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10 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 345

Efemérides 10 de Dezembro
Herbert Brean (1907 – 1973)
Nasce em Detroit, Michigam, EUA. Jornalista e escritor — saúde, folclore, música e policiário. Publica contos em vários magazines da especialidade da época. Os seus principais personagens são William Deacon, um jornalista e Reynold Frame, um escritor e fotógrafo freelancer. É eleito presidente da Mystery Writers of America em 1967. Publica 7 romances policiários entre 1948 e 1966: Wilders Walk Away (1948), The Darker The Night (1950), Murder Now And Then (1952) também editado com o título Hardly A Man Is Now Alive, The Clock Strikes Thirteen (1954), Collar For The Killer (1957) também editado com o título A Matter Of Fact, The Traces Of Brillhart (1961), The Traces Of Merrilee (1966). Publica ainda um livro de não ficção: The Mystery Writers Handbook (1956).


TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — SÉCULO XIX - ANOS CINQUENTA 25
A primeira grande sensação de 1850 é a introdução do termo “detective” na literatura inglesa para designar o polícia-investigador, em quatro ensaios generalizados por “Detective Police” publicados na revista “Household Words”, da autoria de Charles Dickens.
O termo teve a aceitação que se conhece, ultrapassando a barreira literária à real e, hoje, mundialmente, é o termo indiscutível para designar:
o detective-amador, a exemplo de Dupin ou Peter Wimsey, que não faz profissão da detecção, mas exerce-a para simples deleite;
o detective privado, com ou sem escritório público, exerce a actividade como profissional remunerado e, por último;
o detective oficial, que é um elemento integrado na força pública, em qualquer das categorias que dela fazem parte.
Aqueles citados ensaios, revelam-se realmente por uma espécie de documentários-contos, com um sabor anedótico, descrevendo sob a forma de ficção, as técnicas dos primeiros detectives oficiais que trabalhavam à paisana.
“The Pair of Gloves” é o primeiro e parece referir-se a um dos doze homens que formavam o núcleo policial da espécie, o inspector Field, que Dickens, por decência, põe o nome de Wield. Admite-se, como possível, que as histórias referenciadas sejam colaboração de Dickens com Wilkie Collins (1824 – 1989), de quem se falará mais tarde, que tinha verdadeiro pendor para as histórias policiais.
Neste mesmo ano recordemos um escrito de Daniel Webster (1782 - 1852), uma das figuras mais populares da América da sua época, como estadista, advogado, bom vivant e escritor apaixonado pela literatura de crime.
Sobram-nos dúvidas, quanto ao classificar “Fatal Secret” — um dos escritos mais destacados da sua antologia, como conto ou ensaio, embora nos inclinemos para a última, tal a eloquência e visão.
Inevitavelmente teríamos que voltar a falar de Charles Dickens — e não será a última — para referir que “Bleak House” (1852/53), uma narrativa que faz parte da vasta, mas até esta data escassa, biblioteca policiária, e do personagem, o inspector Bucket, que e obrigatório na galeria de honra dos detectives ficcionados.
Muitos dos traços fisicos de Bucket são comuns a Field, o inspector amigo do autor e que dele marcou referências especiais. Como Field é um homem familiarizado com os marginais, os quais conhece bem e o respeitam, sabe disfarçar-se como Vidocq, é firme, delicado, compreensivo para com os pobres e, não sendo espectacular em matéria de averiguações e deduções é persistente bastante para levar a água ao seu moinho, gestos e defeitos que o tornam modelo dos detectives profissionais do futuro.
O novelista castelhano Pedro Antonio de Alarcón (1833 - 1891) publicou em “Cuentos Amatorios”, o que se poderá considerar a primeira narrativa de teor policial, “El Clavo” (1853). Ocorre o assassinato de D. Alfonso Gutiérrez del Romeral. Sem indícios ou deduções, o juiz do processo, Joaquín Zarco, descobre o culpado… se bem que este lhe confesse o crime. Alarcón era um narrador de estilo vivaz e, embora aquele relato tenha apenas valor histórico, justifica a referência.

“Les Mohicans de Paris” (1854) de Alexandre Dumas, os indícios, tal como o índio (Cooper), tem interesse para o detective Monsieur Jackal. Este é um polícia pouco recomendável no aspecto moral. De cortesia quase servil, bem vestido, indispensável tabaqueira e lunetas próprias de homem de distinção, conhece todos os ladrões presos ou soltos, mesmo os aprendizes, boémios, forçados libertados ou forçados em fuga… por outro lado, sabe seguir uma pista a fazer deduções dignas do futuro Sherlock Holmes.
Pela primeira vez, na presente narrativa, se aponta a célebre frase “cherchez la femme”, que tem corrido mundo em particular na boca de todos os detectives improvisados ou não, passando ao domínio público em geral.

O nome de Charles Barbara (1817-1866) é esquecido dos dicionários biográficos e bibliográficos, e embora tenha publicado dois romances e cinco livros de contos não parece ter sido um homem de sorte. Amigo de Baudelaire e apreciador de Poe, a sua estreia, no domínio do policial é “L'Assassinat du Pont-Rouge” (1855), em colaboração com Charles Desley; mais drama do que policial, revela imaginação e é o precursor na utilização de um jogo revelador de um crime considerado como perfeito. Nesta última intenção não foi bem sucedido.
Em “Histoires Émouvantes”, do ano seguinte, Barbara muda de táctica, e as pequenas histórias que compõem o livro, são mais aceitáveis, criando mesmo um novo tipo de polícia: mais espião ou denunciante do que polícia, cuja moral é tão suja como o próprio corpo — só toma banho quando faz a barba, o que não sucede há muitos anos.

William Russel, jornalista, nascido em 1821 na Irlanda, escreveu sob o pseudónimo de Waters, uma recolha de treze casos curtos sob o título de “Recollections of a Detective-Officer” (1856), ao qual se seguiu uma segunda série em 1859.
O pseudónimo é o nome do inspector da polícia de Londres e tem por colaborador ocasional Josiah Barnes. Conhece todo o ABC de investigação, que pode usar, é um excelente psicólogo praticante, admiravelmente secundado por Barnes.
O êxito da fórmula leva-o a escrever sucessivamente “Experiences of a French Detective-Officer" (1861) e “The Autobiography of an English Detective”.
Mais tarde acabará por escrever uma novela extensa, “O Inocente”, cujo êxito, sem precedentes na altura, com quatro edições sucessivas, coloca o autor como “criador da novela realista”.

Desconhecido da maioria dos interessados pela literatura policial é “Le Cabinet Noir” (1856), de Charles Rabou (1803-1871), constante de cinco volumes com extractos de casos judiciais, que vão de crimes invisíveis, morte em local fechado, armas de crimes inusitados, erros de justiça, etc… Rabou disse que o seu gabinete é um “ténebreuse officine ou se pratiquait, au nom de la raison d'État, la violation du secret des lettres”'; Paul Féval, classifica a obra de “roman social policier en action”.

A lembrar como elemento histórico “Deutsche Kriminalnovellen”, de H. Stahl, um volume de relatos fracos, que apenas demonstra o interesse dos alemães pelo género.

 “Hunted Down” (1859), de Charles Dickens, uma história policial inspirada no caso Wainewright, que tinha convencido a irmã a fazer seguro de vida a seu favor e que a matou para receber o dinheiro. O autor visitou o homicida na prisão de Newgate para descrever a imagem real do culpado. É sua convicção que no romance tem mais interesse o carácter do criminoso que o seu acto. Rendido ao género e à influência de Collins, Dickens iniciou em 1870 “The Mystery of Edwin Drood”, que deixou inacabado, surpreendido pela morte.
E é curioso o que se regista com este último romance É sem dúvida a melhor obra policial do autor, pelo menos a mais intrigante, fascinante, porventura o mais discutido romance da literatura inglesa, porquanto, apesar de ter sido concluído por dezenas de autores de todas as categorias e nacionalidades (incluindo a portuguesa, na pessoa de Mário Domingues), cada um traçando as mais audaciosas e precisas análises e soluções, a verdadeira solução do enigma mantém-se em eterno segredo do autor.
Amigo de Dickens, com quem colaborou na revista “Household Words” e teria tomado parte na escolha da trama de “Bleak House”, William Wilkie Collins (1824-1889), inicia a publicação de “The Woman in White” (1859), uma novela policial e de intriga, baseada,- segundo se crê, num caso ocorrido em França, no séc. XVIII, em que uma mulher foi drogada e posta em reclusão para que fosse julgada e morta e a fortuna passar por seu irmão. A ficção transmitida por Collins ultrapassa qualquer ponto de semelhança é surpreendente dominante na construção do mistério. Para além deste e do desenho dos personagens envolvidos, surge um novo detective amador na pessoa de Walter Hartwright, um professor de pintura que havia sido contratado para ensinar desenho a uma das personagens.
As incidências do argumento são sempre engenhosas e, por vezes, surpreendentemente inesperadas, próprias de uma imaginação pouco corrente.
As primeiras palavras do romance, só por si, remetem para o mistério: “Esta é a história do que a paciência de uma mulher pode suportar, e de que a resolução de um homem consegue alcançar”.

Escritor de prodigiosa fecundidade, Pierre Alexis Ponson du Terrail (1829-1871), inicia em 1859 em “Exploits de Rocambole”, a série composta por cerca de trinta volumes, dedicado ao personagem por si criado: Rocambole. Génio do mal, bandido terrível, acaba um dia por se transformar em detective por conta própria (“Résurections de Rocambole” — 1862).
A sua filosofia, a partir dos doze anos, em que o conhecemos, criança abandonada, insolente e corrupta, a prática do roubo e do assassínio são-lhe familiares, assim como as prisões de onde foge com relativa facilidade, é de um raciocínio simples.


TEMA — CONTO POLICIÁRIO DE HAROLD HELFER— CINCO SUSPEITOS
A prova pelo arroz é muito antiga e já tivemos oportunidade de a referir na BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA (Clicar), porém, é a primeira vez que a vemos aplicada a um conto.

Quando Marie Avalando foi encontrada degolada, e numa ravina, todos disseram duas coisas. Disseram que isso tinha sido feito por alguém tão selvagem quanto ela tinha sido, o que era realmente certo. Disseram também que não era muito provável que Pietro Manvelli, o delegado de Polícia da cidade, fosse capaz de encontrar o verdadeiro culpado. Havia muitos suspeitos prováveis do assassinato. Como de costume, Pietro Manvelli não tinha muita coisa para dizer Quando se cometia um crime, nunca falava muito sobre isso. À maior parte das pessoas, parecia fechar os olhos sonhar com ele; embora, de uma forma ou de outra, quase sempre conseguisse agarrar o culpado Isso deu-lhe uma reputação algo mística.
Desta vez, todos diziam que ele teria que fazer mais do que sentar-se na cadeira com os olhos meio fechados para resolver o crime.
Maria Avalando tinha cinco pretendentes conhecidos, e estes eram: Manuel Aqualla, José Prerez, Rudolph Spano, José Bronuva e Don Fillipa. Quando uma mulher é namoradeira, como é possível dizer quem foi dominado por um rasgo de ciúme e sacou uma faca contra ela?
É mais fácil resolver um crime quando não há suspeitos do que quando há cinco. E um é com certeza o mais culpado, mas qualquer um deles poderia ter cometido o crime. Principalmente porque a morte teve lugar num dia de festa, em que ninguém pode ter/certeza certeza dos movimentos das pessoas.
Mesmo quando Pietro Manvelli chamou todos os suspeitos ao seu gabinete, o povo sacudiu a cabeça. Rotina, disseram. Que se podia esperar daquilo? A reunião resultaria em nada.
— Estou um pouco surpreendido com o delegado — observou alguém. — Talvez esteja a perder completamente o tino. O que está a fazer não é nada subtil.
No seu gabinete, Pietro Menvelli encarava os cinco homens de pé à sua frente e dizia:
— Senhores, um dentre os cinco é o assassino de Marie Avalando. Talvez ela merecesse mesmo isso, mas tal coisa não interessa. O meu dever é procurar aquele que empunhou a faca. E é isso o que pretendo fazer. Talvez os senhores já tenham ouvido dizer que tenho uma maneira pouco comum, quase sobrenatural, de encontrar os culpados — continuou Pietro Manvelli, dirigindo a cada suspeito um ligeiro sorriso. — Pois bem, é verdade. Não posso explicar este meu dom. Embora neste momento eu ainda não saiba qual foi dos senhores que manejou a faca, saberei dentro de cinco minutos.
Fez ume pausa e fixou intencionalmente os cinco homens.
— Se o culpado deseja dar um passo à frente e entregar-se voluntariamente, esta é a sua última oportunidade — disse o polícia sem muita ênfase.
Ninguém se moveu.
O delegado sacudiu a cabeça.
— Os senhores não acreditam em mim — observou desapontado. — Os senhores não acreditam que tenha esse poder. Muito bem. Prossigamos.
Inclinou-se para a frente e pôs as mãos sobre uma tijela que estava em cima da mesa. Á tijela estava cheia de arroz cru e seco. Levantou a mão cheia de arroz e deixou que os grãos se filtrassem vagarosamente através de seus dedos.
— É somente arroz comum — disse, olhando para os cinco rostos sérios à sua frente.— Mas ele dir-me-á qual aos senhores tirou e vida a Marie Avalando.
Sem pressa e suspirando ligeiramente, Pietro Manvelli levantou-se da cadeira. Então efetuou a entrega a cada um dos cinco homens de um punhado de arroz da tijela.
— Agora, — disse— quero que cada um dos senhores ponha o arroz -na boca e o coma. Asseguro que- não há nada com o arroz — acrescentou. — Entretanto, ele me dirá o que quero saber.
Por um rápido momento os cinco homens entreolharam-se, e depois cada um deles colocou o arroz na boca. Pietro Manvelli voltou para a cadeira e sentou-se. Com os braços cruzados os observava com uma maneira estranhamente descuidada, quase com impassividade. Então, cerca de cinco minutos mais tarde, levantou-se novamente.
— Agora, tenham os senhores a bondade de abrir a boca — disse.
Os homens obedeceram e, como se fosse um oficial em inspeção. Pietro foi de homem em homem, examinando-lhes a boca. De pé, perto da mesa, o polícia não disse nada por um momento, mas ficou a olhar os cinco suspeitos pensativamente. Depois, com voz baixa e firme, anunciou serenamente:
— Quem matou Marie Avelando foi Rudolph Spano.
O jovem mencionado empalideceu e, com os olhos espantados e hesitantes, olhou um por um os presentes. Finalmente, com uma expressão entorpecida, os seus olhos fixaram-se no delegado. Mas não disse nada.
— Não é verdade? — perguntou amigavelmente Pietro Manvelli, com os sobrolhos um pouco franzidos, dirigindo-se ao acusado.
— Sim, sim, é verdade, fui eu mesmo — respondeu Rudolph Spano de maneira algo confusa.
Quando a notícia do que acontecera foi divulgada, todos na cidade passaram a olhar o delegado com mais respeito do que nunca, e Pietro Manvelli movimentava-se pela cidade tão sereno e pensativo que aumentava a impressão de que talvez fosse capaz de comungar com certas forças sobrenaturais.
Mas, com o Ex. Sr. Benito Mangue, o juiz local e seu grande amigo, Pietro Manvelli era menos abstrato.
— Não prejudica meu trabalho de defensor da lei o povo atribuir-me poderes místicos — disse sorrindo ligeiramente. — Mas com toda a honestidade, devo dar ao arroz uma grande parte da honra da descoberta de Rudolph Spano como o assassino… Ele foi o único que não o havia engolido. E não podia fazê-lo, pois sua boca estava completamente seca. Não conseguiu saliva para molhá-lo, e isso foi a indicação certa de um homem amedrontado, com culpa na consciência.


7 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 342

Efemérides 7 de Dezembro
Clifford Knight (1886 - 1963
Nasce em Fulton, Kansas, EUA. Escritor e contista de narrativa policiária, publica entre 1920 e 1929 short stories em vários magazines da especialidade. O seu personagem principal é Huntoon Rogers, professor de Inglês e detective, que surge pela primeira vez em The Affair of the Scarlet Crab (1937), um romance que tem como pano de fundo uma expedição às ilhas Galápagos. Clifford Knight, que também usa o pseudónimo Reynolds Knight, escreve 24 romances e um número indeterminado de contos. Em Portugal está editado:
1 - O Caranguejo Vermelho, Nº42 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Affair of the Scarlet Crab (1937).


Leigh Brackett (1915 – 1978))
Leigh Douglass Brackett nasce em Los Angeles, California, EUA. Escritora guionista e argumentista é uma autora famosa e galardoada pelo seu trabalho de western e ficção científica. No entanto o seu primeiro romance No Good From A Corpse, publicado em 1944, insere-se no policiário negro, abre-lhe as portas para a indústria cinematográfica, em particular na escrita de guiões de romances clássicos de mistério / detective. Além de colaborar em séries televisivas de suspense de Alfred Hitchcock, Leigh Brackett é responsável pelos guiões para cinema de The Big Sleep,
e The Long Goodbye de Chandler. Na vasta obra da escritora distinguem-se apenas 5 romances policiários. Em Portugal está editado
1 – Olho Por Olho (1966), Nº91 Colecção Enigma, Editora Dêagá. Título Original: An Eye For An Eye (1958).



TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — APÓS POE: O DECLÍNIO (25)
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 326 (Clicar)

Enquanto se publicava o assinalado “The Mystery of Marie Rogêt”, os folhetins, sempre oportunos, continuavam a sua obra divulgadora.
“Les Mystéres de Paris”, de Eugène Sue (Joseph Marie Eugène Sue, 1804 - 1857), embora repleto de mistérios de toda a ordem, é um escrito para agradar à plebe. Precisamente por este último facto, sabendo-se que Sue procurava evitar atritos entre classes, denotando certa ambiguidade e os choques frontais, “Mystéres” foi alcunhada de “a bíblia do populismo”, ou não fossem estes folhetins publicados, muito a propósito, no “Journal des Debats”
No plano geral, é de destacar o personagem, o príncipe Rudolf de Gerolstein que, embora agindo segundo as reacções públicas, justamente porque o autor não fizera um plano prévio da longa obra, coloca-se na posição policiária da moderna spy-story, onde a regra é a subordinação a uma determinada realização que o herói deve concluir inexoravelmente ou, pelo contrário, impedir a todo o custo que a mesma se realize.
Personagem aristocrático e inverosímil que vive nos bairros mais baixos de Paris, vê-se misturado frequentemente com bandos de assassinos e ladrões um tanto absurdamente, pese embora a quantidade de informações sobre os costumes criminais, ao jeito das “Mémoires” de Vidocq”, que se lhe parece como imagem no espelho.
As prometedoras tintas iniciais tipicamente policiais, transformam-se em profundo apontamento do Paris subterrâneo e o retrato físico-moral da época, todo “populismo”, ante a pobreza, o crime e as reformas dos cárceres, até às declarações em favor do divórcio, tornando-se um novela-folhetim do ramo sensacionalista.
Ainda para o mesmo ano de 1842, há uma referência para 'Die Judenbuche', de Annette von Droste-Hülshoff, uma novela de características policiais onde Friederich
Mergel é acusado de ter assassinado o juiz Aaron, pelo que andou fugido vários anos. Um dia volta como Johannes Niemand e procura recuperar o bom nome de Friederich.
Embora de características populares, o livro está escrito em tom austero e hoje só releva como facto histórico.
Igualmente, apenas para memorizar, é o romance de Frédéric Soulié intitulado “Eulalie Pontois” (1842), título que corresponde ao nome da protagonista que se crê filha de um fugitivo à justiça e que por amor filial confessa o crime que não cometeu. A descoberta da verdade — que é um enigma em si — não se deve a um detective, nem sequer a averiguações, é obra do acaso.
“Mystères de Londres” (1844), de Paul Féval (1817-1887), pseudónimo de Francis Trolopp, apresenta Robin Gross, um polícia privado, alto e magro, de suíças brancas, e que segue a moral duvidosa de personagens anteriormente mencionadas (Jackal, de Dumas) e um todo poderoso chefe da franco-maçonaria do crime que dá pelo nome de Rio Santo.
Para terminar o ano de 1844, citamos um livro de psicologia criminal “Quelques mots sur une question à l’ordre du jour, réflexions sur les moyens propres à diminuer les crimes et les récidives”, de Vidocq.
Parecerá estranho a reflexão para um indivíduo da mais baixa classe da sociedade parisiense, mas Vidocq nada tinha de néscio e, de crimes e criminosos sabia, com certeza, muito mais que qualquer letrado especialista na matéria.
A influência exercida por Poe, quer nos contos analíticos, como lhe chama, quer nos escritos policiais ou de crime, dá os seus frutos. Naturalmente começam a aparecer narradores “classificáveis'” sob o ponto de vista policiário.
W.S. Gilbert, que de dados pessoais pouco deixou, que se conheça, apresenta-nos um pequeno-grande conto, com certa dose de humor, que faz parte obrigatória do património das revistas policiais de todos os tempos. Intitula-se “A Minha Primeira Causa” data de 1845.

A edição original de “Le Comte de Monte-Cristo” (1846), de Alexandre Dumas, um primeiro texto de suspense, faz do Abbé Faria, encerrado num cárcere de um castelo, um dos primeiros detectives de poltrona — designação aplicada aos detectives que resolvem os casos sem saírem de casa e por simples dedução, como sabemos. Na verdade, o Abbé Faria consegue reconstituir através do raciocínio toda a maquinação que leva Edmond Dantès à prisão.

Não será o único Presidente americano a escrever uma narrativa policiaria mas, decerto, Abraham Lincoln (1809-1865) foi o primeiro.
Como se sabe, Lincoln foi advogado e “Trailor Murder Mystery” (1846), acredita-se, será a ficção de um caso em que foi parte e de que teve profundo conhecimento
Ainda que se passe por alto e apenas como alerta para o leitor, refere-se “Um Esboço Misterioso” (1848), fácil de encontrar nas antologias policiais ou de mistério, da autoria de Erckmann-Chatrian, pseudónimo de dois autores, Émile Eckermann (1822- 1899) e Alexandre Chatrian (1826-1890).
A colaboração mútua destes dois homens foi surpreendente e duradoura.

E fecha-se o decénio com chave de ouro.
Oculto entre centena e meia de escritos, alguns volumosos, vamos encontrar nova referência de Alexandre Dumas a um novo detective. Trata-se de um dos capítulos de “Le Visconte di Bragelonne” (1848/1859), que tem sido publicado como se de um conto autónomo se tratasse, e do qual o saudoso Ross Pynn escreveu:
“Dumas apresenta-nos D'Artagnan e Luís XIV, na vida real e no romance, dois grandes amigos. Mas este conto oferece para os amantes da Literatura Policial esta particularidade: D'Artagnan é incumbido de um trabalho de polícia que leva a cabo com êxito, através de simples dedução e raciocínio — isto é, utilizando aquilo que Hercule Poirot diria ser “as células cinzentas”. Mais: o leitor, se fechar os olhos, ao ouvir D'Artagnan, acreditará, por momentos, estar a ouvir o nosso velho e querido Sherlock Holmes.”



TEMA — CONTO POLICIÁRIO NACIONAL — O RETRATO DO MAIS FAMOSO ENIGMA DE QUARTO FECHADO
De Fernando Saldanha
Quando chefe Sequeira regressava a casa com a cara fechada e no proferia palavra durante a refeição, Berta não precisava perguntar para saber que havia qualquer problema grave de permeio entre ela e o marido. Também não necessitava que ele lhe pedisse para levar o café à pequena sala que servia de escritório e biblioteca.
Naquela noite assim sucedeu. Quando o relógio da sala bateu 21 horas, Sequeira levou o filho para junto do aparelho de televisão e foi refugiar-se na cadeira giratória da secretária de trabalho onde fitou absorto nos seus pensamentos.
Quando Berta foi lá depois de arrumar a cozinha ainda a encontrou na mesma posição. Serviu-lhe outra chávena de café a escaldar, como ele gostava.
— Suponho que te demoras…
— Um pouco. Vai deitar o pequeno que eu já vou…
Berta sabia por experiência própria que era completamente inútil insistir. Deu-lhe um beijo que ele aceitou distraidamente e retirou-se. Quando desligou a televisão e levou a criança, o escritório — santuário de meditação de Sequeira — ficou mergulhado no silêncio que ele secretamente desejava.
Chefe de brigada do Departamento de Homicídios, uma das secções mais trabalhosas da Judiciária, Sequeira tivera um dia fatigante. O relatório que tinha na frente levara seis horas a elaborar e já o relera mais de meia dúzia de vezes sem conseguir chegar a uma conclusão. E o pior é que não obtivera uma ideia nem pudera dar importância a qualquer pormenor. Parecia que tudo se harmonizava logicamente e não era possível encontrar nenhuma pista. Contudo, algo lhe martelava no cérebro a suspeita de que não se tratava de um simples suicídio. Algo muito indefinido e impreciso, como estranho fluído que não conseguia concretizar e persistia em resistir aos melhores esforços das suas associações de ideias.
Embrenhou-se novamente na leitura do relatório. De súbito, olhou casualmente o retrato de Sherlock Holmes colocado na parede fronteira e pareceu-lhe que os grandes olhos profundos e perspicazes do célebre personagem se moviam na gravura primorosamente desenhada e o fixavam ironicamente.
Sentia-se realmente cansado. “ E se deixasse o caso para o dia seguinte? Porém os olhos impiedosos do retrato eram uma obsessão. “Que raio! Não suportava aquele olhar finamente trocista! Fizera quanto lhe fora possível!”
“Oiça, meu caro — parecia dizer o olhar penetrante de Holmes —não existem casos insolúveis. Deve escapar-lhe algum pequeno pormenor. Sempre preconizei que é capital a importância das pequenos pormenores…”
Sequeira tinha as pálpebras singularmente pesadas. Soltou uma exclamação indignada e aplicou o punho sobre a papelada;
— Já sei! Para a maior criação detectivesca desta planetas, isso seria um “caso
Elementar”! Estou mesmo a ouvi-lo confidenciar a melhor solução, toda a “massa cinzenta”, ao seu fiel Watson. Sinceramente gostava de ouvir isso!
Se fosse um caso elementar não teria mostrado qualquer interesse por ele. Aliás, não me recordo de jamais haver utilizado essa expressão a não ser em casos em que os raciocínios eram indubitavelmente simples e evidentes. Nesta… nesta conjuntura… Bem, mas já se vê, meu caro, não poderia encarregar-me do caso, estarei muito ocupado nestas semanas mais próximas A Liga das Cabeças Vermelhas…”
— Desculpas! Porque não reconhece antes que um enigma desta natureza não é para ser resolvido recostado na sua velha poltrona, de roupão, chinelas e cachimbo, em punho, olhando Watson a ler comodamente o Times
— Meu rapaz, você está a lançar-me um desafio? Poderia desfazê-lo em cinco minutos! Quanto a Watson, creio que tem razão; ajuda-me a concentrar. A respeito do roupão e das chinelas, sempre discuti com Conan Doyle a sua utilização; eu preferia ser um detective de acção mas ele teimava em apresentar-me assim ao público. Dizia que isso me conferia um aspecto mais humano. Nunca pude concordar com ele em absoluto.”
— Está a afastar-se da nossa discussão. Há pouco parecia troçar dos meus esforços…
“Tolice. O trabalho dos profissionais sempre mereceu a minha consideração. Apenas pretendi chamar-lhe a atenção para a importância dos pequenos pormenores. Neste caso por exemplo, há pelo menos três particularmente significativos. Li o relatório enquanto tomava o seu café. Tudo se me afigura batente claro: esta manhã apareceu morta uma mulher jovem, num quarto independente, fechado com duas voltas de chave encontrando-se esta na fechadura, pele parte de dentro, não é assim?
— Precisamente. Acrescente-se que o quarto está situado num terceiro andar, tem uma única janela de sacada, sem qualquer acesso, que dá para uma pequena rua de pouco movimento, encontrando-se aquela também fechada no pincho de baixo, de formato habitual em “L” maiúsculo. O cadáver tinha na mão direita uma pistola de calibre 38, apenas com as suas próprias impressões digitais e apresentava um ferimento de bala na fonte direita, chamuscado ao redor. Sobre toucador encontrava-se um rectângulo de papel escrito à máquina, sem assinatura, declarando que o acto de suicídio fora praticado de livre vontade sem coacção de pessoa alguma.
“Óptima descrição, mau caro! Continue sem omitir o mínimo pormenor.”
— Aparentemente tudo estava na mais perfeita ordem. O quarto tem cerca de cinco metros de comprido por três de largo, está modestamente mobilado com uma cama de casal, um toucador, um pesado guarda-fatos de pés altos e duas mesinhas de cabeceira. O chão estava limpo e à excepção dos riscos recentes que apresentava desde a parede fronteira até ao vão da janela onde em encontrava o guarda-fatos, de dois pequenas orifícios no madeirame da janela, um de cada lado do picho, ligeiramente acima deste, e do sangue da morta, tudo estava impecável.
“E é tudo, não é assim, meu caro? Ora posso garantir-lhe que estamos em presença de um assassínio friamente premeditado e levado a cabo com singular sagacidade. Vou dizer-lhe como o caso se passou. O criminoso praticou o crime com rara habilidade, tendo o cuidado de atingir a vítima à queima-roupa, para lhe dar maior aparência de suicídio, fechou a porta por dentro, passou uma corda por baixo de uma das pernas do pesado guarda fatos de forma a lançar duas pontas pobre o peitoril da janela até à rua pouco movimentada e teve só o trabalho de esperar uma ocasião em que não passasse ninguém — provavelmente de noite. Com a janela, procedeu quase do mesmo modo. Untou bem o picho de maneira a que corresse, à mais pequena pressão, passou um fio fino e resistente pelos dois pequenos orifícios do madeirame, fechou a outra meia janela e quando chegou ao chão facilmente retirou a corda por onde descera, puxou cuidadosamente pelas duas pontas, encostando as duas partes da janela e fazendo pressão ou dando pequenos puxões até aliviar o pincho que acabou por correr, traçando a janela. Retirou o fio e …
— Sequeira —chamou a esposa, abanando-o suavemente, — Acorda!
— Quê? Sim…. Está bem. Vou já…
Levantou a cabeça do tampo da secretária, mirou vagamente incrédulo o retrato de Sherlock Holmes, que continuava a sorrir-lhe, e seguiu atrás da esposa.
“Que raio de sonho! Amanhã hei-de confrontar estes pormenores."

21 de novembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 326

Efemérides 21 de Novembro
Andreas P. Pittler (1964)
Nasce em Wien-Dornbach, Áustria. Historiador e jornalista começa por escrever livros de não ficção: história e biografias, principalmente. Em 2000 inicia-se na narrativa policiária, cria o detective privado Henry Drake, que protagoniza os romances Der Sündenbock (2000), Tod im Schnee (2002), Serbische Bohnen (2003) e Das Dokument (2006). Em 2008 surge um novo personagem, o oficial de polícia David Bronstein, figura principal em: Tacheles (2008), Ezzes (2009), Chuzpe (2010) Tinnef (2011) e Zores (2012) — um total de 9 romances policiários numa obra literária que conta 3 dezenas de livros.


TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 24
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 317 (clicar)
Chegamos, enfim, ao momento da verdade! O número de Abril de 1841 do recém-estruturado Graham's Lady's and Gentleman's Magazine, de Filadélfia, publicou o conto The Murders in the Rue Morgue, de Edgar Allan Poe (1809 - 1849), que fará do obscuro autor, o primeiro e único, por unanimidade, criador da narrativa policiária e, para mais, o inventor do personagem que se tornará o arquétipo do detective amador — Dupin, melhor, Charles Auguste Dupin.
Quando se fala em detective, afirma-se, com verdade, que a palavra era desconhecida na época, o que tanto basta para os “contra” da existência de raízes remotas da narrativa da espécie, afirmarem, como o faz o crítico George Bates, que “se Chaucer não disse nada sobre aviões, simplesmente porque nunca os tinha visto, como é possível escrever narrativas policiais se a polícia não existia?”
Ideia peregrina, totalmente fora de questão.
Primeiro: a imaginação do homem vai sempre adiante da sua acção; não é invulgar escrever e descrever objectos quiméricos que o futuro se encarregará de tornar realidade, veja-se, entre centenas, Verne com os aviões supracitados, Clarke com os satélites, etc…
Segundo: a polícia existia, recorde-se o que se escreveu em lugar próprio, o que não existia era polícia da forma e capacidade de um Dupin… se se quiser excluir teimosamente todos os Daniel, Salomão, Zadig e tantos outros ignorados num mundo em que a ignorância prevalecia, que não a sabedoria.
Terceiro: se bem recordamos, Edgar Poe, quando fez a crítica dos seus próprios escritos, jamais os identificou como polícias ou policiários, definia-os com simplicidade:

Estes contos analíticos devem grande parte da sua popularidade ao facto de apresentarem uma nova “chave”.

É este ponto correcto, aquele que se materializa a coerência do trabalho em procura de longínquas raízes da narrativa policiaria… contos analíticos, diz Poe: o que se tem procurado ao longo de todo o trabalho? Indícios, intenções, factos, ideias, etc, para que um espírito ou inteligência analítica extraia as necessárias conclusões.
A classificação do género pertence a outros que não a Poe, tal como o termo “detective” aparece no séc. XIX através de Charles Dickens. O que podemos adiantar é que os quatro contos analíticos de Poe; The Murder in the Rue Morgue (1841), The Mystery of Marie Rogêt (1842/3) e The Purloined Letter (1845), passando por um 'Thou Art the Man (1844), que não refere Dupin, figuram todos os requisitos da narrativa policial clássica, e que ao longo da já extensa exposição fomos salientando: o delito, a trama, indícios de natureza diversa, por vezes enganadora, o personagem com espírito, ou poder analítico, capaz de deduzir, extrair ilações… elementos que formam paralelo com a polícia de investigação moderna, que não desdenha técnicas e métodos, por remotos que sejam, desde que produzam resultados.
Em apenas quatro contos, Poe reúne toda a gama de elementos estruturais da narrativa policiária.


Ilustração:The Murder in the Rue Morgue
Em The Murder in the Rue Morgue concebe o protótipo do detective amador, um homem aparentemente, ou na realidade, excêntrico que servirá de molde aos futuros detectives; aplica, ainda que de modo rudimentar, o método do “quarto fechado”, o enigma é aparentemente inexplicável, os indícios, por vezes enganadores, desde cabelos, sangue, etc.
Ilustração: The Mystery of Marie Rogêt

The Mystery of Marie Rogêt, foi escrito e publicado por entregas. É de todos o que se compara às célebres “Causes Célèbres”, pois trata-se de um caso real ocorrido em Nova Iorque, e do assassinato de uma tal Mary Cecilia Rogers, da qual nunca se encontrou a solução. A novelização de Poe desloca o crime em França e Dupin, coloca-se na situação de “detective de poltrona”, do qual é precursor de todos os futuros casos em que o detective resolve o crime simplesmente através da análise e da dedução do material que lhe é oferecido. Dupin segue a narração do crime através dos excertos dos jornais, que vai intercalando com os seus comentários e conclusões, eliminando contradições desses mesmos jornais para resolver o crime através daquelas.
Edward D. Radin, que investigou o caso real, concluiu que a polícia arquivou o processo por falta de uma solução. A apresentada por Poe, se bem que possa não ser a verdadeira, é seguramente apoiada em excelentes deduções.

Ilustração:The Purloined Letter

A terceira narrativa The Purloined Letter, foi publicada em primeira mão pela revista anual “The Gift”. É o tipo de relato que define o tema, hoje absolutamente dissecado, de que a solução na aparência menos provável é a verdadeira. Conhece-se o autor do roubo de uma carta importante. Durante três meses a polícia revistou o local onde se encontra, investigando todos os sítios, prováveis do seu paradeiro, desmontando móveis, objectos, tudo que possa conter a carta procurada… em vão. Dupin visita o local e descobre a carta no sítio menos provável para quem procura algo escondido e, numa nova visita aproveita para trazê-la.
Estes são os contos detectivescos em que intervém Dupin, demasiado conhecidos para arriscar uma repetição no presente trabalho.
Thou Art the Man, a narrativa em que Poe excluiu Dupin, é um mistério em torno do desaparecimento de Barnabas Shuttleworthy, a quem o seu melhor amigo, Charles Goodfellow, encontra, com todos os indícios de ter sido assassinado por um sobrinho estróina. Para que este confesse o crime, Goodfellow prepara pistas falsas e coloca o cadáver de modo a que este mesmo aponte o seu matador.
Com estes contos, e ainda com o tema de The Gold Bug, um verdadeiro tratado de criptografia. Poe aborda e esquematiza os temas relevantes da maioria das narrativas policiárias escritas durante muitos anos.
Dupin, o herói, marcou uma época.
Deixamos ao leitor interessado, o seu perfil inesquecível, até porque, a partir deste momento a figura dos personagens primaciais ofuscam de certo modo, não só o nome do seu criador, como sobressai com intensidade na própria narrativa.

O PERSONAGEM
Charles Auguste Dupin, o cavalheiro do Bairro de Saint-Germain, ocupa cronologicamente o primeiro lugar da dinastia de investigadores.
É, na realidade, não só o fundador como o protótipo dos sucessivos heróis da investigação criminal, que seguem os seus métodos, adaptando as suas atitudes. Para Dupin, investigar é um passatempo que se apresenta como um substituto ao ócio; não é um investigador institucional, mas um amador, que baseia as suas investigações, em grande parte, nas rigorosas induções que faz através da cadeia de pensamentos, mais precisamente, raciocínio e inferências lógicas.
A figura do cavalheiro Dupin, cujo aspecto característico nos limitamos a visionar, queda subjugada ao deslumbramento da sua mente.
Sabemos que pertencia a uma excelente e ilustre, mas arruinada, família, devido a uma série de acontecimentos desastrosos. Em consequência deste facto, vivia com rigorosa economia, reduzido que estava às rendas de um pequeno património que a benevolência dos credores lhe deixara.
Perdera, naturalmente, todo o interesse em reencontrar a fortuna perdida, alheando-se, igualmente, da vida social.
A atracção pelos livros proporcionou o encontro, num gabinete de leitura da R. de Montmartre, com aquele que viria a ser o seu amigo e biografo — narrador.
De comum acordo viviam numa casa retirada e solitária, quase em ruínas, nos arredores de Faubourg Saint-Germain, mais precisamente na rua Runot, n° 33 – 3º., da cidade de Paris, que o referenciado narrador se encarregara de arrendar e mobilar. Viviam em completa reclusão, como loucos inofensivos, quebrada por um outro dos raros visitantes.
O narrador e amigo interessa-se profundamente pela história da família de Dupin. Surpreendera-se pela vasta extensão das suas leituras e, acima de tudo, sentira-se inflamado pelo intenso ardor e extrema vivacidade, imaginação e extraordinária aptidão analítica, que exercia com delícia.
Ligava-os essa rara paixão pela leitura; o estranho prazer pela escuridão: de dia fechavam as janelas da casa, e à débil luz de duas velas perfumadas, liam e conversavam; de noite saíam e, de braço dão, passeavam pelas ruas da cidade — Rua C, passagem Lamartine, Bairro Saint-Roche, margens do Sena, etc.
Convenhamos que o poder de observação e aptidão analítica de Monsieur Dupin, de que dera provas mais de uma vez, podiam constituir o prólogo de um manual sobre a matéria. Mas, sendo ele um excelente auxiliar da polícia, não tem uma opinião muito favorável à actuação desta. Critica: “a polícia Parisiense, tão abonada pela sua viveza, é astuciosa mas falta-lhe método, exageram e espremem-se o mais que podem, em velhas rotinas mas quando se sentem impotentes para resolver os mistérios que têm ante os olhos, pedem a sua colaboração”. E dá o exemplo com Vidocq: um homem de excelentes conjecturas e perseverante, mas errava constantemente por excessivo ardor, tirava conclusões de factos dispersos sem atender ao conjunto.
Dupin, pelo contrário, não dá nunca um facto por certo, a índole do objecto em exame faz parte da pesquisa do conjunto, dado que há que demonstrar que as “aparentes” impossibilidades cruciais, são possíveis ou não. Ao pôr em prática os seus principias, Dupin pode resolver o crime enquanto a polícia não obtém nenhum resultado. A metodologia e filosofia no processo criminal, seguido por Dupin, (posteriormente, pela ficção e próprios profissionais, não negamos) abrange:
a) Inteligibilidade dos actos, factos e materiais observados;
b) Semiótica não só nos sinais visuais, mas nos aparentes e sensoriais;
c) Inferências ou ilações resultantes das operações dedutivas e indutivas (raciocínio directo e indirecto);
d) Leitura das expressões e dos gestos;
e) Operacionalidade profunda do analista nas questões que excedem os limites das meras regras, e, por último… Intuição!

Num estudo de Daniel Hoffman, um imaginativo mas sério crítico de Poe resume:
A mente de Dupin opera mediante associações. O seu método é refinado, um mecanismo mais suprassensível que os processos habituais de cálculo racional. Começa pelo irracional, posto que não escravo das suas próprias premissas, para atingir o racional.
Esse método parece similar ao que os analistas dos nossos dias chamam de “mente consciente” Dupin pode recorrer e entregar-se a TODAS AS CLASSES ASSOCIATIVAS DE PENSAMENTO PRÉ-CONSCIENTE, essa rede milagrosa de hipóteses, enquanto nós recorremos ao pensamento puramente consciente e racional. Por isso Dupin é muito mais sofisticado que a maioria das pessoas, na resolução de questões intrincadas, precisamente porque está mais próximo das origens do nosso ser; a sua mente ao operar mediante analogias metafóricas, combina intuição poética com exactidão matemática. E basta.
M. Constantino