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14 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 166

EFEMÉRIDES – Dia 14 de Junho


Manuel Vázquez Montalbán


Manuel Vázquez Montalbán (1939 – 2003)
Nasce no Barrio Chino, Barcelona. Estuda jornalismo, filosofia e literatura. Activista contra a política franquista é preso no início da década de 60, durante ano e meio. Reconhecido como um dos escritores mais importantes da cultura espanhola, definia-se a si próprio como jornalista, escritor, poeta, ensaísta, antologista, prefaciador, humorista, crítico, gastrónomo, adepto do Barça e prolífico em geral. É autor de uma obra vastíssima. Na literatura policiária é conhecido internacionalmente por ter criado o famoso detective Pepe Carvalho, que com Los Mares del Sur (1979),lhe dá o Prémio Planeta e o Prix International de Littérature Pollicière. Pepe Carvalho é o nome de um prémio literário, criado em 2006 pela cidade de Barcelona e atribuído anualmente a um escritor, de qualquer nacionalidade, que se distinga no campo da narrativa policiária. Montalbán, que escreve um livro com o título Os Pássaros de Banguecoque morre de ataque cardíaco a 18 de outubro de 2003 no aeroporto de Banguecoque, na Tailândia, quando regressava a Espanha, depois de uma visita de trabalho à Austrália. Em Portugal, na área da narrativa policiária estão editados:
1 – Os Pássaros de Banguecoque (1988), Nº80 Colecção Caminho de Bolso – Policial, Editorial Caminho. Título Original: Los Pajaros De Bangkok (1983). Reeditado pelas Edições Asa,em 2008, na Colecção Manuel Vázquez Montalbán. É o 6º Livro da série Pepe Carvalho.
2 – Os Mares Do Sul (1990), Nº110 Colecção Caminho de Bolso – Policial, Editorial Caminho. Título Original: Los Mares Del Sur (1983). Reeditado por Bárbara Palla e Carmo, Nº10 Biblioteca Visão Mestres Policiais. E pelas Edições Asa, em 2008, nº 3 Colecção Manuel Vázquez Montalbán. É o 4º Livro da série Pepe Carvalho.
3 – As Termas (1991), Nº140 Colecção Caminho de Bolso – Policial, Editorial Caminho. Título Original: El Balneario (1986). É o 8º Livro da série Pepe Carvalho.
4 – Galíndez (1991), Nº67 Colecção Uma Terra Sem Amos, Editorial Caminho. Título Original: Galíndez (1990). Romance que tem por base um caso real do rapto, tortura e assassínio de Jesús Galíndez, representante no exílio do país basco, sequestrado em Nova Iorque em 1956. Recebe o Premio Nacional de Narrativa e o Premio Literario Europeo.
5 – O Prémio (1997), Nº84 Colecção Uma Terra Sem Amos, Editorial Caminho. Título Original: El Premio (1996). É o 15º Livro da série Pepe Carvalho.
6 – O Estrangulador (1997), Nº84 Colecção Literatura Estrangeira, Editoria Difel. Título Original: El Estrangulador (1994). Um doente internado num manicómio lembra o seu passado e os assassínios do famoso estrangulador de Boston.
7 – Ou César Ou Nada (1999), Colecção Literatura Estrangeira, Editoria Difel. Título Original: O Cesar O Nada (1994). Romance inspirado nos Bórgias.
8 – Lisboa: Pepe Carvalho Na Cidade Dos Espiões E Heróis (2000), Edição Festival dos Oceanos. Edição trilingue: português, espanhol e inglês.
9 – Milénio I - Rumo a Cabul (2006), nº 18 Colecção Manuel Vázquez Montalbán, Edições Asa. Título Original: Milenio Carvalho I. Rumbo A Kabul, (2004). É o 19º Livro da série Pepe Carvalho.
10 – Milénio II – Nos Antípodas (2007), nº 18 Colecção Manuel Vázquez Montalbán, Edições Asa. Título Original: Milenio Carvalho II. En Las Antípodas, (2004). É o 20º Livro da série Pepe Carvalho.
11 – Assassinato no Comité Central (2000), nº 18 Colecção Manuel Vázquez Montalbán, Edições Asa. Título Original: Asesinato en el Comité Central, (1981). É o 5º Livro da série Pepe Carvalho.

A obra do escritor em http://www.vespito.net/mvm/




TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — O ENIGMA DE CRIPTOGRAFIA
A cifra é um processo pelo qual se transforma um texto clássico num outro que, em princípio, só pode ser lido por quem possuir a respectiva chave: criptografia (do grego kryptós/escondido, secreto + gráphein/escrever).
Dos Lacedomónios a Júlio César, de São Bonifácio a Richelieu, a Napoleão, destes aos intrincados e modernos sistemas aplicados na espionagem, na diplomacia, mesmo no comércio, literatura, jornalismo, etc., até na vida comum como meio de receber e transmitir recados ou ordens sem fazer conhecer o conteúdo a rivais ou inimigos, a criptografia foi e é usada.
Tem acolhimento na Problemística. O que, de resto, seguindo esta de muito perto a literatura e a vida, seria de esperar. Citemos particularmente pelo seu interesse e para estudo, que o merece, Edgar Poe no Escaravelho de Ouro (1843), Júlio Verne em Viagem ao Centro da Terra (1864), A Jangada (1880) e Matias Sandorf (1885), Honoré de Balzac na História dos Treze (1833), Paul Féval em Os Companheiros do Silêncio (1857), Conan Doyle em O Mistério dos Dançarinos (1903), Maurice Leblanc em O Mistério da Agulha Oca (1909, Erle Stanley Gardner em o Mistério da Cruz Egípcia (1932), etc, etc.
Assinale-se, desde já, que a pura e simples apresentação de uma cifra mais ou menos complicada não tem qualquer valor problemístico. A cifra pode ter directo interesse, ou não, na resolução do problema, deve ser acompanhada de uma história conveniente, moldada ao tema que se quer produzir.
É apaixonante a história e ciência prática da criptografia através dos tempos; tão apaixonante que, para darmos uma ideia aproximada do seu interesse, recorda-se que só até 1900 se publicaram sobre a matéria, cerca de uma centena de tratados, qual deles o mais completo.
É manifesto que não vamos traçar um quadro completo do movimento criptográfico antigo e moderno — talvez um dia nos abalancemos a tanto — não deixamos, entretanto, de focar ao lado de métodos sem designação de origem, alguns outros de raiz histórica, tanto mais que em problemística comummente os produtores se lhe referem como ponto de partida (indispensável) para a resolução do trabalho.
A este último propósito convém prevenir que o problema desta classe, obrigatoriamente, contém uma palavra ou situação, que será o tal ponto de partida, ou indicação, do sistema do sistema de decifração, sob pena de, em contrário, o trabalho se tornar extremamente difícil, ou até, indecifrável, em oposição ao objectivo da Problemística, que deve ser um exercício intelectual, e não um quebra-cabeças. Medite-se, de resto, que a criptografia não é matéria fácil para todos os indivíduos, carecendo, além de cultura geral, de condições de método, paciência, observação e engodo pelos resultados.
Em termos práticos, três são os sistemas que abrangem todos os métodos conhecidos: transposição, substituição e misto.
No primeiro compreendem-se todos os métodos que consistem, fundamentalmente, em alterar a ordem natural das letras, sílabas ou palavras. Assim, dentro do anunciado sistema, podemos usar métodos tão simples como o da inversão, no qual o texto surge redigido do fim para o princípio.
Exemplo:
LAICILOPAMGINE = Enigma Policial



ENIGMA PRÁTICO — GATO ESCONDIDO
Todos temos tido ocasião de notar, na maioria das casas comerciais, a existência de etiquetas nas diversas mercadorias. Etiqueta que, em alguns estabelecimentos, além do preço da venda — aliás, obrigatório — contém o preço do custo marcado em código composto de letras (cada algarismo do preço é substituído por determinada letra do alfabeto).
Naturalmente que cada estabelecimento adopta um código particular de que guarda segredo, despertando, na generalidade, a curiosidade do ocasional comprador.
Na última visita ao Licinius deparamos com o velho proprietário, Sr. Moita, a etiquetar produtos e objectos expostos e, porque verificamos que naquele que nos interessava particularmente indicara (preço de venda) duzentos e catorze escudos, traçando em código as letras “CYRYY”, procurámos descobrir nele o preço do custo de tal mercadoria.
Reparámos que o homem escrevia com dificuldade, porquanto possuía apenas o dedo máximo, indicador e polegar da mão direita. Igualmente observamos que sempre que mencionava os preços vários que ia apontando, consultava um alfabeto e a factura que trazia num dos dois únicos dedos da mão esquerda, olhando alternadamente a mão direita e a esquerda.
Quando escreveu “Tommy/1.731$00” percebemos o jogo. Gato escondido…
E você, Amigo? Repare que o problema refere escudos, todavia, essa circunstância é irrelevante dado que não interfere com a solução.



26 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 147

EFEMÉRIDES – Dia 26 de Maio
Caitlín R. Kiernan (1964)
Caitlín Rebekah Kiernan nasce em Skerries, Dublin, Irlanda. Vive nos EUA desde criança. Paleontologista e escritora de ficção científica e de Dark fantasia. Em 1992 começa a escrever The Five Of Cups, que só seria editado em 2003. Entretanto, em 1998, publica o primeiro romance Silk que vence dois prémios. Seguem-se Threshold (2001), também premiado, Low Red Moon (2003), Murder Of Angels (2004), Daughter Of Hounds (2007), The Red Tree (2009) The The Drowning Girl: A Memoir (2012). A escritora que tem sido distinguida com uma longa lista de prémios e nomeações, é também autora de uma centena de short stories reunidas e 8 livros de colectâneas e de argumentos para Banda Desenhada.



TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — AINDA O ENIGMA DE IDENTIFICAÇÃO
A identificação é um elemento importante na área policial e enigmística.
Tomemos um caso real, a realidade de todos os dias:

O ESTRANHO COZINHEIRO
Em 1903 Herman Golchmer andou 150 quilómetros, para se matricular numa famosa escola de medicina, em Viena. Filho de um empregado público de categoria inferior, era mais pobre do que a média dos estudantes do seu tempo. Inteligente e simpático, resolveu o problema financeiro casando-se com Elisa Kruger, viúva de um rico negociante. Dois anos após se ter formado em cirurgia. Golchmer inventou uma modalidade de sutura, a que deu, modestamente, o próprio nome, e que lhe mereceu ser convidado para ensinar a nova técnica num hospital de Boston, onde chegou em 1911 acompanhado da esposa, que envelhecia rapidamente. Os Golchmer divertiam-se muito, e as maneiras continentais e aristocráticas do médico arrancavam suspiros de muitas jovens bonitas que, secretamente, invejavam a loura Elisa. Cansado da mulher, Golchmer decidiu livrar-se dela e, uma noite, degolou-a com a navalha, Depois disso sumiu completamente, sem deixar o menor traço de destino.
Após três anos, as investigações esfriaram. Nunca teria sido descoberto, se um jovem, de nome Patrick Hellman, filho de um ex-detective particular, não se tivesse diplomado em cirurgia, aprendendo, entre outras coisas, a sutura de Golchmer. Certa vez, o jovem cirurgião, que tinha clínica em Nova Iorque, foi jantar, acompanhado do pai, na casa de um dos seus mais ricos clientes. Quando chegou o prato principal, galinha-da-guiné assada, o anfitrião virou-se para o velho, e disse:
— Vou pedir ao seu filho para cortá-la. Deve fazê-lo muito bem, dado que é cirurgião. Rindo-se, o jovem Dr. Hellman ergueu-se, tomou a faca numa das mãos e firmou a escorregadia ave com o garfo de longos dentes. Nisto, reparou nos intrincados e precisos pontos, que seguravam o recheio. O hospedeiro seguiu-lhe o olhar.
— O meu novo cozinheiro tem qualquer coisa de alfaiate — comentou — Talvez gostasse de conhecer.
— Certamente que gostaria de vê-lo! — exclamou o jovem médico. Estas são suturas de Golchmer. É trabalho melhor do que o de qualquer cirurgião que tenha conhecido. — O assassino Dr. Golchmer foi apanhado na cozinha. O ex-detective Hellman reconheceu imediatamente, apesar do cabelo vermelho que deixara desenvolver.
A sua humilhação foi tão grande que um mês mais tarde, enquanto aguardava julgamento, enforcou-se na porta da cela.


TEMA — DESAFIOO PUNHAL MALDITO QUE VEIO DO PASSADO
De M. Constantino 
E porque o exemplo é o melhor mestre, aqui fica um enigma em que é necessário muita pesquisa e alguns conhecimentos históricos.

As mãos nuas do cavaleiro afastam do rosto os ramos orvalhados. Segue a vibração do martelo sobre a bigorna, na floresta nevoenta. O som torna-se mais audível pela proximidade. O cheiro pestífero das águas da lagoa denuncia o fim da jornada. É hora do afortunado – a condenação à morte do irmão e o suicídio do pai, engrossam-lhe a riqueza – quão inescrupuloso personagem, deixar a montada e dirigir-se a pé ao encontro do exímio armeiro. Acerca-se a passos lentos… Tem dez Legiões, magica Spartacus, cogita no título de Procônsul.
O armeiro curva-se reverente… “Dives pax vosbicum”… O gélido cavaleiro teve um ligeiro arrepio, disfarçado. O armeiro estende-lhe o fruto do trabalho: o punhal longo, bronze e fio de ouro temperados nas águas fétidas da “Lagoa da Morte”, logo inquebrável, punho incrustado de pedras preciosas.
Pega na arma, agradado, toma-lhe o peso… Subitamente, de um só golpe faz rolar a cabeça de quem acaba de o servir… o corpo tomba ao lado. Limpa o punhal, extrai com os dedos, sem tremura, um moeda de ouro, que atira para junto do corpo… “Finis coronat opus”… Regressa à montada, indiferente.
Pouco após, durante a festa de despedida de duas das suas Legiões, que integram o contingente para a Gália, um dos comandantes apropria-se, esquiva e ilegitimamente, da arma. O roubado, consultada a sua estrela, não persegue o ladrão. Certo é que, internado no território gálico sem estorvo, tal comandante, jovem e ambicioso, adianta-se ao grosso da coluna com uma centúria de “infantes” e “velitas” e dez cavaleiros. Caem numa emboscada. Os galeses soltam-se das árvores sobre o inimigo. O punhal de ouro corta e trespassa corpos… Na manhã seguinte, um dos muitos mendigos que acompanhou os exércitos encontra-o numa mão dispersa, cujos dedos foram totalmente decepados… O tempo conta-se por dias, anos, séculos. Do punhal nada se sabia…
Em pleno Renascimento, entre os escombros de um sombrio solar medieval (sem respeito pelos fantasmas do marido e sogro, que perturbavam o sono, tétrico de visões, da formosa diva favorita do Rei, este, em cumprimento da promessa que lhe fizera, ali mandou erguer um monumental castelo), ocasionalmente, um operário descobre o valioso punhal. Levou-o. Foi assassinado antes de alcançar recato. A arma desapareceu de novo… dias, anos, séculos decorreram.
Sensivelmente três séculos depois, um homem alto, forte, de cabelos louros, no período áureo da sua existência, permite-se ostentar à cintura o punhal de ouro e bronze, cabo coberto de pedrarias… Onde o encontrou? Fora o eterno perseguido, parte da vida nas prisões e delas se evadindo graças à arte de disfarce e expedientes loucos. Apreciava o nome de Jules, mas usava Blondel, Lebel, soldado Kaisenky. No Regimento de Bourbon serviu como Jacquelin. Vida espantosa! Mesmo na notoriedade, bateu-se contra polícias ou contra ladrões, por vezes simultaneamente com uns e outros. Já septuagenário, é julgado por fraude, sequestro e escroqueria: sente-se em casa, tal é o seu à-vontade! Mas onde se encontra o punhal, cuja posse parece ser por si só, uma ameaça?
Na louca cavalgada dos anos, por estranho que pareça, entra Portugal. É um punhal maldito com uma história não menos sinistra.
Depois que me foi revelada a sua existência, vejo o refulgir do seu gume de ouro. O brilho das pedras, a adejar-me sobre a cabeça. Na escuridão do quarto, anormalmente silencioso, ouço um som horrível – o do meu coração saltitante! Grito e acordo! Que sonho terrífico! Terrífico, mas real.
Obcecado, recolho elementos, estudo-os, posso garantir: o Cavaleiro existiu, descobri o seu nome (Qual é?) e, a verificar-se o cruel crime na actualidade, o personagem era facilmente identificável (Como?); o Castelo (Qual é?) representa o mais belo protótipo da arquitectura referida; o ás das evasões fora-me fácil de identificar (Quem é?).
São estas as quatro questões que deixo à inteligência dos leitores.


TEMA — CONTOO DERRADEIRO DIA
De Bento Vintém  
São perto de onze horas. Há estrelas no céu, miríades delas, como um bando de pirilampos em confusão. Aqui há luz. Sei que ela está acesa. No entanto, por dentro de mim, tudo é negro. Uma fobia terrível vai-me tomando de assalto. Um terror mais, muito mais que mórbido, do amanhã. Ando a fugir inutilmente, há perto de três anos, procurando adiar o que agora é inevitável. Tudo está perdido. Não posso imaginar-me amanhã, todo vestido de negro, só aquele tom claro á volta do pescoço e sempre apertando… apertando…
A multidão pronta a saltar sobre mim, ao mínimo indício de fuga. E entre ela está a minha família! A minha própria mãe! Também ela me olha, impotente, mas encarando o facto com resignação.
E os amigos? Deixem-me rir! Os meus amigos! Pois não me abandonaram todos, enquanto eu lutava pela salvação? Bem se esforçaram por me convencer de que há outra vida. Teorias ocas, vãs!
Depois, há o fim! Acaba tudo. Liberdade, prazeres, personalidade espírito… e até o próprio corpo se vai desintegrando pouco a pouco. Maldita hora em que olhei para aquilo. Porque teria eu pensado em que seria meu? Porquê? Para agora ir perder tudo. Para agora ser sepultado com o que cobicei. Como que guardado á vista pelo que cobice. Oh vida, que ridícula és!
Manhã. Cá vou neste carro negro, todo negro e todo fechado. Agora tudo está preparado: nem vale a pena tentar na fuga. Lá está aquela multidão ululante, sempre ávida de espectáculos desta natureza.
Devo parecer já um defunto. Já vislumbro, vindo não sei donde, o vulto alvo do fantasma que me vai levar para a outra vida. Ah! Ah! Ah! Já estou com alucinações.
Lá vem o padre. Imponente, severo, sem o mínimo reflexo de compaixão nas pupilas de aço. Pudera, se ele fica do lado de cá. Aproxima-se. Pára. Solene, estático, faz-me genuflectir, e o fantasma sempre colado a mim, sorrindo no antegozo do futuro. Mais um pensa ele, e ri-se discretamente.
Nesse instante o padre estende a mão e …
…aceita para sua legítima esposa…?
— Ssss...im! …
Ah! Ah! Ah! Ah! Outra Vidal Chegou o fim!

19 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 140

EFEMÉRIDES – Dia 19 de Maio
Paul E. Erdman (1932 – 2007))
Paul Emil Erdman Nasce em Stratford Ontário Canadá. Filho de pais americanos, completa a formação académica na Suíça e trabalha como analista financeiro e como economista em instituições de relevo. Em 1965 funda e preside um banco na Suíça, na sequência do colapso do banco Erdman é acusado de fraude e preso. Enquanto aguarda julgamento começa a escrever sobre finanças e ficção, em especial romances com tramas do mundo da alta finança. O seu primeiro livro, The Billion Dollar Sure Thing (1973), editado também com o título Billion Dollar Killing, é um bestseller e recebe o Edgar Award para First Novel, o livro seguinte The Silver Bear (1974) é adaptado ao cinema; no total Paul E. Erdman publica 9 bestsellers entre 1973 e 1993. Em Portugal, The Panic Of'89 (1986) é editado pelo Círculo Leitores, em 1987, com o título 1989 Pânico Na Bolsa e também em 1989 pela Livros do Brasil, na Colecção Vida e Cultura, com o título O Pânico de 1989.


TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — ENIGMAS ESPÉCIE-TIPO DE IDENTIFICAÇÃO
A classe que nos propomos referenciar, é praticamente uma espécie em extinção: de há muitos anos a esta parte que não descortinamos, em publicação, um problema deste género, por exemplo. E, no entanto, este tem uma temática vasta e variada de exploração.
Do retrato falado às impressões digitais, destas à fotografia, são métodos usados pela polícia em todo o mundo. Igualmente com um pouco de imaginação e habilidade, aplicáveis à problemística.
A. Varatojo, embora com o título de testes, oferece no ABC Policial alguns exemplos.
O uso de disfarce tenta não só os delinquentes como a própria polícia: aqueles para não serem reconhecidos por estes e estes por aqueles.
Na literatura policiaria exemplificam-se os mestres do disfarce nas personagens de Nick Carter, Sherlock Holmes, Arséne Lupin, etc.
Na literatura como na vida real as alterações identificativas limitam-se, na quase generalidade, em deixar crescer o cabelo, a barba ou o bigode ou, pelo contrário, em cortá-los, usar óculos, mudar as roupas habituais, etc. Há, porém no indivíduo, aspectos externos que não se podem mudar sem dificuldade.
Ernest Bramah, em O Inexpugnável, através do diálogo de Max Carrados, o detective cego, propõe uma verdadeira lição sobre o tema. Diz:
O gerente encolheu os ombros inexpressivamente e observou:
— O senhor esquece que os nossos funcionários o viram? Ou não podemos confiar nos nossos próprios olhos?
— Uma presunção sensata, mas nem sempre estritamente digna de confiança -insinuou Carrados mansamente.
— Eu não posso estar enganado! — reafirmou o gerente.
— Então será capaz de me dizer, sem olhar agora, qual a cor dos dois olhos do Prof. Bulge? ~
Pairou no ar um momento de curiosa expectativa.
— Confesso que não sei, Sr. Carrados — declarou por fim. — Não me refiro a pormenores como esse.
— Então o senhor pode estar enganado — declarou Carradas delicadamente mas incisivo, — Não basta a cabeleira, o venerando cavanhaque, o nariz proeminente e as sobrancelhas grossas… Não, não basta. São detalhes que mais facilmente se podem disfarçar. Eles chamam a atenção. Se o senhor desejar precaver-se contra decepções, observe antes os olhos e principalmente as pintas que possam haver neles, a forma das unhas, o aprumo das orelhas e a sua forma. Estas são coisas que não podem ser disfarçadas…
Também Walt Anderson, em O Fugitivo, nos dá a imagem de um homem que na angústia da fuga, esquece o pormenor indisfarçável:
— Agora… diga-me uma coisa! Como foi que conseguiu manter-se sempre no meu encalço? Mudei de nome, de corte de cabelo, até mesmo as minhas feições…
Obtém a resposta:
Mas o senhor esqueceu as orelhas. As orelhas são um meio extraordinário de identificação. O padrão básico de uma orelha nunca mudou, nem qualquer das suas partes componentes: O lóbulo, o tragus, o antihélice, o antitragus, a concha. As suas formas natas são muito fáceis de reconhecer.

São de facto, as orelhas, a parte mais característica do corpo, depois das impressões digitais. Quando as pessoas têm de ser identificadas por uma fotografia, oferecem um papel decisivo, Além de terem oito partes principais e distintamente identificativas, mostram peculiaridades inconfundíveis de indivíduo para indivíduo. Exemplos:

1 - Hélice redonda; 2 - extensão darwiniana; 2 - tubérculo darviniano: 4 a 8 - diferentes formas de hélice
As cicatrizes, verrugas, marcas de tatuagem, que constituem as melhores características do retrato falado de Bertillon, têm hoje pouca importância por poderem ser eliminadas pelo uso de cosméticos adequados ou operações plásticas.
Não há dúvida de que um bom cirurgião plástico pode operar maravilhas quanto a alterar a aparência facial; porém, pouco resultado terá se o delinquente não mudar os seus hábitos, cortando toda a conexão com o antigo ambiente e começando vida nova noutro lugar.
Nem sempre o recurso à cirurgia plástica é eficaz. Numa cara normal é difícil efectuar trocas que realmente enganem, como é difícil ocultar as provas da operação no tempo limitado, de que um perseguido dispõe em regra. As dificuldades acumulam-se pois que não bastam mudar ou ocultar o rosto, mas ainda o seu porte, maneiras de andar, hábitos, etc…
A situação será diferente quando a pessoa procurada possuir uma deformação peculiar e a consegue ocultar pela cirurgia: uma cicatriz, nariz quebrado, um sinal de nascimento ou qualquer outra das mutilações possíveis, que atraiam a atenção e cuja ausência desviará essa mesma atenção. Neste caso só por inspecção directa e cuidadosa poderão ser notados os sinais da operação, o que nem sempre é possível.
O facto real é que, para além da possibilidade de se mudar de aparência ou porte, há algo que a cirurgia não pode ocultar — a personalidade, a individualidade, o historial.
São exactamente estas características, imutáveis ou extremamente difíceis de ocultar no ser humano, insertas no texto dos problemas do género, que constituem as tramas e são pistas para identificação do personagem que estiver em causa.
Aqui .ficamos com uni exemplo do que acabámos de falar sobre o problema da identificação.


PRENDAM ESSE CEGO!
De M. Constantino

O cego era um homem de meia-idade. Pobremente vestido, é certo, porém de aspecto limpo.
Tomara poiso habitual perto do Banco dois meses antes. Ele e o impassível cãozinho que o guiava.
A sua humildade e simpatia conquistaram de imediato os funcionários daquele. Acostumara-se a bater de mansinho na porta semi-encerrada, antes da abertura ao público. Era convidado a entrar, e recebia com humildade, sorriso nos lábios, uma pequena moeda de cada um, uma maior da parte do gerente.
Naquele dia, o cego entrou, como de costume. Mas não havia cão a guiá-lo: uma máscara tapava-lhe o rosto e, na mão firme, mostrava uma automática reluzente.
Atónitos, ninguém fez um gesto. Cerca de 3.000 contos, que haviam sido tirados do cofre-forte para os pagamentos previstos no dia, foram atulhar-lhe os largos bolsos.
Recuando, o homem atirou para o meio da sala deserta um saco enrolado e avisou que continha uma bomba que rebentaria dentro de segundos.
Todos se lançaram para o chão, na ânsia de escaparem à deflagração em perspectiva.
Quando, por fim, o alarme foi accionado, um carro, cá fora, acabava de arrancar em velocidade.
Escassos minutos depois, a polícia chegou. Não havia bomba.
O cego acabava de chegar ao poiso habitual, com o fiei cãozinho. Sem dinheiro e sem pistola.
Calmamente, preparava-se para o peditório diário.
Arrastado ao Banco, posto em confronto com os funcionários do mesmo, nada de concreto se concluiu. O homem seria mesmo cego. Naquele dia não entrara no estabelecimento bancário. O seu guia adoecera, demorara-se! Não quisera incomodar.
O cão, tristemente, encolhia o rabo entre as pernas… confirmativo.
Nenhum transeunte, num dia infelizmente escasso de passantes, dera pelo roubo.
Nenhum indício.
Começara a duvidar-se se alguém não se fizera passar pelo cego.
Mas o inspector era um homem paciente. Conhecia toda a espécie de truques da sua profissão e das alheias.
Desconfiado se não estaria face a um falso cego, espreitou o homem de longe, estudando os seus movimentos, as suas atitudes. Passeou-se diante, silenciosamente, parou na sua frente e, de imprevisto, levantou a mão rapidamente, chegando-lhe dois dedos espetados aos olhos. O olhar deste nem tremeu.
Afastou-se e voltou a passar-lhe perto, atirando para os seus pés uma moeda de elevado valor. Foi espreitar de longe. O cego, entretanto, nem se mexera: aguardou que um transeunte passasse perto e pediu-lhe para apanhar o dinheiro.
Persistiu. Mandou notificar o cego para comparecer no dia seguinte na esquadra, a fim de assinar um depoimento.
Acompanhou-o, de longe, no percurso.
Era como que o cerco de um caçador a um animal condenado.
Viu o homem aproxima-se lentamente. Parar um instante no cruzamento, acender o cigarro aguardando o sinal verde do semáforo, incitar com um ligeiro toque na rédea o cão-guia e atravessar.
Ouviu a seca resposta do polícia de guarda à porta:
- Suba. Segundo andar, terceira porta à direita!
Antecipando-se, subiu a íngreme escada cujo corrimão ostentava flagrante cartaz: “Atenção - Pintado de fresco”.
Quando o notificado entrou, o inspector ficou a observar o homem a ajeitar-se com à vontade na poltrona, cruzando, em expectativa, as mãos brancas e limpas, e esperar.
O cão deitou-se a seus pés.
Prolongou com propósito o silêncio…
De repente indagou: - Sabe ler?
 - Braille sim, mas apenas um pouco - respondeu o visado com timidez.
Pegou num cartão perfurado e apresentou-lho.
O cego passou os dedos pelo pontuado, lendo, e, vacilante, leu meia dúzia de palavras.
Então, recolhendo, abruptamente, o cartão, leu uma folha de papel, com cujo conteúdo o seu ouvinte concordou. Guiou a mão do cego até ao local onde devia assinar…
Trocaram meia dúzia de banalidades.
Pouco depois, o cego saiu. O desconfiado inspector deu um salto na cadeira.
Ligou para o guarda da portaria.
- Prendam-me esse cego que acaba de sair!
Que factos levaram o inspector a tomar tal atitude?

12 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 133

EFEMÉRIDES – Dia 12 de Maio
Leslie Charteris (1907 – 1993)
Leslie Charteris Bowyer Yin nasce em Singapura filho de pai chinês e mãe inglesa. Estuda em Inglaterra e trabalha em França, Malaia e EUA como jornalista, escritor e editor. Em 1926 adopta legalmente o nome de Leslie Charteris. É um autor muito popular principalmente por ter criado Simon Templar, o Santo, conhecido como o Robin Hood do crime moderno. O Santo é o herói de 90 aventuras publicadas em contos e livros; aparece pela primeira vez em 1928 no romance The Saint Meets The Tiger que também foi editado com os títulos Scoundrels Ltd., Crooked Gold, Meet—The Tiger! e The Saint Is In Danger. Leslie Charteris escreve argumentos para pelas de rádio e é editor da revista Suspense e da The Saint Detective Magazine, mais tarde chamada The Saint Mystery Magazine. Em Portugal estão editados vários livros do autor: CLICAR AQUI


TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — ENIGMAS ESPÉCIE-TIPO SEJA O JUIZ
Em Portugal, salvo raras excepções, não é corrente a apresentação de problemas deste tipo, nem tem demonstrado aceitação, ao inverso de outros países.
Tal tipo de problemas fundamenta-se, em regra, em questões de direito, muito pouco acessível ao nível cultural da grande maioria dos habituais concorrentes — produtores ou decifradores — daí a escassez da publicidade. E, não obstante, uma espécie com muito interesse, já que neles estão em causa aspectos da realidade quotidiana do direito de cada um. É importante o conhecimento da Lei e, não sendo a ignorância da Lei pretexto ou isenção para o seu incumprimento, muitos contribuem os problemas deste tipo como vínculo ameno e útil para a sua propagação.
Nos EUA, mesmo no Brasil, com apoio em decisões dos competentes Tribunais, os problemas deste tipo têm invulgar aceitação.
Seja o Juiz permite o uso das faculdades da inteligência. Facto essencial na sistematização, na coordenação lógica de ideias, das imagens, das percepções dos seus elementos.
Um dos maiores perigos que ao Juiz se pode deparar será, porventura, a indecisão, a preocupação de não se mostrar suficientemente sereno e reagir em prejuízo da Justiça. Esta está acima do coração. O objectivo deve determinar-se na Lei pela Lei, na Justiça pela Justiça.
Julgar, dizia Platão, é recordar-se de um mundo inteligível em que todas as ideias que entram no julgamento são desenvolvidas numa imutável e indecomponível unidade. Todas as impressões que chegam à consciência através dos sentidos, todas as ideias que acordam em nós, sugeridas peia conversa ou pela leitura, todos os sentimentos, todas as impressões que podem fazer nascer ou guiar até ao nosso conhecimento as nossas relações com o mundo exterior e os nossos contactos com os homens, todos os fenómenos psíquicos, passam por um processo de estudo e análise.
Em termos práticos a convicção e acerto da decisão passa por:
— Verificação directa de um fenómeno, uma situação, um facto material;
— Uso de meios de raciocínio deduzindo, de factos conhecidos (indícios), factos ignorados ou contrastantes;
— Provas directas, indirectas ou presunções legais;
— Atestações alheias, face às testemunhas, peritos e declarações das partes;
— Experiência (a administração da justiça exige uma multiforme experiência da vida, porque aos Tribunais chegam anomalias e deformações que são ignoradas pela normalidade);
— Coordenação dos factos expostos, puníveis e não puníveis, no contexto da Lei.


TEMA — ENIGMA PRÁTICO SEJA O JUIZ O HOMEM QUE APRECIAVA ALICES
De M. Constantino
Rodolfo era um homem muito amoroso, Pouco sagaz, talvez, mas cupidinoso em extremo. Amava as Alices e, todos os seus prazeres e desgostos provinham do doce nome que lhe dominava a mente: Alice.
Ficou realmente surpreendido ao ser preso sob a acusação de bigamia, consoante a queixa da sua terceira esposa… uma Alice.
A sua história matrimonial, segundo relato próprio perante a Justiça e com confirmação oficial, resume-se assim:
Em 1969 casou civilmente e pela primeira vez, com a bela e jovem Alice Barroso, porém, pouco depois, concluindo ter cometido um erro, deixou-a e partiu para Moçambique. Ali, um ano depois, descobriu Alice Lemos, apaixonou-se e casou segunda vez, sem se divorciar da primeira Alice que, em 1970, quando ela própria contraiu casamento, lhe concedeu o divórcio.
Voltou a Portugal em 1972 e, encontrando aquela que seria a terceira Alice (sabe-se lá quantas Alices passaram, entretanto, na sua vida de amorudo!) desta vez, Alice Gomes, defrontou no mesmo ano e mais uma vez o oficial do registo civil.
O sarilho deu-se cerca de dez meses depois. A Alice III descobriu que ele nunca se divorciara da Alice II (era, portanto, um bígamo) e não se escondia de procurar outras mulheres… Alices, por seu mal!
Mas explicava Rodolfo, não sou um bígamo! Uma vez que casei com a Alice de Moçambique na pendência de casamento com Alice I, o casamento é nulo, e porque esta se divorciou, quando casei com Alice III, era um homem disponível.
Que diria, entretanto, o Tribunal?
Seja o Juiz. Com toga ou sem toga, o seu julgamento é a sua a solução
A nossa será apresentada num dos próximos dias


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — DESTRUIÇÃO
De Hélia
Engoli em seco. Devia ter enlouquecido. Era tudo demasiado absurdo. Cheguei junto da janela. Os prédios brilhavam com o seu cinzento aço.
De repente lembrei-me de que no andar de baixo morava um médico e acto contínuo pensei em ir consulta-lo. Ao passar junto do espelho olhei instintivamente: o que vi quase me fez desmaiar.
Comecei a gritar. Queria parar mas não podia. Gritei até ficar rouca. Mas ninguém apareceu. A imagem que o espelho me oferecia era um pesadelo. O meu rosto era o mesmo, mas a pele era azul, dum tom forte e profundo. A boca era vermelho-escura, os olhos dourados. Os cabelos verde-escuros completavam o horror.
Deitei-me sobre a cama e solucei, desesperada. Não sabia o que fazer.
Passou muito tempo. Comecei a sentir fome. Levantei-me cambaleando, e dirigi-me para a cozinha. Lá, também tudo se transformara. Evitei pensar. A cabeça estalava de febre. Abri o frigorífico e tirei um bife e batatas já fritas. O bife estava negro e as batatas lilases. Dominando a repugnância, comi vagarosamente. Os alimentos tinham um sabor diferente, não deixando apesar disso de serem saborosos. Tive sede e fui buscar que agora era de um azul límpido. Era também um pouco adocicada.
Enquanto comia, tentava raciocinar sobre o que iria fazer. Lembrei-me de ligar a telefonia. Os locutores pareciam malucos e estação emissora um manicómio. Difundiam as notícias mais estranhas e pediam calma à população, numa -voz pouco menos que guincho.
Bonito! Pelos vistos o mal atacara toda a população. Por um lado senti-me melhor. A hipótese da minha loucura estava posta de parte.
Uma estranha epidemia espalhara-se pela cidade e o pânico era completo. De repente tive vontade de cantar. Procurei reprimir-me mas não consegui. Os meus lábios começaram á formar palavras numa língua desconhecida. As cordas vocais modulavam uma lenga-lenga irritante e sem fim.
O meu cérebro era um caos. Inesperadamente senti-me levantar da cadeira. Quis parar e não pude. Continuei a caminhar até à janela. A minha mente trabalhava furiosamente contra aquela vontade psíquica que não era a minha.
As mãos abriram a janela. O meu corpo passou as pernas para fora do parapeito. O cérebro estava paralisado de terror. Olhei os dezassete andares que me separavam do solo.
A rua já não estava deserta. Dezenas de corpos azuis e imóveis cobriam o, asfalto vermelho.
PORQUÊ?
Não tive resposta.
Depois… saltei no espaço.