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26 de setembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 270

Efemérides 26 de Setembro
Minette Walters (1949)
Nasce em Bishop’s Stortford, Inglaterra. É considerada a rainha do thriller psicológico, publica o seu primeiro livro, The Ice House, em 1992. Tem 13 livros publicados e um novo romance, Innocent Victims agendado para Fevereiro de 2013.Em Portugal estão editados:
1 – A Casa Do Gelo (1992), Nº555 Colecção Vampiro, Livros do Brasil Título Original: The Ice House (1991). Premiado em 1992 com John Creasy Award para First Novel atribuído por Crime Writer’s Association.
2 – A Escultora (1995), Nº69 Colecção Vida e Aventura, Livros do Brasil Título Original: The Sculptress (1993). Premiado em 1994 com o Edgar Award-Best Novel atribuído por Mystery Writers of America e com o Macavity Award atribuído por Mystery Readers Internacional e em 1996 ganha o 1º lugar no Kono Mystery ga Sugoi!, que distingue os 10 melhores livros policiários estrangeiros publicados no Japão. O livro é reeditado pela Relógio D’ Água em 2009 na Colecção Crime Imperfeito.
3 – A Máscara De Desonra (1998), Nº2 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Scold’s Bridle (1994). Premiado em 1994 com Gold Dagger Award atribuído por Crime Writer’s Association.
4 – A Câmara Escura (1999), Nº7 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Dark Room (1995). Nomeado para Gold Dagger Award.
5 – Ecos Na Sombra (1999), Nº13 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Echo (1997).
6 – O Violador (2000), Nº21 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Breaker (1998).
7 – A Sombra Da Serpente (2003), Nº50 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Shape Of Snakes (2000). Galardoado em 2000 com o prémio dinamarquês Pelle Rosenkrantz e em 2010 nomeado no Japão para o Honkaku Mystery Grand Prize.
8 – A Caso Da Criança Desaparecida (2003), Nº55 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: Acid Row (2001). Nomeado para Gold Dagger Award.
9 – O Caçador De Raposas (2004), Nº86 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: Fox Evil (2002). Premiado em 2003 com Gold Dagger Award.
10 – Sob Suspeita (2006), Nº90 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: The Tinder Box (1999).
11 – Fantasmas Do Passado (2009), Nº104 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença Título Original: Desordered Minds (2003).
12 – A Pena Do Diabo (2009), Colecção Crime Imperfeito, Editora Relógio. Título Original: The Devil’Feather (2005).



TEMA — ESTUDOS DE ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — ENIGMAS TÉCNICO CIENTÍFICOS
M Constantino
Não deixaremos de abordar o problema dos venenos e drogas
A morte violenta provocada por substâncias tóxicas absorvidas pelo organismo é frequente, tanto no homicídio, como no suicídio, menos raro no acidente.
No crime, tal como no suicídio, o meio mais usado é a absorção do tóxico por ingestão oral, só em raros casos se usa a injecção.
A dose tóxica ministrada quase sempre excede o mínimo capaz de provocar a morte (dose mortal, que não é igual para todos os organismos) e esse é o primeiro indício de intencionalidade do acto que se quis. Pode, porém, o envenenador procurar disfarçar o seu acto com doença ou morte natural da vítima, ministrando pequenas doses até atingir o fim pré-estabelecido.
Impõe-se ao investigador, recolher para exame pericial, todos os restos de vómitos, defecções, bebidas, louças, talheres, etc.
Duma forma geral podemos dividir os tóxicos em minerais, ácidos e corrosivos, alcalóides e vegetais.
Nos primeiros contam-se o arsénio, o fósforo, o mercúrio, o cobre o chumbo, o bário, o antimónio, etc; nos segundos, os ácidos cianídrico, clorídrico, fénico, nítrico, oxálico, sulfúrico, o amoníaco, o cianeto de potássio, etc.
Sintomatologia de alguns venenos:
ARSÉNIO — utilização via bocal, algumas vezes injectável, raras por via rectal ou até vaginal (óvulos arsenicais). A via respiratória já tem sido detectada em casos de envenenamento profissionais (vapores produzidos em certas operações industriais).
Dificuldade na sintomatologia face às variedades referenciadas, contém-se, porém, no seu quadro, vómitos persistentes, diarreia, tenesmo, relaxante dos esfíncteres, algidez, cianose, colapso. Dose fatal, dependendo da sua pureza, de 0,15 a 0,20 gramas.
FÓSFORO — mortal na dose de 0,15 gramas e acima de 0,50.
Só o chamado fósforo branco tem essa propriedade, nem sempre possível de encontrar em condições de aplicação.
Utilização via bocal, salvo os casos de envenenamento profissional por via respiratória.
Delírio, convulsões, estupor e estado comatoso, terminando quase sempre, por colapso cardíaco.
CHUMBO — quase sempre nos seus diferentes compostos. É actuante a longo prazo. A utilização de alguns compostos, em doses diárias de 1 ou 2 miligramas pode provocar a morte em poucas semanas Muito dependente, tal como o arsénio, do grau de sensibilidade do indivíduo.
Dores gástricas com sensação de queimadura, náuseas e vómitos, intensa contracção da garganta.
Cianídrico (ácido), conhecido por ácido prússico é, na realidade, o nitrilo fórmico. O mais vulgarizado, por virtude de fins industriais é o cianeto de potássio.
Cheiro a amêndoas amargas; mistura-se na água ou álcool.
Desta mesma família de ácidos corrosivos, citam-se os ácidos sulfúrico, nítrico, clorídrico, hidróxido de sódio, etc.
Doses mortíferas entre 5 e 10 cc. (0,15 a 0,20 gr).
Fortes ardores na garganta, boca e estômago, vómitos sanguinolentos, dificuldade de deglutir, palidez e choque (Choque) nos casos em que a morte não é instantânea.

ENIGMA PRÁTICO — MORTE DE UM TIRANO
Segue-se um enigma exemplificativo para o qual pedimos a atenção. A solução será posteriormente publicada
M. Constantino

Era uma vez um rei.
Rei glutão.
Rei brutal, egoísta, jamais se dignara olhar o povo esfarrapado e faminto, sacrificado… a não ser no necessário à satisfação dos seus reais apetites!
Naquele dia…
Naquele dia, Primavera na natura, Inverno impotente nos corações, o rei fazia anos. Afadigavam-se mais uma vez os bons súbditos, vindos dos mais longínquos cantos dos vastos domínios, a ofertar-lhe os mais requintados acepipes. Carnes, vegetais superiormente cozinhados, frutas…
O rei olhava desdenhosamente, servia-se voraz do que lhe agradava, afastando com o pé, ou com o forte bastão, brutal e superfluamente, o submisso ofertante. Todos os alimentos eram, porém, antecipadamente sujeitos a rigorosa prova contraveneno, pelos cães, pelos escravos, e até pelos coelhos que lhe serviam de cobaias, porque o rei em ninguém confiava. Não raras vezes um ser humano acabava na ponta de uma corda ou sob o azorrague do carrasco.
Mais um escravo ajoelhou, submisso, mostrando apetitosa salada de alface.
Os olhos do monarca luziram de gula. Pontapeou o ofertante, deu a provar a um coelhinho branco que conservava ao colo, e só se banqueteou depois de eliminada qualquer suspeita de envenenamento.
Contudo… o coelhinho branco alegre e saltitante, viveu; o rei, chamados à pressa os magos da ciência daqueles tempos de antanho, só puderam verificar o seu estado alarmante, que se resumia em diminuição da acuidade visual, pela midríase, secura da boca (dificuldade de deglutição), rigidez dos membros, o delírio, a coma, e por fim… era uma vez um rei… fora uma vez um rei…
Vieram os medicamentos, os feiticeiros, os magos mais magos, mas o rei... continuava morto.
E, como sempre acontece… rei morto não dá pontapé… não reclama…
Reuniu o conselho dos “velhos”, troaram pelas praças, pelos vales e montes os rufares dos tambores e a voz dos arautos, procurando um rei, um novo rei. Uma condição: responder à pergunta que andava nos lábios de toda a gente e que, parecia ninguém poderia responder.
- COMO FORA ENVENENADO O TIRANO?
Da serra, onde vivia com o seu rebanho, desceu o jovem pastor. Prometera à sua amada um reino, um reino de sonho…
Traz, na sacola, o magro pão dos pobres, no olhar uma promessa de bondade, no coração uma vontade indómita.
Deus é grande!
Diante do conselho reunido, ouviu, raciocinou e RESPONDEU! …
Hoje, o povo desse reino sonha realmente, Vive feliz e adora o rei. O rei pastor e a sua pastorinha. Na bandeira que se avista de léguas em redor, pode ver-se um gentil coelhinho branco sobre um feixe de mandrágoras do monte, de grandes folhas verde-escuras. Bandeira que jamais se desfraldará para a guerra, símbolo de um reino, realmente, de sonho.
À lareira, nas longas noites de inverno, após a história ser contada e recontada, ainda se ouve a obrigatória pergunta:
‑ COMO FOI MORTO O REI, APESAR DA SUA PRECAUÇÃO?

4 de agosto de 2012

CALEIDOSCÓPIO 217

Efemérides 4 de Agosto
Dennis Lehane (1965)
Nasce em Dorchester Massachusetts. EUA. Trabalha como empregado de mesa e motorista de limusinas, em livrarias e como conselheiro de crianças deficiência mental, antes de se dedicar em exclusivo à escrita. É o autor de diversos bestsellers. O seu primeiro livro A Drink Before The War (1994) inicia a série Patrick Kenzie e Angela Gennaro — já com 5 títulos publicados— e ganha o Shamus Award, prémio atribuído anualmente pela Private Eye Writers of America, na categoria de Best First Novel. O livro Gone, Baby, Gone, é adaptado ao cinema em 1997 por Ben Affleck; Mystic River, um romance de 2001 ganha o Anthony Award e o Barry Award — prémio literário atribuído por editores de ficção policiária, recebe ainda o Massachusetts Book Award in Fiction e o francês Prix Mystère de la Critique. Mystic River foi adaptado ao cinema sob a direcção de Clint Eastwood. O escritor tem 10 livros publicados, sendo um de contos, tem o lançamento do próximo livro, Live By Night, agendado para Outubro e tem escrito vários argumentos para televisão.
1 – Um Copo Antes Da Guerra (2002), Nº 5 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: A Drink Before (1994). É o 1º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
2 – A Caminho Das Trevas (2003), Nº 13 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Darkness Take My Hand (1996). É o 2º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
3 – Mystic River (2003), Nº 22 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Mystic River (2001).
4 – Shutter Island (2003), Nº32 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Shutter Island (2003).
5 – Gone, Baby Gone (2007), Nº52 Colecção Nocturnoss, Editora Gótica. Título Original: Gone, Baby Gone (1998). É o 4º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
6 – Prenúncio De Chuva (2008), Nº58 Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: Prayers For Rain (1999). É o 5º livro da série Patrick Kenzie e Angela Gennaro.
1 – Terra Dos Sonhos (2008), Colecção Nocturnos, Editora Gótica. Título Original: The Given Day (2008).
TEMA — ALGO SOBRENATURAL — A CRENÇA DA EXISTÊNCIA DO DIABO
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 211 (clicar)
A crença da existência de um poder a quem se atribuem a autoria (responsabilidade) dos males dos homens e dos animais, de calamidades mil na própria natureza, tem raízes na realidade do homem. Mas um poder inidentificável.
Nas civilizações primitivas não existia apenas um responsável, mas espíritos, génios ou deuses vários, especializados nos diversos géneros de malefícios — não existia o personagem DIABO.
As mitologias conhecidas seguem este padrão. São deuses, são monstros bons ou maus, ou simultaneamente ambos segundo os factos e os momentos, cujos domínios se estendem ao mar, aos abismos, à terra, aos céus, à luz às trevas, aos homens, aos animais; porém, sempre e estranhamente de comportamento humano.
Necessidade de distinguir o Bem do Mal, atribui-se-lha (ao Diabo) origem Judaico-cristã, se bem que os antigos hebreus partilhassem com outros povos semitas as crenças primitivas já expostas da existência de uma multidão de demónios, de cruéis espíritos malignos ou génios errantes dos desertos e oásis da Terra. Também eles, antes da chegada do seu Cristo, que renovaria toda a tradição religiosa, conheciam a religião persa, já dualista, mesmo antes da chegada do profeta Zoroastro. Na dualidade Persa existia o Bem e o Mal. Para Zoroastro, desde o princípio das “Coisas” existiam dois espíritos, por vezes chamados “primários”, um Bom e o outro Mau. Dois espíritos que por uma especial impenetração mútua acabam por produzir o Bom e o Mal, a Vida e a Morte, o Céu e o Inferno. O espírito ou princípio do Bem, definido como “o melhor estado mental possível”, chama-me AHURA; o princípio ou o espírito do Mal, conceituado como “a pior vida possível”, intitulava-se AHRIMAN ou ANGRA MAINYU.
Numa das obras da antiguidade persa, o “Yasma”, pode ler-se:
“O ESPÍRITO BOM FALOU AO MAU E DISSE-LHE: NÃO TEMOS EM COMUM NEM OS PENSAMENTOS NEM OS MANDAMENTOS, NEM AS CONCEPÇÕES, NEM AS CRENÇAS, NEM OS ACTOS, NEM AS CONSCIÊNCIAS, NEM AS ALMAS.”
Esta mesma percepção de separação absoluta está na essência da religião judaico-cristã cujo princípio do Bem assimila a Deus e o oposto ao Demónio.
Na versão bíblica da criação do mundo, a Génese, debate-se o problema do Bem e do Mal e, pela primeira vez, segundo os teólogos, se pode identificar o DIABO sobre a aparência da serpente que persuade Eva a entregar a maçã a Adão.
Num livro famoso da literatura apocalíptica “Adão e Eva”, cujo conteúdo só se conhece por referências, conta-se que o demónio fez primeira mulher para dela obter o consentimento de tornar-se o instrumento do pecado.
Eva perguntara-lhe porque perseguia Adão com tanto afinco sem que este lhe tivesse alguma vez ocasionado mal, ao que o demo respondera que teria, por culpa de Adão, perdido a magnificência de que dispunha no Céu, porquanto, tendo Deus, criado o homem a sua imagem e lhe vida, o arcanjo São Miguel ordenara a todos os anjos que adorassem a nova criatura, dando ele próprio, São Miguel o exemplo.
Mas a lenda encontra duas teses distintas da rebelião do Senhor das Trevas, a primeira das quais se fundamenta nesta exposta conversa, no ciúme ante o desvelo, afecto e destino prometido por Deus à nova criatura, inferior sem dúvida mas provida da interessante dualidade: corpo e alma.
A segunda atribui ao então Lúcifer — Príncipe dos Anjos, o mais belo e inteligente entre os anjos que rodeiam o Criador, um desmedido orgulho e soberba que, Este, desgostado ordena a sua expulsão do Céu, missão cumprida, como no primeiro caso pelo Anjo São Miguel
Nos primeiros livros do Antigo Testamento só por indução ao pode atribuir qualquer utilização do nome do personagem em causa. Na primeira vez que aparece textualmente lê-se:
“SATAN ERGUEU-SE CONTRA ISRAEL E INCITOU DAVID A FAZER O CENSO DE ISRAEL” (Crónicas I-21-1)

Mais ou menos contemporâneo das “Crónicas” outro livro refere igualmente o questionado:
“O SACERDOTE JOSUÉ, DE PÉ DIANTE DO ANJO YOUÉ, ENQUANTO SATAN ESTAVA À DIREITA PARA ACUSÁ-LO. O ANJO DISSE A SATAN: — QUE YOUÉ TE REPRIMA SATAN.”

Em Apocalipse (12.7), descreve-se a sua derrota:
“ENTÃO HOUVE A BATALHA DO CÉU: MIGUEL E OS SEUS ANJOS COMBATERAM O DRAGÃO. O DRAGÃO LUTOU JUNTO COM OS SEUS ANJOS, PORÉM, NÃO CONSEGUIRAM A VITÓRIA E DEIXOU DE HAVER PARA ELES LUGAR NO CÉU.
O GRANDE DRAGÃO, A ANTIGA SERPENTE, QUE POR VEZES TOMA OS NOMES DE DIABO E SATANÁS, O SEDUTOR DO UNIVERSO FOI PRECIPITADO PARA A TERRA E COM ELE OS SEUS ANJOS.”

Mas a presença de citações bíblicas, directas ou indirectas, nada resolvem, nada elucidam validamente.
Enigma.
Enigma sim, que se afigura de colocar no seu verdadeiro contexto: O teológico.
Para as religiões não cristãs a realidade demoníaca á contestável e discutível; para a cristã a existência do diabo é uma existência dogmática com enquadramento no Velho o Novo Testamento. Assim, não causa espanto o seu apogeu nos primeiros séculos do cristianismo em que o perfil do diabo fica delineado, em contraste com a lacuna e enorme deserto encontrado até à Idade Média, período em que é mais temido, recebe as mais a poderosas honras, glorificado por tradicionais e disciplinadas hostes de seguidores e combatido ferreamente por outras.
Em realidade, até ao século X a força do catolicismo não tinha necessidade de espantalho satânico para se impor, desmoronando num impulso crescente as diversas religiões pagãs. As relações entre Deus, Satanás os homens era aceite com certa complacência pela Igreja tradicional. Com a Idade Média, a miséria, ignorância e insegurança então reinante, perdida a fé em Deus, o culto do Demónio desenvolveu-se extraordinariamente. O Diabo já não aterroriza então, antes é um cúmplice nos processos de prazer fácil, da riqueza e agressividade.
Antes mesmo e principalmente a partir do Século XII os Papas reagiram a propagação do satanismo em todas as suas formas, e as fogueiras da Inquisição ardem em toda a Europa. Sob a sua alçada caem hereges, cristãos inocentes, adoradores ou não do demónio. A história noticia que, embora haja documentos justificativos de linchamentos e execuções na fogueira a partir de 1163 (ex: Colónia- Alemanha) como casos exporádicos, o passo decisivo para a grande fogueira deu-o Gregório IX.
Primeiro a tortura e a fogueira para os hereges, depois a perseguição e morte das bruxas, astrólogos e alquimistas, com verdade ou não, por simples denúncia e sem possibilidades de defesa.
São séculos de loucura que só viria a afrouxar a partir do século XVII, mas mesmo até ao século XVIII o espírito mau só podia ser invocado em cavernas solitárias e ocultas.
É impossível apontar o número de pessoas mortas no período inquisicional, os historiadores renunciaram a estabelecer uma estatística, mesmo aproximada dês execuções pela fogueira até ao século XVII referido.
O número de pelo menos um milhão, nada tem de fantasia, afirma Bernard Michel,

Que tem o diabo com tudo isto?
Tudo e nada.
Mais do que o interesse do diabo em afirmar-se, releva a utilização que dele fez a Inquisição para readquirir a força religiosa.
A renascença, o grande choque da Reforma, as descobertas geográficas e científicas não apagam instantaneamente o obscurantismo predominante, mas o tempo e as ideias desenvolvem-se e o diabo poderá recuperar de algum modo os pergaminhos meio destruídos mas não perdidos. Atingirá mesmo a “alta-roda” reabilitando introduzindo a Franco-Maçonaria ao longo do século XIX, que dele fará o “Grande Arquitecto do Mundo”, e assim continuará no século XX.
Contemporaneamente abundam diabos e diabas de todas as facetas; a própria problemática da existência da humanidade está nas mãos mais ou menos limpas, na consciência mais ou menos bem intencionada, de um diabo qualquer… um obscuro candidato a Satanás!
E isto já não é sonho, nem alucinação
(continua)



TESTE DE RACIOCÍNIO — UMA AVENTURA DO LOURENÇO
O Lourenço precisava de ir à livraria buscar um livro encomendado. Meteu-se no automóvel, passou pela rua de sentido único onde a livraria se situava e onde era proibido andar de patins ou de bicicleta. Só encontrou lugar para estacionar mesmo no extremo da rua. Saiu do carro e foi à livraria. Voltou ao automóvel e guiou até casa.
Desde a livraria ao local onde estacionara o automóvel existiam três Bancos, todavia Lourenço não passou a pé por qualquer deles nem na ida nem na vinda…
A livraria e lugar onde estacionara ficavam em extremos opostos da mesma rua, no entanto ele não saiu dessa rua. Estranho. Então como foi possível não passar pelos Bancos?
Exercício para as suas “células cinzentas”. Pense um pouco que não é difícil.

25 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 207

Efemérides 25 de Julho
Josephine Tey (1896 – 1952)
Elizabeth Mackintosh nasce em Inverness, Highland, Escócia. Escreve peças de teatro e temas históricos sob o pseudónimo Gordon Daviot, mas usa Josephine Tey para os seus romances policiários. Trabalha como professora de Educação Física durante os anos 20; em 1926 regressa a Inverness para cuidar do pai e é nessa altura que se inicia a carreira de escritora. Publica The Man In The Queue, em 1929, onde apresenta o Inspector Alan Grant da Scotland Yard. O sucesso alcançado pelo livro a escritora dedica-se exclusivamente à escrita, convertendo-se numa das escritoras mais conhecidas e mais apreciadas da narrativa policiária. Em 1990 a britânica Crime Writers Association elege o romance The Daughter of Time (1951) de Josephine Tey como o melhor romance de mistério de sempre, e o livro The Franchise Affair (1948) aparece em 11º lugar nesta lista The Top 100 Crime Novels of All Time. Em 1995 os Mystery Writers of America criam uma lista idêntica onde The Daughter of Time surge em 4º lugar, The Franchise Affair em 81º lugar e Brat Farrar (1949) em 90º. A bibliografia da escritora inclui os seguintes policiários:
Na série Alan Grant
1 - The Man In The Queue (1929), também editado com o título Killer In The Crowd
2 - A Shilling For Candles (1936)
3 - The Franchise Affair (1948)
4 - To Love And Be Wise (1950)
5 - The Daughter of Time (1951)
6 - The Singing Sands (1952), publicação póstuma.
Outros livros
1 - Kif: An Unvarnished History (1929)
2 - The Expensive Halo (1931)
3 - Miss Pym Disposes (1946)
4 - Brat Farrar (1949) também editado com o título Come And Kill Me
5 - The Privateer (1952)
Em Portugal está editado Miss Pym Resolve O Caso (1997), Nº583 Colecção Vampiro, Livros do Brasil.


Kendell Foster Crossen (1910 – 1981)
Nasce em Albany, Ohio, EUA. Escritor popular de policiário e de ficção científica usa muitos pseudónimos ME Chaber, Bennett Barlay, Richard Foster, Christopher Monig e Clay Richards, Kent Richards, Christopher Monig e Ken Crossen. Cria vários personagens que protagonizam os seus livros e contos publicados em revistas da especialidade. A multiplicidade de pseudónimos usados pelo autor torna difícil verificar os registos de edições em Portugal. O autor publica um número não identificado de contos e os seguintes livros policiários:
6 romances com o personagem Jason Jones e Necessary Smith;
21 romances com o personagem Milo March sob o pseudónimo M. E. Chaber;
7 romances sob o pseudónimo Richard Foste, com o personagem Pete Draco e Chin Kwang Kham (Tibetano);
4 romances sob o pseudónimo Christopher Monig, com o personagem Brian Brett;
4 romances com o personagem Grant Kirby, sob o pseudónimo Clay Richards.


TEMA — ESTUDOS DE ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA — UM CRIME: REAL OU FICTÍCIO
Quando se investiga um crime, deve-se levar três coisas em consideração: a causa do crime, os meios de que se serviu o criminoso e a ocasião do crime. A menos que o crime tenha sido cometido por uma pessoa insana, tem de haver um motivo. Sempre que possível, o detective deve descobrir quem, nas circunstâncias dadas, pode ter tido oportunidade e os meios de cometer o crime e quem é a pessoa mais provável de ter tirado proveito do crime.
Se existem vários suspeitos ao mesmo tempo, o detective deve recorrer ao processo de eliminação. O detective, em tal caso, deve agir sem precipitação, mesmo que isso o obrigue a fazer uma investigação minuciosa da vida passada e presente dos suspeitos. Por outro lado, o detective deve sempre levar a sério qualquer pessoa que poderia ter cometido o crime.
O detective deve, também, levar a sério qualquer pista e investigá-la devidamente. Certamente isso exigirá muita paciência, mas não se deve esquecer que tais pistas podem levar ao caminho que se procura.
É aconselhável a leitura das histórias de Sherlock Holmes de Sir Arthur Conan Doyle. Em via de regra, em toda a novela policial é atribuído um papel demasiadamente exagerado aos indícios e objectos ligados ao crime e seu aproveitamento para a solução dos crimes misteriosos, sem, por outro lado, se chamar muito a atenção para o monótono trabalho quotidiano.
Seja como for, pode-se fazer uma ideia da teoria e prática dos indícios e objectos ligados ao crime com a leitura de tais novelas.
Deve ser levado em alta consideração o modus operandi — ou método de acção — do criminoso. Os indivíduos fora da lei, excepto os mais inteligentes — e mesmo esses incidem em certos detalhes individuais — caiem numa rotina e executam as suas tarefas de maneiras determinadas. Um criminoso, por exemplo, usa papel pega-moscas para impedir que um vidro cortado de uma vidraça se estilhace e caia no chão; outro usa trapo para o mesmo fim, enquanto outro tira o vidro inteiro de uma só vez e um outro quebra o vidro, simplesmente, sem qualquer precaução. O criminoso pode usar máscara e luvas ou não usar nem uma das duas; pode agir calçado ou descalço; pode ter o hábito de trancar as portas; usar uma vela ou uma lanterna eléctrica; dar uma busca completa ou incompleta ao aposento; envenenar o cão, ou cortar os fios do telefone; roubar apenas o dinheiro, ou arriscar-se a furtar também as jóias. A sede da organização policial dispõe de arquivos a esse respeito. Alguns cartões de classificação abrangem mais de 1800 aspectos referentes aos métodos de acção dos criminosos.
A maneira pela qual o crime é cometido, pode permitir a obtenção de valiosas informações, no que diz respeito à capacidade e força física do criminoso. Pode revelar se o criminoso conhecia ou não certos aspectos ligados à perpretação do crime ou estava familiarizado com o local do crime, o que permitirá reduzir o número dos suspeitos.
O Sherlock deve ter sempre em mente duas outras coisas. Se descobre estar numa pista errada, não deve ter vergonha de confessar o erro e começar o trabalho de novo. Também não se deve esquecer de que as suas conclusões se devem basear em factos, pois somente os factos são aceites como prova pela justiça.


TEMA — UM CASO PARA PRATICAR — UM CRIME NA ESCURIDÃO
De Luís Filipe Costa (escolhido por Inspector Aranha)

Luís Filipe Costa, conhecido homem da rádio e da TV, tendo-se revelado como escritor policial, iniciou-se na problemística policiária nos anos 50.O problema foi publicado em Outubro de 1953 em “Seja o Detective”, do jornal “O Cartaz”.

O Comissário Luís Stanislas sentou-se à secretária, no seu Gabinete da Scotland Yard, e abriu o dossier que tinha na sua frente. Era o conjunto das investigações feitas pelos seus agentes sobre o caso Ladislau.
Em primeiro lugar examinou o depoimento de Michael Thompson, primo do morto: “Cheguei a casa do pobre Ladislau cerca das 10 horas e fomos jogar xadrez como havíamos combinado de tarde. Passara talvez uma hora quando Frank — o criado — veio perguntar-nos se necessitávamos de alguma coisa, retirando-se imediatamente pois respondemos-lhe que não.
Pouco depois — recordo-me bem porque estávamos numa das mais animadas fases da partida — ouvimos uns ruídos quase inaudíveis, como se alguém tentasse abrir o cofre. Ladislau apanhou um revólver e viemos ver o que acontecia. Era de facto um ladrão.
Porém, ao ver-nos, fugiu pela porta do fundo, que se encontrava aberta. Corremos em sua perseguição e meu primo que ia à frente saiu à rua mas logo se ouviu um tiro e Ladislau caiu varado por uma bala. Nesse momento, apareceu Frank, que vinha do jardim. Não deixei que lhe tocassem e corri a telefonar-lhe”.

Stanislas virou a página e passou a examinar as declarações de Frank:
“Às dez horas chegou o Sr. Michael, precisamente quando eu acabava de arrumar a cozinha. Uma hora depois fui, como aliás sempre o fazia, à biblioteca para saber se desejavam alguma coisa. Que não, foi a resposta, e por isso dirigi-me para o meu quarto. Porém, lembrei-me de que não dera de comer ao cão e desci ao jardim para lhe levar um pouco de carne.
Mal lá chegara quando ouvi o ruído da queda de um corpo, logo seguido de um tiro. Imediatamente corri para cá onde se me deparou o triste espectáculo que o Sr. viu”.

Em seguida apresentava-se uma fotografia que mostrava o cadáver in locus mortis.
O morto caíra de costas com as pernas no jardim e o tronco na soleira da porta. O revólver caíra perto.
Mais umas notas sem importância e um memorando em que o agente o informava de que se encontrava completamente em branco, e o dossier fechava-se sobre o caso.
O Comissário Stanislas sorriu, indulgente, e pensou na cara com que ficaria o agente, quando lhe dissesse que já descobrira o criminoso.

Pergunta-se:
1 - Quem foi o assassino?
2 - Quais os pontos base para a descoberta do assassino?


Não queremos dar-lhe a solução sem dar o prazer de solucionar o enigma. Em breve será publicada a solução.




15 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 197

EFEMÉRIDES – Dia 15 de Julho
Hammond Innes (1913 – 1998)
Ralph Hammond Innes nasce em Horsham, Sussex, Inglaterra. Autor de livros infantis, de viagens, escreve igualmente 28 romances de mistério / detective. Hammond Innes é apaixonado pelo mar, também um velejador experiente e isso reflecte-se nos seus romances. Os protagonistas têm muitas vezes um perfil de anti-herói e são colocados num ambiente hostil — alto mar, ártico ou deserto — e em situações extremas. Várias obras do autor estão adaptadas ao cinema. Em Portugal é possível encontrar registo do romance:
1 - O Esquiador Solitário (1996), 18ºVolume Colecção Livros Condensados, Selecções do Reader’s Digest. Título Original:The Lonely Skier (1947); também editado com o título Fire In The Snow. O livro é reeditado em 1991, pelo Círculo de Leritores

TEMA — DIA A DIA DO CRIME — O RAPAZ DE VILA CHÃ
Por M. Constantino
Na minha segunda passagem profissional por Santarém, então já Chefe de Repartição, conheci um jovem advogado, bastante talentoso, mas inexperiente dada a recente formação. Costumava consultar-me com certa frequência sobre questões de impostos e descobrindo com perplexidade a minha inclinação e conhecimentos de direito civil, trazia-me montes de problemas do dia a dia que desejava confirmar. Tornamo-nos amigos. Considerava-o um individuo sério, empenhado no que fazia, mas um idealista puro.
Excluía casos já vistos por colegas, só defendia causas em que o seu cliente fosse inocente. Nestas circunstâncias, aceitou defender um rapaz, Custódio de Vila Chã, mas residente nos arredores de Santarém, acusado de ter batido numa sua ex-namorada que, não só o deixara, como se pavoneava à sua frente com outros rapazes. Certo da verdadeira inocência do seu cliente foi para tribunal disposto a defendê–lo com toda a convicção. Apoiando-se na facilidade de exposição, de que era farto, com toda a certeza de que fazia justiça, ultrapassou-se a si próprio em argumentações, conseguindo a absolvição do Custódio.
Voltou ao escritório com o rapaz “à trela”, pulando de contente. Pegou no processo, apurou a conta e apresentou-a ao rapaz. Este prontamente puxou da carteira e contou as notas juntando mais uma extra:
— Junto uma nota para o jantar, Doutor! Mas olhe que foi uma boa tarei que preguei naquela cabra. E bem merecida!
Sei, pelo que o jovem advogado me contou, que nesse momento perdeu a virgindade e mandou para as urtigas os idealismos que a vida não consente…
De facto, a filosofia do direito e da justiça estuda-se na faculdade, mas só se aprende no dia a dia, arrancando com as próprias mãos as pedras do caminho da vida!


TEMA — CONTO POLICIÁRIO — UM OUTRO SENTIMENTO
De M. Constantino
Torre, de Vilarosa, não era Torre; mostrava-se, até, um homem pequeno, corpo delgado, movimentos suaves. De olhos cinzentos, estranhos, num rosto muito pálido, grisalho prematuramente nas têmporas realçado no contraste do cabelo escuro.
Verdade, verdade, também não era de Vilarosa; mas, quando se apeara do comboio das 12-12, deixando duas grandes malas usadas e incaracterísticas, no depósito da C. P., lançara um olhar apreciador ao largo da estação, limpo e tranquilo, de amoreiras verdinhentas nos passeios, alguém que o vira, profetizou que o homem viera para ficar.
Correcta profecia…
Com efeito, o homem abrira o jornal que trouxera dobrado debaixo do braço, e consultara a página dos anúncios. Dirigira-se ao único carro de aluguer estacionado, trocara duas ou três palavras com o condutor e entrara no veículo. O automóvel arrancara e subira a colina, deixando atrás e abaixo o fumo do gasóleo. Rolara por entre ruas silenciosas, cercadas de olmos e árvores frondosas que escondiam residências de pedra e tijolo, um ou outro edifício mais moderno, e saíra no extremo oposto em direcção ao campo. Cinco quilómetros bem puxados, diminuíra a marcha, tomara por um caminho secundário curvo e de mau piso, detendo-se, por fim, junto à casa grande — a “Quinta da Cobra”.
A moradia que se elevava logo por detrás do portão de ferro, cercada de sebes e amplo muro de pedra e cal, era uma das antigas mansões bem conservadas, ainda que em estado de abandono. Dois andares de tijolo vermelho, agora envelhecido e sujo, portas e janelas que foram brancas, um grande telhado alongado, onde se viam janelas de sótãos e chaminés.
Fim da jornada, despedira o carro com um gesto, passando uma nota ao condutor, mal reparando e não correspondendo aos agradecimentos.
O olhar mostrava-se fixo e determinado.
Enquanto o transporte se afastava, dera dois passos para a entrada principal, estendendo a mão para a coroa de luto suspensa da aldrava, semi-desfeita pelo tempo, atirara-a para o chão, pisando-a sem rebuço. Empurrara a porta, que se abriu com um rangido impressionante de agonia, deixando pendentes teias de aranha destruídas.
Havia triunfo nos olhos cinzentos…
A noite, no Café do Largo, frente à estação, comentava-se que a palidez do homem cheirava a hospital ou prisão. Provavelmente esta última. Verdade, mais uma vez, é que ninguém, mesmo ninguém, tivera a coragem de lho perguntar. Aliás, o próprio nome —Torre — só seria desvendado no dia seguinte, quando o senhor António do tabelião viera beber a quotidiana bica com cheirinho e adiantara que a “Quinta” lhe fora adjudicada. “Três centenas e meia de Donas Marias, contadas na sua frente, novas a estalar ao toque dos dedos.”
Não ficaria saciada, mesmo mitigada de algum modo, a ávida curiosidade dos vilarosenses. De resto, todas as potenciais expectativas, quanto a futuros conhecimentos, haviam de se evolar aos poucos, face à atitude reservada, pouco ou nada colaborante, do novo proprietário. O desejo de saber citadino transformar-se-ia em puro ressentimento, este em malévolo “diz-se diz-se” de interrogações ou de passar por certo. E estava assente: o homem seria um espião aposentado, um ladrão escondido… talvez- um bruxo!

Os acontecimentos precedentes ocorridos na “Quinta da Cobra”, antes “Quinta do Cerro”, teriam, de alguma forma, agudizado o doentio interesse. De facto, algo de insólito ali ocorrera. Na segunda metade dos anos trinta, um casal alemão e sua filha — Anne — uma graciosa menina de seis anos, ali se haviam acoitado fugindo à cegueira envolvente do nazismo em progressão na sua pátria.
A mansão, toda a enorme extensão murada, foram praticamente reedificada. Nunca a quinta tivera tantos cuidados.
Um dia, a despeito da paz imperante, a pequena Anne, descuidada e feliz, tomara o caminho empedrado até ao fim da propriedade e desaparecera como por evaporação. Tudo fora minuciosamente revistado. A busca alargara-se analogamente aos campos circundantes, a perder de vista, sem resultados positivos.
Ao cair da noite, o rapazio que cooperava nas pesquisas havia encontrado uma grande e sonolenta cobra enroscada no tronco dum pessegueiro. Mataram-na à paulada. Sugestão, por certo, ou crendice popular, asseverara-se que o réptil ao exalar o último suspiro soltara um ai agudo, como que um grito de criança!
Herr Fritz, ao ser-lhe contado o episódio, levara a mão ao peito e caíra fulminado por uma síncope. A viúva, ausente nesse dia, após o funeral, rumara para parte incerta. A “Quinta do Cerro”, passara a ser designada por “Quinta da Cobra”; as gentes do povoado evitavam o caminho da propriedade...
Conhecedor ou não da tragédia, Torre não se influenciara. Isolara-se. Aos bons-dias duma ocasional e tímida tentativa de aproximação, respondiam os olhos cinzentos do rosto inteligente com um olhar de gelo bastante para apressar os passos do atrevido; às pedras cegas atiradas de longe sobre o muro, por turbulenta garotice num gesto de arrogância ao medo, era a indiferença.
Na casa definira-se então certa limpeza. A alta erva fora cortada, algumas árvores: podadas; um fio de arame farpado, no alto do muro a toda a volta, demarcava uma fronteira intransponível, definitiva. E, por inexplicável magia, um grande cão, um alsaciano de pelagem parda, robusto, vincada agressividade, de íris de âmbar e olhar profundo, proporcionando uma sensação de nobreza e inteligência, convertera-se em guarda e inseparável companhia do solitário. Uma amizade identidade comuns aproximara-os. Uma palavra do dono — passe o exagero — o cão derrubaria uma árvore.
De longe em longe Torre descia à vila, única e exclusivamente para tomar o comboio da madrugada. Ausente, em média, três a quatro dias, reaparecia transportando uma pasta velha, não raro volumosa.
A coincidência destas ausências com roubos audaciosos noticiados pelos jornais, o mistério daquela pasta recheada nos regressos, motivava comentários: “o ladrão”, “o assaltante”, “o capitão de quadrilha”; “quem o sabe? ” Decididamente o povoléu não lhe perdoava a indiferença; não que se ralasse — o seu olhar denunciava desprezo e zombaria.
Como sempre acontece, o homem põe e Deus dispõe. Se bem que a animosidade e desconfiança dos habitantes de Vilarosa se mantivessem inquebrantáveis, imperturbável o isolamento, este havia de ser quebrado — e de que maneira!
Numa manhã fria, enigmática por inusitada, uma pancada soou na porta principal da vivenda, O cão enriçou o pelo rosnando. Torre acalmou-o. De má vontade abriu a porta. Um homem muito moreno estava na sua frente.
— Tive uma “pane” no carro. Poderia tele… — hesitou, abriu muito os olhos — mas… mas, tu és o Zé Torre!
Os olhos de Torre, o relâmpago de cólera, transformou-se em perplexão.
— Olha, o Pedro Mata! Como me apareces aqui, homem de Deus? Julgava-te por essas Áfricas! Entra, entra!
Entrando, Pedro, deteve-se. O lobo de Alsácia, olhos em fogo, orelhas em riste, mostrava os dentes.
— Quieto “Duro”; deita-te!
O cão deitou-se. O proprietário voltou-se para Pedro:
— Diz-me lá o que é feito de ti, homem! Quando acabaram os nossos “arranjos”, soube que foras para África. Eu continuei. Instalei-me aqui, longe de todos. Saio de vez em quando, compreendes…
— Sim, fui para Angola. Estive na Diamang. Agora sou um retornado. Escapei com a roupa do corpo — riu — e um substancial saquinho de diamantes. Vendi um à chegada. Agora a lei anda atrás de mim. Se tantos fizeram como eu… Bem, ia a caminho da fronteira quando o carro avariou. Empurrei-o para o pinhal lá em baixo, oxalá passe despercebido à guarda republicana.
— Paz, homem, paz! Já vamos ver do automóvel, agora vamos tratar de nós.
Sentaram-se. Seria, porém, o dia das surpresas. Nova pancada na porta, a segunda do dia e a segunda também de há muitos anos, deixou Torre assombrado e Pedro tolhido de medo.
— Espera Zé, não há outra saída? Fui descoberto — tartamudeou o retornado.
— Calma. Deixa ver…
 — Olha Zé, estão aqui os diamantes, se for apanhado não quero que estejam em meu poder.
És meu amigo, esconde-os e não te arrependerás…
Puxou um pequeno saco do bolso interior e entregou-o a Torre.
— Certo. Vai ali para aquele salão — apontou. — Dá para o pátio. Tu fica quieto, “Duro” — acrescentou para o cão.
Repetiu-se a pancada.
— Lá vai, lá vai!
Abriu e deparou-se-lhe um padre. Torre não conseguiu esconder o embaraço. O velho prior, encostado à antiquada bicicleta, sorria-lhe. Conseguira vencer o próprio acobardamento e o isolamento que Torre tecera com tanta diligência.
— Bem… sou o prior da Igreja da Pedreira. Venho pedir-lhe um óbolo para a próxima procissão… espero que me perdoe…
— Mas… bem, entre, padre, Deixe-me só prevenir um amigo. Enquanto o padre transpunha a porta, voltou-se para o salão, elevou a voz:
— Pedro, aguarda!
Ouviu-se uma corrida. Na consciência do ex-empregado da Diamang, o vocábulo soara-lhe uma advertência: — a guarda! A guarda estava na sua peugada!
Torre acorreu, Nos olhos cinzentos surgiu um brilho de espanto, uma centelha que se espalhou à medida que se arregalavam. Bruscamente, estacou, relanceou, por cima do ombro um nomentano olhar ao padre; os olhos reproduziam um outro sentimento. Em voz ligeiramente rouca gritou:
— Pedro! Pedro… Pedro Mata!
Inesperadamente o alsaciano surgiu. De um salto alcançou o fugitivo, derrubando-o. Percebeu-se um estertor.
Quando Zé Torre e o padre se aproximaram. Pedro havia sido atingido na carótida. Estava morto.
O cão obedecera à voz do dono.

NOTA:
Duas palavras consubstanciam o mistério. Á primeira “aguarda” (espera) é transformada pelo subconsciente do homem perseguido, numa terrível ameaça para ele “A guarda”, a guarda republicana. Daí que procure escapar-se.
A segunda palavra-chave, está encerrada num apelo inocente: “Pedro! Pedro… Pedro Mata!” Será que este último termo se transformou em mata, o incitamento para o cão?
Nenhum indício, nenhuma matéria incriminatória pode ali existir para o observador casual.
Apenas um olhar “um outro sentimento”, poderia denunciar um crime perfeito.


TESTE DE RACIOCÍNIO — NINGUÉM VIU
A figura pançuda do Silva, de seu nome completo José Mariola Conde Silva, era bem conhecida num bairro dos arredores da capital, onde residia. Não era mau homem. Em dias de futebol excedia-se, transformava-se. Com uma agradável dose de cerveja a rondar a dúzia de copos, multiplicava-se em discursos fervorosos. Jurava pela pele do corrupto árbitro se o clube do seu coração perdia, implicava com tudo e todos, quer ousassem ripostar, quer apoiar. Em dias de vitória do seu mais que tudo, redobrava a verbalidade, distribuía abraços à cadência de um para cada tês copos e uma ida à casa de banho para aliviar. Queria beijar todo o mundo e, não raro, levava a “sua incompreendida chapada” de uma moçoila mais lesta de mão.
Enfim, era um regalo para o espectador. Dizemos era, porque um dia de ano de um ex-companheiro de trabalho — o Silva já se livrara desse incómodo — dirigiu-se à capital para festejar o dito aniversário. Festança em grande. Bem comido, melhor bebido, lá pelas tantas, depois de levar os amigos às repectivas casas, tarefa só interrompida por mais um para o caminho e grandes aliviamentos. Cumprida aquela “via-sacra” dirigiu-se para a estação aguardando — resmungão — o transporte.
A área àquela hora estava deserta, o que, sendo motivo para desabafos de “dormindo com as galinhas”, convinha num aperto… Acabou morto.
Não fora assassinado, não houve suicídio, não morreu de doença súbita, ninguém viu, mas advinha-se o desenlace. Que terá acontecido? Como morreu?
É o desafio que colocamos ao raciocínio dos leitores.