27 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 209

Efemérides 27 de Julho
Jack Higgins (1929)
Henry Patterson nasce em Newcastle Upon Tyne, Inglaterra, mas é criado em Belfast, Irlanda. Mais tarde vive em Leeds no norte de Inglaterra, abandona a escola sem concluir o curso e começa a trabalhar em diferentes profissões, tendo inclusivamente feito parte na fronteira na Alemanha de Leste durante a Guerra Fria. Estuda Sociologia enquanto trabalha como condutor numa companhia de circo e conclui o curso em 1962. Dedica-se então ao ensino e à escrita de contos de aventura até se tornar num escritor a tempo inteiro após o sucesso alcançado por The Eagle Has Landed (1975), publicado sob o pseudónimo Jack Higgins, um dos vários utilizados pelo autor. Torna-se num autor de bestsellers, traduzido em 55 línguas com mais de 250 milhões de cópias dos seus livros vendidas em todo o mundo. Fazem parte da bibliografia do escritor:
39 romances policiários, incluindo vários bestsellers thrillers The Eagle Has Landed e Storm Warning (1976);
18 romances policiários como Harry Patterson (mas nos EUA como Jack Higgins) com o personagem Nick Miller;
6 romances policiários, como Martin Fallon, com o personagem Paul Chavasse;
3 romances policiários como Hugh Marlowe;
4 romances policiários como James Graham.
Em Portugal estão editados:
1 – O Solista (1982), Círculo de Leitores. Título Original: Solo (1999), também editado com o título The Cretan Lover. Reeditado em 1983 pela Moraes, Colecção Ficção com o título Solo.
2 – Exocet : Missão Impossível (1987), Nº 47 Colecção Livros de Bolso, Série Guerra e Espionagem, Publicações Europa-América. Título Original: Exocet (1983). Reeditado em 1983 pela Moraes, Colecção Ficção com o título Solo.
3 – Atentado Na Catedral (1987), Círculo de Leitores. Título Original: Confessional (1985). Reeditado em 1992 com Nº 12 Colecção Campos de Batalha, Publicações Europa-América com o título Confessional. É o 3º livro da série Liam Devlin.
4 – Os Guerrilheiros Da Sombra (1988), Círculo de Leitores. Título Original: A Prayer For The Dying (1973).
5 – A Noite Da Raposa (1988), 3º Volume Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: Night Of The Fox (1986). É o 1º livro da série Dougal Munro & Jack Carter.
6 – Vingança No Inferno (1990), Círculo de Leitores. Título Original: A Season In Hell (1988).
7 – A Águia Aterrou (1993), Círculo de Leitores. Título Original: The Eagle Has Landed (1975). É o 1º livro da série Liam Devlin.
8 – A Águia Levantou Voo (1993), Círculo de Leitores. Título Original: The Eagle Has Flown (1990). É o 4º livro da série Liam Devlin.
9 – Centro da Tempestade (1994), Círculo de Leitores. Título Original: Eye Of The Storm (1992), editado também com o título Midnight Man. É o 1º livro da série Sean Dillon.
10 – O Voo Das Águias (1999), 27º Volume Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: Flyght Of Eagles (1998). É o 3º livro da série Dougal Munro & Jack Carter.
11 – O Traição Na Casa Branca (2000), 34º Volume Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: The White House Connection (1998). É o 7º livro da série Sean Dillon.
12 – O Porto Secreto (????), Círculo de Leitores. Título Original: Cold Harbour (1989), editado também com o título Midnight Man. É o 2º livro da série Dougal Munro & Jack Carter.

Harry Patterson
1 – Raptar Um Rei (1999), 7º Volume Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: To Catch A King (1997).



Mildred B. Davis (1930)
Escritora americana com 12 romances de suspense publicados entre 1948 e 1977. O seu primeiro livro The Room Upstairs ganha o Edgar Allan Poe Award de 1949 na categoria de Best First Novel. A autora volta a publicar em 2006, depois de quase 30 anos de silêncio editorial, uma colaboração com a filha Katherine Roome: The Avenging of Nevah (2007), The Fly Man Murders (2007) e The Butterfly Effect que constituem a série Murder In Maine.



TEMA — MISTÉRIOS E CRIMES DA HISTÓRIA — O TRÁGICO DESTINO DE MARIA STUART
Quando Maria Stuart tendo perdido o trono da Escócia caiu em mãos de Isabel da Inglaterra, foi tratada como uma irmã muito querida. Esse tratamento teve a duração de anos e anos. Era como um gato brincando com o rato. Isabel, fria e calculista, vingava-se assim de todas as conspirações que a bela Stuart, movida pelos seus barões, armara contra ela. Isabel, não devemos esquecer, era filha de rei sem grandes ternuras, o casadíssimo Henrique VIII, o das muitas esposas. Dele herdou a dureza de coração. Era rainha de aventureiros e conquistadores de mundos. Não era uma flor. Era um cardo. Nas mãos de uma criatura assim, a romântica Maria Stuart deveria sofrer a pior das torturas, aquela que duraria anos. É bem verdade que esse cativeiro foi sempre, ou quase sempre, dourado pela malícia de Isabel, que tratava a prima com dedos leves. Por isso, nos primeiros tempos, deu a Rainha de Inglaterra à Maria o seu anel régio, símbolo da amizade eterna. O tratamento era de irmã para irmã. A aranha começava a tecer a sua teia em torno da mosca.
Tudo começou quando Maria Stuart chegou à Inglaterra. Se The Times circulasse nesses velhos tempos, recolheria da rainha em fuga estas declarações:
— Sofri injúrias, calúnias, cativeiro, fome, frio e calor, atravessando a Escócia numa extensão de noventa e duas milhas sem saber onde parar, sem me deter uma só vez para descansar. Então, atirei-me ao chão, tendo só leite azedo para beber. Passei três noites na companhia das corujas. Felizmente, piso agora o solo da Inglaterra, onde governa minha boa prima Isabel.
Era o começo de um plano de Maio. Corria o ano de 1568. A rainha inglesa recebeu sua prima não como prisioneira, mas como hóspede. Para não a não ver, apresentou um motivo delicado
 — Mas não faltará ocasião para um encontro entre nós.
E adoçou a recusa com os seus costumeiros protestos de grande estima e distinta consideração:
— Palavra de rainha. — escrevia ela — Prometo que nenhum conselho jamais me levará a expô-la a qualquer perigo para a sua pessoa ou para a sua honra.
Era o começo de um plano que teria cenário longo. Ou melhor dizendo, teria uma existência de quase vinte anos. Durante todo esse largo tempo, Isabel conservou a prima Maria em honrosa custódia, enviando a prisioneira de um castelo para outro, permitindo que ela governasse os seus guardas, pondo-lhe à disposição os melhores médicos quando estava doente. O certo é que esses guardas não passavam de cães de fila de Isabel. E os anos iam, um a um, monótonos e iguais, escorrendo lá fora. Tudo se modificava na Inglaterra. Surgiram novas cidades, novos homens. A vida mudou. Só no coração de Isabel uma coisa não mudava: o seu plano de vingança contra a prima da Escócia. Na sombra, como uma laboriosa aranha, a Rainha ia coleccionando provas, tecendo a cadeira definitiva com que envolveria Maria Stuart.
E o laço definitivo veio 19 anos depois daquela manhã de Maio de 1568 em que Maria pisou, pela primeira vez, o solo inglês. O motivo foi banal. A Condessa de Shrewsbury, mexeriqueira esposa do carcereiro-mor de Maria Stuart, informara que a rainha prisioneira mantinha relações amorosas com o próprio Conde, seu marido. Maria Stuart, ao ter conhecimento disso, protestou indignada. E indignada escreveu uma longa carta à sua prima de Londres. Mas não teve serenidade bastante para acusar apenas a Condessa. Envolveu em sua ira a própria rainha da Inglaterra. A cena final ia começar
Foi então que Isabel concebeu, como bem acentuou um dos seus biógrafos, um plano digno de Maquiavel. Forjou uma conspiração contra si própria e urgiu um enredo junto de Maria Stuart, de modo a torná-la a cabeça dessa conjura. Fizeram crer à ingénua prisioneira que ela, se quisesse, poderia afastar a prima Isabel e subir ao trono da Inglaterra. Maria aceitou o papel. Era o que Isabel mais desejava. Um inteligente ardil, pensava a atormentada Stuart, fora descoberto para que os conspiradores entrassem em contacto com ela. Uma vez por semana um barril de cerveja era introduzido no castelo pelos serviçais. E os partidários de Maria Stuart, na realidade espiões de Isabel, haviam substituído o tampão do barril por uma rolha de cortiça na qual podia facilmente ser escondida uma carta. Dessa maneira — vejam como era diabólica a filha de Henrique VIII — Maria mantinha uma correspondência perigosa, feita de ódio e pólvora, com a própria Rainha. Maquiavel não faria trabalho mais limpo.
Ingenuamente, Maria esboçava o plano contra Isabel. Logo que saísse da prisão, regressaria à Escócia, apelaria para os seus barões e à frente de um grande exército invadiria a Inglaterra. Chamaria também para auxiliá-la o Rei da Espanha que, em troca desse apoio, ficaria com o trono escocês. E mais: com direitos à sucessão da coroa inglesa, por morte dela, Maria Stuart, é claro. Plano mais ingénuo não poderia haver. Mas a rainha prisioneira estava encantada com os progressos da conspiração. Em seu palácio, Isabel lambia os beiços, afiava as unhas. As provas contra a prima avolumavam em suas bem trancadas gavetas. Era a lenha com que queimaria o sonho ambicioso da outra. Mas para arrematar o plano diabólico só faltava uma declaração, por escrito, como Maria aprovava o assassínio de Isabel. E esse documento não demorou a surgir. Com letra firme, ela redigiu a ordem de execução de Isabel. O processo estava completo. O drama havia chegado ao fim. O machado do carrasco descaiu sobre o lindo pescoço da mais famosa Rainha da Escócia. E foi assim que entrou para a História.

Maria Stuart recebe a setença de morte 


TEMA — ALGO DE SOBRENATURAL (PARTE 2)
CONTO — ERA UMA NOVA HISTÓRIA
De Matos Maia
No relógio da igreja soaram badaladas, enquanto um vento agreste varria as ruas e a chuva fustigava com violência.
De súbito, a porta da varanda abriu-se com um golpe de vento e pelo gabinete espalharam-se papéis. E o vento trouxe consigo um visitante. Um homem estranhamente alto, cara quadrangular, olhos enormes e boca repelente. Imenso e medonho, avançou uns passos. Os sons saíram-lhe roucos da garganta.
— Tenho fome! Quero comer! Tenho fome!
O escritor, defronte da máquina de escrever, levantou-se apavorado. Recuou uns passos e, de súbito, caiu inanimado no chão.
O monstro olhou com indiferença o corpo caído. De cima da secretária tirou um prato com sanduíches e um termo de café. Tão estranhamente como entrara, galgou a varanda e desapareceu na noite escura e chuvosa.
O inspector estava intrigado e confuso. Aquele caso não tinha ponta por onde se pegar. Inquiriu do agente:
— Conseguiu averiguar alguma coisa?
— Pouco inspector — respondeu ele. A vítima era muito popular como escritor de histórias policiais e de terror. Segundo dois ou três amigos, pouco convivia e raramente recebia visitas.
— Falou com a governanta?
 — Claro. Fazia-lhe a limpeza do apartamento, mas as refeições mandava-as vir do snack da esquina. Todas as noites, antes de sair, deixava-lhe um prato com algumas sanduíches e um termo com café.
O inspector esboçou um sorriso contrafeito. Nada o ajudava… O relatório do médico legista era sucinto, mas peremptório: morte natural por súbito ataque cardíaco. No entanto, a vítima gozava de excelente saúde e nunca tivera doenças graves, segundo todos os depoimentos.
— Isto é tudo muito confuso! — exclamou irritado o inspector — Alguma coisa ou alguém entrou aqui, não acha?
O agente concordou.
— Tem razão! Basta ver estas pegadas no chão, e a porta da varanda está aberta. Com a noite que esteve ontem… é pouco natural.
— Se a governanta fala verdade, onde raio se meterem o prato das sanduíches e o termos do café? — o inspector interrogava-se, falando alto.
— Não há dúvida de que as provas estão aqui, a quererem dizer alguma coisa. Mas o quê? — e, inconscientemente, o agente imitava o seu chefe, pensando alto também.
A confusão do inspector e do agente era compreensível. Eles sentiam, melhor do que sabiam, que uma tragédia ocorrera naquele gabinete. Tragédia de que resultara uma morte em condições estranhas. Alguém ou alguma coisa, estivera naquela sala. A tremenda dificuldade era adivinhar o que tinha acontecido e reconstituir o drama de umas horas passadas.
O inspector desabafou, irritado:
— Já li isto várias vezes e nada me diz. Oiça lá o que o homem estava a escrever, quando morreu… ou o mataram.
Aclarando a voz, debruçou-se sobre a máquina de escrever e leu a folha de papel: “No relógio da igreja soaram badaladas, enquanto um vento agreste varria as ruas e a chuva fustigava com violência. De súbito, a porta da varanda abriu-se com um golpe de vento e pelo gabinete espalharam-se papéis. E o vento trouxe consigo um visitante. Um homem estranhamente alto, cara quadrangular, olhos enormes e boca repelente. Imenso e medonho, avançou uns passos. Os sons saíram-lhe roucos da garganta.”
— Você percebe isto? — interrogou o inspector.
— Deve ser o princípio de alguma nova história que ele estava a escrever sugeriu o agente.
— Deve ser isso, deve. Deve ser isso… — resmungou o inspector.
E ambos saíram do gabinete, batendo com a porta.

26 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 208

Efemérides 26 de Julho
Edwin Balmer (1883 – 1959)
Nasce em Chicago, EUA. Repórter desde 1903, torna-se editor da Redbook, uma revista feminina que privilegia a publicação de short stories de aventura, mistério e crime. Edwin Balmer escreve livros policiários e ficção científica, alguns em parceria com os escritores William MacHarg e Philip Wylie. Individualmente escreve 11 romances policiários, sendo o mais divulgado The Blind Man's Eyes (1946).


Jean-François Coatmeur (1925)
Nasce em Finistère, Pouldavid-sur-Mer, França. Professor do ensino secundário e em Africa, escreve o seu primeiro romance em 1963, Chantage Sur Une Ombre. Tem cerca de 30 romances publicados, todos classificados como policial psicológico negro com excepção de Des Croix Sur La Mer (1991), que é inspirado num acontecimento autobiográfico e recebe o Prix Bretagne 1992. O autor tem 6 obras adaptadas ao cinema e à televisão. Destacam-se as premiadas:
Les Sirènes De Minuit (1976) — Grand Prix de Littérature Policière;
La Bavure (1980) — Prix Mystère de la Critique 1981;
La Danse Des Masques (1989), Prix du Suspense e c Grand Prix des Écrivains de L'Ouest — 1990.


TEMA — ALGO DE SOBRENATURAL (PARTE 1)
PROCURANDO AS ORIGENS DO MEDO — CAUSAS NATURAIS / SOBRENATURAIS
Quando o estrondo do trovão penetra na caverna natural, quando o traço incandescente do raio abate a grande árvore da floresta, esmaga a pedra informe como se se tratasse de frágil torrão de areia sob o pé, de um gigante invisível, os primitivos seres humanos guincham, atiram-se ao chão repleto de detritos e restos de ossos descarnados de animais, amontoam-se apoiando-se uns nos outros, olhos fechados que não querem ver, mãos sobre as cabeças de cabelos emaranhados, compridos, enlameados; na mente pouco desenvolvida instala -se a mais antiga das emoções — o medo, o mais intenso dos medos — o medo do desconhecido.
Mais do que o prazer ou a dor, a ameaça do desconhecido, imprevisível ao mesmo tempo converteu-se numa fonte omnipotente de pesadelos, próprios de uma humanidade com noções reais escassas ou nulas, de experiência limitada.
Em tais condicionantes de vida, nos alvores do mundo tão poderosamente incipientes, não é estranho que os homens, se acolhessem nos braços da religião e da superstição.
A herança de então, não chega até nós apenas na ordem biológica. Os instintos e as emoções são fenómenos tremendamente arreigados, subconscientemente activos durante milénios, ainda que exteriormente pareçam submergidos.
E esses mundos ocultos e insondáveis de estranhas coisas, de alucinantes medos, transformaram-se em tradição oral.
Nas longas noites de quietude, no negrume traspassado por uma réstia de luar, mais tarde em redor do fogo, o feiticeiro desperta sentimentos de tremor com relatos macabros… o velho chefe balançando a cabeça, aceitando para os outros os terrores próprios.
Os mais obscenos e maléficos mistérios cósmicos, incorporaram-se primeiro no folclore popular sobrenatural, na lenda, depois na literatura, logo na exploração da narrativa fantástica com assento no quadro do terror.
O fantástico é; uma presença espectral suspensa entre o ser e o nada, viola o real e põe-se para além dos limites da razão.
Tão velho como o pensamento, o fantástico de horror, de terror, fixa-se nas primitivas emoções, invoca o desconhecido, cria demónios e espectros.
Na Idade Média associa-se-lhe magia e cabala.
O gótico agrega-lhe fantasma.
Mais recentemente, são os textos que se estruturam ao redor de figuras faustianas ou vacilam entre explicações naturais ou sobrenaturais da origem do DIABO…
(continua)

Odilon Redon - Homem Primitivo sentado à sombra 



DICIONÁRIO DE AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA NARRATIVA DE ESPIONAGEM (9)

12 – BAR-ZOHAR (MICHAEL)
1938
Bar-Zohar

Michael (Michel ou Micha‘el) Bar-Zohar, israelita, doutorado em ciências politicas em Paris e professor universitário em Haifa; militar paraquedista, foi também membro do parlamento israelita. Apaixonado pela história judaica contemporânea e pelo destino de Israel. O autor tem uma vasta obra no campo da não ficção, mas os estudos que publicou sobre Hitler, a crise de Suez ou a guerra dos Seis Dias, deram-lhe também inspiração para os romances de espionagem. Os seus romances são caracterizados por um ponto de partida ardiloso, que atrai o interesse do leitor e por uma fundamentação rigorosa, muito bem documentada.
Bar-Zohar usa também os pseudónimos Michael Barak e Michael Hastings e tem a sua obra publicada em vários países. Os romances de espionagem publicados são:

The Third Truth (1972)
The Spy Who Died Twice (1973)
The Secret List (1975)
Enigma (1978), mais tarde adaptado ao cinema
The Deadly Document (1979)
The Phantom Conspiracy (1981)
Double Cross (1982)
A Spy In Winter (1984)
The Unknown Soldier (1986)
The Devil's Spy (1988)
Brothers (1993)



13 – BARK (CONRAD VOSS)
1913 — 2000


Conrad Voss Bark, jornalista, colaborador do The Times e da BBC, é o criador de William Holmes, que não é um verdadeiro espião, mas um homem dos serviços de segurança britânicos, responsável da equipa encarregada da protecção do Primeiro Ministro, logo inevitavelmente ligado ao mundo da espionagens.
A primeira missão de William Holmes surge em 1962 no livro Mr Holmes At Sea e relata a busca do ministro das Finanças, desaparecido em plena crise económica durante uma sessão de pesca no alto mar. Seguem-se:
Mr. Holmes Goes To Ground (1963)
Mr. Holmes And The Fair Armenian (1964)
Mr. Holmes And The Love Bank (1965)
The Shepard File (1966)
Second Red Dragon (1967)
See The Living Crocodiles (1967)



25 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 207

Efemérides 25 de Julho
Josephine Tey (1896 – 1952)
Elizabeth Mackintosh nasce em Inverness, Highland, Escócia. Escreve peças de teatro e temas históricos sob o pseudónimo Gordon Daviot, mas usa Josephine Tey para os seus romances policiários. Trabalha como professora de Educação Física durante os anos 20; em 1926 regressa a Inverness para cuidar do pai e é nessa altura que se inicia a carreira de escritora. Publica The Man In The Queue, em 1929, onde apresenta o Inspector Alan Grant da Scotland Yard. O sucesso alcançado pelo livro a escritora dedica-se exclusivamente à escrita, convertendo-se numa das escritoras mais conhecidas e mais apreciadas da narrativa policiária. Em 1990 a britânica Crime Writers Association elege o romance The Daughter of Time (1951) de Josephine Tey como o melhor romance de mistério de sempre, e o livro The Franchise Affair (1948) aparece em 11º lugar nesta lista The Top 100 Crime Novels of All Time. Em 1995 os Mystery Writers of America criam uma lista idêntica onde The Daughter of Time surge em 4º lugar, The Franchise Affair em 81º lugar e Brat Farrar (1949) em 90º. A bibliografia da escritora inclui os seguintes policiários:
Na série Alan Grant
1 - The Man In The Queue (1929), também editado com o título Killer In The Crowd
2 - A Shilling For Candles (1936)
3 - The Franchise Affair (1948)
4 - To Love And Be Wise (1950)
5 - The Daughter of Time (1951)
6 - The Singing Sands (1952), publicação póstuma.
Outros livros
1 - Kif: An Unvarnished History (1929)
2 - The Expensive Halo (1931)
3 - Miss Pym Disposes (1946)
4 - Brat Farrar (1949) também editado com o título Come And Kill Me
5 - The Privateer (1952)
Em Portugal está editado Miss Pym Resolve O Caso (1997), Nº583 Colecção Vampiro, Livros do Brasil.


Kendell Foster Crossen (1910 – 1981)
Nasce em Albany, Ohio, EUA. Escritor popular de policiário e de ficção científica usa muitos pseudónimos ME Chaber, Bennett Barlay, Richard Foster, Christopher Monig e Clay Richards, Kent Richards, Christopher Monig e Ken Crossen. Cria vários personagens que protagonizam os seus livros e contos publicados em revistas da especialidade. A multiplicidade de pseudónimos usados pelo autor torna difícil verificar os registos de edições em Portugal. O autor publica um número não identificado de contos e os seguintes livros policiários:
6 romances com o personagem Jason Jones e Necessary Smith;
21 romances com o personagem Milo March sob o pseudónimo M. E. Chaber;
7 romances sob o pseudónimo Richard Foste, com o personagem Pete Draco e Chin Kwang Kham (Tibetano);
4 romances sob o pseudónimo Christopher Monig, com o personagem Brian Brett;
4 romances com o personagem Grant Kirby, sob o pseudónimo Clay Richards.


TEMA — ESTUDOS DE ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — UM CRIME: REAL OU FICTÍCIO
Quando se investiga um crime, deve-se levar três coisas em consideração: a causa do crime, os meios de que se serviu o criminoso e a ocasião do crime. A menos que o crime tenha sido cometido por uma pessoa insana, tem de haver um motivo. Sempre que possível, o detective deve descobrir quem, nas circunstâncias dadas, pode ter tido oportunidade e os meios de cometer o crime e quem é a pessoa mais provável de ter tirado proveito do crime.
Se existem vários suspeitos ao mesmo tempo, o detective deve recorrer ao processo de eliminação. O detective, em tal caso, deve agir sem precipitação, mesmo que isso o obrigue a fazer uma investigação minuciosa da vida passada e presente dos suspeitos. Por outro lado, o detective deve sempre levar a sério qualquer pessoa que poderia ter cometido o crime.
O detective deve, também, levar a sério qualquer pista e investigá-la devidamente. Certamente isso exigirá muita paciência, mas não se deve esquecer que tais pistas podem levar ao caminho que se procura.
É aconselhável a leitura das histórias de Sherlock Holmes de Sir Arthur Conan Doyle. Em via de regra, em toda a novela policial é atribuído um papel demasiadamente exagerado aos indícios e objectos ligados ao crime e seu aproveitamento para a solução dos crimes misteriosos, sem, por outro lado, se chamar muito a atenção para o monótono trabalho quotidiano.
Seja como for, pode-se fazer uma ideia da teoria e prática dos indícios e objectos ligados ao crime com a leitura de tais novelas.
Deve ser levado em alta consideração o modus operandi — ou método de acção — do criminoso. Os indivíduos fora da lei, excepto os mais inteligentes — e mesmo esses incidem em certos detalhes individuais — caiem numa rotina e executam as suas tarefas de maneiras determinadas. Um criminoso, por exemplo, usa papel pega-moscas para impedir que um vidro cortado de uma vidraça se estilhace e caia no chão; outro usa trapo para o mesmo fim, enquanto outro tira o vidro inteiro de uma só vez e um outro quebra o vidro, simplesmente, sem qualquer precaução. O criminoso pode usar máscara e luvas ou não usar nem uma das duas; pode agir calçado ou descalço; pode ter o hábito de trancar as portas; usar uma vela ou uma lanterna eléctrica; dar uma busca completa ou incompleta ao aposento; envenenar o cão, ou cortar os fios do telefone; roubar apenas o dinheiro, ou arriscar-se a furtar também as jóias. A sede da organização policial dispõe de arquivos a esse respeito. Alguns cartões de classificação abrangem mais de 1800 aspectos referentes aos métodos de acção dos criminosos.
A maneira pela qual o crime é cometido, pode permitir a obtenção de valiosas informações, no que diz respeito à capacidade e força física do criminoso. Pode revelar se o criminoso conhecia ou não certos aspectos ligados à perpretação do crime ou estava familiarizado com o local do crime, o que permitirá reduzir o número dos suspeitos.
O Sherlock deve ter sempre em mente duas outras coisas. Se descobre estar numa pista errada, não deve ter vergonha de confessar o erro e começar o trabalho de novo. Também não se deve esquecer de que as suas conclusões se devem basear em factos, pois somente os factos são aceites como prova pela justiça.


TEMA — UM CASO PARA PRATICAR — UM CRIME NA ESCURIDÃO
De Luís Filipe Costa (escolhido por Inspector Aranha)

Luís Filipe Costa, conhecido homem da rádio e da TV, tendo-se revelado como escritor policial, iniciou-se na problemística policiária nos anos 50.O problema foi publicado em Outubro de 1953 em “Seja o Detective”, do jornal “O Cartaz”.

O Comissário Luís Stanislas sentou-se à secretária, no seu Gabinete da Scotland Yard, e abriu o dossier que tinha na sua frente. Era o conjunto das investigações feitas pelos seus agentes sobre o caso Ladislau.
Em primeiro lugar examinou o depoimento de Michael Thompson, primo do morto: “Cheguei a casa do pobre Ladislau cerca das 10 horas e fomos jogar xadrez como havíamos combinado de tarde. Passara talvez uma hora quando Frank — o criado — veio perguntar-nos se necessitávamos de alguma coisa, retirando-se imediatamente pois respondemos-lhe que não.
Pouco depois — recordo-me bem porque estávamos numa das mais animadas fases da partida — ouvimos uns ruídos quase inaudíveis, como se alguém tentasse abrir o cofre. Ladislau apanhou um revólver e viemos ver o que acontecia. Era de facto um ladrão.
Porém, ao ver-nos, fugiu pela porta do fundo, que se encontrava aberta. Corremos em sua perseguição e meu primo que ia à frente saiu à rua mas logo se ouviu um tiro e Ladislau caiu varado por uma bala. Nesse momento, apareceu Frank, que vinha do jardim. Não deixei que lhe tocassem e corri a telefonar-lhe”.

Stanislas virou a página e passou a examinar as declarações de Frank:
“Às dez horas chegou o Sr. Michael, precisamente quando eu acabava de arrumar a cozinha. Uma hora depois fui, como aliás sempre o fazia, à biblioteca para saber se desejavam alguma coisa. Que não, foi a resposta, e por isso dirigi-me para o meu quarto. Porém, lembrei-me de que não dera de comer ao cão e desci ao jardim para lhe levar um pouco de carne.
Mal lá chegara quando ouvi o ruído da queda de um corpo, logo seguido de um tiro. Imediatamente corri para cá onde se me deparou o triste espectáculo que o Sr. viu”.

Em seguida apresentava-se uma fotografia que mostrava o cadáver in locus mortis.
O morto caíra de costas com as pernas no jardim e o tronco na soleira da porta. O revólver caíra perto.
Mais umas notas sem importância e um memorando em que o agente o informava de que se encontrava completamente em branco, e o dossier fechava-se sobre o caso.
O Comissário Stanislas sorriu, indulgente, e pensou na cara com que ficaria o agente, quando lhe dissesse que já descobrira o criminoso.

Pergunta-se:
1 - Quem foi o assassino?
2 - Quais os pontos base para a descoberta do assassino?


Não queremos dar-lhe a solução sem dar o prazer de solucionar o enigma. Em breve será publicada a solução.




24 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 206

Efemérides 24 de Julho
Mildred Gordon (1905 – 1979)
Mildred Nixon Gordon nasce no Kansas, EUA. Professora e editora forma uma dupla com o marido na escrita de policiários: The Gordons já referidos no CALEIDOSCÓPIO 72 (clicar)

John D. MacDonald (1916 – 1986)
John Dann MacDonald nasce em Sharon, Pensilvânia, EUA. Autor de perto de 500 contos (western, ficção científica e policiais) e mais de 70 romances policiários é conhecido principalmente pela série Travis McGee, iniciada com The Deep Blue Good-by em 1964 e terminada em 1984, 21 títulos depois quase todos passados na Florida. John D. MacDonald é um escritor conceituado, com mais de 75 milhões de cópias dos seus livros vendidas em todo o mundo tem um vasto leque de distinções e prémios com destaque para Benjamin Franklin Award (Best Short Story) em 1955; Grand Prix de Littérature Policière em1964 com A Key To The Suite, (1963); American Book Award (National Book Award) em 1980 com The Green Ripper, un dos últimos livros da série Travis McGee; Presidente da Mystery Writers of America em 1962 e detentor do título de Grand Master de 1972 desta organização. Os admiradores de John D. MacDonald consideram que a maior prova do valor da escrita do autor é comprovado agora, mais de 25 depois da sua morte, pela publicação dos seus livros, a adaptação a filme das suas obras e a discussão na Internet do seu trabalho literário e outras questões relacionadas com o escritor. Em Portugal estão editados os seguintes policiários do autor:
1 – Onde Está Janice? (1962), Nº3 Colecção Ângulo Negro, Editorial Íbis. Título Original: Where Is Janice Gantry? (1961).
2 – Só Se Vive Uma Vez (1963), Nº5 Colecção Ângulo Negro, Editorial Íbis. Título Original: You Live Once (1956).
3 – Não Me Condenem (1964), Nº6 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Judge Me Not (1951).
4 – Doce Carícia (1965), Nº18 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Soft Touch (1953).
5 – O Adeus Profundo E Azul (1965), Nº31 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: The Deep Blue Good-By (1964). É o 1º livro da série Travis McGee.
6 – Pesadelo Cor De Rosa (1966), Nº36 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Nigthmare In Pink (1964). Reeditado em 1988 pela Livros do Brasil com o Nº491 da Colecção Vampiro. É o 2º livro da série Travis McGee.
7 – A Raposa Vermelha (1966), Nº43 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: The Quick Red Fox (1963). É o 4º livro da série Travis McGee.
8 – Morte Em Cenário Púrpura (1966), Nº47 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: A Purple Place For Dying (1963). É o 3º livro da série Travis McGee.
9 – A Mortal Do Sombra Do Ouro (1966), Nº50 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: A Deadly Shade Of Gold (1965). É o 5º livro da série Travis McGee.
10 – O Sudário Cor De Laranja (1967), Nº58 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Bright Orange For The Shroud (1965). É o 6º livro da série Travis McGee.
11 – Mais Escuro Do Que O Âmbar (1967), Nº64 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Darker Than Amber (1966). É o 7º livro da série Travis McGee.
12 – O Olho Amarelo (1967), Nº69 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: One Fearful Yellow Eye (1966). É o 8º livro da série Travis McGee.
13 – Cinzento Pálido Por Nossa Culpa (1968), Nº82 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: Pale Gray For Our Guilt (1968). É o 9º livro da série Travis McGee.
14 – O Último Fica Vivo (1968), Nº100 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: (?)
15 – A Encruzilhada (1969), Nº116 Colecção Rififi, Editorial Íbis. Título Original: The CrossRoads (1959).
16 – O Mistério Do Iate Desaparecido (1990), Nº520 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Lonely Silver Rain (1985). Também editado em 1991 pelo
Círculo de Leitores com o título Chuva De Prata. É o 21º livro da série Travis McGee.
17 – Uma Bala Para Cinderela (1999), Círculo de Leitores. Título Original: A Bullet For Cinderella (1955) também editado com o título On The Make.


TEMA — ESTUDOS DE PSICOLOGIA CRIMINAL — DESPOTISMO
A ninguém é lícito fazer justiça pelas próprias mãos. Tempo houve em que a justiça privada teve o seu fastígio. Mas o espírito da civilização repele o direito de punir pelo indivíduo à revelia das leis. E o que, a despeito dessa proibição, se erige em juiz e em executor das suas próprias sentenças contra alguém, ainda que seja a esposa ou o filho, tem de enfrentar a outra e autorizada justiça.
Nas regiões longínquas, porém, onde não chega a autoridade judiciária, e nem mesmo a policial, o homem costuma fazer justiça pelas próprias mãos. Daí os excessos praticados. Daí a sequência de delitos. Ainda hoje há lugares onde os senhores latifundiários reivindicam o direito de castigar pelo chicote, pelo tronco, pela tomada violenta das plantações, benfeitorias, ou pela expulsão das suas terras, aqueles que incidem nos seus códigos penais. Isto quando o código não é o da honra, à moda dos sertões…
A literatura regionalista está cheia de episódios desse género. Assim, em Inocência do Visconde de Taunay. Assim, em A Selva o romance amazonense do escritor português Ferreira de Castro. O autor pinta a justiça dos seringueiros, brutal, despótica, sem piedade. Porque uns trabalhadores fugiram, o proprietário, que os recebe de outro, de vez que aí os latifundiários se ajudam reciprocamente, manda prendê-los num porão, de pulsos amarrados nas costas, ainda assim seguros à parede, e durante a noite, na escuridão, além da fome a que os obrigam, o feitor desalmado entra no catre e chicoteia-os com um látego de peixe-boi, até que sangrem. Então o negro Thiago revoltado pega fogo ao barracão, onde morre o senhor queimado. Entrega-se, dizendo:
Branco, me mande para a cadeia de Humaitá. Fui eu que deitei fogo ao barracão e fechei as portas para seu Juca não sair. Eu também, gostava muito do patrão. Ele me podia até matar que eu não fugia. Era mesmo amigo dele. Mas seu Juca se desviou. Estava a escravizar os seringueiros. Tronco e peixe-boi no lombo só nas senzalas. E já não há escravatura…
Capa de Jorge Barradas


TEMA — TRAVIS McGEE; UM PERSONAGEM DE MacDONALD
Por M. Constantino
O personagem de John Dann MacDonald tem uma estranha profissão: dedica-se a recuperar coisas valiosas, geralmente roubadas, cobrando como honorários 50% do seu valor. A profissão não será muito legal, todavia Travis tem a seu favor o facto de as vítimas — pois realmente em vítimas se convertem ao caírem nas suas mãos — serem criminosos, e deste modo ressalva moralmente o seu comportamento. Trevis rege-se por uma ética aceitável no que respeita à lei e aos seus clientes, estes preferem, naturalmente, recuperar metade do perdido a ficarem sem nada.
Vive numa casa flutuante, tipo barcaça, ancorada quase sempre no porto de Fort Lauredale, mas sempre pronto a deslocar-se às praias da Florida, incluindo as Bahamas.
É um aventureiro que está para além de detective. Não se importa de realizar os seus negócios fora de lei ainda que procure que os seus interesses com ela coincidem. É de certo modo um justiceiro — os maus são seus inimigos e também inimigos da lei, logo o seu êxito pessoal é também um serviço prestado à sociedade.
Enganosa e perigosa profissão, que não deixa de ser interessante e notável. Não é verdade que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão?
É o fundamento filosófico, básico de Trevis MacGee, desde a sua criação em 1964.



TEMA — CONTO POLICIÁRIO — O CASO DA JANELA ESTREITA
De Fernando Saldanha
Velha, muito velha, talvez perto dos noventa anos, o entretenimento favorito dela era passar o tempo a espreitar pela janela das insalubres águas-furtadas em que vivia quase desde que nascera.
Viúva há quarenta anos, vivia duma magra pensão e dedicava-se a mironar o movimento da rua, espiando o trânsito, transeuntes e vizinhos. Praticamente só saia da janela para fazer compras, alimentar-se e dormir.
O vaivém dos vizinhos merecia-lhe particular atenção, principalmente de Policarpo Anjos, o velho agiota que morava no prédio fronteiro, ao nível do seu piso. Conseguira descobrir o esconderijo onde ele guardava zelosamente o dinheiro que avaramente emprestava a juros e deliciava-se a vê-lo conferir cobres e notas, todas as noites antes de se deitar, como se cumprisse um ritual muito delicado e prazenteiro.
Foi assim que a velha viu o crime.
Uma noite, quase à hora de se meter na cama, a velha observou que entrava um cliente na casa de Policarpo Anjos e assistiu à transacção habitual, com o agiota a passar para a mão do cliente um grosso maço de notas, que ela presumia dentro em pouco ir render o dobro.
Estaria tudo em ordem se não fora a cena violenta que se desenrolou em seguida. Transida de susto, viu o cliente levar as mãos ao pescoço do agiota e apertar com força até este tombar sem vida. Depois, o criminoso cujas feições ela viu bem, dado que as luzes estavam acesas, vasculhou a casa de Policarpo, descobriu o local onde o cofre dele se encontrava, pegou num maço de notas, fez um embrulho com ele, e saiu, deixando tudo às escuras.
O crime estava consumado. O que o assassino não sabia, era que o seu acto tivera uma testemunha.

Na manhã seguinte, a mulher que trabalhava a dias na casa de Policarpo deu com o cadáver e chamou a Polícia.
A Brigada de Homicídios, composta por um inspector e dois agentes veio pouco depois e pôs-se a trabalhar no caso, cumprindo as formalidades usuais, tirando fotografias, impressões digitais e investigando a identidade da vítima e o seu modo de ocupação.
De posse das informações prestadas pele empregada de Policarpo, os agentes chegaram facilmente à conclusão de que o móbil do crime fora o roubo, dado que o agiota possuía sempre consigo avultadas quantias para a realização dos seus negócios.
— Vamos ter de fazer uma operação de limpeza nos marginais habituais desta zona. — admitiu o inspector — Em todo o caso, — ordenou — dêem uma volta peia vizinhança a ver se alguém detectou as visitas à vítima. Somente por rotina, pois não acredito que o criminoso não tomasse precauções para não ser visto.
Os subordinados obedeceram e voltaram, pouco depois, com novidades.
— Encontrei uma velha a afirmar que assistiu ao crime. — anunciou um deles — Diz que mora aqui defronte, estava à janela, e viu tudo.
— O quê? Uma testemunha? — opinou o inspector em tom incrédulo — Uma velha? Aí temos as costumadas complicações. Certamente que se trata de uma paranóica. Temos experiência bastante para saber que quando se dá um caso destes aparecem logo um ou dois tresloucados a dizer que viram tudo e afinal não passa de imaginação doentia, só servindo para dar trabalho. Manda-a embora. Nem merece a pena ouvi-la.
O agente ia obedecer ao superior, quando pela porta, deixada aberta, surgiu a cabeça da velha, muito velha, que espreitava pela janela estreita das águas-furtadas.
— Os senhores são da Polícia? — perguntou ela timidamente — Venho para prestar declarações sobre o assassínio do agiota.
Depois, ante a surpresa geral, ficou estarrecida ao deparar com inspector. Fez o sinal da cruz e ia a esgueirar-se pela porta fora qu ando o agente que estava mais perto a deteve, segurando-a firmemente.
— Que temos, boa velhinha? Preste ao senhor inspector as suas informações. — convidou ele, colocando-a defronte do superior.
— Inspector? Inspector? — gaguejou a velha — O criminoso é que é. Vi-lhe bem a cara.

 Aguarela de Vincent van Gogh