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4 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 248

Efemérides 4 de Setembro
Cyril Hare (1900 – 1958)
Alfred Alexander Gordon Clark nasce em Mickleham, Surrey, Inglaterra. Advogado e juiz, é também escritor de livros policiários sob o pseudónimo de Cyril Hare. Cria a série Inspector Mallett — com 3 títulos, a série do advogado Francis Pettigrew, também com 3 títulos publicados; escreve ainda 2 romances onde junta estes dois personagens, 1 livro de contos mistério / detective, 2 romances policiários e uma peça de teatro. Em Portugal é possível encontrar o registo das seguintes edições:
1 – A Morte Do Financeiro (1964), Nº12 Colecção Policial Nova Série, Empresa Nacional de Publicidade. Título Original: Tenant For Death (1937). É o 1º livro da série Inspector Mallett.
2 – Tragédia No Tribunal (1982), Nº3 Colecção Clube do Crime, Publicações Europa América. Título Original: Tragedy At Law (1942). É o 1º livro de Inspector Mallett e Francis Pettigrew.



TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR? COMO? — TRADIÇÕES (2)
Na terra de Esfinge, em coincidência espantosa com as profecias do Apocalipse, na previsão de um fim do mundo resultante de “terramotos e erupções dos quais nenhuma nação escapará”, têm sido apontadas na interpretação da Grande Pirâmide Quéops.
Construída antes do Dilúvio e tendo a ele resistido, está implantada no ponto zero do planeta, divide ao meio as terras e as águas e por ele passam os eixos norte-sul e este-oeste, tudo parecendo indicar que não foi construída por acaso e apenas com o fim de abrigar faraós mortos como as suas irmãs.
Vista do espaço é um quadrado inscrito num círculo; os seus quatro lados alinham com os pontos cardeais; cada um destes está representado por três signos do zodíaco, correspondendo a cada um trinta graus da circunferência. Possui, de resto, tantas revelações nos seus corredores, que é coerente a designação corrente de “livro da pedra que permanece”.
Segundo uma história do antigo Egipto, escrita por um historiador copta medieval, Quéops e uma outra, Quéfren, teriam sido mandadas construir após um sonho profético do rei Surid, em face do qual “o céu e as estrelas cairiam sobre a Terra”.
Os intérpretes de sonhos preveniram que “viria uma grande inundação, acompanhada por um fogo da constelação Leão que incendiaria o mundo”. Surid ordenara a construção das pirâmides para que neles fossem registadas todas as ciências e conhecimentos das estrelas, matemáticas e geometria, como testemunho futuro dos seus conhecimentos.
Os estudiosos da grande pirâmide dizem nela encontrar coincidências com o apocalipse anunciado por S. João; garantem que o período preconizado pelos egípcios para o fim do mundo, se situa entre os anos 2001 e 2090. Para S. João, o ciclo do homem terminará na Era do Aquário, as previsões piramidais, que abrangem um período que começa numa data equivalente a 22 de Setembro de 4000 a.C.,termina em 17 do mesmo mês, do ano 2000 d.C. - o fim do sexto milénio.
Note-se a curiosidade da profecia de Nostradamus, profeta do Século XVI:
“No ano de 1999,em Setembro,
virá do céu um grande rei terror…”

A tradição dos Astecas e dos Hopi são concordantes. Árabes, chineses e judeus, possuidores noutros tempos de calendários diferentes dos nossos são concordantes quanto ao cataclismo final. Igualmente a tradição hindu aponta para o aniquilamento da raça humana no ciclo que decorre até ao ano 2000.

Na prática zodiacal, a ascendência de um novo signo, mais ou menos em cada 2 000 anos provoca sempre catástrofes enormes, tais como o afundamento da Atlântida que ter-se-ia registado na passagem do ciclo do Leão para o Caranguejo.


TEMA — CONTO DE TERROR — CINCO MIL MORTES
De Guillaume Apollinaire
— Tenho de me pentear sempre com muito cuidado Senão, nota-se esta maldita cicatriz lívida e tão visível que tenho no couro cabeludo, que dá a impressão de ser calvo. A cicatriz não é nova. Data da época em que fui fundador de uma cidade. Foi isso aí há uns quinze anos e passou-se na Colúmbia Britânica, no Canadá — Cox-City! Uma cidade de cinco mil almas. Vinha-lhe o nome de Cox… Chislam Cox… um homem meio-cientista, meio-aventureiro. Havia provocado rush naquelas bandas, ainda virgens, das Montanhas Rochosas, onde hoje se situa Cox-City.
Os mineiros tinham sido recrutados um pouco por todo o lado: no Quebeque, em Manitoba, em Nova Iorque. Foi nesta cidade que dei com Chislam Cox. Encontrava-me ali havia uns seis meses. De resto, devo confessar que não ganhava ali nem um tostão e sentia um tédio de morte.
Não vivia só, mas sim com uma alemã bastante bonita, cujos encantos tinham o seu sucesso. Tínhamo-nos conhecido em Hamburgo. E tornara-me seu manager, se assim me posso expressar. Chamava-se Marie-Sybille ou Marizibill, para falarmos como se fala em Colónia, sua cidade natal.
Deverei dizer que ela me amava loucamente? Pela parte que me cabe não era nada ciumento. Mas a vida preguiçosa que levava era para mim mais pesada do que poderia imaginar. Não tenho feito para chulo. Mas era sempre em vão que procurava alguma coisa onde empregar os meus talentos.
Certo dia, no saloon, lá me deixei levar por Chislam Cox, que em voz alta, encostado ao bar, exortava os consumidores a seguirem até à Colúmbia britânica. Sabia de um sítio onde abundava o ouro.
No seu discurso misturavam-se Cristo, Darwin, a Banca de Inglaterra e, diabos me levem se sei porquê, a papisa Joana. Não deixava de ser convincente, o Chislam Cox. Lá me alistei no grupo em companhia de Marizibill, que me não queria deixar, e partimos.
Não levava comigo qualquer ferramenta de mineiro, mas tão somente materiais de bar e desvairados álcoois, whisky, gin, rum, etc., bem como cobertores e balanças de precisão.
A viagem foi um tanto custosa, mas assim que chegámos aonde Chislam Cox nos queria levar, construímos uma cidade de madeira que foi baptizada com o nome de Cox-City, em honra de quem nos comandava. Inaugurei a minha venda de bebidas, que depressa começou a ser muito frequentada. O ouro era efectivamente abundante e eu pessoalmente fazia um autêntico negócio da China. Uma boa parte dos mineiros eram franceses ou canadianos franceses. Havia também alemães e indivíduos de língua inglesa. Mas predominava o elemento francês. Mais tarde recebemos elementos mestiços de Minitoba e um grande número de piemonteses. Chegaram também chineses. De tal modo que, passados alguns meses, Cox City contava com mais de cinco mil habitantes, os quais possuíam uma escassa dezena de mulheres.
Conseguira portanto uma situação invejável nesta cidade cosmopolita. O meu saloon estava cada vez mais florescente. Baptizara-o com o nome de Café de Paris, um título que lisonjeava todos os habitantes de Cox City.
Começaram a fazer-se sentir os grandes frios. Era terrível. Cinquenta graus abaixo de zero é uma temperatura deplorável. Foi com terror que constatámos que Cox-City não continha alimentos suficientes para passarmos o Inverno. Não eram possíveis as comunicações com o resto do mundo. A perspectiva era a morte a aproximar-se. Os víveres não tardaram a ficar esgotados e Chislam Cox mandou afixar uma proclamação emocionante onde nos dava a conhecer todo o horror da nossa situação.
Pedia-nos perdão por nos ter trazido para a morte e, mau grado o seu desespero, achava ainda maneira de falar de Herbert Spencer e do falso Smerdis. A parte final do edital era qualquer coisa de aterrador. Cox convidava a população a reunir-se, no dia seguinte de manhã, na praça que tínhamos tido o cuidado de erigir ao centro da cidade. Toda a gente devia levar um revólver e suicidar-se depois de dado o sinal, assim escapando todos aos pavores do frio e da fome.
Não houve protestos. A solução foi aceite como muito elegante e a própria Marizibill, em vez de se pôr aos soluços, disse-me que se sentia muito feliz por morrer comigo. Fizemos distribuição de todo o álcool que nos restava. No dia seguinte de manhã lá fomos, de braço dado, para a praça mortuária.
Nem que vivesse cem mil anos, jamais esqueceria o espectáculo desta multidão de cinco mil pessoas, todas enroupadas em casacos e cobertores. Toda a gente tinha na mão um revólver e todos os dentes estalavam… juro-vos que estalavam, sim!... Juro!
Chislam Cox erguia-se num plano superior ao de todos nós, em cima de um tonel. De súbito levou o revólver à fronte. Soou o tiro. Era o sinal e, ao mesmo tempo que Chisiam Cox caía do seu tonel, morto, todos os habitantes de Cox-City, incluindo eu próprio, estoiravam com os miolos… Que terrível recordação! Que tema de meditação, esta da unanimidade no suicídio! Mas que frio terrível estava!
Eu não morrera, estava apenas um tanto estonteado, não tardei a levantar-me. Um ferimento, ou talvez antes uma esfoladela que me causava dores horríveis, e cuja cicatriz me deixa assinalado até ao fim dos meus dias, era a única coisa que me recordava o facto de me ter tentado suicidar. Mas seria que eu estava só?
Não tive qualquer resposta. De olhos esbugalhados, tiritando de frio, ali fiquei imenso tempo pasmado a olhar para aqueles mortos, cerca de cinco mil, todos com uma ferida voluntária na fronte.
Senti depois uma terrível fome que me torturava o estômago. Os víveres tinham-se esgotado. Nada encontrei nas casas que espiolhei. Desnorteado e vacilante, atirei-me a um cadáver e devorei-lhe a cara. A carne estava ainda morna. Comi até me fartar, sem sentir quaisquer remorsos. Pus-me depois a passear pela necrópole, pensando nos meios para dela fugir. Armei-me, tapei-me bem, carreguei-me com todo o ouro que pude achar. Seguidamente comecei a pensar na comida. O corpo das mulheres tem mais banha, a carne é mais tenra. Procurei uma e cortei-lhe ambas as pernas. Este trabalho levou-me mais de duas horas. Mas fiquei senhor de dois pedaçoos que, por meio de duas correias, pendurei ao pescoço. Percebi nessa altura que o que cortara tinham sido as pernas de Marizibill. Mas a minha alma de antropófago pouco se emocionou. O que eu tinha era pressa de me ir embora. Pus-me a andar e, por milagre, acabei por me reunir a um acampamento de lenhadores, exactamente no dia em que se me tinham esgotado as provisões.
O ferimento da cabeça não tardou a sarar. Mas a cicatriz que oculto com todo o cuidado está sempre a trazer-me à lembrança Cox-City, a necrópole boreal, e os seus enregelados habitantes a quem o frio conserva no mesmo estado em que ficaram ao cair, armados e feridos, de olhos abertos, com os bolsos cheios do inútil ouro por que morreram.

2 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 246

Efemérides 2 de Setembro
Chris Kuzneski (1969)
Nasce em Indiana, Pensilvânia, EUA. Escritor de sucesso, de thrillers/aventura, tem os seus livros traduzidos em mais de 20 línguas. Publica o seu primeiro romance, The Plantation em 2002, seguindo-se: Sign Of The Cross (2006), Sword Of God (2007), The Lost Throne (2008), The Prophecy (2009), The Secret Crown (2010) e The Death Relic (2011). Em Portugal está editado:
1 – Sinal da Cruz (2008) Editora Millbooks. Título Original: Sign Of The Cross (2006).



TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR? COMO? — TRADIÇÕES 
O mundo bíblico segue-se à tragédia dos Atlantes…

Do ano 600 da vida de Noé, as comportas do céu abriram-se, a chuva caiu na Terra quarenta dias e quarenta noites. Todas as montanhas sob os céus ficaram submersas e assim pereceu toda a carne que se movia na Terra
Era o grande Dilúvio!
Em cada rincão da Terra onde se guardaram recordações, antigas tradições, se encontram narrativas da grande inundação. Em todas elas, ainda que sob nomes locais, se evidencia um Noé, não sendo coincidentes nem os motivos da escolha dos sobreviventes, nem a duração da catástrofe. Tudo indica que houve adaptações impossíveis de classificar.
Na bíblia é o resultado de um julgamento de Deus sobre o comportamento dos homens que criou. São quarenta dias e noites de chuva; sobreviventes Noé e família, um outro casal e sete machos e sete fêmeas de todos os animais limpos.
Na narrativa egípcia representa a irritação do deus do céu, do qual os homens pensavam “coisas malévolas”, por já ser velho, e que a conselho de outros deuses, sobretudo do deus das águas, Nun, decidiu recorrer aos préstimos da deusa Hathor, a vaca do céu.
Para os sumérios e babilónicos, uma terrível tromba de água ergueu-se até ao céu; escaparam da tragédia Xisuthros ou Khasistrata, com a família, amigos e animais, quando a barca encalhou nas montanhas de Gordyene, na Arménia.
Segundo os documento assírios a catástrofe durou apenas seis dias e seis noites… “os cadáveres flutuavam como algas…” "; o herói foi Ubaratutu que com os seus familiares foi para o monte Nizar.
Na tradição grega com água a sair da terra e o mar a sair do seu leito “durante nove dias e nove noites, enquanto na grande arca Deucalião, a mulher Pirra, os filhos e animais terrestres aguardavam que aquela encalhasse no Monte Parnaso.
Da Índia conhecem-se várias versões, nas quais os sobreviventes teriam sido Nanu e outros sete, avisados por um peixe considerado como a metamorfose de Vishnu, ou Satyrawata.
Na lenda galesa salvaram-se Dwyfan e Dwyfach da inundação causada pela erupção do Llynllion, o Lago das Ondas. Mas na Irlanda a catástrofe foi extensa, durante sete anos a meio um barco sobreviveu com a rainha Ceseair e a sua corte, sendo a Terra inabitável durante duzentos anos após Dilúvio.
As águas e o vento duraram doze dias e doze noites para os tibetanos, sobrevivendo alguns casais e animais no alto de uma montanha, sendo daí salvos quando as águas atingiram o pico, numa casca de noz gigante atirada pelo Ser Supremo.
Bergalver e a mulher são os sobreviventes na tragédia norueguesa, quando o fogo chegou do próprio céu, as serpentes agitaram os oceanos, a Terra escureceu.
Na zona da América do Sull encontram-se díspares versões: para os astecas e toltecas, a inundação durou cinquenta e dois anos, salvaram-se Coxcox ou Tezp ou Teocipacti, com mulher e filhos numa grande jangada; os chichimacos falam de um tronco de árvore escavado que salvou Xochiquetzal; oS Malas salvaram-se em cavernas profundas, os Incas escalando os Andes.
Os índios hurão da América do norte recordam que a tragédia durou vários meses, enquanto o grande pai das tribos aquietava os indisciplinados animais que ameaçavam tombar a grande jangada.
As tribos Sioux, Hopj e Chickasaw salvaram as espécies em grandes canoas.
Para as tribos que habitavam o actual Brasil, guarani e tuscarora, as palmeiras foram a grande salvação.
A mitologia chinesa, recorda que “as colunas do céu quebraram-se”, “a terra desfez-se” e o “sistema do Universo ficou desconjuntado”.
Não é fácil definir, face a estes e outros relatos conhecidos, se as descrições se reportam ao mesmo Dilúvio referenciado na Bíblia
 Platão nos seus escritos avisou:
“lembrai-vos apenas de um Dilúvio,
Quando houve muitos dilúvios…”
Os estudiosos apontam que, àparte pequenos e localizados dilúvios teria havido, pelo menos, cinco de elevada intensidade: dois originados pela fusão dos gelos da Antárctida e três outros pelo Pólo contrário a este.
Seja como for, o Dilúvio Bíblico, o chamado Dilúvio Universal, é o mais invocado na memória humana e, presentemente, poucas dúvidas restam quanto à sua realidade.
Em 1872 decifraram-se as tabuinhas cuneiformes provenientes das escavações de Ninive, pelas quais se conclui que os Assírios tinham conhecimento directo do Dilúvio. Os descobrimentos de Siper e Nipur evidenciam, por sua vez, um relato de um escriba da Babilónia, que remonta ao Século XVII a.C. que se lhe refere.
Em 1914, um assiriólogo decifrou novos escritos, pelos quais prova que o episódio do Dilúvio já era do conhecimento dos sumérios há 4000 anos antes de a Bíblia haver sido escrita, e remete ao início do III Milénio a. C. a sua efectivação. Nesta descrião, que abrange trezentas linhas, Noé é representado por Ziusudra, a quem um deus preveniu:
“… um dilúvio vai invadir os centros de culto,
Para destruir a semente do género humano…”
As provas acumuladas sobre o Dilúvio, este fim do mundo bíblico, são bastante convincentes. Sobre ele um historiador americano reuniu cerca de 80000 (oitenta mil) obras literárias em setenta de dias línguas diferentes!
Para muitos arqueólogos, as escavações na Mesopotâmia permitem revelar restos da civilização suméria abaixo do nível de uma camada de lodo de três a cinco metros de espessura, denunciadoras de inundações tremendas, o que nada têm a ver com os vestígios das mais recentes dinastias.
É pois natural, que o mito tão profundamente enraizado na memória dos povos se apoie num facto real.

27 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 240

Efemérides 27 de Agosto
Ira Levin (1929 – 2007)
Nasce em The Bronx, New York City, EUA. Dramaturgo e romancista recebe o Edgar Award pelo seu primeiro romance A Kiss Before Dying (1953), que está adaptado ao cinema em duas versões — 1956 e 1991. Ira Levin é também o autor do conhecido bestseller internacional, Rosemary’s Baby (1967), adaptado ao cinema por Roman Polansky — exibido em Portugal com o título A Semente do Diabo. Escreve também Deathtrap (1978), uma peça de teatro em dois actos, que é o suspense mais antigo em exibição na Broadway, também adaptada ao cinema e vencedora do Edgar Award de 1980 para Best Play. Em Portugal estão editados:
1 – A Semente Do Diabo (1969), Nº12 Colecção Cinema, Portugália Editora. Título Original: Rosemary’s Baby (1967). Reeditado pelas Publicações Europa-América com o Nº611 Colecção Crime Perfeito.
2 – Os Meninos Do Brasil (1980), Círculo de Leitores. Título Original: The Boys From Brazil (1976).
3 – Silver: Violação Da Privacidade (1993), Nº34 Colecção Crime Perfeito, Publicações Europa-América. Título Original: Silver (1991).



TEMA — ALGO SOBRENATURAL — O DIABO NA LITERATURA
É utópico ousar citar o primeiro texto puramente da ficção literária com particular protagonismo do DIABO. Evidentes razões sentimentais arrisca-se lembrar as comédias teatrais de Gil Vicente representadas de 1502 a 1536,nas quais é um personagem nada terrificante nem estranho pelo contrário, é um agente risonho o bom aceite, crítico incisivo por vezes insolente.
Encontramo-lo, todavia, mais autonomizado no poema épico de Du Bartas denominado “La Semaine ou Création du Monde” (1578), nas tragédias “Adamus Exul” (1601) de H. Grotius e “Lucifer” (1654) de Joost van den Vondel. Nesta última o autor faz uso da tradição talmúdica, na qual o arcanjo seus partidários se opõem à criação do homem. Lúcifer não é ali apresentado como um espírito ambicioso ou maligno, mas como um anjo que luta consigo mesmo face ao horror de ter empreendido um caminho errado e do qual não consegue desviar-se.
Num poema do mesmo autor descreve-se a metamorfose física do Diabo em seguida à queda moral:

Tal como a claridade do dia se transforma em noite escura
No momento em que o Sol desaparece;
Assim, quando Lúcifer cai no abismo,
A sua beleza transforma-se numa fealdade repelente.
O seu rosto radioso transforma-se num focinho feroz;
Os seus dentes, presas aceradas, capazes de roer o metal;
Os pés e as mãos tornam-se garras;
As cores variegadas das suas vestes dão lugar a uma pele negra;
Das suas costas, eriçadas de pelos, saem duas asas de dragão…
O Seu corpo reúne num único monstro
As formas horrendas de sete animais:
Um leão cheio de orgulho, um porco glutão e voraz.
Um asno preguiçoso, um rinoceronte encolerizado,
Um macaco lascivo e sem pudor, um dragão dominado pela inveja,
Um lobo que e a imagem da avareza sórdida

Em “Paraíso Perdido” (1667), a grande obra de Milton, mostra-se igualmente um Diabo mais carecido de compaixão do que de crítica, um anjo-herói, que se sabe antecipadamente derrotado, se auto condena e sente piedade pelos seus companheiros de luta, com ele condenados às penas do Inferno.
A literatura da Idade Média é bastante crítica para o personagem — reduzem-no particularmente ao papel de tentador, sedutor, mau conselheiro — como o exemplificam as novelas de Lesage “Le Diable Boiteux” (1707) e “Le Diable Amoureux” (1772) de Cazotte.
Com “Messias” (1748/1773) o autor alemão Klopstock, faz regressar a figura à posição de anjo caído, castigado por Cristo, na tradição representada por Milton.
O espírito bom de Lucifer como portador de uma nova luz para os homens, que devem saber a verdade da vida, é celebrada em “Jamben” (1784) pelo conde Stolberg. No poema “Address to The Devil” (1785), de R. Burns, o autor inglês expressa mesmo a esperança, de que Satanás se salve da ira de Deus.
No mesmo sentido da sua reabilitação se propõe Goethe em “Fausto I” (1805) e “Fausto II” (1832), apresentando-o como um espírito quo sempre quer o mal e pratica o bem.
Em “Le Genie du Christianisme” (1802), F.R. Chateaubriand afirma que o Satanás cristão é uma fugura mais poética do que os deuses pagãos, colocando-o em “Les Martyres”, a novela que escreveu em 1810, como o protagonista do paganismo em luta com o cristianismo e inspirador da Revolução Francesa; com igual intenção temática escreve “Les Natchez” entre os anos de 1797 e 1800, mas só publicada em 1826.
Como um viajante burlão e blasfemo na prática da sátira social apresenta-se na poesia “The Devils” (1813), como senhor do mal, revela-se em “Manfred” (1816), am1go do homem em rebelião contra Deus, aparece em “Cain” (1821), defensor da Justiça em “The Vision of Judgement” (1821), Prometeu do futuro em “Heaven and Earth”, todos de Lord Byron, este último comparável do ao Prometeu de Shelley em “Prometheus Unbound” (1820).
A. de Vigny prevê a salvação daquela alma perdida em “Satan Sauvé”, poema de 1824, argumento com continuidade em “Une Larme du Diable” (1839), de Gautier, que põe o Demo a chorar comovido com a bondade e inocência de umas jovens. Deus, porém, não permite a redenção.
(continua)


TEMA — POEMETO — OS LÍRIOS NÃO MURCHAM…
De Cutelle Mendés
Morreu Suzette. Tinha apenas quinze anos. Pobre querida! Tão nova sob a terra fria…
Colocaram-na num caixãozito do tamanho dum berço. E encomendaram a um canteiro uma pedra tumular com esta inscrição:
E aqui que repousa Suzette, morta aos quinze anos.
Eu vim de longe, de muito longe, para pedir um beijo que ela me prometera quando era pequena. Mas alguém, disse-me no caminho.
— Como! Não sabe? Morreu Suzette. Apenas com quinze anos e já morta!
— Não acredito, repliquei. Há no povoado tanta gente velha que ainda vive… e depois não é na Primavera que murcham os lírios.
Mas só me responderam:
Colocaram-na num caixãozito do tamanho dum berço!
No cemitério procurei, entre os túmulos, o da pobre criança, e como não o encontrasse, perguntei ao coveiro:
— Sabe-me dizer onde enterrararn a Suzette?
— Não sei positivamente. O que lhe posso dizer é que sobre o túmulo dela há uma pequena inscrição…
Mas a alguns passos dali, um botão de rosa branca, tão branca como a neve, entreabria-se trémulo para o céu. Ah! Como a gente se sentia bem ali. Que perfume em volta de nós!
— Provavelmente, disse comigo mesmo, é aqui que repousa Suzette, morta aos quinze anos, em pleno Abril…
Aguarela Steve Greaves


26 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 239

Efemérides 26 de Agosto
John Buchan (1875 – 1940)
Nasce em Perth, Escócia. Politico e diplomata com uma extensa obra literária, em especial no campo do ensaio, história, literatura, militar etc., mas também escreve 14 romances policiários, distribuídos por 3 séries protagonizadas por Richard Hannay, Sir Edward Leithen e Dickson Mc’Cunn. Em Portugal as Publicações Europa-América editaram na Colecção de Bolso - Clube do Crime os livros Os 39 Degraus e Os Três Reféns, (clicar).


Gerald Kersh (1911 – 1968)
Nasce em Teddington-on-Thames, Londres. Começa a escrever com apenas 8 anos de idade. Autor de terror, ficção científica, fantasia e detective, especialista em contos, publica ainda19 romances. Na sua obra literária destacam-se a colectânea de contos Prelude To A Certain Midnight (1947), os romances Fowlers End (1957), The Implacable Hunter (1961) e The Angel And The Cuckoo (1966). O conto The Secret Of The Bottle (1958) ganha o Edgar Award para Best Short Story. O autor escreve também sob o pseudónimo P. J. Gahagan.



TEMA — LITERATURA POLICIÁRIA — DOIS INESQUECÍVEIS
Por M. Constantino
Dois nomes, dois escritores, qualquer deles de elevada craveira literária: Buchan e Kersh.
Em Buchan não se pode deixar de lembrar o esplendor da sua obra na temática da espionagem. “The Thirty-Nine Steps” levado ao grande ecrã em 1935 por Alfred Hitchcock, protagonizado por Richard Hannay, que será personagem de ficção de mais cinco aventuras, é uma figura inesquecível.
Richard, um jovem engenheiro escocês, tal como o seu criador, ao regressar à Escócia vê-se envolvido inopinadamente com problemas de espionagem, primeiro com dificuldades, depois extraordinariamente. Há quem afirme que a sua figura retrata o general do Serviço Secreto britânico, Edmund Ironside, alcunhado de Tiny — uma contraposição irónica à sua elevada estatura.
Kersh, autor menos conhecido entre nós, é mais interessante no domínio do conto — cerca de 3000! — que se desdobra em dois grupos. O primeiro aborda o “crime-story”, o outro explora as aventuras do seu herói preferido Karmesin. Mas não é de Karmesin “ o mais inteligente, colossal mentiroso” e “maior e mais honesto vigarista e ladrão do planeta” que vamos falar, o conto em memória de Kersh, terá sido o seu último escrito completo.


CONTO — VISÃO DE CARRASCO
De Gerard Kersh
Poindexter, o velho carrasco que me ensinou a profissão, mandou-me chamar antes de morrer.
Sentei-me na cama.
— Deseja alguma coisa? Que tal um pouquinho de conhaque?
Tirei uma garrafa de um dos bolsos. Mas o velho Poindexter balançou a cabeça, dizendo:
— Não, obrigado Balsam. Não quero nada. Beberei um ovo batido com leite quente e um pouco de açúcar. Se quiser, tome um pouco de conhaque… lembre-se, no entanto de minha advertência. Sempre lhe falei sobre os perigos do álcool, sobretudo antes de um trabalho, qualquer trabalho, principalmente um trabalho importante como o que você tem a fazer, Balsam.
— Eu sei, Sr. Poindexter. O senhor foi sempre um pai para mim — respondi.
— Realmente, como qualquer um podia notar, sempre me interessei por si como por um filho. Ensinei-lhe sua profissão, não foi? Podem, dizer o que quiserem, mas irei para a história como o Primeiro Carrasco Científico. Sabe muito bem. Os outros… bem, simplesmente matavam os homens. Eu, eu executava-os. Foi mais ou menos durante a época do assassinato de Barton Place, quando aperfeiçoei o que hoje eles chamam Forca de Poindexter. Lembra-se? Foi em 1897…
— Nesta ocasião eu ainda era aprendiz — disse-lhe — e a Forca Poindexter foi anterior a mim, Sr. Poindexter, mas mesmo assim, recordo-me. Foi o senhor quem me treinou, não poderia esquecer.
Ele falava comigo com o ar um pouco severo, fazendo lembrar um professor quando fala a um aluno nervoso no momento do exame, com medo de ser desapontado, encorajando-o e aconselhando-o.
— Você precisa atender este caso singular. Eu não chegarei a ver a operação terminada. É o que os jornais chamam Ironia do Destino. Você é um rapaz de sorte, caro Balsam, um rapaz de sorte! — disse Poinclexter.
— Para falar verdade, odeio este caso. Estive quase a ponto de dizer que estava doente e deixar que alguém ocupasse o meu lugar — disse.
Poindexter levantou-se e, com uma voz enérgica disse:
— Não! Isto seria negligência, e nunca se deve agir assim! Nunca finja que está doente para fugir ao serviço, Balsam, senão eu…
Depois, melancolicamente perguntou-me:
— Quem tomaria o seu lugar?
— Sr. Poindexter, prometo não desapontá-lo. Mas bem gostaria que o senhor estivesse atrás de mim!
— Ouça, meu rapaz. Senti-me como você quando executei a Sra. Nardwick por ter assassinado o marido, quinze anos antes. Naquela época eu ainda tinha nervos, juro! Como sabe, há uma certa diferença entre executar uma mulher e um homem. Espero que nunca tenha que executar uma mulher! — disse Poindexter.
Não vamos entrar em detalhes, filho, mas a Sra. Nardwick ficou na minha mente durante bastante tempo
— Da forma como eu trabalho, Sr. Poindexter, não pode doer — disse-lhe.
O velho carrasco abanou a cabeça e disse:
— Eu não posso estar a seu lado para, Ihe ensinar o caminho certo, portanto, preciso de me assegurar de que tomará as suas próprias iniciativas, sem me desapontar, caro Balsam. Vamos, meu filho, agora já tem os pesos e as medidas estabelecidas?
— Altura: um metro e oitenta. Peso: 87 quilos.
— Pescoço?
— Dezassete polegadas, Sr. Poindexter.
— Não muito forte. Que forca usaria? perguntou o velho.
— Não tenho muita certeza. Eu diria… uma de seis pés.
— Espere! O cliente é um pouco pesado e há a musculatura do pescoço. Use uma forca de cinco pés — gritou Poindexter.
— O senhor é quem manda.
Disse que precisava de me ir embora e acrescentei:
— O senhor não quer mesmo um pouco de conhaque?
— Não obrigada, meu rapaz. Estou muito velho para adquirir novos hábitos. Encontro-o às oito horas na Yard. Tenha sempre a mão firme e, lembre-se, sincronize, sincronize. Sempre… Aliás, somente por uma questão de segurança, é melhor usar uma forca de seis pés, em vez de cinco — disse o Sr. Poindexter. — Tenha cuidado para não esfolar a minha pele, Balsam. Não me vá decepcionar, agora.


TEMA — SERÁ QUE O MUNDO VAI ACABAR — AS LENDAS E…
Continuação CALEIDOSCÓPIO 238
A tradição da existência da Atlântida e o seu desaparecimento deste continente compreende-se num ponto intermédio entre a lenda e a realidade, pois que para além da citação de Platão, nada mais que pura especulação se pode adiantar quer quanto a sua existência quer quanto a sua localização algures.
O grande filósofo grego, que viveu em Atenas no Século IV a.C. falou de Atlântida no texto de “Timeu” e no “Cristias”:

A Atlântida era uma ilha maior do que a Líbia e a Ásia juntas e os viajantes da altura podiam transportar-se desta para outras ilhas e destas chegar a um continente na margem oposta do Oceano que merecia realmente o seu nome. Nesta ilha Atlântida, os seus soberanos tinham construído um império grande e maravilhoso, compreendendo toda a ilha, outras ilhas e a parte do próprio continente… numa só noite as chuvas extraordinárias… espantosos terramotos destruíram a distante terra dos atlantes que ficou coberta pelas ondas do mar…

O mistério deste fabuloso Império tem desafiado a imaginação humana. Contam-se por centenas os temas literários que abordam o assunto nos mais diversos aspectos, desde a ciência a filosofia, a arte, a exploração, à física.
Em “The Romance of Evolution”, de Frederick H. Martens - que s2. Pomos nao traduzido em portugUs recolhem-se as lendas, referências antigas, indicações geológicas, para revelar um fantasioso mas convincente e terrível “fim do mundo”, nas últimas horas da Atlântida:

… ouro dos céus empalidece e transforma-se num cinzento espectral. Minuto a minuto a palidez acentua-se; o negrume cresce, transforma-se em púrpura e, no mar, cresce um vento forte como um gemido estranho e alto.
Um silêncio súbito abate-se sobre milhares de pessoas; as canções interrompem-se, as gargalhadas, os gritos, as conversas cessam e morrem. O vento geme, cresce, cresce, cresce num grito histérico, agudo, arrepiante…
… sem avisar, os vulcões ardentes explodem
Colunas de lava ardente, chamas ofuscantes elevam-se quilómetros no céu…
…os homens, as mulheres, as crianças correm desesperadamente… chuva negra de fuligem… de lava incandescente e zumbidora cai doas céus, junta-se às torrentes negro e acinzentadas da lava fundida que escorrega das montanhas…
… um choque tremendo rasga a cidade ao meio!
… durante um momento, um abismo enorme, terrível, abre-se perante milhares de olhos que nunca mais verão o Sol!
Nas entranhas da terra aberta arde uma grande e maravilhosa rosa de fogo; dela sai um vento forte e quente onde milhares de pessoas que o respiram soçobram como moscas de asas queimadas. Mas a rosa incandescente no coração da terra é vista apenas um momento… no seguinte, outro choque absorve palácios e templos, as águas do Atlântido irrompem do abismo e inundam tudo… levantou a ilha, a grande ilha, movendo-a em estranhos círculos, e lentamente, como pedra lisa, perde-se sob as ondas… centenas de metros sob as águas.
… minutos antes,
os homens riam, cantavam,
as aves gorjeavam…
… minutos depois, não há rasto de um só ser vivente, nem uma alma sobreviveu…
e o ar e o céu ficaram tranquilos como a morte!

É o Apocalipse
Exterminarei da superfície da Terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves do céu, porque me arrependo de os ter criado.