3 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 155

EFEMÉRIDES – Dia 3 de Junho
Jo Barnais (1891 – 1970)
Georges Auguste Charles Guibourg Mantes-la-Ville, Yvelines, França. Cantor e comediante, tem uma carreira de sucesso no teatro musical e é um dos cantores mais populares na França dos anos 20, com o nome artístico Giorgius. Mas é também no campo da escrita que se destaca, como argumentista para cinema e como autor de romances policiários publicados pela Editora Gallimard na famosa Colecção Série Noire, que assina com o pseudónimo Jo Barnais: Mort Aux Ténors (1956), Tornade Chez Les Flambeurs (1956), Crochet Pour Ces Dames (1958), Arrêtez Le Massacre! (1959), À Toi De Donner (1959), Flics-Flacs (1960) e Du Bromure Pour Les Gayes (1962).


Don Brown (1960)
Nasce em Plymouth, North Carolina, EUA. Oficial da US Navy no JAG (Judge Advocate General's Corps - o ramo legal da lei e justiça militar) durante 5 anos, começa a sua carreira como escritor com Treason (2005), que inicia a série Navy Justice, ou série Zack Brewer. O livro é um bestseller. Segue-se Hostage (2005), Defiance (2006), Black Sea Affair( 2008) e Malacca Conspiracy ( 2010). O autor cria ainda a série Pacif Rim, que tem 2 títulos publicados Thunder In The Morning Calm (2011) e Fire Of The Raging Dragon (2011).



TEMA — PEQUENOS GRANDES CONTOS DA LITERATURA UNIVERSAL — O ASSASSINO De Guy de Maupassant (1850 – 1893)
O culpado era defendido por um jovem advogado, um estreante, que falou assim:
— Os factos são irrefutáveis, senhores jurados. O meu cliente, um empregado irrepreensível, delicado e tímido, assassinou o seu patrão, num momento de cólera que surge como incompreensível. Quereis deixar-me fazer a análise psicológica deste crime, se assim se pode falar, sem nada atenuar e sem nada desculpar? Vós, a seguir, julgareis.
Jean-Nicolas Lougère é filho de gente honesta, que fez dele um homem simples e respeitador.
Aí está o seu crime: o respeito! É um sentimento que nós hoje já não conhecemos, cujo nome parece ainda existir, mas cujo poder desapareceu já de todo. É preciso penetrar na intimidade de certas famílias modestas e de hábitos antigos, para aí encontrar essa tradição severa, essa religião das coisas ou do homem, do sentimento ou da crença revestidos dum carácter sagrado, essa fé que não suporta nem a dúvida nem o sorriso, nem sequer o aflorar duma suspeita
Não se pode ser um homem honesto, um verdadeiro homem honesto, em toda a extensão e força deste termo, sem se ser respeitador. O homem que respeita tem os olhos fechados. Ele crê. Nós, cujos olhos estão largamente abertos sobre o mundo, que vivemos aqui, neste Palácio da Justiça que é o esgoto da sociedade, aonde vêm desaguar todas as infâmias; nós, que somos os devotados confidentes de todas as misérias humanas, os sustentáculos, para não dizer os gozadores de todas as tristezas e de todas as patifarias, desde as dos príncipes até às dos varredores da rua; nós outros que acolhemos com indulgência, com benevolência, com uma complacência sorridente todos os culpados, para os defender diante de vós; nós que, se amamos realmente a nossa profissão, medimos a nossa simpatia de advogado pela grandeza do crime; — nós não podemos ter a alma respeitadora. Nós vemos demasiado este rio de corrupção que vai desde os chefes do Poder até ao último dos tratantes. Nós sabemos bem como se passa tudo, como tudo se dá, como tudo se vende: lugares, funções, honras; brutalmente, em troca dum punhado de oiro, directamente substituídos por títulos ou comparticipações em empresas industriais, ou mais simplesmente obtidos por um beijo de mulher. O nosso dever e a nossa profissão forçam-nos a nada ignorar, a suspeitar de toda a gente, porque toda a gente é suspeita; e ficamos surpreendidos quando nos encontramos em face dum homem que tem, como o assassino sentado diante de vós, a religião do respeito tão poderosa que por ela se torna mártir.
Nós, senhores, temos a honra como temos cuidados de limpeza, por antipatia pela podridão, por um sentimento de dignidade pessoal e de orgulho; mas não trazemos no fundo do nosso coração a fé inata e brutal deste homem.
Deixai que vos conte a sua vida.
Ele foi educado, como educavam antigamente as crianças, a separar em duas partes opostas todos os actos humanos: o bem e o mal. Mostraram-lhe o bem com uma autoridade irresistível, que fez com que o distinguisse do mal como se distingue o dia da noite. O pai não pertencia à raça de espíritos elevados que, olhando de muito alto, vêem as fontes das crenças e reconhecem as necessidades sociais donde nascem essas distinções.
Ele cresceu, pois, religioso e confiante, mas com uma visão acanhada das coisas.
Aos vinte anos casou. Fizeram com que desposasse uma prima, educada como ele, simples como ele, pura como ele. Teve a inestimável sorte de possuir por companheira uma mulher honesta, de coração recto, quer dizer, de possuir aquilo que há de mais raro e de mais respeitável na terra. Tinha por sua mãe a veneração que envolve as mães nas famílias patriarcais, esse culto profundo que se reserva às divindades. E ele levou para sua mulher um pouco dessa religião, atenuada de leve pelas familiaridades conjugais. E assim viveu numa ignorância absoluta da mentira, num estado de rectidão obstinado e de felicidade tranquila, que fizeram dele um ser à parte. Não enganando ninguém, nem suspeitava sequer que o pudessem enganar. Algum tempo antes do seu casamento entrara como “caixa” para M. Langlais, que foi assassinado por ele.
Nós sabemos, senhores jurados, pelos testemunhos da Senhora de Langlais, do seu irmão M. Perthuis, sócio de seu marido, de toda a família e de todos os empregados superiores desse banco, que Lougère foi um empregado modelo, em probidade, em submissão, delicadeza, deferência e zelo.
Tratavam-no, de resto, com a consideração merecida pela conduta exemplar. E ele habituara-se a essa homenagem e à espécie de veneração testemunhada à Senhora de Lougère, cujo elogio andava em todas as bocas.
Após dez anos de vida em comum, porém, a sua mulher morreu com uma febre tifóide.
Ele sentiu intensamente uma dor profunda e calma, de coração metódico. Somente na palidez e na alteração da fisionomia se viu até que ponto tinha sido ferido.
Então, senhores, passou-se uma coisa bem natural.
Este homem estava casado há dez anos. Após dez anos estava habituado a sentir sempre junto dele uma mulher. Estava acostumado aos seus cuidados, à voz familiar quando entrava em casa, ao adeus da saída, ao bom dia matinal, a esse doce ruído de vestidos femininos, a essas carícias amorosas e maternais que tornam leve a existência, a essa presença amada que faz menos lentas as horas. Estava talvez habituado também aos cuidados materiais da mesa, a todas as atenções que se não sentem e que se tornam a pouco e pouco indispensáveis. Já não podia viver só. Então, para passar os intermináveis serões, criou o hábito de se ir sentar num botequim vizinho ao banco. Bebia uma cerveja e lá ficava a olhar distraidamente as bolas de bilhar, uma atrás das outras, no meio de fumo dos cachimbos, escutando sem dar atenção às disputas dos jogadores, às discussões dos seus vizinhos a respeito da política, ou às gargalhadas que, por vezes, do lado oposto da sala, uma anedota levantava. E frequentemente acabava por adormecer, cheio de lassidão e aborrecimento. Mas ele tinha no fundo do seu coração e no íntimo da sua carne a necessidade irresistível dum coração e duma carne de mulher; e, sem reparar nisso, cada dia se aproximava mais do balcão onde se sentava a caixeira, uma pequena loira, atraído por ela, irresistivelmente, porque era uma mulher.
Em breve conversaram e ele habituou-se ao doce costume de passar todas as noites a seu lado. Ela era graciosa e provocante, como convém a esse namoro de sorrisos, e divertia-se a renovar o consumo dele o mais frequentemente possível, o que fazia o negócio andar para a frente. Porém, Lougère cada dia se prendia mais a essa mulher, que ele não conhecia, cuja existência desconhecia completamente e que amava unicamente porque não descobria outra.
A pequena, que era atilada, depressa se apercebeu de que poderia tirar partido desse ingénuo e procurou a maneira pela qual melhor o pudesse explorar. A mais refinada era, seguramente, a de se fazer desposar.
E conseguiu-o sem custo.
Tenho necessidade de dizer-vos, senhores jurados, que a conduta dessa rapariga era das mais irregulares e que o casamento, longe de pôr um freio às suas liberdades, parecia, pelo contrário, torná-las mais saborosas.
Por um jogo natural da astúcia feminina, ela parecia ter prazer em enganar este homem honesto com todos os empregados do seu escritório. Eu o digo : com todos. Nós temos cartas, senhores! E o caso foi em breve um escândalo público que só o marido, como sempre, ignorava.
Finalmente, essa mulher, num interesse fácil de conceber, seduziu o próprio filho do patrão, um rapaz de dezanove anos, sobre o qual depressa exerceu uma influência deplorável. M. Langlais, que tinha até ali fechado os olhos, por bondade, por amizade pelo seu empregado, sentiu, vendo o seu filho entre as mãos — eu deveria dizer entre os braços dessa perigosa criatura — uma cólera legítima.
Teve a desgraça de chamar imediatamente Lougère e de lhe falar dominado pela sua indignação paternal.
Não me resta mais, senhores, do que ler-vos o relato do crime, feito pelos próprios lábios do moribundo, e recolhido pela instrução.
Eu acabara de saber que meu filho dera, na véspera, a essa mulher, a soma de dez mil francos, e a minha cólera foi mais forte que a minha razão. Eu nunca suspeitei da honorabilidade de Lougère, mas certas heranças são mais perigosas do que faltas.
Chamei-o ao meu gabinete e disse-lhe que me via obrigado a privar-me dos seus serviços.
Ficou diante de mim, estupefacto, sem compreender.
Acabou por pedir-me explicações, com certa vivacidade.
Eu recusei-lhas, afirmando que as minhas razões eram de ordem absolutamente íntima. Julgou então que eu suspeitava dele, e, muito pálido, suplicou-me que me explicasse. Partindo daquela ideia, foi-se pouco a pouco tornando altivo e permitia-se o direito de me falar alto.
Como eu me calasse sempre, insultou-me, injuriou-me, chegando a um tal grau de exasperação que eu temi chegasse a vias de facto.
Ora, de repente, debaixo do impulso provocado por uma palavra que me atingira em pleno coração, lancei--lhe à face toda a verdade.
Ficou de pé alguns segundos, olhando-me com os olhos esgazeados; depois vi-o pegar, da minha mesa, as grandes tesouras de que me sirvo para marginar alguns documentos, vi-o cair sobre mim de braço erguido, e senti entrar qualquer coisa na garganta, mesmo ao cimo do peito, sem que sentisse qualquer dor.
Eis, senhores jurados, o simples relato desta morte. Que dizer mais em defesa do acusado? Ele respeitou a sua segunda mulher com devoção, porque tinha respeitado a primeira com razão.

Depois de uma deliberação curta, o acusado foi absolvido.



DICIONÁRIO DE AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA NARRATIVA DE ESPIONAGEM (5)

7 – ARNAUD (GEORGES J.)
1928

George J. Arnaud


Georges-Jean Arnaud é um escritor francês com uma obra vastíssima. Usa demasiados pseudónimos literários, o que dificulta a análise da sua bibliografia. Calcula-se que tenha escrito cerca de 400 romances de ficção científica, fantástico, eróticos, terror, policiários e de espionagem.
A contribuição de Georges J. Arnaud para narrativa de espionagem começa em 1958 com a Série Luc Ferran, com 21 títulos até 1969, publicados sob o pseudónimo Gil Darcy na colecção Espionnage da Editora L’Árabesque.
Em 1961 lança um novo personagem, Commander, que surge pela primeira vez em Forces Contaminées, editado na colecção Espionnage, mas da Editora Fleuve Noir, e sob o pseudónimo Georges J. Arnaud. Tem 75 livros editados.
O escritor, nos romances de espionagem é considerado um autor contra-corrente. Commander, Serge Kovask, é americano mas não pertence à CIA, mas à ONI (Office of Nava Intelligence); o personagem evolui a medida que novos títulos vão sendo publicados e com o decorrer do tempo a sua oposição à CIA vai-se tornando cada vez mais marcada.
Georges J. Arnaud transporta para o seu personagem principal, a opinião que tem sobre aquela agência governamental. Diz autor: “Nunca acreditei nos romances de espionagem pela espionagem, com roubo de dossiers, com um anti-comunismo um pouco primário e um anti-sovietismo absoluto. 99% dos romances de espionagem são assim… evolui lentamente contra o nuclear e contra a CIA.”
Mais tarde, após o golpe militar do Chile e a morte de Allende o escritor radicaliza a sua posição: “Tudo começou com o a documentação que reuni e me provou que a CIA é uma empresa de assassinos, de assassinatos e de destabilização de todas as formas de democracia… o que me interessa é mostrar o papel nefasto da CIA no mundo.”
Os analistas da obra de Georges J. Arnaud consideram-no um mestre da espionagem que diz mais sobre a história contemporânea do que os autores britânicos oriundos dos serviços secretos.

O destaque, na sua vasta obra de espionagem, vai para Les Égarés premiado com a Palme d'Or Du Roman D'Espionnage em 1966.
Não foi possível encontrar livros da série Commander, que podem estar (ou não) editados em Portugal. Pelo contrário os livros da série Luc Ferran foram quase todos editados.
A obra do autor editada em França pode ser consultada AQUI

1 – Luc Ferran Parte Em Missão
Agência Portuguesa de Revista (1963)
Colecção: Negra: Nº50
Tradução de Raúl Correia

2 – Luc Ferran Não Perde A Cabeça
Agência Portuguesa de Revista (1963)
Colecção: Espionagem: Nº12
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

3 – Luc Ferran Transpõe A Ponte
Agência Portuguesa de Revista (1963)
Colecção: Espionagem: Nº16
Tradução de Raúl Correia

4 – Golpe Baixo Para Luc Ferran
Agência Portuguesa de Revista (1963)
Colecção: Espionagem: Nº17
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

5 – Luc Ferran Joga E Ganha
Agência Portuguesa de Revista (1963)
Colecção: Espionagem: Nº18
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

6 – Luc Ferran Persegue A Morte
Agência Portuguesa de Revista (1964)
Colecção: Espionagem: Nº20
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

7 – Luc Ferran E A Viúva
Agência Portuguesa de Revista (1964)
Colecção: Espionagem: Nº21
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Título Original: Luc Ferran Et La Veuve (1959)


8 – Luc Ferran Conduz O Baile
Agência Portuguesa de Revista (1964)
Colecção: Espionagem: Nº26
Tradução de Fernando Brito de Sá

9 – Luc Ferran Não Tem Problemas
Agência Portuguesa de Revista (1964)
Colecção: Espionagem: Nº28
Tradução de Fernando Brito de Sá

10 – Um Raio Para Luc Ferran
Agência Portuguesa de Revista (1964)
Colecção: Espionagem: Nº29
Tradução de Fernando de Sá

11 – Luc Ferran Diverte-se
Agência Portuguesa de Revista (1964)
Tradução de Fernando de Sá

12 – Luc Ferran Espião A Soldo
Agência Portuguesa de Revista (1965)
Colecção: Espionagem
Tradução de Fernando de Sá

13 – Luc Ferran Desforra-se
Agência Portuguesa de Revista (1965)
Colecção: Espionagem
Tradução de Raúl Correia

14 – Luc Ferran Perde Um Assalto
Agência Portuguesa de Revista (1965)
Colecção: Espionagem
Tradução de Raúl Correia

15 – Luc Ferran Desempata
Agência Portuguesa de Revista (1965)
Colecção: Espionagem
Tradução de Raúl Correia
Título Original: La Belle De Luc Ferran

16 – Luc Ferran Faz Faíscas
Agência Portuguesa de Revista (1965)
Colecção: Negra
Tradução de Fernando de Sá

17 – Luc Ferran Passa Um Mau Bocado
Agência Portuguesa de Revista (1966)
Colecção: Negra
Tradução de Raúl Correia

18 – Luc Ferran Salva O Seu Ídolo
Agência Portuguesa de Revista (1966)
Colecção: Negra
Tradução de Raúl Correia

2 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 154

EFEMÉRIDES – Dia 2 de Junho
 

TEMA — LITERATURA — FOLHETIM NA LITERATURA POPULAR
A literatura popular é a mãe da literatura, já que o saber, inclusivamente a literatura, iniciou-se e transmitiu-se pela oralidade. Antes da narrativa escrita, existia a oral, com o aparecimento da escrita começou o registo das obras fundamentais da civilização, desde o Poemas de Gilgamesh ao Livro dos Mortos — Egipto — à própria Bíblia. Existia literatura popular oral nos relatos do círculo homérico, posto em verso para conservação e difusão de memória em memória, o que requeria uma profícua e extensa dedicação, por sua vez comunicado à escrita.
A modernidade literária iniciou-se com o aparecimento da imprensa em 1445. Esta acabou com o predomínio do verso, já que a possibilidade de reproduzir um texto mediante um procedimento mecânico em numerosos e idênticos exemplares permitiu aos criadores, preocupar-se tão só com o destino da obra, prescindindo a estrutura métrica.
O apogeu da literatura de ficção novelística adquiriu uma maior difusão e um papel social relevante partir de 1770 sensivelmente, com a primeira revolução burguesa, em cujo curso o desenvolvimento capitalizou na Europa e na América a instrução pública e a alfabetização das massas. O número de leitores triplicou em Inglaterra onde as imprensas manuais tradicionais que imprimiam 200 folhas em uma hora foram substituídas em 1810 pela impressão mecânica de Koeni e Baver, que imprimiam 1000. Em 1812 foi aberta a primeira agência de informação. A venda de periódicos, se não dependia totalmente dos folhetins e outras formas de narração despertavam um vivo interesse no cliente. Com isto — um ciclo histórico — não queremos dizer que a oralidade acabou, já que surgem as representações orais radiofónicas, cinematográficas e televisivas, bem assim como a manutenção teatral, com fortes possibilidades de alcançar o futuro. O auge do folhetim r da novela por entregas corresponde a uma parte importante da narrativa europeia até no sec. XIX. Obras de Balzac, Dostoievski, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Hugo Lamartine. Dumas etc… chegaram pela primeira vez ao alcance dos leitores por folhetins nos jornais ou por entregas, num regime que permitia reduzir substancialmente o custo. Muita gente do povo, a que sabia ler, recorria aos folhetins, mal impressos vendidos nos jornais ou fascículos, estes vendidos em feiras e mercados, por vezes de porta em porta.
A recolha dos temas era determinante: histórias de encantar, paixões atribuladas, amores secretos, eróticos, crimes horrendos, proezas de salteadores, prodígios mirabolantes, anedotário, fenómenos, almanaques, etc. correram por todos os países da Europa e América até ao séc. XX.
Portugal não fugiu à regra. A característica policiária surgiu nos quiosques em 1909. Por textos importados a “Novela Popular”, com “Aventuras Extraordinárias d’ um Polícia Secreta”, um Sherlock Holmes à mistura com outros personagens, “o único polícia francês, Raffles, Lord Lister, Nick Carter, o Máscara Negra, Texas Jack etc. Em a “Novela Moderna” é divulgada Miss Boston a única mulher polícia em todo o mundo. Mais tarde, pela mão de Repórter X, assinados por ele, ou por outros, tais como Américo Faria, Pedro Muriel, Mário Domingues, Ferreira de Castro, Guedes de Amorim, etc. apareceu “Novela Policial”.
Fica esta pequena nota, num assunto que daria centenas de páginas.
M. Constantino


TEMA — SHORT STORY — O ASSASSINO E A VÍTIMA
De M. Constantino
Os dedos de longas e afiadas unhas soltaram o último pedaço de terra. Um idêntico conjunto, qual garras, juntou-se antes de o corpo surgir das profundezas.
O rosto é fusco, de incisivos salientes, olhos amarelos, necrófilos.
Sentia-se fraco e sedento…
Ergueu-se.
À luz do luar que se espraia pela planura notou a solitária habitação.
Aproxima-se. O simples pensamento de se saciar retempera-lhe energias.
Anda à volta em busca de uma abertura. Janelas e portas sólidas, o próprio chão cimentado em volta, tornam a tarefa impeditiva.
Afasta-se. Procura em vão…
Quando o sol despertou, deitou-se à beira do carreiro de acesso à moradia… poderia surpreender um ansiado despojo. Acamou, oculto pela folhagem, sobre um velho livra de Bram Stoker. Numa página amarfanhada descobriu o desenho de uma jovem ensanguentada… sangue vermelho e brilhante expresso com toda a realidade… Preso de uma vertigem arrancou e mastigou, com deleite, pedaços de papel!
A vítima, tranquilamente, instalou-se num tronco próximo, usufruindo o calor matinal.
Ele não se mexeu. Os olhos fixos crispantes, observam…
Num salto brusco, atinge a vítima pela garganta. O sangue verte das mordeduras. Dentes amarelos, aguçados, sequiosos, sugam a presa que se debate, sacudindo o corpo esguio até quedar-se com um último estremecimento…
O assassino e a vítima; o rato do campo e a sardanisca ingenuamente descuidada.

1 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 153

EFEMÉRIDES – Dia 1 de Junho
Pierre Souvestre (1874 - 1914)
Pierre Wilhem Daniel Souvestre nasce em Plomelin, Finistère, França. Advogado, jornalista e escritor é conhecido pela parceria que mantém com Marcel Allain para criar o anti-herói Fantômas. Fantômas surge em 1910, é um génio do crime, o mestre de todos os mestres e torna-se numa figura muito popular. Protagoniza 32 romances e vários filmes. Em Portugal também está editado o Fantomas. A edição mais antiga que é possível identificar data de 1914, uma publicação de Salazar Cardoso & Alves, do Porto e com o título Fantomas: Um Romance. Na década de 50 a Editorial Dois Continentes edita na Colecção Fantomas 21 romances de Pierre Souvestre e Marcel Allain. Em 1957 a Livraria Civilização substitui a Editorial Dois Continentes na publicação dos livros de Fantomas e não só reedita alguns títulos como completa a edição de toda a obra.

TEMA — ANATOMIA DO CRIME — A BALA QUE ESPEROU PELO ALVO CERTO
Brincar com o coração dos outros, especialmente com o coração de uma mulher apaixonada, nem sempre, ou nunca, é coisa acertada. Certo que quando Henrique Z. abandonou Violeta depois de três anos de namora, nunca lhe passara pela cabeça que ela fosse uma rapariga de “extremos” e se suicidasse. Acabara de o saber quando o irmão de Violeta, de pé na sua frente, lhe dera a cruel notícia com uma arma apontada ao seu peito, afirmando que o ia matar. Henrique julgou-se um homem morto. Não teve sequer tempo para balbuciar um arrependimento, quando o rapaz puxou o gatilho. Sentiu um ardor no peito e caiu desmaiado. Todavia, a bala roçara pelo peito e fora cravar-se numa árvore próxima. Não se apercebeu disso o irmão da rapariga que julgando ter cumprido a sua missão, voltou a arma contra si e disparou um tiro fatal no ouvido.
Quando acordou do desmaio, Henrique deparou-se com a tragédia aliás fora uma dupla tragédia. Verificou que a ferida no peito não era grave apenas uma queimadura, um risco transversal que ficaria para sempre.
Durante os vinte anos seguintes Henrique não voltou a pensar no assunto. Ninguém lhe pedira contas pelo sucedido aos irmãos suicidas. As próprias autoridades policiais aceitaram a sua “falta de conhecimento” das razões do duplo suicídio.
Um dia resolveu fazer uma limpeza, incluindo cortar a árvore, agora muito maior, junto da qual vivera um momento único da vida — encarar a morte de frente. Abriu um buraco no troco e utilizando dinamite encheu o buraco e acendeu o rastilho. A explosão atirou fragmentos em todas as direcções e levou a bala a atingir em cheio o coração de Henrique, matando-o instantaneamente — a bala encontrara enfim o alvo certo pelo qual esperara vinte longos anos!



TEMA — CONTO POLICIÁRIO DEDUTIVO — ARROZ PARA DRAGÃO DOURADO
De M. Constantino

No rosto sem beleza, um ar melancólico denunciado pelos olhos oblíquos, escuros e nostálgicos. A cabeça rapada estava coberta por um chapéu de palha: a bata amarela atada à altura dos rins e as calças de algodão azul enroladas até aos joelhos.
Desde a madrugada que seguia por entre colinas e vales com seus campos prontos para a sementeira do arroz. Sentiu fome. A trouxa, pendurada às costas, não continha alimento. Até então, comera escassos e esquecidos frutos silvestres, raras, muito raras tigelas de arroz lhe haviam sido estendidas.
Parou olhando os pés grandes e bem feitos. Sorriu suave.
Um trovão estalou ao longe, silenciando os pássaros. O orvalho delicado da chuva que há uma lua acompanhava o seu itinerário, acariciou-lhe o rosto. Vozes vieram de perto. Levantou a cabeça. Ao lado do carreiro, três homens de rabichos soltos, vestidos de desbotado algodão castanho, sentavam-se sobre frágeis ramos de verde salgueiro.
Aproximou-se humilde. Olhou nos olhos, um por um, os velhos camponeses imóveis. Levantou os olhos em prece.
- Irmãos, poderei merecer a graça de um pouco de arroz? Sou Kim. Um noviço no templo do Lótus Sagrado.
- Oh, sim. Ouvi falar de ti! És aquele a quem chamam o Dragão Dourado, Símbolo da Sabedoria Celeste – volveu o camponês de rosto magro, corpo esquelético, levantando-se.
- Sou Li – acrescentou.
- O Mestre o disse – respondeu Kim. – Mesmo num monte de esterco a flor do lótus cresce cheia de doce perfume e deleite; também o discípulo do Iluminado brilha entre os que andam nas trevas.
- Sou Lan. Não podemos ajudar-te! – disse o homem baixo, rechonchudo, de boca enorme, rasgada de orelha a orelha, pousando a cabeça entre os joelhos erguidos.
- Chang é o meu nome – disse o terceiro puxando pelos pêlos brancos de venerável barbicha. Passivamente me resigno à dor, aceitando-a como inevitável. Mas, oh Cheio de Exaltação, como mitigar a fome dos nossos? Há duas vezes os dedos das minhas mãos trémulas, revolvíamos a terra. Quando o dia se perturbou com a chegada da noite, afastámo-nos para recolher bambus tenros. Regressámos. O saco onde guardávamos o arroz para sementeira tinha desaparecido. Yu, o lenhador, o único homem vivo que vimos em todo o dia, criticou-nos a suspeita de que tirara o saco. Ameaçou-nos. Regressámos à aldeia, tristes mas confiados que o remorso o fizesse devolver-nos o saco. Hoje viemos para lhe suplicar a devolução em nome de trinta filhos e oferecer-lhe parcela da colheita. Quando chegámos, Lan avisou-nos de que Yu deixara a cabana junto do tronco carcomido, mostrou-nos os bagos esparsos que vão daqui à cabana. Deduzimos que Yu levou o saco às costas fortes sem reparar que tinha um pequeno buraco por onde saiu o arroz acusador.
Li mostrou os grãos sobre a terra lamacenta. Kim seguiu os indícios reveladores até à cabana abandonada. Ajoelhou-se na estrada. De coração perturbado e rosto afogueado, voltou para junto dos camponeses.
- Irmãos. Quem imagina a verdade no erro e vê erro na verdade, nunca chega à verdade, mas segue vãos desejos. Yu não levou o saco. O homem insensato, o que almeja a ventura por meios ilícitos está entre vós. Não o castigueis. O bicho-da-seda tece o seu casulo e fica dentro, assim o ladrão ficará preso ao seu acto. Permitis que recolha e me alimente de alguns bagos do arroz caído?
Os três camponeses olharam-se incrédulos.
Kim baixou-se. Apanhou pequena quantidade de bagos e esfregando uma mão na outra fez soltar as ténues cascas. Soprando-se levou à boca os cristais brancos, mastigando-os.
Afastou-se, lento e firme, sem olhar para trás. Parou, reflectiu e murmurou, em auto-crítica.
- O Mestre o disse, não esqueças os teus revezes nos momentos de êxito. Tudo o que somos é resultado do que temos pensado; encontra-se em nossos pensamentos e é edificado com os nossos pensamentos.
Retomou a marcha.
Kim voltou a ouvir a voz cansada que gritava.
- Uh! Uh!
Chang, tanto quanto as entorpecidas pernas o permitiam, aproximava-se de mãos estendidas
- Aguardai, aguardai, não nos deixeis na ignorância. Indicai o pecador.
Kim reflectiu.
- O Mestre o disse: a peçonha não afecta a mão que não tem ferida, nem recai o mal sobre quem não o comete. Se um homem ofende uma pessoa inofensiva, inocente e pura o mal recai sobre o néscio que o cometeu, assim como a poeira que alguém lança contra o vento. Vede, o homem não foi justo. Tirou o saco e fez gerar a infâmia sobre Yu.
“Tu próprio o disseste, irmão. Duas vezes os dedos das tuas mãos o arroz desapareceu. Como poderiam manter-se tantos dias os bagos abandonados, sem que os pássaros os levasse nos seus bicos ligeiros e esfomeados? Como não te lembraste, duas vezes os dedos das tuas mãos, não tivesse germinado o arroz na terra enlameada? Não viste tu as minhas mãos facilmente soltarem as cascas frágeis? Hoje mesmo o impuro se deleitou, regozijou traçando uma trilha acusadora para Yu. Irmão, tu e Li, não o poderiam ter feito sem o conhecimento de todos; tu o disseste, Lan vos avisou que Yu deixara a cabana, chegou primeiro, portanto Lan é impuro. Em verdade, o Mestre o disse: assim como a chuva penetra uma casa de ruim telhado, assim a má acção penetra a mente irreflectida”.
Caminhando, Kim breve se perdeu na distância…