28 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 149

EFEMÉRIDES – Dia 28 de Maio
Dick Donovan (1842 – 1934)
Joyce Emmerson Preston Muddocknasce em Southampton, Inglaterra. Jornalista, utiliza o pseudónimo Dick Donovan — que é também o nome de um personagem — para escrever quase 300 contos policiários e 28 romances publicados entre 1889 e 1922. Cria vários personagens, além de Dick Donovan, um detective de Glasgow, antecessor de Sherlock Holmes; Michael Danevitch, um agente secreto russo; Vicente Trill, investigador da Detective Service; Tyler Talock, um detective privado; e o criminologista forense Fabian Field.

Ian Fleming 1928
Ian Lancaster Fleming nasce em Green Street em Londres. Estuda no famoso Eton Colege e também na Alemanha e na Áustria. Trabalha como jornalista e na bolsa; durante a 2ª guerra mundial, é assistente do director da Naval Intelligence, esta experiência e o contacto com agentes secretos fornecem os personagens e os incidentes que mais tarde o autor inclui nos livros do famoso James Bond. Ian Fleming em 1952 muda-se para a Jamaica e escreve em dois meses a primeira aventura de James Bond, Casino Royale (1953), que vende no primeiro mês quase 5000 cópias. O escritor publica mais 13 títulos da série James Bond até 1996, muitos deles grandes êxitos na adaptação cinematográfica. Em Portugal estão editados:
1 – Casino Royale (1965), Nº1 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Casino Royale (1953). Editado também pela Editora O Quinto Selo na Colecção Os Falcões em 2006, e pela Contraponto em 2010
2 – Vive e Deixa Morrer (1965), Nº2 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora
Título Original: Live And Let Die (1954). Editado também em 2007 Colecção Os Falcões, Editora O Quinto Selo; e em 2010, Colecção James Bond 007, Editora Contraponto.
3 – Moonraker, Míssil De Ódio (1965), Nº3 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Moonraker (1955)  
4 – Os Diamantes São Eternos (1965), Nº4 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Diamonds Are Forever (1956)  
5 – Operação Relâmpago (1965), Nº5 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Thunderball
6 – Só Se Vive Duas Vezes (1966), Nº6 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: You Only Leave Twice (1964)
7 – O Homem Da Pistola De Ouro (1966), Nº7 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: The Man With The Golden Gun (1965). Em 1976, editado pelo Círculo de Leitores
8 – Missão Na Jamaica; Propriedade De Uma Dama; A Encruzilhada De Berlim
 (1966), Nº8 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Octopussy And The Living Daylights - short stories (
9 – Gooldfinger (1968), Nº9 Colecção Agente Secreto 007, Portugália Editora. Título Original: Gooldfinger (1966)
10 – O Agente Secreto (2008), Colecção Os Falcões, Editora O Quinto Selo. Título Original: ??
11 – Quantum Of Solace (2010), Colecção James Bond 007, Editora Contraponto. Título Original: For Your Eyes Only (1959)
12 – Dr No (2010), Colecção James Bond 007, Editora Contraponto. Título Original: Dr No (1958)


Frank Schätzing (1957)
Nasce em Colonia, Alemanha. Estuda Ciências de Comunicação e trabalha como director criativo em publicidade. Começa a escrever na década de 90. È um escritor premiado pelos seus livros de ficção científica e thriller. Em Portugal estão editados O Quinto Dia (2007) e Limite (2012), este último referenciado na secção LIVROS (clicar) do Policiário de Bolso.



TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 14
(continuação de CALEIDOSCÓPIO 142)
Correndo o risco de ultrapassar a cronologia que se tem tentado manter no itinerário possível, em busca de raízes dispersas da narrativa policiária, não resistimos a apresentação de um texto de Beaumarchais — Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais — dramaturgo francês (1732-1799) no qual, em carta de 6 de Maio de 1776 ao director do Morning Chronicle (Obras completas, com o título de Gaité faite à Londres), reivindica para si o segundo lugar, após Zadig, o pioneiro, do segundo detective do mundo. E, no estilo de Voltaire/Zadig, começa por afirmar que:

… Dois dias antes, num salão de baile, encontrou uma capa de senhora, de tafetá preto e deseja entregá-lo à sua dona.

Depois prossegue:

A fim de evitar qualquer engano a respeito, informo que a pessoa que a usava naquele dia trazia também na cabeça plumas cor-de-rosa e, creio eu, brincos pendentes de brilhantes. Mas neste particular não estou tão seguro quanto ao resto — isto é, que ela é alta e tem uma bela figura. Seu cabelo é de um louro prateado, e a pele de uma alvura deslumbrante; o pescoço é fino e bem torneado e o mesmo lhe acontece com a cintura. Quanto ao pé, é o mais lindo do mundo. Observo também que é muito jovem, cheia de vida e um tanto distraída, tem o passo leve e gosta imenso de dançar.

Beaumarchais repete que não a conhece, porém:

… sem me vangloriar de um talento especial, que deixou de o ser desde que o falecido Zadig, de gloriosa memória, expôs o seu método, queria informá-lo, Sir, que enquanto examinava a capa encontrei no fundo do capuz alguns fios de cabelo de um louro admirável, assim como uns fragmentos de penas cor-de-rosa, evidentemente saídos de um toucado. Desta forma, como vê, não foi preciso uma inteligência genial para concluir que o cabelo e o penteado desta loura se devem assemelhar aos exemplares que dele miram.
E uma vez que tal cabelo jamais nasceu acompanhando uma pele morena, a analogia iria sugerir ao senhor, como o fez a mim, que tal beleza dotada de uma cabeleira, louro-prateada deve ter uma pele de alvura deslumbrante. Igualmente uma leve irritação nos fios do tafetá de cada lado do interior do capuz (coisa que só poderia ter sido provocada pela constante fricção de dois pequenos corpos duros em movimento) me disse, não que ela usava brincos pendentes naquele dia, mas que costuma usá-los com frequência. Se o meu raciocínio for falso, peço-lhe, senhor que não me poupe. Severidade não é injustiça.
Quanto ao mais, não é preciso explicar. Qualquer pessoa percebe que bastaria examinar a fita que fecha a capa à altura do pescoço e dar-lhe o laço no lugar marcado pelas dobras para observar o espaço ali contido é muito pequeno. Portanto o pescoço em torno do qual ela se fecha deve ser fino e belo — até aí não houve dificuldade alguma.
Medindo então a distância entre o alto da capa e a dobra ou ruga horizontal produzida mais em baixo na altura em que é amarrada, segundo à moda francesa, a fim de delinear a cintura reunindo a parte sobre as ancas deixando cair as pontas macias de renda sobre um posterior arredondado e bem definido, concluí, como o faria qualquer conhecedor, que com tal cintura e rico busto a dona deve ser alta e bem-feita. A coisa fala por si mesmo: o artista percebe o nu que se esconde sobre a roupa.
Suponhamos ainda, Sir, que ao examinar o centro da capa o senhor tenha encontrado no tafetá preto a marca de um belo pezinho delineado na poeira. Não teria então raciocinado que, se alguma outra mulher tivesse pisado em cima da capa depois de ela ter escorregado no chão, ter-me-ia privado do prazer de apanhá-la? Depois disso já não é possível duvidar que a marca foi ali deixada pela própria dona. De onde é possível concluir que, se o seu sapato é tão pequeno, o seu belo pezinho deve ser ainda menor…
Porém, esta marca, que foi feita por acaso e sem ter mesmo sido notada, denota (além de uma grande vivacidade no andar) uma forte preocupação de espírito, às quais as pessoas graves, velhas ou fleumáticas se entregariam. Daí deduzi que a minha encantadora lourinha está na flor da idade, sendo vivaz e naturalmente distraída… Finalmente, lembrando-me que o local em que encontrei a capa levava ao ponto em que as danças se faziam com maior entusiasmo, concluí que a dama em questão devia apreciar e muito tal passatempo, pois só a atracção exercida pela dança a poderia ter feito esquecer e pisar a pobre capa…
E quando, no dia seguinte, recordei que num lugar onde tanta gente entrava e saía tocara a mim encontrar a capa (o que provava que fora recém deixada ali) sem no entanto poder descobrir a sua dona (o que provava que já se tinha afastado a uma boa distância) disse comigo mesmo: Sem dúvida nenhuma, esta jovem é uma beldade vivaz da Inglaterra, Escócia e Irlanda. E não acrescentei a América porque ultimamente as pessoas têm se tornado diabolicamente agitadas por lá…

Como se vê Beaumarchais merece figurar ao lado de Zadig. Demonstra inteligência e arte de dedução, num problema bem mais difícil de resolver num local e ambientes de vastas hipóteses, já que se trata de identificar uma pessoa, uma so, numa grande cidade, tendo apenas por pista, um objecto por ela perdido.
Cita-se aliás que já no ano anterior Beaumarchais tinha revelado um apurado dote de dedução/indução na comédia “Barbeiro de Sevilha”, de que é autor, representada em 23 de Fevereiro de 1775 no teatro Comédie Française nas Tulherias, e logo retirada, ao colocar nas palavras de Bartolo, o personagem que interpreta o médico tutor de Rosina, como descobrira que esta comunicara com o seu amado.

'Os seus dedos estão sujos de tinta… vejamos uma segunda testemunha que confirma a primeira. Este caderno de papel tinha seis folhas, conto-as todas as manhãs, falta a sexta… a pena é que era nova, como é que ficou preta? Quantas mentiras acumuladas para esconder um único facto: mas a ponta do dedo continua preta, a caneta está manchada, falta a folha de papel; não se pode pensar em tudo…

Capítulo em que se mostram narrativas muito próximas do objectivo policial. Quer em Zadig de Voltaire, quer nos dois textos de Beaumarchais, que reivindica para si o segundo detective do mundo, considerando Zadig primeiro a ideia da dedução está plenamente demonstrada, relevando o espírito analítico em forte escala.


27 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 148

EFEMÉRIDES – Dia 27 de Maio

Dois grandes escritores de Policiário: TONY HILLERMAM e DASHIELL HAMMETT

Tony Hillerman


Tony Hillerman (1925 - 2008)
Anthony Grove Hillerman nasce em Sacred Heart, Oklahoma EUA. Jornalista e professor de jornalismo na universidade em Albuquerque e escritor de bestsellers. Os seus livros policiários são qualificados pela crítica como etnológicos, por causa dos locais que o autor escolhe como pano de fundo — o sudoeste americano em especial as reservas dos índios Navajo — e pelos detalhes geográficos e culturais introduzidas. O seu primeiro livro The Blessing Way, publicado em 1970, apresenta Joe Leaphorn, oficial da Polícia Tribal Navajo, que é também a figura central de Dance Hall Of The Dead (1973) e de Listening Woman (1978). O autor cria também Jim Chee, elemento da mesma força policial, mas ao contrário de Leaphorn, é um crente firme na cultura tradicional Navajo. Jim Chee protagoniza People Of The Darkness (1980), The Dark Wind (1982) e The Ghostway (1984). A partir de 1986 com The Skinwalkers o escritor junta os dois personagens numa série que publica 12 títulos até 2006. Tony Hillerman escreve ainda mais romances alguns em colaboração com outros autores de policiários. Em 1991 é distinguido com o galardão máximo atribuído pelos Mystery Writers of America — Grand Master Award e é extensa lista de nomeações e de prémios recebidos pelo escritor. Destacam-se as nomeações para o Edgar Award Best Novel em 1971 1972, 1979 e 1989 para, respectivamente, The Blessing Way, The Fly On the Wall, Listening Woman e A Thief Of Time (1988). E os prémios: Edgar Award 1974 e Grand Prix de la Litérature Policiére 1989 para Dance Hall Of The Dead; Anthony Award Best Novel 1988 para The Skinwalkers,
Macavity Award Best Novel 1989 para A Thief Of Time, Nero Award para Coyote Waits. Em Portugal estão editados:
1 – Onde Os Mortos Dançam (1989), Nº100 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Dance Hall Of The Dead (1973)
2 - Skinwalkers (1990), Nº114 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: The Skinwalkers (1986)
3 – O Povo Das Trevas (1991), Nº124 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: People Of Darkness (1980)
4 – O Deus Que Fala (1991), Círculo de Leitores. Título Original: Talking God(1989)
5 – O Vento Negro (1993), Círculo de Leitores. Título Original: The Dark Wind (1982)
6 – O Coiote Espera (1993), Nº154 Colecção Caminho de Bolso Policial, Editorial Caminho. Título Original: Coyote Waits (1990)
7 – Caça Ao Texugo (2001), 40º Volume Livros Condensados, Selecções do Reader’s. Título Original: Hunting Badger (1999)
8 – Vento Uivante (2002), 45º Volume Livros Condensados, Selecções do Reader’s. Título Original: The Wailing Wind (2002)
9 – A Primeira Águia (2002), Editorial Tágide. Título Original: The First Eagle (1998)


Dashiell Hammett

Dashiell Hammett (1894 – 1961)
Samuel Dashiell Hammett nasce em Saint Mary’s County, Maryland, EUA. Cresce em Filadélfia e Baltimore, aos 13 anos deixa a escola e desempenha toda a espécie de trabalhos. Entre 1915 e 1922 trabalha como agente da famosa Pinkerton’s Nacional Detective Agency, onde adquire um conhecimento extraordinário sobre a podridão, corrupção e violência da sociedade da época. Ao começar a escrever para a Black Mask, transporta para a narrativa esse conhecimento, cruamente, em estilo directo observações e imagens.

… o primeiro guarda que vi necessitava de uma limpeza geral no corpo e na farda. O segundo faltava-lhe um par de botões no uniforme pouco limpo. O terceiro orientava o trânsito num importante cruzamento da cidade — Broadway e Union Street — com um charuto na ponta dos lábios.
Depois destes, deixei de os observar…

Hammett começa por publicar poemas e short stories sob o pseudónimo Peter Collinson. Depois da publicação de contos seguem-se os romances, Red Harvest (1929), The Maltese Falcon (1930), The Glass Key (1931), The Dain Curse (1931), The Thin Man (1934) e muitos outros…
A contribuição literária de Hammett, principalmente entre os anos 1925 e 1935 significa uma autêntica revolução do género policiário. Não inventou a narrativa negra seguramente, porém consolida-a como género: o realismo e o estilo directo aliados a um comportamento físico e verbal dos personagens, e a violência que é o reflexo da realidade existente. Não obstante, Hammett não faz a apologia de tal comportamento, quanto muito dir-se-ia que o autor ao escrever faz gala do inteligente cinismo.
As adaptações cinematográficas, à rádio e à televisão e até à Banda Desenhada, por Alex Raymond, reforçam o êxito da obra e o nome de Dashiell Hammett.
Fora do círculo literário é um homem muito doente, idealista, incompreendido e infeliz, bebedor, perseguido na famosa caça às bruxas do não menos famoso MacCarthy.
Em Portugal estão editados:
1 – O Falcão de Malta (1950), Nº34 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Maltese Falcon (1930). Editado também em 1979 pelas Edições Regra do Jogo, Nº2 Série Negra; e em 2008 na colecção Os Falcões, pela Editora O Quinto Selo
2 – A Chave de Vidro (1950), Nº47 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Glass Key (1931). Editado também em 1979 pelas Edições Regra do Jogo, Nº5 Série Negra
3 – O Homem Sombra (1952), Nº21 Colecção Escaravelho de Ouro, Editorial Édipo. Título Original: The Thin Man (1934). Editado também em 1960 pela Livros do Brasil, Nº152 Colecção Vampiro; em 1981 pelas Edições Regra do Jogo, Nº9 Série Negra com o título O Homem Transparente; e em 2008 na colecção Os Falcões, pela Editora O Quinto Selo
4 – Estranha Maldição (1953), Nº64 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Dain Curse (1931). Editado também em 1979 pelas Edições Regra do Jogo, Nº7 Série Negra com o título A Maldição Dain
5 – Colheita Sangrenta (1961), Nº11 Colecção 3C, Editora Ulisseia. Título Original: Red Harvest (1929). Editado também em 1979 pela Regra do Jogo, Nº4 Série Negra; e em 2009 na colecção Os Falcões, pela Editora O Quinto Selo
6 – Romances de Dashiell Hammett (2009), Editora O Quinto Selo. Volume Duplo com A Maldição Dos Dain e O Homem Da Sombra


TEMA — HAMMETT, UM CRIADOR DE PERSONAGENS
De M. Constantino
Com a excepção de Waldron Honeywell do primeiro conto, e que o próprio Hammett não gostou e abandonou de imediato, são quatro os personagens criados pelo autor que merecem citação própria.
Continental Op
Continental Op que muitos associam à personalidade do autor, aparece em Outubro de 1923 no conto Arson Plus publicado na Black Mask. É a figura principal de Red Harvest e The Dain Curse e de vários contos que compõem as colectâneas The Continental Op (1945) e The Return Of The Continental Op.
Tal como Dashiell Hammett, detective privado da lendária Pinkerton, Continental Op — originariamente The Continental Detective Agency Operator — concentra-se na figura do Agente da Continental, inominado, cronista de si próprio, escreve na primeira pessoa e é descrito como um homem baixo, forte, por volta dos 40 anos, com uma incipiente calvície, problemas respiratórios talvez por excesso de peso, que não lhe tira a agilidade de acção. É um autêntico profissional, incorruptível, tenaz, experiente na luta contra os malfeitores, não poucas vezes usa a violência contra a violência…


Sam Spade
Sam Spade foi criado em 1929, ano da depressão, da queda da bolsa de Nova Iorque da matança de S. Valentim, em plena lei seca do reinado de gangsters. Tudo se conjuga para que o detective não se divertisse a descobrir os assassinos, mas a combatê-los. No realismo do ambiente psicologicamente não era um justiceiro, mas um duro de corpo e espírito. Segundo Hammett, a mandíbula de Sam Spade era larga e ossuda, o queixo em V que sobressaía do V mais flexível da boca, as aletas do nariz curvam-se para formar um V mais pequeno, os olhos horizontais eram cinza amarelados, cabelos castanho claro… tinha o agradável ar de um demónio loiro. Media aproximadamente 1,85 m, de ampla envergadura de ombros, o corpo parecia um cone invertido. Era a tal espécie de homem demónio que lutava não já pelo império da lei, mas pelos próprios interesses, honestamente, em cumprimento das missões de que era incumbido. Era o prestígio da profissão, agressivo, um impulsivo, talvez, valoroso, brutamontes por vezes, fumador de cigarros negros e batalhador…
San Spade, detective privado, figura no romance The Maltese Falcon e na colectânea The Adventures of Sam Spade: And Other Stories (1944).


Nick Charles
Nick Charles é um ex detective, retirado da Trans American Detective Agency, que se converteu em administrador dos bens da esposa — Nora. Nick Carter não esquece a antiga profissão, e mesmo que quisesse, a esposa recordar-lha-ia, pois gosta de servir de ajudante sempre que lhe encontra possibilidades.
O apelido original de Nick é Charalambides, de ascendência grega, que mudou o nome para Charles para lhe dar sonoridade americana. Também foi um duro na profissão, mudou após o casamento para se integrar na alta-roda da sociedade e círculos sociais a que Nora pertence e vivem perfeitamente em harmonia e despreocupação. Há menos violência nestes personagens e por vezes ressalta um pouco do humor de Hammett. O casal Nick e Nora Charles são os protagonistas de The Thin Man (1934).


Ned Beaumont
Ned Beaumont é o personagem menos conhecido do autor. Está do lado oposto da lei, amigo do chefe de um bando de gangsters, Paul Madvig, com quem entra em conflito, porquanto não aceita a corrupção, o assassinato, nem o poder político mal adquirido. Jogador de dados, bebedor, mulherengo, é alto, delgado, atlético, moreno, de olhos escuros e bigode fino.
Ned Beaumont surge em The Glass Key, mais delinquente do que detective, mas com sentido de amizade e justiça.


TEMA — CONTO
De Dashiell Hammett
Dashiell Hammett não se limita ao tipo policial. Por vezes revela um humor negro terrível e especialista da short-story. Vejamos:

Com um suspiro de satisfação, Walter Dowe tirou a ultima folha da máquina de escrever e recostou-se na cadeira mirando o tecto para relaxar os músculos entorpecidos do pescoço. Olhou as horas: três e um quarto da madrugada. Espreguiçou-se e pôs-se de pé, apagou as luzes e saiu do escritório, dirigindo-se ao quarto de dormir.
Deteve-se bruscamente no umbral. Pelas amplas janelas entrava luz iluminando a cama vazia. Acendeu as luzes e olhou para o quarto; não viu nenhuma das coisas que a mulher vestira naquela noite. Logo, não se havia despido; talvez tivesse ouvido o matraquear da máquina de escrever e decidisse ficar no salão esperando que terminasse. Nunca lhe interrompia o trabalho normalmente ele absorvia-se demasiado nas suas tarefas para a ouvir passar diante da porta do escritório.
Assomou a cabeça pela escada e chamou:
— Altheia!
Não obteve resposta.
Desceu a escada, entrou em todas as divisões da casa, acendendo as luzes. Voltou a subir ao segundo piso e fez o mesmo. A esposa não estava em casa. Estava perplexo e um tanto receoso. Então recordou-se que havia ido ao teatro com os SchuyIer. Tremiam-lhe as mãos ao levantar o auscultador.
Respondeu a criada dos SchuyIer… que houvera um incêndio no Teatro Majestic, que nem o senhor nem a senhora tinham voltado para casa e que o pai do senhor havia saído para procurá-los, porém, não havia voltado ainda. Parecia-lhe que o incêndio tinha sido muito grande…
Quando chegou o táxi que pedira por telefone, Dowe já estava à espera à porta da casa.
Quinze minutos depois metia-se por entre as cordas protectoras que rodeavam o teatro. Um polícia suado e de rosto encarniçado fê-lo retroceder.
— Aqui não está ninguém. O edifício foi evacuado. Levaram-nos todos para o hospital.
Dowe voltou a encontrar um táxi, que o levou ao Hospital Municipal. Subiu as escadas cinzentas entre grupos e choros que as enchiam. Um polícia bloqueava a porta. Um homem de cara pálida, todo de branco, falou por cima do ombro do polícia.
— Não faz sentido que esperem. Estamos demasiado ocupados para atender-vos… tentaremos dar-vos uma lista para a última edição da manhã, todavia não podemos deixar entrar quem quer que seja, por enquanto.
Dowe parou a pensar. Logo lhe ocorreu: “Pois claro, Murray Bornis!”
Regressou ao táxi e deu a direcção de Bornis.
Bornis, em pijama, abriu-lhe a porta. Dowe entrou.
— Altheia foi esta noite ao teatro e não voltou. Não me deixaram entrar no hospital. Disseram-me que esperasse, mas não posso!Tu és comissário da polícia, podes conseguir que me deixem entrar. Enquanto Bornis se vestia, Dowe dava voltas de um lado para o outro. Então fixou a imagem no espelho e ficou imóvel. A visão da sua cara e dos seus olhos de louco devolveram-lhe a calma. Estava à beira de uma histeria. Tinha que serenar. Não podia ir-se abaixo antes de encontrar Altheia.
Deliberadamente obrigou-se a sentar e não imaginar o corpo suave e branco de Altheia chamuscado e pisado. Tinha que pensar noutra coisa, em Bornis, por exemplo… No entanto acabou por pensar na esposa. Ela nunca tinha simpatizado com Bornis; a sua sensualidade e a duvidosa fama como conquistador ofendiam o seu conceito de moral. É verdade que sempre o havia tratado com cortesia devida a um amigo do esposo, mas, em geral, dava-lhe um tratamento gélido. E Bornis, compreendendo a sua atitude — e até possível que um tanto despeitado — era igual e educadamente frio. Agora ela estava estendida em qualquer parte, gemendo agonizante, provavelmente já fria.
Bornis terminou de se vestir e foram a toda a pressa ao Hospital, onde admitiram o comissário da polícia e o seu acompanhante. Percorreram salas cheias de corpos gementes e atormentados, vendo rostos feridos e queimados sem encontrar alguém conhecido. Foram ao Hospital de Misericórdia, no qual foram dar com Sylvia SchuyIer. Ela contou-lhes, antes de desmaiar, que na confusão do teatro se separara de Altheia e do marido e não voltara a vê-los.
Quando regressaram de táxi, Bornis deu instruções em voz baixa ao taxista, mas Dowe não teve necessidade de ouvir para saber onde se dirigiam: à morgue. Não havia outro local.
Começaram a olhar entre os corpos alinhados, terrivelmente deformados. Dowe já não sentia nada; nem compaixão, nem! repugnância. Olhou um rosto; não era Altheia, logo não era nada; passou ao seguinte.
Os dedos de Bornis apertaram-se convulsivamente no braço de Dowe.
— Ali!… Altheia!…
Dowe voltou-se. Um rosto que os tacões das botas haviam desprovido de feições, um corpo enegrecido e cortado com as roupas esfarrapadas. O único que de humano restava era as pernas; sem se saber como, haviam escapado à mutilação.
— Não, não! — chorou Dowe.
Não acreditava que aquela coisa deformada e queimada, fosse a extraordinária brancura de Altheia.
E no meio daquele horror em que Dowe por um instante ficou desnorteado e louco, a voz de Bornis, vibrante, angustiada… quase num grito:
— Digo-te que é ela! — estendeu o braço para apontar o lugar onde as pernas se juntam.
— Olha, olha! O sinalzinho secreto!…

26 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 147

EFEMÉRIDES – Dia 26 de Maio
Caitlín R. Kiernan (1964)
Caitlín Rebekah Kiernan nasce em Skerries, Dublin, Irlanda. Vive nos EUA desde criança. Paleontologista e escritora de ficção científica e de Dark fantasia. Em 1992 começa a escrever The Five Of Cups, que só seria editado em 2003. Entretanto, em 1998, publica o primeiro romance Silk que vence dois prémios. Seguem-se Threshold (2001), também premiado, Low Red Moon (2003), Murder Of Angels (2004), Daughter Of Hounds (2007), The Red Tree (2009) The The Drowning Girl: A Memoir (2012). A escritora que tem sido distinguida com uma longa lista de prémios e nomeações, é também autora de uma centena de short stories reunidas e 8 livros de colectâneas e de argumentos para Banda Desenhada.



TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — AINDA O ENIGMA DE IDENTIFICAÇÃO
A identificação é um elemento importante na área policial e enigmística.
Tomemos um caso real, a realidade de todos os dias:

O ESTRANHO COZINHEIRO
Em 1903 Herman Golchmer andou 150 quilómetros, para se matricular numa famosa escola de medicina, em Viena. Filho de um empregado público de categoria inferior, era mais pobre do que a média dos estudantes do seu tempo. Inteligente e simpático, resolveu o problema financeiro casando-se com Elisa Kruger, viúva de um rico negociante. Dois anos após se ter formado em cirurgia. Golchmer inventou uma modalidade de sutura, a que deu, modestamente, o próprio nome, e que lhe mereceu ser convidado para ensinar a nova técnica num hospital de Boston, onde chegou em 1911 acompanhado da esposa, que envelhecia rapidamente. Os Golchmer divertiam-se muito, e as maneiras continentais e aristocráticas do médico arrancavam suspiros de muitas jovens bonitas que, secretamente, invejavam a loura Elisa. Cansado da mulher, Golchmer decidiu livrar-se dela e, uma noite, degolou-a com a navalha, Depois disso sumiu completamente, sem deixar o menor traço de destino.
Após três anos, as investigações esfriaram. Nunca teria sido descoberto, se um jovem, de nome Patrick Hellman, filho de um ex-detective particular, não se tivesse diplomado em cirurgia, aprendendo, entre outras coisas, a sutura de Golchmer. Certa vez, o jovem cirurgião, que tinha clínica em Nova Iorque, foi jantar, acompanhado do pai, na casa de um dos seus mais ricos clientes. Quando chegou o prato principal, galinha-da-guiné assada, o anfitrião virou-se para o velho, e disse:
— Vou pedir ao seu filho para cortá-la. Deve fazê-lo muito bem, dado que é cirurgião. Rindo-se, o jovem Dr. Hellman ergueu-se, tomou a faca numa das mãos e firmou a escorregadia ave com o garfo de longos dentes. Nisto, reparou nos intrincados e precisos pontos, que seguravam o recheio. O hospedeiro seguiu-lhe o olhar.
— O meu novo cozinheiro tem qualquer coisa de alfaiate — comentou — Talvez gostasse de conhecer.
— Certamente que gostaria de vê-lo! — exclamou o jovem médico. Estas são suturas de Golchmer. É trabalho melhor do que o de qualquer cirurgião que tenha conhecido. — O assassino Dr. Golchmer foi apanhado na cozinha. O ex-detective Hellman reconheceu imediatamente, apesar do cabelo vermelho que deixara desenvolver.
A sua humilhação foi tão grande que um mês mais tarde, enquanto aguardava julgamento, enforcou-se na porta da cela.


TEMA — DESAFIOO PUNHAL MALDITO QUE VEIO DO PASSADO
De M. Constantino 
E porque o exemplo é o melhor mestre, aqui fica um enigma em que é necessário muita pesquisa e alguns conhecimentos históricos.

As mãos nuas do cavaleiro afastam do rosto os ramos orvalhados. Segue a vibração do martelo sobre a bigorna, na floresta nevoenta. O som torna-se mais audível pela proximidade. O cheiro pestífero das águas da lagoa denuncia o fim da jornada. É hora do afortunado – a condenação à morte do irmão e o suicídio do pai, engrossam-lhe a riqueza – quão inescrupuloso personagem, deixar a montada e dirigir-se a pé ao encontro do exímio armeiro. Acerca-se a passos lentos… Tem dez Legiões, magica Spartacus, cogita no título de Procônsul.
O armeiro curva-se reverente… “Dives pax vosbicum”… O gélido cavaleiro teve um ligeiro arrepio, disfarçado. O armeiro estende-lhe o fruto do trabalho: o punhal longo, bronze e fio de ouro temperados nas águas fétidas da “Lagoa da Morte”, logo inquebrável, punho incrustado de pedras preciosas.
Pega na arma, agradado, toma-lhe o peso… Subitamente, de um só golpe faz rolar a cabeça de quem acaba de o servir… o corpo tomba ao lado. Limpa o punhal, extrai com os dedos, sem tremura, um moeda de ouro, que atira para junto do corpo… “Finis coronat opus”… Regressa à montada, indiferente.
Pouco após, durante a festa de despedida de duas das suas Legiões, que integram o contingente para a Gália, um dos comandantes apropria-se, esquiva e ilegitimamente, da arma. O roubado, consultada a sua estrela, não persegue o ladrão. Certo é que, internado no território gálico sem estorvo, tal comandante, jovem e ambicioso, adianta-se ao grosso da coluna com uma centúria de “infantes” e “velitas” e dez cavaleiros. Caem numa emboscada. Os galeses soltam-se das árvores sobre o inimigo. O punhal de ouro corta e trespassa corpos… Na manhã seguinte, um dos muitos mendigos que acompanhou os exércitos encontra-o numa mão dispersa, cujos dedos foram totalmente decepados… O tempo conta-se por dias, anos, séculos. Do punhal nada se sabia…
Em pleno Renascimento, entre os escombros de um sombrio solar medieval (sem respeito pelos fantasmas do marido e sogro, que perturbavam o sono, tétrico de visões, da formosa diva favorita do Rei, este, em cumprimento da promessa que lhe fizera, ali mandou erguer um monumental castelo), ocasionalmente, um operário descobre o valioso punhal. Levou-o. Foi assassinado antes de alcançar recato. A arma desapareceu de novo… dias, anos, séculos decorreram.
Sensivelmente três séculos depois, um homem alto, forte, de cabelos louros, no período áureo da sua existência, permite-se ostentar à cintura o punhal de ouro e bronze, cabo coberto de pedrarias… Onde o encontrou? Fora o eterno perseguido, parte da vida nas prisões e delas se evadindo graças à arte de disfarce e expedientes loucos. Apreciava o nome de Jules, mas usava Blondel, Lebel, soldado Kaisenky. No Regimento de Bourbon serviu como Jacquelin. Vida espantosa! Mesmo na notoriedade, bateu-se contra polícias ou contra ladrões, por vezes simultaneamente com uns e outros. Já septuagenário, é julgado por fraude, sequestro e escroqueria: sente-se em casa, tal é o seu à-vontade! Mas onde se encontra o punhal, cuja posse parece ser por si só, uma ameaça?
Na louca cavalgada dos anos, por estranho que pareça, entra Portugal. É um punhal maldito com uma história não menos sinistra.
Depois que me foi revelada a sua existência, vejo o refulgir do seu gume de ouro. O brilho das pedras, a adejar-me sobre a cabeça. Na escuridão do quarto, anormalmente silencioso, ouço um som horrível – o do meu coração saltitante! Grito e acordo! Que sonho terrífico! Terrífico, mas real.
Obcecado, recolho elementos, estudo-os, posso garantir: o Cavaleiro existiu, descobri o seu nome (Qual é?) e, a verificar-se o cruel crime na actualidade, o personagem era facilmente identificável (Como?); o Castelo (Qual é?) representa o mais belo protótipo da arquitectura referida; o ás das evasões fora-me fácil de identificar (Quem é?).
São estas as quatro questões que deixo à inteligência dos leitores.


TEMA — CONTOO DERRADEIRO DIA
De Bento Vintém  
São perto de onze horas. Há estrelas no céu, miríades delas, como um bando de pirilampos em confusão. Aqui há luz. Sei que ela está acesa. No entanto, por dentro de mim, tudo é negro. Uma fobia terrível vai-me tomando de assalto. Um terror mais, muito mais que mórbido, do amanhã. Ando a fugir inutilmente, há perto de três anos, procurando adiar o que agora é inevitável. Tudo está perdido. Não posso imaginar-me amanhã, todo vestido de negro, só aquele tom claro á volta do pescoço e sempre apertando… apertando…
A multidão pronta a saltar sobre mim, ao mínimo indício de fuga. E entre ela está a minha família! A minha própria mãe! Também ela me olha, impotente, mas encarando o facto com resignação.
E os amigos? Deixem-me rir! Os meus amigos! Pois não me abandonaram todos, enquanto eu lutava pela salvação? Bem se esforçaram por me convencer de que há outra vida. Teorias ocas, vãs!
Depois, há o fim! Acaba tudo. Liberdade, prazeres, personalidade espírito… e até o próprio corpo se vai desintegrando pouco a pouco. Maldita hora em que olhei para aquilo. Porque teria eu pensado em que seria meu? Porquê? Para agora ir perder tudo. Para agora ser sepultado com o que cobicei. Como que guardado á vista pelo que cobice. Oh vida, que ridícula és!
Manhã. Cá vou neste carro negro, todo negro e todo fechado. Agora tudo está preparado: nem vale a pena tentar na fuga. Lá está aquela multidão ululante, sempre ávida de espectáculos desta natureza.
Devo parecer já um defunto. Já vislumbro, vindo não sei donde, o vulto alvo do fantasma que me vai levar para a outra vida. Ah! Ah! Ah! Já estou com alucinações.
Lá vem o padre. Imponente, severo, sem o mínimo reflexo de compaixão nas pupilas de aço. Pudera, se ele fica do lado de cá. Aproxima-se. Pára. Solene, estático, faz-me genuflectir, e o fantasma sempre colado a mim, sorrindo no antegozo do futuro. Mais um pensa ele, e ri-se discretamente.
Nesse instante o padre estende a mão e …
…aceita para sua legítima esposa…?
— Ssss...im! …
Ah! Ah! Ah! Ah! Outra Vidal Chegou o fim!