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5 de outubro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 279

Efemérides 5 de Outubro
Peter Ackroyd (1949)
Peter Warwick Ackroyd nasce em East Acton, West London, Inglaterra. Editor, poeta, biógrafo, crítico de cinema e romancista, é um escritor conceituado e galardoado com alguns dos mais prestigiados prémios literários. O autor tem uma vasta obra publicada, destaca-se a relacionada de alguma forma com o policiário: Dan Leno And The Limehouse Golem - The Trial Of Elizabeth Cree (1994), The Canterbury Tales – A Retelling (2009) e ainda 2 livros editados entre nós
1 – Contos De Clerkenwell – Aventura E Suspense Na Idade Média (2006), Colecção Outras Estórias, Editora Teorema. Título Original: The Clerkenwell Tales (2003).
2 – Poe – Uma Vida Abreviada (2009), Colecção Livros de Culto – Literatura Contemporânea Editora Camões & Companhia. Título Original: A Life Cut Short (2006).



TEMA — FICÇÃO OU REALIDADE — O MISTÉRIO DOS DISCOS VOADORES
Duas versões diferentes sobre o mesmo tema palpitante.
A primeira de Richard Davis, escritor de ficção científica, servindo de introdução a uma antologia da temática publicada em Portugal; a segunda de Sérgio Vieira, extraída de um jornal já extinto há muitos anos.
Como é óbvio não comentamos, tanto mais que nos falta cultura técnico-científica para o efeito.
M. Constantino

VI UM OVNI
De Richard Davis
Há algumas noites vi um OVNI.
Talvez não fosse um OVNI, num sentido rigorosamente técnico. Talvez qualquer astrónomo competente soubesse imediatamente o que aquilo era; mas a mim pareceu-me um OVNI, e isso é o que na realidade interessa. E quando me recordo do caso, tal ideia ainda se mantém. Acho que aquilo deixou em mim uma espécie de sensação inexplicável, embora na altura eu tentasse fortemente racionalizar o caso.
Permitam-me que vos diga desde já que, apesar de ser um ávido leitor e estudioso da ficção científica (se assim não fosse nem se compreenderia que publicasse um livro como este), eu ainda nunca tinha visto um OVNI, nem nunca ninguém me viu em Highgate Hill, ou lá onde se costumam juntar aquelas centenas de pessoas que ficam à espera de ver um OVNI. Foi uma simples coincidência o facto de eu estar a preparar este livro e ver aquela coisa.
Sucede que vivo na área em que as aparições desses objectos têm sucedido com mais frequência. Claro que não vos vou dizer o local exacto, mas simplesmente que fica no interior de Kent, numa zona campestre e bastante remota. A estrada aqui é aquilo que costuma classificar-se como “caminho”, o que significa que não é alcatroada, porque não pertence a nenhum município; quase não há trânsito, e por isso é muito sossegada. Sob vários aspectos, é um sítio perfeito para se verem objectos não identificados.
Bom, seja como for eu estava para ir passar o serão com a minha vizinha do lado, e tinha acabado de fechar a porta de casa quando calhou olhar para o céu, e ali estava ele. A noite estava admiravelmente calma e todas as estrelas tão brilhantes e visíveis que até Patrick Moore teria saltado de alegria. Corri até casa da minha vizinha, quase lhe deitei a porta abaixo, agarrei na manga do casaco do irmão dela e arrastei-o à força até ao jardim. Eu precisava de uma testemunha para confirmar o que estava a ver. Provavelmente ele pensou que eu tinha endoidecido — e talvez tivesse razão —, mas pelo menos também viu aquilo, e também ficou completamente embasbacado; o que me satisfez profundamente, porque ele é estruturalmente céptico. Nunca lê uma linha sequer de ficção científica (que vergonha, dirão…) e não acredita nem um bocadinho só nesses disparates do espaço exterior
(Sabiam que alguns dos membros da Sociedade Terra Plana ainda estão convencidos de que as viagens à Lua das naves Apolo foram simuladas num estúdio?).
Portanto, que vi eu, ou melhor, que vimos nós na realidade? Bom… como disse, o céu estava tão claro que se podiam ver todas as estrelas; a princípio pensei que aquilo era mesmo uma estrela, até reparar que se movia, que se movia com incrível velocidade. Parecia exactamente uma estrela, com a diferença que se apagava e acendia. Não tinha qualquer, espécie de cauda brilhante, como é costume ver-se nas estrelas cadentes e, como não havia sopro de vento, o som do motor seria facilmente audível se fosse um avião. Tenho visto imensos aviões a voar de noite — como toda a gente aliás — e na realidade ninguém os toma por outra coisa qualquer. Aquele objecto era perfeitamente silencioso e seguia de ocidente para oriente, até que o perdemos de vista por detrás de um renque de árvores.
É claro que podia tratar-se de um satélite; um dos inúmeros monstros metálicos que as grandes potências têm lançado para o espaço nas últimas décadas. Tal como muitas das histórias dos OVNI dadas como verdadeiras, a minha experiência acaba por ser, ao fim e ao cabo, frustrante e indefinida. E até à data não teve qualquer sequência.


ONDE ACABA A FICÇÃO E COMEÇA A REALIDADE
De Sérgio Vieira
Hoje em dia são muitas as pessoas que defendem a visita de seres extraterrestres ao nosso planeta, desde tempos recuados
Quase sempre são apontados factos históricos como base de argumentação, desde as pinturas rupestres descobertas nas montanhas de Tassili, no território do actual Sara, que lembram homens com fatos espaciais, às enormes estátuas de pedra da ilha de Páscoa, passando pela coluna de ferro puro existente na Índia, gigantesca “área de lançamento” de Baalbek e o “aeródromo” do planalto de Nazca, na América do Sul.
São obras que muitos explicam como sendo vestígios deixados por extraterrestres que trabalharam na Terra. Aliás, a possibilidade de várias formas de vida inteligente no Universo já foi avançada na Antiguidade. “Considerar a Terra como único mundo habitado é tão absurdo como afirmar que num campo semeado de milho germinará um único grão”, afirmava Metrodorus, filósofo grego do séc. IV a.C.
A mesma afirmação havia sido escrita ainda antes, por outro filósofo grego. Anaxitnander. Já Giordano Bruno, no século XVII, pagou com a vida a defesa de ideias semelhantes.
É verdade que nenhum deles falou de extraterrestres. A hipótese da sua vinda à Terra tornou-se particularmente proposta a partir da altura em que a população americana viveu momentos de pânico quando, sem qualquer aviso, Orson Welles pôs no ar a sua versão radiofónica da “Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells.
Cidadãos apavorados saltaram pelas janelas ao ouvir o locutor anunciar que as tropas marcianas já tinham conquistado a Quinta Avenida. Depois com o evoluir da conquista espacial, a possibilidade de uma visita extraterrestre começou a parecer menos impossível. “Se o homem pode ir ao espaço, por que não podem outros vir dele?” argumentava-se. Em numerosos países assistiu-se a uma verdadeira proliferação de obras sobre este tema, desde as mais sérias às mais absurdas. Mas a popularidade dos extraterrestres atingiu o seu apogeu em Erich Von Daniken. Para descobrir os “seus rastos” viajou pelo Mundo inteiro e os resultados das suas investigações culminaram com livros traduzidos em 26 línguas.

As opiniões dividem-se
Como explicar verdadeiros fenómenos de épocas remotas, sem cair na justificação fácil de extraterrestres? A coluna indiana, por exemplo, foi efectivamente elaborada em ferro puro que os metalúrgicos antigos não sabiam elaborar. Mas há muito que se provou que foi forjada com o ferro de um meteorito e representa um monumento erigido em honra de um fenómeno celeste que tinha impressionado o espírito dos indianos.
Baalbek, por outro lado, é uma colónia romana, um imenso edifício de culto, cuja construção foi empreendida no século II pelo imperador António, e terminada no século III pelo imperador Caracalla. No início do nosso século, o arqueólogo alemão O. Puchstein descobriu ali várias moedas romanas e fez a descrição detalhada desta obra.
É verdade que se encontram ali monólitos de pedra de 550 e 600 toneladas, mas este facto não é suficiente para explicar a presença de extraterrestres. A pirâmide de Uréphren, por exemplo, tem pedras de 500 toneladas e foi construída 2500 anos mais cedo, quando não havia um único instrumento de ferro, e nunca ninguém defendeu a tese de que as grandes pirâmides tivessem sido construídas por habitantes de outros planetas.
As gigantescas representações de pássaros, animais e insectos, gravados no solo do planalto de Nazca, na costa meridional do Peru, têm sido apontadas como uma das provas mais evidentes da vinda de extraterrestres, servindo de sinalização de um aeródromo gigante.
Ora, os vestígios de Nazca, que foram descobertos em 1939 pelo arqueólogo alemão Paul Kosac datam do séc. III a.C. e representam uma espécie de calendário solar e lunar que permitia aos habitantes dessa região estabelecer os prazos dos trabalhos agrícolas. Os desenhos tinham também um destino prático e ritual e encontram-se igualmente em objectos de cerâmica e de tecelagem dos habitantes de Nazca.

Especulação é contrária ao espírito científico
Parece que, se os extraterrestres estiveram no nosso planeta, quiseram deixar marcas que se pudessem confundir facilmente com vestígios da actividade humana, o que não parece muito lógico.
Se se proceder a uma análise objectiva da hipótese da vinda de extraterrestres, devemos reconhecer que não há lei nenhuma da natureza que os tivesse impedido de visitar a Terra. Pelo contrário, não é essa hipótese mas a negação obstinada de uma eventual visita ao nosso planeta por outros seres dotados de inteligência que é preciso considerar.
Um poeta russo, Nicolai Zabolótski, que nada tinha de investigador escreveu um dia: “Vivemos quase todos ainda num período de antes de Copérnico no que respeita às nossas noções sobre a nossa exclusividade terráquea e temos uma inclinação para atribuir a um campo místico tudo o que contradiz essas ideias, sem procurar ir ao fundo da questão.”
O poeta tem razão, mas existe uma diferença entre a probabilidade de um acontecimento e um acontecimento real. Uma coisa é acreditar nisso e investigar os factos, outra é falseá-los em nome dessa crença.
Para a maioria dos cientistas, a vinda de extraterrestres não é impossível mas dão-se conta que não têm à sua disposição nenhum facto incontestável que prove que uma visita espacial tivesse ocorrido no passado. Mas, apesar das hipóteses antigas sobre a multiplicidade dos mundos habitados, apesar dos imensos sucessos da astronomia e da astronáutica durante os últimos anos, apesar dos anos de investigação sistemática de outras civilizações, não há, ainda, nenhuma prova que possa corroborar a sua existência.
A vinda de extraterrestres à Terra só pode ser provada de duas maneiras: ou se encontram vestígios irrefutáveis da sua visita (por exemplo, uma nave espacial ou um aparelho científico de origem desconhecida) ou se descobre uma civilização dê seres dotados de razão que nos forneça provas dessa visita.
Actualmente, a hipótese sobre os extraterrestres, tal como é mantida, pode tornar-se nociva pois apresenta uma resposta demasiado fácil para a questão. Encobrindo-se com a toga da ciência, esse mito é, de facto, contrário a ela. O problema verdadeiramente científico de uma investigação de contactos com civilizações extraterrestres contêm para os autênticos investigadores uma multidão de questões não resolvidas que começa na linguagem dos sinais espaciais e acaba nos “discos voadores”.
Linhas de Nazca
Fonte: Wikipédia


21 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 265

Efemérides 21 de Setembro
H G Wells (1866 – 1946)
Herbert George Wells nasce em Bromley, Londres, Inglaterra. Historiador e futurista, professor, jornalista e escritor. É ainda, sem qualquer sombra de dúvida, um “grande inventor” na Ficção Científica.

TEMA — H G WELLS, UM PIONEIRO NA FICÇÃO CIENTÍFICA
Por M. Constantino
A maioria das pessoas conhece H. G. Wells apenas por ser um escritor de ficção científica, todavia, além de escritor, foi também um eminente crítico social, enaltecido em todas as partes do mundo, e um historiador respeitado.
Nascido numa “classe média baixa”, lutou toda a vida para fugir aos constrangimentos que o nascimento lhe impunha. Estudioso e inteligente acabou por conviver com homens como Joseph Stalin e Franklin Delano Roosevelt. Estudou com Aldous Huxley, que teve uma grande influência na sua vida. Testemunhou rápidas mudanças sociais e tecnológicas, às quais dedicou parte da sua obra de ficção e não ficção, vivendo o suficiente para assistir ao uso das armas atómicas ~
Apesar de ter estudado biologia, onde se formou, não hesitou em considerar que o meio ambiente faz das pessoas o que acabam por ser. Foi político não interventivo — escreve antes de morrer “perdeu as ilusões a respeito da raça humana”.
Usou os seus conhecimentos para escrever ficção. Se é verdade que toda a obra de Wells justifica uma leitura, não podemos deixar de destacar “A Máquina do Tempo”, onde põe em acção uma viagem temporal ao futuro, servindo-se desta visão para analisar a situação social da época e conceber penetrante especulação sobre a evolução social. Em “A Ilha do Dr Moreau” põe em causa a biologia e os perigos da manipulação sobre animais (o que reflecte, claramente, a influência de Huxley e Darwin), tal como “O Homem Invisível” alerta contra a gravidade de se abusar da ciência. “A Guerra dos Mundos”, talvez o melhor protótipo das histórias sobre a invasão da Terra, é a chave mestra que abre todas as expectativas do futuro.
As obras mais surpreendentes do autor estão nos relatos curtos (não suficientemente curtos para publicar um exemplo) onde releva a habilidade para combinar o fantástico com o plausível, o estranho com o familiar, o novo com o antigo, num esforço de evitar o nefasto futuro que ele previa inevitável se os homens não planificassem melhor… Wells assistiu ao resultado da bomba atómica, como se disse…
H. G. Wells


TEMA — CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA — ANTES DO RECOMEÇO
De Severina Fortes
Avizinhava-se o entardecer da bela tarde de Outono.
Isaac saiu da Casa para ir ao encontro de Ezequiel que, como sempre, o esperava para a habitual cavaqueira saudosa.
Atravessou o cuidado jardim que rodeava a vasta habitação donde saíra — remirando-o ufano por ter conseguido reconstituí-lo completamente — e desceu a vereda.
Iria passar pela floresta que renascera, mas podia fazê-lo sem receio de se desviar: o trilho pisado pelos seus pés todos os dias, desde os Velhos Tempos — da Casa à Grelha Espacial — bastava para guiá-lo.
Nada parecia diferente e seguia despreocupadamente, já bem no meio do caminho, quando percebeu ruídos desusados vindos de entre as árvores. E não era do voltear das aves nem do zumbido dos insectos, que há muito haviam voltado. Tratava-se de outra espécie de rumor, produzido por seres de maior porte.
Não se deteve a escutar. Apertou o passo, alvoroçado, na esperança de que Ezequiel tivesse novidades.
— Chegou alguma nave? — perguntou logo que o viu.
— Nenhuma — espantou-se Ezequiel, gesticulando a compensar a fala defeituosa.
Ezequiel nada vira, portanto. Esperava-o placidamente sentado à porta do abrigo perto da costa — junto á Grelha Espacial que vigiava dia e noite — ficou surpreso da pergunta de Isaac.
— Há qualquer mudança na floresta! Ouvi movimento quando passei… queres vir comigo ver o que se passa?
— Vou. Mas não veio nada por aqui. Pensas que poderia vir por outro lado?
— Não sei. Vamos ver!
Iniciaram sem demora a subida, enquanto o crepúsculo começava a cair. Isaac amparava o companheiro que tinha dificuldade em caminhar, como se as articulações dos joelhos estivessem presas; porém, o defeito não residia ai: mecanicamente conservava-se bem, apenas aluna neurões haviam perecido.
Ao chegarem ao ponto aonde Isaac ouvira o ruído insólito, pararam atentos, ansiosos de saber o que se passava por entre as sombras que alastravam a encher o bosque. E ouviram vozes!
— Vozes — exclamou Isaac. — Também ouves?
— Ouço, sim. Sabes que ouço bem! A vista é que é pior… Contudo, parece-me ver claridade, mais além. Repara!
Baixando do espaço, silenciosamente, uma pequena esfera verde, translúcida, ia-os acompanhando cautelosamente, sem se mostrar, rasando as copas das árvores ao entrarem na floresta.
A claridade vista por Ezequiel emanava da fogueira acesa no centro da clareirazinha existente mais adiante e, á sua volta, quatro pares de olhos miravam, curiosamente, os recém-vindos.
— Quem sois? — quis saber Isaac, que não os conhecia.
— Sou o Gnomo — respondeu de pronto, com um aceno amigável, uma figurinha peluda, vestindo colete amarelo e usando um barrete escuro, de modo a deixar ver as orelhinhas em bico.
— E eu, o Duende — disse outro, maior de tamanho mas magro e anguloso. Uma espécie de gibão castanho, apertado com um cinto, bailava-lhe no corpo; o gorro, que lhe cobria a cabeça ossuda e os cabelos ruivos, era da mesma cor. A maneira como falou não foi simpática. Os olhinhos muito juntos e a boca retorcida davam-lhe um ar amargo, acentuado pela cor baça da pele.~
— Chamam-me a Fada madrinha — apresentou a voz cantante da componente que mais se assemelhava aos humanos. Mais pequena do que eles, era graciosa e de gentil aspecto, com olhos azuis e tez clara. Os cabelos louros caíam soltos, anelados, somente presos pelo diadema prateado, onde sobressaia a estrela refulgente, ao centro; mas não tão brilhante como a que encimava a varinha mágica, segura na mão. As vestes brancas, flutuantes, desciam aos pés, calçados de sandálias igualmente prateadas.
— Logo se vê que sou o Ogre… — esclareceu com importância o mais feio do grupo. Enorme ao lado dos outros, mesmo tendo menor altura que qualquer homem, tinha o corpo gordo e balofo, assente em pernas curtas e finas. A capa verde, com capuz a cair nas costas, ia ao meio das coxas, realçando a magreza das pernas arqueadas. O rosto, de cor terrosa, largo e chato, descansava, quase sem pescoço, sobre os ombros descaídos. Farripas ruças, coladas á cabeça grande, espalhavam-se por sobre as orelhas pequenas e grossas, tocando esparsas nos ombros. A boca rasgada, de dentes amarelos e salientes, deixavam ver a saliva ao falar, ciciando as palavras.
— E vós, donde vindes e porque estais aqui? — inquiriu, por sua vez. - Não sois humanos!
— Somos desta ilha, chamada a Ilha do Homem. Foi nesta terra que o nosso Amo nos criou: sempre aqui estivemos… Chamo-me Isaac e o meu companheiro Ezequiel; na época da nossa criação, os Amos davam-nos os nomes dos seus Patriarcas!
— Como chegaram? — interessou-se Ezequiel, impaciente. — Não dei conta que viessem pela Grelha Espacial, como se fazia nos Velhos Tempos!
— Não viemos — retorquiu com simplicidade a Fada Madrinha, na sua voz timbrada. Cada um de nós tem o seu sistema de viajar, que não é o vosso.
— E porque vieram? — tornou Isaac.
— Amamos a Terra! Voltamos sempre que temos lugar nela. E muitos outros de nós virão! — redarguiu de novo a Fada Madrinha. — Mas gostávamos que nos falassem dos homens e dos acontecimentos que os levaram ao seu fim. Será muito pedir que nos contem as vossas recordações e como os viam, á vossa maneira?
saac aproximou-se do fogo, distanciando-se de Ezequiel que logo o seguiu devagar.
— Os Amos partiram. É doloroso falar dos homens, agora, que tanto tempo passou… Com maior nitidez, o que recordo deles é que não se assemelhavam entre si. Até mesmo os mais chegados, pelo sangue ou pela cultura, raramente procediam da mesma maneira, no mesmo momento.
— Isaac tem razão — confirmou Ezequiel, na sua voz defeituosamente articulada. Nada sei acrescentar á descrição que fez, mas posso testemunhar a verdade das suas afirmações.
— Não é exacto! - contrapôs o Duende firmemente, na sua voz esganiçada. — Uniam-se como um só para nos perseguir, desacreditando-nos descaradamente.
Acocorado perto da fogueira acesa para dar luz e calor à noite, o Duende mudou de posição, conservando o cariz carregado quando tornou:
— Os humanos eram maus. Verdadeiros tiranos, pelo que sei!
Isaac olhou-o em silêncio, indeciso, considerando se seria apropriado responder-lhe. Todavia, Ezequiel, afectado por tal acusação que lhe pareceu injusta, não se conteve:
— Não fale assim, senhor Duende. Faz-me mal ouvi-lo! Reconheço quanto o decorrer do tempo agravou a diminuição que sofri ao perder a perfeição original; no entanto, mesmo assim, o azedume que encontro nas suas palavras entristece-me pela ausência de bondade!
Do outro lado da fogueira, a Fada Madrinha acudiu:
— Nem sempre os homens foram tiranos ou cruéis… Havia-os nobres e puros, incapazes do mal! E mesmo os tiranos, às vezes, mostravam-se ternos e sensíveis; as circunstâncias é que os tornava duros — mas nem sempre, como disse!
— Continuas ingénua, Fada Madrinha! — falou o Gnomo. — Claro que sou da tua opinião: existiam homens nobres e puros! No entanto, esses, tal como os tiranos, não podem servir de bitola — são o exagero para o bem e para o mal… O homem comum tendia para o bem, é verdade — e cumpria-o! Todavia, como não gostava de ser enganado pelo seu semelhante, quando o era achava-se no direito de tirar desforço — e então, sim, tornava-se mau! Porém, mesmo assim, tenho saudade dos velhos contos que escutava dos meus antepassados, a descrever a bela camaradagem que irmanava os nossos ancestrais aos bons homens rudes primitivos, honestos e caridosos, para nós. Foi, talvez, sonhando reviver um passado de encanto, que me resolvi iniciar mais esta aventura na Terra! — terminou o Gnomo num murmúrio, ajeitando-se melhor e estendendo as mãozinhas para o fogo.
— Agradeço-lhe, senhor — disse Isaac. — Noto, satisfeito, que entende melhor a verdadeira feição dos homens, tal como nós os recordamos. Falar do mal que tenham feito é-nos penoso, como se assistíssemos a um sacrilégio. Não podemos esquecer que somos a sua obra!
— Obra da vaidade, quanto a mim — exclamou o Duende, cheio de fel. — Julgaram-se o centro da criação e deram-se ares do que não podem ter sido, querendo imitar Deus, grosseiramente, inventando criaturas!
— Isaac, diz-lhe como se engana — lamuriou Ezequiel. — Só tu podes desfazer o erro do seu pensamento…
— Um medroso e um cobarde, foi o que qualquer homem foi — interrompeu o Ogre, acabando por também dar o seu parecer; mas de forma superior, como se pretendesse pôr fim ao assunto com uma verdade arrasadora.
Isaac ficou sem voz, impotente para contestar tamanha malignidade, dita sem pejo, afoitamente.
“Será verdade?” — pensou angustiado.
— Só vês o mal nos outros por seres malvado! Espreitavas os homens, gulosamente, para lhes dares maus tratos… Que esperavas? Que te dessem esse prazer? — ralhou brandamente a Fada Madrinha.
O Duende mexeu-se com desconforto e disse:
— Mas nós não lhes fazíamos mal; apenas começamos por gostar de estar entre eles, num planeta que habitávamos antes de chegarem!
— Não vos entendiam, era isso. Os vossos poderes estavam acima do que consideravam normal — esclareceu o Gnomo, inclinando a engraçada cabecinha e fechando os olhos, preguiçosamente. — Quando começaram a aceitar a vossa presença como real, o mal-entendido agudizara-se de modo irreversível, pouco antes de os vossos partirem, cheios de amargura… Ah, mas antes de irem vocês vingaram-se bem!
— Havia histórias de Duendes — recordou Isaac. — Li bastantes antes do tempo, impiedoso, as mutilar irremediavelmente. Não me deram a ideia de que os homens os odiassem! Ficava no ar a dúvida da sua existência, é verdade, contudo, notava-se admiração por esses seres superiores…
— Mentirosos! — atalhou o Duende, no entanto sem a convicção anterior. — Não hesitavam na mentira para se convencerem das suas razões!
“Mentirosos!”, considerou Isaac. “Teria sido mentirosa a promessa que seu Amo fizera de voltar, um dia?”
Movendo-se, imperceptivelmente, a esfera colocou-se-lhe atrás, exercendo, porventura, qualquer influência, que de imediato neutralizou a desconfiança de Isaac.
— Não nos ensinaram, a mentir e deram-nos os seus melhores sentimentos — articulou Ezequiel, morosamente.
— Os homens não gostavam da mentira e só a admitiam para bem fazer. Tinham imaginação e falavam de factos fantasiosos por capacidade natural de se adaptarem a outras vivências fascinantes… Apenas os degenerados e os enganadores (os que ousavam prejudicar os seus iguais, para o próprio benefício), abusavam da mentira, na sua pior expressão! — contou o Gnomo, consciente do seu profundo conhecimento sobre os homens.
— Gostavam da fantasia e do Sonho! Fizeram dos nossos os seus mais belos personagens: não posso querer-lhes mal! — achegou a Fada Madrinha.
— Mas guerreavam-se cruelmente, ávidos de matança -— acusou o Ogre, secamente, de modo altivo. — Queixavam-se da nossa maldade; todavia, isso nunca aconteceu entre os da nossa espécie!
— Se lesse a História Humana, senhor Ogre, saberia quantas guerras foram iniciadas por nobres ideais, e como o mal era sinceramente condenado. Os homens amavam a Justiça e acorriam em massa quando a julgavam em perigo, dispostos a morrer por ela — disse Isaac solenemente, cheio de orgulho, como se esses ideais lhe pertencessem.
— Contudo, os vencedores não recusavam os despojos, como troféus — lembrou o Duende com uma risada maldosa. — Parecia, às vezes, que apenas combatiam po eles…
— A vida na Terra tornou-se difícil. Mesmo nós, apesar de todo o nosso poder, tivemos que partir. Os homens foram forçados a permanecer até ao fim — contemporizou a Fada Madrinha. — Foi esse o seu destino…
— Tens razão ! — sentenciou o Gnomo pausadamente. — A luta pela sobrevivência, a que não podiam fugir, tem sido a origem do seu fim… Começou com a selecção dos mais aptos, mais espertos, mais hábeis em subtilezas para dominar e escravizar. Depois vieram as posições tomadas, ocupadas como por direito, subjugando a maioria. Deram-se em seguida os confrontos entre os grandes, arrastando os humildes desprotegidos, quando não os aliciados: verdadeira bola de neve rolando e engrossando, cada vez mais, vertiginosamente.
— Grandes mudanças se operaram desde que partimos…— continuou, como se para si, a Fada Madrinha. — No íntimo, não sei se irei gostar de ter a certeza, mas foram as guerras que ajudaram a afastar os últimos homens da Terra?
— Tem razão, senhora. E não foi agradável… — respondeu Isaac, com tristeza. -— As guerras já não se travavam cavalheirescamente, como nos tempos medievais: tudo havia mudado. As diferenças de opinião, entre os responsáveis, foram a causa de eliminarem reciprocamente os seus povos. Talvez o temor do fim, que a descoberta de armas temíveis poderia apressar, levou-os a aumentar mais e mais o poderio de ataque — de tal forma perigoso que apenas uma pequena parcela bastava para arrasar parte do mundo — a fim de manter o equilíbrio do terror duma guerra com tais armas!
Os seres visitantes ouviam Isaac, espantados.
— Aqui e ali, ataques isolados e de pouca potência, apavoraram as gentes pelo horror colossal. Os homens passaram a viver na perspectiva do perigo constante, dia a dia no receio do fim do mundo. Quando o medo parecia deter os mais irresponsáveis, outro poder surgiu: uma arma específica, destinada a afectar a vida — somente a vida!
Isaac parou de falar ao auditório mudo de pasmo, parecendo querer ganhar alento para prosseguir. Depois, retomou a narrativa:
— Foi atroz, senhora! De surpresa, sem qualquer hipótese de defesa, ataques doidos foram lançados sem dó, e os homens ensandeciam encurralados. Aceleraram-se voos espaciais, em luta contra o tempo, para que alguns pudessem escapar — de qualquer modo, mesmo arrostando o desconhecido — às sucessivas arremetidas, agora desferidas continuadamente, cada qual em retaliação de outras! Bem poucos homens conseguiram partir: quase toda a Humanidade ficou!
Houve uma pausa sentida antes da Fada Madrinha perguntar:
— E sabem de sobreviventes noutras partes do mundo?
— Dificilmente haverá, senhora. Ou então em condições que não ouso imaginar! — retorquiu Isaac, que continuou:
— Numa sociedade tecnológica, altamente especializada, onde os homens eram necessários para postos de responsabilidade, a sua ausência progressiva conduzia a roturas graves na manutenção dos principais centros regularizadores da conservação de matérias letais; à guarda de quem controlava em rigorosa observância a sua inércia. Um pouco por todo o lado — quando não em cadeia — deram-se fugas de energias incompatíveis com a vida, ocasionando espantosas destruições quando libertas e aumentando ao atingir locais de armazenamento de armas pavorosas! A Humanidade perecia, de qualquer maneira, condenada pelo resultado da sua discórdia!
— Poucos dos nossos escaparam — ouviu-se dizer Ezequiel, daí a pouco. — Nem todos eram meramente mecânicos, como Isaac. Aqui na ilha só ele ficou intacto. Eu fui o primeiro a quem fizeram bio-enxertos ligeiros, em experiência na Ilha; por isso, embora afectado, resisti. Os outros mais modernos, por terem grande contribuição biológica, ficaram inutilizados.
— E as pessoas da ilha, também sofreram? — perguntou o Gnomo com um arrepio, chegando-se mais à fogueira. — Também estiveram sujeitos a esses horrores?
— Muitos: todos os que não quiseram partir. O amor ao solo que se pisa era forte nos homens que ainda trabalhavam nele…— respondeu Isaac.
— Não é isso — esclareceu o Gnomo, com profundo respeito. — Esta ilha é especial: viu o princípio de tudo!
As pausas eram agora mais longas, sob a poderosa impressão recebida. Só Isaac falava.
— Quando o nosso Amo partiu, com a dor na alma, recomendou que olhasse pela Casa, prometendo voltar — contou, sem saber a quem, apenas procurando consolação.
— Muito tempo passou, Isaac. Temos que aceitar que não lhe foi possível voltar: a Terra estava contaminada! — consolou-o Ezequiel com a sua amizade. Mas Isaac, como se não o ouvisse, prosseguiu:
— A ilha ficou nua e só, batida pelo mar e pelo vento. Longos e longos anos levou até ao regresso dos esporos que fertilizaram os resquícios de plantas que assomavam na terra, finalmente despertas, quando esta deixou de ser árida. Conservei a Casa e tudo quanto o tempo poupou. Mantive aberto o caminho desde o lar à Grelha Espacial, de onde o Amo partira, na espera constante do ausente…
Até aí Isaac estivera naturalmente de pé: as criaturas como ele não careciam de repouso. Contudo, abalado ao falar no Amo que não voltara, comoveu-se visivelmente e sentou-se num tronco derrubado, não falando mais. Ezequiel, solidário, aproximou-se desajeitadamente e acomodou-se a seu lado, preso da mesma emoção, parecendo tão humano como os homens que os haviam criado.
— Não desejava tal fim para os humanos, apesar da sua arrogância — disse o Ogre.
— Porque vieste, se não gostavas deles? — quis saber a Fada Madrinha, ainda sensibilizada.
— Nunca disse que não gostava deles… — ciciou o Ogre, amuado. — Nós nascemos para fazer o mal, não sabemos o bem. Os homens sabiam! Julgo que nos atraiem por essa razão, e procuramos o seu convívio para aprendermos com eles.
— Também os admiramos — falou o Duende. — Eram seres desprotegidos, sem qualquer dos nossos poderes naturais; mas acabaram por se adaptar ao hostil meio ambiente, vencendo-o. Talvez da pior maneira… porém, a que podiam e sabiam! Porque éramos superiores, gostávamos de os provocar: fizemos mal!
O fogo começara a apagar-se, a esmorecer. Cada membro do grupo emudecera, entregue aos seus pensamentos, em que os homens ocupavam a principal parte, e onde a saudade transparecia.
Nada mais havia a dizer. A noite estava no fim…
Recolhida a mensagem duma reunião propícia, a esfera verde que se quedara sensivelmente atrás de Isaac, parecia agora ainda mais translúcida. Pairou por momentos, aproximando-se do grupo, suavemente, antes de se afastar devagar, prenhe da imagem captada, favorável ao retorno. Por fim elevou-se, passou a Grelha Espacial, ganhou altura a desapareceu.
Daí a pouco a aurora começaria a despertar, enchendo de luz a manhã. Do mesmo modo que, certamente, em devido tempo e implantadas as condições necessárias, despertaria de novo a Humanidade na Ilha do Homem!
Quem sabe se a tragédia deixa de ser verdadeira, quando pode haver um Recomeço…


7 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 251

Efemérides 7 de Setembro
Michael Bracken (1957)
Nasce em Canton, Ohio, EUA. Escritor premiado de policiário e ficção científica, tem 11 livros publicados e mais de 1300 trabalhos curtos, dispersos por 150 publicações. Tem vários contos premiados com o Derringer Award e o conto Dreams Unborn é considerado em 2005 como um dos melhores do ano pelos editores em The Best American Mystery Stories e em 2007 Snowbird, escrito em parceria com Tom Sweeney é classificado no 4º lugar pelo leitores de Ellery Queen's Mystery Magazine's.


TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA — 20
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 227 (clicar)
A experiência da novela Pelham: or The Adventures of a Gentleman parece ter despertado Lytton para o mundo criminal. Nas suas novelas seguintes, “Paul. Cliford” (1830) o protagonista é um bandido, um cavalheiro elegante que faz lembrar o futuro Raffles ou Lupin, “Night and Morning” (1841) aparece Gawtrey que comete delitos, no fundo é um bom homem; por último “Eugene Aram” que está baseado num facto real. Aram é um erudito e virtuoso, mas acabou condenado e executado por um assassínio cometido catorze anos antes.
Embora a conexão afirmada com narrativas criminais, e como mais um aditivo ao futuro nascimento, sério e coerente da novelística policiária, não pode deixar-se de lado o conhecimento do ideal do autor, um revoltado radicalista, cuja obra, no fundo, pretende demonstrar o espelho de “uma sociedade injusta e uma justiça corrupta ou ignorante”.
No mesmo ano da publicação de “Pelham” em Inglaterra, François Eugène Vidocq, um dos mais complexos e discutidos personagens reais do mundo do crime publica as suas memórias, simplesmente “Memórias de Vidocq”.
A influência de Vidocq, durante a vida e após a morte, sobre os escritores do tema criminal e sobre os autores de narrativas de detectives e simplesmente extraordinária.
Mas, quem foi Vidocq?

“Nasci em Arras: mau grado as constantes viagens, a volubilidade com que me trataram, uma singular aptidão para me estigmatizarem, tendo deixado algumas incertezas acerca da minha idade não será supérfluo, declarar aqui que vim ao mundo a 23 de Julho de 1775. Era de noite: a chuva caia.”
Antes de adolescente, era o terror do bairro, chefe de fila dos rapazes maus. Aos 13 anos aprende a manejar o florete e a espada. Não é bom estudante, mas é um excelente esgrimista. Pouco escrupuloso em questões de dinheiro, leva “umas pratas de empréstimo” e sofre a primeira prisão. Aureolado por esta, as amizades duvidosas vão levá-lo mais longe nas acções condenáveis. Para fugir a uns tantos “pecados” incorpora-se (1791) no regimento de Bourbon. Abusa do êxito feminino e das qualidades de esgrimista (15 duelos vitoriosos).
Ameaçado de comparecer em Conselho de Guerra, deserta e alista-se, sucessivamente, noutros regimentos. Ferido contra os austríacos, regressa a Arras e aproveita o ensejo para seduzir algumas mulheres. Vai parar a prisão. Casa de má vontade para evitar outra prisão, talvez a guilhotina. Foge. Reenverga o uniforme, desta vez sob o nome de Rousseau e, sob este, casa com uma baronesa rica de Bruxelas. Entre riqueza e ruína e um instante.
De volta a França, em Lille, conhece vigaristas e ladrões e alia-se-lhes. É preso, uma, duas, três vezes.
Durante alguns anos, entre prisões e evasões, torna-se a principal figura de aventuras extraordinárias. Já que na prisão aprende como se engana a polícia ou as outras pessoas que pretende assaltar, inclusivamente quando as coisas correm mal, como se consegue fugir, disfarça-se em inspector das prisões, com a cumplicidade da amante e para fugir a trabalhos forçados. Perito na arte, Vidocq maquilha-se e disfarça-se. Assim, enquanto, o oficial verdadeiro procede à inspecção no interior da Torre Saint-Pierre, o seu duplo franqueia com autoridade a saída, nas barbas do carcereiro, que o saúda à porta da prisão.
Depois de alguns meses de liberdade prudente, encontra-se face a face com um agente, atira-lhe pimenta aos olhos e foge. Agora é o Comissário Jackward que envida todos os esforços para a sua captura. Disfarçado atrai o Comissário e os seus agentes a um gabinete onde os deixa fechados.
As vezes que volta à prisão só se podem igualar ao talento com que se escapa.
Denunciado, volta à prisão. Desta vez é espancado à cacetada e mordido pelo cão de guarda. Vidocq, vigiado de perto e à vista não consegue escapar-se e é condenado a 8 anos de trabalhos forçados.
Dos autos consta que “tem 26 anos, tem 6,4 pés de altura, cabelos e sobrancelhas louras, fronte redonda, nariz aquilino e longo, olhos cinzentos, boca média e de través, pescoço largo e alto, cara oval, barba loura, tendo uma cicatriz no lábio superior direito e orelhas curtas”.
É preciso dizer que graças a um curioso processo relacionado com a sua constituição física, possuía a faculdade de reduzir ou aumentar várias polegadas na altura e adaptá-la aos vários disfarces.
Apesar de ligado a outro condenado com uma corrente de ferro e arrastar uma esfera de ferro de 12 libras de peso, que não favorecia os movimentos, Vidocq não desespera, mas as tentativas de fuga fracassam. Um dia, um marinheiro gingão, elegante, sai pela porta da prisão e acende o cachimbo entre portas: é Vidocq. Mas a fuga através da floresta deixa-o doente. Levado ao hospital é reconhecido mas, tão pronto melhora, já está de novo em fuga, disfarçado de freira.
Dirige-se a Paris e junta-se a antigos camaradas da prisão que pretendiam arrastá-lo a novas aventuras. Volta à prisão e à fuga, até que Vidocq pensa rever o seu problema das suas ligações com a sociedade.
Certo dia, perante o tribunal de Lyon, admite ter dado entrada na polícia e ser informador desta, misturado com os malfeitores. Entre estar entre os ladrões e malfeitores e a polícia, sofre prisões, foge e, por fim, vai conseguir uma extraordinária reabilitação: “o valor dos serviços prestados cada dia à sociedade, depurando-a tanto quanto a sua posição lhe permite” leva-o a agente secreto e à promoção para chefia da brigada da Sûreté, da qual será fundador e por muito tempo o único mentor, com um efectivo de cerca de 30 homens.
Vidocq teve êxito porque se revela um condutor de homens extraordinário, impondo a sua presença, conseguindo as mais espectaculares prisões, levadas a cabo graças à sua arte em se disfarçar primorosamente, às expedições mais loucas, correndo grandes perigos frente a malfeitores que não olham a meios desde que se desenvencilhem de polícias incómodos.
À frente da sua brigada, Vidocq revela, durante 27 anos, toda a sua envergadura.
Por dificuldades que começa a sentir com a Administração Central, pede a demissão em 1827, sendo no dia seguinte substituído por Coco-Lacour — como ele, um antigo bandido.
Vidocq vai dedicar-se ao fabrico e venda de papelaria. Fora, aliás, o inventor de um papel impossível de falsificar. Falida a fábrica, abre uma agência de informações, será uma espécie de investigador privado; tem o vírus da polícia no sangue por isso cria a sua própria polícia. O ódio e a vingança na pessoa de agentes da polícia, levam-no invadir o escritório e apossar-se de 3500 pastas confidenciais. É levado a tribunal e absolvido em 3 de Maio de 1838, no entanto a perseguição continua. Vidocq só se abate em 11 de Maio de 1857, vencido pela doença e a morte. Tinha então 82-anos.

Pelo resumo exposto, bem cabem os qualificativos das fontes mais autorizadas:

“Mostrou ser um detective, no verdadeiro sentido que hoje damos à palavra: raciocinando sobre pequenos indícios, deduzia o que se passara, formulou teorias sobre crimes e trabalhou para prová-los convenientemente; na medida em que era uni homem conhecido de muitos pontos da capital, fez enorme uso de disfarces; em suma, criou, como chefe da jovem Sûreté, a tradição”
Fora de portas o biógrafo inglês Philip John Stead, reconheceu poder afirmar sem exagero que Vidocq “foi o primeiro a impressionar a imaginação europeia como detective

As “Memoires”, iniciada a sua publicação em 1828 como se referiu, só terminaram em 1829, ano da publicação da quase esquecida “Der Kaliber — Aus den Papieren eines Kriminalbeamten” (O Calibre – A partir dos documentos de funcionários criminais), do alemão Adolf Muller, que concretamente é uma narrativa de características dedutivas e a que não falta um inspector de polícia. Revela-nos a investigação efectuada por este, sobre o autor do extravio de um objecto de arte de grande valor. Existe um suspeito, indivíduo algo estranho, que é julgado, porém… aqui revela-se a arte dedutiva do inspector.

De estranhar o pouco interesse, quase desprezo mostrado pelo livro, publicado doze anos antes, de Poe, e que tem muito a ver com Poe e o seu estilo.



TEMA — CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA — O OBJECTO QUE VIAJAVA NO TEMPO
De Frederic Brown
O professor Johnson dirigiu-se com orgulho a seus colegas:
— Isto, senhores, é a primeira máquina de viajar no tempo. Trata-se de um modelo experimental que só funciona com objectos que não excedam os três quilos e durante fracções do tempo passado ou futuro que não ultrapassem 12 minutos.
A máquina parecia um peso de papel, com dois pequenos mostradores no alto.
O professor Johnson mostrou um pequeno cubo metálico:
— Vou começar enviando este objecto para 5 minutos, no futuro.
Acertou um dos mostradores.
— Consultem seus relógios, por favor.
Colocou o cubo em cima da bandeja. O objecto desapareceu — psit! — e tornou a reaparecer 5 minutos mais tarde exactamente.
O professor segurou o objecto na mão, depois acertou o segundo mostrador.
— Vou enviá-lo agora para 5 minutos no passado. Faltam 6 minutos para as 3 horas. Às 3 horas em ponto, colocarei o objecto sobre a plataforma. Por conseguinte, daqui a um minuto ele vai desaparecer da minha mão e reaparecer nesta plataforma, 5 minutos antes.
— Neste caso, observou um dos presentes, como é possível colocá-lo às 3 horas?
— Na realidade, disse o professor, às 3 horas em ponto, quando estender a mão para o colocar ali, ele vai desaparecer da plataforma e tornar a aparecer na minha mão.
Tudo isto aconteceu.
Um outro presente disse:
— Muito interessante. Poderia recomeçar a operação? Bom. O cubo apareceu em cima da bandeja 5 minutos antes de ter sido colocado ali. Mas digamos que o professor mude de ideia e decida não o coloar ali? Não haveria neste caso uma espécie de paradoxo temporal?
— A ideia é engenhosa, meu caro colega, disse o professor Johnson. Vamos experimentá-la. Não houve paradoxo. O cubo permaneceu inalterado. Mas o resto do universo, inclusive o professor e os outros presentes, desapareceram.