo, é manifesta, porquanto, como observa Franz Kafka:
Um dos mais eficazes artifícios da sedução do Diabo, é provocar-nos ao seu combate.

A primeira ilação:
O diabo… força de equilíbrio na balança da consciência humana.

Do estudo dos temas de terror fantástico, mil motivos heter‘eL lites se podem alinhar: os fantasmas sinistros que visitam os locais dos seus crimes, almas penadas que não têm repouso, vampiros sedentos de sangue, feiticeiros e magos em pleno poder e usa dos livros mágicos e sinais cabalísticos que tudo transformam, homens-lobo, animais monstruosos, seres disformes, loucos criminosos ou macabros que gozam de poderes extraordinários cadáveres inquietantes, sádicos, morte atroz, etc. nenhum tema, nenhum personagem iguala o estremecimento de terror sobrenatural provocado pela imagem ou sugestão do Diabo.
É um medo que ultrapassa o controlo do imaginado; espasmo horrível que atinge, ao mesmo tempo, o pensamento e o coração.
Num artigo famoso, Freud disse que “unheimlich” (sinistro) é algo que na infância sempre nos foi “heimlich” (íntimo, familiar) e se tornou esquecido mediante o processo de refreamento. Nada menos que alguma coisa em que acreditamos, sentimos, ou de que não tivemos dúvidas nessa época remota do nosso passado — algo como a existência do personagem — alguma coisa que vivemos, tínhamos no nosso “ego” um extracto de consciência nebulosa, tão íntimo, tão desconhecido, a manifestar-se como ameaça a simples invocação do demónio.

A segunda ilação:
A teoria psicanalítica da “origem” imprime ao personagem o lugar privilegiado da literatura de terror…

A terceira e última ilação
O diabo é um protagonista sempre de carácter inconclusivo.


27 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 240

Efemérides 27 de Agosto
Ira Levin (1929 – 2007)
Nasce em The Bronx, New York City, EUA. Dramaturgo e romancista recebe o Edgar Award pelo seu primeiro romance A Kiss Before Dying (1953), que está adaptado ao cinema em duas versões — 1956 e 1991. Ira Levin é também o autor do conhecido bestseller internacional, Rosemary’s Baby (1967), adaptado ao cinema por Roman Polansky — exibido em Portugal com o título A Semente do Diabo. Escreve também Deathtrap (1978), uma peça de teatro em dois actos, que é o suspense mais antigo em exibição na Broadway, também adaptada ao cinema e vencedora do Edgar Award de 1980 para Best Play. Em Portugal estão editados:
1 – A Semente Do Diabo (1969), Nº12 Colecção Cinema, Portugália Editora. Título Original: Rosemary’s Baby (1967). Reeditado pelas Publicações Europa-América com o Nº611 Colecção Crime Perfeito.
2 – Os Meninos Do Brasil (1980), Círculo de Leitores. Título Original: The Boys From Brazil (1976).
3 – Silver: Violação Da Privacidade (1993), Nº34 Colecção Crime Perfeito, Publicações Europa-América. Título Original: Silver (1991).



TEMA — ALGO SOBRENATURAL — O DIABO NA LITERATURA
É utópico ousar citar o primeiro texto puramente da ficção literária com particular protagonismo do DIABO. Evidentes razões sentimentais arrisca-se lembrar as comédias teatrais de Gil Vicente representadas de 1502 a 1536,nas quais é um personagem nada terrificante nem estranho pelo contrário, é um agente risonho o bom aceite, crítico incisivo por vezes insolente.
Encontramo-lo, todavia, mais autonomizado no poema épico de Du Bartas denominado “La Semaine ou Création du Monde” (1578), nas tragédias “Adamus Exul” (1601) de H. Grotius e “Lucifer” (1654) de Joost van den Vondel. Nesta última o autor faz uso da tradição talmúdica, na qual o arcanjo seus partidários se opõem à criação do homem. Lúcifer não é ali apresentado como um espírito ambicioso ou maligno, mas como um anjo que luta consigo mesmo face ao horror de ter empreendido um caminho errado e do qual não consegue desviar-se.
Num poema do mesmo autor descreve-se a metamorfose física do Diabo em seguida à queda moral:

Tal como a claridade do dia se transforma em noite escura
No momento em que o Sol desaparece;
Assim, quando Lúcifer cai no abismo,
A sua beleza transforma-se numa fealdade repelente.
O seu rosto radioso transforma-se num focinho feroz;
Os seus dentes, presas aceradas, capazes de roer o metal;
Os pés e as mãos tornam-se garras;
As cores variegadas das suas vestes dão lugar a uma pele negra;
Das suas costas, eriçadas de pelos, saem duas asas de dragão…
O Seu corpo reúne num único monstro
As formas horrendas de sete animais:
Um leão cheio de orgulho, um porco glutão e voraz.
Um asno preguiçoso, um rinoceronte encolerizado,
Um macaco lascivo e sem pudor, um dragão dominado pela inveja,
Um lobo que e a imagem da avareza sórdida

Em “Paraíso Perdido” (1667), a grande obra de Milton, mostra-se igualmente um Diabo mais carecido de compaixão do que de crítica, um anjo-herói, que se sabe antecipadamente derrotado, se auto condena e sente piedade pelos seus companheiros de luta, com ele condenados às penas do Inferno.
A literatura da Idade Média é bastante crítica para o personagem — reduzem-no particularmente ao papel de tentador, sedutor, mau conselheiro — como o exemplificam as novelas de Lesage “Le Diable Boiteux” (1707) e “Le Diable Amoureux” (1772) de Cazotte.
Com “Messias” (1748/1773) o autor alemão Klopstock, faz regressar a figura à posição de anjo caído, castigado por Cristo, na tradição representada por Milton.
O espírito bom de Lucifer como portador de uma nova luz para os homens, que devem saber a verdade da vida, é celebrada em “Jamben” (1784) pelo conde Stolberg. No poema “Address to The Devil” (1785), de R. Burns, o autor inglês expressa mesmo a esperança, de que Satanás se salve da ira de Deus.
No mesmo sentido da sua reabilitação se propõe Goethe em “Fausto I” (1805) e “Fausto II” (1832), apresentando-o como um espírito quo sempre quer o mal e pratica o bem.
Em “Le Genie du Christianisme” (1802), F.R. Chateaubriand afirma que o Satanás cristão é uma fugura mais poética do que os deuses pagãos, colocando-o em “Les Martyres”, a novela que escreveu em 1810, como o protagonista do paganismo em luta com o cristianismo e inspirador da Revolução Francesa; com igual intenção temática escreve “Les Natchez” entre os anos de 1797 e 1800, mas só publicada em 1826.
Como um viajante burlão e blasfemo na prática da sátira social apresenta-se na poesia “The Devils” (1813), como senhor do mal, revela-se em “Manfred” (1816), am1go do homem em rebelião contra Deus, aparece em “Cain” (1821), defensor da Justiça em “The Vision of Judgement” (1821), Prometeu do futuro em “Heaven and Earth”, todos de Lord Byron, este último comparável do ao Prometeu de Shelley em “Prometheus Unbound” (1820).
A. de Vigny prevê a salvação daquela alma perdida em “Satan Sauvé”, poema de 1824, argumento com continuidade em “Une Larme du Diable” (1839), de Gautier, que põe o Demo a chorar comovido com a bondade e inocência de umas jovens. Deus, porém, não permite a redenção.
(continua)


TEMA — POEMETO — OS LÍRIOS NÃO MURCHAM…
De Cutelle Mendés
Morreu Suzette. Tinha apenas quinze anos. Pobre querida! Tão nova sob a terra fria…
Colocaram-na num caixãozito do tamanho dum berço. E encomendaram a um canteiro uma pedra tumular com esta inscrição:
E aqui que repousa Suzette, morta aos quinze anos.
Eu vim de longe, de muito longe, para pedir um beijo que ela me prometera quando era pequena. Mas alguém, disse-me no caminho.
— Como! Não sabe? Morreu Suzette. Apenas com quinze anos e já morta!
— Não acredito, repliquei. Há no povoado tanta gente velha que ainda vive… e depois não é na Primavera que murcham os lírios.
Mas só me responderam:
Colocaram-na num caixãozito do tamanho dum berço!
No cemitério procurei, entre os túmulos, o da pobre criança, e como não o encontrasse, perguntei ao coveiro:
— Sabe-me dizer onde enterrararn a Suzette?
— Não sei positivamente. O que lhe posso dizer é que sobre o túmulo dela há uma pequena inscrição…
Mas a alguns passos dali, um botão de rosa branca, tão branca como a neve, entreabria-se trémulo para o céu. Ah! Como a gente se sentia bem ali. Que perfume em volta de nós!
— Provavelmente, disse comigo mesmo, é aqui que repousa Suzette, morta aos quinze anos, em pleno Abril…
Aguarela Steve Greaves


26 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 239

Efemérides 26 de Agosto
John Buchan (1875 – 1940)
Nasce em Perth, Escócia. Politico e diplomata com uma extensa obra literária, em especial no campo do ensaio, história, literatura, militar etc., mas também escreve 14 romances policiários, distribuídos por 3 séries protagonizadas por Richard Hannay, Sir Edward Leithen e Dickson Mc’Cunn. Em Portugal as Publicações Europa-América editaram na Colecção de Bolso - Clube do Crime os livros Os 39 Degraus e Os Três Reféns, (clicar).


Gerald Kersh (1911 – 1968)
Nasce em Teddington-on-Thames, Londres. Começa a escrever com apenas 8 anos de idade. Autor de terror, ficção científica, fantasia e detective, especialista em contos, publica ainda19 romances. Na sua obra literária destacam-se a colectânea de contos Prelude To A Certain Midnight (1947), os romances Fowlers End (1957), The Implacable Hunter (1961) e The Angel And The Cuckoo (1966). O conto The Secret Of The Bottle (1958) ganha o Edgar Award para Best Short Story. O autor escreve também sob o pseudónimo P. J. Gahagan.



TEMA — LITERATURA POLICIÁRIA — DOIS INESQUECÍVEIS
Por M. Constantino
Dois nomes, dois escritores, qualquer deles de elevada craveira literária: Buchan e Kersh.
Em Buchan não se pode deixar de lembrar o esplendor da sua obra na temática da espionagem. “The Thirty-Nine Steps” levado ao grande ecrã em 1935 por Alfred Hitchcock, protagonizado por Richard Hannay, que será personagem de ficção de mais cinco aventuras, é uma figura inesquecível.
Richard, um jovem engenheiro escocês, tal como o seu criador, ao regressar à Escócia vê-se envolvido inopinadamente com problemas de espionagem, primeiro com dificuldades, depois extraordinariamente. Há quem afirme que a sua figura retrata o general do Serviço Secreto britânico, Edmund Ironside, alcunhado de Tiny — uma contraposição irónica à sua elevada estatura.
Kersh, autor menos conhecido entre nós, é mais interessante no domínio do conto — cerca de 3000! — que se desdobra em dois grupos. O primeiro aborda o “crime-story”, o outro explora as aventuras do seu herói preferido Karmesin. Mas não é de Karmesin “ o mais inteligente, colossal mentiroso” e “maior e mais honesto vigarista e ladrão do planeta” que vamos falar, o conto em memória de Kersh, terá sido o seu último escrito completo.


CONTO — VISÃO DE CARRASCO
De Gerard Kersh
Poindexter, o velho carrasco que me ensinou a profissão, mandou-me chamar antes de morrer.
Sentei-me na cama.
— Deseja alguma coisa? Que tal um pouquinho de conhaque?
Tirei uma garrafa de um dos bolsos. Mas o velho Poindexter balançou a cabeça, dizendo:
— Não, obrigado Balsam. Não quero nada. Beberei um ovo batido com leite quente e um pouco de açúcar. Se quiser, tome um pouco de conhaque… lembre-se, no entanto de minha advertência. Sempre lhe falei sobre os perigos do álcool, sobretudo antes de um trabalho, qualquer trabalho, principalmente um trabalho importante como o que você tem a fazer, Balsam.
— Eu sei, Sr. Poindexter. O senhor foi sempre um pai para mim — respondi.
— Realmente, como qualquer um podia notar, sempre me interessei por si como por um filho. Ensinei-lhe sua profissão, não foi? Podem, dizer o que quiserem, mas irei para a história como o Primeiro Carrasco Científico. Sabe muito bem. Os outros… bem, simplesmente matavam os homens. Eu, eu executava-os. Foi mais ou menos durante a época do assassinato de Barton Place, quando aperfeiçoei o que hoje eles chamam Forca de Poindexter. Lembra-se? Foi em 1897…
— Nesta ocasião eu ainda era aprendiz — disse-lhe — e a Forca Poindexter foi anterior a mim, Sr. Poindexter, mas mesmo assim, recordo-me. Foi o senhor quem me treinou, não poderia esquecer.
Ele falava comigo com o ar um pouco severo, fazendo lembrar um professor quando fala a um aluno nervoso no momento do exame, com medo de ser desapontado, encorajando-o e aconselhando-o.
— Você precisa atender este caso singular. Eu não chegarei a ver a operação terminada. É o que os jornais chamam Ironia do Destino. Você é um rapaz de sorte, caro Balsam, um rapaz de sorte! — disse Poinclexter.
— Para falar verdade, odeio este caso. Estive quase a ponto de dizer que estava doente e deixar que alguém ocupasse o meu lugar — disse.
Poindexter levantou-se e, com uma voz enérgica disse:
— Não! Isto seria negligência, e nunca se deve agir assim! Nunca finja que está doente para fugir ao serviço, Balsam, senão eu…
Depois, melancolicamente perguntou-me:
— Quem tomaria o seu lugar?
— Sr. Poindexter, prometo não desapontá-lo. Mas bem gostaria que o senhor estivesse atrás de mim!
— Ouça, meu rapaz. Senti-me como você quando executei a Sra. Nardwick por ter assassinado o marido, quinze anos antes. Naquela época eu ainda tinha nervos, juro! Como sabe, há uma certa diferença entre executar uma mulher e um homem. Espero que nunca tenha que executar uma mulher! — disse Poindexter.
Não vamos entrar em detalhes, filho, mas a Sra. Nardwick ficou na minha mente durante bastante tempo
— Da forma como eu trabalho, Sr. Poindexter, não pode doer — disse-lhe.
O velho carrasco abanou a cabeça e disse:
— Eu não posso estar a seu lado para, Ihe ensinar o caminho certo, portanto, preciso de me assegurar de que tomará as suas próprias iniciativas, sem me desapontar, caro Balsam. Vamos, meu filho, agora já tem os pesos e as medidas estabelecidas?
— Altura: um metro e oitenta. Peso: 87 quilos.
— Pescoço?
— Dezassete polegadas, Sr. Poindexter.
— Não muito forte. Que forca usaria? perguntou o velho.
— Não tenho muita certeza. Eu diria… uma de seis pés.
— Espere! O cliente é um pouco pesado e há a musculatura do pescoço. Use uma forca de cinco pés — gritou Poindexter.
— O senhor é quem manda.
Disse que precisava de me ir embora e acrescentei:
— O senhor não quer mesmo um pouco de conhaque?
— Não obrigada, meu rapaz. Estou muito velho para adquirir novos hábitos. Encontro-o às oito horas na Yard. Tenha sempre a mão firme e, lembre-se, sincronize, sincronize. Sempre… Aliás, somente por uma questão de segurança, é melhor usar uma forca de seis pés, em vez de cinco — disse o Sr. Poindexter. — Tenha cuidado para não esfolar a minha pele, Balsam. Não me vá decepcionar, agora.


TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR — AS LENDAS E…
Continuação CALEIDOSCÓPIO 238
A tradição da existência da Atlântida e o seu desaparecimento deste continente compreende-se num ponto intermédio entre a lenda e a realidade, pois que para além da citação de Platão, nada mais que pura especulação se pode adiantar quer quanto a sua existência quer quanto a sua localização algures.
O grande filósofo grego, que viveu em Atenas no Século IV a.C. falou de Atlântida no texto de “Timeu” e no “Cristias”:

A Atlântida era uma ilha maior do que a Líbia e a Ásia juntas e os viajantes da altura podiam transportar-se desta para outras ilhas e destas chegar a um continente na margem oposta do Oceano que merecia realmente o seu nome. Nesta ilha Atlântida, os seus soberanos tinham construído um império grande e maravilhoso, compreendendo toda a ilha, outras ilhas e a parte do próprio continente… numa só noite as chuvas extraordinárias… espantosos terramotos destruíram a distante terra dos atlantes que ficou coberta pelas ondas do mar…

O mistério deste fabuloso Império tem desafiado a imaginação humana. Contam-se por centenas os temas literários que abordam o assunto nos mais diversos aspectos, desde a ciência a filosofia, a arte, a exploração, à física.
Em “The Romance of Evolution”, de Frederick H. Martens - que s2. Pomos nao traduzido em portugUs recolhem-se as lendas, referências antigas, indicações geológicas, para revelar um fantasioso mas convincente e terrível “fim do mundo”, nas últimas horas da Atlântida:

… ouro dos céus empalidece e transforma-se num cinzento espectral. Minuto a minuto a palidez acentua-se; o negrume cresce, transforma-se em púrpura e, no mar, cresce um vento forte como um gemido estranho e alto.
Um silêncio súbito abate-se sobre milhares de pessoas; as canções interrompem-se, as gargalhadas, os gritos, as conversas cessam e morrem. O vento geme, cresce, cresce, cresce num grito histérico, agudo, arrepiante…
… sem avisar, os vulcões ardentes explodem
Colunas de lava ardente, chamas ofuscantes elevam-se quilómetros no céu…
…os homens, as mulheres, as crianças correm desesperadamente… chuva negra de fuligem… de lava incandescente e zumbidora cai doas céus, junta-se às torrentes negro e acinzentadas da lava fundida que escorrega das montanhas…
… um choque tremendo rasga a cidade ao meio!
… durante um momento, um abismo enorme, terrível, abre-se perante milhares de olhos que nunca mais verão o Sol!
Nas entranhas da terra aberta arde uma grande e maravilhosa rosa de fogo; dela sai um vento forte e quente onde milhares de pessoas que o respiram soçobram como moscas de asas queimadas. Mas a rosa incandescente no coração da terra é vista apenas um momento… no seguinte, outro choque absorve palácios e templos, as águas do Atlântido irrompem do abismo e inundam tudo… levantou a ilha, a grande ilha, movendo-a em estranhos círculos, e lentamente, como pedra lisa, perde-se sob as ondas… centenas de metros sob as águas.
… minutos antes,
os homens riam, cantavam,
as aves gorjeavam…
… minutos depois, não há rasto de um só ser vivente, nem uma alma sobreviveu…
e o ar e o céu ficaram tranquilos como a morte!

É o Apocalipse
Exterminarei da superfície da Terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves do céu, porque me arrependo de os ter criado.

25 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 238

Efemérides 25 de Agosto
Ed Lacy (1911 – 1968)
Leonard S. Zinberg nasce na cidade de Nova Iorque, EUA. Correspondente de guerra, especialista em contos para revistas, a sua eleição por personagens de raça negra e carácter anti-racista, transformam num êxito o seu primeiro romance, Walk Hard, Take Loud (1940) em que se integra no mundo do boxe. De género criminal escreve The Woman Aroused (1951), Sin In Their Blood (1952) etc, mas foie m 1957 com a criação do detective negro Toussaint M. Moore em Room To Swing que obtém o pleno e o Edgar Award 1958 para Best Novel. Com o mesmo personagem, publica em 1964 Moment Of Untruth. Em 1965, um outro personagem de raça negra, Lee Hayes, desta vez não um polícia privado, mas um membro da polícia de Nova Iorque, que aparece em Harlem Underground, seguindo-se In Black & Whitey (1967). Lacy é o criador da relativa moda dos detectives privados de raça negra, com muito escasso avanço sobre Chester Himes, um tema já abordado em CALEIDOSCÓPIO 168 (clicar), O autor publica entre 1951 e 1969 três dezenas de livros policiários. Em Portugal é possível encontrar registo das seguintes obras:
1 – Um Milhão De Dólares (1958) Nº 14 Colecção Policial Nova Série, Editorial Notícias. Título Original: Be Careful How You Live (1958), também editado com o título Death End.
2 – Elma (1964) Nº 64 Colecção Enigma, Livraria Ática. Título Original: Enter Without Desire (1957). É o 1º livro da série David Wintino.
3 – Cinzas Do Outro Crime (1964) Nº 72 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: Lead With Your Left (1954).
1 – Marcado Para Morrer (1967) Nº 66 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: (?).
4 – Armadilha (1967), Nº 75 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: (?).
5 – Strip Em Violência (1968) Nº 79 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Strip For Violence (1953).
6 – A Hora Da Mentira (1968) Nº 116 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: Moment Of Untruth (1964). É o 2º livro da série Toussaint M. Moore.
7 – Lamentai Os Honestos (1968) Nº 91 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Pity The Honest (1965).
8 – O Traidor (1969) Nº 109 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Napalm Bugle (1968).
9 – O Castelo Do Prazer (1970) Nº 128 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: The Sex Castle (1963), também editado com o título Shoot It Again.
10 – Lee (1972) Nº 163 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: The Woman Aroused (1951).
11 – Preto E Branco (1974) Nº 183 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: In Black & Whitey (1967). É o 2º livro da série Lee Hayes.
12 – Negócio Mortal (1974) Nº 327 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: A Deadly Affair (1960).
13 – Um Quarto Para Morrer (1975) Nº 336 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: Room To Swing (1957). É o 1º livro da série Toussaint M. Moore.



Frederick Forsyth (1938)
Nasce em Ashford, Kent, Inglaterra. Piloto da RAF, repórter e jornalista escreve o seu primeiro livro The Biafra Story em 1969, é um livro de não ficção baseado na experiência do autor como correspondente de guerra da BBC em 1965. Em 1971 publica The Day Of The Jackal, um thriller bestseller que recebe o Edgar Award para Best Novel e lança o autor numa carreira literária de sucesso. Frederick Forsyth tem publicados até 2010, perto de duas dezenas de romances, entre os quais se contam grandes sucessos — alguns com adaptações ao cinema. Destacam-se ainda: The Odessa File (1972),The Dogs Of War (1974), The Devil's Alternative (1979), The Negociator (1989), Avenger (2003), The Afghan (2003), e The Cobra (2010). Em Portugal a Editora Livros do Brasil tem vindo a editar a obra do autor na Colecção Dois Mundos (clicar).



TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR — AS LENDAS E…
1ª Parte
Nas lendas milenárias das raças setentrionais, no poema sagrado dos povos escandinavos ou hiperbóreos, o FRIO é o elemento destruidor do planeta:
… três invernos consecutivos, três invernos que durarão três anos inteiros, assolarão a Terra numa invasão lenta e persistente até que o globo se tenha transformado numa geleira.
Toda a vegetação perecerá; os animais, as campinas e as florestas serão pouco a pouco cercadas por um círculo de gelo, avassalador, impossível de reter, e a última chama de fogo extinguir-se-á, como o último círio num funeral.
As montanhas fender-se-ão, o mar vomitará algas, os mais exóticos peixes das profundidades e os restos desmantelados dos barcos todos os tempos, serão expulsos dos abismos, surgirão a flutuar à superfície numa reminiscência cruel de já esquecidas tragédias.
O Sol, os astros e as estrelas extinguir-se-ão. O mar terá invadido a terra inteira e destruiu toda a vida.
… sobre este mundo devastado, mundo sem luz…, as últimas cinzas ou vestígios deste mundo, que antes havia sido a Terra, perder-se-ão dispersos por um oceano sem fim…

Contrariamente, os povos da zona tórrida, os hindus, profetizam o fim em resultado do CALOR ou do Fogo:
A Terra, abrigando no seu seio o espírito do mal, a génese da injustiça e do crime, indignar-se-á e as montanhas cairão expulsando de seu Interior torrentes de fogo devastador. Tudo desaparecerá?

Vivendo há séculos numa terra apenas fecundada pelas inundações periódicas do Nilo, habituados a esperar todos Os benefícios e calamidades do comportamento desse rio, não poderiam os egípcios concebeu outro fim do mundo que no fosse por intermédio desse rio. Admitindo, pela sua mitologia, grandes mudanças geográficas e convulsões periódicas da natureza, profetizam que o país, onde não chove, ficará mergulhado no calor ardente resultante do Sol do estio
Dentro de três mil anos, em vez de inundar o Egipto com as suas águas benéficas, o Nilo inundará de fogo o mundo inteiro e toda a Terra perecerá nas chamas espalhadas por esse rio.
A Terra sagrada de Hermes desaparecerá transformada em fumo…


Os grandes continentes, os antigos grupos de humanidade e civilizações, terão desaparecido afundados por cataclismos indescritíveis.
A sua existência baseia-se em tradições e documentos, contestados por vezes, mas fundamentados outros em dados e investigações científicas de extrema seriedade.
No fim da Era Terciária, aproximadamente entre a Baía de Hudson e à Groenlândia, situava-se a Hiperbórea. Os escritos antigos descrevem-na como um continente do norte que teria sido habitado por homens de raça branca, de cultura elevada e dotados de clarividência.
Á exploração do solo desta região permitiu descobrir restos de plantas, árvores e animais confirmativos da existência de uma civilização muito anterior.
No hemisfério oposto, em simetria com Hiperbórea, um outro continente ocupava a actual Antárctida unindo a América do Sul a África e a Madagáscar e um tanto mais: era a Condwana ou Lemúria.
Nas tradições dos povos de Ceilão, Madras, Índia Meridional e Java, dá-se a Lemúria como o berço de todas as civilizações. Os lemurianos seriam menos numerosos e brilhantes que os seus semelhantes do lado oposto.
Apoiados nos indícios e vestígios longamente analisados pelos geólogos e cientistas seria errado não admitir a existência do conhecido continente designado por Mu o berço dos arianos e boémios, que usavam o símbolo da suástica, pavilhão do desaparecido Império do Sol, que remontaria a 150000 anos ou mais e cujo apogeu dataria de 75000 anos.
Numa época em que, de acordo com os teoristas, as Américas, a Europa e a África ocidental formavam um bloco, a deslocação do eixo da Terra na sequência de uma colisão com um planeta ou asteróide gigantesco que teria surgido na sua trajectória, produzira a oscilação dos continentes, da qual resultou a fractura na crusta terrestre, ocasionando maremotos em sucessão — um dos cataclismos mais devastadores de todos os tempos — e provocou o desaparecimento do continente lendário.
A Atlântida imergia no oceano.

Hiperbórea
Fonte: Wikipedia