26 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 178

EFEMÉRIDES – Dia 26 de Junho
Octavus Ray Cohen (1891 – 1959)
Nasce em Charleston, South Carolina, EUA. Recebe educação militar, serve as forças armadas, trabalha como engenheiro civil e jornalista antes de se tornar advogado. Em 1915 dedica-se à escrita a tempo inteiro. Publica 38 romances, o primeiro The Other Woman (1917) e o último Love Can Be Dangerous (1955), protagonizados por personagens como Florian Slappey, David Carroll, Max Gold e Marty Walsh. Como contista, especialidade que melhor define o seu talento, cria o detective Jim Hanvey, um dos primeiros detectives privados da literatura policiária.

John Blackburn (1923 – 1993)
John Fenwick Blackburn nasce em Corbridge, Northumberland, Inglaterra. Escritor de cerca de 30 romances policiários, de diferentes géneros: mistério, espionagem thriller, publica o primeiro livro em 1958, The Sour Apple Tree. Os seus livros têm a particularidade de misturar conceitos actuais, como a guerra biológica e a conspiração internacional com maldições e tradições antigas obtendo resultados inesperados. Tem obras adaptadas ao cinema e televisão. Em Portugal estão editados:
1 – Um Anel De Rosas (1967), Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: A Ring Of Roses (1966)
2 – O Homem Que Veio De Lima (1969), Nº36 Colecção Espionagem, Editora Dêagá. Título Original: The Young Man From Lima (1968)
3 – Os Traidores (1974), Nº181 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: The Houshold Traitors (1971)
4 – A Mulher Magra (1975), Nº189 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: The Gount Woman (1967)
5 – O Terror De Railstone (1983), Nº14 Colecção Bolso de Noite, Europress.


TEMA — LIÇÃO DE BALÍSTICA
Depoimento de Sir Sidney Smith professor de Medicina Legal da Universidade de Edimburgo.
Cada bala tem a sua história. As armas de fogo modernas são desenhadas para provocarem a saída da bala com maior alcance e certeza devido ao movimento rotativo que lhe imprimem as estrias do interior do cano. São estas uma série de sulcos em espiral gravados no sentido da direita ou da esquerda. A superfície interna do cano, cujo diâmetro constitui o calibre (medido em polegadas ou centímetros, conforme a fábrica de origem), chama-se “alma”. Os sulcos espiraliformes gravados na “alma” de um cano chamam-se “estrias” e as superfícies inter-estrias chamam-se “campos”.
Por conseguinte, esses riscos correspondem às características dos “campos” do cano e, portanto, também a qualquer irregularidade que estes apresentem
Os sulcos do cano variam com a marca e o tipo de arma, em número, sentido de torção, largura e profundidade dos “campos”.
Assim, o revólver do Webley Service tem sete sulcos inclinados para a direita, a Colt, seis inclinados para a esquerda; o Smith e Wesson, cinco inclinados para a direita, etc. Daí resulta que cada bala disparada recebe marcas que são características da marca e do tipo da arma de fogo que a disparou. Mas isto não é tudo. Ao estudarmos, ao microscópio, balas disparadas, verificamos que, além dos habituais sinais do tipo, havia diferenças individuais em um ou mais dos “campos” ou dos sulcos e que eram específicas de uma determinada arma. Geralmente havia também marcas causadas por leves defeitos ou marcas de ferrugem do cano ou por incrustações metálicas.
Para descobrir se uma bala fora disparada por uma arma suspeita seguíamos uma técnica rotineira. Em primeiro lugar, utilizávamos a mesma arma para disparar um determinado número de balas num rolo de algodão em rama ou num saco de trapos. Em seguida comparávamos ao microscópio de comparação cada uma das “balas-teste” com a bala do crime. Quando começámos a trabalhar, não dispúnhamos de tal instrumento, mas improvisámos um. Mais tarde aproveitámos o desenho de Charles E. Waite, outro pioneiro americano da balística forense. Servindo-nos do microscópio, examinávamos as balas, risco por risco. Encontrávamos não só semelhanças gerais, como também marcas de ferramenta, raspaduras, leves erosões e outros defeitos quase imperceptíveis do cano. Evidentemente que nem todas as marcas de cada bala estavam reproduzidas nas outras, porque os riscos causados por partículas de incrustações metálicas variam de tiro para tiro. Só quando várias “balas-teste” apresentavam a mesma marca, esta característica era considerada. A comparação tornava-se mais difícil quando a bala do crime ficara achatada ou distorcida pelo impacto, mas, em geral, conseguíamos determinar se a arma que nos era apresentada era ou não aquela que disparara uma determinada bala.
A identificação tornava-se muito mais fácil se nos entregavam também o cartucho detonado. De novo, procedíamos a comparações com os “cartuchos detonados-teste” depois de disparar uma série de balas em algodão em rama. Cada cápsula detonada apresentava marcas produzidas pelo percutor sobre o fulminante detonador — marcas que variavam de posição, de forma e de profundidade — e pelas paredes da culatra contra a qual a cápsula era retro-projectada quando a bala era expelida. Quaisquer riscos ou irregularidades existentes na culatra eram reproduzidas na base da cápsula. Sobre a superfície cilíndrica desta podia haver marcas causadas por irregularidades ou riscos da culatra ou da câmara onde o cartucho era introduzido. Quando se tratava de uma pistola automática, havia também marcas produzidas pelos dentes do extractor e pelo ejectar, sobre o rebordo posterior da cápsula.
Segundo o nosso ponto de vista, o facto mais importante quanto a pistolas automáticas era ser o cartucho ejectado automaticamente depois do tiro desferido e por conseguinte ficar geralmente abandonado no chão da cena do crime.
Podia ser tão incriminativo como se o assassino tivesse deixado o seu cartão-de-visita.


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — A TERRA CHAMA MARTE
De Donald H. Menzel
Nota Policiário de Bolso: Um texto escrito por um cientista em meados do século XX, na época um estudo inovador e polémico. Hoje ao ser lido deixa, no mínimo um sorriso perante a legítima reflexão de Menzel sobre o sistema de contagem e equivalências e o número de dedos de um marciano.

Pode existir vida fora da Terra?
Os quatros grandes planetas — Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno — são locais pouco hospitaleiros. As suas respectivas atmosferas não contêm oxigénio como a nossa. Além disso, as temperaturas das capas exteriores das suas atmosferas são extremamente baixas, variando desde os 115°C abaixo de zero, em Júpiter, até aos 150°C abaixo de zero em Neptuno. Vénus tem uma atmosfera de igual densidade à da Terra mas sem oxigénio respirável.
Marte é o planeta que mais se parece com o nosso quanto às possibilidades de vida É diferente de Vénus, pois a atmosfera de Marte é transparente. Os telescópios deixam ver linhas finas, como teias de aranha, na superfície do planeta: são os discutidos. “canais” que mereceram ampla publicidade quando Percival Lowell sustentou que eram aquedutos artificiais. Lowell expressou a teoria de que eram obras realizadas por seres inteligentes' para transportar água desde os pólos marcianos até às regiões mais férteis situadas de ambos os lados do equador desse planeta.
Dois pontos brancos que se podem distinguir nos pólos de Marte, mudam de tamanho conforme as estações. Trata-se, muito provavelmente, de camadas de gelo ou neve. À medida que avança a Primavera num dos hemisférios de Marte vai-se estendendo uma onda de cor desde o equador até ao respectivo pólo, transformando o tom cinzento em verde, contrastando com a cor avermelhada do resto do planeta. Os canais escurecem e destacam-se com maior nitidez. Tanto através de fotografias como por observações visuais, têm-se comprovado autênticas mudanças na estrutura e tonalidade das áreas escuras de um ano para o outro A explicação plausível para este fenómeno, é que existe vegetação.
Exactas medidas de cor indicam como provável a não existência de plantas com um desenvolvimento tão completo como as da Terra, pois não se enxergam rastos de clorofila. A flora de Marte parece ter uma certa semelhança com os nossos líquenes.
Se existissem seres inteligentes em Marte é possível que tivessem inventado aparelhos semelhantes àqueles que são usados na Terra — como, por exemplo, a radiotelefonia. Durante muitos anos os cientistas discutiram a possibilidade de comunicarmos com Marte pela rádio Estamos agora em condições de podermos falar com habitantes de outros mundos; se os houver. Podem emitir-se ondas curtas que atravessam não só a nossa atmosfera, como a de Marte.
O problema estaria, no caso de se receberem mensagens extraterrestres, em poder decifrá-las e responder-lhes; no entanto, a solução, ainda que difícil não é um impossível. Suponhamos que recebíamos uma mensagem de Marte, constituída por pontos e traços. Gravaríamos a mensagem e transmitiríamos uma resposta. Poderiam compreendê-la? Já demos conta que podem ouvir-nos, mas como proceder para comunicarmos com seres que não têm nada de comum com os habitantes da Terra?
Nada em comum? Esta afirmação é evidentemente falsa. Se temos entrado em comunicação, Isso quer dizer, muito simplesmente, que ambos possuímos rádio. E se assim é, significa compartilharmos do conhecimento de vários princípios matemáticos. Vejamos, então, se os marcianos podem contar. Enviaremos a nossa primeira mensagem, que consiste em um ponto, dois pontos, três pontos, até chegar a dez. Ora bem… Até um menino de seis anos se aperceberia de que esses símbolos representam vários números. No primeiro ensaio escreveríamos a letra “n” ( _ . em código de ponto e traço, o conhecido Alfabeto Morse) para representar “mais” o “y” e a letra “r” (. _ .) para representar igual, é o som. Depois enviaríamos esta mensagem:
1 + 1 = 2
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e assim sucessivamente. Se os Marcianos entendessem responderiam da mesma forma com os seus próprios problemas. Note-se que junto com os números, agregámos as ideias abstractas de mais e igual.
Se procedêssemos com quantidades de mil ou mais, assinalar os pontos resultaria um trabalho fastidioso, ainda que não impossível. Para escapar a semelhante trabalho utilizámos os números árabes, o zero e o conceito do lugar e dos números. Assim, o número 1 tem diferente valor nos números 12 e 120. Em 12, 1 significa uma dezena; em 120, dez dezenas, pois valemo-nos deste sistema decimal. Os marcianos, que muito possivelmente têm diferente número de dedos — que foram os contadores primitivos — talvez empreguem um sistema baseado em 8 ou 16 ou outro número; mas qualquer matemático pode reconhecer imediatamente se se trata de um sistema diferente e calcular as equivalências entre um e outro. Por este método poderíamos explicar-lhes a nossa aritmética e aprender a deles.
Certos números, como o Π , ou seja, a relação de uma circunferência com o seu diâmetro — 3,14159 — deve ter o mesmo valor em Marte que na Terra. Pesos e distâncias, por outro lado, como, por exemplo, a distância dos planetas ao Sol, podem carecer de significado, pois os quilómetros e as milhas que empregamos na Terra são medidas convencionais. Mas as relações proporcionais de distância são sempre iguais, qualquer que seja a unidade de medida empregada. Um astrónomo que veja as séries 4, 7, 10, 16, 52, 100, reconhecê-las-á imediatamente como as distâncias relativas entre o Sol e Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno. O astrónomo marciano forçosamente terá que compreender o seu significado. Podemos imaginar os marcianos a repetir “16” para assinalar o seu próprio planeta… Responderíamos repetindo repetidamente o número “10”… Vamos progredindo… Já identificámos os planetas por números. Agora podemos marcar alguns símbolos que não sejam números. Transmitiremos assim: Mercúrio, O; Vénus, O; Terra, 1; Marte, 2; Júpiter, 11; Saturno, 10”. Um astrónomo pode compreender imediatamente que os números se referem ao número de satélites de cada planeta, ainda que, daqui da Terra, não se possam observar todos. Os marcianos talvez protestem repetindo a série com uma correcção: “Saturno, 11”. A primeira comunicação científica de valor! Suponhamos então que os marcianos podem ver onze satélites devido à sua atmosfera ser muito mais clara e por estar mais próximo de Saturno Continuaríamos a comparar outros dados planetários: diâmetros, massas, tempos de rotação e assim sucessivamente. Dando aos marcianos os diâmetros em milhas ou quilómetros poderíamos ensinar-lhes os sistemas de medidas usados por nós.
Não há, pois, qualquer limite para as informações que possam ser trocadas entre os dois planetas. O mais exasperante seria o resultado da demora entre o envio da mensagem e a sua resposta. Um sinal de rádio circunda a Terra sete vezes num segundo: precisa de 3 a 20 minutos para chegar a Marte, conforme a posição do planeta na sua órbita. Estou convencido que, se se pudesse intercambiar com qualquer planeta, seria possível estabelecer comunicações inteligentes, que nos conduziriam a descobrimentos de valor Incalculável para a ciência.
Tratemos, pois, de captar as transmissões radiofónicas interplanetárias. Muito antes de poder fazer uma viagem completa ao espaço ou receber a visita de habitantes de outros planetas, estaremos em comunicação com os tripulantes das suas naves ou discos voadores…
E se isso nos parece impossível, recordemos que há um século os habitantes da Terra nem sequer imaginavam as vastas possibilidades da radiofonia.
DONALD H. MENZEL (1901-1976), professor de Astrofísica e Director Associado de Investigações, solares da Universidade de Harvard. No seu livro Flying Saucers (Discos Voadores), publicado pelos serviços de imprensa daquela Universidade, explica os diversos fenómenos que podem dar origem à aparência de discos voadores. Menzel destrói o mito de que se trate de naves do espaço, se bem que admita a possibilidade — como se pode inferir no capítulo da sua obra aqui sintetizado — que as comunicações interplanetárias sejam um facto num futuro não muito distante.
Planeta Marte

25 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 177

EFEMÉRIDES – Dia 25 de Junho
Erskine Childers (1870 – 1922)
Robert Erskine Childers nasce em Mayfair, Londres. Político ligado ao Sein Féin irlandês é executado em 1922 no início da Guerra Civil Irlandesa acusado de terrorismo. Escreve o popular The Riddle of the Sands (1903) que é considerado um dos primeiros romances de espionagem. Relata a acção de dois velejadores britânicos contra um plano de invasão da Grã-Bretanha por parte da Alemanha em 1901.


Barry Perowne (1908 – 1985)
Philip Atkey nasce em Redlynch, Wiltshire, Inglaterra. Secretário e sobrinho do célebre escritor policial Bertram Atkey, dedica-se também à escrita policiária sob o pseudónimo Barry Perowne. É mais conhecido por ter dado continuidade à série A. J. Raffles de E. W. Hornung, com o consentimento de os seus herdeiros. Considerado um autor excecionalmente versátil e prolífico escreve vários contos sobre Dick Turpin, o conhecido salteador e sobre Red Jim o primeiro detective “do ar”. Publica ainda 3 romances com o seu próprio nome: Blue Water Murder (1935), Heirs of Merlin (1945) e Juniper Rock (1953); usa também o pseudónimo Pat Merriman. Na sua obra destaca-se ainda o conto The Blind Spot, publicado pela primeira vez em 1945 na Ellery Queen´s Mystery Magazine, que é classificado como um dos melhores trabalhos de mistério impossível. Em Portugal só foi possível encontrar editado, na década de 40, O Prisioneiro de Gibraltar, na Colecção As Grandes Obras de Mistério e Acção da Editorial Século, Gibraltar Prisoner (1942) no título original, e editado nos EUA com o título All Exits Blocked.

Dorothy Gilman (1923 – 2012)
Dorothy Edith Gilman nasce em New Brunswick, New Jersey, EUA. Autora de romances de mistério e espionagem. É conhecida pela série Mrs. Pollifax, uma avó viúva que decide juntar-se à CIA durante os anos 60 e que protagoniza 20 livros — com humor e suspense — publicados entre 1966 e 2000. Publica ainda 2 livros na série e mais 18 romances. Dorothy Gilman apresenta muitas vezes nos seus livros heroínas improváveis que viajam para lugares exóticos. Em Portugal estão editados:
1 – A Inesperada Mrs. Pollifax (1979), Selecções do Reader’s Digest Título Original: The Unexpected Mrs. Pollifax (1966). É o1º livro da série Mrs. Pollifax.
2 – Na Corda Bamba (1981), Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: ??  
3 – O Safari De Mrs. Pollifax (1982), Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: Mrs. Pollifax On Safari (1976). É o 5º livro da série Mrs. Pollifax.
4 – A Comenda De Mrs. Pollifax (1991), Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original: A Palm For Mrs. Pollifax (1973). É o4º livro da série Mrs. Pollifax.
5 – Mrs. Pollifax E O Segundo Ladrão (1995), Colecção Livros Condensados Selecções do Reader’s Digest. Título Original: The Unexpected Mrs. Pollifax (1993). É o10º livro da série Mrs. Pollifax.


TEMA — CONTO  FICÇÃO CIENTÍFICA — CONFLITO
De Ilya Varshavsky (1909 – 1973)
Notável escritor com algumas obras de ficção científica traduzidas em várias línguas
Tradução de M. Constantino

Hum!. Parece que choraste, porquê? Que se passa?
Marta apertou a mão do esposo e deixou decair a cabeça, respondendo:
— Nada. Simplesmente sentia-me deprimida. Tem a ver com Eric?
— Oh, não. É um menino ideal. Um digno produto de uma criança mecânica. Com uma boa ama, Eric jamais dará problemas aos pais.
— Dorme?
— Ela conta-lhe o habitual conto antes de dormir. Entrei faz dez minutos. Estava sentado na cama, com o rosto iluminado, lançando olhares adoradores a sua amada Cibele. Ao princípio nem sequer me viu, porém, quando me acerquei para dar-lhe um beijo fez um gesto com ambas as mãos para me afastar, como se quisesse dizer que esperasse para acabar a história. Naturalmente uma mãe não é uma máquina electrónica…
— Que disse Cibele?
A encantadora, astuta e sensata Cibele esteve bem como sempre. “Eric — disse — dá à tua mãe, com quem tens laços de sangue, um beijo de despedida. Que te disse eu acerca da divisão pró-mosomática?”
— Porque odeias tanto Cibele?
Os olhos de Marta encheram-se de lágrimas.
— Não posso suportá-la, Luff! Compreende! Noto a superioridade dessa máquina pensante, em cada momento! Não se passa um dia sem que me faça notar a sua superioridade. Por favor, faz alguma coisa. Porque têm que ser tão horrivelmente inteligentes essas máquinas? Não poderiam levar a cabo as suas tarefas doutro modo? Quem necessita que sejam assim?
— É algo que lhes está inerente. As responsabilidades são as leis da auto organização. Nada temos que ver com os seus impulsos individuais, muito menos com o seu génio. Queres que peça a outro robot para substituir Cibele?
Isso é impossível. Eric está enamorado dela. Será melhor fazer qualquer coisa para que fosse um pouco mais estúpida.
— Isso seria um crime! Não sabes que a lei fez os robots pensantes iguais ao homem? — Então, fala com ela! Hoje disse-me uma coisa terrível que não sei como responder-lhe, não posso suportar essa humilhação!
— Silêncio, ela vem aí. Controla-te.
— Olá, chefe!
— Que é isso, Cibele? Já sabes que uma máquina A-1, não tem que usar essa palavra. — Bem, pensei que Marta gostaria. Devo destacar as diferenças entre amo e máquina. Marta levou um lenço aos olhos, e saiu correndo do quarto.
— Precisa de mais alguma coisa?
— Não, podes ir.
Uns dez minutos mais tarde, Luff entrou na cozinha.
— Que estás a fazer, Cibele?
Com um movimento lento, Cibele tirou um rolo de microfilme do receptáculo do peito.
— Estudava pintura flamenga. Amanhã tenho o dia livre e gostaria de ir ver o meu descendente. Os seus mestres dizem que tem verdadeiro génio para o desenho. Temo, porém, que não receba um treino artístico suficiente nessa escola.
— Que sucedeu entre ti e Marta?
— Nada de especial. Limpava a mesa de manhã, quando, por pura casualidade, dei uma olhada às páginas da sua tese, e me fixei em dois erros essenciais na fórmula do ácido nucleico. Seria estúpido não referi-los a Marta; iria ajudá-la.
— E que sucedeu? Começou a chorar e disse que era um ser humano vivo e não um robô, e que uma máquina estar-lhe constantemente a dar conselhos era tão repugnante como beijar uma geleira
— E tu, naturalmente respondeste.
— Sim. Disse-lhe que se pudera satisfazer o seu instinto progenitor com a ajuda de uma geleira, provavelmente não seria repreensível beijá-la.
— Claro. Porém não foi muito educado mencionar esse instinto.
— Não queria fazer-lhe mal. Simplesmente desejava mostrar-lhe que tudo é relativo. — Por favor, tem mais cuidado com Marta, está muito nervosa.
— Sim chefe.
Luff encolheu os ombros e dirigiu-se ao quarto.
Marta dormia, com o nariz apertado contra a almofada e gemia de vez em quando. Para não despertá-la dirigiu-se na ponta dos pés para o sofá.
Sentia-se terrivelmente mal.
Cibele, na cozinha, pensava que os seus constantes contactos com os seres humanos se tornavam insuportáveis; ninguém podia pedir às máquinas, que agora eram muito mais inteligentes que o homem, que expressassem uma gratidão eterna aos seus criadores; e que se não fosse o afecto materno pelo seu pequeno ciber-menino, sem mais nada no mundo, de boa vontade se atiraria pela janela daquele vigésimo piso.

24 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 176

EFEMÉRIDES – Dia 24 de Junho
Lawrence Block (1948 –)
Nasce em Buffalo, New York, EUA. Inicia-se na narrativa policiária em 1957 com o conto You Can’t Lose. Tem publicados mais de 50 romances e mais de 100 short stories, e tem sido distinguido com dezenas de nomeações e prémios literários, sendo actualmente considerado um dos maiores escritores do género. Com uma preferência especial pelos mistérios de quarto fechado e pela cidade de Nova Iorque, cria a série Matt (Mattew) Scudder, um ex-polícia durão e alcoólico que investiga crimes vulgares em 17 romances e um livro de contos publicados entre 1976 e 2011; a série Bernie Rhodenbarr, um ladrão que protagoniza 10 livros e algumas short stories enquadradas numa narrativa policiária com humor. Escreve ainda as séries Evan Tanner, com 8 títulos publicados, e Keller, com 4 livros editados e o 5º agendado para o próximo ano. Lawrence Block, que tem várias obras adaptadas ao cinema, usa os pseudónimos Chip Harrison, Jill Emerson, Paul Kavanagh e Sheldon Lord, este em co-autoria com o escritor Donald E Westlake. Em Portugal estão editados alguns livros do autor, os mais recentes pela Livros Cotovia (clicar)
1 – O Caso Das Raparigas Fotografadas (1962), Nº50 Colecção Enigma, Editora Ática. Título Original: Markham (1961), também editado com os títulos The Case of the Pornographic Photos e You Could Call it Murder.
2 – A Mulher De Duas Caras (1963), Nº55 Colecção Enigma, Editora Ática. Título Original: Death Fulls A Duble Cross (1961), também editado com o título Coward's Kiss.
3 – Lua De Mel Sangrenta (1969), Nº119 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: Deadly Honeymoon (1967).
4 – Oito Milhões De Maneiras De Morrer (1988), Nº76 Colecção Caminho de Bolso – Policial, Editorial Caminho. Título Original: Eight Million Ways To Die (1982) É o 5º livro da série Matt Scudder, galadorado com o Shamus Awards Best Novel.
5 – Os Ladrões Não Podem Escolher (2005), Nº1 Colecção Vampiro Gigante — Obras de Lawrence Block, Livros do Brasil. Título Original: Burglars Can’t Be Choosers (1977). É o 1º livro da série Bernie Rhodenbarr.
6 – O Ladrão Que Estudava Espinosa (2011), Colecção Gato Preto, Livros Cotovia. Título Original: The Burglar Who Studied Spinoza (1980). É o 4º livro da série Bernie Rhodenbarr.
7 – Uma Punhada No Escuro (2011), Colecção Gato Preto, Livros Cotovia. Título Original: A Stab In The Dark (1981). É o 4º livro da série Bernie Rhodenbarr.
8 – Na Linha Da Frente (2011), Colecção Gato Preto, Livros Cotovia. Título Original: Out On The Cutting Edge (1989), É o 7º livro da série Bernie Rhodenbarr.

June Thomson (1930)
June Valerie Thomson nasce em Rettendon, Essex, Inglaterra. Em 1971 publica o primeiro romance policial Not One Of Us, que curiosamente é editado nos EUA, e só depois em Inglaterra. Com ele inicia a série Inspector Finch (baptizado Rudd na edição americana), polícia de uma pequena localidade inglesa especialista em conduzir investigações nas comunidades rurais impenetráveis a estranhos, com a ajuda do Sargento Tom Boyce; a série tem 20 títulos publicados entre 1971 e 2006. A autora escreve também 7 livros de short stories de pastiches de Sherlock Holmes editadas entre 1990 e 2004 e com mais 1 livro agendado The Secret Archives of Sherlock Holmes, para Setembro deste ano. June Thomson tem a sua obra traduzida em vários países, e em Portugal estão editados:
1 – Tempo De Álibi (1985), Colecção Distribolso, Distri Editora. Título Original: Alibi In Time (1980). É o 7º livro da série Inspector Finch.
2 – Um Estranho (1985), Nº79 Colecção Livros de Bolso / série Clube do Crime, Publicações Europa-América. Título Original: Not One Of Us (1971). É o 1º livro da série Inspector Finch.
2 – Flores Não, Por Favor (1989), Nº86 Colecção Livros de Bolso / série Clube do Crime, Publicações Europa-América. Título Original: No Flowers By Request (1987). É o 13º livro da série Inspector Finch.
2 – Vingança Adiada (1990), Nº22 Colecção Álibi – Série Especial. Edições 70,. Título Original: The Long Revenge (1974). É o 3º livro da série Inspector Finch.
2 – Acima De Qualquer Suspeita (1990), Nº27 Colecção Não Incomode. Editora Gradiva. Título Original: Shadow Of A Doubt (1981). É o 8º livro da série Inspector Finch.
2 – Despojos Do Tempo (1989), Nº101 Colecção Livros de Bolso / série Clube do Crime, Publicações Europa-América. Título Original: The Spoiks Of Time (1989). É o 15º livro da série Inspector Finch.
2 – Os Arquivos Secretos De Sherlock Holmes (1993), Círculo de Leitores. Título Original: The Secret Files Of Sherlock Holmes (1990).
2 – Os Diários Secretos De Sherlock Holmes (1994), Círculo de Leitores. Título Original: The Secret Journals Of Sherlock Holmes (1993).


TEMA — CONTO POLICIÁRIO — A CAUSA PERDIDA
O coronel Buck fundara a cidade Bucksport, motivo pelo qual fora nomeado juiz. Era um homem justo à sua maneira, severo em demasia, que queria na sua cidade, pureza, e que não houvesse crimes e violência, pelo qual a cidade era tida como deusa da tranquilidade.
Um dia, porém, foi encontrado o corpo de uma mulher terrivelmente mutilado, faltavam o pé e a perna esquerda. A cidade em peso clamou contra o assassínio. Ninguém sabia a causa do crime, nem a quem apontar a atrocidade. Alguém teria que pagar pela afronta — tanto o juiz como o povo estavam certos disso.
A vítima era viúva do antigo proprietário da padaria e vivia só, numa pequena casa com um jardinzinho florido e as suspeitas incidiam sobre um homem que morava sozinho numa velha cabana. Trabalhava em pequenos serviços ocasionais e limpara o jardim da vítima de que recebera uma moeda e fora presenteado com o cesto de fruta, encontrado na cabana — a isso se resumia a prova para o juiz que sem titubear, o considerou culpado, condenando-o à morte por enforcamento. Bem alto gritou o pobre homem a sua inocência, em vão, com o laço no pescoço, vendo que não era ouvido, jurou que se fosse enforcado, a perna e o pé que faltavam ao cadáver, seriam gravados na sepultura do juiz. A ameaça não resultou e o juiz balançado na ponta da corda, voltou serenamente para casa e para os seus afazeres, certo de haver feito justiça.
Mas a morte, apressada, levara-lhe a vida, não havia passado uma semana sobre a execução. P povo atónito pela morte inesperada do juiz em seguida à execução, da execução que sentenciara, lembrou-se da maldição do enforcado. Passou a vigiar a pedra cinzenta do túmulo, tentando ver algum sinal. Era uma peregrinação constante, não por homenagem ao sepultado, mas por superstição em relação à jura do enforcado.
Um dia peganhento de chuva invernal, que não afastava os peregrinos, apareceram claras e distintas incrustadas na lápide, molhada, os contornos de uma perna e de um pé de mulher. O povo dividiu-se: uns diziam que era o musgo que nascera na sepultura que precisava de limpeza, outros, que era brincadeira de rapazes, porém todos ficaram aliviados quando os trabalhadores conseguiram eliminar a marca, usando areia e pedra-pomes.
Pouco tempo depois a marca voltou a aparecer. Durante longo tempo, várias tentativas foram feitas no sentido de limpar tão estranha marca, mas tudo em vão; parecia que uma força vinda do fundo da sepultura insistia em reforçar os traços. Os trabalhadores da cidade, já sem esperança desistiram da limpeza.
As notícias correm: agora as peregrinações são externas à cidade.
Talvez alguém possa dar uma explicação satisfatória para a estranha gravação: até agora ninguém apareceu para provar que a maldição não se havia cumprido…
M. Constantino