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11 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 346

Efemérides 11 de Dezembro
Kenneth Royce (1920 – 1997)
Kenneth Royce Gandley nasce em Croydon, South London, Inglaterra. Autor de policiários, em especial trillers, escreve quase 4 dezenas de romances. Publica o primeiro livro, My Turn To Die , em 1958; é o criador de Spider Scott, o XYY Man, um ex-ladrão de carros que protagoniza 8 livros e cujas aventuras estão adaptadas ao cinema. Kenneth Royce usa também o pseudónimo Oliver Jacks. Em Portugal está editado:
1 – A Ilha Em Fúria (1964), Colecção Biblioteca para Todos, Editorial Minerva. Título Original: The Angry Island (1963)
2 – Paira A Morte Na Selva (1965), Nº148 Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: The Day The Wind Dropped (1964).
3 – Ossos Na Areia (1968), nº181 Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: Bones In The Sand (1967).
4 – O Homem XYY (1974), Nº23 Colecção Círculo Negro, Bertrand Editores. Título Original: The XYY Man (1970). É o 1º livro da série Spider Scott.



TEMA — CASOS E ACASOS DO CRIME — MORTE À DISTÂNCIA
Qualquer polícia atestará, sem vacilar, que o trabalho em conjunto é a chave do sucesso em todas as investigações criminais.
Foi uma equipa famosa a que se empenhou na caçada a um dos mais cruéis assassinos da América do Norte, em Setembro de 1949, na cidade de Québec, no Canadá.
O problema com que se defrontou o Capitão Alphonse Matte — da “Quebec Provincial Police” um dos mais argutos polícias do Canadá, não se cingia simplesmente a agarrar um delinquente; era bem mais complexo.
Antes de mais nada, tinha que descobrir quem o criminoso pretendera matar, visto que para se desembaraçar de uma única pessoa, destruíra vinte e duas vidas.
A história começou na manhã de 9 de Setembro de 1949 com o voo 108 da “Quebec Airways”, cujo avião estava de partida do aeroporto de Ancienne-Lorette para Sept-Isles, no Golfo de St. Lawrence, com escala na cidade de Baie-Comeau. Esse voo iniciara-se em Montreal, devendo o aparelho receber passageiros e carga em Quebec.
Pilotava a aeronave um antigo capitão da R.A.F., Pierre Laurin, viajando na mesma dezoito passageiros e quatro tripulantes.
Aos nove minutos de voo, o Comandante Laurin corrigiu a rota, rumando em direção à margem norte do St. Lawrence, de onde seguiria o curso do rio, cada vez mais largo e caudaloso.
Mais alguns minutos e a viagem terminaria numa pavorosa tragédia.
Várias pessoas a testemunharam: o terceiro piloto de um navio fluvial e alguns trabalhadores da ferrovia; além de pescadores e lenhadores.
Os seus depoimentos foram concordantes. O aparelho voava serenamente quando, de súbito, pareceu explodir.
Os destroços espalharam-se no terreno adjacente a um despenhadeiro rochoso, pouco distante do rio, perto da aldeia de "Sault-au-Cochon", a sessenta e cinco quilómetros de Québec, acessível somente por via férrea.
À noitinha, a “Quebec Provincial Police” e a “Royal Canadian Mounted Police” empregaram-se na melancólica tarefa de transportar os corpos mutilados no desastre, classificando-o como o terceiro dentre os piores ocorridos no Canadá.
Várias partes do avião foram removidas com o máximo cuidado para Québec, e submetidas a meticuloso exame.
Ainda que horrorizados, todos tiveram de render-se à evidência desconcertante, perfeitamente demonstrada pelo Professor Lucien Grave, catedrático da Universidade de Laval, apoiado por outros cientistas, de que o desastre fora provocado criminosamente.
Na fuselagem, certas perfurações esquisitas foram causadas pelas engrenagens de um despertador; manchas pretas no compartimento de cargas provinham, certamente, de pilhas secas e em diversos fragmentos do avião existiam vestígios químicos do trinitrotolueno, componente da dinamite.
Alguém causara aquela explosão, onde perderam a vida, numa verdadeira chacina, vinte e três cidadãos.
O Capitão Matte recebeu ordem através do rádio do seu carro para cancelar: qualquer compromisso e desvendar o crime.
Depois de examinar pessoalmente o local, onde jaziam os restos do avião, a primeira providência de Matte foi estudar a lista de passageiros, coligindo outras informações, inclusive consultando o mapa com a rota do aparelho, fornecido pelos detectives da companhia.
Um facto significativo destacou-se. Se o avião tivesse decolado rigorosamente dentro do horário, seus destroços teriam caído ao rio, tornando quase, impossível a identificação do crime.
Obviamente, a explosão visava a matar um dos passageiros. Mas qual deles?
De acordo com os relatórios técnicos, a explosão verificara-se no compartimento de bagagem da proa, o que limitava vantajosamente o campo das investigações. Para facilitar o serviço de carga e descarga, esse compartimento estava reservado às bagagens embarcadas e desembarcadas no Québec.
Vários polícias levantavam a vida pregressa dos passageiros desta última cidade, tomavam apontamentos sobre suas malas e embrulhos e, principalmente, estavam interessados em descobrir se alguém remetera algum volume, despachado em nome de outra pessoa.
Os primeiros resultados foram negativos.
Mais tarde, um dos auxiliares do Capitão Matte telefonou, comunicando que um indivíduo chamado Delphis Bouchara expedira uma encomenda pelo avião com destino a Baie-Comeau.
— Entretanto — concluiu o polícia — em St. Simeon, onde declarou residir, conforme consta na companhia de aviação, não existe ninguém com esse nome.
O Capitão Matte, sem tardança, entrou no carro e a toda a velocidade deslocou-se para o aeroporto, a fim de entender-se com o despachante Willie Lamonde.
Lamonde recordou-se. A bagagem fora trazida por uma mulher robusta, vestida de preto. Descera de um táxi quando faltavam apenas cinco minutos para a descolagem. No pacote se lia: “Frágil — estatueta”.
Esta mulher de preto, mesmo que não fosse a verdadeira culpada, conduziria a polícia ao criminoso.
Ao Detective Guillette e à sua equipa competia agora uma segunda tarefa: esquadrinhar todas as garagens até encontrar o carro em que viajara a mulher de preto.
Paul Pelletier, motorista, lembrava-se perfeitamente da passageira; ele até a ajudara a carregar um embrulho, que pesava pelo menos quinze quilos. A mulher de preto voltara no seu táxi.
— E, — informou o motorista — não me esqueci do local onde ficou; ela mora num bairro populoso da cidade baixa.
A casa indicada pelo profissional do volante era ocupada por Mrs. Margarite Pitre, de quarenta anos, cuja aparência se ajustava, à descrição dada pelo despachante.
Um relojoeiro de 32 anos de idade, Albert Guay, era um de seus visitantes fortuitos e, por estranha coincidência, uma das passageiras do avião sinistrado era a sua esposa, Rita Guay, de 28 anos de idade.
Guay — como foi constatado posteriormente — comprara-lhe uma passagem de ida e volta, e feito um seguro de vida, durante o voo por dez mil dólares.
Novos aspectos deste personagem foram surgindo à medida que a polícia aprofundava as investigações. O seu casamento não era feliz como parecia e ele fora abandonado por Marie-Ange Robitaille, a sua linda amante de apenas dezassete anos.
— Guay queria por todos meios convencer-me a voltar para a sua companhia. — Confidenciou Marie-Ange ao Capitão Matte — mas ele era casado e, nessas condições, nosso idílio não podia continuar.
Até então, as investigações tinham sido conduzidas com a menor discrição; daí em diante, porém, essa táctica foi abandonada: a imprensa, posta a par das verdadeiras causas da tragédia, noticiou com grande alarde o pavoroso crime, assinalando que a polícia estava na pista de uma de uma dama de preto e esperava detê-la em breve.
O objetivo do Capitão Matte era estabelecer o pânico entre os implicados, persuadido de que pelo menos um deles daria um passo em falso.
O plano -deu resultado, mas de um modo diferente do que esperava a polícia. Os detectives encarregados de vigiar a casa de Mrs. Pitre anotaram uma rápida visita de Guay e, logo em seguida, a de um parente da dona da casa, que pouco se demorou, saindo apressadamente em busca de um telefone. Pediu socorro, com urgência, para Mrs. Pitre, caída no leito, contorcendo-se em dores por ter ingerido um veneno. Durante dois dias, Mrs. Pitre ficou inconsciente num hospital.
Quando recuperou a saúde, o Capitão Matte induziu-a facilmente e contar a verdade.
— Comprei o explosivo a pedido de Guay — confessou a dama de preto — que me assegurou ser destinado a nivelar um terreno. Também por solicitação de Guay, o meu irmão, que é relojoeiro, fabricou-lhe uma engrenagem destinada a ser associada ao explosivo e que poderia determinar a hora da explosão. O meu irmão chama-se Généreux Ruest e está inocente. Não sabia para que serviria seu engenho. Também a pedido de Guay, levei o pacote ao aeroporto. Ele prometeu perdoar-me uma dívida caso eu o fizesse.
A 23 de Setembro, duas semanas depois da explosão, o Provincial Ponce Constable Leo Fontaine, efetuou a prisão de Guay, que no dia seguinte foi denunciado como autor da morte da sua esposa.
O julgamento durou três semanas. Guay, condenado à morte, foi enforcado a 12 de Janeiro de 1951.
A despeito de todos os esforços da defesa, Mrs. Pitre e seu irmão também foram acusados de homicídio e condenados.
Ela foi enforcada em Janeiro de 1952 e seu irmão foi conduzido ao patíbulo seis meses mais tarde.



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — HARRY DICKSON
Texto de Gérard Dôle*, tradução de M. Constantino
Desde há tempos, as extraordinárias Aventuras de Harry Dickson, o Sherlock Holmes americano, editadas em fascículos de papel grosseiro, com uma com tipografia lamentável, todavia com umas assombrosas capas ilustradas, são inacessíveis a um amplo público.
Alain Resnais para ultrapassar a raridade destes fascículos, não teve dúvidas em filmá-las, em 1956, junto com os manuscritos, impressos antigos e os verdadeiros tesouros comuns àqueles encontrados na Biblioteca Nacional, num excelente documentário de 22 minutos intitulado: “Toute la memoire du monde” (Toda a memória do mundo).
O tiro de partida havia sido dado. A recordação de obras impossíveis de encontrar, quase míticas, sugeria o desejo compartilhado para as suas reedições. Isto foi o que empreenderam ao longo dos anos as edições Marabout, Champs-Elysées, Corps 9 e Néo.
Agora vejamos; a série francesa Harry Dickson (houve efectivamente uma série holandesa que a precedeu dois anos), foi certamente o conjunto mais estranho de textos referentes ao mesmo personagem da literatura popular. Porque, se não nos equivocamos Jean Ray nunca foi o criador de Harry Dickson.
Ele mesmo o admitiu perante Alain Resnais em 1959, que não havia inventado este personagem e que nunca soubera, quando, como e por quem Harry Dickson havia sido criado, e voltou a dizê-lo pouco antes da sua morte, numa emissão passada recentemente na televisão belga.
As diversas investigações efetuadas desde há alguns anos, permitem-nos hoje em dia, afirmar que o personagem de Harry Dickson é o resultado de uma longa cadeia criativa em que Jean Ray foi um dos seus elos.
No princípio encontramos Sherlock Holmes, o arquétipo de detective criado por Conan Doyle, o qual, por sua vez, se Inspirou no cavalheiro Dupin, de Edgar Poe. Depois, em 1907, e concretamente em Berlim, apareceu a série “Der Welt-Detektive” — O Detective Mundial. Ainda que relatando os pobres êxitos de um detective que somente fazia seu o nome do herói de Conan Doyle, esta série obteve, não obstante, um êxito formidável na Alemanha e depois no mundo Inteiro.

Foi traduzido e editado em países tão diferentes como a Hungria, Noruega, Itália, Espanha, Portugal, México e França. Depois da 1ª Grande Guerra, estando o fenómeno Sherlock Holmes em palpitante actualidade, os editores alemães publicaram várias vezes nos anos vinte, umas séries de aventuras de “Der Welt-Detektive” do seu jovem assistente Harry Taxon.
Em Dezembro de 1927, um impressor-editor de Amsterdão fez traduzir para o holandês os textos alemães de “Der Welt-Detektive” e rebaptizou-os de Harry Dickson, apoiando-se evidentemente no nome do aluno Harry Taxon e preparou-se para pôr um dia: “Sherlock Holmes Americano”.
Faltava conquistar a França e a Bélgica e suas colónias, traduzindo estes Harry Dickson holandês, em língua francesa, o que começou em 1929.
Obscuros tradutores, alternam-se neste trabalho sem glória. Depois de Jean Ray, que devido a diversos reveses da sorte, viu-se obrigado a aceitar tudo o que se lhe apresentava, traduziu por sua vez do holandês ao francês, as aventuras de Harry Dickson. Um dia, sem dúvida, cansado de traduzir, Jean Ray passou sem transição na metade do segundo capítulo da história intitulada “Le Tresor du Manoir de Streetham” (nº64), da simples tradução à pura criação. Tomando como referência as ilustrações das capas dos fascículos de Harry Dickson da série holandesa, Jean Ray, inventou intrigas originais, excepto em alguns casos, em que existiam traduções francesas de antes da guerra de certos números da série alemã.
Em resumo, em 178 fascículos de Harry Dickson, encontramos:
  • Textos alemães anteriores a 1914, traduzidos depois da guerra para o holandês, e depois para o francês, traduzido por anónimos;
  • Textos alemães anteriores a 1914, traduzidos depois da guerra para o holandês por tradutores anónimos, sendo traduzidos para o francês por Jean Ray;
  • Textos alemães anteriores a 1914, traduzidos para o francês entre 1907 e 1908 por Fernand Laven e novamente utilizados por Jean Ray;
  • Textos originais, escritos directamente em francês por Jean Ray.

Certamente um quebra-cabeças chinês, esta série de Harry Dickson. Agora compreende-se porque de início, escrevíamos que este compêndio de textos, diferentes entre os que existem, é também o mais raro da literatura policial francesa.


(*) Gérard Dôle, homem de letras especializado em literatura fantástica e autor, de entre outros, das Novas Aventuras de Harry Dickson, é presidente de “Le Cércle des eléves de Harry Dickson”(C.E.H.D.), fundado em Fevereiro de 1984, limitando-se estritamente a 178 membros (tantos quantos os fascículos com o personagem).Não é uma sociedade sherlockiana.
Publicações desta associação: 9 obras de Maio/84 a Outubro/88; bem como alguns números especiais destinados exclusivamente aos sócios.




1 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 336

Efemérides 1 de Dezembro
Rex Stout (1886 - 1975)
Rex Todhunter Stout nasce em Noblesville, Indiana, EUA. É mundialmente conhecido por ter criado um dos mais famosos detectives da história da literatura policiária, Nero Wolfe (ver TEMA). Rex Stout começa a escrever a partir de 1910 para os pulpls magazines, publica o seu primeiro livro em 1929, mas só Nero Wolfe só surge em Outubro de 1934 no romance Fer-de-Lance, editado em Portugal com o título Picada Mortal. Rex Stout escreve 47 livros da série Nero Wolfe e mais cerca de duas dezenas de romances. Vê os seus romances adaptados à radio, televisão e cinema, numa carreira literária de sucesso que acumula distinções e prémios. Em Portugal, a quase totalidade dos seus livros está publicada, em particular, pela Livros do Brasil, quer na Colecção Obras Escolhidas de Rex Stout (Clicar) quer nos 43 títulos da Colecção Vampiro (Clicar).


Francis Clifford (1917 - 1975):
Arthur Leonard Bell Thompson nasce em Bristol, Inglaterra. Escreve 19 livros policiários, na sua maioria thrillers. Recebe por duas vezes o Silver Dagger Award atribuído pela Crime Writers Association: em 1969 com Another Way Of Dying e em 1974 com The Grosvenor Square Goodbye. Em Portugal está editado:
1 – O Fugitivo Nu (1969), Colecção Excelsior, Empresa Nacional de Publicidade. Título Original: The Naked Runner (1966).


Douglas Clark (1919 - 1993)
Douglas Malcolm Jackson Clark nasce em Lincolnshire, Inglaterra. Geólogo e escritor policiário, publica 30 livros, 26 deles protagonizados pelo atlético e distinto Chief Inspector George Masters e pelo seu subordinado, Inspector Green, que detesta e inveja o chefe; s personagens surgem em 1969, em Nobody's Perfect. O autor usa também os pseudónimos James Ditton e Peter Hosier.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — NERO WOLFE, DETECTIVE PARTICULAR
Autor desconhecido, os anos não perdoam e a memória falha. Agradeço ao autor a colaboração e se ler, assinale)
M. Constantino



Personagem de corpulência elefantina (cerca de 140 kg de peso), detesta qualquer tipo de actividade física e raramente se ausenta do seu escritório-residência na Rua 35-Oeste em Nova Iorque.
Egocêntrico, extravagante e vaidoso, considera-se um génio, detesta a vulgaridade e exprime-se fluentemente em francês, espanhol, italiano, húngaro, alemão, bari e servo-croata, além de inglês, culto e sofisticado.
Indolente por natureza, trabalha exclusivamente para suprir os elevados custos do luxo e conforto de que se rodeia, valendo-se quase abusivamente do dedicado Archie Goodwin, secretário, guarda-costas, motorista, contabilista e mensageiro, que nas horas vagas faz as investigações de rotina.
Floricultor de reconhecidos méritos, gourmet de paladar requintado, permite-se ter ao seu serviço Fritz Brenner, um categorizado chef suíço que, mediante principesco salário satisfaz a sua gula com as mais delicadas iguarias.
Reticente acerca do seu passado, aufere proventos fabulosos que dissipa prodigamente. O passado de Wolfe é investigado por William S. Barino-Gould em extenso estudo biográfico sobre Nero Wolfe — Nero Wolfe of West Thirty-fifth Street (1969).
Plena de imaginação, a história baseia-se em dados conjunturais que conferem ao detective ilustre paternidade. Assim, Nero bem como Marko, o seu irmão gémeo, teriam nascido em Trento Nova Iorque, no ano de 1892, da auspiciosa união de Sherlock Holmes e Irene Adler, célebre cantora de ópera, que ao enviuvar teria contraído segundas núpcias, com um tal Vukvik oriundo da região balcânica.
Desta forma se explicaria a presença do herói nas remotas regiões do Leste Europeu, onde teria colaborado com os Serviços Secretos do Império Austro-Húngaro, sendo posteriormente integrado no Exército montenegrino.
Em acção em combate no decorrer da 1ª guerra mundial o jovem Nero percorre mais de 600 milhas para se reunir às forças americanas, depois de eliminar cerca de 200 inimigos.
A etapa seguinte situa-o de regresso aos Estados Unidos onde se estabelece como investigador criminal.
Detective consultivo, arguto e inteligente, adquire desde logo fama e proveito, sem que para tanto pareça esforçar-se. Efectivamente Nero Wolfe desdenha o trabalho físico e dedica grande parte do seu tempo ao cultivo de orquídeas raras.
A sua rotina diária raramente se altera. Desperta pelas 8 horas, toma pequeno almoço na cama, lê um ou dois periódicos e logo após a toilete matinal dirige-se para a estufa no seu elevador particular.
No intervalo entre almoço (13H15) e o jantar (19H15) despende mais de duas horas junto das suas flores preciosas e, se estritamente necessário concede breves períodos às tarefas de investigação.
Surge então Archie Goodwin com os seus relatórios detalhados e o detective, instalado em confortável cadeirão, com um copo de cerveja espumosa ao alcance das mãos, mantem os olhos semicerrados e escuta com atenção. Normalmente lacónico e imperturbável, face aos casos mais intricados, o seu raciocínio encadeia-se velozmente e não tarda a obter solução.
Singularmente antagónico ao sexo feminino, Nero Wolfe admite candidamente que tal constitui mero mecanismo defensivo e recebe com prazer as mais belas clientes. Por sua vez atraente, apesar das avantajadas proporções físicas, o detective tem a pele lisa, os dentes brancos e regulares e traja normalmente fatos completos de esmerado corte e camisas amarelas com colarinho de goma que ao deitar substitui por luxuosos pijamas de seda pura, igualmente amarelos.
Nos seus casos, para além do eterno Archie Goodwin, colabora com vários investigadores, com destaque para: Saul Panzer, tão experiente quanto arguto: Fred Durkin, tão honesto quanto incipiente; Orrie Carter, tão fiel quanto detestado; e Dol Bonner, a única mulher na sua vida.
Permanentemente suplantado, o inspector Cramer, chefe do Departamento de Homícidios da Polícia de Nova Iorque



TEMA — CONTO DE LIMA RODRIGUES — QUEM?
Já nem sabia ao certo há quanto tempo aquela dúvida o atormentava. Estas coisas, aparecem quase sem a gente se aperceber delas. Surgem um dia, a propósito de qualquer coisa — a maior parte das vezes, qualquer coisa sem importância — tomam lugar no subconsciente, aí se desenvolvem, ampliam, ganham forma e, quando mal a gente se apercebe, estamos dominados, obcecados por essa ideia.
Precisamente com ele, a coisa tinha-se passado assim. E, agora, chegara a altura de pôr ponto final no assunto. Estava firmemente decidido a tirar a coisa a limpo, muito embora poucas dúvidas já lhe restassem. E, a maior dúvida que ainda tinha e para a qual não havia meio de atinar com a resposta, podia traduzir-se numa única palavra: Quem?
Quanto ao resto, ao longo de todo aquele tempo, desde que pela primeira vez se vira forçado a pensar no assunto, tinha bastantes e suficientes provas para que se desse ao trabalho de pensar no assunto duas vezes. Um homem casado, desde que esteja suficientemente prevenido, sempre consegue, pacientemente, verificar indícios da infelicidade conjugal. E os que ele acumulara, apenas lhe deixavam um caminho aberto: Quem?
Apesar das várias tentativas para a desmascarar, ela sempre tivera artes de se sair airosamente delas. Parecia até que nunca seria capaz de conseguir apanhá-la em flagrante.
Várias vezes desabafara o turbilhão dos seus pensamentos com Laura, uma amiga de infância da sua mulher que, na qualidade de amiga íntima e confidente de ambos, muitas vezes servira de intermediária e conselheira em pequenas questões familiares.
Laura ficara atónita com tão absurda ideia. Mas, que sabia ela destas coisas? Que poderia uma solteirona de quarenta anos saber disto? Desiludido com uma ajuda que imaginara eficiente, não lhe voltara a falar no assunto.
Uma boa gorjeta ao porteiro, também não obtivera qualquer resultado, muito embora a maneira delicada como o abordara.
Mas — tinha decidido — daquele dia não passaria. Preparara tudo de modo a que ela pensasse o que ele lhe conviria que ela pensasse: que ele nesse dia só regressaria lá para as tantas. E, com certeza, ela não iria desperdiçar semelhante oportunidade. E ele, também não…
Antes de meter a chave à porta, escutou pacientemente. Não queria agora, por precipitação, deitar tudo a perder. Como nada ouvisse, rodou a chave devagar e empurrou a porta mansamente, espreitando para o corredor. Ninguém à vista.
Caminhou então na ponta dos pés — mais por excesso de precaução, pois calçava sapatos de borracha — em direcção ao seu quarto.~
Foi então que ouviu umas risadas fracas, histéricas.
Sentiu uma aceleração no seu sistema circulatório, enquanto o rosto se ruborizava de vergonha. Finalmente! Conseguira por fim resolver aquela incógnita.~
Mas, não sabia se se devia sentir feliz com aquela descoberta, se infeliz pelo que ela representava de escabroso e infame.
Começou a sentir que no seu rosto se formavam gotas de suor, enquanto o coração batia desordenadamente.
Ao avançar alguns passos na direcção do quarto, deu-se conta de que as suas pernas tremiam como se não fossem capazes de suster o peso do corpo. Por fim, encontrou-se em frente da porta. De dentro, continuavam a ouvir-se risinhos nervosos. Susteve a respiração e, enquanto sentia o coração bater-lhe na garganta, apurou mais o ouvido. O ruído característico de alguém que se mexe na cama e palavras soltas como “meu amor”, “queridinha”, chegaram-lhe aos ouvidos.
Sentiu-se estoirar de indignação ao avaliar a profundidade daquela infâmia: sua mulher e o amante, na sua própria cama!
Acariciou a coronha do revólver e apertou-a com tanta força que teve a sensação de que se ia desfazer. Quis certificar-se de que não teriam a porta fechada. Com infinitas precauções — admirou-se da calma com que o estava fazendo — rodou levemente a maçaneta. A porta não estava fechada.
De súbito, teve uma ideia — e voltou a admirar-se como ainda tinha cabeça para pensar — e espreitou pelo buraco da fechadura.
O quarto estava mergulhado numa semi-obscuridade e, além disso, dada a disposição do mobiliário, pouco conseguia descortinar. Viu, no entanto, pendentes duma cadeira, as roupas íntimas de sua mulher e, essa visão, foi como que uma chamada à realidade. Abriu a porta de rompante, revólver na mão, pronto a disparar.
No auge dos seus amores, entre risinhos e palavras sem nexo, os dois amantes não tinham dado pela sua aparição. Uma raiva surda, incontida, angustiada, levou-o a disparar até sentir a arma descarregada. Os dois corpos ficaram finalmente quietos. Para eles, a morte tinha chegado.
No quarto, pairava agora um fumo acre de pólvora. E o homem que ao desfazer de uma dúvida se tornara um assassino, olhava como um sonâmbulo para a sua obra.
Tinha finalmente diante de si a resposta à sua interrogativa: Quem?
Foi então que reparou. O corpo ensanguentado que jazia junto do de sua mulher, era o da sua amiga Laura…


30 de novembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 335

Efemérides 30 de Novembro
Geoffrey Household (1900 – 1988)
Geoffrey Edward West Household nasce em Bristol, Inglaterra. Formado em Literatura Inglesa, trabalha em diferentes profissões em vários locais: Roménia, Espanha, Estados Unidos, Médio Oriente, América do Sul. Durante a 2ª guerra mundial pertence à British Intelligence. Começa a escrever nos anos 20 e o seu primeiro romance, The Terror Of Villadonga, é publicado em 1936. Escreve principalmente trillers, por vezes com uma atmosfera de sobrenatural ou ficção científica. Publica no total 7 colectânea de short stories e 28 romances, alguns dos quais protagonizados por Raymond Ingelram ou Roger Taine. O seu livro mais conhecido é Rogue Male (1939), um thiller clássico. Em Portugal estão editados os seguinte policiários de Geoffrey Household:
1 – A Caravana Da Morte (1972) Nº67 Colecção Espionagem, Editora Dêagá. Título Original: Doom’s Caravan (1971).
2 – A Fera Solitária E O Ditador (1977) Nº1 Colecção Águia, Editora Perspectivas & Realidades. Título Original: Rogue Male (1939). Reeditado em 1986 pelo Círculo de Leitores com o título A Fera Solitária.
3 – Refém - Londres : O Diário De Julian Despard (1982) Colecção Ficções, Moraes Editores. Título Original: Hostage London — The Diary Of Julian Despard (1977).
4 – Justiça Feroz (1987), Círculo de Leitores. Título Original: Rogue Justice (1982). É a sequência de Rogue Male.


John Dickson Carr (1906 – 1977)
Nasce em Uniontown, Pennsylvania. EUA. Considerado um dos grandes escritores clássicos do policiário, é sem sombra de dúvida o mestre do “mistério de quarto fechado” (ver TEMA). Escreve sob os pseudónimos literários Carter Dickson, Carr Dickson e Roger Fairbairn. Autor com uma vasta obra, destacam-se os 45 romances publicados como Jonh Dickson Carr com os personagens Henri Becolin, Patrick Butker e Dr. Gideon Fell; 26 livros sob o pseudónimo Carter Dickson protagonizados por Sir Henry Merrivale: 4 colectâneas de contos e 1 livro de peças para rádio. John Dickson Carr é ainda biógrafo de sobre Sir Arthur Conan Doyle O livro The Three Coffins (também editado com o título The Hollow Man) / Os Três Ataúdes é encarado como a obra prima do escritor e o um dos melhores romances do escritor. Em Portugal estão editados vários livros de John Dickson Carr / Carter Dickson, que serão apresentados futuramente.


John Franklin Bardin (1916 - 1981)
Nasce em Cincinnati, Ohio, EUA. Escritor de policiários considerados como “quase góticos” e ênfase para o factor psicológico (ver TEMA). Em Portugal estão editados:
1 – O Fim De Philip Banter (1994) Nº2 Colecção Lua Cheia, Editora Terramar. Título Original: The Last Of Philip Banter (1947).
2 – Que O Diabo Leve A Mosca Azul (2009) Nº21 Colecção Crime Imperfeito, Editora Relógio d’Água. Título Original: The Devil Take The Blue-Tail Fly (1948).




TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — CARR E OS MISTÉRIOS DE QUARTO FECHADO
Por M. Constantino
O essencial da “narrativa-problema”, dita clássica ou “novela de enigma” constrói-se sob a falsa aparência onde tudo se conjuga para enganar os olhos e induzir a razão em erro. E só no momento último a realidade retoma os seus direitos e revela a face escondida das coisas, ainda que valha a verdade, o critério narrativo máximo nada se escondia do leitor que era implicitamente desafiado a competir com a inteligência da própria narração. John Dickson Carr, em nome próprio ou sob os pseudónimos Carter Dickson e Roger Fairbairn (diz-se para aliviar a prolífica produção), conferiu-lhe uma nova dimensão caracterizada no tema fascinante do “crime em sala fechada” — entre nós “crime em quarto fechado” — o que, sem contestação possível, é a situação mais alta para pôr em prática e explorar um enredo baseado, fundamentalmente, em raro engenho.
Na sua primeira narração, It Walks By Night (1930) propõe-nos este cenário:

O assassino não está escondido. Não há possibilidade alguma de paredes falsas, do tecto ao solo. Não havia entradas secretas. O assassino não se encontrava em nenhum lugar do quarto, não havia escapado pela janela, não havia saído pela porta e, sem dúvida havia decapitado a sua vítima dentro daquele mesmo quarto. Sabíamos de ciência certa que o morto não se havia suicidado.

Este é o problema que se depara ao detective amador Henri Bencolin, primeiro personagem criado por Carr — um juiz francês, alto e delgado, musculoso, barba e bigode onde espreita um cachimbo fumegante. Mas perguntará o leitor: porquê um crime em quarto fechado, que só pode ser para o seu praticante, de alto risco? Que razões levam um assassino a tentar inventar um plano tão complexo? Um outro personagem de Carr, o Doutor Gideon Fell — retratado fisicamente como uma cópia de G. K. Chesterton, um homem forte, muito forte, de óculos presos por uma cinta negra encavalitados num proeminente nariz, rosto corado e com bigode de bandido antigo, grossa papada, desalinhado no vestir, amparado num bastão-muleta, imaginou três explicações possíveis:
  1. Não estava nas intenções do culpado colocar à polícia um enigma insolúvel, apenas as circunstâncias do decorrer da acção criaram o enigma acidentalmente;
  2. O plano do assassino consistia em fazer crer uma tese de suicídio;
  3. O assassino quis que se acreditasse na intervenção de elementos sobrenaturais.

Agora perguntamos nós, essas razões interessam?
É que a estrutura da narrativa é apenas técnica, na época em evidência não havia lugar para a dimensão humana, os autores relegavam para segundo plano qualquer vislumbrem de paixão, amor ou ódio, virtudes ou vinganças. Hã que explorar a temática pelo fascínio que em si representa o “crime impossível ou em quarto fechado”. Não nasceu o conto ou novela policiária sob o signo do “crime em quarto fechado” ainda que sem assassino humano no Assassinato da Rua Morgue?
Sabemos que a técnica se põe em três momentos:
  1. O Crime foi cometido antes de o quarto ser fechado;
  2. O Crime foi cometido enquanto o quarto era fechado;
  3. O Crime foi cometido depois de o quarto ser fechado.

O Doutor Fell já referenciado, oferece-nos em The Three Coffins uma interessante prelecção sobre os métodos possíveis de assassinato em “quarto fechado” e as suas possíveis soluções segundo sete classificações diferentes e algumas sub-divisões. Nas suas dezenas de livros, Carr / Dickson recorre com surpreendente facilidade a “improváveis possibilidades” que o leitor considera impossíveis para acabar por se render à explicação, já que a ilusão do prestidigitador é maravilhosamente inteligente.
Um outro personagem volumoso, Sir Henry Merrivale, também identificado por H.M., destacado por alguns críticos como cópia da figura do histórico Winston Churchill, é um nobre baronete mais antigo da Inglaterra, que além de gordo e calvo, pontifica a sua actuação por um rosário de imprecações e palavreado grosseiro, com uma inteligência e lógica de raciocínio que usa para resolver os mais difíceis casos criminosos, quer de crimes impossíveis em quarto fechado, quer de outra espécie.


TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — BARDIN E O FACTOR PSICOLÓGICO
Por M. Constantino
Quando nos anos 30 do anterior século, a narrativa criminal tentou afastar-se da então dominante novela clássica ou de enigma, tal como foi fundada por Poe, iniciou-se uma progressiva trajectória com tendências que observavam os elementos psicológicos sob distintivas prespectivas. Foi o escritor Anthony Berkeley Cox (Clicar) debaixo do pseudónimo de Frances Iles — que se tornou famoso em Malice Aforethought (1931) / Malícia Premeditada — o primeiro a explorar as sensações que o assassino e a vítima podem experimentar em situações reais ou imaginárias, angústias, tensões vividas. Mais tarde, em Before The Fact (1932) / Suspeita, igualmente uma profunda investigação psicológica. O factor psicológico do crime revelou-se desde então como uma nova possibilidade da narrativa policiária ou criminal que alguns escritores acolheram favoravelmente e utilizaram o sub-género em referência.
John Franklin Bardin, nos anos quarenta acercou-se também à tendência psicológica do género criminal. E fê-lo de um modo totalmente original porque as suas obras (3 apenas) transcendiam, por vezes, o mundo da realidade autêntica e objectiva, para fixá-la como uma realidade subjectiva e imaginada, criando deste modo situações de angústia indiscritível.
No seu tempo Bardin foi incompreendido pelo público que, por tal, não chegou a captar o interesse da fantasia psi qcológica da sua obra, não obteve êxito e foi esquecido.
Ante o fracasso, Bardin deixou de escrever sob o seu nome, tão só sob os pseudónimos de Gregory Tree e Douglas Ashe continuou na literatura policiária, sendo o criador dos detectives Bill Bradley e Noel Mayberry.
Coube a Julian Symons (Clicar), escritor, investigador e historiador redescobrir Bardin e sustentar os esforços na republicação daquelas três obras em 1976: The Deadly Percheron, The Last of Philip Banter e Devil Take the Blue-Tail Fly que finalmente o consagram como um importante escritor.

John Dickson Carr
John Franklin Bardin






















TEMA — CONTO POLICIÁRIO DE BEN WILSON — À PROVA DE BALA
O sol estava no zénite, de maneira que Michael Wren não encontrou uma sombra sequer em qualquer dos dois lados de Mechanic Street. Lançava olhares invejosos aos transeuntes que encontrava em mangas de camisa e chegou mesmo a desabotoar casaco, mas pensando melhor, desistiu.
Foi ao dobrar da esquina, entrando em Cartland Street que notou, pela primeira vez, o homen que o seguia.
Michael acelerou o passo pela travessa que leva a Michigan Avenue, e olhando rapidamente para trás, constatou que o homem também entrara na travessa.
Michael entrou numa loja de “nada além de 10 cêntimos”, atravessou-a de extremo a extremo e saiu em Michigan Avenue.
Mas não conseguiu despistar o homem, pois quando saiu do outro lado o sujeito continuava atrás dele.
Sem se deter, Michael entregou um níquel ao jornaleiro e tirou a última edição do “Citizen-Patriot”. Era uma edição extra que, em grande manchete, anunciava tudo quanto Michael queria saber: “UM ASSASSINO FOGE DA PRISÃO”.
Havia um retrato do prisioneiro que fugira. Michael não precisava de examinar com muita atenção para saber que o original daquele retrato estava no meio da multidão, atrás dele.
— Granvy! — exclamou Michael.
Atravessou a rua quase correndo, sem esperar que o sinal abrisse para os peões, e entrou como uma flecha na porta giratória do hotel.
O quadro que, na portaria anunciava as actividades sociais da semana dizia: “Hoje Almoço do Executive Club —Orador convidado, Detetive Michael  Wren”.
Michael passou pelos elevadores e subiu a larga escadaria, de três em três degraus.
— Bonito — murmurou — Eu sem revólver, e sem tempo para arranjar um!
No segundo piso, atravessou um vestíbulo e abriu uma porta. O murmúrio da conversação de quarenta ou cinquenta homens podia ser ouvido entre o barulho dos talheres Michael fechou a porta de novo.
— Não devo expô-los àquele louco — pensou — É melhor ficar aqui fora.
Atirou o jornal para uma cadeira e, quando o jornal caiu aberto, uma frase sobre a fuga do criminoso ficou sob seus olhos: “Foi o trabalho do hábil detective Michael Wren que permitiu a condenação de Granvy em Outubro de 1936” E Michael ouviu de novo a voz rude de Granvy no tribunal:
— Hei de apanhá-lo, Wren. Hei de apanhá-lo, verá.

O silenciador da pistola automático 38 nas mãosl de Granvy dava à arma um aspecto estranho, surrealista. Michael afastou os olhos da ameaça da arma, e fitou o rosto comprido de Granvy.
— Sim! Olhe bem para mim! — exclamou Granvy. — Eu, com esta cara de barriga de peixe, e você, com toda essa saúde, estamos frente a frente. E quem vai sair a perder é você.
Michael viu o movimento quase imperceptível da arma.
— Chegou — pensou Michael — Meu Deus, que não seja na cabeça!
— Toma chui — gritou Granvy, com o rosto lívido.
Saíram seis “tiques” da arma silenciosa, seis tiros, que atiraram o detective de encontro à parede.
Um homem enfiou a cabeça pela porta da sala de jantar.
— Ah! O senhor está aí, Mr. Wren? — disse — Já estamos prontos.
Voltou para a saia, deixando a porta aberta.
Michael afastou-se da parede e meteu a mão no bolso. Em poucos momentos Granvy estava algemado.
O assassino olhava, bestificado, para as algemas e para a pistola que Michael arrancara das suas mãos.
A voz nasalada de um homem no salão do almoço anunciou:
— E, agora, tenho o prazer de apresentar o grande detective Michael Wren. Veremos Harry James fazer fogo contra ele. Mr. Wren vai-nos apresentar uma demonstração de um colete à prova de bala, da sua invenção.