26 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 117

EFEMÉRIDES – Dia 26 de Abril
Dorothy Salisbury Davis (1916)
Nasce Chicago, Illinois, EUA. Bibliotecária, publica o primeiro romance em 1949 The Judas Cat. É autora de duas dezenas de short stories e igual número de romances policiários, entre os quais se contam as séries Mrs. Norris — com 3 títulos—, e Julie Hayes— com 4 títulos. Dorothy Salisbury Davis é eleita presidente de Mystery Writers of America em 1955; é nomeada 4 vezes para o Edgar Award - Best Novel: em 1959 com A Gentleman Called, em 1966 com The Pale Betrayer, em 1969 com God Speed the Night e em 1970 com Where the Dark Streets Go; para o Edgar Award – Short Stories é nomeada 2 vezes, em 1965 e 1976, respectivamente por The Purple Is Everything e Old Friends.

TEMA — OS GRANDES TEMAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA — UTOPIAS
Sem perder de vista que a Ficção Científica se insere num contexto de futuro — o futuro do Homem — depara-se-nos uma outra corrente narrativa enquadrada num vasto campo sociológico, designada também como utópica, e anti-utópica, esta de movimento contrário àquela, de conceito pessimista, cujo cariz é essencialmente filosófico e daí certa resistência por parte de alguns estudiosos no enquadramento do género.
Não tomando partido na disputa, não vemos porque negar ou evitar a sua inclusão quando se reconhece que temas como viagens no tempo, a criação e a utilização de robôs, ali têm inegável, assento e são parte integrante de muitas utopias. Aliás, no dizer de Robert Musil que designa a utopia como a possibilidade que pode efectivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias que obstam á sua realização, define-se com bastante exactidão as características de ficção científica.
A utopia e anti-utopia confundem-se ambas põem em causa o homem e a sociedade, positiva ou negativamente.
Podemos descobrir em Platão alguns dos primeiros vestígios de concepção utópica. A Republica seria um dos primeiros esboços e modelos de todas as utopias que têm em Thomas More (De optimo reipublicæ statu: deque nova insula Utopia de 1516) e em Campanella (A Cidade do Sol, de 1623) continuadores não só de Platão, mas também de Santo Agostinho e Petrarca, e se identificou com o primeiro grupo de utopistas filosóficos.
Para More, a célula económica é a família, para Campanella a destruição desta a favor do estado Universal, como Wells mais, tarde (1920) no livro de seu maior êxito The Outline of History. Ambos põem em evidência a sociedade perfeita na qual ninguém vive à custa de outrem: No primeiro todos trabalham por igual e gozam dos seus frutos em comum, no segundo bastam seis horas de trabalho para prover as necessidades da vida e o resto do tempo é dedicado ao estudo da ciência e a jogos ao ar livre, etc.
Em Gargântua e Pantagruel, de Rabelais, pelo contrário a sua Abadia de Thelema é um recanto onde apenas uma elite faz o que quer. E, entretanto, o ideal da vida, um pequeno paraíso, distinguido, aliás, por vários autores da época e descrevem uma terra repleta de rios de leite, lagos de mel, onde o homem recolhe da própria natureza todo o seu sustento.
Cem anos depois de More, Francis Bacon em A Nova Atlântida desenvolve o problema do progresso técnico, Edward Bellamy em Looking Blackward 2000, publicado em 1887,preconiza uma sociedade do século XXI em que o socialismo e as máquinas trazem a felicidade, antes, e de resto, precedido pelo húngaro Imre Madách em A Tragédia do Homem (1861) na qual o mundo futuro é o triunfo total da ciência, um mundo em que desaparecem todas as plantas e animais, com excepção dos que a ciência substituiu.
A viagem histórica do tema avizinha-se, viagem que termina o optimismo irreflectido, após a publicação de A Máquina do Tempo, A Guerra dos Mundos e O Homem Invisível, de Wells. E o movimento oposto da utopia. Evgueni Zamiatine desenvolve em Nós, um livro de 1922, o esquema obrigatório dos cidadãos de uma sociedade perfeita, rodeada de muralhas para que se não comunique com o exterior, cidade onde o casamento desapareceu, os cidadãos têm direito a umas horas de amor por semana, amor onde ninguém pode baixar as persianas das janelas de modo que os vizinhos podem observar a casa alheia, já que tudo é público e grátis e sem revoltas, porque ao primeiro sinal de rebeldia a alma lhe é extraída. Em O Admirável Mundo Novo (1932), de Huxley, apresenta-se-nos uma sociedade do Século VII da era Ford, correspondente ao Século XXVII da nossa era, do qual confessava o autor cerca de 30 anos mais tarde, em O Regresso ao Admirável Mundo Novo (1960) terem-se as suas profecias cumprido muito antes daquele Século. Ali impera uma sociedade de castas: os alfas e superalfas — a classe superior — e os betas — biologicamente inferiores — que gostam de trabalhar e estão àqueles submetidos. As crianças saem dos laboratórios. Não há dor, tristeza ou mesmo velhice — a morte é um procedimento tão rápido, que nem chega mesmo a notar--se a idade; a droga, os espectáculos e o amor livre não procriador são as máximas satisfações.
George Orwell tem as suas utopias de sinal contrário em O Triunfo dos Porcos (1945) e em 1984 (escrito em 1950). Típico inglês sentimental, preocupado com o destino dos outros, disposto a por eles sacrificar e arriscar a vida, como o fez na Guerra Civil de Espanha, choca o leitor de 1984 com a visão de violência, crueldade, miséria, perda de liberdade, a que o ser humano pode chegar antes de finalizar o presente Século. O Mundo, dividido em 3 únicas potências (Oceania, Eurásia e Estásia) e vive em constante guerra…
A antiga civilização pretendia estar fundada no amor e na justiça. A nossa está fundada no ódio. No nosso mundo não haverá outras emoções alem do temor, da raiva, do triunfo e da humilhação. E daremos cabo de tudo o mais. escreve.
Herman Hesse, tal como Ernst Jünger que referenciaremos seguidamente, não é reconhecidamente um utopista ou homem da Ficção Científica, todavia em O Jogo das Contas de Vidro (Das Glasperlenspiel, no original) propõe uma perspectiva do futuro Século XXV ou XXVI.
As obras de Jünger Sobre as Falésias de Mármore, Heliopólis e As Abelhas de Cristal formam o tríptico da sua faina utópica. Nas Sobre as Falésias de Mármore tem muito de mito;"Heliopólis de algum modo confirmadora de A Cidade do Sol de Campanella, é uma cidade de um futuro longínquo, um lugar para além das estrelas;As Abelhas de Cristal são o símbolo da destruição, a imagem da poluição crescente decorrente do progresso técnico.
A apresentação do homem perante a sociedade, a sociedade perante o bomem, embora diversificada ao longo dos séculos, vem-se tornando cada vez menos optimista. A excepção vem-nos do Leste— velha e nova Rússia — em que os autores de forte inspiração e ideal socialista, comunal e cooperativista, dominam o horizonte da esperança comunista.
Ray Bradbury revela-nos um futuro tão só como o destino cósmico do homem sob um horizonte de tristeza sem remédio. Em verdade as utopias tecnológicas deste escritor, como as utopias políticas de Orwell parecem pretender inculcar-nos no espírito a sombra infernal da civilização numa espécie de advertência muito séria.
Com efeito, os caminhos que levam á constituição de utopias na sociedade real estão cheios de obstáculos e perigos que bem podem ameaçar a extinção da Humanidade (Kurt Vannegot). A sociedade perfeita é um estado social moralmente inactivo, sem problemas, e a falta de problemas converte-se no problema principal da sociedade.
M. Constantino

25 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 116

EFEMÉRIDES – Dia 25 de Abril
Michael Harrison (1907 – 1991)
Maurice Desmond Rohan nasce em Milton, Kent, Inglaterra. Jornalista, editor, consultor e escritor de ficção científica, fantasia e policiário usa vários pseudónimos literários. Assina a maior parte das suas obras como Michael Harrison. Na década de 50 é considerado um especialista em Sherlock Holmes, tendo publicado 32 livros de não ficção sobre História, Londres, Sherlock Holmes como por exemplo In the Footsteps of Sherlock Holmes (1960). Escreve 18 romances policiários e ficção científica e 1 colectânea de contos policiários The Exploits of Chevalier Dupin também editado com o título Murder In The Rue Royale (1968). Sob o pseudónimo Quentin Downes escreve 4 livros protagonizados pelo Inspector Abraham Kozminski
Utiliza apenas uma vez o pseudónimo Michael Egremont em Bride of Frankenstein (1936).

Richard Deming (1915-1983)
Nasce em Des Moines, Iowa, EUA. Inicia-se na escrita policiária em 1942 com The Gallows in My Garden , o primeiro livro da série Manville (Manny) Moon. Cria ainda as séries Dragnet, Matt Rudd e Mod Squad. No total escreve perto de meia centena de livros policiários e alguns contos, como Richard Deming ou sob os pseudónimos Emily Moor, Halsey Clark, Lee Davis Willoughby, Max Franklin, Nick Morino e Richard Hale Curtis.


TEMA — SONHO E POESIA — ALEGRIA É VÉSPERA DA DOR
De Fausto Pereira Leal in Célula Cinzenta
Alegria é véspera da dor…
Embarca-se para dentro
Numa transfiguração
Fecundada pelo tempo
Um novo céu
É como olhos de fogo…
Uma nova terra
É como olhos de carne…
O ritual do laço permanece
Tanto na luz que acende
Como num caminho escuro…
Omnipresente, meu cravo de carne
Assobia à chuva…
A canção esquimó
É cântico maravilhoso
No fim do mundo…
Porquê mitos e mistério
Na existência do dia a dia?…
Porquê proclamar um novo céu
Num linguajar fecundo? …
Há sempre folhas a cair…


TEMA — CONTO POLICIÁRIO — UM PORMENOR PRECIOSO
De Domingos Cabral

“O Crime não compensa… O Crime não compensa… O Crime não compensa…”
Como uma obsessão, como se fora um martelar contínuo, a frase continuava a assaltar-lhe a mente, a subjugá-lo, a aniquilá-lo. Quis expulsá-la. Pensar noutra coisa. Mas a voz grave do Juiz, quando uma semana atrás lera a sentença no seu julgamento, continuava a massacrá-lo com todo o peso e a dureza que agora bem profundamente compreendia:
— “… e espera a justiça, que este Tribunal aqui representa, que a pena a que acaba de ser sentenciado lhe proporcione a oportunidade de meditar no seu tão condenável acto, permitindo-lhe o arrependimento sincero e a sua recuperação como Homem, como elemento útil e válido para uma Sociedade mais justa e fraterna, através da conclusão, a que decerto chegará, de que O Crime não compensa…”
O Crime não compensa! Não compensa, realmente, pensou com amargura. Vinte anos, vinte anos de prisão maior eram bem a insofismável prova disso!
Parte duma vida humana, não vivida, subtraída assim a uma existência que tão profundamente ficará marcada por tão dura quão lamentável provação.
Fora grande o ódio que dedicara àquele que foi a sua vítima, e que ele acreditou, num inexplicável momento de falta de serenidade e consciente reflexão, que podia suprimir sem consequências graves para si — pensou, enclavinhando as mãos, fortemente, nas duras e frias grades que defendiam agora o seu cativeiro.
Enganara-se. Enganara-se profundamente, via-o bem agora. E quão arrependido estava! Acreditara que podia cometer o crime, ver-se livre daquela obsessão odiosa, e ficar impune, beneficiando da presença, próxima, de outras duas pessoas. Pessoas que seriam tão suspeitas como ele, não permitindo à Justiça uma solução satisfatória, por falta de concretos elementos de prova, que ele não deixara. E como não houvera testemunhas.
Acreditara-o firmemente, pois desferira o golpe com rapidez, fora das vistas de alguém, a vítima expirara logo, sem possibilidades de deixar qualquer indício acusatório para si, e imediatamente ele dera prosseguimento ao seu álibi metendo-se na arrecadação onde se encontrava o telefone, a pretexto de efectuar uma chamada telefónica, conforme já antes, ostensiva e intencionalmente, anunciara. Precisamente para justificar, ali, a sua presença durante o tempo em que o crime fosse praticado, construindo assim o álibi de que necessitava para a sua impunidade.
Rememorou aqueles momentos trágicos que tão dolorosos lhe eram já.
Entrara na arrecadação-cabine, simulando efectuar uma chamada que efectivamente não fez, aguardara que a sua vítima ficasse só — o que acontecera quase de imediato à sua entrada, porquanto um dos presentes fora para o WC e a outra para a cozinha —, saiu, cometeu o crime servindo-se para isso de uma faca que, conjuntamente com outros talheres se encontravam, em desordem sobre o balcão, e voltou à arrecadação, onde se deixou ficar até o corpo ser descoberto. O que não demoraria, evidentemente, pois nem a estadia de um, na casa de banho, poderia ser muito longa, nem a outra, certamente, estaria também muito tempo sem vir buscar os pratos, chávenas, copos e talheres que sobre o balcão aguardavam lavagem, pois que fora com essa finalidade que se dirigira à cozinha. O corpo seria então descoberto e, certamente, ante as negativas de todos e a falta de provas incriminativas para qualquer deles, o crime acabaria por ser atribuído a qualquer pessoa, vinda do exterior, e que para ali de novo rapidamente se dirigira após a perpetração do acto. Tudo perfeito, tudo rápido, tudo lógico, pensava, mas…
…Mas, embotado como estava o seu espírito, não viu os erros que subjacentes a esta actuação, a este plano, existiam a incriminá-lo de forma inapelável. Os criminosos esquecem-no sempre, mas sempre as circunstâncias levam a justiça a demonstrar que O Crime Não Compensa. Sempre!
Às vezes pequenos nadas, mas sempre suficientes. Como no meu caso: pois não esquecera ele, na sua precipitação, que se tivesse e efectivamente e editado uma chamada telefónica de dois minutos, com a qual supunha ter construído o seu álibi, o fiscalizador de chamadas situado numa das prateleiras do balcão, forçosamente assinalaria os períodos — impulsos — correspondentes ao tempo de conversação?
Sim, lamentavelmente esquecera isso — evocava dolorosamente, fincando as unhas nas grades. E quando vira o Inspector, depois de fazer ele próprio uma chamada, “olhar lentamente à roda da sala” e ir verificar o contador, compreendera, de repente, o seu tremendo erro. Sentira-se então aturdido, confuso, quase perdido. Afinal um erro ião estúpido…
Tentara, ainda, titubear uma explicação, conseguir anular, de qualquer forma, o que pensava ainda ser o seu único erro. Tinha que consegui-lo, estava em jogo a sua liberdade, a sua vida…
Mas já o Inspector, sem lhe dar tempo a raciocinar, arguto e rotinado nestas situações, continuava a sua acusação:
— “… a sua pretensa chamada, como o comprova a ausência de impulsos no fiscalizador respectivo, que só assinala os da curta chamada que eu há pouco  efectuei, não foi mais do que um bluff para conseguir um álibi.”
Quisera, aqui, argumentar, dizer algo, protestar, mas as palavras, perante a evidência fria da realidade, custavam a sair-lhe e, de resto, o Inspector, implacável continuava já a sua acusação:
— De resto, não foi este o único erro que o senhor cometeu…
Quê, pois seria possível? Haveria realmente mais erros? — interrogou-se, absolutamente descontrolado, sem capacidade já para qualquer raciocínio sereno e correcto.
— Realmente, como explica o senhor ter conseguido, com o rádio funcionando tão alto, falar ao telefone calmamente com o seu amigo, durante dois minutos, como afirmou, se eu próprio, há pouco, tive dificuldade em fazê-lo, numa chamada mais breve? Como explica tal facto, estando para mais o rádio aqui tão próximo da arrecadação, quando, mais longe, na cozinha, a empregada que lavava a loiça, apesar do característico barulho desta actividade ouvia distintamente a música?
E porque se encontrava a porta da arrecadação fechada — um pormenor curioso que me chamou a atenção quando para ela entrei — se, precipitadamente, ao ouvir o grito, como afirma, o senhor veio logo ver o que se tinha passado?
Não vale a pena negar, como vê, mas, se não quiser admitir a sua evidente participação no caso, que é evidente, e eventualmente manter a versão de que falava com um amigo, importa-se de me dar a indicação desse amigo, para que possamos fazer a devida confirmação?
Era o fim, o ruir da história arquitectada, a derrota.
Sentira-se destroçado, desorientado, sem saber o que dizer e fazer. Não imaginara, nunca, que o Inspector - que em tão má hora logo ali aparecera, coisas do destino! — pudesse descobrir como, e tão rapidamente, o caso se passara.
Baixara a cabeça, desalentado, numa evidente confissão de culpa…
Seguiram-se os intermináveis dias de cárcere, aguardando o julgamento, com toda aquela dolorosa expectativa que o roía por dentro, o mortificava, aquela agonia que o subjugava' numa ânsia atroz.
E agora…
…vinte anos! Tanto tempo!
E os dias longos, longos, longos... E aquele arrependimento, aquele remorso que já o dominava, a lembrança do mundo exterior, a família… A FAMÍLIA…
Vinte anos! E a pena ainda só começava a ser cumprida!
Vinte anos… Cumpri-la-ia? Não endoideceria antes? Não morreria? Conseguiria aguentar tão grande e difícil provação? E que homem seria, o que lhe restaria para viver e como, depois de tudo isto?
Aniquilado, a cabeça baixou-lhe, como naquele outro momento crítico, enquanto as lágrimas começavam a correr-lhe e, de novo, soava bem alto dentro de si: o crime não compensa…
O CRIME NÃO COMPENSA… O CRIME NÃO COMPENSA...

Comentário
O autor do presente conto, Domingos Cabral, o Zé dos Anzóis ou Inspector Aranha não é um contista; o seu talento sobejamente demonstrado, reflecte-se na actividade de solucionista policiário, modalidade em que é um interventor consagrado, um campeão nacional com uma sala recheada de prémios e títulos. Dele conhecemos, temos essa honra, reconhecidos méritos, um homem de recursos extraordinários. Quis ser seccionista e dirige presentemente a sua quarta secção o Correio Policial no semanário regional Correio do Ribatejo; quis escrever um enigma policiário e ei-lo publicado no Público Policiário, género-tipo criptograma, a atrapalhar muitos concorrentes para encontrar a solução… a mais recente obra, — diz-se — é que é um avô babado!
M. Constantino

24 de abril de 2012

CALEIDOSCÓPIO 115

EFEMÉRIDES – Dia 24 de Abril
Luís Campos (1942 – 2000)
Luís da Silva Campos professor do Instituto Superior de Agronomia, especialista em bioquímica e enólogo, pianista e pintor é também escritor policial. Com o pseudónimo Frank Gold publica 6 livros entre 1965 e 1982 e na década de oitenta começa a assinar os livros com Luís Campos. Na sua obra literária destaca-se: O Estripador de Lisboa escrito em 1984 mas com descrições coincidentes com o caso real do início da década de 90; e Eu, Ross Pynn (1986), uma homenagem ao autor policiário Ross Pynn (Rossado Pinto), que considera Luís Campos o Nº1 do policial português.
(Em TEMA a Bibliografia do escritor)

David Morrell (1943)
Nasce em Kitchener, Ontário, Canadá. Professor de Inglês na Universidade de Iowa entre 1970 e 1986 abdica da carreira académica para se dedicar inteiramente à escrita. O seu primeiro romance First Blood, publicado em 1972, é adaptado ao cinema em 1982 protagonizado por Sylvester Stallone como o veterano de Guerra do Vietnam John Rambo. David Morrell escreve 28 thrillers, traduzidos em 22 línguas e com mais de 18 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Em Portugal estão editados:
1 – Rambo: A Fúria do Herói (1991), Nº68, 71 e 73 Colecção Livros de Bolso - Guerra e Espionagem, Publicações Europa - América. Título Original: First Blood (1972)
2 – A Quinta Profissão (1993), Nº1 Colecção Obras de David Morrell, Publicações Europa - América. Título Original: The Fifth Profession (1990)
3 – Pacto de Fogo (1994), Nº2 Colecção Obras de David Morrell, Publicações Europa - América. Título Original: The Covenant Of The Flame (1991)
4 – Recusa Total (1999), Nº1 Top Ten, Editora Rocco. Título Original: Extreme Denial (1995)


Sue Grafton (1940) - Esta escritora tinha sido incluída no dia 19. Fica agora corrigido o erro

Nasce em Louisville, Kentucky, EUA. Filha de C. W. Grafton (Caleidoscópio 31 ). Escreve alguns romances e trabalha durante 15 anos como argumentista em filmes e séries para televisão. Alcança o sucesso com a Alphabet Series, protagonizada por Kinsey Millhone. A série, iniciada em 1982 com “A” Is For Alibi, tem publicado já 22 títulos, sendo o último “V” Is For Vengeance. A escritora tem recebido vários prémios de prestígio ao longo da sua carreira literária, incluindo o Cartier Dagger atribuídos pela britânica Crime Writers' Association o Grand Master Award dos Mystery Writers of America. Nos livros o destaque vai para “B" Is for Burglar (1986) "C" Is for Corpse (1987) e "G" Is for Gumshoe (1990) premiados com Anthony Awards e Shamus Aeards e “K” Is For Killer (1995) premiado com Shamus Awrd. Em Portugal diversas editoras publicaram os livros de Sue Grafton, por vezes com diferente tradução para o mesmo título, em síntese estão editados as letras A, B, C, D, E, F, N, O e P.

TEMA — BIBLIOGRAFIA FRANK GOLD / LUÍS CAMPOS
FRANK GOLD
1 – Caso de Morte (1965), Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Livraria e Publicações. Em co-autoria com George McOrwell
2 – Madrugada Depois da Morte (1965), Nº1 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Livraria e Publicações.
3 - A Mulher de Hong-Kong (1965), Nº6 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Livraria e Publicações. Reedição em 1982: Nº14 Colecção, Livros de Bolso - Clube do Crime, Publicações Europa -América.
4 – Longa É a Noite (1966), Nº12 Colecção Policial de Bolso, Agência. Internacional de Livraria e Publicações. Reedição em 1984: Nº29 Colecção, Livros de Bolso - Clube do Crime, Publicações Europa -América.
5 – Trânsito Em Saigão (1967), Nº7 Colecção Um Livro Confidencial, Luís S. Campos
6 – A Rapariga de Tânger (1982) Nº9 Colecção, Livros de Bolso - Clube do Crime, Publicações Europa -América.
7 – A Dama de Singapura (1983) Nº21 Colecção, Livros de Bolso - Clube do Crime, Publicações Europa -América.
8 – Eu Ross Pynn (1986), Nº6 Colecção Livro de Bolso Especial, Europress

LUÍS CAMPOS
1 – Gata Em Noite de Chuva (1982), Nº1 Colecção Bolso Noite Especial, Europress
2 – Viver Sem Trabalhar Num País À Beira-Mar (1983), Europress
3 – Fogo (1983), Nº1 Colecção Bolso Noite, Europress
4 – As Aventuras de Barney o Aldrabão (1983), Nº3 Colecção Bolso Noite Especial, Europress
5 –Bêabá da Malandragem (1984), Europress
6 – A Morte Indecente de Mónica B (1983), Nº12 Colecção Bolso Noite, Europress
7 – Caso de Morte (1984), Nº18 Colecção Bolso Noite, Europress. Jorge Curvelo é co-autor. Nota da edição: Este livro foi publicado originalmente por Edições de Bolso, tendo os autores utilizado então os pseudónimos Frank Gold e George McOrwell e por razões comerciais, alterado o texto de modo a enquadrar a acção fora de Portugal. A presente edição respeita o manuscrito original.
8 – O Estripador de Lisboa (1984), Nº22 Colecção Bolso Noite, Europress
9 – As Donzelas da Noite (1989), Nº31 Colecção Bolso Noite, Europress

Luís Campos coordena uma antologia de contos policiários, o Nº23 da Colecção Bolso Noite editada pela Europress em 1885, com o título 13 Obras Primas do Conto: Antologia Policial. Luís Campos reúne 13 contos de grandes autores policiários de várias nacionalidades, incluindo escritores portugueses. A tradução é de Eduardo Saló. O livro junta:
Luís Campos - Barney, o Aldrabão e a Princesa de Macau Mulher, antibiótico e aspirina
Peter Cheyney - Autorização de Saída;
Agatha Christie - Homicídio a Bordo;
Ian Fleming - Fuga de Berlim;
Dashiell Hammet - O Detective Poeta;
Evan Hunter (Ed McBain) - Primeira acusação;
William Irish - Encontro com a Morte;
Thomas Narcejac - O Penúltimo Caso de Maigret;
Ross Pynn(Roussado Pinto)  - Os Bichinhos;
Richard Prather - Crime Passional;
Ellery Queen - A Marca de Caim;
Mickey Spillane - O Último Contrato;
Artur Varatojo - O Inspector e a Imprensa


TEMA — CONTO-DIÁLOGO POLICIÁRIO
Em carta dirigida ao director das Selecções Mistério, o saudoso amigo Luís Campos exprimia-se assim:
Caro Lima Rodrigues,
A ideia original deste conto surgiu em 1964. Sei que nessa altura o passei a escrito para efeitos de transmissão radiofónica no programa 23ª Hora. Não tendo localizado esse texto, decidi agora reescrevê-lo. Fi-lo certamente sob outra forma. Só espero que tenha saído melhor. Um abraço.
O conto é, infelizmente, uma Homenagem Póstuma

PEQUENO DELITO
De Luís Campos
— Nome?
— Francisco Manuel Pinto.
— Idade?
— 18.
— Tens alcunha?
— Falé.
— Profissão?
— O que é que fazes quando não andas a vadiar?
— Sou estudante.
— E o teu pai?
— O meu pai, não
— Não armes em engraçado comigo. Qual é a profissão do teu pai?
— Desempregado.
— E a tua mãe?
— …
— O que faz a tua mãe?
— É empregada do meu pai.
— Ouve, Falé. Tu talvez vás passar aqui alguns dias. E também algumas noites. Queres arranjar maneira de isto ser ainda pior para ti?
— A minha mãe é doméstica.
— Bom, tens uma irmã mais velha, não é?
— Não sei. A minha irmã não tem nada a ver com isto.
— Nós sabemos. Só perguntei porque nós já a conhecemos.
— Então fale com ela.
— Está bem. Como é que foi esta noite?
— Esta noite o quê?
— O assalto.
— Qual assalto?
— Ouve menino. Não armes em duro. Eu acho que posso bem sozinho contigo. Estou de serviço e só saio de manhã. Mas nessa altura outra pessoa há-de vir substituir-me. E depois volto eu. E…
— Vão dar-me porrada?
— Nós não damos porrada a ninguém Só se for preciso.
— Eu já contei várias vezes lá na esquadra aquilo que aconteceu.
— Então repete.
— Posso fumar um cigarro?
— Depende.
— Você é dos beras, não é?
— Nem por isso. Tenho um filho da tua idade. Queres mesmo um cigarro?
— Quero.
— Pega lá. Tens fósforos?
— Não. Tiraram-mos na esquadra.
— Bom… E agora? Estás melhor?
— Estou na mesma. Quando é que param de me chatear? Tenho sono.
— Desde quando é que vais cedo para a cama?
— Cedo? Chama cedo a isto? São três da manhã!
— São. E o velho que tu atacaste? Esse deita-se cedo.
— Ora! A esta hora já dorme. E o que é que eu lhe fiz?
— Apontaste-lhe uma faca a pescoço. Tiraste-lhe o dinheiro da caixa.
— Ora! 700 paus. A velhota dele já tinha levado a receita para casa.
— Pois é. Não valeu a pena pois não?
— Oiça lá, julga que eu sou de andar a assustar velhinhos? Entrei na tabacaria já eram onze e meia, vi o gajo sozinho lá dentro a mexer na caixa e na rua nem vivalma. E depois, fiz-lhe algum mal?
— Tu deves saber. Entretanto passámos nós por ali.
— Foi. E nessa altura é que ele desmaiou.
— Porque é que achas que foi?
— Sei lá! Não se aguentou nas canetas…
— Foi isso. Lembras-te de como a história se passou?
— Oiça lá, julga que eu estou maluco? Então não tenho estado a contar tudo outra vez?
— Calma. Deixa-te estar aí sentado. Vamos continuar. Encostaste-lhe a ponta da faca ao pescoço, não foi?
— Lá se encostei ou não, isso não sei. Mostrei-lhe a faca.
— Encostaste-lha ao pescoço. Foi isso ou não?
— Não me lembro.
— Não te lembras. E depois?
— Depois, nada. Na altura em que ele me passou a massa, entraram vocês, eu virei-me para a porta e parece-me que ele desmaiou.
— Parece-te. E achas que ele desmaiou porquê?
— Sei lá. Perguntem-lhe…
— Isso é que não podemos fazer.
— Essa agora… Porquê?
— O velho morreu.
— …
— Sim.
— Ele…
— Exacto. Quando te viraste para a porta, ele virou-se também, e a ponta afiada da tua faca espetou-lhe a carótida.